Irrealidade
1 Único
Notas iniciais
Espero que gostem!
07/09 – Segunda-feira
“Está parecendo um sonho”, era só o que se passava na minha cabeça enquanto eu subia a avenida buscando uma estação de bicicletas. Eu sei, eu sei, tenho uma bicicleta em casa, e só não venho nela por preguiça de acordar cedo. E sim, eu também sei que me pouparia muito trabalho, mas qual é, eu gosto de andar pela avenida, olhando para os cantos. É muito bacana, depois de 6 meses trancada em casa por causa desse vírus maldito, ver gente, ver movimento, me estressar com gente estúpida (essa saudade acabou no primeiro dia). Depois de ter contraído a doença e quase ter... Morrido, sendo bem objetiva, é bom estar de volta no mundo real. Passei a farmácia na esquina da Santos Dummont com certo cuidado, as pessoas estavam cada vez mais ousadas, não respeitavam mais sinal, quem dirá faixa de pedestre, ainda faltavam 6 quarteirões para chegar na estação de bicicletas mais próxima, onde constava no aplicativo que haviam bikes livres. Parei no sinal verde na próxima esquina. Uma moça, com uma jaqueta que parecia saída de um motoclube, estava colocando os equipamentos de segurança para subir na sua moto e, bom, não sei, ir pra casa talvez. Ela colocava as joelheiras e eu fiquei muito curiosa, pois nunca tinha visto alguém ter tanta preocupação com segurança na vida. O sinal ficou vermelho para os carros e eu atravessei a rua, no momento em que ela subiu na moto. Finalmente, depois de amaldiçoar o vírus 35 vezes e parar para respirar mais 10 vezes, cheguei a estação onde havia uma bike, minha prometida, livre. Liberei pelo aplicativo e fui para casa, feliz e nervosa ao mesmo tempo, nunca tinha pedalado por tanto tempo. Na verdade, eu e bicicletas não tínhamos um bom histórico. Mas eu estava confiante, ia dar tudo certo.
08/09 – Terça-feira
A noite anterior tinha sido um sucesso! Certo que demorei uma hora a mais do que constava no Google Maps, mas eu tinha chegado em casa. E viva, vale frisar. O dia de trabalho tinha sido produtivo, estava sendo uma ótima experiência e era uma das primeiras vezes que eu não me sentia uma novata que está aprendendo. Estava na mesma avenida, fazendo o mesmo trajeto, até a estação de bicicleta que, descobri olhando pelo aplicativo, era a mais provável de ter bikes disponíveis. Isso tudo era muito novo pra mim, mas tinha sido uma das minha resoluções depois de sair do hospital: mudar de vida. Mudar meus hábitos sedentários, mudar minha rotina, e não me expor, e expor os outros, ao vírus ao máximo possível. Saiu até no jornal que era uma das formas mais seguras de se locomover era de bicicleta, e eu estava orgulhosa. Parei na mesma esquina do dia anterior, sem prestar muita atenção, estava perdida em pensamentos. Casualmente, olhei para o lado, e a mesma moça com jaqueta de motoclube estava lá, colocando as joelheiras, na mesma posição do dia anterior. “Que coincidência”. Novamente, o sinal fechou para os carros no momento em que ela sentou na moto e girou a chave. Demorei mais alguns segundos do que no dia anterior para continuar, observando a cena. Mas dei de ombros, se ela trabalhava ali e estava saindo naquele horário, não seria incomum ver essa cena. Segui meu rumo à estação, que por um milagre, só tinha uma bike disponível. “Minha sorte finalmente está do meu lado”.
09/09 – Quarta-feira
Não queria admitir, mas estava apreensiva. No trabalho estava tudo ok, apenas algumas correções, mas é normal para quem está pegando o jeito da empresa ainda. Mesmo tentando me distrair e pensar em como aquilo podia ser uma situação corriqueira, a repetição, praticamente igual, da cena da moça me deixou pensativa. Quando passei a avenida e o quarteirão, cheguei na esquina onde tinha visto a motoqueira, e, para meu alívio, só estava a moto. “Viu, sua idiota, é só coincidência”. Ri baixinho e segui meu caminho, já que o sinal estava vermelho para os carros. Logo que passei a rua, um carro grande, preto, do tipo que me faziam medo quando era pequena, dizendo que sequestravam crianças em carros assim, me ultrapassou e dobrou a minha frente, o que me fez rir do pensamento instintivo: e se ele me sequestrar? A placa do carro tinha uma faixa azul, e me perguntei o que o diferenciava dos outros carros, ou se era um novo padrão. Ele entrou em uma rua um pouco escura e o perdi de vista, já que ainda estava no meio do quarteirão. Mais uma vez, havia só uma bike na estação. Comemorei sozinha enquanto compartilhava a localização com meu namorado, para que ele pudesse ver meu trajeto até em casa. Ainda parecia que a sorte estava a meu favor, e eu não ia reclamar disso.
10/09 – Quinta-feira
Ok, estava tudo bem. Tinha uma leve sensação me incomodando, de que algo estava errado, mas era uma sensação corriqueira, que eu mesma nunca soube explicar e muito menos pontuar os motivos. A noite parecia mais escura, as nuvens, mais assustadoras. Um sentimento de ansiedade crescia dentro de mim. Mas assim como outras vezes, eu já havia sentido isso, no final acabava não sendo nada demais. Apenas coisa da minha cabeça. Pelo menos eu repeti várias vezes. Passei pela moto da moça do motoclube, que estava solitária. Atravessei a rua e tentei focar na minha respiração, que ainda estava um pouco comprometida, e a máscara não ajudava. Pelo canto dos olhos, vi um carro. Um carro grande. Um carro preto. Um carro com uma faixa azul na placa. No mesmo quarteirão do dia anterior. Fique estática na calçada, encarando o carro. Gostaria muito de ter uma memória melhor, para saber se a placa era a mesma. O carro seguiu a rua e dobrou a esquina, a mesma esquina. Continuei andando depois do que pareceram horas. O carro não estava mais na rua quando atravessei. Cheguei a estação, onde, mais uma vez, só tinha uma bicicleta esperando por mim. Até que ponto aquilo era sorte ou... Outra coisa?
11/09 – Sexta-feira
Passei a moto e o quarteirão seguintes sem ver nada demais, mas a sensação de aflição me tomava. Por que eu veria as mesmas cenas duplicadas em dias diferentes? Seria uma enorme coincidência? Ou estava ficando louca? Nenhuma das opções parecia fazer sentido. Inspirei fundo algumas vezes tentando me acalmar, ou levar ar suficiente até meus pulmões, que pareciam ardentes. Decidi observar a paisagem, os grandes prédios que me cercavam para tentar me distrair até chegar à estação. Uma coisa me chamou atenção, uma bandeira do Brasil estendida numa sacada. Graças ao momento do país e ao asno que estava na presidência, aquele símbolo, outrora patriótico, me causava repulsa. Notei que havia um senhor encostado na varanda, observando a rua. Bom, pelo menos parecia, a distância não me permitia decifrar para onde ele olhava, mas pude notar sua cabeça se movendo para os lados, como se procurasse algo. Perdi aquele prédio de vista e foquei em outro com um nome curioso. Alemão, senão me engano. Eu gostava daquele prédio porque significava que eu estava chegando na estação. Mais uma vez, só tinha uma bike, na mesma posição de antes. Destravei a bike e montei nela, tentando não pensar demais. Minha mente criativa me pregava peças.
12/09 – Sábado
Okay, eu não estava feliz de estar saindo do trabalho 18h num sábado, mas ossos do ofício, é o que dizem. Emprego novo, só tinha começado há duas semanas, era natural que eu sorrisse e balançasse a cabeça pra tudo. Pelo menos, num sábado, eu me preocupava menos com o fato de ter ou não bicicletas na estação, já que tinha menos movimento. Subia a avenida com dificuldade, afinal, estava cansada, a semana tinha sido exaustiva e eu estava louca pra chegar em casa e me jogar no sofá. Estava cada vez mais difícil fazer aquele percurso, cada caminhada parecia mais pesada, mais sufocante, menos quando eu subia na bicicleta, nesse momento, eu me sentia livre, com pulmões de um atleta olímpico. Passei da moto estacionada na esquina, e me recordei da jaqueta da moça do motoclube. Um desenho peculiar, meio macabro, algo com uma caveira, mas eu não lembrava exatamente como era. Andei mais um pouco, e puxei a máscara do rosto, deixando uma pequena fenda para respirar, estava realmente complicado. Respirei fundo inclinando a cabeça para trás, o que ocasionou por colocar aquela varanda da bandeira do Brasil no meu campo de vista. O senhor da noite anterior estava lá, encostado como antes, ao lado da bandeira. Revirei os olhos, ele devia estar formulando um plano para insultar pessoas decentes, que tinham um pouco de juízo na cabeça para não eleger um candidato fascista. Continuei andando, mas dessa vez senti algo diferente, uma sensação incômoda de que alguém estava me vigiando. Quando olhei para cima, o senhor me acompanhava com a cabeça, como se me encarasse. Eu não podia ver seus olhos, mas os sentia cravado em mim. Essa sensação me angustiou muito, meu instinto natural era fugir, correr. Mas quanto mais ar eu puxava, menos vinha. Consegui, com muito esforço, sair do campo de visão do prédio, e chegar até a estação. Ainda podia sentir o olhar cravado em minhas costas, mas discutia comigo mentalmente alegando ser apenas minha imaginação. Não seria incomum que uma pessoa na varanda olhasse para um pedestre, nem que o seguisse com os olhos, eu mesma fazia muito isso. Montei na bike, mas esqueci de compartilhar minha localização com meu namorado, apenas segui pedalando o mais rápido possível para casa.
15/09 – Terça-feira
Depois de um fim de semana relaxante e uma segunda-feira meio preguiçosa de folga (vantagens de se trabalhar no sábado), eu estava ansiosa para voltar a andar de bicicleta. Era uma sensação nova, libertadora, e eu queria aproveitar aquilo, mesmo que devagar e vendo todos os outros ciclistas me ultrapassando. Foram dias bons, onde esqueci completamente daquelas coincidências bizarras que estavam acontecendo.
(bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip)
Cheguei a esquina da moça com a moto, e ela estava lá, colocando as joelheiras novamente. Sai do trabalho 5 minutos mais cedo para correr para pegar uma bike, então podia ser essa diferença de horário a causa de eu vê-la. Tentei não pensar no fato de ela estar sempre colocando as benditas joelheiras quando eu a via. O sinal verde demorou um pouco a ficar vermelho, o que fez minha impaciência aflorar. Comecei, institivamente, a bater o pé no chão, enquanto observava distraidamente o fluxo de carros. O sinal finalmente fechou, e eu atravessei a rua, mas antes de continuar, olhei para trás, sem saber muito bem o porquê, e me assustei quando vi a moça me olhando fixamente, seus olhos escuros como o céu sobre minha cabeça. Ou eu nunca tinha olhado para seu rosto, ou essa era a primeira vez que ela me encarava.
(bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip)
Continuei andando, olhando de relance para trás, até que seus olhos negros sumiram de vista. Meu coração estava acelerado, e meus pulmões começaram a arder muito. A sensação era parecia com me afogar. Continuei andando, até chegar ao prédio da bandeira do Brasil, o senhor estava novamente na varanda, mas dessa vez, eu podia ver seus olhos, de alguma forma. Escuros como a noite, eles me acompanhavam de maneira a eu sentir mesmo sem olhar para eles. Tentei apressar o passo, mas a sensação de falta de ar crescia. Estava quase caindo no chão, mas mantinha o esforço para sair dali, de seus olhos que pareciam querer me tragar para a escuridão.
(bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip)
Cheguei até a outra esquina e puxei a máscara, tentando desesperadamente respirar. Estava perto da estação, estava perto da liberdade. Quando achei que não fosse conseguir, cheguei a esquina antes da estação, mas dessa vez, ela estava vazia. Havia apenas um carro preto perto. Preto, grande e com uma faixa azul na placa.
(bip, bip, bip, bip)
O ar não chegava mais até os pulmões, tentei correr para o outro lado, mas minhas pernas cederam, me fazendo cair no chão. Me sentia um peixe fora d’água, lutando por sua vida. Minha visão estava turva, mas consegui distinguir a porta do carro se abrindo e figuras saindo de lá, figuras com olhos pretos como a noite. Tentei desesperadamente puxar ar, mas nada passava pelas minhas vias aéreas. Me debati o máximo que pude quando mãos seguraram meus braços e pernas e me elevaram do chão. A falta de ar cobrou seu preço e, rapidamente, fui perdendo a força para me debater, para lutar, para tentar respirar.
(bip)
Senti me colocarem no banco do carro, mas o interior não parecia um carro. Era o mais puro breu. Tentei mais uma vez, a última vez, respirar. Não consegui. Minha visão ia ficando cada vez mais turva. Os pares de olhos pretos me encaravam de perto. Senti meu corpo flutuar, nada mais parecia pesar, o ar já não fazia tanta falta assim. Segundos depois, perdi os sentidos, e mergulhei na escuridão.
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31/08 – Segunda-feira
Uma mulher vestida de branco saiu de dentro do quarto e caminhou até o rapaz de camisa preta que andava de um lado para o outro, nervoso.
—Sinto muito, senhor, mas não conseguimos trazê-la de volta – a voz era carregada de compaixão.
O rapaz parou e encarou a médica. Aquilo parecia um sonho, de tão irreal. “Ela não sobreviveu”.
—Mas... – ele começou, mas não conseguiu continuar.
Seu corpo desabou na cadeira que estava ali para os visitantes. Pegou o celular e encarou a tela como se procurasse algo, mas estava confuso demais para saber o que era.
—Eu sinto muito, mas talvez você devesse avisar a família.
—Eu sou família – respondeu ele, encarando o vazio, ainda com o celular nas mãos.
A médica o olhou com condescendência, a jovem passara 7 dias internada e 5 dias em coma, em nenhum deles, o rapaz havia saído dali, mesmo que não tivesse autorização para entrar no quarto, já que ele não havia pegado a doença. Ela sentou-se ao seu lado e pôs a mão em seu ombro, ele não apresentou nenhuma resposta.
—Eu sei que sim, mas talvez você deva avisar aos pais dela. Irmãos, tios, ou qualquer outra pessoa.
Ele assentiu de leve, mas ela não sabia se ele realmente tinha ouvido. O rapaz continuava parado, olhando por nada com os olhos vazios.
—Nós tínhamos planos, sabe? – começou ele após minutos de silêncio, a médica continuava ali, ao seu lado, e isso chamou sua atenção. – Casar. Ter filhos. Eu tinha comprado as alianças. Ela ia começar um emprego novo amanhã, estava tão animada. Eu ia fazer o pedido quando ela chegasse do trabalho.
A mulher de jaleco branco se resguardou em silêncio. Anos de profissão, anos de perdas, e nunca ficava mais fácil. Ela colocou a mão no ombro dele novamente. Mas ele não viu. Estava em seu próprio mundo, em suas próprias lembranças. Vez ou outra, ele apertava o celular entre as mãos, o que ocasionava o desbloqueio da tela. A médica pode ver que estava aberto no aplicativo de mensagens, exatamente na conversa dela. A última mensagem? Havia sido a localização dela, que ela compartilhou antes de ir para o hospital com a opção de só parar quando desativada.
Notas finais
Sejam gentis.
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