Ironias do Amor

6 CAP 06 – Uma sexta-feira à noite irônica


A aula acontecia e Rey, em nenhum momento prestou atenção, fez comentários pertinentes, ou fez qualquer anotação. Como sempre o fazia. Na verdade, sua mente fluía ao momento caótico, em que todos os seus músculos juntamente com sua voz se negaram a dar uma resposta negativa a seu patrão, que a convidou algumas horas antes.

Sua mente dava mil voltas e sempre parava no mesmo ponto. E uma resposta vinha como um soco na boca do estômago: “Porque você não disse não! Simples assim.” Ela não conseguia fugir do magnetismo que aquele homem exercia sobre ela e, não tinha forças de repelir tal atração. Franzia o cenho e retorcia o rosto numa careta engraçada, como se estivesse travando uma luta interna. Mesmo tendo presenciado tamanho rompante de Ben, ainda sim algo dentro dela queria estar perto dele, desejava a presença daquele homem intrigante, queria estar em seus braços... De repente, Rose a interrompe de seus pensamentos.

— Céus Rey, você está bem? Não quer tomar alguma coisa? – Olhava a amiga com preocupação genuína. A jovem de semblante abatido a olha de volta, de modo, atordoado e responde com uma voz vacilante.

— Não, Rose estou bem! Só pensando no trabalho. – Falou olhando para o caderno e seus pertences em cima da mesa. Tentando disfarçar sua inquietação, mas falhou claramente.

— Quer me contar o que está acontecendo? Você anda agindo muito estranha por esses dias. – Falou a garota de óculos sentada na cadeira ao lado. Que mostrava real apreensão para com a amiga, e se sentia no dever de ajudar, no que fosse preciso.

Não gostava de ver Rey, naquele estado, tão aflita, e não gostaria de ver tal sentimento se alastrando por mais tempo no coração da amiga. Conhecia-a muito bem, e se antecipava em acreditar que a angústia da jovem tinha uma causa, um certo homem sombrio que ela conheceu na festa que seu irmão havia dado dias antes. Assim, a moça de sardinhas tornou a falar.

— Não é nada, sério de verdade! – Deu um sorriso fraco e continuou. — São assuntos do trabalho, petições, protocolos, prazos e todas essas coisas, que você conhece bem. Nada para se preocupar. – Tentou falar num tom seguro, a fim de convencer a outra de que estava tudo bem, porém ela queria desabafar, sabia que sua amiga a ouviria, era uma ótima ouvinte. Então, olhou novamente para a asiática e disse. – Vamos sair da sala, um instante, preciso conversar com alguém, se não vou estourar! – Deu um sorriso fraco e ambas saíram da sala de aula.

(...)

Na mesa da lanchonete vazia, duas jovens sentadas uma de frente para outra num silêncio sepulcral. Quando Rose decide quebrar o mutismo e fala.

— Então o que tem para me dizer? Confesso que estou curiosa. – Falou num tom acolhedor, a fim de deixar a garota de olhar apreensivo a sua frente mais à vontade. Então, Rey estendeu as suas mãos até as de sua amiga e as tomou e disse.

— Antes de mais nada, quero que você me prometa, que não vai falar com mais ninguém sobre o que vou dizer, e muito menos me julgar! – O seu tom era um tanto quanto dramático. A jovem a sua frente, ajeitou os óculos e brincou.

— Por Deus, Rey! Você matou alguém? – Falou em meio a uma risada, que deixou sua interlocutora nada satisfeita, fez uma careta de repressão e, retornou.

— É sério isso! Tem que me prometer! – A garota engoliu o riso, percebendo a seriedade da outra e respondeu.

— Tudo bem eu prometo! – Colocando a mão direita sob o peito e levantando a mão esquerda, em sinal de promessa. Rey então, soltou uma respiração profunda e começou a narrar tudo que a afligia.

Começou a organizar seus pensamentos e passou a contar, desde o momento em que precipitadamente beijou um homem que nem conhecia, numa ação irrefletida, que julgou não trazer consequências, afinal de contas não o conhecia e, tão pouco o veria de novo. Todavia, a vida se encarregou de mostrar a quão errada ela estava, e os colocou frente a frente no Niima’s. E, para complicar a situação ele não é apenas uma pessoa que eventualmente viu em dois momentos distintos. Não, assim, seria muito fácil, antes ele era mais que um conhecido, seria o seu próprio chefe. Mas quem disse que as coisas são fáceis?

Chegou no auge da narrativa, no ponto em que sua mente mais a acusava. Descrever o homem, era algo complexo e perturbador, ele tinha uma sombra dentro de si, que ficou evidente num acontecimento significativo no escritório. Não era apenas uma indisposição momentânea, havia uma coisa muito mais profunda, na qual ela não podia mensurar a profundidade de tal homem e a sua escuridão, porém não podia negar que ela se sentia magneticamente atraída, ao indivíduo trevoso, e se lamentou por não ter convicção e pôr um fim naquilo tudo. E num suspiro pesado concluiu.

— Eu não tive forças para dizer não a ele hoje à tarde. –E com o olhar aflito diz. –Ele está vindo para a faculdade, o que faço? –Seu tom era apelativo.

A amiga ouviu tudo, numa calma oriental. Atenta a todos os detalhes. A cada palavra colocada de modo aflito, e o amor que estava nascendo no coração da amiga, mesmo que Rey não admitisse. Mas, a japonesa conseguia enxergar além daquelas palavras. Muito longe, de querer julgar, ela queria ajudar. Então, ponderou tudo e falou de modo gentil e bondoso.

— Rey, são muitas coisas que você precisa ponderar. Pesar na balança e, avaliar se isso tudo vale a pena, PARA VOCÊ! – Olhava a amiga e prosseguiu. – Avaliar Ben Solo e as reais motivações que levaram ele aquele surto psicótico, que lhe amedrontou. – Parou, por um instante e falou de modo franco. — Então meu conselho Rey, para essa situação. Quando ele chegar aqui, não fuja. Converse com ele, e permita a ele um direito de resposta. Saber o que se passa de verdade, dentro dele. – Ao concluir aquelas palavras, depositou sua mão direita na bochecha rosada e aquecida da amiga. Que lhe devolveu um sorriso terno com um olhar de puro carinho e, pousando sua mão pequena no carinho que a outra fazia, falou.

— Obrigada Rose, por suas palavras. – Ambas sorriram de modo leve.

(...)

Duas garotas conversando de modo animado numa lanchonete vazia. Pareciam muito descontraídas. O assunto parecia interessante. O homem alto de cabelos negros pensou consigo. Ao se aproximar delas deu um meio sorriso e disse.

— As senhoritas estão matando aula? – Falou num tom descontraído, as garotas o olham e falaram ao mesmo tempo.

— Agora é aula vaga! –Falaram em uníssono e, riram. Ben sabia desse fato, pois a garota com sardinhas e sorriso solto, havia falado sobre isso horas antes. Apenas quis descontrair um pouco. Nesse momento, Rey pede a ele para se sentar, este atende de pronto. A oriental arruma seus óculos na face se levanta e começa a falar.

— Prazer em rever senhor Solo. – E olhou para amiga de modo a amistoso, e continuou. – Preciso ir na biblioteca devolver uns livros. – O homem acenou com a cabeça e respondeu.

— O prazer é meu, senhorita Tico. – Olhou a jovem com mais atenção e perguntou. – Você é a irmã caçula de Mark? – A garota concordou com um leve menear de cabeça. Então ele olhou para Rey e depois para a japonesa e disse. – Como o mundo é pequeno. Seu irmão é meu amigo de faculdade. – Ao falar isso deu um sorriso contido. – As garotas se entreolharam surpresas com a revelação. Após esse momento de descoberta, Rose se despediu mais uma vez e saiu rumo a biblioteca, enquanto Ben e Rey a observavam partir. E, falaram juntos.

— Onde você vai me levar? – Disse a garota com um sorriso tímido.

— Eu tenho um lugar em mente! – Disse o homem com um certo mistério. Ambos riram da situação, pois era comum falarem ao mesmo tempo, de modo que, Ben se adiantou. E repetiu.

— Vamos! Quero te mostrar uma coisa – Ao terminar a sentença estendeu sua mão grande e convidativa em direção da jovem a sua frente, o que ela hesitou por uns instantes em pegá-la, mas por fim recebeu a mão do rapaz, seus dedos se entrelaçaram perfeitamente e, seguiram rumo ao estacionamento, com destino que só ele sabia.

(...)

Ao chegar ao local que Ben escolheu, fez Rey se sentir especial, pois a trouxe de volta a amostra que eles tiveram seu primeiro encontro, há alguns dias atrás. Ela sabia, que ele tinha acesso livre, devido aos seus contatos. Então, concluiu que isso ele já havia preparado. Com isso, o homem, a olha e pergunta.

— Gostou de vir para cá? – Olhava-a de um modo intenso e sedutor, que deixou a garota ruborizada. Isso era um combustível a mais para ele, a ver assim. Andando lentamente em direção dela mantendo o olhar, fez o corpo da moça estremecer. E ela pigarreia, a fim de recobrar a voz, e diz.

— Gostei muito de poder estar aqui de novo! – O olhava com o rosto levantado, para compensar a diferença de altura. Enquanto que os olhos de ambos percorriam de cima abaixo um a face do outro. E a distância ficava cada vez menor, até se tornar quase nula, e como um ímã atraído ao ferro, os lábios se colidiram num beijo cheio de carinho. Subitamente surge um homem com roupa elegante e os interrompe.

— Senhor Solo! -Falou num tom cerimonioso. – Posso servir o jantar? –Olhava o casal de modo estoico, apenas aguardando as ordens.

— Pode servir agora! – Falou tentando controlar seu gênio, respirou fundo e ordenou. – E depois pode se retirar, não vamos mais precisar dos seus serviços. – Falava com o maître, mas olhava fixamente para Rey. O homem após ouvir todas as instruções, saiu imediatamente.

O jantar foi muito agradável. Todos os pratos servidos estavam muito saborosos. E, Rey aproveitou de tudo um pouco. Ben a olhava com deslumbramento. A garota tinha uma magia que o envolvia, sabia que não era mais o mesmo, mas ele não queria racionalizar, queria apenas sentir todas as vibrações gostosas que Rey despertava nele. E isso o preenchia, ficar com ela dava uma sensação de que tudo era possível.

A conversa fluía facilmente a noite toda estava agradável e convidativa, no entanto, a jovem não podia esquecer aquilo que a incomodava, e a deixava perplexa. Precisava colocar as coisas a limpo, precisava falar. O homem que a fitava, sentindo uma certa hesitação da parte da jovem a sua frente, a interrompe de seus pensamentos e a chama.

— Venha quero lhe mostrar uma coisa. – Falou num tom grave quase sensual. Ela se levantou e tomou a mão do homem, dessa vez sem nenhuma hesitação.

De frente a um painel, a jovem se depara com uma folha em forma de pergaminho, com algo escrito, parecia ser um poema escrito à mão, de um esmero atraente. Ela ficou admirada, tentando ler o nome do autor do poema, mas não conseguiu ler. Nesse momento, o autor daquela singela surpresa, abraça por trás. E a envolve de um modo que ela quase desapareceu, o que pegou a moça de surpresa, ela fica com o corpo todo rijo, mas aos pouco seu corpo vai relaxando, e logo aceita aquele afago. Então o homem sussurra ao seu ouvido.

— Fiz esse poema pensando em você! – Essas palavras deixaram o corpo da garota todo arrepiado. E suas pernas vacilaram. Algo dentro dela havia despertado. Nunca sentira tal sensação por ninguém, era intrigante e ao mesmo tempo gostosas as sensações que emanava em seu corpo ao ficar tão próxima de Ben.

Rey agora olhava com mais afinco aquele papel. Na tentativa de poder ler o que continha naquela folha. O poeta que a abraçava se adiantou e falou.

— Não leia agora. – Falou sussurrando tocando o seu queixo com os nós de seus dedos, gentilmente girou a face da garota, em direção de seu rosto e, selou seus lábios carnudos nos lábios dela, num beijo terno e carinhoso. Com a outra mão envolveu a cintura pequena dela, e a girou sem se desfazer do beijo. E ela pousa suas mãos delicadas nos músculos do peitoral de Ben e, não ficou indiferente ao sentir seu corpo tão próximo ao dele. Sentiu uma tensão gostosa correr por todo o seu corpo. O beijo foi ganhando intensidade, até perderem o fôlego, assim numa necessidade de buscar, o ar. Rey interrompe o beijo.

Abre os olhos lentamente como num encanto, fala a Ben num sussurro que o fez gemer abafado, no ouvido dela. Ela se esforça em se concentrar e dizer.

— Me deixa ler o poema! Não seja maldoso! – Ela falou tão lindamente que o homem não resistiu e consentiu com um leve mexer de cabeça.

A garota de rosto corado, se desfez do abraço e pega o pergaminho que estava repousando no painel. E lê as palavras contidas ali, como se fossem as mais importantes de sua vida, ela corre a vista pelas palavras, escritas com uma letra tão esmerada que a encantou e, mais ainda, o conteúdo que havia em tal singelo papel.

“Anseio encontrar uma flor,
Que plantei não sei onde
No pensamento...
E vagueio assim,
Como borboleta entorpecida,
em zig-zags constantes,
Fintando espaços negros
Vazios de pensar...
Anseio encontrar a flor
A única que plantei
Mas que não sei onde
No deserto da mente...
E vagueio assim,
Como arco-íris,
Composto apenas de três cores,
O branco da alma,
O cinzento da vida,
E o negro das escolhas...

Flor do deserto,
Assim te batizei,
E vagueio assim
Por entre cada pensamento
Na ânsia de encontrar
O deserto onde plantei
A única flor para mim…

A FLOR DO DESERTO!!!”

Ao terminar de ler tal bela homenagem, a garota levou sua mão a boca em espanto e, ponderou como um homem pode ser tão complexo e intrigante, pensava no que ela havia testemunhado no escritório o que mexeu muito com seus sentimentos e a abalou, mas logo em seguida se depara com um homem totalmente diferente, não sabia como lidar com tudo isso, qual daqueles era o real, qual era a verdadeira personalidade daquele homem. Tudo começa a ficar perigosamente confuso, pois não o conhecia, e isso a deixava numa zona nada confortável, a colocava vulnerável e desprotegida, não saberia quem estava abraçando, o homem sensível à sua frente, ou o monstro desumano que passa por cima de todos. Ela estava em choque não sabia o que responder ao homem.

Neste momento ele se aproxima, diminuindo a distância, mordia sua bochecha interna, em puro sinal de inquietação e quebra o silêncio ao dizer baixinho.

— Você inspira o melhor em mim! – A envolvendo num abraço terno deposita seus lábios num encaixe perfeito, nunca sentira tanta necessidade de uma pessoa como sentia de Rey, e o beijo se torna necessitado e profundo, logo a garota de modo abrupto interrompe o beijo e pede.

— Preciso ir ... Está ficando tarde ... – Falou com uma voz vacilante. Não queria sair dos braços de Ben, todavia, precisava colocar a cabeça no lugar, e mais uma vez ela se condenou, por não ter coragem de conversar com ele, e saber mais sobre o homem que abalava tanto as suas estruturas, A isso, Ben, em meio a frustração consente com a cabeça, ao pedido da moça. E não tendo a menor ideia do porquê da atitude da jovem esquiva a sua frente e não sabia como lidar com isso. Beija o alto da cabeça de Rey. E, nesse momento ambos sabiam, que o que estavam sentindo era real, novo e frágil, e que teriam muitas provas a resistir. E que precisavam se conhecer mais. A fim de poder confiar mais um no outro.