Irmandade: Guerra Terrígena Marvel 717 5
2 (Im)Previsível
Depois de dividirem os times e deixarem os respectivos grupos onde deveriam estar para executar sua parte do plano, a equipe de Bobbi ficou com o Zephyr, uma decisão tomada com base no fato de estarem indo provavelmente atrás do perigo maior. Strucker não podia ser subestimado. Apesar do homem ter aparentemente se mantido à uma distância prática considerável dos acontecimentos reais, delegando suas tarefas para outros capangas poderem resolver, não era segredo para ninguém de quem era a mente brilhante por trás de tudo.
Strucker era um conquistador. Um resquício da segunda guerra mundial, ex-oficial nazista se mantendo vivo e relativamente jovem com todo o tipo de palhaçada química em que podia colocar as mãos. Naquele avião, Natasha era sem sombra de dúvidas a pessoa que tinha o passado mais extenso com ele, mas o fato de Bobbi conhecê-lo apenas de histórias não diminuía a preocupação da mulher em relação a ele, afinal de contas, quantas ideias geniais um ex-oficial nazista poderia ter com um exército de pessoas super-poderosas em suas mãos?
— Estamos nos aproximando do local — Bobbi comentou, olhando para o GPS no painel do veículo. — Quer dizer, se Lorne não tiver mentido para nós.
— Ele não mentiu — Bucky, de pé e colocando uma semi-automática nas costas apesar dos protestos de Natasha, respondeu. — Eu sei que não. Parecia muito derrotado quando foi me curar na cabine. O que quer que aquele garoto fez com ele, funcionou.
— O garoto fez ele se cagar de medo — Natasha respondeu, o olhar de canto de olho ainda um pouco desaprovador a Bucky. — Ele estava sendo muito convencido antes. Não era mentira.
— Bem, mentira ou não, não tem nada aqui — a mulher comentou, girando o manche e olhando em volta.
Voava logo abaixo das nuvens. De acordo com Lorne, estavam procurando por uma base no meio de um bosque no noroeste da Turquia, que seria onde Strucker tinha estabelecido residência no momento. Lorne tinha sido incapaz de dar as coordenadas exatas, e não podiam culpá-lo por isso, afinal, quem sabia coordenadas de alguma coisa de cor? Mas tinha conseguido marcar a região geral num mapa com notável precisão, circulando uma área do tamanho de uma cidade pequena. Até o presente momento, porém, só haviam árvores e mais árvores abaixo deles, nem sequer uma clareira tinha sido encontrada. A menos que Strucker tivesse se tornado um eremita e estivesse morando em meio às árvores, algo não estava certo por ali.
— Isso não é bom — Olivia comentou, sentada no banco de co-piloto. — Se não conseguirmos encontrá-lo, mesmo se os grupos de Cassian e Luke forem bem sucedidos, Strucker vai poder simplesmente começar tudo outra vez.
— É, tamo sabendo — Hunter resmungou. — Foice e Martelo, vocês dois aí que conheceram o cara. Alguma ideia brilhante?
Se o apelido incomodou Bucky ou Natasha, eles não demonstraram, trocando um olhar rápido. Ele deu de ombros, e ela soltou um suspiro curto.
— Strucker teve parte no comando da organização de espionagem que me treinou. Eu tenho certeza de que consigo encontrar ele, eventualmente, mas não sei se com o tempo que temos.
— Talvez a gente só precise dar um chacoalho no cientista — Clint sugeriu. — Podemos ligar pro Sirius.
— Nem pensar — Olivia barrou. — Ele está sozinho com Lorne na base. Sem Balu lá, vai saber o que Lorne pode fazer com Sirius se ele se aproximar.
Olivia tinha um ponto. Infelizmente, porém, isso não ajudava. A mulher conferiu o relógio, vendo que tinha cinco minutos para localizar Strucker se quisessem que os ataques acontecessem coordenados como tinham planejado.
— Clint, o que você vê? — A ex-agente perguntou, esperando que ele fosse conseguir reparar algum detalhe que a tivesse escapado, afinal, ele não tinha recebido o nome de Gavião-Arqueiro à toa. Havia pouco que seus olhos não conseguissem detectar.
O homem se aproximou, se inclinando por cima do banco de piloto que ela ocupava, observando a paisagem vários quilômetros abaixo. Estavam logo abaixo das nuvens, circulando por cima da área indicada por Lorne mas, até agora, sem sucesso.
— Quanto tempo temos? — Ele perguntou, agora acompanhado de Hunter que se colocou do outro lado de Bobbi mas parecia ter vindo olhar só de curioso, não colocando tanta atenção no que fazia quanto seria esperado dada a tensão da situação.
— Quatro minutos, para sermos bem exatos. Acredito que tenhamos alguns minutos de margem de erro, mas seria bom não precisar deles.
— É. Seria — Clint completou, agora se apoiando no painel.
Bobbi girou o manche um pouco, dando a volta pois estavam chegando na orla da região demarcada por Lorne. Então, sentiu a mão de Clint se fechar em seu ombro.
— Espera. Ali, em frente. O que é aquilo ali?
Em frente? Sairiam um pouco da região de Lorne, mas para alguém que tinha marcado um ponto tão preciso de memória, não seria surpresa errar por algumas dezenas de quilômetros.
Ela seguiu com o manche, demorando um pouco mais que Clint para ver o que parecia ser uma pequena clareira. Parecia vazia, porém, e ela suspirou, frustrada com a descoberta. De tudo que poderia dar errado naquele plano, ver as coisas falharem justamente na sua parte, a única que tinha adultos, pelo amor de Deus, não era algo que estava esperando.
— Não podemos arriscar contatar Sirius, acho que vamos ter que dar meia-volta e esperar por Balu para tentar de novo — Bobbi concluiu. — É uma pena, eu queria muito acabar tudo de uma vez, mas —
De repente, o Zephyr deu um solavanco para frente, e os alarmes dispararam. Em reflexo, Bobbi puxou o manche, estabilizando o avião e olhando para os radares, vendo que de repente haviam três aviões na sua cola. Provavelmente estavam camuflados antes, talvez esperando que fossem embora. Se tinham sido atingidos… Tinham chegado perto o suficiente.
E bem na hora, ela percebeu, vendo o relógio e percebendo que os outros ataques deveriam estar começando. Agora tinha de confiar no que os demais estavam fazendo e se focar em sua parte, e um ataque aéreo não era algo que tinha imaginado que teria de lidar.
— Clint, Barnes, peguem os canhões! — Ela ordenou, puxando o manche e fazendo uma manobra evasiva à direita ao ver mísseis voando na direção deles. — Os outros apertem os cintos, a coisa vai esquentar agora.
Não precisou pedir duas vezes. Clint se alojou os canhões da direita, Bucky nos da esquerda. Natasha e Hunter se sentaram nos bancos mais próximos, e Bobbi não demorou a dar a eles motivos para quererem estar com os cintos bem firmes, vendo outro míssel se aproximar no radar e fazendo uma manobra agora pra esquerda.
— Nat, precisamos saber se Strucker está pilotando — Bobbi pediu, girando o avião no ar e tentando virar de frente para os inimigos. Precisava conseguir um bom ângulo para Clint e Bucky atirarem, até então eles não estavam tendo muito sucesso.
— Certo — a mulher respondeu, puxando uma tela de um dos computadores do avião para perto e começando a procurar o controle das câmeras externas.
Enxergar qualquer coisa no calor da batalha aérea provavelmente seria muito difícil, mas Bobbi torceu para Natasha conseguir navegar bem o sistema das câmeras para melhorar a imagem, já tinha feito ela fazer isso em situações piores. Enquanto isso, Bobbi sentiu o avião ser acertado mais uma vez, agora em cima, e perdeu uma boa quantidade de altitude.
— Estamos perdendo os escudos! — Ela gritou. — Clint o que raios você está fazendo?
— Eu? E o Barnes?
— Calem a boca, estou tentando me concentrar! — Bucky respondeu, apertando os gatilhos.
Dessa vez, foi um acerto, e um dos aviões menores foi atingido na asa, começando a cair para o lado. Menos um. Bobbi desviou mais uma vez, e outra. No terceiro, a parte de baixo do avião foi atingida, e ela viu os escudos terminarem de se desfazer. Qualquer tiro agora seria muito perigoso se fossem atingidos, e provavelmente iriam cair.
— CLINT!
— Clint, eu juro que se você me matar, eu te mato! — Hunter esbravejou.
— Senta aqui você então, já que tá fácil ficar aí reclamando!
— Sabe, tem uma piada aqui esperando pra ser feita sobre você me chamar pra sentar na cadeira onde você já está, mas eu sinceramente não consigo pensar nisso agora porque ao que parece seu interesse atual é em ver a gente MORTOS.
— Lance — Clint suspirou. — Luz do meu purgatório, se você não calar a boca, eu vou abrir a rampa do avião e te jogar lá embaixo.
— Até agora, sério? — Bobbi resmungou.
— É isso que você tem que aguentar? — Olivia perguntou. — E eu achando que meu casamento tinha problemas.
— Eles não são meus maridos, são meus ex.
— Você voltou com seu ex DUAS VEZES?
— …Bem, quando você fala desse jeito…
— Achei! — Natasha exclamou, cortando o assunto para satisfação de Bobbi antes que ela precisasse responder de novo. — Ele tá no co-piloto do avião maior.
— Vamos acabar com isso. Clint, eu vou pegar pra direita. Acerta o avião menor, ok?
— Certo. Estou pronto.
Bobbi contou até três, e virou a curva mais fechada que conseguiu. Nesse momento ela percebeu como Clint deveria estar irritado com a situação, porque não só ele acertou o avião da direita com uma precisão cirúrgica, ele também conseguiu virar os canhões em tempo de resposta imediato para acertar o avião restante.
A boa notícia foi que ele acertou os dois. A má notícia foi que o avião do meio também atirou antes de ser atingido, e já estando um tanto avariado, ao levar o golpe, o Zephyr começou a cair.
— Acertamos ele? — Clint perguntou, não tendo visto o resultado do segundo tiro graças ao impacto no próprio avião onde estava.
— Sim! — Natasha exclamou. — Também estão tendo que fazer um pouso forçado.
— Então isso vai continuar no chão — Bobbi anunciou. — Se segurem. Não vai ser um pouso muito agradável.
[...]
Stryker não estava em Nova York, por qualquer motivo que fosse. Luke imaginou que com todo o ódio que ele tinha por mutantes, fosse querer assistir o começo do fim da espécie de camarote, mas não. Embora Lorne não pudesse dizer exatamente onde ele estava, tinha uma convicção muito forte de que o homem teria deixado a cidade, e para ajudá-los com possíveis locais, entregou o endereço de uma série de casas da I.M.A. que ele poderia estar usando para se esconder.
Depois de usar câmeras de rua para vigiar os arredores de tais casas, a equipe conseguiu detectar movimento recente em uma delas. E agora, ali estavam Luke, Grace, Cather, Eras, Marlene e Reese, prontos para capturá-lo.
A casa era uma cabana de madeira à beira de um lago no Canadá. A região imediata não era muito habitada, mas por precaução, o quinjet da S.H.I.E.L.D. deixou o grupo bem longe do local. Não queriam ser detectados. Então, com o telefone em mãos, estavam fazendo o resto do caminho até as coordenadas a pé.
— E qual é o plano quando chegarmos lá? — Grace perguntou, andando mais perto de Eras e Luke. As três garotas da Irmandade estavam preferindo ficar juntas alguns passos atrás.
— Ainda estou trabalhando os detalhes, mas estamos em um ótimo lugar pras habilidades de Eras e Marlene, e Cather comentou que ela conseguiu enfrentá-lo em combate sozinha, então não deve ser difícil para nós cinco resolvermos isso.
E rápido, ele pensou. Nath estava enfiado no maior dos problemas a essa altura, e Luke queria muito acabar sua parte mais cedo para ir ajudá-lo. Estava verdadeiramente assustado com a perspectiva de algo acontecer a ele, mas precisava confiar que ele poderia tomar conta de si mesmo assim como Luke poderia agora. Quanto mais focasse em sua missão, antes poderia encontrá-lo. Precisava ter foco.
— Grace, pode ir olhando o caminho para nós? — Luke perguntou.
A garota assentiu, alçando vôo para um pouco acima da copa das árvores. Luke continuou caminhando devagar, sendo seguido pelos demais, olhando para cima para ver onde Grace estava.
Seu plano era simples. Achariam a casa, usariam os poderes de Eras para causar algum problema e atrair Stryker para fora, e então Reese poderia aterrorizá-lo até ele se render. Se ele acabasse saindo de controle, ele, Marlene e Cather deveriam ser o suficiente para contê-lo.
Não demorou enquanto seguiam em frente para Grace voltar até a equipe, pousando no chão à frente de Luke com um ar um pouco preocupado.
— Achei a cabana. Ela está bem vigiada.
— Isso não deve ser um problema se o plano der certo — Luke comentou. — Até onde podemos ir com segurança?
Grace chamou com um gesto da mão, seguindo em frente. De vez em quando ela voava um pouco, dava uma olhada na distância, e voltava para baixo para corrigir o rumo. Eventualmente, chegaram à orla da floresta, ou o quão perto podiam chegar sem serem vistos. A cabana de madeira estava bem na orla do lago, com direito a pier, e do lado de fora haviam cinco guardas da I.M.A., com armas em mãos.
— Ok, parece que estamos com sorte. Eras, tá pronto?
O garoto assentiu. Ele avançou, ficando o mais perto que podia onde conseguia ver o lago sem serem detectados. Então ele olhou para trás, esperando pelo comando de Luke para começar.
Não era como se pudessem fazer qualquer outra coisa para facilitar o processo agora, então, ele autorizou.
Eras estendeu as mãos para a frente, o olhar focado no lago. Lentamente, a água começou a se mover, primeiro de forma quase imperceptível, o reflexo do Sol tremeluzindo sendo a única indicação de que algo estava acontecendo. Então, o lago começou a subir.
Era a melhor forma de descrever o que estava acontecendo. O lago reagiu como se fosse o mar, agitando-se na forma de ondas altas e descontroladas. Não demorou para os guardas perceberem o que estava acontecendo, se virando para o lago horrorizados. Alguns atiraram na água, algo que fez Luke soltar uma risada baixa confusa. O que eles achavam que aquilo ia fazer? Outros simplesmente ficaram congelados no lugar, e teve um que gritou e saiu correndo.
Não tinha como ser melhor. Se conseguissem se livrar dos guardas de cara, o caminho estaria totalmente livre para irem até Stryker e acabarem com sua parte do confronto.
— Me diga quando — Eras pediu, sustentando a onda no ar.
Luke queria um vislumbre de Stryker antes, qualquer que fosse. Na varanda, na janela da cabana, em qualquer lugar, mas não podia esperar demais sem arriscar que os guardas resolvessem vir ver o que estava causando o problema. Decidindo que o tempo tinha acabado, ele comandou.
— Agora!
Eras abaixou os braços, e a onda veio com tudo para cima da casa e dos guardas. Ele manteve um braço erguido, para impedir que a água viesse até onde a equipe estava, mas empurrou a água para frente com o outro sem a menor preocupação. Os guardas foram levados em direção às árvores mais ao fundo, girando na água completamente desorientados até caírem metros e metros de distância no meio das árvores, fora do caminho dos mutantes.
Luke aguardou enquanto Eras recolhia a água de volta para o lago, devagar. Ainda não havia sinal de Stryker, mas isso tinha de ser temporário considerando quanta água tinha entrado dentro da cabana. O mutante apertou as mãos, ansioso, tentando decidir se devia coordenar um ataque à cabana ou não.
O lugar poderia estar cheio de armadilhas. Se fosse terrígeno então, tinham acabado de inundá-lo de água. Não era um risco que pudessem correr, já tinham sido muito cuidadosos de usar água suficiente para levar qualquer possível névoa ou cristal embora junto com ela. Não era bom dar chance para o azar.
— Será que Lorne mentiu? — Marlene questionou.
— O lugar estava vigiado — Luke respondeu, esticando o pescoço por entre os galhos. — Não pode ser coincidência. Reese, você sente alguém lá dentro?
A garota fechou os olhos, projetando seus poderes em direção à cabana. Luke esperou, ansioso, torcendo por uma resposta positiva, até que ela abriu os olhos de uma vez, puxando uma lufada de ar de uma vez para dentro, sobressaltada.
— Ele está lá! — Ela exclamou. — Ele sabe… Ele vai —
Antes de Reese terminar de falar, a porta da cabana se abriu. A garota estremeceu, dando um passo para trás, e Luke percebeu, preocupado, que ela parecia aterrorizada. Com o poder que Reese tinha, não devia ser fácil deixá-la com medo.
Stryker saiu caminhando devagar, com as mãos atrás das costas. Usava a mesma túnica que costumava vestir em seus cultos nas igrejas anti-mutante que comandava, e tinha um olhar despreocupado no rosto, apesar de estar encharcado da cabeça aos pés e ter perdido todo o seu destacamento de segurança.
Mais uma vez, Luke se preocupou.
— Vão sair, ou o quê? — Stryker perguntou, parando no pequeno descampado em frente à cabana. Esperando por eles.
Luke engoliu em seco. De repente, fugir pareceu uma boa ideia. A calma de Stryker em um momento como esse não podia ser boa coisa, simplesmente não podia. Tinham chegado ali porém com o quinjet pilotado por Damon e Theo, e o avião não voltaria tão cedo. Ou fugiam pelo mato, ou o enfrentavam de frente.
Luke percebeu que estava cansado de fugir.
Ele levantou o queixo, saindo pela orla do bosque que cercava a cabana. Ouviu passos atrás de si e percebeu o restante de sua equipe chegando logo depois.
— Hm — Stryker comentou. — Mais uma vez, um bando de crianças.
Se era para ofendê-los, Luke decidiu não se importar. Ele apertou as mãos, os olhos brilhando à medida que acumulava energia para disparar um raio laser se necessário.
— Você não dá conta de nós seis, e sabe disso. Se renda de uma vez e nos poupe a dor de cabeça — Cather anunciou.
— Ah, sim. A… dor de cabeça — Stryker ainda não parecia preocupado. — Uma boa definição para o que vocês têm representado na minha vida. Tanta tenacidade desperdiçada em uma resistência fútil contra uma lei simples da natureza… Vocês estão brigando contra a evolução.
— Nós?! — Marlene exclamou, indignada. — O Homo superior é o próximo estágio da evolução. Quem está brigando contra é você.
— O Homo superior é uma aberração da espécie humana, um atraso no que os seres humanos podem de fato ser. Qualquer um que não veja isso está se enganando e enganando aos demais, tentando convencer as pessoas de que esse absurdo é normal.
— Ah, claro. Falou o Homo sapiens, realmente entendedor das coisas — a mutante respondeu.
Para pânico de Luke, a reação de Stryker foi abrir um sorriso condescendente. Ele entendeu o que ia acontecer um segundo antes, mas não conseguiu reagir a tempo de alertar seus colegas.
Stryker estendeu as mãos para a frente, e uma luz muito branca tomou o local onde ele estava, cegando Luke temporariamente, acompanhada de um apito muito forte em seus ouvidos e uma dor de cabeça como nunca tinha sentido antes. Ele levou as mãos aos ouvidos, os olhos fechados com força, mas não havia nada que pudesse fazer pela dor.
Stryker era um mutante. E não tinham se preparado em nada para enfrentar um.
[...]
A escolha da I.M.A. para esconder Cameron Hodge — ou Phallanx, como se chamava agora — enquanto ele comandava o exército de inumanos tinha sido um prédio comercial, do qual tinham comprado os últimos andares. Inicialmente, tinham pensado que o prédio ficaria em Nova York, mas considerando como o ar da cidade estava infestado de terrígeno e a guarda pessoal do Phallanx era formada primariamente de inumanos, fez sentido mantê-lo próximo, mas fora do raio de intoxicação do químico.
Assim, se viram em frente a um grande prédio na parte sul de Connecticut. A segurança, Damon reconheceu, era formada dos mesmos inumanos que tinham enfrentado na torre: a garota super-forte e o garoto que controlava areia; mais um outro inumano parado de encontro à parede brincando de acender e apagar a mão, que brilhava. Havia um outro garoto sentado mais longe, fazendo bolinhas de sinuca aparecerem no ar, e fora isso, o local estava cercado de guardas.
Não ia ser fácil, e precisavam ser rápidos. Tinham deixado a maior parte da força bruta no time deles para tentar abater Phallanx o mais rápido possível, mas de repente Damon desejou ter a garota que avacalhava emoções com ele. Infelizmente, agora não dava pra reclamar o time despachado.
— Quem aí tem uma ideia genial? — Damon perguntou, olhando para Cassian. — Você aí, você comandava time. O que vamos fazer?
— Estão com os óculos de visão noturna?
O restante do time assentiu. Tinham imaginado que com Cassian no time, fosse um acessório que poderia se provar útil. Pelo visto, tinham imaginado certo.
— Eu vou causar um blackout — ele anunciou. — Isso deve atrapalhar eles de lutar, o suficiente para facilitar a vida de vocês. Alexis, você é uma peça muito chave nesse conflito, precisa fazer um controle de grupo decente.
Alexis, muito enfezado desde que Eras tinha logicamente sido enviado para o conflito na casa do lago, soltou um “hm” em resposta.
— Niko, Theo e Damon vão entrar. Eu, Nath, Lex e Héctor, vamos tentar manter os inumanos ocupados pelo maior espaço de tempo possível. A ideia é que possamos usar Balu para apagar eles, e desde que possamos segurar um deles por tempo suficiente, isso vai funcionar, mas não contem com isso. Vocês três precisam ser rápidos, ok? Se conseguirmos resolver aqui embaixo, a gente sobe pra ajudar vocês.
Damon não tinha a menor pretensão de demorar, porque não aguentava mais toda essa palhaçada com terrígeno. Sua única aventura com o gás já tinha sido o suficiente para a vida inteira, e não tinha intenção de repetir.
— Vai ser um segundo. Entrar, resolver, sair — Damon respondeu, conferindo a munição de seus revólveres. — É mais fácil se eu tiver permissão de encher a cara das pessoas de bala — completou, olhando de esguelha pra Cassian.
O mutante deu de ombros em resposta.
— Eu tenho cara de X-Men pra ter problema com isso?
Damon sorriu.
— Gosto mais de você — então, se virou para sua equipe. — Vamo nessa, se a gente resolver rápido eu consigo te levar pra jantar num lugar bacana, Theo.
— Restaurante de grã-fino?
— Aham.
— Eu vou ficar segurando vela o tempo todo agora? — Niko perguntou, apesar de ter um sorriso no rosto.
— Ninguém mandou fazer o cupido — Theo respondeu. — Agora aguenta.
— Ok, se já terminaram — Cassian cortou. — Vou enviar o ataque.
— Quando quiser, Mortícia.
Cassian olhou para Damon, uma sobrancelha levantando devagar pelo apelido, mas não deu muita atenção a isso e logo ordenou o ataque. Ele disparou uma sombra intensa em direção aos outros inumanos, escurecendo o lugar, enquanto o resto do time colocou os óculos. Então, Nath, Lex e Héctor começaram a atacar, e Damon desviou para dar a volta no prédio com seu time e encontrar uma entrada não-vigiada.
— Sabemos em que andar ele vai estar? — Damon perguntou, ao encontrarem uma parede sem guardas. Ele pegou um atirador de arpão das costas, mirando pela parede e escolhendo uma janela aleatória.
— Algo entre o décimo e o décimo terceiro — Niko respondeu. — Os três pertencem à I.M.A.. Se entrarmos pelo décimo, podemos procurar por dentro.
— Parece um plano — Theo concordou, atirando seu arpão.
Não era difícil acertar a janela certa graças à tecnologia de mira da S.H.I.E.L.D.. Logo, os três estavam subindo.
Damon se preocupou um pouco com o que encontrariam lá dentro. A I.M.A. não teria deixado toda sua proteção do lado de fora, certamente teriam algum plano de contingência.
Ao chegarem nas janelas, usaram pequenas bombas da S.H.I.E.L.D. para explodir as trancas — Damon tinha de admitir, os brinquedinhos da agência eram muito legais — e saltaram para dentro um a um, os revólveres em riste.
O lugar estava completamente vazio.
— Sou eu — Niko comentou. — Ou isso parece uma armadilha?
— Volta lá pra baixo, Day — Theo pediu. — Pode ter sido feito pra pegar mutante.
— Nem pensar — o garoto respondeu, pegando uma máscara de gás da cintura e colocando no rosto. — Eu quero ver essa palhaçada acabar logo. Eu vou ficar bem. Vamo indo — ele anunciou, com o revólver apontado para a frente.
— Damon — Niko chamou. — Talvez você devesse ouvir —
Antes que ela terminasse, ele pisou em alguma coisa — um fio, ou um laser — e um barulho de gatilho curto soou pela sala. Então, o andar começou a se encher de gás terrígeno.
— DAMON!
— Eu tô bem! — Ele cortou, respirando fundo uma boa lufada de ar. A máscara estava funcionando perfeitamente. — Tá tudo bem, a máscara tá no lugar. Se ativamos armadilha é porque estamos no lugar certo. Vamos logo!
Ele sabia que Theo não ia gostar da resposta, mas decidiu que não ia dar atenção pra isso, apenas seguindo em frente e esperando que o seguissem. Havia uma escada levando para o segundo andar, e ele tomou a dianteira, a respiração facilitando ainda mais conforme subiam e o gás, pesado, ficava preso no andar abaixo.
Então chegou no segundo andar, e encontrou duas pessoas de frente para a escada que ia para o andar de cima. Um deles, um mutante ou inumano, mas provavelmente inumano considerando que trabalhava para a I.M.A., tinha a aparência de um híbrido de dragão, com asas, um rabo e o corpo coberto de escamas. Estava com os braços cruzados e parecia bem despreocupado.
Ao lado dele, Agnes.
Damon reconheceria aquele rosto em qualquer lugar. Tinha obcecado com a imagem da ficha dela por horas depois que Theo o contara como tinha tomado os tiros na espinha. Ela também não parecia preocupada, e em verdade, sorriu ao vê-los entrando ali. Aquilo só serviu para fazer o sangue de Damon ferver ainda mais, o dedo no gatilho da arma já querendo muito ser usado.
— Ora ora, agente Wayland… — Ela comentou. — De pé tão cedo?
— Não fale com ele! — Damon gritou, a arma agora apontada para ela. — Você não tem o direito —
Foi interrompido pela mão de Theo segurando o cano da sua arma.
— O que posso dizer — o agente continuou. — Você me deu uma bela oportunidade de aprender sobre transhumanismo.
O que Theo estava fazendo? Damon tentou puxar a arma de volta, agora travada de novo para evitar acidentes, mas Theo pelo visto tinha compensado o tempo no qual não tinha podido malhar as pernas em fazer isso pelos braços, porque estava estupidamente forte.
— Bem, é a minha coisa, um pouco. Aprender. Melhorar… — A mulher comentou, se afastando da parede. — Eu tenho um grande apreço pelas coisas que eu crio.
— Quão grande?
— Grande o suficiente para não gostar de como Strucker tem tratado meu intelecto e as minhas criações.
Damon franziu a testa. Aquilo se parecia quase com uma… aliança. Ele olhou chocado para Theo, e depois para Niko, mas ela parecia tão surpresa quanto ele.
— Então desligue — Theo sugeriu.
Damon desistiu da peleja nesse momento, enfiando a arma no coldre outra vez. Por mais absurdo que fosse, Theo parecia ter a interação sobre controle, ao menos por enquanto. Ia deixá-lo controlar. Ver onde tudo iria.
— Eu adoraria — ela comentou, com um ar irritantemente sarcástico na voz. — Mas Phallanx é só parte do projeto. Mesmo se eu desligar a máquina, cortando a conexão dele com os outros inumanos, ainda fica o problema de Cameron Hodge em si. Ele é poderoso. Eu e Krystorian sozinhos não poderíamos derrotá-lo, e ele provavelmente me mataria pela traição.
— Então estava esperando a gente — Niko sugeriu.
— Alguém. Confesso que esperava gente mais poderosa, mas vocês vão ter que servir.
— E ele? — Damon perguntou, apontando para o inumano ao lado. Não conseguia acreditar que estava prestes a trabalhar com aquele lixo de gente, mas queria o fim do problema terrígeno mais que qualquer outra coisa, então pelo visto teria de fazer o sacrifício.
— Eu pensei que estivesse destinado a colocar o projeto em pé — o inumano respondeu. — Agora sei que meu destino é destruí-lo. Isso é tudo que precisam saber.
E era quase nada, mas ficou claro rápido que não receberiam mais. Damon se perguntou se Agnes conheceria seus poderes. Ela provavelmente já tinha deduzido que ele era mutante pela máscara de gás, mas se não soubesse o que ele fazia, era uma vantagem a mais.
— Muito bem, então — Theo concordou. — Nós vamos com vocês. Mas Agnes, se isso for uma armadilha, eu vou deixar Damon estourar seus miolos. E confie em mim, ele não sou eu. Ele vai fazer isso.
— Que absurdo, Theo! — Ela retrucou, com a mão sobre o peito, fingindo ofensa. — Você não confia em mim?
O silêncio que ela recebeu foi o suficiente para deixar a resposta bem clara. Ela suspirou, parecendo cansada, e começou a subir as escadas. Assim, com a mão no punho da arma, Damon e seu time a acompanharam.
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