Notas iniciais
Ai gente, é isso. O começo do fim.

Não quero me estender muito aqui porque tirei 2 dente siso hj e to funcionando pela metade (kkk) mas queria agradecer do fundo do meu coração qualquer um que tenha estado comigo desde o começo, lá nas primeiras histórias, tantos anos atrás. Eu tinha planos maiores para o 717 e já falei sobre no antigo grupo de whatsapp, mas por vários motivos, cheguei num momento em que preciso seguir para outras coisas. Então essa história aqui vai ser o final, em breves cinco capítulos.

Espero que gostem. Eu fiz o melhor para amarrar onde eu achava que precisava e criar um fim satisfatório que parecesse mesmo um final. Obrigada, mais uma vez ♥

Cassian não se considerava uma pessoa empática. Nunca tentou fingir que era, que coordenava a Irmandade por algum tipo de cruzada moral ou que acreditava que estava construindo um mundo melhor puramente pela bondade do seu coração. Não. Era ódio. Era por viver nesse mundo maldito que insistia em querer matar os seus, e ele gostava muito de viver, obrigado, portanto não tinha interesse em deixar o mundo ir para os ares enquanto estivesse nele.

Talvez por isso aquela tarde estivesse se provando o momento mais estressante de todo seu tempo enquanto participante e líder da Irmandade de Mutantes. Tinha visto de perto o que uma bomba de terrígeno conseguia fazer com mutantes, não queria pensar no que uma torre de cristal do tamanho do Empire State iria causar se fosse ativada. Não achava que nem a sua imunidade fosse resistir a isso, e não achava que as veias vermelhas encravadas no cristal fossem um bom sinal. Nada ali era um bom sinal.

— Precisamos nos orientar! — Cassian gritou, balançando a cabeça para se focar, Cassandra ainda firme protegendo a Irmandade por cima. — Reese, onde estão seus reforços?

— Chegando — a garota respondeu. — Mas como eu disse, a cidade tá impossível de andar.

— E o que os Vingadores estão fazendo? — Marlene perguntou, indicando alguns dos heróis que se ocupavam de conter o caos e tentar afastar as pessoas do local. — Por que não colocam a torre abaixo?

— Talvez eles não se importem — Cassian comentou. — Não me surpreenderia.

— Ou eles não sabem como — Cather rebateu. — Não consigo vê-los ligando pros detalhes do terrígeno até agora, não com mutantes e a S.H.I.E.L.D. para cuidar do problema.

— E com os X-Men espalhados por aí, só tem nós quatro e os Novos Mutantes pra lidar com a situação — Marlene resmungou, espiando entre a proteção de Cassandra e uma fenda sobre o carro tombado atrás do qual estavam se protegendo.

— Sete — Reese corrigiu, um sorriso pequeno aparecendo em seu rosto, e ela indicou um trio correndo entre a confusão ao longe em direção a eles.

Cassian conhecia Héctor e Lex de toda a confusão inicial em Washington, mas o garoto que vinha atrás de Lex, com a pele cinza e dentes demais para uma boca só, era novidade. Ele se lembrou porém de Niko comentando brevemente sobre um garoto com essa descrição que tinha se mudado da S.H.I.E.L.D. para a casa do namorado mutante, e tudo clicou rápido em sua cabeça.

— Trouxe uns amigos — Héctor comentou, ao estar perto o suficiente.

— Não força a barra.

— Lex… — o garoto-peixe repreendeu, com um tom sério e a expressão fechada.

— Ok. Colegas. Aceito colegas.

— Não importa agora! — Cather cortou. — Obrigada por virem. Temos que decidir como vamos destruir essa torre.

Seis pares de olhos assustados se viraram para Cather.

— O que foi? — Ela questionou.

— Nós? — Marlene respondeu. — Nós, mutantes, muito sensíveis a terrígeno, vamos lá na torre entupida de cristal e tentar desligar o mecanismo nós mesmos?

Cather suspirou. Cassian conseguiu ver a frustração se formando no rosto dela, acostumado que estava com as reações da amiga depois de tantos anos.

— Sim, Marlene, nós. Sabe por quê? Primeiro, porque os Vingadores não sabem como, e se eles cometerem um erro, um ínfimo erro que seja, a cidade inteira vai ser engolida em terrígeno. Você quer mandar o Homem de Ferro pra lá, pra vazar uma gota de água da armadura dele e ferrar todo mundo?

— Bem, ok, ele pode ser uma má ideia, mas —

— Mas o quê? A gente fica todo esse tempo tentando agir como adultos, querendo que os outros levem a gente a sério, e quando as coisas ficam sérias de fato vamos entregar na mão dos humanos para resolver os nossos problemas? Eles não se importam com a gente! Olha pra eles, evacuando todas as pessoas pra fora, lutando contra o inimigo e ignorando a arma de destruição em massa que pode matar todos nós! Ou a gente é uma equipe séria, ou não é! Não tem meio termo!

Cassian abriu um sorriso curto de canto. Ela não precisava ter feito um discurso para convencê-lo, mas foi bom ver acontecer ainda assim. Porque, no fim das contas, era sobre isso. Não importava se os Vingadores podiam ou não resolver o problema. O que importava é que aquele problema era deles, era o tipo de coisa a qual iam passar o resto da vida lutando contra. E estava na hora de começar.

O mutante se levantou, controlando Cassandra com a mão. A sombra avançou usando as outras sombras do local para se esticar mais, e ele conseguiu fazê-la aparecer na frente do Homem-Aranha, o chamando a atenção. O herói olhou e Cassian acenou, chamando-o para perto. Estava na hora de colocar ordem na casa.

O Homem-Aranha lançou uma teia, saltando para cima do carro que servia de proteção para eles.

— Olá, crianças. Vocês não deveriam estar em um lugar mais seguro?

— Vocês não deveriam estar desmontando a bomba exterminadora no meio da rua? — Cather questionou, a boca tremendo de leve.

— Ah, entendi, vocês são mutantes. Deveríamos, mas nossos dados sobre terrígeno não são tão extensos e aquele negócio é perigoso. Estamos evacuando primeiro.

— Não adianta evacuar — Cassian cortou. — A propagação da névoa de terrígeno vai engolir a cidade inteira se aquilo disparar. Não temos tempo pra isso. Queremos que você diga a seus colegas Vingadores pra abrirem caminho, e nós vamos lá resolver o problema.

— Vocês? Eu não sei —

Ele foi interrompido por um som forte de propulsores, e logo o Homem de Ferro estava pairando ao seu lado.

— O que tá acontecendo aqui?

— As crianças disseram que podem desarmar a bomba.

— Disseram, é?

O Homem-Aranha assentiu, e a dupla encarou o grupo por um instante. Cassian desejou que eles se resolvessem logo. Não gostava de perder tempo com isso.

— O que você acha? — Tony Stark perguntou.

O Homem-Aranha deu de ombros.

— Parecem ter a idade que eu tinha quando comecei. Lidei com coisa pior. E não sei se temos tanto tempo quanto gostaria pra descobrir como desligar aquilo.

— Hm. Vocês são as crianças do Bobby?

Cassian soltou uma risada sarcástica abafada.

— Sinceramente, não me ofenda. Não. Mas eles devem estar vindo aí. Vai ser bom ter reforços.

— Vocês sabem que ao lado daquela torre é literalmente o lugar mais perigoso para estarem agora, não é? — O Homem de Ferro continuou. — Vocês podem morrer.

Cassian engoliu em seco. Ao seu lado, Cather assentiu.

— Eles mataram meu irmão, Sr. Stark. Estou disposta a correr o risco pra isso não acontecer com mais ninguém.

O Homem de Ferro suspirou, olhando para o céu por um breve instante.

— Às vezes eu esqueço o quanto vocês crianças com poderes passam tão cedo na vida, sem poder evitar. Eu sinto muito, garota. Tudo bem. Vamos deixar vocês fazerem o que precisam. Mas se algo der errado, gritem. Algum de nós vai encontrar vocês.

Cassian assentiu, e a dupla deu as costas voltando para ajudar na evacuação e na detenção de soldados da I.M.A..

— Bem, temos a bênção. Mas como vamos fazer? — Marlene questionou.

— Odeio dizer isso — Cassian respondeu. — Mas a primeira coisa que precisamos fazer é encontrar os Novos Mutantes.

[...]

Luke sabia que sentia falta de Nath. Ele sabia o quanto sentia falta de Nath, e não conseguia parar de pensar no garoto, todos os dias, o tempo inteiro. Sabia que tinha cometido seus erros, mas sabia que Nath também tinha cometido os dele, e no fim das contas, só queria poder falar sobre tudo, colocar as coisas no lugar. Se desculpar por ter dito o que tinha dito, como tinha dito. Por não ter tentado ajudá-lo melhor.

Em vez disso, o reencontrou no meio da rua, em frente à Mansão Xavier destruída e rodeado de soldados desacordados. Nath tinha os mesmos olhos, o mesmo sorriso, a mesma postura… Mas braços mais fortes, o queixo erguido de um jeito que nunca tinha visto nele antes e sem cabelo algum na cabeça.

Não achava que pudesse se apaixonar ainda mais por ele, mas havia algo no sorriso confiante em seu rosto que quase fez Luke derreter no lugar.

— Eu não sei se vocês viram — Nath falou, como se não tivesse acabado de derrubar meio batalhão sozinho, ou revelar que tinha pegado roupa emprestada com a mãe. — Mas tem alguma coisa dando muito errado no centro da cidade.

E ele estava falando, o que também era pouco usual. Embora ele fosse surdo, e não mudo, Nath costumava ter uma preferência pelo ASL. Seria isso alguma outra mudança mais permanente, ou só uma tentativa de falar mais fácil com o restante do time em uma situação que exigia reação rápida? Não sabia, mas tinha gostado de ouvir a voz dele. Estava mais grossa do que se lembrava, forte. Enviou um arrepio pela espinha de Luke que ele tentou ignorar.

— Minha nossa… — Amália comentou, com o celular em mãos, passando entre postagens no Instagram da equipe. — É o fim da linha. Estão tentando transformar a cidade inteira de uma vez…

— E matar os mutantes no processo — Damon resmungou, espiando o celular por cima do ombro dela. — A nossa conta tá recebendo dezenas de mensagens.

— É claro que tá, deve tá todo mundo aterrorizado — Amália respondeu, abrindo as mensagens uma por vez, vendo um pedido de ajuda mais desesperado que o outro. — Se aquela torre ativar, a população mutante de Nova York inteira vai estar… Oh.

Luke sentiu um tapa leve no ombro, e se virou vendo Nath com uma expressão confusa. Em seu choque, tinha se esquecido de traduzir tudo pra ele, e se apressou a explicar o que estava acontecendo, ainda olhando para Amália enquanto ela começava a digitar.

— O que foi? — Ele perguntou, sustentando os sinais para Nath.

— Eu recebi uma mensagem daquela garota da Irmandade, a de cabelo roxo. Eles estão do lado da torre e dizem que vão tentar derrubar, mas precisam de ajuda.

Todos os olhares se voltaram para Luke.

O garoto respirou fundo. Uma torre inteira de terrígeno no meio da cidade não era pouca coisa, e era facilmente a coisa mais perigosa com a qual já tinham sido confrontados. Por menos que isso, já tinha visto pessoas morrendo, e outras chegando perto demais disso. Não era uma missão comum.

— Não vou dizer a nenhum de vocês para ir — ele anunciou. — Não vou fazer discurso nem tentar convencer ninguém. Existe uma chance muito alta de morte para qualquer mutante que resolva ir, e esse é o tipo de decisão que vocês tem que tomar sozinhos. Não vou julgar ninguém que queira ficar para trás.

— Mas você vai, não é? — Grace questionou, flutuando a alguns centímetros do chão.

— É. Eu vou, sim — Luke respondeu, soltando um suspiro derrotado.

Jamais conseguiria deitar a cabeça no travesseiro se algo desse errado, a torre se ativasse ele tivesse fugido e se escondido, deixado dezenas de pessoas morrerem sem nem mesmo tentar ajudar. E sabia que talvez ele mesmo não voltasse vivo dessa decisão. O pensamento era assustador, mas ele sabia, de uma forma muito firme, que era a coisa certa a se fazer, mesmo que fizesse um suor frio escorrer por suas pernas, e os pelos de sua nuca se arrepiarem.

— Bem — Damon comentou, se abaixando ao lado de um dos soldados derrubados por Nath e começando a recolher armas e um colete à prova de balas dele. — Não vou deixar você se divertir sozinho. Já sobrevivi a esse negócio uma vez com uma bala enfiada no estômago, o quão pior pode ser da segunda vez?

Luke abriu a boca para dizer que poderia ser bem pior, e que isso não era motivo bom o suficiente, mas Damon já estava de pé vestindo o colete e olhou para ele recarregando o pente da arma.

— Não responde — o garoto disse, enfiando as pistolas nos coldres da calça.

E não era apenas Damon. Grace flexionou as asas, Amália alongava os dedos e Balu já estava caminhando aos poucos para a frente, procurando um caminho em direção ao centro da cidade que conseguissem atravessar. E então, ficaram Luke e Nath no fim da fila.

O silêncio era constrangedor. Luke pigarreou baixinho, abaixando o rosto, e Nath começou a andar, seguindo o resto do time, mas com o passo mais lento, ficando para trás de propósito com Luke. Precisavam mesmo conversar, mas Luke se viu dividido entre a vontade de acabar com a tensão entre eles, e o receio do que iria acontecer depois.

Da última vez que tinham se falado, tinha sido praticamente para Nath dizer que eram irremediavelmente incompatíveis. Que Luke era “muito bom” para Nath — uma baboseira a qual Luke tentou rebater insistentemente, mas que Nath parecia muito firme em pensar — e que não poderiam estar juntos. Mas o Nath que tinha falado isso, tinha o feito de cabeça baixa, expressão triste e pouca confiança em si mesmo. Não era esse o garoto ao seu lado.

O Nath que andava com ele estava de cabeça erguida, as mãos nos bolsos e o olhar relaxado. Parecia em paz. Algo tinha acontecido em todo esse tempo, e Luke tinha certeza de não ser resultado do término dos dois. Não podia ser, quando Nath ainda parecia feliz em sua companhia daquela forma. Então, só havia uma alternativa.

Luke acenou ao lado de Nath, chamando a atenção dele brevemente.

“Então… você falou com sua mãe.”

— Falei — ele respondeu, e mais uma vez, Luke tentou conter o arrepio na espinha ao ouvir a voz dele tão perto de si. — Ela é incrível, Luke. Estou morando com ela. Ela me deu essa roupa, e me ajudou a entender meus poderes… Eu estava falando com ela agora mesmo. Tem muita coisa pra olhar, muita mesmo… Pode ser que eu tenha fator de cura, visão de calor…

Luke deixou o queixo cair, devagar. Tudo isso, e Nath dizendo que “não era bom o suficiente” para ele.

“Espero que isso tenha tirado aquela baboseira de “não ser bom” da sua cabeça.”

Nath parou de andar. Ele se virou para Luke de uma vez, e o garoto sentiu um frio no estômago. Havia um olhar sério no rosto dele, mas ele não parecia bravo, ou irritado. Parecia… ansioso.

— Não vai ser fácil ficar comigo — ele comentou. — Até agora todas as notícias foram excelentes, mas eu só tive uma conversa com minha mãe. Eu ainda estou descobrindo quem eu sou. Pode aparecer todo tipo de… bizarrice.

Luke deu de ombros. Não esperava nada diferente disso. Eram mutantes. Por muito tempo, a vida seria uma novidade atrás da outra, e nem sempre poderiam esperar pelo melhor.

“Eu descobri no dia que nos falamos que posso soltar laser pelos olhos. A vida vai sempre ser uma caixinha de surpresas pra nós. E… Bem, se eu não estivesse pronto pra um pouco de aventura, não estaria caminhando em direção a uma torre gigante da morte.”

Ele deu uma risadinha nervosa. Não sabia como Nath ia reagir a isso, e não queria soar desesperado, mas se sentia desesperado. Ver Nath tinha acabado em segundos com todo a estabilidade que tinha construído em seu coração para estar longe dele. Ainda o amava tanto quanto antes. Talvez ainda mais.

— É serio, Luke —

“Estou falando sério também! Eu nunca tive um problema com o que quer que você possa descobrir, o que eu nunca gostei foi que você não quisesse saber. Você me disse que achava que podia ou não podia fazer isso ou aquilo, mas não quis investigar, e… Ok. Eu fui egoísta. Eu não devia ter dito que você não ligava pra nós, a escolha não era essa. Eu entendo que você teve medo. Mas…”

— Mas você tinha razão. Eu precisava saber. É meu corpo, eu preciso saber como ele funciona, não só pro meu próprio benefício mas dos outros também. Eu devia ter te escutado.

“Eu devia ter entendido melhor como isso te assustava. Me desculpe.”

Nath deu um sorriso curto, de lado, e estendeu a mão, segurando a de Luke e entrelaçando seus dedos no dele. Luke tentou não parecer tão ansioso quanto se sentia, mas sabia que estava falhando.

— Esse tempo todo… Eu não deixei de amar você.

Luke pensou em dizer que também não, mas as palavras morreram em sua garganta, misturadas ao bolo de lágrimas de emoção que se acumulava ali. Não achou que fizesse diferença, de qualquer forma. Estava escrito em seu rosto o que sentia.

— E… Se ainda me quiser… No fim das contas… Eu sou venenoso sim, mas não com um beijo.

“Você… quer me beijar?”

— Não tenho pensado em outra coisa desde que saí da reunião com minha mãe…

Nath apertou os dedos de Luke de leve ao dizer isso. Parecia envergonhado, embora o rosto não corasse.

Luke também não pensava em outra coisa já fazia um bom tempo. Tinha beijado alguns garotos antes, mas agora que parava para pensar nisso, comparado com o quanto queria beijar Nath, não chegava a se comparar de forma nenhuma. Era a diferença entre querer beijar, e querer beijar alguém em específico, e nesse caso, Nath. Queria beijar Nath, abraçá-lo, dormir ao lado dele, conhecer sua família e apresentá-lo para sua. Queria tê-lo ao seu lado. Simplesmente o queria.

Era o pior momento possível, é claro, no meio de uma cidade destruída, caminhando em direção a uma situação de risco de vida e sem saber quando se veriam de novo. Mas era exatamente por isso. Não queria pensar muito nisso, mas se fosse ser realista, tinha de reconhecer, essa poderia ser a única chance deles. Desejou que não tivessem perdido tanto tempo, mas não ressentia Nath. Ele tinha feito o que podia quando podia fazer, e estava orgulhoso dele por ter enfrentado um medo daquela forma. Mas seria impossível não pensar que o momento não teria como ser pior.

Mas era o que tinham, e ia abraçar cada segundo.

Ele enlaçou o pescoço de Nath, e não esperou um instante a mais sequer, colando seus lábios nos dele. O garoto o abraçou para perto pela cintura, e enquanto seus lábios se tocavam, e depois o beijo se tornava algo mais profundo, com os dedos apertando a pele um do outro, suas línguas se encontrando em uma carícia delicada, que ele percebeu como estava certo sobre seus sentimentos.

O beijo era apenas um beijo. Um bom beijo, mas um beijo ainda assim. Era o corpo de Nath, o cheiro dele e o coração dele batendo contra seu peito que fizeram aquele momento ser o que Luke se lembraria como um dos melhores de sua vida. E ia agarrá-lo contra si com todas as forças, para que fosse o primeiro de muitos.

[...]

Seria difícil, senão impossível, seguir com Luke e Nath até o olho do furacão e não perceber o que tinha acontecido. Quase dava para cheirar no ar. E embora Damon estivesse feliz por eles, muito para sua surpresa que não esperava tamanha empatia de si mesmo, não pode deixar de pensar em Theo quando os viu juntos daquela forma.

Ainda não tinha falado com ele. A cada dia, parecia mais impossível que isso fosse acontecer, mesmo que sua coragem e vontade viesse aumentando aos poucos, muito por incentivo de Amália também. Mas à medida que sua coragem individual aumentava, ela vinha acompanhada de um medo cada vez maior de rejeição, algo que jamais imaginou que fosse sentir. Era bonito, rico, e bem menos egoísta do que costumava ser. Devia ser simples pensar que poderia ter quem quisesse ao seu lado, exceto a parte em que ele queria exatamente quem tinha conseguido magoar.

Ele tentou ignorar Luke e Nath atrás de si enquanto seguiam, porque não estavam indo fazer algo nada fácil e não podia ficar se distraindo com esse tipo de coisa. Encontraram a Irmandade de Mutantes acomodados entre um ônibus caído e um carro esporte, servindo de barricada vários metros atrás do que era um perímetro formado por soldados da I.M.A. ao redor da torre. Pelo que tinham averiguado, os outros herois da cidade estavam ocupados de abrir um perímetro, afastar as pessoas e fazer centenas de testes de DNA de emergência para tentar identificar e evacuar primeiro as pessoas que fossem mutantes ou tivessem gene de inumano dormente.

A prioridade deveria mesmo ser ajudar as pessoas, Damon não tinha se divertido nada com seu problema com terrígeno e imaginar aquilo afetando a cidade inteira de uma vez iria no mínimo causar um colapso hospitalar, e no máximo destruir Nova York. Ainda assim, o quanto antes pudessem desmontar a bomba, menor seria o dano causado às potenciais vítimas.

Estava se sentindo responsável de repente. Não gostou.

Felizmente não precisava se preocupar tanto com isso tendo Luke pra tomar a dianteira do time, podia simplesmente focar em bater e atirar nas coisas certas.

— Qual a situação? — Ele perguntou, à medida que o time se aproximou dos rivais.

Era estranho estar no mesmo ambiente que a Irmandade e não se preocupar com atirar neles imediatamente. Além do que compunha a atual formação do time, ele reconheceu dois dos Carrascos e um garoto peixe que não conhecia, mas lembrava Niko mencionar um inumano que servia à descrição, e tinha se mudado para Nova York, e a coincidência parecia grande demais para não ser esse o caso.

— Formaram um perímetro — Anúbis explicou, abaixado atrás do ônibus. Damon e o resto do time se juntaram a eles. — Não dispararam a torre ainda, achamos que estão esperando a maior quantidade possível de herois mutantes chegarem aqui. É possível que estejam esperando pelos X-Men.

— Temos que nos certificar de que eles não precisem vir — Luke respondeu. — Destruir tudo antes que a I.M.A. tenha a chance de detonar. Em descrições breves, que habilidades você tem do seu lado?

— Mexer com sombras, virar gato, controlar emoções, controlar animais, fazer vento, quebrar coisas e mexer com água. Você?

— Luz e laser, quebrar coisas, manipular fumaça, voar, curar e uma bomba de PEM que atira nas coisas.

Damon franziu a boca. A descrição era muito rasa, mas ia ter que servir.

Ficou claro rápido que era uma biblioteca de poderes muito variada, e que ambos os lados tinham pessoas que seriam muito boas em espaços diferentes. Se quisessem que isso desse certo, algo simples como um grupo atacar o perímetro e o outro se focar na torre não iria resolver o problema. Iam ter de se misturar.

— Precisamos de uma trégua — Luke comentou, estendendo a mão. — Completa e oficial.

— É, eu reparei — Anúbis respondeu, apertando a mão de Luke brevemente. Então ele tirou o capacete de cachorro e a capa, colocando óculos escuros no lugar.

Damon conhecia aquele cara. Não era o namorado de Niko?

— Você não é —

— Você vai ficar calado — Cassian cortou. — Isso não é um gesto de confiança, é praticidade. E se eu for morrer quero que as pessoas possam ver minha carinha bonita.

Não era comum para Damon obedecer a qualquer um que o dissesse para ficar calado, mas o choque o paralisou por um instante. Tanto que ele precisou de Amália o cutucando insistentemente no ombro para perceber que seu telefone estava tocando.

— Não vai atender?

Damon grunhiu. Quem raios poderia estar o ligando logo agora? Ia dizer que não, mas o barulho o irritou o suficiente para querer pegar o telefone e simplesmente recusar a chamada. Ao menos era seu plano, até ver o nome de Theo na tela.

Ele sentiu o sangue fugir do rosto, o coração acelerar. Depois de todo esse tempo… agora? Por quê? O que deveria fazer? Como… E se desligasse, e Theo nunca tentasse ligá-lo de novo? E se morresse hoje e não tivesse falado com ele? Mas isso lá era hora? E se…

— Ah, pelo amor de Deus — Amália resmungou, pegando o telefone da mão dele e atendendo a chamada. — Olá, aqui é a Amália dos Novos Mutantes. Isso provavelmente é uma hora ruim, mas o Damon vai adorar se você ligar de novo mais tarde.

— Amália! — Damon repreendeu.

— Aham. Aham. Oh! Certo — então Amália tirou o telefone do ouvido, apertando um botão e colocando a chamada no viva-voz. — Pronto. Todo mundo te escuta, Irmandade e Novos Mutantes.

— Obrigado — Theo disse, e Damon sentiu o estômago se revirar em uma centena de cambalhotas diferentes. Não era para estar falando com ele assim, agora. Era para terem tido tempo, feito tudo aos poucos. E por que ele queria falar com o time inteiro? — Eu tenho informações sobre como desarmar a bomba de terrígeno no centro da cidade.

— O quê? Como?! — Damon disse, antes de conseguir se conter. Não soube se isso teria qualquer efeito em Theo também, mas imaginou que a pequena pausa que ele fez antes de responder indicasse que sim.

— Eu sou da S.H.I.E.L.D.. Detalhes não importam. Estou me aproximando com Niko em um quinjet, vamos estar aí em cinco minutos. Se colocarem a gente do lado da torre podemos desativar o mecanismo automático, mas ainda é necessário dar um jeito de levar todo esse terrígeno embora antes que seja um problema ainda assim. Entrei em contato com um inumano de Attilan que está morando em Nova York, ele já está vendo com Attilan como vão fazer a retirada. Até lá, temos que desativar a bomba. Vemos vocês em breve.

E a ligação caiu. Damon sequer respondeu, e tinha terminado com um vemos vocês em breve. Amália colocou o telefone em sua mão depois da chamada ser desligada, e Damon tentou absorver o que tinha acontecido nos últimos segundos, mas apenas parte de sua atenção pode ser dedicada para isso quando Luke e Cassian, que discutiam planos às pressas, se viraram para o restante dos presentes para anunciar.

— Ok, aqui vai o que vamos fazer — Luke comentou. — Grace, suporte aéreo. Se certifique de que não estão mandando nada pelos ares para nos atacar. Também ajuda se distrair alguns dos soldados com armas de longo alcance. Balu, você fica do lado de fora, é onde a maior parte da ação vai estar. Você pode ser necessário. Eu, a garota-gato, a que fala com os bichos, a empática, os ex-Carrascos e o inumano vamos fazer a maior parte do volume aqui fora, criar um pouco de controle de grupo. Damon, os agentes da S.H.I.E.L.D., Nath e o líder dos Inumanos vão pra torre — ele continuou, engasgando por um instante. — O líder deles disse que é imune a terrígeno e que a garota-gato é bem susceptível, então ele não quis deixar ela entrar.

— E porque eu tenho que entrar com a S.H.I.E.L.D.?

Damon sabia que seria interpretado como preocupação com o terrígeno, mas a verdade é que não conseguia entender como com tanta gente ali tinha tido a sorte de ser jogado para junto de Theo logo de cara em uma situação como essas.

— Por que você é um botão de ligar e desligar as coisas vivo. Não sabemos como a bomba está conectada, Damon.

Merda. Ele tinha razão.

— Alguma outra objeção?

Ninguém tinha nada a dizer. Esse plano era tão bom quanto qualquer outro, considerando a situação maluca e delicada na qual se encontravam.

— Então é isso — ele comentou, suspirando. — É hora do show.

Luke e Cassian se olharam por um instante, as mãos erguidas com o punho fechado em um sinal para suas equipes esperarem. Então Cassian murmurou “vai” e eles deram o sinal para a primeira parte agir.

Damon teve de admitir, para um time feito de uma mistura de pessoas que nunca tinham trabalhado juntas, até que a coisa começou a funcionar. Luke não conhecia como os integrantes da equipe de Cassian lutavam, mas tinha pegado o grosso dos poderes e isso já bastou para que ele comandasse um ataque que logo começou a atrair o perímetro de guardas à frente da torre para longe.

Então Cassian deu o sinal, e o grupo dele começou a avançar, por trás dos carros e outros destroços, tentando não serem notados pelos guardas agora focados no ataque de distração da equipe de Luke. Damon conferiu a carga das armas, tirando as travas e respirando fundo a cada passo. Em algum lugar no caminho encontraria Theo. Depois de anos. E não podia nem mesmo se focar nessa parte da informação quando tinham algo tão importante para fazer.

Foco, Damon. Foco.

À medida que avançavam, Damon espiava entre os carros, por cima dos blocos de concreto, tentando ter uma visão limpa da entrada da torre, esperando quando finalmente teria um deslumbre de Theo. Demorou bastante. Eles furaram aos poucos a linha de proteção dos soldados enquanto Luke e os outros criavam a distração, mas quando estavam a uma barreira de distância, ele o viu.

Ali estava Theo. Mais alto e forte que se lembrava, principalmente nos braços. Segurava uma pistola nas mãos, abaixado atrás de um carro ao lado de Niko, com o garrote enrolado na mão. Damon sabia que ver Theo depois de todo esse tempo seria difícil, mas não esperava o tamanho do acalento que engoliu seu peito ao ver Niko com ele.

Gostava de seu time, muito para sua própria surpresa. Considerava Amália uma de suas melhores amigas. Mas desde o começo, tinham sido os três. No pior momento de sua vida, tinham sido os três. E depois de anos, pela primeira vez, estavam ali.

Damon se pegou correndo, agachado, na frente do time e ignorando o comando de Cassian até chegar na dupla atrás da barreira da frente. Niko não demorou a avançar, o abraçando apertado, algo que ele se sentiu grato em poder retribuir.

Então o abraço terminou e Damon parou, sem reação. Ele e Theo se olharam, de forma um pouco constrangedora. Nenhum dos dois parecia saber o que dizer, ou fazer. Um pouco sem jeito, Damon levantou uma mão, acenando.

— Olá.

— Oi.

— Sério, gente? — Niko perguntou, olhando por cima do ombro de Damon.

Cassian chegava agora com o resto do time, e Damon ficou feliz em ver que o clima não parecia muito melhor entre ele e Niko, que apenas se cumprimentaram com um aceno de cabeça.

— Estamos quase na base da torre — Cassian comentou. — O objetivo é achar o mecanismo de ativação. Vocês da S.H.I.E.LD., o que tem aí?

— O projeto — Theo comentou, pegando um tablet e mostrando uma série de imagens esquemáticas. — O terrígeno está construindo ao redor de canos de água com tubulação conectava ao sistema hidráulico da cidade. Há vários furos entre os cristais pra névoa sair de dentro pra fora. Tudo funciona com um apertar de botão, então temos que nos apressar, antes que a I.M.A. decida que vale a pena gastar a bomba com vocês mesmo.

Theo olhou para Damon ao falar isso, a voz soando ansiosa e o olhar assumindo um tom preocupado. O mutante tentou ignorar o leve calor que subiu ao seu rosto, apertando a empunhadura da pistola. Foco.

— Como vamos desativá-la? — Amália questionou.

— Eu provavelmente posso desligar com um disparo de PEM — Damon sugeriu. — Se o mecanismo for elétrico.

— Não é uma boa ideia — Theo cortou. — Ela pode estar programada para disparar na falha. Se for o caso, um disparo seu vai ativar a bomba imediatamente. Tem que ser um desarme manual, e isso vai levar tempo. Eu posso fazer, mas preciso de cobertura.

— Podemos cobrir você — Cassian respondeu, antes que Damon pudesse dizer algo como “onde você aprendeu a desarmar uma coisa dessas” ou “isso é uma ideia ruim”.

A verdade era que enquanto tudo se desenrolava ao seu redor, ainda estava tentando processar a parte na qual estava vendo Theo de novo. Falando com ele. Não conseguia prestar atenção no ambiente ao seu redor enquanto sua cabeça ainda estava processando isso.

Mas precisou se virar, e rápido, porque logo já estavam se movendo de novo. E dessa vez, não iam parar até chegar lá. Damon ergueu as pistolas, se preparando. Ainda estavam se escondendo, atrás de carros e barricadas, mas eventualmente seriam vistos, e precisaria estar pronto.

Por melhor distração que Luke e os demais fossem, nem todos os guardas deixaram o pé da torre, e ficou claro muito rápido que o ponto no qual estavam se concentrando era onde seria possível acessar o painel de controle. Eles pararam atrás de um dos últimos veículos tombados, e Damon se preparou para atacar.

— Eu pego os da direita — ele anunciou, vendo Theo preparando sua arma e Cassian agarrando a lataria do carro. A sombra do veículo se movia de forma suspeita. — No três. Um, dois… Três!

Ele e Theo se levantaram, apontando as armas e acertando de uma vez no peito dos soldados. Cassian tinha usado sua sombra para se estender até os soldados do canto oposto, se erguendo do chão de vez como tentáculos sólidos e o pegando pelo pescoço, o jogando no chão.

Niko, e Nath eram combatentes de curta distância, então esperaram até o caminho ficar livre para seguir com os demais. Uns dois soldados pareceram ver o que estava acontecendo, e a dupla correu até eles, Nath desacordando o homem com um soco forte no rosto, e Niko saltando nas costas dele e puxando o garrote sobre o pescoço.

Damon decidiu que tinha de confiar que eles iam conseguir, e focar em ajudar Theo. O grupo se aproximou da torre, devagar, mas não precisaram procurar muito pra achar o que estavam procurando. Havia um painel metálico bem onde os guardas desacordados agora jaziam no chão, o tipo que poderia muito bem ser um controle.

Ele forçou a tampa do painel, o abrindo de uma vez, e começou a analisar. Damon piscou os olhos, um pouco surpreso com a facilidade com a qual ele tinha aberto aquilo, e como os braços dele deviam estar fortes pra fazer isso, e…

Céus. Não era o tipo de pensamento que jamais tivesse percorrido sua cabeça antes. Nunca tinha se permitido admirar Theo dessa forma, mas agora, ali estavam, e ele tentava ignorar o sorrisinho de lado no rosto de Amália vendo a situação.

— Fique quieta — ele grunhiu entre os dentes, a arma erguida, esperando para atirar quando fosse necessário.

— Não falei nada.

Suspirou, olhando para Theo pelo canto do olho. Ele tinha começado a analisar os fios por trás do painel, depois de desparafusar um pedaço.

— E então? — Perguntou, achando melhor conversar sobre algo para se distrair.

— Não tenho certeza.

— Não tem certeza? — Cassian perguntou. — Você não disse que podia desligar?

— Eu preciso de um minuto. Façam a parte de vocês.

Não era uma resposta muito reconfortante. Damon engoliu em seco, ainda vigiando os arredores. Niko e Nath resolveram o problema com os soldados mais próximos e se aproximaram do grupo. O time montou um círculo ao redor de Theo, as costas voltadas para ele e prontos para defender a posição se fosse necessário. O grupo de Luke estava lidando muito bem com a situação por enquanto, mas Damon não conseguia afastar uma sensação de que algo de estranho estava acontecendo. Aquela torre não devia estar mais bem protegida?

— Eu tenho um mal pressentimento sobre isso — Damon resmungou.

— Para de jogar praga, Obi-Wan — Theo brincou, agora com uma chave de fenda em mãos. — Eu só preciso de um pouco de tem —

A fala de Theo foi interrompida pelo que pareceu, a princípio, um vendaval, mas logo se mostrou ser uma tempestade de areia. Damon cobriu os olhos com o braço, tentando espiar pelos cantos pra ver o que estava acontecendo e de onde raios isso teria vindo. Acabou vendo, uns metros para sua frente, um garoto loiro com veias vermelhas parecidas com os desenhos na torre de terrígeno se espalhando por sua pele.

Segurou a pistola, a apontando para o garoto, e atirou. A bala bateu em uma parede transparente de vidro balístico, e Damon resmungou, vendo que não ia conseguir usar a arma assim. E esse era só o começo.

Uma garota de olhos estreitos e cabelo escuro se jogou contra Theo, o puxando para longe do painel. Ele estava indo bem em desviar dos golpes dela, o que era no mínimo aliviante porque os golpes que ela acertava no chão estavam rachando o concreto. Ela tinha poderes também.

O cara da areia podia ser problema dos outros. Theo estava dando sorte, mas um soco daqueles faria um estrago muito grande. Ele apontou a arma de novo, agora acertando o tiro nas costas da mulher, atrás do ombro direito.

Ela cambaleou, caindo de joelhos no chão por tempo o bastante para Theo voltar correndo para o painel. A tempestade de areia começou a piorar, mas se Theo conseguisse terminar o que estava fazendo, então isso não seria problema porque poderiam sair dali e deixar a Attilan recolher o terrígeno. Era só esperar mais um pouquinho, só mais um pouco…

Foi sorte que fez Damon ver um soldado da I.M.A. se aproximando por trás da torre. Os próximos instantes aconteceram rápido demais, em um espaço de segundos: o soldado ergueu o que parecia um controle remoto. Theo viu, pegando a pistola e apontando para ele, mas o soldado desviou, e Theo seguiu, agora entre Damon e o soldado. E, ao lado dele, o painel.

A qualquer instante o homem iria apertar aquele botão, e então estariam todos mortos de qualquer forma. Assim, Damon decidiu fazer o que tinham dito a ele pra não fazer: disparou um pulso de PEM em direção à torre.

A primeira coisa que aconteceu, por algum motivo, foi que Theo caiu no chão. Ele grunhiu e gritou, frustrado, e o pulso caminhou até o painel. No mesmo instante, a névoa de terrígeno começou a se espalhar no ar, e Damon viu, horrorizado, que o soldado tinha apertado o botão.

Ele prendeu a respiração, se abaixando. Para sua surpresa, vários dos soldados começaram a passar por terrigênese, tirando uma exceção de um ou dois que rapidamente foram desacordados pelos poucos mutantes ainda em combate, que não demoraram a prender a respiração também.

Então ele percebeu que a névoa não estava se movendo em sua direção. Em vez disso, parou ao redor da torre, começando a ser guiada, muito lentamente, pra cima. Atordoado, ele olhou em volta, tentando entender porque isso tinha acontecido, e encontrou Amália parada ao pé da torre, com as mãos para cima, comandando a névoa a subir.

Cassian derrubou o garoto da areia, e Nath correu até Theo para colocá-lo de pé, mas desistiu e jogou o garoto por cima do ombro. Os mutantes começaram a se reunir ali onde Amália estava, e Damon percebeu, aterrorizado, que o nariz dela começou a sangrar.

— Amália —

— Nem começa, Damon. Saiam daqui vocês todos.

Houve silêncio, por um instante. Um dos braços de Amália começou a tremer, e a garota franziu o rosto, se virando para os demais.

— Não estão me ouvindo? Quanto tempo acham que vai demorar pra I.M.A. achar um soldado de pé e mandar ele aqui me deter? E então?

Damon engoliu em seco, sentindo os olhos encherem de lágrimas. Isso não podia estar acontecendo. Era Amália. Sua Amália, sua amiga, a pessoa que tinha o mantido de pé nos últimos anos quando seus antigos amigos tinham sido arrancados de sua vida.

Amália que tinha passado noites com ele conversando sobre fofocas escolares e perguntando sobre as fofocas dele. Amália que tinha estado com ele enquanto descobria sua sexualidade. Amália que tinha torcido como ninguém para que ele e Theo ficassem juntos. Mesmo se ela sobrevivesse à névoa, a I.M.A. jamais a deixaria viva sabendo que ela podia estragar seus planos. Deixá-la ali era uma sentença de morte.

— Mas, Amy —

— MAS QUE DROGA, DAMON! Vocês estão gastando tempo!

— Eu tenho um avião aqui perto — Theo comentou, apontando a direção, ainda jogado sobre os ombros de Nath. — Se subirmos alto o suficiente podemos evitar a névoa.

— Não! A gente não pode —

— Tormenta, faça o Pulso obedecer — Cassian pediu.

Damon não teve tempo para reclamar antes da mão de Reese tocar seu pulso e ele sentir o pânico começar a sumir de seu corpo, dando lugar a uma sensação de clareza e responsabilidade que não estava ali antes. Ele acenou para Amália com a cabeça, incapaz de resistir ao impulso de auto-preservação em seu corpo, e então deu as costas à torre, com os demais, correndo em direção ao avião que Theo e Niko tinham pousado por ali.