Irmãzinha

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá! Esta história surgiu porque eu acho que o Baze e o Chirrut são um casal lindinho, e durante o filme o Baze chama a Jyn de "irmãzinha", o que eu achei uma coisa muito fofa. E aqui estamos.

Jyn Erso estava apreensiva. Baze apenas a encarava, com uma sobrancelha erguida e um olhar desafiador no rosto.

— Vamos lá, irmãzinha, exatamente como praticamos. Soque a tábua no lugar certo, com a força exata, e ela vai se partir.

— Eu vou me machucar – reclamou a garota.

— Você pode se machucar se fizer errado.

— E se fizer certo?

— Bom, você provavelmente vai se machucar também, mas não vai estar orgulhosa demais para se importar. Agor vamos, eu confio em você. Nós treinamos!

Baze segurou a tábua na altura dos ombros de Jyn. Ela deu um pequeno passo para trás e encarou o pedaço de madeira com raiva. Ela fechou os olhos e ergueu um pouco o braço. Então, enquanto expirava, soltou seu punho em direção à placa, socando um pouco abaixo do seu centro, mas estava claro que Jyn estava segurando sua força.

Suas articulações doíam na mesma, então Jyn soltou um grito agudo que pôde ser ouvido da pequena construção que ela agora chamava de casa. Não era nada além de dois quartos unidos: um, onde eles dormiam, e outro, mais pequeno, onde eles guardavam roupa, comida e armamentos.

Chirrut veio da porta do primeiro quarto, rápido como um relâmpago, e parou logo ao lado de Jyn, no meio da rua onde ela treinava com Baze. O monge sentou ao lado da menina e tateou o ar até encontrar o braço dela. Rápido, mas delicado, ele segurou suas mãos.

— Ela quebrou a tábua? – perguntou Chirrut, movendo o rosto na direção de Baze. O outro homem soltou um suspiro.

— Ainda não. Mas ela teria se não tivesse desistido no meio do caminho.

Eu não desisti— protestou Jyn – Talvez eu não seja tão boa quanto você pense.

— Você já me socou, irmãzinha, e eu sei que você é bem forte pra uma menina de cinco anos…

Eu tenho nove!

— Ei, os dois, talvez discutam depois, está bem? Baze, pegue as bandagens e os unguentos, os dedos dela estão machucados – Chirrut interrompeu, parecendo mais sério do que ele costumava.

— Por que eu? – perguntou Baze.

— Porque eu sou cego e ela é uma criança machucada! Seja rápido, Malbus!

Jyn riu e Chirrut conseguia sentir o revirar de olho de Baze. Mas ele sabia que nenhum dos dois estava realmente tão bravo quanto soavam, e que esse era só o jeito dos dois de provocarem um ao outro e cuidar de Jyn Erso.

***

Eles haviam encontrado a garota quase um ano antes, com fome, com frio, assustada e completamente sozinha. Ela havia deixado sua terra natal na nave de um contrabandista, e eventualmente acabou em Jedha, onde ficou nas ruas, mendigando e roubando comida.

Quando Chirrut passou por Jyn pela primeira vez, com um saco de pães, ela tentou roubar um pouco, notando que o homem era cego, mas foi pega no ato e recebeu um sermão. Chirrut deu-lhe o pão de qualquer forma, e a trouxe para casa consigo, perguntando sobre seu colar de cristal Kyber. Baze nem fez perguntas – apenas aceitou a presença de Jyn ali, e silenciosamente afeiçoou-se a ela.

Jyn não conseguia parar de pensar sobre seu pai e sua mãe – afinal, haviam sido brutalmente tirados dela, por motivos que uma criança não podia totalmente compreender, mas ela não se incomodava com seus novos amigos. Baze era resmungão, e Chirrut nunca se calava, mas eles faziam Jyn sentir-se segura quando nada mais no universo conseguia. Eles lhe deram comida e abrigo, e eventualmente, aulas de luta.

***

Já era noite. Chirrut estava sentado na pequena área coberta de grama logo atrás da casa, que era sua tentativa falhada de ter um jardim. O monge tinha seus olhos fechados e um sorrisinho calmo jazia em seus lábios.

Jyn observava da porta nos fundos do cômodo, sentada no chão com a cabeça apoiada no batente. Ela se perguntou o que Chirrut estava pensando. Jyn às vezes tentava meditar como ele, mas sua mente nunca estava calma o suficiente. Ela tinha a sensação que só pareceria boba se tentasse, e Chirrut riria dela – então Jyn desistiu de meditar.

Algo semelhante aconteceu com as aulas de luta de Baze, Jyn percebeu. Ele sempre a dizia o que fazer – onde mandar o soco, como chutar alguém no lugar certo para poder fugir rapidamente, e a única razão para Baze não a ter ensinado como usar um blaster era que Chirrut não aprovava uma criança atirando em pessoas. Entretanto, Jyn também não era uma grande lutadora. Ela confiava em Baze, mas não o suficiente para não temer se machucar. Ela não conseguia se convencer a usar toda sua energia na luta.

Enquanto pensava nisso, Jyn sentiu-se irritada consigo mesma. Por que não podia ser boa o suficiente? Ela não era calma o suficiente, nem corajosa o suficiente. Mas quando foi que sua coragem a abandonou? Não foram seus instintos de sobrevivência que a trouxeram para Jedha, para a segurança e seus novos amigos? Por que ela ficou tão covarde de repente? De onde veio todo o medo?

— Você está bem, pequena Jyn? A Força ao seu redor parece… confusa – perguntou Chirrut, sua expressão tão pacífica quanto antes – O que tem na mente?

— Nada – ela mentiu – Só estou cansada.

— Vá dormir, então. Está tarde demais para uma garotinha estar acordada.

— Onde está o Baze?

— Andando pela cidade. Você sabe que ele gosta de garantir que não tem nenhum problema, antes de irmos dormir – Chirrut respondeu, finalmente abrindo os olhos e acabando a meditação.

Ele agarrou seu cajado e se levantou em um movimento rápido.

— É a única coisa que o acalma de noite.

Jyn se levantou e voltou para dentro. Pegou roupas mais confortáveis e foi para a pequena divisão feita com cortinas presas ao teto, que Baze e Chirrut haviam feito para dar-lhe mais privacidade.

Baze chegou assim que Jyn deitou-se no seu colchão.

— Está tudo certo? – perguntou Chirrut.

— Sem problemas. Bom, nada que nos perturbe, pelo menos – Baze respondeu. Ele se ajoelhou e bagunçou os cabelos de Jyn – Tudo bem, irmãzinha? Como estão as suas juntas?

— Estão bem – ela respondeu, dando de ombros. Não sentia muita dor, graças a Chirrut – Um pouco marcados, só. Vão ficar bem em breve.

— Eu espero que sim, porque não vou desistir de você. Vamos te fazer quebrar aquela tábua de madeira.

— Deixe-a descansar, Baze. Jyn, hora de dormir.

— Está bem. Boa noite Chirrut, boa noite Baze.

Jyn voltou seu rosto para a parede e fechou os olhos, enquanto ouvia os passos de Baze se afastando dela.

***

Jyn não conseguia dormir. Ela continuava pensando sobre o que Baze havia dito sobre ela desistir no meio do soco, e a garota sentiu-se irritada consigo própria mais uma vez.

Ela se levantou, no meio da noite, e olhou ao redor. O quarto era mal iluminado por algumas velas no meio do chão. Não haviam janelas, e as portas estavam fechadas. Baze e Chirrut dividiam um cobertor, profundamente adormecidos. Em algum momento durante a noite, Chirrut havia se mexido, e agora dormia com metade do seu corpo sobre o peito de Baze. Baze roncava, e não pareceu se importar – e também não notou Jyn acordando.

Ela engatinhou até a porta dos fundos e a abriu vagarosamente, tentando não fazer barulho. Chirrut se remexeu um pouco, e murmurou algo sobre framboesas venenosas. Jyn mordeu sua língua para não rir. O monge sempre falava enquanto dormia, e Jyn se perguntou que tipo de sonhos estranhos ele tinha.

O pequeno jardim estava um breu, mas Jyn havia sido esperta o suficiente para pegar uma das velas e trazer consigo. Ela viu o lugar onde Chirrut gostava de sentar e meditar, marcado por um círculo de pedras que ele havia feito. As armas de Baze ficavam no pequeno quarto, mas o odiado pedaço de madeira estava jogado no chão. Era quase como se o objeto debochasse dela. Jyn Erso, fraca demais e com medo de machucar as mãos, não conseguia quebrar um pedaço de madeira.

Jyn olhou para as mãos. Seus dedos estavam cobertos por bandagens e o cheiro de ervas vinha do pano, por conta dos unguentos que ajudavam a diminuir a dor.

Suas juntas estavam um pouco doloridas, e uma pontada de dor a atingiu quando ela tentou esticar os dedos. Mas deixar a tábua ali não era uma opção.

Ela se movia antes mesmo de o perceber. Voltou par ao quarto e agarrou o cajado de Chirrut, que estava no chão ao lado do colchão onde ele e Baze haviam se deitado. Com cuidado para não fazer barulho, ela voltou para o jardim, com o cajado em mãos.

O cajado era forte – Jyn havia visto Chirrut usá-lo para bater em ladrões que o irritavam enquanto ele andava na rua. Nas poucas vezes que Jyn estava com Chirrut quando pessoas perigosas estavam perto, ela ficou surpresa com a habilidade do monge com seu cajado, usando-o para derrubar inimigos rapidamente e com poucos movimentos. Às vezes, Jyn pensava que Chirrut apenas fingia ser cego, mas imediatamente depois ele batia contra uma parede, ou tropeçava em tijolos, e sua cegueira era óbvia novamente.

A tábua de tijolo ainda estava no chão. Jyn colocou a vela no chão, perto da porta, e encarava seu inimigo, segurando o cajado de Chirrut nas suas mãos machucadas.

Ela fechou os olhos e tentou focar em seu objetivo, procurando palavras de encorajamento.

Seus pensamentos se desviaram imediatamente para o seu pai, o quanto sentia sua falta. Afinal, ele sempre foi a pessoa que lhe dizia que ela podia fazer tudo o que quisesse. Sua estrelinha.

Jyn viu o corpo da mãe caído no chão de novo, e o terrível homem do Império parado enquanto stormtroppers vasculhavam sua casa. Jyn pensou nos homens maus que ameaçaram seu pai, e em tudo que eles tiraram dela, toda a dor que ela sofrera nos últimos dezoito meses.

O colar de Kyber pareceu se aquecer no seu pescoço. Jyn sentiu algo que ela nunca havia sentido antes, algo que ela não podia explicar – ódio, raiva, tristeza e determinação, tudo misturado, mas não conseguia identificar estes sentimentos. Ela nem queria, porque a única coisa em sua mente era que precisava acabar com aquela tábua de madeira.

E foi o que ela fez.

Parada a alguns passos da tábua, ela ergueu os braços acima da cabeça e num piscar de olhos os moveu para baixo, com toda a força de seu pequeno corpo, movida por memórias manchadas por dor.

A tábua partiu-se em dois pedaços, fazendo um som alto. Jyn, entretanto, não estava satisfeita. Os maus sentimentos ainda ocupavam seu cérebro, então ela continuou atacando os pedaços, de novo e de novo, gritando.

— Jyn? Jyn, pelo universo, o que foi isso? – a voz de Baze veio de algum lugar atrás de si. Ele a segurou pelos braços para que parasse de se mover, e tirou o cajado de suas mãos – Nós acordamos com algo se quebrando, e os seus gritos, pensamos que estava sendo atacada!

A garota sentou-se no chão, o peito subindo e descendo num ritmo frenético enquanto ela respirava, com o coração acelerado. Jyn sentiu suas juntas e seus braços doerem, e uma dor de cabeça terrível. A voz de Baze estava raivosa, mas seu rosto estava cheio de preocupação. Ele a encarou em silêncio, por algum tempo.

— Baze, ela está chorando – Chirrut murmurou. Ele estava parado no batente da porta, tão silenciosamente que Jyn nem o havia notado ali. Ela também não havia notado que estava chorando até ele dizer – O que estava fazendo, pequena Jyn?

— Eu estava quebrando a tábua! Como o Baze queria. Mas eu não queria me machucar, então peguei seu cajado. Sinto muito – ela explicou, agora sentindo as lágrimas rolando por seu rosto – Ninguém disse que eu tinha que quebrar com as minhas mãos.

Chirrut se aproximou e se ajoelhou, tocando os pedaços de madeira espalhados pelo chão.

— E você fez um grande trabalho com essa tábua – ele murmurou – Te ouvimos gritando. Você está bem, Jyn? Por que está chorando?

— Não é nada – Jyn mentiu, mas o sentimento em sua voz a traiu – São só… as minhas juntas. Estavam doendo, então eu gritei.

— Você disse que não estava tão mau assim – Baze disse, cruzando os braços – E por que não esperou até de manhã?

Sem nada para dizer, Jyn chorou mais, agora também acrescentando “vergonha” aos sentimentos bagunçados.

Chirrut agora estava sentado ao seu lado. Ele colocou um braço ao redor de seus ombros e a trouxe para perto de seu peito, num abraço muito protetor. Ele abraçou Jyn enquanto ela soluçava. Baze encarou os dois, parado ao lado de Chirrut, aparentemente incapaz de fazer algo para acalmar a garota que chorava.

— Eu sinto falta dos meus pais – Jyn balbuciou, entre soluços – E da minha casa. Que quero ir para casa, Chirrut, eu quero ir para casa.

— Eu sei, querida – o monge balançou a cabeça. Sua expressão se tornou mais sombria, mais triste. Baze conhecia bem essa expressão. Ele sentia dor por não poder ajudar – Temo que não podemos te levar de volta para a fazenda dos seus pais. Mas podemos te oferecer nossa casa em Jedha.

— Você está aqui faz algum tempo, irmãzinha — Baze disse, finalmente, também sentando ao lado da garota – Espero que saiba que sempre terá um bom lugar para dormir, e um pouco do nosso chá horrível quando quiser.

— Meu chá não é assim tão mau, Baze – protestou Chirrut.

— Eu preferia beber xixi de Hutt do que aquela coisa que você chama de chá.

Esse comentário conseguiu arrancar um risinho de Jyn. Ela não soluçava mais, mas manteve-se abraçada a Chirrut por mais alguns momentos, antes de se afastar e secar as lágrimas com as costas das mãos, como se nada tivesse acontecido.

— Obrigada – Jyn murmurou, olhando para o chão – Eu me sinto melhor agora.

— Tem certeza? – perguntou Baze, erguendo uma sobrancelha.

— Sim, tenho certeza.

— Certeza, certeza? Porque da última vez que eu perguntei como você se sentia, você mentiu sobre as suas juntas.

— Eu estou falando sério agora – Jyn garantiu, e deu um sorriso tímido – Mas tenho um pouco de dor de cabeça. Acho que é por ter chorado.

— Eu posso te fazer um pouco de chá – Chirrut ofereceu, também sorrindo.

— A garota já não sofreu o suficiente? – questionou Baze.

— Vamos todos dormir, então – o monge concluiu, levantando.

Jyn também se levantou, segurando as mãos dele para o guiá-lo para dentro. Seu cajado estava nas mãos de Baze, e ele teria encontrado o caminho mesmo sem ajuda, mas Chirrut apreciou o gesto da menina, e não o impediu.

***

Os três voltaram para o quarto de dormir. Chirrut foi o primeiro a deitar de novo, e Jyn voltou para seu colchão logo depois dele, enquanto Baze permaneceu acordado por mais algum tempo, sentado em silêncio no escuro, aparentemente perdido em pensamentos.

Jyn estava quase dormindo quando ele sentou ao seu lado e cutucou sua cabeça.

— Ei, irmãzinha, está dormindo?

— Estava.

— Desculpe – Baze pausou, como se estivesse pensando no que diria depois – Eu só queria dizer que está tudo bem se você chorar e se desesperar às vezes. No final das contas, é só uma criança.

— Eu sei. Eu queria ser durona como você, ou esperta e calma como o Chirrut.

— Chirrut? Esperto? Ele deve ser o maior tolo que eu já conheci. Tem certeza que estamos falando da mesma pessoa?

Um pequeno movimento do homem cego fez Jyn e Baze olharem para ele. Baze suspeitou que ele não estava realmente dormindo.

— E eu não sou tão durão assim. Também tenho medo – ele continuou – E raiva, e tristeza, assim como você. Eu posso não chorar agora, mas quando era uma criança, não muito mais velho que você, e cheguei no templo, eu chorava o tempo todo.

— Você perdeu sua família também? – perguntou Jyn, incerta se aquele era um assunto que Baze gostaria de discutir.

— Sim. Homens maus levaram minha mãe, meu pai, e meu avô – Baze virou o rosto para olhar diretamente nos olhos de Jyn e pôs uma mão no seu cabelo, acariciando sua cabeça – E a minha irmãzinha também. Ela era bem parecida com você.

— Sinto muito – murmurou Jyn.

— Foi há muito tempo. É triste, mas… você se acostuma. Se tem algo que eu aprendi, Jyn, é que você não tem que lidar com a tristeza sozinho.

— Obrigada, Baze.

Ela então se sentou no seu colchão e abraçou o homem. Baze riu e deu um beijo em sua cabeça.

— Você deveria dormir agora, irmãzinha, ou vai estar muito cansada amanhã e o Chirrut vai nos dar um longo sermão.

Jyn deitou de novo, enquanto Baze ia para seu próprio colchão. Ele olhou para Chirrut, e pelo jeito que o monge tentava segurar seu sorriso, Baze teve certeza que ele tinha ouvido a conversa toda.

Notas finais
E aí, o que acharam? Espero que tenham gostado ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!