Iris
8 Starblind
As folhas escarlates percorriam leves a atmosfera, transpassando o bosque e cortando o ar em frente ao humano. Seus cabelos negros deslizavam soltos, bem como as crinas de seu cavalo contra o vento. Cruzavam a estrada ladrilhada por marfim alvo, conquanto no horizonte era possível observar a mudança para blocos acinzentados. Como um raio, afastavam-se dos domínios da capital do reino Ignídeo, com as instruções de seu líder Sephirot. O guerreiro observava os céus em tons alaranjados, e sentia falta da bela ninfa que agitara tão fortemente seus sentimentos, da qual não tinha informações há semanas. Tentara, sem retorno, enviar cartas através de um pégasus que a procurasse até os mais escuros cantos dos cinco reinos. Seus pensamentos caóticos o impediram de prosseguir, e desta maneira, parou com seu belo cavalo negro logo abaixo da copa de uma frondosa árvore. Retirou do fundo de sua algibeira um pequeno orbe, dado-lhe pela maga, que possibilitaria que entrasse em contato com a mesma. Concentrando-se naquele globo em tons violáceos, mesclados com cores azuladas, percebeu-se maravilhado quando pudera observar claramente a face de sua amada em um pequeno portal à sua frente.
-Vincent?
-Orube, minha amada... Eu tenho tentado tanto falar-lhe...
-Oh, meu querido! Como vão as coisas por aí? Eu sinto tanto tua falta...
-Eu estou bem, e você? A barda acompanha-lhe?
-Sim, e tu tens previsões de quando retornas? Passamos por alguns imprevistos, e temo que apenas as cantigas inspiradoras de Lúthien, unidas com minha magia, talvez não sejam suficientes para o que pode estar sobrepujando-nos... Creio que a Escola Obsidiana tenha envolvimento.
-Eu acabo de deixar a presença de Sephirot para ir de encontro à minha missão. Desculpe-me, minha amada, mas não posso dizer-lhe mais... apenas quero proteger-lhe, e sinto tanto que não possa estar ao lado teu para que minha espada a deixe livre de qualquer ameaça.
-Está tudo bem, Vincent. É necessário que cresçamos, e façamos isto sozinhos. Precisamos honrar nossas Escolas, e...
Em um relapso de tempo, uma fração de segundo, o portal desfez-se no ar. Pequenas partículas espalharam-se pelo ar, e caíram no gramado, recobrindo o orbe, que deixara sua coloração arroxeada para tornar-se alvo como as nuvens. O guerreiro, sentindo-se um pouco melancólico e, em parte, até meio bárbaro, sentiu uma preocupação crescente em relação à maga. Estaria ela bem, mesmo? Agitando a cabeça para desanuviar os pensamentos, desviou o olhar para seu equino, e tornou a montá-lo. Agora, ainda mais agitado pela necessidade de proteger sua ninfa, desejava ter os artifícios para tal.
-x-
Acordado subitamente pelo sátiro que acompanhava-lhe, o gnomo podia observar a preocupação nos olhos do shaman. Perguntara-lhe o que havia acontecido de tão grave em seus sonhos para que acordasse de forma tão brusca, mas sem respostas — além da respiração descompassada e expressão confusa no rosto de Licaste.
-Arauto... em perigo... Catalismo se... aproxima...
E ditas estas palavras, atropelando-se umas nas outras, o sátiro atravessou a porta da pequena casa, rumando o interior da floresta. Entendendo a necessidade do amigo em ficar solitário com os elementos, Groobnin tornou a deitar-se e descansar pelo que restava daquela noite.
Equilibrado em um ciclone de água, no meio de um extenso lago esmeralda, o shaman podia sentir ao seu redor todos os elementos em harmonia — contrastando-se com seu interior caótico. Seu sonho o mostrara uma face do futuro que nem mesmo a entidade mais puramente nefasta poderia desejar. Sua saída, então, era adentrar no mais profundo sonho de Orube, para que a mesma fosse avisada do inevitável.
-x-
Enquanto atravessava as terras corrompidas por algo que ainda não compreendia, Vincent sentia cada vez mais medo por sua amada. Não podia sufocar aquele sentimento crescente, embora tentasse lutar contra a angústia. Sentia a paz apenas quando, no anoitecer, podia ouvir a doce voz da ninfa ecoar pela sua mente, em sonhos lúcidos. Amenizava tudo isso, entretanto, a gratificação de Sephirot em seus esforços contra os discípulos da Escola Obsidiana, que tinham apenas o ego em suas ações desprevenidas.
Sua missão final naquele reino parecia relativamente simples, como havia pensado, mas atravessava perigos bem maiores dos que se poderia imaginar. A procura por um artefato tão fortemente protegido por mãos inimigas não poderia ser algo realmente difícil, mas a que custo seria necessário lutar? Fechara os olhos novamente, tornando a adormecer na pequena estalagem do vilarejo que encontrava-se.
Pela manhã, acordou-se com a brisa levemente quente por saudar o dia. Observou um pequeno pergaminho ao lado de sua cama, e, sem devaneios, violou o lacre. Era de Sephirot, e dizia-lhe que sua missão fora terminada. Apesar de grandes tentativas, o artefato não se encontrava mais nos domínios do reino Ignídeo, e havia atravessado milhas. O dragão pedia-lhe que seguisse para Somnium, pois haveria outro encontro do Pentágono, e precisariam discutir o que seria feito. A face do humano iluminou-se, e, sendo assim, partira imediatamente de volta à capital arcana, onde tornaria a ver a maga que tanto encantava-lhe e preenchia-lhe os sonhos.
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