Iphone 6

1 O sequestro


Pedro não passava de um adolescente comum: sai com seus amigos, tem uma família que o ama, estuda e sonha com um grande futuro para si. Assim como quase todos jovens dessa geração, ele sempre insistia aos pais por um smartphone de última geração. No natal o Sr. Donadella, seu pai, trouxe uma caixinha propícia ao tamanho de um iphone 6. Desde que recebeu o tal celular ele não conseguiu mais desgrudar seus olhos da tela. O celular trouxe benefícios e malefícios, serviu para unir os amigos de Pedro quando estavam longe, porém quando estavam por perto podia se ouvir claramente as reclamações de que o celular já estava virando parte do corpo de Pedro. Quando se sentava à mesa para um momento familiar calculava o tempo para voltar às conversas e redes sociais. Afinal, ali estão as confidências dele, as melhores fotos que trazem ótimas lembranças, suas músicas favoritas, aplicativos e tudo o que um smartphone tem a oferecer.

O despertador soou pelo quarto, fazendo com que Pedro acordasse assustado. As férias já acabaram e estava na hora de voltar para a vida real. De manhã nosso protagonista é bem avoado e só pensa o quanto está com sono, realizando as atividades matinais quase que como um robô. Como era o primeiro dia de aula, a mãe dele ofereceu carona até o colégio. Chegando lá viu de longe Júlia, e logo se arrependeu de ter se arrumado tão desleixadamente por conta da preguiça. A menina ergueu um braço e acenou, depois se livrou da rodinha de amigas e foi até ele.

— Então Pedro, vejo que tá bem animado. — Disse irônica. Era uma das coisas que ele adorava nela.

— Muito bom te rever também. — Ele sorriu de lado.

Uns cinco minutos de papo e o sinal tocou. Pedro normalmente ia muito bem nas aulas, é um aluno participativo que tira boas notas. A aula de História parecia não acabar nunca, então para se distrair virou para trás e participou das brincadeiras dos outros colegas de classe, assim o tempo parecia passar mais rápido. Na hora do intervalo, ainda rindo das palhaçadas dos amigos, resolveu que seria uma boa tirar fotos daquele momento. Levou suas mãos até o bolso e foi quando percebeu que seu celular não estava ali. Um calafrio lhe percorreu a espinha, um nó se formou em sua gargante e sentiu seus batimentos cardíacos acelerarem.

— Não, não, não. — Disse inconformado tateando pelos bolsos.

— O que houve aí cara ? — Perguntou um dos amigos.

— Meu celular, alguém viu meu celular ? — Ele subiu em um banco e gritou para todos, sentiu seu rosto esquentar ao ver todos os pares de olhos lhe encarando. Do meio da multidão Julia apareceu e o ajudou a descer.

— O que houve com seu "precioso" celular ? — Ela perguntou imitando a voz de um personagem.

Se fosse em outro momento até que seria motivo de graça, mas Pedro estava tão tenso que nem conseguiu reagir. Sem responder a menina, começou a procurar nos bolsos da mochila aflito, quando não obteve resultado se virou novamente segurando os ombros de Julia.

— Meu celular foi sequestrado! — Exclamou.

— Sequestrado? Não seria roubado? — Ela arqueou uma sobrancelha.

— Roubado? Então foi você que roubou. — Acusou.

— Eu?

E então uma discussão se formou, alguns estudantes já estavam formando uma roda em volta. Pedro a acusava de ladra e ela tentava se defender da melhor maneira que podia. Para tentar ajudar e provar que não furtou nenhum pertence do amigo, Julia o ajudou a procurar pelo colégio. Não havia nada nas salas, nos achados e perdidos ou em qualquer lugar do colégio. Pedro não se deu o trabalho nem mesmo de esperar o irmão mais novo, Jorge. Partiu direto para casa, Julia o acompanhou, já que fazia o mesmo caminho. Ela tentava o distrair para outro assunto. Ele já estava arrependido de tê-la acusado mais cedo, não entende ao certo porque fez isso já que nutre sentimentos amorosos pela garota faz um tempo.

— Ah, você se lembra daquela vez que você caiu na frente do colégio todo e a professora teve que te tirar do palco? — Ela recordava gargalhando descontroladamente.

— Sim, você faz questão de me lembrar disso sempre. — Ele riu junto. — Julia, sobre mais cedo, eu não queria te chamar de ladra. Você é a pessoa mais honesta que conheço...Me desculpa

— Claro que eu te perdoou. Aqui é meu ponto final. — Ela ficou na ponta dos pés e depositou um beijo casto na bochecha de Pedro, que quase que instantaneamente corou. — Sobre seu celular, procura no carro da sua mãe, talvez você tenha deixado cair. Até amanhã.

Ele nunca foi do tipo bobo apaixonado com nenhuma garota, mas com Julia era totalmente diferente. Enquanto andava sozinho se lembrou de como era bom voltar para casa ouvindo música, ainda mais depois desse tempo com a Julia. Seria perfeito se ele encontrasse seu iphone... E então a ira de que alguém havia sequestrado seu bem retornou.

Voltou para casa e esperou o irmão na sala, ele com certeza ficou com inveja! Jorge chegou animado para ir pro quarto jogar em seu novo PS4, mas foi parado pelo irmão.

— Seu ladrãozinho! Me devolve o celular ou então eu vou contar pra minha mãe. — Pedro cruzou os braços e juntou as sobrancelhas.

— Eu não peguei nada, me deixa em paz. — Jorge revirou os olhos, logo depois percebeu o que o irmão havia dito. — Você perdeu o celular ? Mamãe vai te matar.

— Eu não o perdi, então ele criou asas e saiu voando?

— Talvez, eu sei que não tenho nada a ver com isso.

— Claro que foi você, não há mais ninguém. — Rebateu.

— Você já parou pra pensar que o problema pode estar em você? — Jorge disse querendo ir logo para o quarto. Pedro relaxou a postura, foi como se suas armaduras caíssem. Lembrou da discussão com Júlia, e agora estava discutindo com seu irmão. Ele então percebeu que estava sendo injusto com os outros, talvez tenha perdido na rua.

— Me desculpa, é que eu tô estressado com isso. Meu pai vai me matar. — Pedro forçou um sorriso.

— Tenho dois controles, caso queira esquecer um pouco sobre isso... convite tá feito.

E não é que a tarde foi realmente divertida? Jorge entendia muito de video-game e vencia o irmão mais velho na maioria das vezes. Se fosse em outro dia, Pedro ficaria competitivo e desistiria de jogar assim que perdesse na primeira rodada. Mas hoje ele estava apenas se divertindo, e não competindo. Quando a Sra Donadella chegou, Pedro foi até o carro ansioso e procurou em todos os lugares pelo seu amado celular. Percebendo o jeito do filho, perguntou o que estava acontecendo. Então ele relatou sobre o "sequestro" do iphone. A mãe sugeriu um jogo de tabuleiro com os filhos, também tinha tido um dia estressante e tudo o que queria era passar um tempo com os meninos. Eles não sabiam qual seria a reação do pai, já que hoje ele faria plantão e chegaria tarde. A mãe de Pedro contou que o celular possuía um seguro, e pediria outro. Pedro negou, queria passar um tempo sem esse vício que só o afastava de todos. Quando chegou a noite e ele foi dormir, sentiu algo incomodar suas costas. Ele levantou, revirou a cama e então:

— Meu iphone ! — Ele disse alegre. Como instinto, já ia mexer em todas as redes sociais para recuperar o tempo perdido. — Não, eu consigo viver muito bem sem você.

Ele pôs o celular desligado em cima da cômoda e se virou para dormir. Claro que ele não abriria mão totalmente de seu iphone, só que agora aproveitaria muito mais a companhia de sua família e amigos do que de um aparelho.

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