Ipê Amarelo
1 Ipê Amarelo
Poderia-se dizer que Kayla tinha tudo para ser feliz, como sua mãe fazia questão de lembrá-la com certa frequência quase que incômoda. Mas não era assim que Kayla se sentia, longe disso. Desistiu da faculdade de Design de Moda porque não conseguia formar grupos para os trabalhos, tinha bloqueios criativos e, como tudo na sua vida — para ela — parecia dar errado. Sentia-se um grande peso na família, como se seus pais e irmã fossem atrasados pela enorme âncora que se tornou.
Perdeu o emprego porque não estava rendendo tanto quanto deveria — ou gostaria. Seu pai dizia que tudo bem, mas sua irmã estava se formando, fixa em seu emprego e pronta para começar a construir sua vida. Kayla estava ali, dependente, fraca, trancada e indefesa. Não tinha ideia de como sair daquele buraco em que se meteu. O desespero não demorou a ficar mais forte.
Não havia nada em que se agarrar, nada em que prover forças. Sentia muito sono, dor no corpo, cansaço e desânimo. Quando começava algo, já sabia que raramente aquilo teria um fim. Qualquer assunto que parecesse animá-la logo a enjoava. Kayla tinha o hábito de criar projetos, desenhos, pintar e escrever; nunca terminou nada. Até que chegou onde está agora: inerte, num grande hiato, como um corpo sem alma que boia num oceano sem vida. Ela estava em um grande nada — pelo menos sentia-se assim.
Ninguém via. E quem talvez visse parecia não ligar de qualquer forma. A verdade é que ela só existia e tinha uma consciência — irreal e egoísta — de que não faria falta a ninguém nunca, pelo contrário, estava convicta da existência de uma fila moral de pessoas que agradeceriam por sua morte.
É claro que ela fazia terapia. Não por exata e exclusivamente se sentir assim, mas por ter sido uma adolescente agressiva, ansiosa e problemática. Não diria que foi uma péssima filha, mas tampouco facilitou a vida de seus pais — estava longe de ser aquele tipo de juvenil querido por todos na família, aquele exemplo de filha e irmã.
Batia na irmã, matava aula, fumava, gritava, passava dias fora sem dar satisfação. Porém, sabia também que a terapia abordava um outro lado dela, lado desenvolvido, atual, mais maduro — e seco. Conversar a animava, sentia que precisava de atenção, de distração, então é claro que a terapia tinha seus bons resultados. Não ter amigos não ajudava e apesar de a psicóloga ser uma "amiga profissional que te analisa e é paga para te aguentar", quebrava o galho.
Kayla não tinha vontade de comer, estava mascarando sua falta de ânimo em viver fazendo alguns concursos e enviando alguns currículos para serviços em que nunca seria chamada. Seus pais pareciam satisfeitos dessa forma.
Já fazia uns anos que Kayla não chorava mais. Não havia tristeza ou ansiedade. A única coisa que pensava era em como desistir de tudo sem enfrentar as consequências. Ah! As consequências, esses fantasmas da vida, as sombras de nossas atitudes, a colheita. Sabia que se quisesse melhorar o que se tornou teria trabalho e ela não tem apoio — nem vontade. Provavelmente iria acabar como mais um item em sua lista de decepções e frustrações.
Até que seu poço de petróleo — onde toda sua vida foi decomposta e dissolvida — transbordou.
Era uma tarde chuvosa, escura, parecia noite. Não estava frio, mas era um dia tempestuoso. Seu pai não voltou para casa. Tudo mudaria dali em diante, muita coisa para lidar, ela não estava pronta e nem tinha mais forças.
— Kay, Lily, seu pai está internado. O hospital ligou. — disse a mãe às meninas, enquanto lágrimas teimosas insistiram em fugir contra sua vontade. Lorena adiantou-se ao rosto espantado de Lily e a palidez súbita de Kayla. — Ele teve um AVC durante o trabalho. Vou ver como ele está e mantenho vocês informadas...
— Vou com você! — interrompeu Lily, levantando e pegando seu casaco que pendia atrás da porta.
— Não! Vocês ficam. Está caindo o mundo lá fora e amanhã você trabalha. Kayla tem prova esse final de semana também. Se eu precisar de alguma coisa, aviso e nos organizamos. Mas tenho que primeiro ver como ele está.
Kayla sentia-se alheia a tudo aquilo, quase como vendo trechos em terceira pessoa, longe, afastada. Enquanto sua mãe e irmã conversavam, ela só queria ser engolida pelo sofá em que atirou-se. Sumir. Parar ali.
Seu pai sustentava a casa, sua mãe recebia um pequeno valor da aposentadoria que mal dava para a comida do mês, quem dirá para as contas. E se o seu pai morresse? E se não tiverem dinheiro para o tratamento?
Como método de fuga básico em função da depressão, decidiu ir dormir e pensar nessas coisas depois, mas foi dormir implorando para não acordar.
O dia seguinte chegou, é claro e Lily chegou em casa após o serviço e ligou para a mãe, que apenas passou voando em casa algumas curtas vezes durante o dia sem dar notícia alguma às meninas. Lily era muito forte, positiva, alegre e otimista. Quando havia um problema, qualquer que fosse, ela é quem tornava-se a estrutura para solucioná-lo ou resolvê-lo. Tinha uma paciência de dar inveja e nunca, em momento algum, baixou o nível perdendo o controle, independente do contexto. Quando alguém dizia algo que a incomodava, dava de ombros e mudava de assunto ou simplesmente sorria em compreensão e perfeição eternas. Kayla não entendia como alguém tão maravilhosa e inteligente estava solteira — talvez por vontade própria, ela era boa demais pro mundo. Kayla tinha noção de que estava sendo ingênua. Sua irmã tinha defeitos como qualquer ser vivente no planeta, é claro, mas as qualidades eram tão boas que ela não sabia como não admirá-la. Talvez por Lily ser a mais velha e a pessoa mais centrada da família, acabe sendo quase uma obrigação social admirar a irmã.
Duas batidas na porta e Kayla sentou na cama. Esfregou os olhos.
— Entre.
Lily abre a porta e a fecha delicadamente.
— Notícias do papai?
Silêncio. Parecia estar medindo as palavras, controlando o choro e pisando em ovos com Kayla.
— Falou com a mãe?
Sua irmã suspirou e sentou ao lado de Kayla. Olhando para frente, para o nada, talvez para os próprios pensamentos, Lily disse baixinho:
— Papai está em coma. Tiveram que ligá-lo a aparelhos para que continue respirando.
Kayla esperou. Lily tinha a voz trêmula; estava prestes a desmoronar.
— Fizeram exames e diagnosticaram morte cerebral.
As lágrimas começaram a escorrer lentamente, Lily estava tentando segurar o choro copiosamente. Esfregou o rosto, levantou devagar. Respirou fundo e saiu do quarto. Kayla ficou sozinha. Mais sozinha: sem pai e sem irmã para consolá-la simplesmente porque a base de Lily havia rachado, aquela força toda foi desestruturada. A partir daí tudo pareceu ocorrer em câmera lenta, mas emocionalmente muito rápido. Todo o vazio que Kayla sentia estava se transformando em um turbilhão de coisas ruins. Ela chorava por nada e por tudo, sentia-se mais fraca a cada dia que passava, perdeu totalmente o apetite e parou de ir à terapia. Sua família decidiu desligar os aparelhos depois de alguns meses e exames — eles não tinha condição de mantê-lo naquele estado e não havia nada que garantisse que ele voltaria. Lily conseguiu um emprego melhor nesse meio tempo e mantiveram seu padrão de vida, por um esforço e abafamento emocional de Lily. Kayla sentia-se cada vez menor e mais inútil. Sua mãe estava tão triste sem o marido que só chorava. Lily assumiu a casa e implorava por ajuda de Kayla.
— Sabe, Kayla, você é muito egoísta.
— Egoísta?!
— Sim! Você fica ai enfurnada no seu quarto o dia inteiro enquanto mamãe tem que fazer comida, ir ao mercado, pagar contas... Nem oferece ajuda para limpar um banheiro, para varrer a casa, não lava uma louça, desistiu de estudar pros concursos e se acomodou dependente da gente. O que você quer da sua vida, afinal?! — Lily, aquela admirável pessoa pacienciosa e alegre chegou ao limite e gritava-o para o mundo todo ouvir se quisesse.
— Vai ver porque eu não sou adivinha?
— Kayla, são obrigações! Ninguém tem que adivinhar obrigações porque a gente simplesmente sabe! Pare de fugir e faça! Você não é mais a garotinha mimada do papai, ele morreu! Supere! — e com isso, Lily bateu a porta do quarto ao sair.
Kayla deitou e chorou. Chorou até secar, até esvaziar, até doer tanto que não havia mais o que tirar dali.
Não se deu conta de que havia dormido, mas em algum momento da noite ela acordou morrendo de dor de cabeça. Sua terapeuta havia passado alguns medicamentos para suas dores de cabeça, mas ela não estava afim. Ela nunca esteve afim. Levantou devagar no escuro e pegou uma lâmina que ficava na beirada do seu criado mudo. Entrou no banheiro: estava apenas de pijama e meias, sua mãe e irmã estavam cansadas demais de carregá-la, de puxá-la inutilmente. Ela também estava. Deitou dentro da banheira, sozinha, no escuro.
Kayla sabia que não era o melhor método para fazer aquilo e que fazer aquilo não era a melhor solução. Que elas iam ficar tristes no início, mas iria passar.
"Talvez eu seja mesmo egoísta", pensou. "Ou covarde".
A cabeça doía demais. A vida doía demais. Aquele vazio estava tornando-a a pior coisa que alguém pode se tornar: um nada.
Ela não sentia amor, nem de si e nem dos outros. Estava tendo problemas de saúde pela depressão: anemia, pressão baixa, infecções e viroses frequentes. Não tomava um banho por dia porque simplesmente não havia razão.
Ela não tinha motivo para viver.
Ninguém se importava.
Nada.
***
Quando abriu os olhos a luz forte fez com que doessem e ela gemeu.
Percebeu que não deu certo. Não havia ninguém ali, mas não importava, porque nem para dar um fim ao sofrimento dos outros — e ao seu — ela prestava.
Estava frio, seus braços estavam doloridos, seu pulso esquerdo com o corte vertical que seguia pela veia estava pulsando. O soro ardia e aquele colchão era desconfortável.
As consequências.
Kayla foi visitada pela psiquiatra do hospital, sua mãe chorava aquela manhã, sua irmã estava trabalhando.
— Você estava planejando isso?
A psiquiatra foi respondida com um grande e sonoro silêncio. Aquela mulher de meia idade, pele cansada, olhos inchados, cabelo ressecado e óculos vermelho — junto de uma maldita prancheta! — sentou na cama, ao lado da jovem suicida.
— Precisamos conversar. Depressão tem tratamento. O que desencadeou isso, minha querida?
A profissional irritava fortemente Kayla, parecia estar querendo forçar uma intimidade que não existe.
— A morte do pai. — respondeu a mãe. É claro que não foi isso, é claro que ela só precisava dar uma resposta, uma razão digna para aquilo, mas a verdade é que isso foi a última gota. Kayla nunca admitiria que além de sentir-se sozinha, ela era tudo o que a frustrava.
E não há nada pior do que se decepcionar consigo mesmo.
— Quando foi isso?
— Há seis meses.
— Eram muito apegados?
Elas continuavam tagarelando como se Kayla fosse uma criança de dois anos ou nem sequer estivesse ali. "Não é porque não quero responder que isso me torna inapta, inválida!" — pensou consigo mesma, redirecionando sua frustração à conversa.
Talvez sua mãe precisasse daquele momento.
Não demorou para que Kayla recebesse alta e sua mãe procurasse tratamento psicológico e psiquiátrico para ela, com acompanhamento de perto de seu coração de coruja. Kayla gostava da atenção, mas sentia que sua mãe perto o tempo todo e falando por ela, tirava sua pequena autonomia.
Sua mãe explicou que se ela tentasse novamente, teria que interná-la. Teria. Como se ela fosse obrigada. Kayla não ligava. Ser tratada como louca era o que faltava para completar seu calvário.
Lorena levava a filha para passear toda semana desde o ocorrido. Num determinado sábado, decidiu incluir Lily ao processo de reabilitação que ela chamava de "cura pelo amor".
Lorena e Lily conversavam enquanto caminhavam por um parque com Kayla — um parque cheio de Ipês amarelos. Sentaram-se em um banco. Kayla não estava prestando atenção, gostava mais de observar as pessoas e os cães da volta.
— Kayla. — chamou sua mãe. — Eu e Lily vamos no banheiro, você espera aqui?
— Espero.
— Certo, não vamos demorar. Quer alguma coisa?
— Do banheiro?
— Sim! — respondeu Lily. — Papel higiênico de baixa qualidade limpo, sujo, sujo e rasgado ou espuma de resto de sabonete de banheiro público?
— Não, Lily! — interveio Lorena, ignorando a filha mais velha — Estou falando da lancheria, tem uma do lado do banheiro.
— Talvez eu fique com a espuma de resto de sabonete líquido. — respondeu Kayla dando de ombros.
Sua mãe e irmã deram uma risadinha e se afastaram. Kayla ficou ali, olhando as coisas à sua volta, sem pensar e nem sentir muita coisa.
Quando Lily e Lorena voltaram, Lily comia um picolé e ria feito uma criança para Kayla, enquanto a mãe das meninas ia até uma lixeira jogar algo fora.
Lily sentou ao lado de Kayla e continuava com as risadinhas. Lorena sentou-se do outro lado.
— O quê?
— Estávamos pensando... — começou sua mãe.
— Vou te dar um curso! — Lily e sua mania de cortar as pessoas.
— Curso?
— Sim!
— Pra quê?
— Pra você espairar, sair do seu mundinho, ficar naquele quarto está te fazendo mal.
— O que me faz mal é existir. Curso de quê?
Lily revirou os olhos.
— Não pensamos nisso ainda.
Kayla olhou para a mãe e novamente para Lily.
— Ok, quando decidirem me avisem.
— A ideia, minha filha, é que você escolha algo de que goste. Algo que te motive e te anime, que te faça feliz.
Sua mãe parecia tão inocente.
— Não sei de nada que me faça feliz, anime e motive, mãe.
— Por isso — explanou Lily — vamos te ajudar a descobrir! Veja só, mamãe gosta muito de plantinhas e eu gosto de aprender. Então você pode fazer um curso de idioma ou um curso de cultivo de plantas, algo agrário. Também sei que você gosta muito de algumas artes, podemos ver coisas nesse tipo também. Música? Dança? Teatro? Enfim!
— Ok, já que você vai pagar, seja feliz.
— Então podemos começar hoje!
— Hoje?
— Bom, a gente teve a ideia porque estão dando uma palestra sobre Ipês no Centro Cultural do parque. Quer dizer, começa daqui 30 minutos, mas é gratuito.
Kayla entendeu o recado e foi, é claro. Acompanhada de uma mãe animada e uma irmã ansiosa. A palestra foi um saco, mas bem produtiva. Ao final dela cada um ganhou uma muda de Ipê para cultivar. Kayla pegou um amarelo. Também pegou um panfleto de um curso prático — por isso naquele parque haviam tantos Ipês.
Quando tinham tamanho suficiente, eram plantados no parque de forma que o ex-proprietário pudesse continuar cuidando e admirando a árvore e o parque tivesse cada vez mais árvores e bosques.
A jovem aprendeu a podar, ajeitou seu quarto todinho para que o pequeno Ipê tivesse iluminação e sol o suficiente. Organizou e faxinou. Aquilo parecia absurdo, mas ela descobriu que plantas valem à pena.
Em uma das aulas do curso que começou a fazer conheceu um rapaz que, ela gostava de dizer, fazia bem à sua auto-estima. Era engraçado, inteligente e sempre passava uma visão positiva da vida. Acabou tornando-se seu melhor amigo.
Havia uma senhora em sua turma que parecia ter uma saúde precária e Kayla ficou responsável por ajudá-la com qualquer dificuldade ou dúvida que tivesse.
Sua professora recomendou-a como assistente de botânica para o Jardim Botânico da cidade; ela conseguiu o emprego.
Kayla sentia como se a vida estivesse fluindo, apesar das recaídas decidiu que não daria mais atenção ao poço de petróleo, afinal, eventualmente ele se tornaria o combustível para ela seguir adiante.
Alguns meses mais tarde já conseguia se animar a ter uma rotina normal, manter a casa ajeitada, tinha vontade de sair da cama. Não estava tudo em seu devido lugar ainda, mas a vida já se tornou mais leve.
Após um ano, seu melhor amigo virou seu namorado, conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Biologia e recebeu uma promoção no emprego.
Kayla se viu fazendo planos, saindo, se arrumando e agradecendo todos os dias pela segunda chance que teve de adquirir uma outra visão do mundo. Ainda não estava fácil, mas a menina desconfiava que talvez, nunca ficasse — a vida não é fácil por si só.
Seu Ipê Amarelo foi plantado no parque como os outros após seus dois anos, quando atingiu os cinco metros de altura, mas para ela aquela árvore jovem não era apenas uma planta qualquer — era o que a resgatou de si mesma; o gatilho para a vida.
Ninguém, senão nós mesmos, é responsável pela melhora individual. Somos nosso poço de petróleo e o próprio combustível motivacional.
Kayla aprendeu que não sentimos o que vemos, mas vemos o que sentimos.
Fale com o autor