Invisível aos olhos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
— Ela não parece estar bem.
— Ela está viva, isso que importa.
Do que estão falando? Hã? Por que estou ouvindo um zumbido? Que dor de cabeça.
— Willian vai nos matar.
— Ele não precisa saber. Está cedo, quando ele voltar, ela já vai estar curada.
— Tia, você não parece estar respirando...
— Ela está. Ela está.
— Como isso aconteceu, Amon?
— O carro... Ele nem parou para ver se ela estava bem.
Um carro... Tinha um carro na rua... Tinha vários carros na rua mas esse chegou tão de repente. Mas por que ele pararia? Por que eu não estaria bem?
— Claro que não parou, idiota. Ela estava destrosada e sem falar que tinha sangue para todo lado. Humanos são tão frágeis.
— Você não devia ser mais rápido que um carro?
— Eu estava despreparado. Quando percebi, gritei para ela sair de lá, mas acho que não me escutou. Não acredito que ela correu tão rápido... Parecia que ela estava indo de encontro com a morte.
— Mas Tom não gritou. – Escuto alguns suspiros. – Então vai ficar tudo bem...
— Vai?
— Por isso que ela não devia ter vindo.
Tento piscar, mas meus olhos parecem colados. Abro um de cada vez, com esforço e escuto um barulho vindo da minha garganta. Quando enfim consigo ficar com os dois olhos abertos a conversa ao meu redor para e o zumbido fica mais forte. Tento levar as mãos até meus ouvidos, mas não consigo. Elas não se mexem.
Estou vendo poucas coisas. Um teto branco, uma parede azul clara. Um ventilador parado. Umas estantes pretas. Mais nada. A cada tentativa de sair daquela possição fazia com que meus ouvidos sentissem mais dor.
— Está escutando esse barulho? Parece um gemido...
— Ela acordou.
— É o que parece.
— Então a tia está bem, não é?
— Não sei. Mas ela está viva.
Cinco pares de olhos apareceram em cima de mim, e sem eu poder me mexer direito, senti meu folego sumir de repente.
— Eu... Hã?
— O que ela disse? – Caleb olha para o gêmeo.
— Não entendi também. Matt?
— Não sei...
— Tia... Está tudo bem? – É a voz fina de Tom. Afinal, ele é o único que me chama de tia, assim consigo diferenciar ao menos esse irmão.
— Estou bem... – Consigo dizer, mas minha voz se perde inesperada. – Não consigo me mexer... – Meus olhos continuam abertos, piscando lentamente. Os cinco garotos não saem do lugar.
— Você sofreu um acidente. – Acho que é a boca de Amon se mexendo. – Quando você estava indo embora...
— Chega. Agora não é hora para isso. Precisamos que ela consiga se mexer... Isso é essencial. – Matthew coloca a mão em volta do meu pescoço e cintura, me fazendo sentar. Essa sensação... É como se o vento tocasse em mim, apenas isso e nada mais.
Assim que me sento, consigo vê-los melhor. Os cinco estão parados, tentando agir naturalmente. No entanto, cada um está com um tique e não conseguem desviar seus olhos de mim.
— Está sentindo isso? – Matthew toca na minha mão e tenta fecha-la. Ela obedece, mas não sinto, só vejo.
— Não.
— Tia... – Tom sobe na cama ao meu lado, mas não consigo virar o rosto para vê-lo. – Você vai ficar bem... Matt vai te curar.
— Eu não estou bem. – É mais uma afirmação do que uma pergunta. – Por que não estou? Minha cabeça está doendo.
Eles se entreolham e parecem estar preste a entrar em pânico. O irmão que estava tocando a minha mão fica bem na minha frente, tampando minha visão dos outros.
— Vamos conversar quando você estiver melhor, está bem? – Faço um barulho que representa “sim”. – Ótimo. Agora preciso fazer uma coisa... Acho que você ficaria mais confortável, quero dizer, menos desconfortável sem que eles estejam aqui...
O que você vai fazer? Acho que não sou apenas eu a ficar preocupada com o que ele diz. Os irmãos começam a discutir sobre ficar ou não no quarto.
— Não estou entendendo muito bem... Faça o que você achar melhor, Matthew.
Acho que nenhum deles fica satisfeito com as minhas palavras, mas todos passam pela porta e a fecham. Deixando eu e o meu subrinho, de um ano a menos, sozinhos. Como um adolescente é o mais responsável deles todos? Sério isso?
— Direi rápido o que aconteceu com você, está bem Cassandra? – Tento mexer a cabeça para concordar, mas não consigo. – Você foi atropelada por um carro indo para casa. Não sei de quem foi a culpa, pois eu não estava lá. Amon tinha ido atrás de você para pedir desculpa pela infantilidade dos gêmeos. Ele encontrou você bem... Machucada. Teve de trazer você para cá e faz algum tempo que esperamos você acordar. Você não morreu exatamente...
— Eu morri?
— Não exatamente. Quando chegou aqui seu coração estava batendo um pouco. Cuidei de você até você abrir os olhos, mas não queria fazer nada que você não aceitasse. – Tento o olhar nos olhos, mas ele ainda está muito mais alto do que eu. Eu não devia ser tão baixa assim. — Agora preciso abrir o que sobrou da sua roupa.
— O que? – Meu espanto não o surpreendeu. Matthew está mantendo distância por isso? Por que é algo incomum a se dizer a tia? Ou a qualquer outra pessoa?
— Você pode confiar em mim nesse momento? É o melhor jeito para te curar completamente...
— Eu confio. – Apesar de duvidar da minha sanidade. – Eu confio.
O garoto parece respirar fundo e então apoia um joelho entre as minhas pernas e o outro do lado fora. Com cuidado, vai rasgando com as mãos a frente da blusa e suas bochechas vão ficando mais rosadas. Ele tira a minha blusa pelos ombros e respira fundo.
— Acho que é o suficiente. – Sua voz está um pouco mais rouca e parece não ter certeza do que diz. — Agora respira fundo, isso pode ser um pouco... Estranho.
Matthew coloca uma das mãos no meu colo e a outra se apoia na parede atrás de mim. A mão em minha pele começa a fazer o local ficar quente e mais quente. Seus olhos concentram na minha boca e isso me faz duvidar de novo da minha sanidade. Assim que eu abro a boca para gritar de dor, pela temperatura ter subido, sinto os seus lábios nos meus.
É como se esquentasse, mas não queima. Está quente, muito quente. Sinto como se estivesse suando, mas não sei se estou. Matthew me beija devagar e um pouco inseguro. Assim que sua mão passa do meu colo para o pescoço, o garoto muda de possição, lentamente. Não tirando nunca a boca da minha. Sua mão está quente, ou talvez o meu corpo esteja, e isso provoca uma irritação em meus músculos. A cada segundo que seu toque muda de lugar, seu beijo parece mais convicto e eu começo a sentir cada parte do corpo por onde seu toque passou.
Ele começa a me segurar mais forte, e a passar os dedos pelo o meu corpo com menos suavidade. Consigo sentir os dedos do meu pé, mesmo ele ainda não tendo chegado a parte de baixo do tronco. Aos poucos mexo outras coisas sem ser a minha boca.
Sua lingua parece estar em batalha com a minha, não sei bem o que fazer e o que não fazer aqui. Mas parece que eu tenho que tentar me movimentar. Uma de suas mãos segura meu cabelo e me puxa, fazendo com que a situação fique ainda mais estranha. Eu estou cansada, mas minha respiração parece melhor. As batidas do meu coração parece mais ritmica. Consigo abrir os olhos com mais facilidade e então, me distancio dos lábios de Matthew.
— Consegue mexer seus dedos? – Ele pergunta com a respiração cortada. Faço que sim com a cabeça, finalmente. – Seu pescoço dói? – Nego. – Consegue ficar em pé?
Estou preste a dizer que o peso dele não me deixa sair da cama, quando ele sai de cima de mim. Ficando em pé, o garoto estica a mão para mim, e eu aceito. Assim que me levanto, não consigo aguentar meu peso e acabo caindo em cima dele. Sendo mais alto do que eu, Matthew me segura até eu me estabilizar por completo.
Consigo ficar em pé sem sua ajuda, e dou alguns passos para ter certeza. Quando me viro para o garoto, seu rosto está ainda mais vermelho e seus olhos estão em meu corpo.
— Aqui. – Ele pega um casaco que estava em cima de uma das pratileiras. – É do Amon, mas ele não deve se importar.
Fico um pouco sem graça, mas coloco mesmo assim. As mangas são muito compridas, e o tamanho passa da minha bunda. Consigo perceber que minha calça está bem rasgada e suja, já a camisa virou farrapos em cima da cama.
— Você me salvou. – Minha voz sai antes do meu pensamento estar completo. – Obrigada.
— Você é estranha. – O garoto volta a agir como estava na sala. Frio e monótono. – Por que não está fazendo mil perguntas?
Coço a cabeça, e sinto meu cabelo todo bagunçado e parecendo está sujo. Que bom que não tem nenhum espelho aqui por perto.
— Você pediu para eu confiar em você. Apesar de ter sido... Incomum... Eu consigo me mexer agora, então só posso agradescer. – Dou um passo em sua direção e vejo seus olhos mudarem de tonalidade. – Obrigada. Mesmo. – Eu o abraço, devagar, ainda sentindo dor. O meu rosto para um pouco perto do pescoço dele e seu coração está batendo rápido demais. Ao perceber isso me afasto e ando, com um pouco de dificuldade, até a porta. – Agora eu vou para casa. Não quis atrapalhar o dia de vocês.
Seguro na maçaneta e a abro rápido. Os gemêos caem para dentro do quarto, enquanto Tom e Amon estão apoiados na parede do outro lado. Todos olham para o meu estado e depois para Matthew. Não consigo entender muito bem o que dizem um para o outro, mas assim que piso para fora do quarto, caio no chão.
— O que ela está fazendo fora da cama, Matt? – Amon pergunta, me levantando. – E por que está com meu casaco? Está com frio? – A pergunta vem para mim.
— Não... Na verdade, estou com muito calor. – Consigo ficar em pé e sorrio colocando a mão no ombro do mais velho. – Ele teve que tirar a minha blusa, então me deu esse casaco. – Os olhos de Amon se espandem e focam no meu peito. — Já estou bem. Sério. Só preciso ir para casa.
Ele parecer olhar fixamente para trás de mim. Para Matt.
— Tia... – Tom segura a minha mão, me chamando atenção. — Nós precisamos conversar.
Minha vontade de entender tudo isso é bem grande, mas meu medo de estar perto deles é maior. Sorrio para o mais novo e seus olhos escuros estão vermelhos. Acho que ele chorou. Me abaixo e beijo sua testa.
— A gente pode conversar sim, mas não agora.
Ando pelo corredor até achar a escada e conseguir chegar a sala.
— Você não pode ir embora ainda. – Diz Caleb.
— É! Você precisa ficar aqui! E se acontecer alguma coisa? Se o seu corpo não aguentar o poder de Matt? E se seu corpo rejeitar e voltar ao jeito que estava? E se você morrer de novo? – Dylan vem logo atrás me segurando pelo pulso assim que chego a porta.
Meu corpo não aguentar? Poder? Morrer de novo? Eu não vou bancar a cética e fingir que nada disso aconteceu, mas a cada segundo que fico nessa casa, tenho mais medo do que ainda pode vir a acontecer. Se eu morri e voltei, estou como um vampiro não é? Ou um zumbi? Significa o que exatamente? Que sentirei vontade de matar? Beber sangue? Significa que eu não vou conseguir agir naturalmente? Se é realmente poder, e eles não me drogaram, teve sentido Matt me salvar. No entanto, ele me beijou, rasgou minha roupa e me tocou. Não exatamente nessa ordem. De qualquer ângulo isso é pior do que estranho, é imoral. Não quero nem pensar se eu não me mexesse para sair dali.
— Tia, você tem que ficar com a gente.
— Eu acho que ela deve fazer o que quiser fazer, contanto que a culpa não volte para nós. Matt? – A voz de Amon está um pouco distante.
Olho por cima do ombro para ver o garoto do poder de cura. Ele está atrás dos quatro e seu rosto ainda está vermelho. Seus olhos estão no chão, e apesar da sua atitude fria, ele parece envergonhado.
— Não podemos obrigá-la a ficar.
Seus olhos param no meu por um segundo e o vejo recuar. Não importa quantos passos você dê para trás, meu medo só está crescendo.
— Ótimo! Isso significa que posso ir andando, obrigada por tudo. – Abro a porta e logo em seguida a fecho com alívio.
Eu preciso falar com Billy urgentemente.
Não foi outro filho qualquer da mulher do meu irmão. Esse eu sei que é dele, então todos devem ser assim. Estou com medo. Muito medo. Eu quero voltar logo para casa. Mas não importa onde, desde que meus pais morreram, estou sozinha. E sem Billy. Antes e agora. Meu medo não vai sumir por eu simplesmente ir para casa. Meu Deus... O que eu faço?
Não tenho dinheiro para pegar um táxi, logo tenho que ir andando todo o percurso até a minha casa. São quase oito horas quando enfim chego, e Billy ainda não ligou. Mando uma mensagem assim que entro no meu quarto dizendo que quero encontrá-lo urgentemente.
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