Invisível aos olhos
12 Capítulo 12
Notas iniciais
—⟰-
— Lasanha de janta, mãe? – Amon reclama, colocando um enorme pedaço na boca.
— Se não quer, eu como o seu. – Dylan puxa o prato do irmão mais velho, que dá um tapa em sua mão. – Então, não reclama. – O gêmeo me olha e abre um sorriso bem bonito. Por que ele tenta ser sexy o tempo inteiro? – E você, Cass? Ainda nem tocou no seu prato.
Olho para baixo e vejo que o queijo deretido está quase transbordando do prato. Enfio a faca e corto em dois pedaços, para que esfrie logo. Apenas uma pessoa não está na mesa hoje. Será que ele ainda está estudando?
— Falando em reclamar. Onde estam o Olhos Brilhantes e o Transparente? – Caleb pega a coca-cola e coloca um pouco em seu copo e no do irmão. Dylan ri, e eu vejo Amon tapando a boca com a mão. – Não me diz que eles desistiram de ficar aqui em casa? Quer dizer, me diz exatamente isso.
— Said parece ter entendido algo nesses últimos trinta minutos. Mas não faço idéia do que seja. – Dou de ombros, enquanto assopro um pedaço da lasanha. Coloco na boca e mastigo. Meu Deus! Quanto tempo faz que eu não como uma lasanha caseira? – Eles devem ter ido para a minha casa ou a de um amigo.
Os gêmeos se entreolham e eu vejo um sorriso maldoso surgindo em seus rostos. Eles comentam algo um para o outro e da para perceber que eles estão se divertindo. Provavelmente falando mal de Said.
— Quer dizer que o seu irmão não está aqui? – Billy olha para frente, onde Chander sentou noite passada. Ele está agindo de uma forma estranha que nem o fantasma. — Então podemos conversar melhor. Irmã, como exatamente isso foi acontecer? Como você passou a vê-lo? Você parecia tão decidida que isso tudo era loucura...
Matthew desce as escadas e senta ao meu lado, onde Said estaria sentado. Seus olhos parecem mais cansados do que qualquer coisa. Pam falou que ele estava estudando... Coitado. Matt provavelmente está com a cabeça cheia de pensamentos de provas e matéria. E pelo jeito que falou, precisa me superar. Mesmo vendo que minha vida foi e é bem diferente da dele. Presto atenção na mesa e todos continuam a comer, mas olhando para mim.
— Eu não sei explicar. Acho que os conheço desde sempre, só não me lembrava disso. Até ser atropelada. E acontece que acreditar neles pareceu mais lógico do que... – Paro de falar e olho para a mulher do meu irmão, e nossos olhos se encontram. – Só para ter certeza, não terei nenhum outro efeito colateral, além de volta a ver esse mundo?
— Não sou uma fada, nem uma curandeira, mas acredito que vai ficar tudo bem. Assim que você se curar 100%, provavelmente voltará a ser uma humana normal. Uma humana com o dom da visão. – Pamela segura uma das mãos do meu irmão, que sorri ao contato intimo. – Só espero que o seu normal não inclua se machucar como hoje.
— Você se machucou? – Os gêmeos perguntam ao mesmo tempo do que Amon diz “hãn?”.
— Foram só uns arranhões na biblioteca... – Ao menos foi só isso que eles viram. – E eu vou tentar ao máximo não me meter na vida de vocês. — Escuto alguns comentários, mas tudo ao mesmo tempo, não fazendo muito sentido. – Quero dizer... Assim que estiver tudo bem, pretendo voltar para o Canadá.
A mesa inteira fica em silêncio, mas apenas meu irmão parece estar realmente me olhando. Ao lado da mãe, Tom me encara com os olhos um pouco embaçados, mas apenas isso. Amon continua a comer, como se nada tivesse acontecido, os gêmeos e Matthew estão olhando para o prato, como se estivessem tentando entender alguma charada, e Pam parece estar pensando em algum assunto melhor.
— Você não precisa ir, maninha. Nós podemos fazer uma obra, e você pode vir morar aqui. Permanentemente. Sabe que fui contra você morar sozinha, ainda mais agora. – Billy estica a mão sobre a mesa, para pegar a minha. –Se você sabe sobre isso tudo, não há mais motivo para ficar longe. E aqui não é tão longe do seu trabalho, nem da sua faculdade. Será como se você fosse minha filha, Cass. Pam gosta de você e os meninos parecem estar se adaptando. Você sabe que a maluca da minha mãe devia ter considerado a própria idade antes de decidir que tomaria conta de você. Eu devia ter te tornado minha filha a muito tempo. E, Cass...
— Não é algo que eu vou discutir agora, irmão. – Termino a comida e me levanto. Nunca chegamos a ter essa conversa antes. Costumamos evitar tocar no assunto de que ele tem idade para ser meu pai. Se minha mãe decidiu ficar comigo, e foi feliz, eu já estou satisfeita. Além do mais, nunca quis uma família grande como essa. Desde que me lembro, fui feliz e tranquila, sozinha. — Eu ainda vou ficar aqui por um tempo, se vocês não forem contra. – Olho para Matthew ao meu lado, mas ele não se vira para mim. – Sabe me dizer mais quanto tempo eu vou estar... Doente? Mais ou menos quanto tempo vai demorar para eu estar saudavel de novo?
— Diria que no minimo um mês. Não é um truque de mágica, garota? – Eu já havia esquecido que você tecnicamente me odeia, por ser comparado a mim o tempo todo. Na verdade, eu queria que isso tivesse passado.Você e Tom foram os únicos que eu realmente conversei.
— Certo... – Atravesso a sala e vou até a escada. – Tommy? – O menino levanta a cabeça e olha para mim. — Já vem dormir?
Com o prato cheio de comida, Tom se levanta e vem devagar, meio sem vontade, segurar a minha mão. Ele sobre as escadas em silêncio, no entanto assim que entro no quarto e fecho a porta, o menino começa a chutar a cama e a chorar.
— Vo-Você mal falou que vai ficar co-comigo para sempre, e já diz que vai para o Canadá? – Ele coloca as mãos nos olhos para que eu não veja as lágrimas que saem com facilidade. Seus solusos parecem parar por um instante enquanto Tom respira fundo. – Você é uma mentirosa.
Eu não sei dizer se ele está me odiando nesse momento, ou se apenas está triste. Eu fui criança a pouco tempo e na época era sempre simples. Aos cinco anos ou você ama ou odeia as coisas. Não precisa de explicação nem nada. Se for como você quer, você sorri. Se não for, você chora. É simples, mas muito extremo.
— Não quis mentir, Tommy. – Apago a luz e o puxo para a cama, onde ele chora no meu peito. Como antes do jantar, apenas a Lua ilumina o quarto.
— Por eu ser o menor, e ser o mais “humano” dos meus irmãos, sou descartado muito facilmente. Não tenho muitos amigos, por que mamãe sempre diz que é melhor eu não ir a rua. Pois eu posso sentir alguma coisa... E me desesperar. Eu não sou nada de bom. Sou uma fada completa como Matt, nem um demonio de verdade como Dy e Cal. Eu sou a parte mais obscura de uma fada... – Ele parece não aguentar mais falar tanto e sua voz sai cortada por estar com a boca perto da minha blusa. — Então depois desse mês que você usar o Matt, você vai embora. E vai nos deixar sozinhos. Vai me deixar sozinho.
— Eu não sei se vou conseguir o que pretendo, mas quero que vá comigo. Eu vou te contar um segredo. – Sussurro em seu cabelo preto. — Eles vão apagar a minha memória de novo, e não vou mais ver o Outro lado. Eu vou me esquecer de tudo que tiver a ver com isso. Eu acho. E por isso, você precisa estar lá. Para me lembrar de quem você é. Está bem?
— Não quero que me esqueça. – Ele chora. – Chan me contou o quanto foi horrivel ficar tantos anos te vendo e você não sabendo da presença dele. E se o moço dos olhos azuis não foi visível para você, mesmo sendo tão poderoso... Eu também não serei.
Agarro o meu celular, para desconectar do carregador preso na parede, e tiro uma foto nossa.
— Está vendo? Somos eu e você. Estamos péssimos nessa foto, mas somos nós dois. Mesmo se você estiver invisível aos meus olhos, eu ainda terei isso. Podemos ter varias fotos. Eu não pensava assim antes. – Eu acho. — Da última vez não fiz planos. Nem sabia o que estava acontecendo. Eu vou ter que me lembrar de você.
— Por que você quer isso, Cassie? – Ele não me chamou de tia! Por que me chamou de Cassie? — Por que você não quer mais saber da gente?
— Hoje é o terceiro dia, e eu já não estou bem. Imagina quando terminar o mês? Eu não consigo me acostumar a esse mundo, Tommy. Eu não acho que devia ter entrado para essa família em primeiro lugar... – Deito na cama e o puxo de volta para o meu peito. – Mas entrei. E te conheci. E agora estou sentindo dor no coração por você estar triste. Mas depois, vamos ficar juntos. Você quer ir comigo, não quer?
Eu o sinto fungar e mexer a cabeça. Acho que isso foi um sim.
— Então, vamos ficar juntos. – Puxo a coberta sobre nós e coloco a minha cabeça no travesseiro. Tom é o irmão mais novo que nunca pensei em ter. Se fosse Billy a me adotar e não mamãe e papai, as coisas seriam diferentes. Tão diferentes, que chega a ser aterrorizante pensar no que ele me ofereceu.
— Promete? – Tom segura meu dedinho com o dele. Ele aperta firme e parece fechar os olhos com firmesa.
— Prometo.
—⟰-
Escuto a porta se abrir, mais meu corpo está muito cansado para se mexer.
Tom é puxado de cima de mim e empurrado para o lado. Alguma coisa faz meu cabelo mexer e sair do meu rosto. Sinto uma mão passar na minha testa e o seu toque me faz queimar. Matt. É você? Sinto os lábios dele no meu, e a sua lingua pede passagem para a minha boca. Diferente das outras vezes, seu beijo é mais elétrico. Não que seja rápido, ou algo assim. É lento, quase sensual. Mas sinto eletricidade passando pela minha boca. Eu acho. Como se estivesse fazendo isso por puro prazer e não para me curar.
Tom faz um barulho parecido com ronco, ou uma respiração mais profunda. Como se estivesse incomodado. Tento abrir meus olhos, mas estou me sentindo pesada. Exausta. Então, o beijo para e me dá um selinho.
— É assim que Incubos curam.
Fale com o autor