Notas iniciais
Espero que gostem~

No final das contas, não foi um desconforto dormir com Amon. Quando cheguei ao quarto, ele já dormia no canto da sua cama de casal. Pam deve ter vindo falar com ele, enquanto eu tomava banho. Amon não falou comigo, não chegou perto demais de mim nem nada do gênero. O que é uma ótima noticia. Dylan e Caleb são estranhos, então poderiam ter feito algo ruim comigo. Matthew não é nem uma opção.

Hoje é sexta feira. Todas essas coisas estranhas começaram sexta passada. E agora eu tenho a informação de que não preciso... Beijar Matthew para sobreviver. O método mais eficaz é o sangue. Eu nem precisei da cura dele ontem a noite. O lado ruim é que não trabalho em nenhum lugar que dê para dar uma roubada no sangue. E, não posso me esquecer que, eu não quero beber aquele líquido vermelho grosso, que eu não deveria ter sentido um gosto bom.

— Para onde vai com tanta pressa, morena?

Olho para trás, e Prime está correndo atrás de mim até chegar onde estou. Ela se apoia nos dois joelhos e depois sorri para mim. Contar-me sobre o senhor Stuart, foi realmente tirar um peso das costas dela. Que bom... Eu acho.

— Vou naquela biblioteca aqui perto.

Continuo a andar, e Prime vêm ao meu lado, mexendo no celular.

— Qual? A Beeghly Library? Para que?

— Não consegui estudar a semana passa inteira... Tive problemas familiares que nunca tive que enfrentar antes. E agora estou atrasada em algumas matérias. Preciso ler alguns livros para as avaliações que estão chegando e...

— Você se cobra demais. Não é como se sua mãe fosse te dar um castigo caso vá mal à prova. – Assim que meus olhos se voltam para minha amiga, ela fica quieta. – Não foi por mal. Estou apenas dizendo que você não precisa se esforçar tanto. Não precisa impressionar ninguém.

Entro no taxi, seguida por Prime, e digo ao motorista para onde ir.

Eu me cobro demais? Eu não acho que estudar seja algo que eu me esforce tanto. No entanto, desde pequena, estudo. E me acostumei a ter resultados se me dedicar. Não vou conseguir se eu apenas ficar olhando minha vida passar.

Assim que chegamos à biblioteca, entro animada a procura dos livros. Pego a folha com os nomes dos livros anotados e começo a procurá-los. Eu, em um lugar com tantos livros, sou como um bêbado em um mar de álcool. Só nos tiram daqui a força. Prime fala que têm uma sessão que a interessa, e eu sei qual é: área do conforto. Onde tem os sofás confortáveis. É claro que ela vai ficar mexendo no celular, e isso me faz questionar o motivo de me acompanhar até aqui.

Já estou segurando os três primeiros livros da lista no meu braço, quando levo um susto. Quando tirei o terceiro livro da estante, um cara do outro lado da estante também tirou um livro do mesmo lugar, fazendo com que nos deparássemos um com o outro. Dei um passo em falso para trás, e acabei caindo no chão. Assim que percebi o quanto ridículo isso foi, eu ri e olhei para cima. O homem que estava no outro corredor, já estava na minha frente, me encarando. Não olho diretamente para ele. A única coisa que vejo é a sua bota, mas ainda assim sinto que ele está vindo em minha direção.

Espero que ele estique a mão para me ajudar, mas quando se aproxima de mim, é apenas para pegar um livro que está atrás de mim. Percebendo minha humilhação, eu levanto e pego os livros que eu estava segurando. Ajeito a minha saia soltinha preta e minha blusa branca, que deixa os ombros a mostra, e então percebo que a o meu sutiã quase apareceu com essa minha queda.

Ele continua quieto, pegando um livro e mais outro. Consigo ver cinco livros em sua mão. Esse cara podia dizer alguma coisa, não é? Qualquer coisa servia. Viro-me e vou para o próximo corredor onde continuo a minha busca.

E, novamente, o encontro. No entanto, diferente da outra vez, eu esbarro nele e nossos livros caem no chão.

— Foi sem querer. – Digo me abaixando. – Estava distraida.

— Hm... – Ele faz algum barulho, como se não estivesse prestando atenção em mim, e se ajoelha no chão, para pegar seus livros caídos. – Também estava.

Assim que levanto, consigo vê-lo por inteiro. Seu cabelo loiro liso, seus ombros largos... Ele é bonito, mas não como os garotos da minha família. Ele é másculo demais, grosseiro demais, que me faz duvidar se ele não está perdido em um lugar desses. Sua pele é clara, como se nunca fosse ao sol. Eu já havia percebido que seus olhos eram castanhos claros, no minuto que me assustei. O que consigo ver de sua boca, parece um pouco carnuda e o homem a morde quando seu dedo é cortado por um página do livro.

Não sei se é a cor vibrante do seu sangue, se é o cheiro que invade as minhas narinas ou se é o fato de eu estar com sede, só sei que engulo em seco. O homem se levanta, segurando todos os livros em um braço, enquanto olha debilmente para o dedo cortado. Será que nunca viu um simples corte?

Mordo meu lábio, assim que ele enfim coloca seus olhos em mim, e sinto o gosto do meu próprio sangue. Apoio os meus livros na estante e tiro um lenço da minha bolsa. Puxo a sua mão e o garoto volta com a mão para perto do corpo. Ele usa óculos, e isso faz com que ele pareça um nerd recatado. Apesar de todo o resto negar essa minha idéia. Seguro novamente em seu pulso e puxo a sua mão até mais perto. Sinto vontade de lamber aquela gotinha minima que está em seu dedo, mas me contenho. O que me fazer sentir um arrepio de medo. Não quero virar um monstro. Eu não posso virar um vampiro só por aquele sangue... Aquele homem me disse isso, e eu escolho confiar nele...

Eu termino de enrolar seu dedo no lenço, e ele me olha sem palavras.

— Foi minha culpa, por ter se cortado. – Dou de ombros.

O homem está me confundindo por estar na minha frente. Ele parece imerso em sua própria mente. Não parece certo em nada do que faz. Até mesmo quando respira, parece estar fazendo errado. Seu corpo não é tão grande quanto achei. Na realidade, parece com o corpo de Amon. Alto e forte. Só que se esse cara fica apenas lendo, deve ser genética. Seu rosto é incrível e se ele tivesse alguma atitude, além de ficar olhando para o próprio dedo sem saber o que fazer, seria bem interessante...

— Ok. – É tudo o que me responde, e então começa a olhar as estantes de novo.

Decepcionante... Volto a minha procura pelos livros da lista e assim que termino de falar com a bibliotecária, encontro com a minha amiga que está a minha espera.

— Algum te chamou atenção?

— É... Acho que sim.

Logo que saímos da porta principal, Prime para de andar para mexer no seu celular. Olho em volta a procura de um táxi. Sinto uma mão tocar em minhas costas, perto da minha bunda e abro os olhos por surpresa.

— Gata, foi mal por antes.

Gata?

Viro o rosto, pronta para usar algum golpe de Amon, quando percebo que é aquele homem da biblioteca. Só que agora sem óculos. É a primeira vez que vejo alguém que usa óculos, sem óculos, e não vejo diferença.

— Acabo não vendo as coisas ao meu redor, quando estou pensando muito. – Ele levanta a sacola na mão e depois olha para a minha. – Isso é o que? Livros de romance?

— Não sou muito fã desse tipo de romance. – Por alguns motivos bem sensatos. Ele não está falando sobre livros romantistas em geral e sim, aqueles recheados de ilusões românticas sobre como o homem deve ser. — Aqui tem alguns livros sobre a Renascença e alguns livros sobre a pós-modernidade como John Fowles, Julian Barnes, J. K. Rowling e Neil Gaiman. E você?

O homem olha de mim para a Prime, então sorri para mim.

— James Joyce, e outros romantistas. Não conheço muitas garotas como você, que saibam apreciar boa leitura.

— Não conheço muitos homens como você, que desfrutem de bons livros. – Dou de ombros, sentindo o meu braço cansar de segurar esse peso. Olho para sua mão e percebo que não está mais usando o lenço.

Notando que estou olhando para esse lugar, o homem tira o pequeno pano do bolso e estica para mim.

— Parei de sangrar. Devo ter parecido um idiota. – Consigo ver vergonha em seu sorriso, mas isso não parece incomodá-lo. – Juntou o fato de eu não gostar de sangue, com o fato de que eu estava bem distraído.

Achei divertido o seu comentário, e talvez por isso eu percebi que cheguei um pouco mais perto dele. Seu olhar passou pelo o meu corpo e, logo que parou em minha boca, sorriu. Não sei se é sua expressão, ou se é o passo que dá em minha direção, mas eu consegui ver sua malícia. Pelo amor de Deus, que esse seja humano!

Eu não sei... Não tenho como saber... Mas se fosse apostar, diria que esse é humano. Não sei se diria por que é um desejo meu, ou se seria por obra do destino, no entanto, contanto que seja humano, não me fará ficar ainda mais confusa sobre o que é real e o que não é.

Eu sei que nós dois estamos nos olhando com fome e malícia. E isso é realmente divertido, o primeiro homem que pude olhar esses dias, sem que minha consciência gritasse que era errado. Prime percebe o que está acontecendo, mesmo estando ao telefone, e então pega a sacola da minha mão. Ela dá alguns passos para o canto, encostando-se a uma das pilastras e me deixando relativamente sozinha. É bom não estar me sentindo fraca hoje. Isso me faz me sentir normal, novamente.

— Por que olha tanto para o meu corpo? O que tem em mente?

Sei que estamos em público, e isso é um motivo a mais por dizer algo aqui. Posso não o conhecer, nem saber o que passa em sua mente, mas seus olhos me dizem coisas. Não tão claras, mas dizem. O homem não faria nada nas atuais circunstâncias, mas ainda assim eu posso brincar mais livremente.

— Não tente brincar comigo. Eu não sei perder.

— A luxúria é como a avareza: aumenta a sua própria sede com a aquisição de tesouros.— Ando até outra pilastra, me distanciando ainda mais de Prime, e o homem continua me olhando da onde está. Depois de ri para si mesmo, ele balança a cabeça como se estivesse afastando algum pensamento.

— Montesquieu. – O homem fala o autor da frase que usei. Ele chega perto de mim, e apoia um dos braços ao meu lado. Quando acho que ele virá na direção da minha boca, novamente estou errada. O homem apenas coloca a sua sacola no chão e então me olha de bem perto. – As ações dos homens são os melhores intérpretes dos seus pensamentos.

— James Joyce. – Isso significa que já conhece o autor que pegou. Então, talvez essa parte de gostar de livros não seja apenas fachada. O homem sorri e se apoia no cotovelo, para ficar ainda mais próximo de mim. Não acredito que ele precisa se encurvar tanto, para sua boca parar em meu ouvido. Isso me faz sentir menor do que sou. — Você fala para eu não brincar, mas então por que quer?

É divertido de novo. E mais do que jamais foi. Por dois principais motivos. Primeiro, eu agora sei que não posso me apaixonar. Segundo, agora que sei disso, eu posso me divertir sem preocupações.

— A maioria das pessoas teme a morte por não terem feito nada em suas vidas.

Fico em silêncio mais que o necessário. Eu não temo a morte por não ter feito nada na minha vida. Ao menos acho que não. Eu temo a morte, por que já morri. E estão a minha procura para matar-me de novo. É por isso que eu temo a morte.

— Peter Alexander Ustinov.

O homem chega para trás e parece estar gostando da brincadeira. Prime diria que isso não é uma brincadeira. Apenas um estranho momento entre dois nerds. O que não me faria parar, por ser tão divertido. São frases com significados. Vários significados. E também é apenas um jogo de frase-autor, em que parecemos estar equilibrados. Não é um jogo que eu tenha brincado fora da casa da minha tia avó Nyx, no entando é bem exclarecedor. Com isso, dá para saber o que se passa na cabeça de um desconhecido, e até onde é sua sabedoria literária. Afinal, quem lê muito não é melhor do que quem quase não ler. Já que o importante é compreender o que há por de trás das palavras.

— Achei que você não consegueria esse. O nome é um pouco difícil de falar. Você está mostrando ser diferente do que minha primeira impressão. Acho que ainda há muito por debaixo disso. – Apesar da sua frase não parecer ter maldade nenhuma, seu sorriso malicioso me diz ao contrário.

Nessa distância que ficamos, nossos olhos estão se encarando em provocação de ambas as partes. São, sim, palavras. Somos, sim, estranhos. Estamos, sim, na frente de uma biblioteca. E dai? Não estamos fazendo nada demais. Não é como se eu fosse uma santa. E eu ainda sinto o cheiro do seu sangue...

— Ser uma coisa evidente é ficar reduzido a quase nada. — É assim que continua nossa conversa. Com frases de outras pessoas. E, antes, que era para aprendizado, agora é para entretimento. Apesar de que eu preferia estar intretida de outra forma.

— Teixeira de Pascoaes. – Sua resposta demorou mais do que as outras, mas ainda assim foi rápida. Isso que é ter boa memória.

— Na verdade, o que você falou é o pseudónimo de Joaquim Pereira Teixeira...

— De Vasconcelos. – O homem completa e coloca a mão, que não está apoiada ao meu lado, em meu rosto. – Eu achei que você não saberia o verdadeiro nome. – Ele dá de ombros. – Talvez eu tenha te suberestimado. – Segurando meu queixo, o homem olha para a minha boca e sorri, me tentando. — Eu não estava realmente apaixonado, mas eu senti algo como curiosidade.

Hãn? Por um minuto precisei parar para pensar. Já li isso antes. Mas faz um bom tempo... Qual era o nome do escritor mesmo?

— Francis Scott Key Fitzgerald. – Enfim, digo.Acho que demoro bastante, por que o homem na minha frente já está com um sorriso convencido.

— Correta, mas pode me chamar apenas de Scott.

É verdade. Apesar dessa brincadeira toda, não falamos nossos nomes. O homem continua com a mão em meu queixo, inclinando meu rosto para cima. Parece que só falta eu dizer o meu nome. É só disso que preciso? Tento entender os seus olhos de malicia, mas não consigo. Seu olhar não parece ligar para um nome.

— Ei, Cass. – Prime grita da outra pilastra. – Precisamos ir.

Estraga prazeres... Dou um passo para o lado, e homem solta o meu rosto. Abaixo meus olhos, como de pedisse desculpas pela interrupção ao mesmo tempo que a vergonha me invade, e então vou até a minha amiga. Na metade do percurso, escuto o meu nome saindo com a voz rouca dele. Paro de andar e olho por cima do ombro.

— Algo me diz que nos veremos de novo.

Rapidamente me lembro do livro da minha vida, que Pam tem e, então, concordo com a cabeça.

— Você tem razão.

Notas finais
Comentários sao bem vindos~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.