Invisível aos olhos
39 Capitulo 39
Notas iniciais
Termino de colocar os pedaços de prato dentro do saco. Levo o pedido a mesa, e então volto à cozinha para jogar o saco no lixo atrás da cafeteria. Assim que a porta fecha, e eu ando um pouco até o grande latão de lixo, eu escuto uns sussurros e um barulho muito fino, que meus ouvidos não conseguem identificar.
Depois de colocar o saco dentro do latão, sigo, nas sombras, o barulho até o beco na rua detrás da cafeteria. Escondo-me atrás da parede e olho para a escuridão. Consigo perceber que são duas pessoas, mas a falta de luz não me permite muito mais que isso. Escuto alguns ruidos, e parece que eles, seja lá quem forem, estão tendo um momento intimo.
— Por... Por favor... Alguém me ajude. – As palavras são muito baixas e parecem mentira.
Congelo como se aquelas mizeras palavras fossem muito pesadas para minha mente. Era a voz de uma mulher, eu sei disso. Calma! Eu conheço essa voz. Tento ver se estou certa e dou um passo para frente. Sem que eu percebesse, chuto uma latinha de refrigerante que sai rolando e fazendo um barulho. O cara para e vira o rosto para mim. Quando sorri, vejo sangue escorrendo pela sua boca e manchando sua blusa.
As nuvens saem da frente da lua, e uma luz foca os dois. Agora consigo enxergar o vestido rasgado na parte de cima, e o casaco preto no chão. A mulher estar com sangue nos ombros e no pescoço, sua boca também está vermelha, mas não parece machucada.
Elisa...
Os ombros do homem sobem e desce, enquanto eu o vejo tentando decidir o que fazer. Seu cabelo negro é comprido, picotado e vai até um pouco a baixo dos ombros. A franja desigual cai em seus olhos e ele passa uma das mãos na testa, ajeitando-a.
— Cassie... Me ajuda... – A voz da minha gerente não é muito forte, no entanto o som é bem claro, o suficiente, para eu ter medo do homem de preto, que a segura. – Me ajuda...
Eu dou um passo em falso, para trás e quando me viro para correr, ele está bem na minha frente. Me apoio na parede e escuto Elisa correndo e me deixando para trás, com esse homem. Não posso culpá-la, por fazer o que eu faria. O homem me analiza e passa a mão na boca, lambendo o que resta de sangue. Consigo ver uma mancha escura na parte de baixo da sua camisa preta. Além disso, há um corte na roupa.
— Você é bem idiota, Cassie. – Diz o homem, alto e extremamente assustador. Ele não se mexe muito, apenas fica apoiado com uma mão na parede atrás de mim, e uma em sua barriga. – Não deveria ajudar qualquer um que pede. Assim, você que terá sérios problemas.
— Não preciso de mais problemas. – Dou um passo para o lado e então sinto sua mão segurar o meu ombro e me empurrar contra a parede. – Qual é... Você já se alimentou, me deixe ir!
Os seus longos cabelos negros, caem para frente do seu peitoral e sua testa para a centimetros da minha. Inclinado, o homem dá um sorriso curto, mas é o suficiente para que eu note que sua boca agora está limpa, mesmo seu pescoço e blusa não estando. É como se quisesse fazer piada da minha roupa, mas ao mesmo tempo quisesse que eu tivesse medo. Eu não tenho certeza absoluta do que estou vendo, no entanto, se eu for pelo senso comum diria que esse homem é um vampiro. Ou um pisicopata qualquer...
— Me alimentei... Engraçado você falar isso. Já que você atrapalhou minha refeição. – Tirando a mão que estava apoiada na barriga, ele segura o meu queixo e levanta o meu rosto. Consigo ver a perfeita lua cheia atrás dele.
Será que a lua cheia tem algo a ver?Não tenho mais certeza se ele é um vampiro ou um lobisomem... Mas que ele é estranho, não tenho duvidas.
Sua unha se alonga e perfura a pele do meu braço, como se eu já não tivesse com dor por causa do treino do Amon. O homem parece tentar sentir o meu cheiro e logo depois faz uma careta. O homem não é branco demais, como diz a lenda. Suas unhas conseguem crescer ou ficar de um tamanho normal, por sua vontade. E seus dentes não parecem nada de mais. Pelo o que vi até agora, sua velocidade é humanamente impossível, mas não sei quanto a força.
— Você tem um cheiro estranho, menina. – Ele lambe o dedo e parece pensar. O homem olha para sua mão com o meu sangue e, então, volta a lamber. – Confesso que não conheço esse gosto.
Se o Amon estivesse aqui, ele poderia fazer alguma coisa. Se esse cara for um lobizomem ou um vampiro, Amon daria um jeito. Amon... Eu poderia fazer o que ele me ensinou! Consigo soltar o meu braço da mão do homem, o seguro pela nuca e o puxo para baixo. Dou uma joelhada em sua costela e sou em quem sente a dor do impacto. Merda.
O homem dá um passo para trás, e parece irritado. Meu joelho bateu em algo tão duro, que estou sentindo inchar, então por que o cara parece sentir dor?
— Por que não treme de medo como as outras? Você não é do meu mundo, devia estar aterrorizada. – Com isso, o homem deixa claro que ele é do Outro Lado.
— Você não é o primeiro monstro que encontro, e tenho certeza de que não será o último. – Tento dá outro passo para a esquerda, e ele não me para dessa vez. Dou mais um, e outro. Logo, como se por mágica, o homem volta a estar na minha frente.
— Quando se fala de vampiros assumidos, é comum pensar em imagens horríveis. Por isso, a comunidade é tão fechada e cautelosa com que é de fora. – Como se isso fosse uma boa explicação, ele levanta a camisa, e eu vejo um corte fundo em sua barriga. – Ao longo da história, encontramos casos em que o sangue humano era considerado uma cura médica genuína, por isso, não me chame de monstro. Não sou muito diferente dos antigos humanos.
O homem coloca a mão em meu rosto e tenta abrir os meus olhos, chegando mais perto ele os assopra, e isso me incomoda demais. Dou um tapa em sua mão, e mesmo ela me soltando, a minha própria palma da mão fica doendo.
— Meu pensamento estava correto. É por isso que seu gosto era estranho. Você não está viva de verdade. Eu vejo a verdade por de trás dos seus olhos. Acho que é por eu ser um vampiro... Mas, seus olhos são opacos como se já estivesse morta... – Ele para de falar um pouco, e parece estar pensando. – Talvez você seja a garota que estão procurando. A garota que enganou a Morte.
Passo por baixo do seu braço e sigo andando, como se isso tudo fosse besteira e o vampiro sujo de sangue não estivesse me ameassando. O meu braço é puxado para trás e eu sou pressa novamente contra a parede. Sei muito bem que meu uniforme está sendo estragado, no entanto, depois de me deixar para trás, minha gerente não pode se importar. Alguém... Socorro. Seguro o meu cordão com força, como se Matthew ou talvez os gêmeos pudessem me ouvir.
— Então, você é Ela. Que conhecidência... – O homem segura o meu queixo com força, enquanto sorri e seus caninos crescem levemente. Sempre me questionei se eram os caninos que cresciam, como um carnivoro, ou se eram os dois dentes da frente, como um morcego ou rato. Acho que os dois fariam sentidos, nesse caso. — Sabe, Cassie... Quando Ele foi até meu ninho e nos ameassou, percebi que havia algo errado. Uma alma perdida é algo que se peça aos Shinigamis. Acreditos que Ele foi em outros clãs do continente. Não tinha ordem especifica de levar-te viva ou morta. – Ele dá de ombros. — E pensar, que logo eu, que não procurava, achei.
Seus olhos escuros passam para um azul bem claro e depois viram dourados, ao mesmo tempo que o homem abre a boca e solta um barulho.
— Bon appetit.
Seus dentes são cravados perto da minha clavicula e a minha dor é estrema. Tento gritar, mas assim que começo, sua mão tampa a minha boca e me morde mais forte. Eu não tenho sangue o suficiente para isso... Seu rosto se afasta de mim, logo após eu sentir sua lingua passar no meu machucado.
— Não vai me matar?
— Está pedindo para morrer? – O cara sorri, com um pouco do meu sangue em seus dentes. Ele levanta o pulso até perto do rosto e se morde, deixando escorrer o próprio sangue. – Beba!
Faço que não com a cabeça, virando o meu rosto para o lado.
— Não quero virar um monstro! – Quase grito, quando ele empurra seu sangue contra a minha boca. Sem ter como cuspir, acabo engolindo um pouco. – Não quero! Não!
— Precisa de mais do que isso, para se transformar em vampira, idiota. – Seu braço se curou e ele também não reclama da barriga. Cortando o pulso, com os dentes, de novo, o homem volta a empurrar o sangue pela a minha boca. – Você já tem um leve cheiro de morte.
— O que está fazendo? – Afasto a sua mão, novamente.
— Eu falei. Sangue realmente cura. Por eu ter bebido bastante da sua amiga, posso te dar um pouco. – O cara sorri de lado. – Acontece que eu não gosto dEle. – O homem dá de ombros. – Se lembre de que vampiros não são bons. Sem exceção.
— Então, por que faz isso? Porque mascarar meu cheiro com o seu sangue?
O homem me solta e dá alguns passos para trás, como se a qualquer momento fosse virar um morcego e voar.
— Foi uma troca. Nada mais, nada menos. – Ele se vira, e apenas vejo as suas costas escuras, se fundindo com o beco. – Dá próxima vez que você vir um vampiro, corra.
E assim que sumiu, Gae aparece em sua forma dragão, voando pelo portal trandimencional. Seu rosto quente para perto de mim e acho que ela sente o cheiro do meu sangue. Não sei bem se nos comunicamos ou não, mas entendo que é para eu subir em suas costas. Estando lá em cima, me seguro firme e subimos. Não sei se alguém nos ver... Eu espero que isso não me traga ainda mais problemas.
Eu não esperava por isso. Não esperava que vampiros existissem, muito menos que eu veria um de tão perto. Não esperava que por obra do destino ele me desse seu sangue, com intuito de troca e muito menos que... Sinto o resto do gosto de ferro na minha boca e um sentimento de medo brota em meu peito.
Esse gosto... Eu gostei disso.
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