Meu primeiro passeio com a rainha Elsa foi dois dias depois de nos conhecermos. Eu decidi levá-la ao bosque do norte onde, agora no verão, tudo parece completamente mágico e fantástico. Ela era mágica e fantástica, e não havia melhor lugar para passearmos.

Cheguei ao castelo pouco antes do sol se pôr. Elsa usava um vestido simples e bonito e o cabelo estava trançado, caído de lado sobre seu ombro. Ela estava deslumbrante sem sequer se esforçar. Empoleirei-me no parapeito de sua sacada e ela se aproximou, trazendo uma brisa suave e fria com ela.

– Olá, Jack Frost – Elsa acenou com a cabeça. Suas mãos estavam postas diante do corpo e sua postura era perfeita e... tensa. Ela devia estar nervosa.

Fiz uma reverência desajeitada.

– É um prazer ver você de novo – eu disse. Estendi-lhe a mão. – Vamos?

O semblante dela mudou.

– O que quer dizer? Precisamos descer primeiro. Uma carruagem nos espera, Jack.

Franzi a testa. Uma carruagem? Eu não andaria de carruagem coisa nenhuma, não quando podia aproveitar o vento e pairar por aí.

– Bem, nós não precisamos de carruagem alguma – estendi a mão para ela outra vez. – Você confia em mim?

Sua mão estremeceu.

– Como posso confiar se acabei de te conhecer? – ela disse, erguendo o queixo de maneira desafiadora como só uma genuína rainha sabe fazer. – Iremos em minha carruagem. Encontro você lá embaixo.

Revirei os olhos, não gostando nada dessa história. Mas, afinal, Elsa era a rainha e eu já estava completamente atraído por ela. O que podia fazer a não ser atender aos seus caprichos? Eu sei, eu sei. Um homem deve se impor e dizer o que pensa, deve mandar e não obedecer. Bem, isso não me ajudaria agora, não é mesmo? Primeiro eu precisava ganhar a confiança dessa rainha estonteantemente linda.

– Certo – resmunguei. E me lancei para trás segurando meu cajado.

Elsa gritou de susto e foi até a beira da sacada, procurando por mim. Ela não sabia que eu e o vento éramos melhores amigos?

– Você está bem? – ela perguntou.

Não me contive; comecei a gargalhar alto até a barriga doer. Elsa se importava comigo então...

– Achei que tivesse caído! – ela reclamou, nada contente. – Não devia preocupar as pessoas dessa maneira!

Apoiei-me no parapeito outra vez, perto dela o suficiente para sentir seu perfume.

– Então ficou preocupada comigo? – toquei seu nariz com o meu. Elsa afastou-se num pulo. – Não deve se envergonhar por isso, majestade! Se você caísse de uma sacada dessas, eu seria o primeiro a pular para resgatá-la!

Ela ficou vermelha feito um pimentão e disse:

– Ora, vamos logo para a carruagem...

Achei a carruagem de Elsa chique, mas exagerada. Sentei-me ao seu lado, rindo das expressões dos guardas e do cocheiro que nos acompanhavam, e fiquei olhando para a rainha durante todo o percurso. Ela era tão encantadora e nobre, tão tranquila e gentil...

– Por que está olhando para mim dessa maneira? — perguntou Elsa.

Eu sorri.

– Não é nada. Estou pensando. Por que aceitou passear comigo hoje?

– Eu... quis compensá-lo pelo que houve. Sabe, no outro dia, quando eu...

Sacudi a cabeça.

– Não precisa me compensar. Foi um acidente e está tudo bem. É só por isso que veio?

As bochechas de Elsa ficaram rosadas e ela desviou o olhar. A carruagem sacolejava.

– Na verdade, não — disse ela. — Você é como eu. Tem magia e sabe controlar.

– E você acha que passando um tempo comigo pode aprender a controlar seus poderes também?

Ela assentiu.

– Sim. Talvez.

A carruagem sacudiu mais forte.

– Bem, eu disse a você que a ajudaria — sorri para ela, tentando soar encorajador. — Farei meu melhor.

Elsa piscou seus lindos olhos azuis e me encarou com curiosidade.

– E você? — ela perguntou. — Por que vai me ajudar?

A carruagem sacudiu ainda mais forte e os guardas gritaram lá fora.

– Protejam a rainha! — exclamaram.

Peguei meu cajado — que havia deixado no chão ao entrar — e empurrei o ombro de Elsa quando ela tentou se levantar.

– Fique aqui — sussurrei para ela. Seus olhos estavam preocupados e curiosos.

– Mas... — ela tentou protestar.

– Não. Shh — coloquei o dedo indicador sobre meus próprios lábios.

Ficamos em silêncio.

– Não saia — sibilei para ela, abrindo a porta da carruagem e me colocando para fora o mais rápido possível antes de voltar a fechá-la. Selei a maçaneta com gelo, para manter Elsa segura ali dentro.

A cena que se seguiu foi um pouco chocante para mim e, por cerca de alguns segundos, tudo o que fiz foi ficar imóvel, surpreso. Os guardas da rainha estavam desacordados no chão. Suas roupas estavam chamuscadas e os cavalos acabavam de fugir. Mas não havia sinal algum de bandidos ou quem quer que fosse querendo atacar a carruagem real. Não fazia sentido.

– Jack? — chamou Elsa. — Jack, o que está havendo? — ela batia na porta, do lado de dentro. — Não consigo sair!

Foi então que uma risada grave e sarcástica chamou minha atenção. E o dono dela ainda mais.

– Acertei a carruagem errada? — indagou um rapaz ruivo muito bem vestido. Ele vestia luvas brancas enquanto ria com maldade. — E então? — ele olhou para mim. — Quem é você e onde está minha doce rainha?

Ergui meu cajado.

– O que alguém como você pode querer com a rainha?

– Isso não é da sua conta — ele deu de ombros. Seus olhos verdes fitaram a carruagem cruelmente. — Ela está aqui dentro?

Apontei o cajado para ele, ofensivo.

– Ela não está aqui. Gostaria de deixar um recado?

O rapaz riu.

– Oh, sem dúvida. Diga à Elsa que estou indo tomar Arendelle e que, dessa vez, tenho alguns truques na manga.

Foi nesse instante que a carruagem explodiu. Ou melhor dizendo, Elsa a explodiu.