Inverno Ardente
29 Treinamento

Não poderia dizer que gostava daquele lugar, era frio e um tanto claustrofóbico, sentia falta de janelas e luz do Sol, no entanto entendia que era sobre segurança... Beverly tomou um gole de café e encarou a cozinha vazia e enorme, dizer que tinha saudades de casa seria uma mentira, além disso Mike estava se divertindo mais que nunca ali, naquele mundo que era tão diferente do deles.
Que o garoto adorava Savannah não era novidade alguma, porém vê-lo se afeiçoar tão rápido aos outros foi muito interessante... Os amigos de Devenport eram muito distintos entre si, e Beverly ainda lembrava muito bem de todas as criticas preconceituosas que Ryan tecia a cada um deles sempre que os via frequentar o prédio. Ela nunca tivera oportunidade de conhecer nenhum de verdade, amizades comuns já seriam motivo de uma discussão que não acabaria bem, amizades com o grupo de Savannah podiam custar ainda mais caro...
Porém Ryan não estava mais ali, e Beverly pôde se aproximar de cada uma daquelas pessoas com calma e com um olhar livre de pré-julgamentos. E se arrependeu de não ter feito isso antes. Percebeu logo que todos — apesar de absolutamente diferentes — tinham algo em comum com Savannah; eram acolhedores e estavam sempre prontos para ouvir e apoiar.
Eram uma família, mesmo que — com exceção de TJ e Abby — não compartilhassem nenhum parentesco.
Mike tinha uma predileção especial por TJ, isso porque os dois eram duas crianças com ideias mirabolantes que pareciam estar em um grande parque de diversões. O coitado do Gus terminaria aquela pequena estadia naquele esconderijo totalmente maluco por ter que seguir os dois pestinhas pra cima e pra baixo.
E, se Mike havia escolhido seu preferido, Beverly também havia escolhido a dela. Sierra. Havia um certo tipo de calmaria em estar perto da psicóloga, ela sempre sabia o que dizer... Haviam conversado muito naqueles últimos dias, a principio Bev ficou um pouco retraída, mas era muito fácil falar com Sierra, e o modo como ela explicava a vida e suas ideias fazia com que um tipo de esperança nascesse de algum lugar.
Tinham conversado sobre terapia, sobre a importância desse tipo de acompanhamento para alguém que havia sofrido nas mãos de um homem abusivo. Beverly foi relutante de início, sempre pensou em terapia como algo destinado a quem era doente ou louco e ela não era nenhum dos dois.
Porém, aos olhos de Sierra, terapia era mais que um tratamento, era prevenção também; se consultar com um profissional ajudaria Beverly a se conhecer melhor e a lidar com traumas que ela podia nem perceber que possuía, além de evitar novos traumas de se enraizarem e minarem sua saúde mental a longo prazo. Um terapeuta também auxiliaria seu paciente a processar certas emoções de formas mais saudáveis e isso por si só podia evitar muita dor futura, própria ou infligida a outros, mesmo que sem intenção.
Era um tanto difícil debater com Sierra, porque ela de fato tinha argumentos bons, então Beverly decidiu dar uma chance e pegou o cartão que a psicóloga lhe deu. Era de outra terapeuta, alguém especializada em assuntos pertinentes para a situação, já que Sierra tinha outra linha de atuação e seria antiético consultar Bev, afinal as duas tinham se aproximado bastante naqueles últimos dias.
Então Beverly tinha seu primeiro objetivo para quando saíssem daquele esconderijo e de alguma forma isso lhe fez muito bem, não era mais sobre controle de danos e tentar se proteger de um possível — e provável — retorno de Ryan, era sobre fazer algo em prol de seu futuro. Algo para si mesma.
Porque, sim, achava que cedo ou tarde Ryan estaria de volta. Tinha uma ordem de restrição contra ele, mas Beverly duvidava que isso o impediria. E, de uma forma ou de outra, ele era pai do Mike, com certeza usaria isso para se aproximar, mesmo que fosse dentro dos moldes da justiça. Estava presa àquele homem pra sempre.
Era esse pensamento que lhe deixava acordava a noite...
Lavou sua xícara vazia e a colocou no escorredor, a maioria das pessoas ainda estava dormindo, incluindo Mike, e Beverly cogitou voltar para a cama, porque na verdade não havia muito o que fazer naquele lugar. Pelo menos não para ela.
Estava seguindo pelos corredores frios quando notou barulho e movimento em um dos cômodos. Não era curiosa ou intrometida, mas sabia que aquele era o quarto de Sam, por isso se pegou prestando atenção enquanto diminuía o passo. Ele estava fora com Bucky para uma missão há dias, será que tinha voltado?
Não precisou questionar muito, porque a porta se abriu bem naquele momento e um Samuel Wilson ainda com cara de sono apareceu bem na sua frente.
— Hey, Bev. — Ele sorriu ao vê-la passando, e era interessante como mesmo pela manhã tinha aquele bom-humor de sempre.
Ela se pegou sorrindo também, algo involuntário. Ele estava bem... Quer dizer, não que estivesse preocupada, Sam era um homem adulto e com certeza podia cuidar de seus próprios assuntos... Mesmo assim aquela parecia uma vida muito perigosa.
Não era grande coisa, estaria preocupada com qualquer um.
— Bom dia. — Respondeu neutra. — Não sabia que já estava de volta.
— Chegamos de madrugada... — Ele se espreguiçou soltando um bocejo e Beverly desviou o olhar dos músculos que tencionaram e apareceram por baixo da camiseta branca — Que bom que te encontrei logo cedo, tem uma coisa que precisamos conversar, está ocupada?
Ela voltou os olhos para Sam e negou devagar; não imaginava o que podia ser e o tom dele não denunciava muito também.
— Ótimo, vou pegar uma xícara de café e já volto. Me espera aqui. — Wilson declarou simples, apontando para o quarto e saiu em passos rápidos.
Beverly pensou em segui-lo para que tivessem aquela conversa em outro lugar, mas já estava ali parada no corredor, então decidiu fazer o que Sam dissera. Entrou no cômodo, notando que a cama já estava feita.
Não conhecia muitos homens que arrumavam a cama de manhã... Deixou esse pensamento intruso de lado e olhou ao redor; o quarto de Sam era exatamente igual ao dela, o mesmo espaço exagerado, a mesma cama gigante... No entanto, ele tinha menos malas e uma delas chamou atenção. Era um tipo de bolsa de couro, redonda e grande, como se fosse um estojo para um instrumento musical, embora não conseguisse pensar em nenhum instrumento musical com aquela forma perfeitamente circular.
Ainda estava ali parada no mesmo lugar, de pé, ponderando o que teria na bolsa de couro, quando Sam retornou.
— Como você está? — Foi a primeira coisa que ele perguntou, lhe estendendo uma xícara extra de café. — Você e o Mike estão precisando de alguma coisa?
Beverly notou que Sam teve a delicadeza de não fechar a porta e ficou aliviada com isso, se sentiria muito estranha presa em um quarto com ele...
Ela pegou a xícara oferecida, sem se importar que tivesse acabado de tomar aquela mesma bebida há alguns segundos, café nunca era demais.
— Estamos bem, obrigada. — Respondeu depois de um gole, analisando o rosto de Sam com cautela em busca de qualquer sinal do que conversariam. — O que aconteceu?
Sam respirou fundo, bebeu um longo gole de café e, pela primeira vez, Beverly notou a preocupação em seu semblante.
— Estive em contato com o Dom nesses dias que fiquei fora... — Revelou em um tom controlado e o corpo de Bev tremeu sem controle.
— É o Ryan? — Ela soltou, sentindo que o coração batia apavorado. Só uma coisa podia justificar aquele olhar preocupado de Sam. — Ele está livre, não é?
Mas seu pavor repentino e latente se tornou confusão com Samuel negou com um movimento de cabeça.
— Ele foi transferido para a penitenciaria regional da Pensilvânia.
— Pensilvânia? — Beverly franziu as sobrancelhas. Por que junto lá? Por que exatamente no mesmo presidio em que seu pai estava? — Isso é estranho, não é?
— Esse tipo de coisa não acontece sem que alguém com influência mexa alguns pauzinhos... — Sam comentou e era evidente que também estava a par daquela coincidência curiosa. Dom devia ter informado.
Nenhuma alternativa das várias que se amontoavam na mente de Beverly era boa. Não duvidava que seu pai tivesse influência o bastante para manipular uma transferência daquelas, mas o motivo pra isso era o que realmente assustava...
Se Ryan e Jordan começassem a trabalhar juntos, a vida de Beverly e Mike poderia se tornar um pesadelo.
— Por favor, não fica rodeando o assunto, fala de uma vez, eu aguento. — Pediu, nervosa com o olhar compadecido que Sam lhe oferecia.
— Ele está morto, Beverly.
— O que? — Ela não conseguiu acreditar no que tinha acabado de ouvir.
Algo como aquilo não estava nem perto de passar por sua mente.
— Foi encontrado morto na cela. A gestão interna do presidio está tratando como suicídio. — Sam explicou, mas não parecia convencido de suas próprias palavras.
Não... Beverly sabia muito bem que Ryan nunca cometeria suicídio.
— Ao mesmo tempo, Dom interceptou uma carta pra você vinda de lá. — Samuel continuou, os olhos expressando muito mais preocupação do que suas palavras. — Do seu pai.
— E o que diz? — Ela perguntou, mesmo que seu coração batendo apressadamente já soubesse a resposta.
Fazia anos que o pai não lhe escrevia.
— Aparentemente nada importante. — Sam se virou, e pegou um papel na cômoda. — Dom me mandou uma cópia por fax.
Beverly deixou a caneca de lado para abrir a folha branca com as mãos trêmulas; as palavras eram doces, carinhosas, falavam de saudade e de antigas lembranças de família, no entanto a forma que algumas coisas estavam escritas, pequenos detalhes nas letras, fez com que os olhos negros captassem mais do que era visível.
Conhecia os códigos do pai melhor do que gostaria...
— Eu não acho que esse tipo de coisa é coincidência. — Sam ponderou e Beverly anuiu em concordância.
— Não é. — Ela apontou a cômoda onde uma caneta repulsava e ele lhe entregou o objeto. — Eu conheço a forma como meu pai faz as coisas. Além disso, está escrito aqui...
Ela circulou as palavras destacadas pelos pequenos detalhes, coisas que seriam totalmente insignificantes para olhos desatentos ou para quem não conhecesse os truques do Víbora:
“Resolvi seu problema. Não vou dizer que te avisei. De nada.”
Beverly deixou o papel em cima da cômoda e se afastou alguns passos. Ryan estava morto. O pai dela tinha feito isso...
— Hey... — Sam apareceu em seu campo de visão, e tocou o ombro de Bev com carinho. — Nada vai acontecer com você e com o Mike, você tem minha palavra. Não precisa ficar com medo.
Ela esboçou um sorriso meio triste para a preocupação e comprometimento de Samuel, no entanto, de todas as coisas em sua mente naquele momento, “medo” não estava em parte alguma.
Pela primeira vez não tinha mais do que ter medo... Ryan estava morto e isso era... bom.
Apesar dos métodos, apesar da forma como tinha acontecido, Beverly não tinha dó daquele homem.
Sim, sabia que aquilo indicava que o Víbora estava de olho em tudo e também entendia que ele podia se tornar um problema a longo prazo, no entanto, pensando em retrospectiva, o pai nunca lhe erguera a mão, nunca lhe fezira mal... Manipulou alguns homens para que lhe dessem atenção e com certeza tinha a mania de tentar controlar a vida dela. Mas isso era mesmo pior do que tudo que Ryan tinha feito nos últimos anos?
Além disso, o Víbora estava na cadeia, com influência externa ou sem, mantê-lo bem longe de Mike seria mais fácil do que lidar com Ryan e possíveis visitas quinzenais. Jordan tinha respeitado a distância imposta pela filha todos aqueles anos, Ryan nunca respeitou nada...
O menor mal, parecia mais aceitável naquele momento.
— Não ficar triste com isso, faz de mim uma pessoa terrível? — Questionou, assustada com o rumo dos próprios pensamentos.
Empatia não devia ser o mínimo naquela ocasião?
— Não. Você é uma boa pessoa, Bev, e uma mãe incrível. Ficar aliviada por não ter mais esse homem na sua vida e no seu caminho, não muda isso. — Sam esfregou o braço dela em um gesto de conforto e só então Beverly ficou consciente do quão íntimo aquele contato era. — Você não é culpada pelos crimes do seu pai. E com certeza não deve nada a ele por isso.
Ela concordou com um movimento lento de cabeça, absorvendo aquelas palavras e as repetindo mentalmente em looping para que seu cérebro as aceitasse como verdadeiras. Não devia nada ao pai por qualquer coisa que fosse...
— Mãezinha? — A voz de Mike, vindo em um tipo de sussurro gritado, como se ele temesse acordar alguém, fez com que Beverly se afastasse de Sam rapidamente, quase como se estivesse cometendo um crime ali.
— Eu estou aqui, Mike. — Ela respondeu, recuperando sua xicara de café e encarando Samuel em seguida, para pedir em um murmúrio quase inaudível:— Se importa em não contar nada pra ele ainda?
— Isso é totalmente sua escolha. — Wilson declarou, oferecendo a Beverly um sorriso compreensivo.
Mike não precisava saber que pai tinha morrido ainda, não quando se tratava de um pai como Ryan Porter.
O garotinho entrou no quarto alguns segundos depois, claramente sonolento, esfregando os olhos e arrastando os pés, mas esse comportamento letárgico foi embora no mesmo instante em que ele notou o Falcão ali.
— Sam! — Exclamou animado, abrindo um sorriso enorme e correndo na direção do mais velho, que ficou feliz em abraçar o garoto e trocar um aperto de mão engraçado com ele.
Beverly bebeu um gole do café já um tanto frio enquanto observava os dois conversarem, ou melhor, Mike disparava perguntas na velocidade da luz e Sam tinha a adorável paciência de responder todas elas da melhor forma que alguém podia dizer certas coisas a um garoto de seis anos.
E Samuel Wilson era bom nisso... Bom de um jeito que fazia o coração de Bev ficar aquecido, o que era totalmente inapropriado para uma mulher na condição dela. Talvez por esse motivo ficasse sempre procurando defeitos em Sam, era automático e também inútil. Não havia nada pra condenar em seu comportamento, mesmo seu humor duvidoso era agradável.
Ou talvez ela tivesse sendo trouxa e iludida... Não seria a primeira vez, não é mesmo?
Pessoas tinham defeitos, Wilson tinha que ter algum também. E era bom que esses defeitos se mostrassem logo, porque estava ficando realmente difícil não se encantar por ele...
— O que é isso? — Mike apontou no meio da conversa, e Beverly só saiu de seus próprios pensamentos porque o pequeno correu até a bolsa circular no canto do quarto.
— Não é nada... — Sam respondeu e foi a primeira vez em que Beverly notou hesitação na voz dele.
Quando foi impedir Mike de mexer no que não devia, ele já tinha puxado um pouco o zíper.
— É escudo do Capitão América?! — O garoto arregalou os olhos no limite de toda a empolgação. — Minha nossa! Posso ver?!
Beverly notou que Sam ficou desconfortável, constrangido e um tanto apavorado como se não fizesse ideia de como responder.
— Mike, já chega. — Ela advertiu, sabendo que o filho tinha passado dos limites ali. — O que eu disse sobre mexer nas coisas dos outros?
O garotinho pareceu lembrar de sua educação de uma vez só e baixou os olhos para o chão, se afastando da bolsa de couro que agora revelava parte de um objeto metálico circular nas cores azul, vermelho e prata.
— Me desculpa, Sam. — Ele pediu com a maior carinha de culpado do universo.
— Não foi nada, carinha. — Samuel se abaixou perto dele, e apoiou a mão no ombro do pequeno. — Outro dia eu te deixo dar uma olhada...
Mike abriu o melhor dos sorrisos e deu alguns pulinhos no lugar, mudando a postura imediatamente:
— Eba! Vou acordar o TJ pra contar que eu vou pegar no escudo do Capitão América!
A criança sequer deu tempo de que alguém dissesse alguma coisa, apenas saiu correndo porta afora gritando o amigo, como se houvesse um incêndio acontecendo.
— Você sabe que acabou de iniciar o apocalipse, não é? — Bev declarou compassiva, sabendo que os dois garotos transformariam aquela pequena coisa em um grande evento e falariam disso initerruptamente. — Mike não é muito de guardar segredos. Mas eu posso pedir que ele...
— Não precisa. — Sam a interrompeu com um gesto casual da mão direta. — Você o está criando pra se comunicar sobre tudo, isso é bom, crianças pequenas precisam disso...
Ele provou que entendia exatamente o ponto de Beverly ao instruir o filho a não guardar segredos, principalmente para adultos. O mundo não era um lugar justo e crianças podiam ser presas fáceis de gente mal intencionada. E se Bev não conseguia confiar nem no pai do garoto, era melhor que Mike fosse educado para não ser vulnerável a qualquer atrocidade...
— Além disso não é exatamente um segredo, é só... — Sam respirou fundo e se sentou na cama, enquanto negava em movimentos sutis. — ...complicado.
Beverly viu que era importante, estava evidente que aquele assunto tinha peso para Samuel. Uma parte de si mesma lembrou que não era da sua conta e que quanto menos ela se envolvesse melhor, no entanto aquele homem vinha lhe ajudando tanto nos últimos dias que seria desumano não expressar apoio naquela situação.
— Quer falar sobre isso? — Questionou, deixando novamente a xícara sobre a cômoda e se aproximando para sentar ao lado dele. — Sou uma boa ouvinte.
Sam encarou o nada por alguns instantes, como se viajasse nas próprias memórias, não era difícil notar como aquilo pareceria lhe causar algum tipo de aflição.
— Ele me deu o escudo... — Soprou como uma confidência, e não precisou citar nomes, Beverly entendeu de quem falavam. — Mas não é o escudo, sabe, é o que vem com ele.
— O legado. — Ela definiu de forma certeira.
— Exato. O legado do Capitão América. Eu devia honrar isso... — Um suspiro pesado e os olhos dele focaram nela.
Foi a primeira vez que Beverly viu aquele homem parecer perdido e cheio de dúvidas.
— Você devia honrar o legado sendo o Capitão América. — Novamente ela entendeu perfeitamente qual era o ponto.
Legados podiam de fato ser algo complicado...
— Pode imaginar algo assim? — Sam riu sem qualquer humor e encarou as mãos pousadas sobre os joelhos. — Um cara como eu sendo um símbolo da América?
Beverly pensou naquilo por um instante; em como o mundo seria se homens como Sam fossem símbolos...
— Na verdade eu posso sim... Eu posso imaginar perfeitamente. — Ela sorriu compassiva e calma, visualizando aquela realidade e gostando muito do que via.
Wilson, no entanto, não pareceu concordar, sua cabeça se moveu em negativa e desaprovação diversas vezes, enquanto seus olhos alternavam para o escudo ali no canto.
— O Capitão devia ser um símbolo de esperança e coragem. Eu não acho que o resto da América vai concordar muito com um cara negro nessa posição. — Ele soltou em um tom crítico, não era autodepreciação, era um ataque sutil à realidade em que viviam.
E Beverly entendia, com certeza entendia aquilo muito bem... Viviam em um país que pregava igualdade e liberdade, mas por baixo dos slogans bonitos e das frases de efeito a realidade era cruel, porém o que ela também entendia é que a mudança não viria se ficassem parados esperando.
— Talvez o que a América precise é ver que, o que torna alguém um símbolo de esperança e coragem é o seu coração e seus atos, não a cor da sua pele. — Declarou, atraindo o olhar dele em sua direção. — Além disso, você tem uma oportunidade aqui, Sam. Se você fizer isso, talvez daqui uns anos o Mike não tenha que ter conversa desagradável sobre “como se portar na frente da polícia” com os filhos dele.
Sam Wilson não precisou de tempo para processar aquelas palavras, mas concordou devagar. Queria dizer a Beverly que entendia perfeitamente, que sabia o impacto que assumir o manto de Capitão América teria para a comunidade negra. Um cara preto sendo um símbolo de heroísmo em um país que, há menos de cem anos, ainda segregava as pessoas baseado em sua cor... Isso era importante.
Claro que a América não era apenas os Estados Unidos, mas era ali, e dali, que viria o impacto. Sam não sabia o que esperar das pessoas, não sabia o que esperar do governo. Estava com medo, não dos desafios, é claro, seu medo tinha a ver com não ser bom o bastante, com falhar, com desperdiçar uma oportunidade daquele tamanho por não ser digno dela.
Sabia que sua responsabilidade não seria apenas heroica, que teria muito mais a honrar que um simples legado... Eram coisas que homens como Steve ou Bucky não entenderiam. Se Sam erguesse aquele escudo ele podia de fato trazer mudança na vida de uma raça que já fora humilhada demais pelo mundo, porém se ele errasse, essa mudança não seria positiva...
Esse era seu principal receio. Se falhasse, não estaria falhando apenas com Steve Rogers.
— Eu sou um cara normal, Bev. Eu nunca quis ser um símbolo, eu sequer pretendia ser essa coisa de herói, eu só queria fazer a coisa certa. — Soltou o ar dos pulmões.
— Nem todo mundo pode ser um herói, algumas pessoas são normais demais pra isso... — Beverly o surpreendeu ao tocar-lhe a mão direita. — Mas você não é uma dessas pessoas, Sam. Você pode não ter poderes malucos ou um braço de metal, mas você não é normal. Eu te conheço faz pouco tempo, mas sei que você é especial.
Ela sorriu e nossa ficava muito bonita daquele jeito... Sam acabou sorrindo também por puro reflexo e envolveu os dedos nos dela como se isso pudesse lhe dar forças para enfrentar o mundo.
— Além disso, acho que o mais importante você já tem. — Bev continuou e talvez sequer desconfiasse do quão forte e impressionante ela era. — Você gosta de ajudar as pessoas, e quer mesmo fazer a coisa certa. Você seria ótimo segurando aquele escudo, Sam, e eu sei que cada um de nós ficaria feliz e honrado de ser representado por um homem como você.
A viu se levantar e não gostou muito da separação repentina de suas mãos.
— Eu sei que estar pronto leva tempo. Caramba, olha só quando tem eu levei pra estar pronta pra fazer o certo pra mim mesma... — Ela riu de canto, embora não houvesse humor naquele gesto, então apoio os dedos no ombro de Sam. — Mas eu acho mesmo que devia pensar sobre isso.
Ele assentiu devagar e, antes que Beverly pudesse se afastar, segurou a mão dela repentinamente.
— Obrigado. — Soprou, notando que gostava muito mais do que deveria do contato da pele dos dois.
— Disponha. — Beverly respondeu, dando mais alguns passos para trás e se separando de Sam, todavia parando na porta do quarto. — É como eu disse: sou uma boa ouvinte, Capitão.
Ela saiu então, e não teve oportunidade de ver o sorriso que deixou no rosto de Sam Wilson.
“Capitão”... é, talvez ele pudesse se acostumar com isso afinal.
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— E... Você está morta. De novo. — A voz critica de James veio junto com a faca de borracha que parou no pescoço de Savannah. — Continua deixando a guarda aberta. Nunca deixe a guarda aberta para o inimigo.
A ruiva deu alguns passos para trás e soltou o ar dos pulmões, expressando sua frustração de forma irritadiça. Era a terceira vez apenas naquele dia.
— Mas você não é meu inimigo. Às vezes eu esqueço. — Jogou as mãos para o alto e logo em seguida tirou o cabelo do rosto suado.
— Nesse instante eu sou seu maior inimigo. — James retrucou, se firmando na postura ereta de um soldado treinado. Lindo, sem um único fio de cabelo castanho fora do lugar, ou qualquer gotícula de suor nos músculos hipnotizantes. — De novo.
— Sim, senhor... — Savannah ironizou, erguendo os punhos e separando um pouco as pernas assim como tinha sido instruída diversas vezes nos últimos dias.
James estava empenhado naquilo de treiná-la, tomavam algumas horas todos os dias naquela tarefa e ele costumava ser muito rígido quando estava na sala de treinamento... O que com certeza era incrivelmente sexy e distraia facilmente.
Ele a derrubou no chão com uma facilidade irrisória, mas apenas porque Savannah se perdeu em pensamentos nada puritanos.
Os olhos azuis a observaram de cima, quase como se pudessem ler sua mente. Savannah respirou fundo e se preparou para levantar, socando o tatame com a mão direita e fazendo fogo se acender e apagar como um efeito de intimidação.
— Usar essa raiva e colocar fogo no cabelo bonito dele! — A voz empolgada de Nik veio da direita. — Isso sim ser..ia progresso.
Ele vinha se esforçando para melhorar sua pronuncia e até que estava se saindo bem. Se encontrava sentado em um os bancos no canto da grande sala de treinamento, um enorme pacote de pipoca nas mãos e TJ ao seu lado.
E aquela era uma das coisas um tanto inoportunas sobre os treinamentos, quase sempre tinham uma plateia. Naquele dia eram apenas TJ e Nik, já que Gus estava envolvido em um “projeto secreto” — algo que havia iniciado com Shuri, antes que a princesa tivesse que voltar para Wakanda para algum evento real — mas ás vezes todos eles se reuniam ali para ver Savannah “morrer” dez vezes seguidas.
Rolava até umas apostas de vez em quando...
— Soldados não precisar de cabelo bonito. — Nik prosseguiu, apontando a própria careca. —Além disso, ter que ressaltar nossas forças na luta, não nossas fraquezas. Atingir o inimigo onde mais doí, esse é o segredo.
Ele encheu a boca de pipoca e TJ concordou como se soubesse todas as técnicas de luta possíveis. Savannah ponderou a sugestão. Talvez fosse mesmo hora de métodos alternativos...
— Não é esse tipo de luta que estou ensinando pra ela, Novokov. — James apontou categórico, revirando os olhos ao arrumar a postura. Os músculos salientes na camisa de manca curta tinham feito com que Savannah perdesse o foco por um instante.
Seria mais fácil que seu Sargento/Treinador não fosse tão gostoso quando estava com ciúmes...
Sim, não era segredo que Nik não estava no topo da lista de pessoas favoritas de James, mas Savannah tinha certeza que aquela birra boba era ciúmes, um pouco porque Nikolaj era o novo soldado superpaparicado pelo grupo e muito porque ele sempre conseguia fazer a “Menina Migalha” rir com suas piadas bobas.
James odiava aquele apelido, e Savannah sabia muito bem disso... Assim como ela já tinha notado que era o fim do mundo para ele que Nik fosse chamado de “Ursão” pelo pessoal. Se fosse honesta, às vezes usava o apelido apenas porque era excitante ver seu Sargento com ciúmes.
E isso rendia uma noite maravilhosa depois... ou uma tarde, dependendo do quanto as coisas instigassem a urgência de James em se provar “um soldado melhor”.
No entanto, tudo aquilo era meio que uma grande besteira do Sargento, afinal Savannah não via Nik como mais que um grande bebê gigante, e ela mesmo já havia tranquilizado James quanto a isso...
Porém, já que seu namorado gostoso queria continuar se empenhando daquela forma tão dedicada para agradá-la todos os dias — na cama, na banheira ou em cima da cômoda — Savannah de forma alguma reclamaria do tratamento vip.
— Jogar limpo não vai salvar Menina Migalha do Soldat, do Cerberus, nem da Madame. — Nik opinou e James respirou fundo em um misto de preocupação e frustração, dos três problemas citados Savannah sabia que o que mais o incomodava era o “Soldat”.
O Soldado Invernal no caso.
Mas esse era o que menos a preocupava.... Na verdade, nenhum dos três a perturbava realmente e talvez esse fosse o grande problema para James: ele se sentia na obrigação de se preocupar em dobro.
— Vamos de novo, Savannah. — Ordenou com a voz firme e o corpo dela tremeu em lugares nada apropriados para a situação.
Os golpes começaram, ambos tinham facas de treinamento consigo e lutavam corpo a corpo até que um deles conseguisse tocar o outro com a lâmina de borracha. Savannah perdia sempre, tinha conseguido vencer uma vez, mas apenas porque James permitiu para “aumentar sua confiança”. Ele era rápido, forte, implacável e muito concentrado e ela... bom, ela estava apaixonada demais por aquela versão dele pra conseguir manter o foco.
Era boa se esquivando e tinha uma ótima flexibilidade graças ao yoga, mas James sempre a venceria em todos os outros sentidos, a menos que estivessem falando de fogo... Nesse quesito sim ela tinha feito muito progresso em treinamentos também diários com Sierra.
Talvez usar técnicas alternativas fosse mesmo a melhor escolha, principalmente naquele momento.
Ela contou os golpes e esperou o momento certo, era quase ridículo que James sempre vencesse porque ele nunca usava o braço de vibranium, ou seja, lutava todas as vezes com uma mão só. Era uma vergonha perder daquele jeito.
Savannah esperou o momento exato e cambaleou para trás, segurando o braço junto ao corpo e se curvando um pouco para frente.
— Ai... — Soprou de forma lamuriosa e James parou imediatamente.
— Eu te machuquei? — Ele jogou a faca de treinamento no chão e correu até ela. — Deixa eu ver, Boneca.
Sempre podia contar com a preocupação de seu Sargento... Era o maior ponto fraco dele.
Quando James tocou seu ombro com carinho, Savannah o atingiu com um movimento certeiro da mão direita, a mesma que devia estar machucada, e com a esquerda o tocou na altura da garganta com a faca de treinamento.
— E você está morto. — Sorriu presunçosa, ganhando um olhar nada amigável em retorno. —Nunca baixe a guarda para o inimigo e nesse instante eu sou seu maior inimigo.
Nik e TJ caíram na risada, mas se calaram no mesmo momento em que os olhos gelados focaram neles com um humor assassino bastante evidente.
— Nunca entender como homem tão bonito conseguir fazer carranca tão feia. — Nik meneou a cabeça em reprovação — Soldado Rabugento chupou limão, só pode.
Quando os dois “convidados” inoportunos voltaram a dar risada, James os desconsiderou totalmente e focou em Savannah.
— Eu estou tentando te ensinar a ficar viva. — Declarou, pegando a faca de treinamento dela e usando um tom condescendente. — Esse tipo de técnica não vai te ajudar em nada.
— James, relaxa... — Savannah sorriu carinhosa e segurou o rosto dele com as duas mãos. —Eu já entendi que eu sou mais fraca e mais lenta que você, mas se algum inimigo se aproximar demais eu coloco fogo em tudo e pronto. Nisso eu estou ficando muito boa...
— Vinte pratas que Menina Migalha ganha essa... — Ouviram o sussurro perfeitamente audível de Nik e trocaram um olhar rápido.
James respirou fundo, soltando o ar dos pulmões com irritação e se afastando dela repentinamente.
— Você vai colocar fogo no Soldado Invernal também? — Ele jogou, movendo uma das mãos no ar de forma displicente e apoiando a outra na cintura, seu tom nervoso era algo evidente.
— O Soldado Invernal não é mais um problema, já tivemos essa confirmação. — Savannah rebateu com um encolher de ombros despreocupado.
— A gente não sabe... — James devolveu no mesmo instante, categórico e exasperado. — E se as palavras funcionarem de novo?
Savannah cruzou os braços e comprimiu os lábios em desdém.
— Então você vai olhar nos meus lindos olhos castanhos, vai lembrar que me ama e vai recuperar a consciência. Não foi isso que você fez quando era o Steve?
Silêncio mortal e repentino tomou conta do cômodo inteiro, Savannah e James se enfrentaram com o olhar, até que ela se virou para Nik e TJ:
— Não acham que eu estou certa, meninos?
Dois pares de olhos arregalados foram a primeira resposta, enquanto a ruiva os encarava inocente, James tinha o olhar firme e assassino.
Nik encheu a boca com toda a pipoca do pacote como um desesperado.
— Nossa, olha só... acabar tudo. — Indicou em um lamento, ainda com a boca cheia, se colocando de pé e puxando TJ sem o menor tato — Melhor a gente correr, Gasparzinho, meu estômago roncar muito agora.
— É, é... acho que eu ouvi o Gus me chamar. — O mais novo indicou, indo atrás do russo o mais rápido que seus passos permitiam e fechando a porta do lugar.
James e Savannah se encararam através do cômodo por alguns segundos, ouvindo os passos dos amigos se afastarem, antes que sorrissem um para o outro e ela cortasse o espaço pra se jogar nos braços dele.
— Não acredito que isso sempre funciona... — O sentiu rir contra seus fios ruivos, para logo então apreciar os lábios frios de encontro ao seu pescoço.
— “Steve” é minha nova palavra mágica pra espantar nossa plateia. — Savannah riu também, puxando o cabelo de James de modo leve para que suas bocas se chocassem.
Não era a primeira vez que faziam aquilo, isso porque aparentemente os dois eram a atração principal do complexo e estavam sempre cercados de curiosos... Com exceção de Sierra e Beverly, seus amigos não entendiam muito bem o conceito de privacidade, quanto mais intimo ficasse, mais eles se sentiam à vontade, quase como se estivessem vendo o casal preferido em um seriado ou filme.
Savannah acabou descobrindo que a forma mais eficaz de fazer qualquer um deles sair de fininho era pedir que se envolvessem em uma discussão na qual era impossível escolher um lado. “Steve” era o melhor tema nesse caso, porque nenhum deles teria a audácia de ficar conta o Capitão Rogers, assim como não tinham coragem se se posicionar contra Savy.
James e ela concordaram então que “Steve” era a melhor arma secreta, porque, apesar dos dois já terem se resolvido quanto a esse assunto, o resto do pessoal não sabia disso.
Era quase irônico que a primeira briga séria do casal tivesse se tornado um tipo de piada interna no fim das contas...
E eles dois eram tão bons juntos que sabiam o exato momento de “começar uma briga” apenas pelo olhar, era o que tinham acabado de fazer ali e obtiveram sucesso uma vez mais.
Eram um ótimo time.
— Já disse o quanto você fica sexy quando a gente briga de mentirinha? — James apertou o corpo feminino contra o seu, sussurrando naquele tom rouco e galanteador que era capaz de fazer Savannah inteira arrepiar
— Não sei... Será que disse? — Ela o beijou devagar, descendo as mãos pelo corpo dele, apenas para tocar o abdômen com a ponta dos dedos, como desejava o tempo todo. — E eu? Já te disse o quanto você fica sexy quando dá esse olhar assassino pras pessoas, ou então quando me dita ordens, ou então quando só respira?
James riu, o melhor e mais sensual som de todo o mundo.
— Talvez... mas você pode dizer de novo, eu não me importo...
Ele mal tinha terminado de falar quando agarrou Savannah e a jogou sobre os ombros.
— O que você está fazendo? — Ela teve que conter o volume da própria voz, para que não fossem flagrados no meio daquela farsa.
— Te levando pra um lugar onde não vão abrir a porta de repente e me pegar em uma situação constrangedora... — James respondeu bem-humorado, carregando Savannah para a saída do cômodo.
— Eu conheço algumas pessoas que ficariam muito animadas de te pegarem nesse tipo de situação constrangedora. — Ela devolveu insinuativa e os dois riram baixinho, cúmplices em uma fuga nada perigosa.
No meio do corredor Savannah foi colocada no chão, para que os dois se esgueirassem por ali como dois espiões em uma missão muito importante. Sabia que James estava aproveitando a oportunidade para testar a furtividade dela, mas não se importava com isso...
Sem serem vistos em nenhum momento, eles passaram por Sam e Mike que jogavam bola como se estivessem ao ar livre, enquanto Beverly listava advertências maternais; depois por TJ e Abby que tentavam arrancar qualquer informação sobre o projeto secreto de Gus; enquanto isso Sierra, confortavelmente acomodada em um dos sofás, com Alpine enrolada em seu colo, lia em voz alta para Nik que havia conseguido outro pacote, dessa vez de batatinhas.
Segurando o riso, como dois adolescentes que têm que se esconder dos pais para conseguir um minuto as sós, o casal chegou ao quarto, fechando a porta em silencio antes de começar a jogar as peças de roupa por toda a parte, enquanto se beijavam efusivamente, caminhando tropeços em direção a banheira. Os corpos já ardendo em desejo, como se não tivessem matado todas as vontades ainda naquela manhã.
Para Savannah aquela era a melhor parte do treinamento, o momento em que ele acabava e podiam mergulhar nos corpos um do outro até se derramarem em prazer, como fizeram naquele momento...
E ela desconfiava que era a parte favorita do dia para James também.
Provavelmente a banheira era o lugar preferido dos dois, naquele momento, depois de saciarem à vontade um do outro, estavam sentados em pontos opostos, cercados por água e espuma, enquanto James massageava os pés de Savannah.
Aqueles dedos de vibranium podiam fazer milagres... mas claro que isso não dizia respeito a massagens apenas.
Savannah estava com a cabeça apoiada na borda da banheira, o pensamento flutuando por entre os últimos dias, apesar dos treinamentos exaustivos, de não terem feito qualquer progresso em rastrear a Ministra e de terem que continuar presos ali sem tecnologia, seria mentira dizer que a vida era ruim...
Nos inícios de noite eles se reuniam no cômodo mais aconchegante do complexo, conversavam, comiam, riam... As vezes jogavam cartas ou qualquer outro desses jogos que as pessoas esqueciam por causa da internet. Por vezes Savannah pegava o violão e eles cantarolavam músicas antigas ou então, enquanto Shuri ainda estava ali, ouviam histórias de Wakanda contadas pela princesa. Aos poucos Nik se lembrava de fragmentos de seu passado, embora isso ainda não parecesse tê-lo feito chegar à conclusão óbvia sobre seus dois “irmãos”.
Por fim, geralmente a noite acabava com James contando alguma história antiga sobre Steve para uma plateia cativa e interessada.
Savannah tinha parado de se incomodar com isso, na verdade amava ouvir o Sargento falar sobre qualquer coisa, era adorável ver a nostalgia dele através das lembranças. E, passada a irritação inicial, que talvez não fosse mais que um ciúmes bobo, ela percebeu que talvez teria gostado de Steve Rogers, se de fato o tivesse conhecido. Não sabia como seria com o herói que veio após o soro, mas aquele pequeno garoto asmático, com um talento enorme para se meter em problemas em cada esquina e uma falta de talento latente para garotas... desse ela com certeza seria amiga.
— Seria assim tão ruim se tivéssemos que ficar aqui pra sempre? — Soprou, abrindo os olhos e encontrando as íris azuis que tanto amava.
James sorriu compassivo usando os dedos para fazer pressão em pontos específicos do pé dela.
— Essa pergunta é injusta, Boneca. Nenhum lugar no mundo é ruim quando eu estou com você. — É claro que ele tinha que ser galanteador e romântico. Essa era uma parte da personalidade dele que Savannah amava conhecer com exclusividade. — Mas com certeza seria mais fácil se eu não soubesse que aquele idiota do Freakmann está escondendo informações só pra me chantagear.
O observou suspirar e negar algumas vezes.
— Como é? — Perguntou, afinal aquela era uma informação nova para ela.
Viu que James se arrumou e pensou por alguns segundos.
— Nada... Deixa pra lá. — Ele desconversou, colocando um pouco mais de pressão no pé dela.
O conhecia bem demais. Estava escondendo alguma coisa.
— James...? — Chamou, movendo a perna e interrompendo a massagem para arrumar a postura na frente dele.
O olhar avelã inquisitivo o fez respirar fundo, prendendo os dois em um silêncio que durou alguns segundos. Savannah ergueu uma sobrancelha e James jogou as mãos para o alto, revirando os olhos, como se soubesse que seria inútil tentar escapar daquela conversa.
— Ele diz que sabe de algumas coisas, mas não quer um acordo ou nada assim, ele quer falar disso com uma pessoa especifica. — Revelou, claramente nada satisfeito com as próprias palavras.
E Savannah entendeu, pelo olhar, entonação e postura dele, exatamente quem era a tal “pessoa especifica”...
— Você está brincando? E você não me contou isso? — Ela lançou, se movendo até ele, para tocar-lhe o rosto. — Você pula, eu pulo, lembra? Você não pode me proteger de tudo, James. Você não é meu cavaleiro branco e eu não sou a sua donzela, somos parceiros, é assim que a gente vai fazer dar certo.
— Tudo bem. Me desculpa. Eu devia ter contado. — Os dedos metálicos brincaram com alguns fios ruivos molhados. — Mas ter falado sobre isso não faria diferença, porque você não vai falar com o Freakmann. De jeito nenhum. Não mesmo.
Ambos cruzaram os braços contrariados, se enfrentando com o olhar, mesmo que já soubessem exatamente quem venceria aquela discussão...
✪ ✪ ✪ ✪ ✪
Observou o homem sentado e algemado do outro lado do vidro espelhado. A presunção na postura de Freakmann era algo perceptível, era evidente que ele sabia que cedo ou tarde Savannah viria.
— Você vai ficar segura, estaremos aqui o tempo todo, se ele tentar alguma coisa te tiramos de lá imediatamente. — Sharon declarou apaziguadora, oferecendo um sorriso compassivo para a ruiva.
— Eu não tenho medo dele. — Savannah afirmou com um mover de ombros.
— Eu ainda acho essa ideia péssima. — James resmungou, encostado em uma das paredes com os braços cruzados e a expressão emburrada de um menino de dez anos no rosto.
Não era nenhum segredo que ele não concordava com aquela conversa, assim como não era segredo que as duas mulheres tinham decidido em um acordo mudo desconsiderar as queixas dele naquela última meia hora...
Sharon riu de canto e acenou com a cabeça, perguntando se Savannah estava pronta e ganhando uma afirmativa em reposta. A loira saiu primeiro e a ruiva parou perto de James em seguida.
— Também de amo, Sargento... — Sorriu pra ele, deixando claro que entendia o motivo de tanta preocupação e mau-humor, então ficou na ponta dos pés para lhe dar um beijo na bochecha.
Se afastou, mas foi trazida de volta pelo braço de vibranium.
— Eu sei que você dá conta. — James segurou o rosto dela com a mão direita. — Mas qualquer coisa é só fazer um sinal que eu te tiro de lá.
— Eu vou só conversar com um cara idiota, que está algemado em uma mesa. Não vou ficar presa em uma sala com o Hulk. — Savannah sorriu para o homem que amava e aproveitou aquele momento para roubar um beijo dele...
De fato, não estava com medo, sabia que nada de ruim podia lhe acontecer ali dentro, por isso, quando Sharon abriu a porta e o doutor Freakmann ergueu a cabeça, Savannah não vacilou um só segundo.
— Eu sabia que cedo ou tarde você viria... — Ele sorriu daquele jeito nojento que tinha e ela se esforçou para não fazer uma careta.
— Pois é, estou aqui. Então desembucha logo, onde está a louca psicopata? — Savannah puxou uma cadeira, enquanto Sharon fechava a porta atrás deles.
— Lucia não gosta de ser chamada de louca. — Freakmann moveu as mãos algemadas sobre a mesa e cruzou os dedos de modo despreocupado.
— Bom, então ela devia rever as atitudes dela e parar de sequestrar as pessoas. — A ruiva ironizou de modo casual.
O cientista a analisou com um olhar invasivo que a deixava desconfortável, mas Savannah fez seu melhor para não demonstrar isso.
— Como você se sente? — Ele perguntou interessado. — Como é ter todo o poder dentro de você? Como é ser especial?
— Na verdade é normal... — Ela manteve o ar irônico na voz, era um bom jeito de disfarçar seu incômodo. — Mas não vou mentir, amo saber que posso queimar essa sua cara asquerosa se eu quiser.
— Fogo... — Freakmann ponderou com um sorriso sinistro. — Interessante...
Savannah se remexeu desconfortável e arrumou a postura.
— Eu não estou aqui pra falar de mim. Estou aqui pra falar sobre a localização da Ministra. A mesma mulher que te abandonou, lembra? — Foi mais direta daquela vez, mas pareceu ter falado com as paredes, porque o cientista idiota nem se deu ao trabalho de prestar atenção.
— Eu sabia que você era especial assim que coloquei os meus olhos em você. — Ele se curvou um pouco na mesa, sem nunca tirar os olhos de Savannah — Você parece com elas...
A ruiva hesitou, perdeu o foco por um instante. “Elas” quem?
— De qual das duas você é filha? — Freakmann perguntou e sua curiosidade soou um tanto venenosa.
— De que porra você tá falando? — Savannah começou a ficar realmente incomodada com o rumo daquela conversa.
— Tinha arquivos sobre elas na Hidra, gostaria de tê-las conhecido pessoalmente, mas tudo que vi foram fotos e relatos... — O brilho de interesse nos olhos do cientista era evidente. Pelo visto, Von Bardas não era a única louca.
Ele analisou a reação de Savannah por alguns momentos e endireitou a postura.
— Você não sabe, não é? — Declarou certeiro e sorriu cheio de presunção. Savannah teve a nítida impressão de que não gostaria nada do que estava prestes a ouvir... — Por muito tempo a Hidra, disfarçada dentro da SHIELD é claro, procurou por uma fugitiva que criou um santuário para os Inumanos. Jiaying tinha sido prisioneira da Hidra por bastante tempo, mas quando conseguiu escapar montou esse lugar secreto para onde ela levava possíveis Inumanos e os treinava depois da terrigênesis.¹ A localização desse santuário era algo de suma importância para a Hidra, então, uns trinta anos atrás, segundo os arquivos, eles encontraram essas irmãs, gêmeas, que ao que tudo indicava fugiram de lá...
Savannah ouviu a história sem entender como isso se encaixava consigo. Freakmann tinha insinuado que ela podia ser filha de “uma das duas”, mas isso não fazia o menor sentido. Sua mãe não tinha irmãs...
Na verdade, pensando em retrocesso, nunca conhecera ninguém da sua família materna, fora criada pelas tias paternas e, naquela época, estava tão perdida na própria dor que jamais se preocupou em querer saber mais sobre suas origens.
— Eles capturam as duas, queriam informações não apenas sobre a santuário Inumano, mas sobre os poderes que elas carregavam. — Freakmann continuou contando e seus olhos analíticos não deixavam Savannah por um só instante. — Elas se referiam a si mesmas como Yin e Yang. A Hidra conseguiu desvendar o poder de uma delas, uma incrível capacidade de saber o passado de tudo aquilo que tocasse, porém antes que tivessem a oportunidade de descobrir do que a outra gêmea era capaz elas fugiram. Uma das duas morreu nesse dia a outra sumiu no mundo.
Algo naquela história deixava um gosto ruim na boca de Savannah, seu coração batendo apressado já tinha absorvido a verdade, mas sua mente ainda lutava com ela.
— Sabe, eu tenho pra mim que, dado o nome, elas tinham poderes opostos, então, nesse caso, a outra irmã devia ter o poder de prever o futuro... — O cientista sorriu para seu próprio raciocínio. — Ela pintava, sabe? No pouco tempo que ficou com a Hidra foram coletados alguns de seus desenhos. Um deles sempre me pareceu muito melancólico. Uma pequena menina de cabelos de fogo dentro de um armário escuro. Sozinha. Cercada de sangue. Por acaso você não saberia o que isso significa, saberia?
A ruiva sentiu o arrepio gelado correr sua espinha. Aquela era mesmo a história da sua mãe... Não sabia o que Freakmann esperava dela ao contar tudo aquilo, mas tinha certeza que não era algo bom. Ao menos ficou explicado o interesse dele desde o primeiro minuto que colocou os olhos em Savannah. Ela era mesmo bastante parecida com a mãe.
O encarou por alguns instantes, processando as informações. Passado. Um compilado de coisas que ela não podia mudar. Uma história trágica e injusta... Talvez se Savannah não tivesse aprendido a lidar com as emoções e o peso de eventos pretéritos aquelas informações a tivessem abalado bem mais, porém, no decorrer dos anos tinha entendido que era responsável apenas pelo seu futuro, do passado podia tirar lições de vida e nada mais.
Seja lá o que Freakmann queria com aquele joguinho — talvez fazê-la perder o controle das novas habilidades afim de usar a confusão para fugir dali — não daria certo.
— Não faço ideia do que significa. E nem quero saber pra ser honesta. — Disse de forma simples, arrumando as costas contra o encosto da cadeira despreocupadamente. — O que eu sei é que você está enrolando para me contar o que realmente importa. Então, onde está a Lucia Von Bardas?
— Não sei... — O cinismo daquele homem era evidente. — Mas talvez eu me lembrasse de alguns dos esconderijos dela se você continuasse vindo me ver esporadicamente.
Sim, esse era o plano dele. Torturar Savannah com informações e histórias trágicas até que ela cometesse um erro e se descontrolasse...
— Entendi. — Ela sorriu de canto. Se Freakmann queria tanto brincar com fogo, então tudo bem... — Mas eu acho que talvez seja melhor você lembrar um pouquinho mais rápido, tipo agora, porque está prestes a ficar bem quente aqui.
As chamas vieram de lugar nenhum. Labaredas que se espalhavam pelo chão e rodeavam a mesa em um círculo perfeito. Savannah ainda estava encostada na cadeira com o mesmo sorriso de canto no rosto, Freakmann no entanto tinha os olhos arregalados conforme o fogo se espalhava controladamente por pontos estratégicos.
Ele não esperava que ela já tivesse tanto controle...
— Tudo bem, tudo bem. Vou de contar tudo que eu sei!
✪ ✪ ✪ ✪ ✪
Savannah encarava os dados espalhados sobre a mesa; plantas baixas; informações sobre rotas e vias de fuga; prédios ao redor; Bucky trouxera tudo que Sharon havia conseguido reunir sobre uma das quatro instalações que Freakmann indicara como possíveis esconderijos de Lucia Von Bardas.
Um dos locais — um galpão nas docas de um dos portos da Virginia — havia ficado sob responsabilidade da CIA, a própria Sharon coordenaria uma missão de busca. O outro — uma instalação nas montanhas que faziam divisa com o Canadá — fora assumido por Sam, era distante por isso as asas do Falcão seriam um trunfo naquele caso. James não ficara nada feliz em saber que Wilson assumiria uma missão solo, mas diante das circunstancias e da falta de uma nave apropriada que não seria vista de longe, era a opção mais inteligente.
O terceiro local era uma fazenda no interior de Ohaio, esse ficaria a cargo de Nikolaj, mesmo sob os protestos de Sierra. O Russo fizera questão de assumir um dos esconderijos e estava se preparando para a partida que aconteceria em breve.
Sobre a mesa havia então todas as informações sobre um prédio em construção no centro de Manhattan. Local movimentado, cercado por um shopping e um centro comercial, James tinha escolhido esse, mas seu rosto deixava claro que não era o que ele realmente queria.
O palpite do Sargento sobre o paradeiro de Von Bardas eram as montanhas, por isso mesmo havia discutido tanto com Sam para que ele não fosse sozinho.
Savannah, no entanto, tinha um pressentimento ruim sobre o prédio em construção, não era nenhum detalhe em particular, tampouco algo que tivesse visto nas informações espalhadas na mesa, era diferente disso, um tipo de formigar incômodo em sua consciência. Enquanto todos os outros — heróis e agentes preparados para esse tipo de situação — apontavam aquela localização como a menos perigosa e problemática das quatro, a jovem tinha uma sensação bem diferente...
Sabia que James queria ter ido para as Montanhas com Sam, assim como tinha certeza que ele havia escolhido o prédio porque era “risco baixo”, mas não por ele, sua expressão deixava bem claro que ele preferia qualquer outro lugar, ele o fizera sabendo que Savannah era sua inevitável parceira, portanto aquele seria o local que a colocaria em menor perigo.
Ele ainda estava tentando protegê-la de alguma forma...
Assim que ficaram sozinhos no cômodo, James a puxou para perto de si e a envolveu em um abraço apertado, dava pra sentir a preocupação emanando dele, os músculos tensos e o coração batendo apressado.
Savannah o beijou de leve, doce e simples, tentando acalmá-lo com um sorriso compassivo.
— Não se preocupa demais. Vai ficar tudo bem. — Ela declarou com toda a convicção que conseguiu reunir.
James engoliu em seco e assentiu, nele não havia qualquer certeza.
— É, tem razão. Vai ficar tudo bem, aposto que ela nem está em nenhum desses lugares. — Ele tentou transmitir uma normalidade que não casava com o olhar preocupado em seu rosto. — Na verdade eu acho até que você nem precisava ir comigo...
Savannah o olhou de modo firme por alguns segundos, uma sobrancelha erguida e um sorriso esperto no canto dos lábios. Sabia o que ele estava tentando fazer. A simples expressão no rosto feminino foi capaz de fazer o Sargento ceder.
— Você não pode me culpar por tentar... — Ele ergueu as mãos em rendição, ensaiando um sorriso que não escondia o quanto estava tenso.
Savannah era capaz de enxergar por trás da pose falsamente despreocupada. Sabia que James estava preocupado de verdade; sabia que ele vinha lutando contra si mesmo todos os dias para permanecer ao lado dela; que ele realmente acreditava que se afastar a manteria segura e que a possibilidade que ela se machucasse — mesmo depois de todo o treinamento — ainda o apavorava...
James provava que a amava todos os dias em que amanhecia ao lado dela, toda vez que continuava tentando fazer dar certo, mesmo contra todas as próprias convicções.
Às vezes queria atender ao pedido dele, apenas para que isso o acalmasse. Queria ficar ali, onde era seguro, só para vê-lo respirar aliviado, porém isso iria contra suas próprios medos e preocupações. A possibilidade de que ele se machucasse também a apavorava.
Restava então acreditar que juntos eles seriam mais fortes, que daquela vez ela seria capaz de fazer a diferença. De que os poderes valeriam de alguma coisa.
Até lá, até que tudo se resolvessem, a única coisa que Savannah podia fazer era rezar para que James continuasse tentando, continuasse rebatendo as próprias convicções para estar com ela, mesmo achando errado e egoísta...
Porque se ele parasse de tentar... Se ele fosse embora...
Não conseguiu suportar esse pensamento e apenas o abraçou apertado, sorvendo o perfume dele para se convencer que a realidade e o presente eram o bastante. Não tinha que se preocupar com passado ou futuro. Apenas com o agora.
E “agora” era bom.
“Agora” era o bastante.
Mas “agora” não era eterno... E não havia nada no mundo capaz de assustar mais do que essa verdade.
Sentiu James beijar o topo de sua cabeça e respirar fundo, naquele momento ambos se permitiram apenas estar ali, abraçados, sendo verdadeiros sobre seus medos, sem precisar dizer uma só palavra sobre isso.
Só se afastaram quando Gus entrou no cômodo, fazendo sua presença ser notada ao bater duas vezes na porta já aberta.
— Podemos conversar? — Perguntou, se dirigindo à Savannah. — Tenho uma coisa pra te mostrar.
Ela olhou para James primeiro, não sabia se ainda tinham tempo o bastante para conversas antes de saírem.
— Vou me trocar enquanto isso, depois é só esperarmos a Sierra liberar o Nik. — O Sargento respondeu, indicando que ainda tinham alguns momentos, então Savannah seguiu com Gus...
— Sabe que eu e Shuri estávamos trabalhando em uma coisa antes que ela fosse embora, certo? — O rapaz comentou, enquanto ambos andavam lado a lado no corredor.
— Ah sim, o projeto secreto de vocês... Eu vou finalmente poder saber o que é? — Savannah se lembrava bem, principalmente porque TJ e Abby nunca paravam de fazer perguntas sobre isso o tempo inteiro.
— Com certeza. — Gus sorriu, seguindo com Savannah para a sala secreta que Shuri havia preparado.
Não era exatamente um laboratório, embora algumas partes tivessem ares de um, na verde parecia mais um ateliê, com grandes mesas, tecidos em aqui e ali e até maquinas de costura. Na parede haviam cúpulas de metal, Gus apertou um bobão e uma delas de abriu, revelando um manequim vestido dos pés à cabeça com um tipo de roupa bastante especifica.
— Uau! — Savannah sorriu, assim que entendeu perfeitamente do que se tratava.
Eram vestes de batalha.
— Achei que essa coisa ficar pelada no meio de uma luta, porque suas roupas queimaram, seria meio inconveniente pra você. Então pedi pra Shuri me ajudar a trabalhar com um tecido resistente ao fogo.
Savannah observou as peças com atenção, pareciam feitas de couro... mas o material nem de longe era o destaque, Gus tinha colocado sua criatividade ali. Embora a calça fosse básica, totalmente preta, a peça central era uma jaqueta marrom-laranjada, com detalhes cor de fogo; um capuz, e barra assimétrica, caindo em pontas, como a calda de uma raposa.*
— Vocês é demais! — Ela abraçou o amigo com entusiasmo. Estava claro, pelos detalhes, que ele tinha gastado muito tempo e dedicação naquilo.
Gus sorriu, se movendo para tirar as peças do manequim.
— O que tem ali? — Savannah apontou a outra cúpula enquanto esperava.
— É pro Sam, mas acho que ainda não é a hora... — O rapaz desconversou com um gesto simples e entregou as roupas para a ruiva, caminhando para a porta, para deixá-la se trocar.
— Estilista de super trajes, então, hein? — Ela comentou antes que ele saísse e ganhou um sorriso tímido em reposta. — Parece uma carreira promissora.
Gus apenas encolheu os ombros, antes de fechar a porta atrás de si. Sim, ele era ótimo, mas era modesto demais para admitir...
Bucky terminou de se arrumar e estava checando as armas quando Nikolaj Novokov apareceu, com Sierra em seu encalço.
— Já estar pronto. — O soldado russo declarou, arrumando a postura como se estivesse se apresentando para uma missão oficial.
— Será que você pode dizer pra esse grande cabeçudo que sair assim depois de uma cirurgia cerebral é uma grande irresponsabilidade? — Sierra jogou e era quase engraçado vê-la perdendo sua postura sempre tão calma. — Shuri não apoiaria isso.
Bucky encarou o careca por alguns segundos, às vezes Nikolaj o tirava do sério com sua simpatia excessiva e natureza piadista. O russo conseguia ser pior que Sam... Mas não odiava o homem, muito pelo contrário aliás, apesar das reviradas de olho exageradas e das respostas atravessadas que sempre dava, Barnes simpatizada com o Nik.
Entendia pelo que ele estava passando...
— Como você se sente? — Questionou sério, quase seco talvez.
— Bem. — Nikolaj respondeu no mesmo tom, algo que era muito raro vê-lo usando. Porque estava sempre de bom-humor.
— Ele dá conta. — Bucky disse virando diretamente para Sierra.
Era por entender o que Novokov estava passando que ele sabia muito bem como era ter a necessidade empírica de fazer alguma coisa. Nik tinha o direito de estar naquela missão.
— Doutora Brava não poder ficar brava hoje. — O russo voltou ao seu humor costumeiro quando se dirigiu à Sierra. — Eu ter que fazer isso. Preciso salvar meus irmãos.
Aquela última frase era a mais frequente, por isso, a que ele conseguia falar melhor sem se enrolar na pronuncia.
A biomédica encarou Bucky em busca de apoio, ela se preocupava demais, com todo mundo, era uma de suas melhores qualidades. Ao ver que os dois soldados tinham decidido concordar em discordar dela, Sierra respirou fundo.
— Nik... — Tocou a mãos dele carinhosamente e Barnes previu qual seria o assunto.
Vinham falando sobre contar a verdade para Novokov há alguns dias, era direito dele saber, Sierra e Shuri achavam melhor contar aos poucos, mas dado o momento e a batalha que podia ou não acontecer, o tempo tinha se esgotado e era a última oportunidade de contar quem realmente eram as outras cabeças do Cerberus.
— Eu tenho que te contar uma coisa... — Ela disse calma e apaziguadora. Bucky sentiu um pouco de inveja, queria que todas as verdades terríveis que compunham seu passado tivessem sido contadas por alguém como Sierra. Talvez assim não teriam impactado tanto. — Senta aqui.
Nik, no entanto, não obedeceu, ele a encarou como um adulto que vê uma criança inocente e tocou-lhe o rosto com a mão enorme.
— Eu já saber... — Disse a ela com um sorriso compassivo. — Lembrar o que o Doutor fez comigo.
Bucky franziu as sobrancelhas. Não esperava aquilo. E Sierra claramente também não.
— Então sabe que eles não são seus irmãos...? — Ela pronunciou as palavras com cautela, testando se Nik realmente sabia as verdades das quais alegava se lembrar. — Eles são... clones.
— Só porque são clones não quer dizer que não serem pessoas. — O russo declarou simples, como se aquilo nunca tivesse sido uma questão em sua mente. — Vlad e Leo serem parte de mim. Irmãos. Merecem chance de uma vida. Ter que fazer o certo por eles. — Ele era muito convicto em suas palavras. — Já fiz muito coisa ruim por causa da Madame, ter que compensar agora.
Bucky esboçou um meio sorriso melancólico que nenhum dos dois podia ver. Sim, ele entendia a necessidade compensação melhor que ninguém.
— Ele vai ficar bem, Sierra. — Intercedeu por Nik, focando no russo ao continuar: — Quando acabarmos de checar o prédio e eu deixar a Savannah aqui, vou me juntar a você na sua localização.
Novokov concordou de forma rápida e sucinta, então Sierra respirou fundo o encarando com evidente orgulho no olhar antes de assentir também, quase como se estivesse dando seu aval médico...
Os três foram para a entrada esperar por Savannah, lá os outros já aguardavam, Sam saíra a pouco tempo e Barnes tinha quase certeza que esse era o motivo do semblante preocupado de Beverly.
— Atenção! Atenção! — Gus pediu, aparecendo ali com um sorriso enorme no rosto.
Bucky abriu a boca para perguntar qual era motivo de tanta empolgação, mas não precisou de uma resposta quando Savannah surgir vestida com um traje de batalha que mesclava marrom, laranja e detalhes bastante estilosos em couro trabalhado. Aquele era com certeza o projeto misterioso de Shuri e Gus...
— Como estou? — Ela girou nos calcanhares.
O estômago de Bucky estava gelado, uma parte de si apontava a atrocidade que era deixar que Savannah caísse de cabeça naquela vida. Vê-la usar aquele traje só deixava tudo ainda mais real... Por outro lado, ele a conhecia bem demais, nada a impediria de se envolver. Na verdade, Barnes estava bastante certo que, mesmo que tivesse se afastado dela naquela fatídica noite em que cedeu a seu egoísmo apaixonado, Savannah ainda assim estaria vestindo aquele mesmo traje, pronta para a batalha. Um relacionamento romântico — ou a falta dele — não mudaria o posicionamento dela naquela situação...
E além disso, apesar do medo latente em seu peito, Bucky jamais poderia deixar de admitir a verdade:
— Você está lind... — Não teve tempo de terminar o elogio, porque foi praticamente atropelado por Nik.
— Parece uma daquelas bonequinhas miúdas que as meninas vestir com roupinhas fofas. — O russo riu e ganhou uma encarada nada satisfeita das íris gélidas. — Não olhar pra mim assim Soldado Rabugento, eu só dizer verdades.
Todos riram, como faziam sempre que uma piada boba saída da boca do careca, porém Bucky não se importou daquela vez, porque os olhos avelãs de Savannah estavam nele, daquele jeito que era só deles, em uma conversa que não precisava de palavras e que ninguém mais ali poderia decifrar. Tinham um mundo particular habitado apenas pelos dois, uma pequena bolha de amor, composta de olhares apaixonados, conversas mudas e sorrisos-sol. E isso era o bastante para Bucky.
— Mas e aí, já decidiu um nome? Toda aspirante a super heroína tem que ter um nome... — Abby perguntou empolgada, rodeando Savannah e analisando a roupa.
— Na verdade eu nem pensei nisso... — A ruiva deu de ombros. — Mas você é a repórter aqui, então se qu...
— Raposa Flamejante! — TJ gritou exasperado, como se temesse que alguém mais abrisse a boca antes dele.
Savannah encarou o amigo por alguns segundos, uma expressão divertida se formando em seu rosto.
— Você está pensando nisso há dias, não é TJ? — Ela lançou, arrancando algumas risadas dos presentes.
— Desde o momento em que eu soube dos seus poderes. — O rapaz admitiu, e não havia qualquer sinal de vergonha em sua voz.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Até mesmo Bucky riu daquela vez.
— Eu gosto. — Savannah declarou e foi como se todos ali soubessem que estavam presenciando o nascimento de algo memorável...
Azuis e avelãs se encontraram, reforçando aquela promessa perigosa. Você pula, eu pulo.
Quando as despedidas começaram, assim como tinha acontecido com Sam, houve conselhos, abraços e advertências. Para Bucky era nostálgico e melancólico. A última vez em que realmente se despedira dos amigos e família daquela forma tinha sido antes de ir para a guerra. A lista de coisas boas que viera depois disso era muito, muito pequena mesmo.
Barnes só desejava que dessa vez todos voltassem para cara. Inteiros e, principalmente, vivos...
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Wilson sobrevoava as cordilheiras canadenses com cautela, Barnes fora muito especifico e enfático ao dizer que o Falcão não devia pousar caso notasse movimentação.
Bucky se preocupava demais...
Tinha que admitir que era uma grande porcaria não poder usar nenhum dispositivo de comunicação a distância, era a forma como estavam evitando serem rastreados pela Ministra ou terem sua aproximação notada antes da hora. Todos tinham concordado em não usar os comunicadores presos em suas orelhas a menos que fosse uma emergência absoluta.
Isso também impedia Sam de usar todas as funcionalidades técnicas de seu traje, mas ele não estava preocupado. Fora treinado muito bem pelos anos de aeronáutica e principalmente por Steve e Natasha.
A Viúva Negra pegava pesado...
Depois da terceira volta no local o Falcão achou seguro descer para reconhecimento, não encontrara sinais de movimento e a visão térmica em seu traje também não captara nenhuma forma de vida. Era um bom sinal, apesar de frustrante.
Encontrou a entrada do esconderijo na base de uma montanha, era outro lugar igual aquele em que havia encontrado Bucky anteriormente. A escuridão era um problema, mas Sam não se deixou abater.
Usando a lanterna do traje ele começou a caminhar com cautela por entre os corredores metálicos; a sensação claustrofóbica e o silêncio incômodo faziam um arrepio frio correr sua espinha a todo instante. Era como estar em um filme de terror... A guerra e as batalhes eram sempre barulhentas e caóticas, aquele clima soturno deixava tudo mórbido e horripilante.
Lutar contra o exército do Thanos fora menos apavorante... Mas jamais diria uma coisa dessas em voz alta.
Seguiu pelos corredores já ciente que não encontraria nada ali. Bucky estava errado no fim das contas. Mesmo assim decidiu dar uma geral no lugar, afinal ir até a fronteira do canada pra deixar algo passar só por causa de silêncio e escuridão seria muita incompetência. Foi passando pelos escritórios e salas sem achar nada relevante, até que um dos corredores acabou em um grande hangar.
A primeira coisa que Sam notou ali foi o cheiro; metal e algo mais, algo novo, fresco. Isso era estranho.
Com a lanterna ligada, sendo incapaz de iluminar o local todo, ele foi cobrindo metro por metro, notando que tudo ali parecia montado para uma produção em escala. Mas produção de quê, afinal?
Em cima de uma das mesas, em uma pilha de papeis, Sam deu uma olhada nas pastas: A primeira, com o símbolo da SHIELD, intitulada “MVA – Modelo de Vida Artificial”² o fez franzir as sobrancelhas, mas foi a segunda, aquela com palavras escritas a mão que lhe chamou atenção; “Projeto Pulverização”. Sam foleou as páginas com olhos atentos. Não era um gênio como Stark, mas sabia reconhecer um problema quando via um.
Aquilo era uma bomba.
Não. Era mais que isso... era um tipo de arma biológica que espalharia “algo” por quilômetros. A linha de alcance era de mais ou menos trinta quarteirões.
Sam começou a olhar cada página com mais afinco, procurando um alvo ou então o propósito da arma. Um cristal azul em uma das imagens lhe chamou a atenção, no canto da folha, uma nota também escrita a mão. “Terrigênesis”.
A palavra fez todos os alarmes de perigo brilharem na mente de Wilson, Sierra falara daquilo nos últimos dias, era o processo pelo qual Savannah havia passado, aquilo que lhe dera poderes... mas que segundo a biomédica era capaz de matar qualquer humano comum.
O raciocínio do Falcão montou as peças mais rápido do que ele queria acreditar: Lucia Von Bardas planejava detonar uma bomba com um daqueles cristais e isso desencadearia o processo de terrigênesis em uma área de ao menos trinta quarteirões. Seria um massacre.
Mas aonde? E o mais importante: Por quê?
Sam juntou os arquivos depressa, não sabia se aquele plano já estava em curso ou não, mas tinha que se encontrar com Bucky e avisar. Cogitou usar o comunicador, porém se eles tinham o elemento surpresa, era importante mantê-lo por mais um tempo. Talvez houvesse uma chance.
Fechou a pasta do “Projeto Pulverização” e ignorou a que falava sobre Modelos de Vida Artificiais, não precisaria daquela... Ou ao menos ele pensou que não.
No impulso de sair dali logo, Sam derrubou algo de cima da mesa, o objeto rolou pelo chão em direção ao extremo oposto do hangar, até parar em algo. Um estampido veio lá do fundo e de repente todas as luzes começaram a se acender automaticamente...
Wilson deu um passo para trás em profundo choque. Ali diante de seus olhos haviam dezenas de Ministras, ou melhor, protótipos, algumas sem um dos braços ou pernas, algumas sem a pele do rosto. Era aquilo que estava sendo produzido em massa ali. Um exercito de Lucias Von Bardas.
Rogers e Natasha tinham explicado tudo sobre Ultron, mas aquilo era outro nível... O nome “Modelo de Vida Artificial” fez sentindo e isso não era nada bom.
Merda de tecnologia da SHIELD.
É claro que Von Bardas faria um exército que ela pudesse controlar remotamente.
Sam xingou todos os nomes que conhecia, enquanto recolhia a outra pasta e dava passos para trás, foi quando todos as cabeças viraram em sua direção como um só organismo. Não sairia dali sem uma boa briga, isso demandava tempo. E “tempo” era uma palavra que não combinava com “bomba”.
Se aquilo não era uma emergência absoluta, nada mais seria...
Levou a mão direta à orelha e ligou o comunicador, enquanto todos os protótipos defeituosos se moviam em sua direção e as portas metálicas fechavam atrás de si.
— Bucky... — Chamou, continuando sem esperar resposta. — Temos um problema dos grandes...
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