Inverno Ardente
31 Pedido
Notas iniciais

Os olhos azuis estavam perdidos em um ponto qualquer, enquanto a mente vagava longe, na verdade a confusão de pensamentos de Bucky Barnes era tanta que, se perguntassem, ele não saberia explicar... Era muita coisa acontecendo em um único dia e, pelo visto, ainda teria mais.
— Podia ter pedido para a Sierra olhar isso... — A voz de Savannah soou perto de seu ouvido, enquanto ela fazia um curativo no braço direito dele, onde um tiro o havia atingido.
— Ela está ocupada com o Nik. — Se limitou a responder.
Na verdade tinha dito para a própria Savannah não se preocupar com aquilo, ela quem insistiu, Bucky sabia que logo o ferimento fecharia sozinho, seu organismo tinha uma cicatrização muito rápida. Não era como se fosse imortal, nem como se qualquer corte fosse se curar instantaneamente, mas em dois ou três dias aquilo seria apenas uma cicatriz quase imperceptível. Já havia sobrevivido a coisas piores.
Ainda assim, Savannah fez questão de cuidar daquilo e de lhe fazer tomar um analgésico depois do banho. Agora ambos estavam ali no quarto, sozinhos, Bucky vestindo apenas os jeans e os sapatos, enquanto a ruiva terminava o curativo dele enrolada em uma toalha.
— Eu acho que na verdade você estava com vergonha, isso sim. — Ela comentou casualmente, mas Barnes já estava tão perdido em seus próprios pensamentos outra vez que as palavras sequer fizeram sentido...
— Quem você acha que é essa pessoa misteriosa? — Perguntou de repente, virando os olhos na direção do rosto de Savannah e tirando um segundo para apreciar as sardas quase imperceptíveis que ela tinha sarapintadas sobre o nariz e bochechas.
— Não faço ideia. — A viu mover os ombros, enquanto terminava o curativo com cuidado excessivo. — E ela não vai contar, conheço a Sierra, vamos ter que pagar pra ver.
Bucky respirou fundo e assentiu, calado. Não entendia como Savannah podia estar tão calma sobre aquilo... Tinham sobrevivido a Ministra, porém ele temia que estivessem prestes a enfrentar outro problema.
Quantos inimigos antigos ainda haveriam espalhados por aí?
Ele não conseguia contar, porque no fim podiam existir ameaças das quais sequer se lembrava...
Se levantou, agradecendo pelo curativo e colocando uma camiseta de manga comprida enquanto Savannah lhe observava com atenção. Pensou que teriam paz depois daquele dia exaustivo, que poderiam comemorar naquela noite e que voltariam para o apartamento no Brooklyn, com suas rotinas simples e vidas pacatas... No entanto sua mente acusava todas as chances de tudo dar errado em um segundo.
A pior parte é que Savannah sempre estaria no fogo cruzado por causa dele. Se Sam não tivesse aparecido na hora certa... O simples pensamento lhe causou angústia.
— Você está preocupado, não é? — Ela adivinhou, dando alguns passos na direção dele e tocando-lhe o rosto com carinho.
Bucky colocou a mão de vibranium sobre a dela, apenas para prolongar aquele contato um pouco mais, enquanto respirava bem fundo.
— Sempre. — Soprou, focando os olhos nos castanhos-esverdeados. Queria poder controlar aquele pessimismo, mas era um tanto impossível. — Eu sei que você é a incrível Raposa Flamejante agora e que você é foda e não precisa de mim pra nada... Mas eu ainda me preocupo. Eu não gosto essa coisa de quase perder você todas às vezes...
— “Precisar” não é a palavra-chave aqui, “querer” é. — Savannah sorriu tão doce quanto um sol primaveril. — A vida não é sobre as coisas que a gente precisa, ela é sobre as coisas que a gente quer, James.
Podia ter questionado se ela queria estar com ele então, mas sabia que seria uma pergunta boba, a resposta estava ali nos olhos avelãs, clara como fogo. E isso era reconfortante.
— Além disso, é bem fofo você se preocupar comigo. — As duas mãos dela apoiaram nos ombros de Bucky.
— Fofo? — Ele repetiu um tanto incrédulo. — Minha nossa, não ando valendo nada mesmo! É o Nik falando que não tem medo de mim, você falando que eu sou fofo...
Ele revirou os olhos enquanto ria de canto.
— Você sempre foi fofo, Sargento. — Ela roubou um beijo dele. — O ponto é que você consegue ser fofo e sexy ao mesmo tempo, ainda não descobri como...
Usou aquele olhar quente que tinha, enquanto colava o corpo no dele e brincava com os dedos em sua nuca, fazendo um caminho por seus fios castanhos.
— Para de me seduzir, Savannah Devenport. — Bucky desceu as duas mãos pelo corpo dela, apoiando-as na base do quadril feminino, logo depois beijando-lhe o canto da boca. — Ainda temos que sair, lembra?
— Eu paro, se você parar também... — Ela murmurou contra os lábios dele, fazendo com que as bocas se tocassem de propósito.
— Eu não estou fazendo nada... — Se defendeu, beijando-a devagar, apenas para descer através da pele de Savannah em direção ao pescoço e morder de leve o ombro dela. — Agora vai se trocar. — Ordenou, se afastando repentinamente e ganhando um olhar indignado como resposta. — Te dou quantos beijos você quiser quando a gente voltar, Boneca.
— Promete? — O sorriso de Savannah não escondia o interesse dela na proposta.
— Com toda a certeza. — Barnes afirmou já na porta do quarto.
Desconfiava que se estivesse ali quando Savannah tirasse aquela toalha, os dois não iriam àquele encontro enigmático tão cedo. E Bucky queria acabar com aquilo de uma vez...
Fechou a porta atrás de si e cortou os corredores até a sala, sabia que parte do pessoal estaria arrumando as malas para irem embora, já que não faria sentido continuarem ali por mais tempo, no entanto encontrou Abigail no cômodo. Ela estava sentada no chão, com um notebook apoiado na mesinha de centro, enquanto Alpine ocupava o sofá de forma espaçosa.
Abby digitava rápida e efusivamente, seus olhos fixos na tela acessa sem precisar focar no teclado um só segundo. Devia saber que ela seria a primeira a ligar a tecnologia na primeira oportunidade.
— Eu devia me preocupar? — Ele perguntou depois de alguns instantes, vendo que ela sequer piscava.
— Só estou adiantando a matéria. — A garota respondeu, erguendo um pouco o olhar, mas sem parar de digitar. Bucky não fazia ideia de como ela fazia aquilo.
— Já? — Foi se aproximando e sentou-se no sofá, pegando Alpine no colo e recebendo um miado que mais parecia um resmungo.
Abigail apenas moveu a cabeça, sem parar o que fazia, Barnes chegou a acreditar que ela sequer tinha escutado realmente. Os olhos azuis dele focaram na tela então, o texto destacava atos heroicos e algumas coisas que provavelmente Nik havia contado, também havia espaços específicos onde ficava claro que a jovem tinha deixado para a versão de Sam.
“Capitão América, Soldado Invernal e Raposa Flamejante”, dizia uma parte. Bucky se remexeu desconfortável.
— O que? — Abby questionou, virando o rosto para encará-lo bem naquele momento. — Está horrível? Péssimo? Um lixo, sem salvação?
— Eu tenho certeza que está ótimo, Abby. Respira. — Barnes quase tinha esquecido do quanto ela podia ser frenética quando o assunto era trabalho.
— Então qual o problema? — A ouviu perguntar, mas não sabia como responder.
— Posso te pedir um favor? — Devolveu, depois de alguns segundos.
— Qualquer um. — Abby respondeu de imediato, parando para prestar total atenção nele.
Bucky ficou sem jeito, não sabia como pedir o que queria e nem como abordar o assunto. Após engolir em seco e respirar fundo, ele resolveu ser direto:
— Pode não usar “Soldado Invernal”?
— Claro... — Ela concordou prontamente, como se fosse a coisa mais simples de todas, voltando-se para o notebook em seguida. — Quer que eu coloque o que no lugar?
— Não sei... — Barnes percebeu que não tinha pensado nisso o suficiente, sabia o que não queria, mas isso era tudo, não tinha imaginado uma alcunha diferente. Nunca precisou de uma. Então apenas encolheu os ombros — Não pode ser só Bucky mesmo?
Abby fez a mesma careta engraçada que fazia quando comia batata frita sem sal. Ela tinha odiado a ideia.
— Por que não “Lobo Branco”? — A jornalista sugeriu, depois de pensar por alguns segundos.
Bucky ouviu o nome e riu de canto.
— Shuri contou pra vocês, não é? É só um apelido bobo que as crianças de Wakanda me deram. — Fez um gesto displicente com a mão de vibranium, enquanto a outra acariciava o pelo macio de Alpine.
Abby digitou algo no notebook e saiu abrindo algumas páginas da lista de buscas, lendo algumas coisas aleatórias mais rápido do que Bucky era capaz de processar.
— Lobos se destacam por sua habilidade de sobrevivência em ambientes hostis, são fortes, inteligentes e astutos. — Ela citou uma das páginas abertas, pulando para outra logo em seguida. — As pessoas tentem a acreditar no conceito de “Lobo Solitário”, mas a verdade é que eles precisam viver em grupo, são altamente leais à sua alcateia e costumam escolher uma só parceira para a vida toda. — Outra página então... — Lobos Brancos são animais altamente resistentes ao inverno.
Abigail voltou a olhar para Barnes enquanto encolhia os ombros.
— Sei lá, meio que parece com você. — Declarou empolgada. — Além disso, não é só por Wakanda, é por causa daquele desenho que a Savy lembrou que a mãe dela fez, o do Lobo Branco com a Raposa Flamejante enrolados feito yin e yang...
Bucky piscou sem entender. Que desenho?
— A Sierra me contou, era pra ser segredo? — Abby pareceu ver a dúvida no olhar dele e só quando observou com mais cautela entendeu o que estava acontecendo. — Ninguém tinha te contado ainda... — Ela colocou as duas mãos sobre a boca.
Ele nem sabia como responder. Será que era algo que alguém devia ter mesmo contado?
Ouviram passou vindos do corredor e Abby arregalou os olhos por trás de seus óculos redondos.
— Eu nunca te disse nada, ouviu bem! — Ela apontou com o dedo em riste, voltando a colocar as mãos no teclado no mesmo instante que Savannah entrava no cômodo.
— E aí o que estão fazendo? — A ruiva perguntou da forma mais casual possível, se aproximando de Bucky e sentando no colo dele, para a irritação total de Alpine.
— Nada, absolutamente nada mesmo! — Abby respondeu e Bucky teve pena, era uma péssima mentirosa a coitada.
Mas pelo visto Savannah estava mais preocupada em importunar Alpine do que em reparar nos comportamentos estranhos de Abigail...
E aquela coisa toda de desenho ficou de lado, principalmente quando Sierra terminou com os curativos de Nik e perguntou se o casal estava pronto para ir.
No entanto, Bucky não esqueceu, na verdade ele entrou no carro ainda pensando que, se existia mesmo um desenho de uma Raposa Flamejante enrolada em um Lobo Branco, feito por uma mulher que supostamente previa o futuro, então talvez assumir aquela alcunha não fosse tão ruim assim...
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Savannah encarava a estrada passando rápido pelos vidros do carro de forma impaciente, os braços cruzados e os pés batendo freneticamente no assoalho.
— Será que agora você pode dizer onde estamos indo? — Questionou, se movendo no banco para colocar a cabeça entre os dois assentos da frente, onde estavam Sierra e James.
— Pela décima vez, S., vocês vão ver quando chegarmos lá... — A biomédica respondeu naquele tom calmo, com os olhos presos na estrada e as mãos firmes no volante.
Sim, Savannah já havia perguntado uma dezena de vezes e não conseguira uma só informação relevante. Mais cedo dissera a James que Sierra não falaria nada, e até estava bem conformada com isso, mas só até que entrou no carro... odiava viajar sem saber o destino. Além disso, o silêncio do Sargento a estava deixando inquieta e ela sabia bem que ele não perguntaria nada por respeito.
— Pelo menos pode dizer como seu amigo conseguiu contactar você? — Tentou uma pergunta diferente. Era apenas curiosidade da sua parte, mas talvez um pouco de informação tirasse aquele olhar preocupado do rosto de James. — Nossas tecnologias estavam todas desligadas.
— Ele não me contactou de maneiras convencionais. — Sierra declarou de forma simples, virando à esquerda para uma saída lateral.
— E foi como então? — Savannah tentou dar continuidade a conversa e encontrou os olhos azuis escuros da psicóloga no retrovisor.
— Você não pode esperar pra ver, igual o Bucky está fazendo? — Ela respondeu, apontando para James no banco do passageiro.
Savannah trocou um olhar rápido com ele, e ambos pareceram concordar que aquilo não levaria a lugar nenhum. De uma forma ou de outra teriam que aguardar. Além disso, se fosse ruim Sierra diria, com certeza.
— Ele só está calado porque é educado demais pra te encher de perguntas. — A ruiva foi brutalmente honesta e recebeu um revirar de olhos de James.
— Eu sei. — Sierra afirmou em seu tom calmo, claro que sabia, ela não era do tipo que deixava detalhes passarem... — Só não é meu segredo pra contar antes da hora, gente, desculpa.
Savannah se deu por vencida, voltando a se encostar no banco logo atrás do de James e movendo um pouco o rosto para encontrar os olhos dele no retrovisor da direita, lhe sorriu de forma compassiva, tentando prometer sem palavra alguma que tudo ficaria bem.
O que de tão ruim podia acontecer, não é mesmo?
Conforme os minutos passavam, Savannah notou que se afastavam da estrada e das cidades, seguindo para um bairro mais apartado onde as casas eram maiores e mais distantes uma das outras.
— Chegamos. — Sierra declarou depois de mais algum tempo, parando o carro em frente a uma propriedade toda murada com um grande portão de ferro inteiriço e fechado.
Savannah notou que havia uma placa de identificação no muro, esculpida com letras douradas: "Instituto Xavier para Jovens Superdotados"...
— Uma escola? — Franziu as sobrancelhas, totalmente confusa com o destino.
— É um pouquinho mais que isso... — Sierra disse e até dava pra notar o orgulho em sua voz.
James esticou o braço e puxou a jaqueta que estava pendurada no encosto do banco, pronto para pegar as luvas no bolso e vestir as peças.
— Confia em mim, você não vai precisar disso ali dentro. — A loira declarou neutra, enquanto os portões se abriam de forma automática.
Quando o veículo de fato entrou na propriedade os olhos de Savannah foram atraídos para a esquerda, onde o som animado de jovens vinha de uma quadra poliesportiva, sua boca se abriu em admiração... Um grupo jogava basquete, mas a maior parte deles tinha características peculiares bastante visíveis. Um tinha asas de anjo, outro era feito de metal e o juiz do jogo era um homem azul e peludo.
Caramba...
James jogou a jaqueta no banco, enquanto piscava um tanto incrédulo.
— O “Superdotados” na placa, na verdade quer dizer Mutantes. — Sierra anunciou com a naturalidade de quem tinha contato com aquilo todos os dias.
Sim, ela tinha dito que pessoas assim existiam, mas Savy não esperava nada como aquilo que seus olhos viam.
— Eu não sabia que eram tantos... — James balbuciou, sem tirar os olhos do jogo, ele compartilhava da mesma surpresa que havia no rosto de Savannah.
Uma garota passou por dentro de um dos jogadores, tão fácil como faria um fantasma, então lançou a bola para um rapaz de cabelos claros que fez uma rampa de gelo, por onde correu antes de acertar a cesta. Aquilo era realmente extraordinário.
— Na verdade existem bem mais, o Professor Xavier só acolhe alguns que ele alcança primeiro. Erik Lehnsherr tem um número bem maior em sua ilha. — Sierra explicou prática, desligando o motor enquanto o casal trocava um olhar significativo. Ambos nunca tinham ouvido aqueles nomes na vida. — Mas isso não importa agora, vamos.
Ela desceu do carro, sendo seguida pelos outros dois. Savannah percebeu logo que a psicóloga era uma figura conhecida ali, considerando que algumas pessoas da quadra acenaram para ela enquanto os três seguiam em direção a grande mansão no meio do terreno.
Pelo visto sempre tinha um ricaço por trás daquele tipo de coisa...
Estavam prestes a alcançar a porta, quanto ela se abriu de repente e um homem parou no batente, tinha cabelos negros e costeletas grossas, com a pior das expressões no rosto, como se pudesse assassinar todo mundo ali com um mero olhar.
— Olha só, quem é viva sempre aparece... — Sua voz continha uma certa ironia amigável e um sotaque canadense perceptível. — Como vai, Doc?
Ele passou os olhos por Savannah e James, então ergueu uma das sobrancelhas de forma analítica, principalmente ao examinar o Sargento.
— Oi, Logan... — Sierra cumprimentou com um sorriso compassivo. — Eu estava ocupada com umas coisas. Sentiu minha falta? — Os olhos do homem voltaram para a psicóloga no mesmo instante, quase ofendidos. — Logo estou de volta para as nossas sessões.
— Todo dia eu me pergunto como deixei vocês me convencerem de fazer isso... — Ele moveu a cabeça em negativa, claramente contrariado. — Acho que o Professor mexeu com a minha cabeça.
— Você sabe que isso não aconteceu, Logan. — Sierra cruzou os braços em repreensiva e o tal Logan revirou os olhos, focando a atenção no casal outra vez.
— É uma piada, Doc. Achei que tivesse senso de humor. — Disse apenas, voltando a analisar James como se puxasse na memória se o conhecia de algum lugar.
Só então a ruiva notou que o Sargento parecia fazer exatamente a mesma coisa...
— Esse são meus amigos, Savannah e Bucky. — Sierra apresentou, apontando um e outro finalmente. — Gente, esse é o Logan. — Só então ela pareceu lembrar de alguma coisa e sorriu. — James Howliet, na verdade... — Se referiu ao homem e logo em seguida apontou para o Sargento. — James Barnes, na verdade.
Ela riu da coincidência, mas nenhum dos três fez o mesmo, Savannah porque estava focada no quanto os dois homens se encaravam.
— Moça... — Logan moveu a cabeça em um cumprimento simples, mas educado o suficiente, logo em seguida focou em Barnes outra vez: — Braço maneiro, xará. — Apontou displicente. — Adamantium?
— Vibranium. — James respondeu frio e sério.
Para Savannah foi impossível não lembrar do dia em que aquele homem maravilhoso bateu em sua porta furiosamente por causa de uma simples música alta, com aquela exata postura e olhar gelado. Santa Billie Eilish...
Logan assentiu por fim, analisando Barnes um pouco mais, para então erguer o punho direito e, de repente, fazer surgir enormes garras de metal do meio de suas juntas.
Caralho! Savannah quase deu um pulo para trás por causa do susto.
— Qualquer hora a gente vê qual é melhor... — Ele disse com um sorriso superior e um tom levemente divertido.
— Logan! — Sierra repreendeu e as garras se foram.
— Qual é? Eu treino com os pestinhas na Sala de Perigo o tempo todo. É uma luta amigável, ele sobrevive. — O homem deu de ombros de forma casual, lançando um olhar desafiador para James, enquanto Savannah apenas tentava não aparentar estar chocada demais.
Eles treinavam crianças? Que tipo de escola era aquela?
— Talvez você não sobreviva. — Barnes lançou casualmente ameaçador, como quem fala do tempo, mas ao mesmo tempo diz que vai cometer um assassinato.
Logan riu, tipo de verdade, como se aquela fosse a melhor piada do século.
— Seria divertido ver você tentar, garoto. — Respondeu, com aquele sorriso presunçoso brincando em seus lábios outra vez.
James riu também, um daqueles sorrisos de canto brotando em seu rosto, devia ser engraçado ter mais de cem anos e ser chamado de garoto...
— É só marcar. — Jogou de forma simples e Logan assentiu satisfeito, tirando um charuto do bolso e acendendo.
— Achei que não pudesse fumar essas coisas aqui dentro... — Sierra apontou de forma crítica e ganhou outro revirar de olhos.
— É por isso que eu estou saindo, Doc. — Logan declarou, deixando a casa e passando por eles, logo olhando por cima do ombro e focando em Barnes uma vez mais. — Boa sorte com o Careca. Outra hora testamos a resistência do metal, xará.
Enquanto o homem se afastava pelo gramado, James ainda o observou com cautela e curiosidade...
— Não precisam se preocupar, Logan tem um comportamento difícil, mas é um bom homem. — Sierra declarou, fazendo sinal para que finalmente passassem pela porta.
— Não é isso... — James lançou ainda pensativo. — Eu acho que conheço ele de algum lugar...
— Provável. — A voz masculina se espalhou pelo ambiente vitoriano e chegou até eles no hall de entrada. Os visitantes voltaram seus olhares para a escada ali em frente, apenas para se depararem com um homem descendo os degraus em uma cadeira de rodas um tanto futurista
A peça flutuava há alguns centímetros do chão, sem qualquer dificuldade com o desnível pelo qual passava. Seu condutor era um homem de meia idade, na faixa dos quarenta talvez, careca, trajando um terno muito distinto cuja cor combinava com os olhos azuis bondosos e perspicazes que estavam focados nas visitas.
— Logan é tão velho quanto você, Sargento Barnes, provavelmente esteve na segunda guerra também. — Ele disse como se falasse do tempo, enquanto exibia um sorriso acolhedor. — Além disso, ele ficou nas mãos dessas organizações nada confiáveis do governo por um tempo. Parece que eles gostam de apagar a mente das pessoas.
Savannah franziu as sobrancelhas, mas foi James quem expressou toda a surpresa e confusão de ambos com uma única pergunta:
— Me desculpa, eu te conheço?
— Ainda não. — O homem já estava perto o bastante para estender a mão. — Charles Xavier.
A ruiva conectou o sobrenome com a placa que vira na frente do instituto e soube que aquele era o dono do lugar, enquanto isso os dois homens trocavam um aperto de mão cheio de desconfiança da parte de James.
— Doutora Young, bom te ver. — Xavier focou na psicóloga depois, sorrindo para ela de forma amigável.
— Igualmente, Professor. — A loira sorriu também, cumprimentando o anfitrião com um movimento de cabeça e Savannah não precisou mais que isso para saber que sua amiga tinha respeito, carinho e admiração pelo homem.
Mas quem diabos era aquele careca? Os olhos azuis dele seguiram para os avelãs no mesmo instante, quase como se pudesse ler os pensamentos da jovem.
— E você deve ser a Savannah... — Disse cordial, movendo a cadeira na direção dela. — Já ouvi falar muito de você, mesmo antes do despertar de suas habilidades.
— Como sabe das minhas habilidades? — A ruiva cruzou os braços em desconfiança, sendo um tanto mais mal educada do que pretendia, embora isso em nada tenha parecido incomodar Charles Xavier.
— E como sabe tanto sobre mim também? — James completou em um tom bem mais amigável.
Xavier sorriu para ambos e pousou suas mãos nos braços da cadeira. Parecia um homem muito calmo e paciente, sempre com um sorriso mínimo nos cantos dos lábios.
— Eu sei sobre muitas coisas. Sobre suas habilidades em particular, senhorita Devenport, sei porque monitoro esse tipo de atividade. — Ele respondeu de forma solicita, focando os olhos em James logo depois. — E sobre o senhor, Sargento Barnes, eu sei porque uma de minhas protegidas tem um interesse particular em você...
Interesse, é? Savannah se conteve para não revirar os olhos, mantendo seus pensamentos muito bem guardados. Só o que faltava era ter que dividir a atenção de James com alguma superpoderosa bonitona e sabe-tudo, já não bastava o Steve? Seus olhos seguiram para o Sargento automaticamente, apreciando o que via. Se bem que... coitada, como não estaria interessada, não é mesmo?
Xavier riu de repente como se alguém tivesse contado uma piada.
— Não é esse tipo de interesse, senhorita Devenport. — Disse como se pudesse ler os pensamentos de Savannah. Será que tinha sido tão transparente assim? — Ela sente que tem uma dívida a quitar, apenas isso. — Ele voltou a atenção para James uma vez mais. — Hoje estão aqui por esse motivo, o tempo está se esgotando e temo que não haveria outra oportunidade. Me acompanhem, por favor...
Virou a cadeira em direção as escadas novamente e Sierra incentivou James e Savannah com um olhar, dando o primeiro passo para seguir o homem. O Sargento olhou para a ruiva por um instante encolheu os ombros, indo logo depois, como se tudo aquilo lhe incomodasse muito menos do que deveria.
Savannah, no entanto, era apenas desconfiança e perguntas... Não era apenas sobre a forma como tinham chegado ali, ou sobre a garota que queria ver James, essas coisas ela sabia que acabariam sendo respondidas, era mais sobre haver aquele lugar secreto cheio de pessoas surper poderosas, que nunca tinham aparecido para o mundo, mesmo depois de duas invasões alienígenas e um ataque de robôs super inteligentes que quase dizimou um país.
Se aquelas pessoas podiam fazer alguma coisa, por que não tinham feito?
— O mundo não está preparado para nós ainda, senhorita Devenport. — Xavier declarou de repente, sem focar no olhar na garota, mas agindo como se ela tivesse perguntado em voz alta. — Além disso, quando acontece uma invasão como a de Thanos, ela nunca atinge um único lugar, só porque não estamos nos holofotes, não significa que não ajudamos de outras formas menos públicas. Eu tenho meus próprios meios de ser discreto.
— Você está lendo a minha mente? — Savannah adivinhou, afinal essa era a única explicação plausível.
— Essa é minha habilidade. — Charles Xavier respondeu com displicência, quase como se fosse algo tão simples quanto dirigir um carro.
— E ninguém te disse até hoje que é falta de educação? — A ruiva rebateu, cruzando os braços nada satisfeita.
Se quisesse que alguém soubesse de seus pensamentos os diria em voz alta...
Xavier sorriu, parando no topo da escada antes dos outros e focando os olhos em Savannah finalmente.
— Peço perdão, senhorita Devenport. — Disse com uma educação polida. — Mas é particularmente difícil ignorar quando alguém pensa aos gritos.
— Eu não faço isso. — Ela devolveu ainda mais contrariada e recebeu um olhar condescendente em resposta.
Sim, aquele homem tinha mesmo cara de professor.
— Não se preocupe, esse tipo de coisa se aprende. — Ele declarou com um sorriso compassivo, pousando os olhos em James logo em seguida. — O Sargento Barnes, no entanto, tem uma mente que é como um arquivo criptografado, muito interessante. Poucas pessoas possuem uma mente tão forte e resistente a influências psíquicas.
Ele se virou para o corredor a direita, esperando que os outros três os seguissem. Savannah encarou James uma vez mais e ganhou outro dar de ombros, estava orgulhosa que ele era tão forte mentalmente falando, — era bom que alguém dissesse isso, talvez o Sargento finalmente entendesse que podia confiar na própria mente outra vez — mas lhe irritava um pouco que ele estivesse tão calmo com tudo que estava acontecendo ali...
Foi só então que Savannah se deu conta que para James não era um grande choque porque ele já devia ter visto de tudo. Entre os Vingadores mesmo haviam pessoas com poderes. James estava acostumado a coisas peculiares e sua capacidade de adaptação era muito melhor que a da maioria.
Isso era uma qualidade, certamente.
Talvez Savannah devesse pegar mais leve com o invasor de mentes e dar a ele o beneficio da dúvida. Não era só porque ele lia o pensamento alheio que era alguém terrível...
Ouviu Xavier rir baixinho e soube que ele ainda estava “ouvindo”. Se esforçou pra não pensar nenhum impropério, mas talvez tenha deixado um ou outro palavrão escapar. Força do hábito...
Viraram em outro corredor; tudo ali ainda seguia o padrão imperial, madeira escura, obras de arte e iluminação baixa, tudo de muito bom gosto, mas um tanto antiquado considerando o quanto de adolescentes e crianças Savannah vira ali fora. Um ou outro estudante passou por eles no caminho, cumprimentando Sierra de forma animada, provando que a conheciam e acenando vez ou outra para os visitantes. Eram de todas as nacionalidades e idades, alguns com particulares visíveis, outros que passariam despercebidos entre a multidão.
Apesar dos pesares, Savannah simpatizou com o lugar.
— Por aqui... — O dono da casa indicou o corredor que dobrava a direita, falando diretamente com James. — Sei que Willa está ansiosa para lhe ver uma última vez.
O nome não fez qualquer sentindo dentro da mente de Savannah, mas o Sargento franziu as sobrancelhas como se já o tivesse ouvido antes.
— Willa? — Repetiu, claramente buscando a memória em sua mente.
Xavier abriu uma das portas, revelando um amplo quarto bem iluminado que estava adaptado para um tipo de enfermaria, haviam três pessoas ali; a primeira, jaleco branco, pele caucasiana e cabelos escuros, foi cumprimentada por Sierra de imediato e chamada de Moira — a chefe dela, de certo.
A Segunda, impossível de ignorar por causa de sua beleza ímpar, possuía cabelos platinados que contrastavam com sua pele negra, tinha um porte muito elegante e parecia respirar em conjunto com o próprio ar. Estava sentada em uma poltrona ao lado da cama, os olhos pacíficos e muito expressivos presos na terceira figura, uma que Savannah não reparou de imediato, porque ainda estava focada na mulher de cabelos quase brancos que podia facilmente ser uma deusa ou uma rainha...
— Não pode ser... — James murmurou, ignorando todos os outros no quarto, para focar na única pessoa na qual Savannah ainda não tinha prestado atenção.
Era uma menina, algo entre dez e doze anos, pequena e magra, com os cabelos rapados, pele pálida até demais e aparência frágil. Estava deitada ali, conectada a vários aparelhos de monitoramento. Parecia doente, muito doente. Mesmo assim seus enormes olhos dourados eram brilhantes e cheios de vida, um sorriso infantil surgiu em seus lábios assim que sua atenção focou em James.
— Olá, Soldado. — Disse como se o conhecesse há uma vida.
— Você é a Estrela Cadente... — O Sargento declarou, parecendo surpreso com as próprias palavras.
Savannah piscou sem entender absolutamente nada. Então a pessoa que a Ministra Louca procurou por anos estava ali aquele tempo todo?
— Espera. Aquela Estrela Cadente? É uma criança. — Ela não queria soar tão desacreditada, mas foi impossível disfarçar.
— Na verdade eu sou muito, muito velha. — A garota respondeu, e embora sua aparência dissesse o oposto completo, sua voz cansada e falha corroborava com suas palavras. — Digamos que eu devia ter pensado um pouco melhor nas coisas que desejei pra mim.
— Está dizendo que...? — Savannah tentou formular a frase, mas não foi preciso.
— Eu desejei ser criança pra sempre e... — A Estrela Cadente ergueu os braços frágeis e isso apenas evidenciou os fios e o quanto estava magra. — Aqui estou. Jovem por fora e deteriorando por dentro.
Isso explicava o motivo de Von Bardas não ter encontrado nada em sua busca... Ela certamente estava procurando uma pessoa adulta.
Savannah lançou um olhar para James, estranhando seu silêncio, ele estava pálido, os olhos fixos na figura infantil, o maxilar travado. Ela não precisou de mais nada para entender que o Sargento preferia encarar dezenas de inimigos ao mesmo tempo do que uma de suas “vítimas”.
— E quantos anos você tem exatamente? — Perguntou, usando a conversa para distrair os outros e se aproximar de James de forma casual.
— Muitos. — A garota chamada Willa respondeu e focou os olhos no Sargento — Quando nos encontramos eu já não era mais uma criança há bastante tempo, embora ainda parecesse uma.
Savannah segurou a mão do Sargento de forma discreta, sentindo os dedos gelados e trêmulos entre os seus e apertando um pouco, como se isso pudesse transmitir força e paz para ele.
— Então você estava aqui todo esse tempo? — Ela continuou perguntando, esperando que a conversa fluísse até que James tivesse condições de participar dela.
— Faz alguns anos apenas, eu ainda vaguei muito pelo mundo antes de encontrar o Professor Xavier e me sentir segura aqui no Instituto. — Willa pousou seus olhos em Charles e logo depois na moça de cabelos platinados, sorriu então, calma e pacifica, quase como se tudo estivesse perfeitamente bem e ela não estivesse em uma maca presa a vários aparelhos. — Quando se tem os dons que eu tenho, não se pode confiar em qualquer um.
— Você está certa, querida. — A moça ao lado da cama falou. Então pousou os olhos nos visitantes. — Vou deixar que conversem.
— Que lapso o meu... — Xavier se moveu pelo quarto em sua cadeira de rodas. — Essa é Ororo Munroe. — Apontou para a mulher que tinha acabado de se levantar. — Ororo, esses são Savannah Devenport e James Barnes.
— Ah sim, imaginei que viessem. — Ela respondeu e Savannah retribuiu o sorriso recebido, percebendo que Ororo foi delicada e discreta o bastante para não tentar uma interação direta com James.
— Tempestade? — Willa chamou antes que a mulher deixasse o quarto. — Acho que hoje seria um bom dia de chuva.
— Também acho, querida. — Foi só o que ela disse antes de sair, deixando Savannah com um vinco entre as sobrancelhas por causa do apelido peculiar.
Logo Moira deixou a sala também, fazendo um gesto para que Sierra lhe acompanhasse. Antes de sair a loira lançou um olhar calmo para Savannah, como se dissesse que estava tudo bem...
Xavier se aproximou um pouco mais da cama quando ficaram sozinhos ali e James finalmente se moveu, soltando a mão de Savannah para se aproximar um único passo incerto na direção da Estrela Cadente.
— Olha... — Sua voz travou na garganta e ele teve que desviar os olhos por um instante. Savannah só queria abraçá-lo e prometer que tudo ficaria bem. — O que aconteceu antes... eu sinto muito, eu só quero que sabia que....
— Sente muito? — Willa repetiu confusa. — Você me ajudou.
— Como? — James piscou diversas vezes, como se a informação não fizesse o menor sentido.
Savannah deu um olhar rápido para Charles Xavier e ele lhe ofereceu um sorriso singelo, quase como se acalmasse todos os seus receios e ansiedades.
— Você me deixou escapar. Não se lembra? — A Estrela Cadente se arrumou um pouco melhor na cama e sua dificuldade ficou evidente.
— Eu me lembro de chegar onde você estava e... — James se calou, as palavras entalando em sua garganta, Savannah lembrou do dia em que ele teve aquele pesadelo e do quanto tinha ficado abalado com saber que tinha machucado crianças. — Eu me lembro do sangue e dos gritos e de você correndo na neve, depois me lembro da correnteza e da água congelante nos meus pulmões.
Willa franziu as sobrancelhas e focou em Xavier como se ele tivesse todas as respostas. Savannah por sua vez tocou as costas de James sutilmente, vendo os olhos azuis pousarem nos dela, tão confusos e perturbados.
Se pudesse protegê-lo do mundo faria isso...
— Você não era o único atrás de mim naquele dia. — Willa declarou finalmente, quase como se tivesse sido instruída a contar a história desde o começo para evitar um mal-entendido. Ou talvez para esclarecer um.
James ficou ainda mais confuso, isso estava explícito em sua fisionomia.
— A Hidra não é a única organização secreta com propósitos nefastos nesse mundo, Sargento Barnes. — Xavier interveio de forma simples e Savannah teve que admitir que fazia sentido.
Uma garota que podia realizar qualquer desejo, com certeza atraia os piores tipos de pessoas.
— Enfim, fazia algum tempo que eu já estava fugindo do Clube do Inferno... — A Estrela Cadente continuou contando. — Quando você chegou eu achei que seria um problema, mas algo no meio da confusão e das mortes que já estavam acontecendo te fez mudar de ideia, embora parecesse que você se esforçava muito pra se manter são, quase como se lutasse contra si mesmo...
— Então eu... não machuquei... crianças? — James começou a absorver as palavras, quase como se a verdade fosse inacreditável demais.
— O que? — Willa quase riu. — De jeito nenhum, você salvou muitas delas inclusive. E me tirou de lá.
Savannah sorriu, entendendo aquilo talvez até melhor que o próprio James. Ele viu as crianças sendo feridas e com certeza emergiu, conseguiu o controle por um tempo e ao invés de usar isso pra fugir da Hidra, usou para defender as pessoas e salvar Willa.
Ele nunca tinha machucado crianças...
— Isso não faz sentido. Eu me lembro de correr atrás de você na neve. — O Sargento não parecia muito pronto para aceitar aquela verdade tão acolhedora.
— Você correu... porque me deixou ir na frente. — Willa esclareceu e teve que parar por alguns segundos para tossir. — Eu não sei muito bem o que aconteceu, porque, como eu disse, você parecia estar em constante luta consigo mesmo. Além disso, o Clube do Inferno não desistiria tão fácil... — Respirou fundo e aceitou um copo de água que Xavier lhe ofereceu. — Então você parou sobre o rio congelado e deu um tiro na superfície, foi uma estratégia eu pressuponho... Você caiu na água e os meus perseguidores não conseguiram passar. Foi isso que aconteceu.
James piscou devagar, seus olhos procurando pelos de Savannah, como se ele quisesse a confirmação de que aquilo não era um delírio. Seu peitoral subia e descia de forma lenta e compassada, visivelmente se enchendo de alívio aos poucos.
— Por isso eu me lembro da correnteza e da água congelada... Além disso, fui encontrado no gelo depois dessa missão... — Ele disse baixinho, quase como se estivesse falando consigo mesmo.
Savannah teve um momento de clareza e imaginou que James não tinha atirado no gelo apenas por causa dos perseguidores, mas por si mesmo também, ele devia sentir que estava prestes a perder o controle e quis impedir isso da forma que podia no momento.
Acabar com tudo de uma vez deve ter parecido melhor do que voltar para a Hidra.
Se aproximou um pouco mais dele, puxando-lhe a mão porque a angústia tomou conta de seu peito e ela precisava sentir que ele não sumiria repentinamente
— Se você estava lutando contra a programação da Hidra e conseguiu um lampejo de controle faz sentido que essas sejam as memórias mais nubladas na sua mente. — Xavier declarou e Savannah não mais se surpreendeu que ele soubesse de tanto e de tudo.
Talvez fosse até útil.
Enquanto James processava aquelas informações, um outro questionamento cruzou a mente de Savannah com um tanto de revolta... Sierra sabia de tudo aquilo e não tinha dito nada?
— Ela não sabia de nada, Senhorita Devenport. — A voz de Charles Xavier soou dentro de sua mente, e passado o segundo inicial de susto ela “ouviu” o que ele tinha a dizer. — O Trabalho da Doutora Young aqui é muito importante, mas mantemos algumas coisas longe do conhecimento dela, as habilidades de Willa foram uma dessas coisas, Sierra sabia apenas o nome e que ela estava doente, não sabia sobre o assunto Estrela Cadente ou sobre a ligação com o Senhor Barnes. Não havia o que pudesse contar a vocês.
Savannah assentiu devagar, fazia sentido afinal. Era apenas uma enorme coincidência que provava que, apesar do mundo ser enorme, algumas vezes ele era bem pequeno.
— Enfim... eu queria te ver uma vez mais antes que meus órgãos falhassem. — Willa continuou falando de forma calma e simples, embora sua voz parecesse cada vez mais cansada a cada segundo. — Tenho uma dívida com você, Soldado. Antes de você me ajudar eu pensei que nunca encontraria pessoas boas nesse mundo, que todas acabariam me usando de uma forma ou de outra. O que você fez por mim me ajudou a ser bem mais receptiva quando finalmente conheci o Professor Xavier. De muitas formas, se não fosse sua ajuda naquele dia, eu não estaria aqui agora. Eu queria agradecer...
Ela sorriu para James e Savannah ficou imensamente feliz por isso, por alguém mostrar que ele era bom e digno de gratidão, seu Sargento merecia aquele tipo de coisa.
— Por que não faz um pedido pra ficar viva? — Ele questionou, analisando a pequena na cama com os olhos tristes.
Savannah não pôde evitar sorrir para aquela preocupação adorável, aquele era James Barnes, ele se importava com as pessoas.
— Eu cansei dos pedidos. Chega uma hora que temos que deixar a vida seguir seu rumo. — Willa respondeu calma e claramente conformada. — Mas não fiquem tristes, eu já disse para o pessoal aqui do Instituto que nada de velório. Mesmo porque, se bem me lembro, pedi pra virar borboletas quando morresse. — Riu de alguma piada interna e acabou presa em um ataque de tosse, levando alguns segundos para se recuperar. — Eu era uma criança com pedidos estranhos. Quem sabe se eu soubesse mais cedo que eles eram limitados eu tivesse pensado melhor. — Ela puxou uma das mangas e ergueu o braço. — Mas eu descobri eventualmente, que todos eles estavam marcados aqui em mim...
Mostrou a pele; do pulso ao cotovelo, na parte interna do antebraço, havia uma porção de pintas, formavam um tipo de constelação, a maioria delas estava apagada, quase mesclada ao tom de pele de Willa, havia apenas uma pinta em tom ainda escuro e vivo. Savannah entendeu que cada uma era um pedido.
— E eu guardei o último pra você. — A Estrela Cadente falou em fim, ganhando um olhar surpreso de James.
— Pra mim? — Ele apontou para si mesmo, visivelmente incrédulo.
Savannah achou aquela atitude adorável, entendendo que a única pinta ainda escura era o último pedido que a Estrela Cadente podia fazer...
— Depois do rio congelado, achei que estivesse morto, só muitos anos depois te vi na televisão, na época da bomba na Conferência do Acordo de Sokovia. — Willa tornou a explicar, abaixando o braço como se estivesse cansada demais para mantê-lo erguido. — E só então, depois de muita pesquisa que Xavier e Ororo me ajudaram a fazer, eu vim a entender um pouco mais sobre sua história; como caiu daquele trem em 1944 e todo o horror que te aconteceu depois disso. Não foi uma vida justa, Sargento Barnes. Por isso guardei o último pedido pra você. Você tem o direito de consertar tudo isso.
Por algum motivo um arrepio frio correu o corpo de Savannah. O que “consertar” significava?
— Como é? — James franziu as sobrancelhas, mas seu tom não escondia seu interesse.
— Só deseje, e vai poder voltar para antes de tudo isso acontecer. Antes da desgraça, das mortes, do sangue e da Hidra, antes do gelo e do Soldado Invernal. — Willa declarou, como se oferecesse o mundo todo da forma mais simples de todas. E era exatamente isso que ela estava fazendo, não era? — Um pedido pode te colocar de volta na sua vida, de volta para 1944, será como se nada disso tivesse acontecido.
A mente de Savannah zunia e rodava, tudo ao redor perdeu o foco, ela se sentiu enjoada de repente, soltou a mão de James e deu um passo para trás.
— Está falando sério? — O ouviu dizer e tentou manter a concentração no momento presente, ignorando as possibilidades terríveis que se acumulavam em sua mente.
— Apenas faça o pedido. Deseje que o acidente no trem nunca tenha acontecido e você vai voltar para casa, tudo que veio depois vai sumir. As memórias nunca mais vão te assombrar, porque elas nunca vão ter acontecido. Sei como viver por décadas pode ser cansativo. Eu quero te dar a oportunidade de apagar toda a dor que veio com esses anos. — Willa continuou falando e para Savannah era como se tocassem a marcha fúnebre. — Tudo que você tinha planejado para sua vida, você vai poder concluir.
Sentiu cada palavra lhe atingir como uma facada, sentiu a solidão lhe comer pelas beiradas, cruel e sorrateira, gritando verdades que Savannah nunca quis dar ouvidos antes...
Insegurança.
Estava lá, batendo em seu peito forte e mordaz, impiedosa e venenosa, apontando todos os motivos pelos quais James com certeza escolheria aquilo.
Era tudo que ele sempre quis, não era?
Sentiu o impulso de gritar que era ridículo, que haveria consequências, que James não podia apenas apagar o Soldado Invernal daquele jeito e voltar para o passado...
Apagar o Soldado Invernal...
Tudo que ele sempre quis.
Nada de dor, nada de gelo, nada de vítimas.
Tudo.
Que.
Ele.
Sempre.
Quis.
Savannah respirou então. Não podia tirar isso dele. Mesmo que fosse dilacerar seu próprio coração, mesmo que ela não imaginasse uma vida sem James, mesmo que isso fosse ferrar com todo o equilíbrio do universo, jamais seria a pessoa a dizer que ele não podia agarrar aquilo com todas as forças.
Não era apenas pular de volta para o passado, era apagar toda a dor, era ser inteiro de novo, voltar para a própria vida, para a família, para os amigos, para o sonho com Steve... Era nunca mais ter que acordar no meio da noite com pesadelos, nunca mais se olhar no espelho e ver o que a vida tinha feito com ele, era uma chance em um milhão... E James merecia isso mais do que qualquer outra pessoa no universo.
Savannah desejou não estar ali, porque sabia que sua dor lhe trairia e não queria que James visse isso, queria que ele tomasse aquela decisão de consciência limpa. Queria que ele tivesse tudo de melhor. E olhar no rosto dela e ver a dor e o desespero não seria o melhor naquele momento.
— Acho que vocês têm uma conversa importante pela frente... — Charles Xavier declarou de repente, com o tom mais casual de todos. — Vem comigo, senhorita Devenport?
Ela soube que o convite não era coincidência, apenas assentiu, mas não conseguir sair sem olhar para trás. E se fosse a última vez que veria James?
Se aproximou dele então, dando-lhe um beijo no rosto, o máximo que podia fazer sem que suas expressões lhe traíssem, felizmente o Sargento estava muito impactado pelo assunto e não reparou. Savannah queria dizer que o amava, queria agradecer por todos os momentos lindos que tivera ao lado dele... Quis falar que tudo bem, que ela ficaria bem sem ele e que nunca o esqueceria, mas as não queria influenciá-lo de forma alguma, não queria causar ainda mais dor do que a que ele já sofrera na vida.
Se o amava de verdade tinha que deixá-lo ir de encontro ao que ele merecia. Paz.
Deu as costas, mas parou na porta a tempo de ver James se aproximar da poltrona em que Ororo estivera sentada, enquanto Willa lhe sorria, a imagem de uma simples criança doente.
Savannah mediu seu Sargento por um momento, sabendo que por mais que desejasse ele não era de fato seu.... Mas tudo bem... ainda o amava, sempre o amaria.
Saiu dali com as pernas trêmulas, segurando as lágrimas nos olhos enquanto seguia Xavier de forma mecânica...
Poucas vezes havia se sentido insegura quanto a James, nunca cogitou que ele pudesse ter o passado ou Steve de volta, mas pensando em retrospecto talvez sempre tivesse tido a certeza que não poderia competir com essas duas coisas, no entanto, não havia motivo para se preocupar com elas, porque nunca foram uma possibilidade real. Nunca, até aquele momento.
No entanto, aquilo sempre esteve lá; a vontade de James de partir, de proteger Savannah do passado dele, de fazer o certo por ela... Lembrou de tê-lo interrompido noites antes, quando ele dizia que o único jeito de protegê-la de tudo isso seria se eu tivesse morto, em outro planeta ou em uma outra linha do tempo.
No fim James sempre foi transparente sobre quais seriam suas escolhas. Ele nunca a enganou...
Já estava sentada em um escritório quando se deu conta; cadeiras de couro, uma grande escrivaninha de mogno e estantes repletas de livros.
— Aceita uma xícara de chá? — Xavier perguntou solicito e Savannah quase riu disso.
— Não acho que seja esse tipo de bebida que eu preciso agora.
Queria estar em casa, enrolada nas cobertas. Todas elas teriam cheiro de James.
Tentou encontrar motivos pelos quais ele ficaria. Alpine, quem sabe? Não, James sabia que a gatinha estaria bem cuidada, que nunca deixariam faltar nada a ela. Ele também tinha visto Sam se tornar o Capitão América e tinha vencido Lucia Von Bardas...
Talvez ele pensasse no bem maior, em não bagunçar a linha do tempo. Mas o próprio Steve não tinha voltado e nada de ruim aconteceu? Talvez ele seguisse o exemplo do grande amor de sua vida...
Um copo foi colocado na frente de Savannah e logo havia um liquido âmbar ali, vindo direto de uma garrafa bonita.
— Só não vamos deixar as crianças saberem disso... — Xavier lhe ofereceu um sorriso compassivo.
Savannah virou toda a bebida de uma vez só, enquanto queria odiar o anfitrião... Ele era o responsável por estarem ali afinal de contas, mas no fundo sabia que não era culpa daquele homem. Não era culpa de ninguém. A vida era como era e não havia nada que pudesse fazer sobre isso.
Tentou se conformar com esse pensamento e focar em outra coisa, era o melhor a fazer. James seria uma ferida aberta por muito tempo, mas acabaria superando um dia...
— Imagino que tenha muitas perguntas... — Charles Xavier iniciou o assunto perfeito.
— Não pode ouvir todas elas na minha cabeça? — Devolveu e aquilo soou muito mais como um ataque do que ela pretendia, mas o homem que se posicionou do outro lado da mesa não pareceu se importar com aquele comportamento.
— Me advertiu da minha falta de educação, então estou me mantendo distante de seus pensamentos, mesmo que isso seja particularmente difícil. — Disse de forma cordial, erguendo um copo que só então Savannah viu que ele tinha enchido para si. Deu um gole mínimo enquanto a aguardava.
A ruiva analisou o homem por um instante e respirou fundo. Uma conversa paralela podia ser útil, e aquele lugar era bastante interessante de fato.
— Por que me chamou aqui? Aliás, como entrou em contato com a Sierra? — Começou com o básico, ou talvez tenha sido a única coisa que conseguiu formular no momento.
Sua mente queria escapar e correr na direção de James, mas Savannah tentava se manter firme.
— Eu contatei a Doutora Young telepaticamente. — Xavier respondeu tão casual como quem fala do tempo. — E você está aqui porque fiquei curioso com a natureza de seus poderes e, dado o estado de Willa e o pedido de ver o Sargento Barnes, eu achei apropriado usar essa oportunidade. Nunca pude conhecer uma Inumana antes, embora a Moira e Sierra falem disso às vezes.
— Achei que a Estrela Cadente fosse Inumana. — Savannah devolveu neutra, citando algo que Freakmann havia lhe contato.
Embora a alcunha de Willa soasse amarga na ponta de sua língua também não sentia raiva da menina, como poderia afinal? Ela estava dando a James tudo que ele sempre quis.
— Ela é Mutante. — Charles esclareceu naquele tom que lembrava muito um professor paciente. — Mas a confusão deve ser porque a Hidra e a S.H.I.E.L.D., felizmente, conhecem muito pouco de nossa existência e eu me esforço pra manter assim.
— Por isso nunca apareceram, mesmo com todo o conflito rolando no mundo... — A ruiva se arrumou na cadeira um pouco melhor, não era sua intenção soar crítica, mas talvez tenha feito exatamente isso.
— Sempre haverá conflitos, faz parte da natureza humana, nós temos os nossos também. Grandes e pequenos. — Ele esfregou a fronte como se já tivesse tido toda sua cota de dor de cabeça na vida. — Como eu disse, Hidra, e Thanos, nesse caso, não são a única ameaça no mundo...
Savannah brincou com o copo vazio entre os dedos, não sabia como se sentir sobre aquilo...
— Além disso, depois do Acordo de Sokovia, ficou ainda mais evidente que o mundo não está preparado para nós. — Xavier continuou e parecia muito convicto do que dizia. — Pode imaginar que tipo de preconceito essas crianças sofreriam?
A jovem respirou fundo, não tinha poderes há muito tempo, e era bastante privilegiada no que dizia respeito a preconceito, mas já tinha visto bem de perto, já estivera na linha de frente de muitos protestos na vida, já presenciara suas cotas de injustiça, e não era indiferente a dor das pessoas, nem às lutas delas.
— O mundo nunca vai estar preparado se não aparecerem, não se combate preconceito se escondendo e entrando nos moldes, isso só incentiva esse comportamento de ódio das pessoas ainda mais. — Ela opinou com o que tinha de experiencia. — Se tiverem que incomodar, incomodem então, nenhuma mudança nasceu sem conflito.
Xavier riu de canto, havia um certo brilho de nostalgia em seu olhar.
— Tenho um velho amigo que diz coisas parecidas... — Ele comentou encarando o nada por um momento e ficando repentinamente triste. — Erik iria gostar de você.
Era a segunda vez que Savannah ouvia aquele nome, imaginou que fosse alguém importante e, a julgar pelo olhar de Xavier, havia uma história trágica ali. Nem sempre era preciso ler mentes para entender certas coisas...
— Vocês teriam feito muita diferença contra Thanos, ou mesmo antes disso, na invasão de Nova York. — Preferiu focar no assunto ao invés de focar na vida do telepata ao seu lado. — Um pedido da Willa e todos estariam de volta do estalo.
— Willa foi levada pelo estalo, na verdade, então foram cinco anos sem pedidos, mas nas outras ocasiões citadas, pode ser. No entanto, às vezes temos que fazer escolhas, e eu fiz a minha, assim como ela fez a dela. — Charles respondeu pacifico, movendo a cadeira até a varanda que havia no cômodo e encarando algo lá fora. — Somos uma escola, não um exército.
Savannah tomou a liberdade de se aproximar dele, encostando no beiral da varanda e observando as crianças e adolescente interagindo lá embaixo.
— Ainda assim, vocês treinam, não é? — Ela declarou neutra, voltando o olhar para o dono de tudo aquilo. — Logan falou que tem uma “Sala de Perigo”.
— É claro que ele falou... — Xavier riu de canto, como se o comportamento do homem que também se chamava James não o surpreendesse em nada. — Mas, apesar das aulas pouco ortodoxas do Logan, nós treinamos para controle das habilidades e defesa, apenas isso.
— Às vezes a melhor defesa é o ataque. — Savannah encolheu os ombros ao responder.
Não era uma premissa muito pacifista, mas algumas vezes as pessoas tinham que queimar alguns carros para obter mudanças. Sempre funcionava com os franceses...
— Você soou como Erik de novo... — Charles declarou, focando os olhos nela por alguns segundos, o tom quase critico, mas um tanto compassivo, a deixava curiosa para entender qual era o lance com o tal Erik...
Continuou a olhar as pessoas lá embaixo; uma garota de com duas mechas brancas na parte da frente de seus fios vermelhos vivos observava os colegas um tanto de longe, usava casaco e luvas, mesmo que não fizesse frio naquele dia.
Savannah começou a imaginar quantas particularidades existiriam ali, quantos poderes extraordinários e quantas pessoas boas com todo um futuro pela frente... Mas ela sempre pensou de forma um tanto dicotômica sobre habilidades especiais. Se você pode fazer algo para ajudar alguém, então você deve fazer...
Todavia quem era ela para ditar essas regras nas vidas das pessoas? E se todos aqueles mutantes só quisessem viver em paz? Até onde era um dever lutar? Onde ficava o direito de fazer as próprias escolhas nesse caso?
Talvez presumir que todas aquelas pessoas deviam agir contra as ameaças, apenas porque podiam fazer isso não fosse justo... Era difícil dizer se a premissa da omissão se aplicava a eles.
Quem sabe tivesse sido muito extremista em sua forma de se posicionar...
Imaginou que Charles Xavier tivesse que lidar com aquele tipo de questionamento todos os dias, e que fizesses suas escolhas depois de muito pensar nas opções. Savannah não podia dizer que ele estava errado, o homem parecia estar envolvido naquele mundo há tempo demais e ela há apenas algumas semanas.
Talvez houvesse um motivo para que ele fosse tão protetor com os seus.
— Como ficou sabendo das minhas habilidades? — Perguntou enfim, sem tirar os olhos da garota com mechas brancas, que ainda observava os colegas de longe. — Disse que monitora isso, como é?
Charles Xavier respirou fundo e ficou em silêncio por algum tempo, quase como se estivesse ponderando se Savannah era confiável o bastante para receber aquela informação, apenas quando os olhos avelãs pousaram nos dele é que o professor se decidiu realmente.
— Eu tenho um tipo de máquina, se chama Cérebro, monitoro mutantes que ativaram suas habilidades e estão com problemas, mas consigo ver Inumanos também, e humanos, mas não foco neles.
— E são muitos Inumanos? — Savannah tornou a questionar, depois de ouvir a explicação.
Aquilo parecia um pouco invasivo, mas ao mesmo tempo bastante efetivo, achar alguém que estava com problemas em qualquer lugar, era uma boa forma de ajudar antes que a coisa saísse do controle...
— Não. Por um tempo ficaram em um lugar em que eu não podia vê-los, um tipo de comunidade talvez, depois eu vi alguns deles quando saíram dali, parece que o lugar foi destruído, não sei dizer com clareza... — Xavier moveu sua cadeira pelo cômodo, se afastando da varanda. — Uma em particular me chamava a atenção, tinha muito poder... Uma garota extraordinária. Daisy Johnson, eu acho. Inumanos apareciam bastante ao redor dela. — Ele encarou o nada por um tempo, como se puxasse as memórias em sua mente. — Mas ela sumiu um pouco antes de Thanos, quase como se tivesse sido engolida pelo tempo. Nunca mais a vi depois disso.
— Parece que o povo curte essa coisa de viajar no tempo... — Savannah se limitou a encolher os ombros, enquanto seus pensamentos voavam para outra pessoa que podia estar prestes a fazer o mesmo.
Qual era o lance com o passado afinal? Segregação racial, guerras, o dobro de preconceito, machismo endeusado e total desvalorização da mulher... Savannah jamais escolheria viver em um tempo assim.
— Está preocupada, não está? — Xavier puxou a ruiva de volta para a realidade com suas palavras.
Ela respirou fundo, mesmo que estivesse — e sim estava — não diria isso para ele. Mal o conhecia...
— Não sei... — Tentou soar desinteressada e ganhou um daqueles sorrisos condescendentes em resposta.
— E você não quer falar sobre isso com um desconhecido... — Ele completou de forma certeira.
— Achei que não estava mais lendo a minha mente. — Savannah devolveu, cruzando os braços.
— Dessa vez eu não precisei.
Charles Xavier era um homem perceptivo para além de suas habilidades psíquicas, isso ficava óbvio, Savannah achava um tanto invasivo, mas não podia culpá-lo por isso.
Só não queria falar no assunto, o simples pensamento a fazia se sentir na beira de um precipício prestes a desabar...
De repente teve a ideia perfeita para acabar com o silêncio desconfortável e manter a mente daquele homem focada em outra coisa. Ergueu a mão direita e fez chamas surgirem nela:
— Aí está, disse que queria ver meus poderes... Satisfeito?
Xavier franziu as sobrancelhas e se aproximou interessado, as pupilas fixas no fogo como fosse algo hipnótico.
— Pelo que vejo as diferenças entre Mutantes e Inumanos são poucas... — Ponderou analítico.
Fez algumas perguntas sobre controle e extensão dos poderes, tecendo comentários extensos sobre cada pequena coisa, enquanto Savannah deixava seu pensamento voar longe... Ou melhor nem tão longe assim, apenas ali no corredor ao lado, alguns cômodos de distância, onde alguém estava tendo uma conversa que podia destruir o coração dela.
Ainda tinha certeza que deixar James partir era o certo, porém “certo” e “indolor” raramente caminhavam juntos... Ah, sim, aquilo com certeza ia doer pra caralho. O simples pensamento de uma realidade sem James fez a tristeza se alastrar pelas veias de Savannah como uma doença sem cura.
Sabia que não morreria sem ele, mas “sobreviver” e “estar viva” eram duas coisas completamente diferentes e Savannah sabia disso muito bem...
— Algo requer meus cuidados, com licença. — Xavier disse de repente, tocando o braço dela com sutileza, quase como se chamasse sua atenção. Savannah quis pedir desculpas por estar com a concentração tão relapsa, mas o homem não permitiu que ela falasse. — Pode ficar o quanto quiser. Ou pode descer e conhecer o restante da escola, como desejar.
Saiu em seguida, deixando a ruiva sozinha ali no escritório com nada mais que estantes abarrotadas de livros e seus próprios pensamentos...
Se voltou para a vista da varanda outra vez, o céu tinha fechado repentinamente, como se alguém ali pudesse controlar o tempo... Aos poucos os jovens ali foram dissipando, fazendo com que a parte frontal da propriedade ficasse totalmente vazia um instante antes que a chuva torrencial desabasse, quase um evento planejado. Savannah abraçou o próprio corpo se sentindo estranhamente solitária, era como uma segunda-feira, mesmo que não o fosse de fato.
Será que todos os dias seriam daquela forma dali em diante?
Sua mente reviveu todos os momentos com James; a noite em que ele bateu em sua porta, o encontro na lavanderia, a conversa no telhado, a amizade improvável... A forma natural e despretensiosa com a qual ele simplesmente tinha entrado em seu coração de um jeito irreversível. Não imaginava mais como seriam os dias sem ele; sem cafés da manhã e yoga, sem tê-lo para buscá-la no Soldiers, sem poder abraçar o corpo dele na volta pra casa, sem jantares e danças na cozinha sob a luz da geladeira, sem dividirem a mesma cama, por menor que ela fosse... Sabia que dramatizar aquele momento não era maduro ou racional, relacionamentos começavam e acabavam, era mais comum que não fossem eternos, mas Savannah com certeza não estava preparada para aquele fim.
Todavia, o que poderia fazer? Correr até o cômodo ao lado e implorar “por favor me escolhe?”. Não, isso seria desonesto, causaria sofrimento desnecessário para os dois lados. Não queria que James acordasse um dia, dali uma semana, um mês, um ano ou dez, e se arrependesse de atender ao pedido dela. Seja qual fosse a escolha que ele faria, ele tinha que fazer sozinho.
Não é o fim do mundo, tentou dizer a si mesma, em looping infinito, mas infelizmente machucava como se fosse. Não podia controlar o que seu coração sentia afinal...
Respirou fundo, o ar parecendo areia em seus pulmões, como se nunca mais fosse conseguir respirar direito outra vez. Foi quando sentiu o toque atrás de si, um pouco acima de seu cotovelo, foi repentino e silencioso e fez com que seu reflexo e instintos agissem mais rápido, quando se virou, as chamas já tinham tomado conta de sua mão esquerda, mas nunca chegou a de fato atingir o alvo porque seu pulso foi envolvido por dedos gelados de metal e seus olhos se afogaram em uma imensidão azul.
— Quando o Nik te mandou queimar meu cabelo eu tenho quase certeza que ele estava brincando...
Um sorriso de canto e a mão dela sendo solta lentamente.
— James... — Soprou em um misto de alivio, surpresa e angústia.
Será que ele estava ali para se despedir?
— Savannah...? — O Sargento devolveu em um tom divertido, mas ao analisar o rosto dela franziu as sobrancelhas. — Por que você parece tão surpresa em me ver?
— Eu achei que... — Ela notou que sua respiração estava fora do prumo. — Achei que você demoraria mais.
James respirou fundo e encolheu os ombros, puxando Savannah para si e afundando o rosto no cabelo dela em uma atitude um tanto melancólica.
Ela não sabia o que esperar, não sabia que tipo de conversa teriam, mas se deixou ser envolvida, o abraçando também, aproveitando cada segundo daquele contato. Não saber se aquilo era uma despedida lhe matava um pouco a cada segundo.
— Então...? — Teve que perguntar, porque não podia suportar aquela tortura muito mais.
Não era o tipo de garota que gostava de viver se enganando.
— Ela se foi... Mas estava em paz, parece que só queria falar comigo, só estava esperando eu fazer o pedido. — James soprou e seu tom chateado era palpável. — Geralmente é a pessoa no leito de morte que tem um último desejo, e o dela foi que eu fizesse um pedido, isso é tão...
Ele não terminou a frase, apenas apertou Savannah um pouco mais contra o peito. É claro que estava triste com a morte da Estrela Cadente, era esse tipo de homem que James era... E por isso o amava tanto.
— Você a ajudou, ela era grata, talvez precisasse disso pra encerrar. — Se afastou um pouco, tocando o rosto dele para lhe passar algum conforto.
— Talvez... — James assentiu devagar, segurando a mão de Savannah que estava pousada em sua barba e beijando-lhe os dedos com carinho.
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O coração dela batia descompassado. Será que não tinha sobrado tempo para um pedido? Não sabia como se sentir sobre isso, nem o que dizer...
Se James tivesse perdido tudo que mais queria, seria justo ficar feliz por ele ainda estar ali?
— Sabe que no fim a verdade sobre aquele dia foi um presente bem maior que o pedido? — Ele declarou naquele tom introspectivo, os olhos perdidos em algum ponto.
Savannah queria focar em confortá-lo, não queria pensar nas probabilidades ou em uma possível separação eminente, mas ouviu que um pedido fora feito e tudo que conseguiu foi sentir medo e insegurança.
— Eu nem a conhecia, é estranho ficar chateado, não é? — James comentou, se debruçando um pouco na sacada e olhando as árvores se moverem contra o vento forte perto do portão de entrada da propriedade, sem se preocupar com as gotas que o molhavam, trazidas pela ventania.
— Eu chamo de empatia... — Savannah teve força nas pernas para se movimentar um passo e se curvar na mesma direção que ele.
— Ela virou borboletas mesmo. Muito poético. — Declarou um tanto perdido em seus próprios pensamentos.
Ficaram parados em silêncio então, Savannah não sabia se queria apressar as coisas, se queria que a despedida acontecesse de uma vez ou se queria prolongar aquele momento o máximo possível para sentir quer tivera mais tempo com James.
Alguns minutos a mais realmente bastariam?
Focou os olhos nele, a chuva os molhava um pouco, embora a varanda fosse coberta, Savannah podia sentir as gotículas geladas beijando seu rosto conforme o vento as trazia. Deixou que o Sargento absorvesse a melancolia em seu tempo, até que o próprio James respirasse fundo e assentisse para si mesmo... Ele parecia em paz, apesar de tudo, Savannah diria até que estava feliz, pronto para que a vida seguisse seu rumo... Fosse qual fosse.
— E então... como funciona a coisa do pedido? — Ela perguntou finalmente, como quem arranca um curativo que grudou na ferida de uma só vez. — Quando você vai... partir?
James virou na direção dela enquanto passava os dedos nos fios castanhos para espantar algumas gotas de chuva, os olhos azuis focaram no rosto feminino por um segundo. Savannah se sentia na mira de uma arma, prestes a levar um tipo no peito.
— Partir pra onde? — Ele questionou, franzindo as sobrancelhas como alguém que perdeu uma parte importante da conversa.
— Passado. — A palavra saiu como um gemido de dor.
— Você queria que eu fosse? — James pareceu bastante confuso.
— Claro que não. — Savannah respondeu da forma mais óbvia possível. O ar estrangulado em seus pulmões e seu coração prestes a se partir em um milhão de pedacinhos. — Mas era uma boa proposta, não te culparia se aceitasse. Você teria sua vida de volta, sua família, Steve... Eu vi nos seus olhos que você cogitou as possibilidades.
As orbes azuis focaram nas castanhas-esverdeadas por alguns momentos, então ele umedeceu os lábios e concordou com um gesto lento de cabeça, como se finalmente entendesse o propósito daquela conversa.
— Era uma boa proposta de fato, e houve um tempo que isso foi tudo que eu mais quis. Apagar cada atrocidade que eu fiz e vivi, voltar, ter outra chance... Nunca ter sangue nas mãos e gelo nos ossos... — James gesticulou simples e a honestidade ficava explícita em sua voz. — E eu queria dizer que me recusei a aceitar isso porque pensei no que causaria para a linha do tempo, mas não posso mentir, não faço ideia de como essas coisas funcionam então... — Encolheu os ombros e comprimiu os lábios. — Sim, eu cogitei as possibilidades, mas um dia uma garota me disse, no topo de um prédio qualquer, que tudo nessa vida acontece por um motivo. Então eu não posso voltar para passado e apagar tudo que eu vivi, porque finalmente concordo com esse ponto de vista. Tudo realmente acontece por um motivo. E eu descobri meu motivo.
Espera. Ele tinha dito “não”, para tudo que um dia ele mais quis?
— E qual é? — Savannah perguntou, sendo incapaz de processar as próprias emoções naquele momento, ainda parecia um tanto irreal.
James sorriu carinhoso e deu um passo na direção dela, colocando as duas mãos no rosto feminino, para que não houvesse como desviar a atenção.
— Você, Savannah. Eu nasci há mais de cem anos atrás, eu nunca conheceria você se minha vida tivesse seguido o rumo normal. O Soldado Invernal me trouxe até aqui, com sangue, gelo e dor, mas trouxe. Eu não desejo mudar isso, não quero voltar para o passado, e com certeza, não quero esquecer você. — Ele declarou com uma convicção tão serena que os olhos avelãs se encheram de lágrimas. — Porque você é meu Sol, e eu enfrentaria outro inverno de cem anos apenas pra passar um único dia de verão ao seu lado.
O coração de Savannah se encheu de alivio e euforia, sabia que James era dado a romantismos, mas aquilo... aquilo era outro nível. As palavras eram lindas, evidente, mas a escolha que ele tinha feito era mais significativa que qualquer outra coisa.
James a escolheu acima de tudo.
Ela sabia que nada que fizesse chegaria aos pés disso, ninguém nunca a tinha amado daquele jeito antes. Era apaixonante e comovente, era muito mais do que ela esperava...
Já nem sabia se ria ou se chorava de emoção, no entanto o Sargento franziu as sobrancelhas como se tivesse acabado de se dar conta de algo importante.
— Espera... você achou que eu ia embora sem me despedir? — Ele provavelmente olhou em retrospectiva e entendeu as atitudes de Savannah quando ela deixou o quarto. Não estava bravo ou decepcionado, na verdade ele parecia quase divertido com isso, como se fosse a coisa mais absurda do universo.
Ela se sentiu completamente tonta pelos próprios pensamentos...
— Você vive querendo fugir de mim, e me proteger de sei lá quem. Achei que ia sair de fininho! — Encolheu os ombros como quem pede desculpas. Qualquer pessoa tinha seus momentos de insegurança afinal. — Eu nunca sei o que é a coisa certa na sua cabeça, eu só sei que eu sou a escolha egoísta... E não estou reclamando, é só... — Ela moveu a cabeça sem saber como terminar.
— Eu te fiz uma promessa, lembra? — James a puxou para perto e beijou os fios ruivos com carinho, envolvendo o corpo feminino de forma protetora. — Eu disse que vou te dar quantos beijos você quiser quando a gente voltar pra casa, saltar no tempo ia me deixar impossibilitado de cumprir essa promessa. E eu sou um homem de palavra, Boneca.
Savannah sorriu com o rosto escondido no peitoral dele, sorvendo o perfume natural de neve e eucalipto que seu Sargento tinha. Ele se afastou um passo e, com um gesto suave, a fez erguer os olhos de novo
— Mas você está certa, fiquei tentando fugir de você e te proteger do mundo. Mas eu percebi que você vai se meter em problemas com ou sem mim e eu tenho que estar do seu lado se quiser mesmo te proteger. Podemos fazer coisas estúpidas juntos. — O ouviu declarar e sorriu, sabendo que aquilo era uma versão dele de “você pula, eu pulo”
Podemos fazer coisas estúpidas juntos, era perfeito e a cara deles.
— Além disso, quando ela me ofereceu tudo que eu mais queria, eu percebi que já tenho isso, bem aqui, bem agora. Você é tudo que eu mais quis na vida, Boneca. E é, eu vou ser egoísta sobre isso. — James tinha uma convicção shakespeariana em tudo que dizia e Savannah achava sempre apaixonante, como não acharia afinal? — Fora que, gosto de pensar que um certo desenho de uma Raposa Flamejante e de um Lobo Branco feito por alguém que podia prever o futuro é sobre a gente. Acho interessante pensar que estamos “destinados”. E tudo mundo sabe que não é inteligente fugir do destino.
Ela entendeu que fora dali que ele tirara aquela coisa do “motivo de tudo”. Cruzou os braços então, enquanto tentava não sucumbir ao lindo sorriso de canto que o Sargento exibia. Ninguém no universo seria capaz de resistir.
— Te contaram não foi? — Negou contrariada. Achou que podia confiar naqueles traidorezinhos que chamava de amigos. — Quem foi?
— Sou um espião, tenho meus meios. — James rebateu daquele jeito presunçoso que deixava transparecer às vezes e que Savannah adorava. — Mas você podia ter me contado, sabia?
— Era só uma memoria solta. — Ela declarou, usando o tom de desculpas outra vez. — Podia ser alguma coisa, ou podia ser só algo bobo e sem importância.
Claro que em sua mente era como um lindo conto de fadas e era divertido divagar sobre isso, mas nunca quis contar a James, porque no fundo foi como ver a sorte no tarot ou ler o horóscopo no domingo, a parte sonhadora de si acreditava e ligava todos as pequenas coincidências e sinais, mas a parte cética mantinha uma desconfiança saudável. Não parecia relevante o bastante para contar.
— Hey, me escuta. — Os dedos de vibranium escorregaram pelos fios ruivos quando James começou a falar. — Nada sobre você é bobo ou sem importância pra mim, absolutamente nada. Cada pequeno detalhe da sua existência me fascina.
Savannah prendeu o sorriso com a ponta dos dentes, repentinamente constrangida com o quão apaixonado aquilo soou. Não era como se não soubesse lidar com elogios, e claro que James sempre a tratava bem, mas aquilo era quase como ser venerada como uma deusa...
Ele não permitiu que ela desviasse os olhos para o chão.
— Eu te amo. Você não é apenas o Sol da minha vida, você é minha garota, eu não vou pra lugar nenhum, eu prometo. Chega dessa coisa de fugir. Eu não quero ficar longe de você. — Não havia mais como conter o sorriso diante daquelas palavras. James tinha acabado de prometer. — Me desculpa se te fiz sentir insegura sobre isso com as minhas paranoias.
— Eu pensei que não tinha como te amar mais, eu claramente estava errada. — Savannah declarou acariciando o rosto dele devagar, antes de ficar na ponta dos pés para fazer com que as bocas dos dois se unissem em um beijo apaixonado acompanhado pela sinfonia da chuva bem ali ao lado
Ela podia ter continuado presa naquele momento para sempre, porque beijar James Barnes com certeza devia ser considerado oficialmente como a oitava maravilha do mundo, — não que fosse permitir que aquele beijo se tornasse patrimônio mundial — no entanto, algo picou atrás de sua orelha, uma pequena pulguinha na forma de uma dúvida...
— Espera... — Se separou dele com as sobrancelhas já franzidas. — Mas você fez um pedido, não é? O que foi?
James sorriu calmamente, como se já esperasse por aquela pergunta.
— Bom, eu percebi que já tenho tudo que eu queria, mas ainda devia ao mundo algum tipo de compensação. — Ele explicou aos mover os ombros de forma simples. — Ao mesmo tempo eu não queria mexer muito nas coisas, eu aprendo com o exemplo dos outros e a própria Willa deixou claro que temos que tomar cuidado com o que pedimos. A última coisa que eu ia querer e ferrar com a linha do tempo ou algo assim... Mesmo que eu não entenda muito o conceito da coisa toda. TJ e Gus me fizeram assistir aquele filme na Borboleta onde o cara estraga tudo mudando o passado. Então eu não quis arriscar mudando algo que já aconteceu... — Fez um movimento displicente com a mão esquerda. — Eu fiz um pedido, sim, mas não foi pra mim exatamente.
Savannah formou a pergunta na mente, mas pensou ter a resposta mesmo antes disso.
— Você pediu o Steve de volta, não é? Porque você não precisava mudar o que aconteceu, só precisava pedir que ela o revivesse. Simples. — Jogou em um tom de quem sabia que tinha adivinhado a charada, então ergueu o dedo em riste. — Já vou avisando que a namorada sou eu, e que ele vai ter que se encaixar no seu tempo livre. E isso com certeza significa que as noites são muito minhas e o seu... — Focou em uma parte bem especifica do corpo de James, mas preferiu reformular por motivos de decência. — Sua cama também.
— A minha cama? — Ele respondeu prendendo o sorriso, mas foi impossível não notar a malicia em sua sobrancelha erguida.
— Eu ia dizer outra coisa, mas sei lá se algumas dessas crianças tem super audição. — Savannah se defendeu com um erguer de mãos, enquanto tentava não rir.
— Eu estou começando a desconfiar que você tem ciúmes do Steve, Boneca... — James devolveu naquele tom sedutoramente presunçoso.
— Desconfiar? — Ela repetiu irônica enquanto ria. — É claro que eu tenho, já olhou pra ele? Ele é gostoso.
A expressão do Sargento se fechou no mesmo momento e ele cruzou os braços.
— Achei que não gostava dele.
— Foi uma leve birra momentânea, já passou. Além disso, eu nunca disse que ele era feio, só um tantinho hipócrita. — A ruiva rebateu de forma casual. — Uma pessoa pode ter defeitos e ser muito gostosa ao mesmo tempo...
— Eu estou começando a agradecer por esse não ter sido o meu pedido. — James retrucou com aquele tom enciumado que Savannah conhecia bem, no entanto ela focou no teor da resposta mais especificamente.
— Não foi o que você pediu?
— Steve fez a escolha dele, ele ficou em paz com isso. Eu não seria um bom amigo se não respeitasse. — A resposta veio simples e calma.
— Ah... — Ela lamentou de forma falsa e completou com um tantinho de ironia. — Poxa que pena. Ouvi dizer que ele tinha uma bunda muito bonita, eu ia gostar de tirar a prova.
A expressão no rosto do sargento foi um misto de desdém e indiferença que não era nada convincente. Savannah acabou não aguentando e riu.
— Olha só... Isso é ciúmes, é? — O provocou exatamente como fazia com Alpine, para então lhe roubar um beijo estralado. — Não se preocupa, James você é bem mais gosto que ele em todas as partes, tenho certeza. — Se aproximou ainda mais, só para sussurrar no ouvido do Sargento de forma insinuativa. — Além disso, você tem dedos de Vibranium e faz coisas muito interessantes com eles...
James riu baixinho, deslizando as duas mãos para os bolsos de trás dos jeans de Savannah e a puxando, para que os corpos colidissem e ficassem absolutamente colados.
— Como apagar seu fogo, por exemplo? — Ele jogou no mesmo tom, e um arrepio delicioso cortou o corpo de Savannah por causa da voz baixa e rouca. Beijou a base do pescoço dele bem devagar, só porque sabia que isso o afetaria. — Você sabe que provavelmente tem mais de um telepata nessa casa, não é mesmo, Boneca?
— Bom, ninguém manda eles ficaram ouvindo os pensamentos alheios... — Ela respondeu apenas e os dois riram juntos.
— Vem, melhor a gente não ficar trancado aqui. Em público meus pensamentos vão ser mais comportados. — James se moveu, segurando a mão de Savannah para que se afastassem da varanda e logo deixassem o cômodo juntos.
— Se não pediu o Steve, pediu o que então? — Ela retomou o assunto enquanto eles caminhavam lado a lado pelos corredores.
— Provavelmente você vai saber em breve, mas não tem a ver com a gente. — Ele respondeu simples, pegando o celular do bolso e teclando algo.
Savannah sabia que James contaria depois, no entanto, seja o que fosse, o Sargento estava em paz com seu pedido, e isso era tudo que realmente importava...
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