Notas iniciais
Hey! Se você veio direto pela última notificação, se certifica de ter lido o cap anterior, porque postei dois seguidinhos. (17 e 18) Eu disse que voltava ainda hoje, neh? kkkkkkk eu vim antes de responder os comentários, porque sei que tinha muita gente esperando a postagem pra ir dormir, mas eu vou responder vocês sim, com todo o amor que vcs merecem. Se eu posso sugerir algo nesse capitulo, eu diria pra vocês ouvirem "Colour Me" do Juke Ross (link embutido e nas notas finais) vai dar exatamente a imersão e clima das cenas. Boa leitura!

Você me colore
Você colore minha alma
Me faz sonhar com coisas
que eu nunca sonhei antes..
[...]
Diga que nunca haverá fim
Para esse amor, minha querida amiga...
Colour Me — Juke Ross

Savannah viu as horas passarem e a lua dar lugar a um céu pintado em tons de laranja, indicando que o Sol logo nasceria. Estavam em silêncio completo, mas ambos acordados, James preso nos próprios pensamentos e ela desejando de todo o coração poder tirar toda a dor do peito dele.

Infelizmente não era algo que podia fazer, por mais que tivesse pensando nisso sem parar nas últimas horas, era como um problema sem solução.

Não conseguia soltar a mão dele, não conseguia se afastar... honestamente ficou aliviada por James não tê-la mandado embora, porque com certeza a mataria por dentro ficar longe dele, quando era claro que o Sargento estava carregando o peso do mundo nos ombros.

Ela sabia que James precisava de algo para puxá-lo para o presente.

— Sabe o que eu acho que a gente devia fazer? — Declarou de repente, atraindo os olhos azuis para os seus. — Cortar o seu cabelo, igual você sugeriu esses dias.

James franziu as sobrancelhas, claramente surpreso com a sugestão estranha.

— Eu disse que não tinha certeza. — Respondeu meio incerto, enquanto Savannah se sentava em um movimento rápido.

— Mas você devia, não só porque cabelo cresce, mas porque você precisa de um rito de passassem. — Ela devolveu muito segura de si.

Era isso, mudança trazia mudança, não que um corte de cabelo fosse milagrosamente curar alguém, principalmente alguém que tinha sofrido tudo que James sofreu, mas ele vinha fazendo pequenos progressos e estava se saindo muito bem até aquele maldito pesadelo, talvez uma representação visual da mudança que estava acontecendo por dentro o ajudasse a continuar firme.

— Pra quê? — James não parecia ver o propósito daquilo.

No entanto Savannah sabia que o processo de cura não era linear, era como uma montanha-russa de avanços e recaídas, e era exatamente nos momentos de recaída que algo devia ser feito, assim a mente não teria tempo de se afogar no trauma outra vez.

— Você disse que é uma arma, eu digo que você pode ser o que caralhos você quiser. Então vamos marcar essa transição com um corte de cabelo. — Ela moveu os ombros como se fosse a coisa mais simples de todas, como se de fato um corte de cabelo tivesse algum poder milagroso.

James suspirou, se sentou também, pareceu em dúvida.

— Eu ainda tenho isso pra me lembrar. — Moveu a mão de vibranium usando um tom amargo.

— E esse é o ponto, ninguém disse que você precisa esquecer. — Savannah fez questão de tocar aquele mesmo braço. — Eu disse “ser o que caralhos você quiser”, não “ser alguém totalmente diferente”. Você pode ser a versão que você mais gostar de você mesmo.

Ela sorriu e viu nos olhos de James que ele estava pensando no assunto.

— E eu espero que essa versão inclua o braço, porque ele é legal pra caramba e muito sexy. — Murmurou como se fosse um segredo e viu que isso desestabilizou o Sargento por alguns segundos. — E eu posso dizer isso porque sou sua melhor-amiga-barra-namorada-falsa, então ninguém no mundo seria mais honesta que euzinha.

Ele riu de canto e Savannah sentiu que um grande peso era tirado de seu coração. Não deixaria que James afundasse de novo. De jeito nenhum.

— Certo, você venceu. — Ele ergueu as mãos em rendição. — Vamos fazer isso.

— Isso! — Ela comemorou, se jogando nos braços dele e dando-lhe um beijo estralado na bochecha. — Vou pegar as coisas.

Savannah não esperou uma resposta, apenas se levantou e voltou correndo para o próprio apartamento, juntou tudo que precisava em um bolsa e retornou de imediato, encontrando James sentado exatamente no mesmo lugar, com Alpine em seus braços.

Ela arrumou tudo no banheiro e puxou uma cadeira até lá. Quando terminou, James já estava parado na porta.

— Pronto, Sargento? — Perguntou, se movendo para o lado, assim ele teria acesso a cadeira.

James respirou fundo.

— Sim, Boneca. — Respondeu, dando finalmente alguns passos na direção dela e se sentando na cadeira posicionada ao lado do box.

Savannah não fez nada por um tempo a não ser pentear os fios castanhos com cuidado. James se arrumou melhor na cadeira, tombou a cabeça para trás e respirou fundo. Ela não pode deixar de pensar então, que era uma pena passar a tesoura em um cabelo tão bonito. Mas era por uma boa causa.

— Então, como era seu cabelo nos anos 40? — Perguntou, deslizando os dedos nos fios castanhos e sentindo a textura macia deles.

— Normal ué... curto. — James respondeu franzindo as sobrancelhas minimamente.

Savannah sorriu, continuando a apenas mexer no cabelo dele mais um pouco.

— E quem gostava mais, as garotas ou os soldados? — Perguntou e viu James rir de canto e desviar os olhos.

— Ninguém estava preocupado com meu cabelo, nem as garotas e com certeza não os soltados. Não tínhamos tempo pra reparar no cabelo dos outros... — Ele deu de ombros, como se fosse uma pergunta boba, mas Savannah não comprou aquele tom.

— Sério? — Ela jogou de volta, encontrando os olhos azuis e franzindo as sobrancelhas em uma desconfiança divertida.

— Não. — James admitiu com uma risada um tanto presunçosa. — Todo mundo gostava do meu cabelo.

Não era um tom que ele usasse com frequência, mas por algum motivo Savannah achou que combinava totalmente com o Sargento.

— Então você era basicamente um conquistador barato com cabelo bonito? — Ela riu da própria pergunta e abriu o box para ligar o chuveiro e pegar a mangueirinha.

James riu também, o tipo de risada gostosa de ouvir.

— Não... Conquistador barato não, eu era um dos bons. — Ele se gabou, enquanto Savannah testava a temperatura da água na própria mão.

— Me avisa se a água não estiver boa. — Savannah falou, molhando os cabelos castanhos com cuidado. — Você vai se molhar um pouco, mas não se preocupe, vai sobreviver para novas conquistas, Don Juan.

— Don Juan não, ele prometia matrimonio como forma de conquistar as pessoas. Eu nunca prometi nada. — James deu de ombros, usando um tom bem-humorado. — Achei que fosse só cortar o meu cabelo, que você está fazendo?

Savannah imaginou James nos anos 40, saindo com moças bonitas que sonhavam em se casar com ele, e depois na guerra, vivendo novas experiências com os soldados. Sua língua coçou para perguntar como funcionava o sexo naquela época, principalmente o sexo hétero, já que as garotas se guardavam para o casamento... Mas achou que falar de sexo quando estavam praticamente presos dentro de um banheiro não daria certo para o autocontrole dela. Deixaria essa curiosidade para outro momento.

— Eu vou lavar primeiro. — Respondeu de forma simples.

— Pra cortar? Por que? — James não pareceu ver muita logica naquela atitude.

— Por que é a primeira e última oportunidade que eu vou ter de fazer isso com seu cabelo desse tamanho, pelo menos até crescer de novo. — Ela foi honesta sobre seus motivos e James riu de canto.

— Justo. — Ele disse apenas, se arrumando melhor na cadeira.

Os olhos dos dois se encontraram e eles sorriram, Savannah disse pra o próprio coração se acalmar, mas por algum motivo tremia, queria de verdade que James fosse como todos os outros amigos e não causasse nenhum tipo de sensação intensa em seu corpo sem qualquer esforço.

Nada de perder o controle e estragar tudo, Savannah... É só um corte de cabelo.

Bucky fechou os olhos e relaxou o corpo, Savannah começou a cantarolar uma música que ele não conhecia e os dedos dela, massageando sua cabeça lentamente, em conjunto com a água morna, tinham um efeito deliciosamente calmante em si. Suspirou, sentindo que o corpo amolecia. Não se lembrava da última vez que tinha cortado o cabelo, mas sabia com certeza que nunca tinha sido tratado daquele jeito.

O vapor vindo da água morna começou a tomar conta do banheiro e o perfume do shampoo preencheu o ambiente.

— Você está usando seu shampoo. — Ele murmurou, ainda de olhos fechados.

— Eu trouxe lá de casa, junto com outras coisas. — Ela respondeu de forma simples. — Como sabe que é meu?

— Por causa do cheiro. Seu cabelo tem esse perfume gostoso. — Bucky comentou sem pensar muito.

Ele só percebeu as palavras quando o silêncio dominou o ambiente. Merda. Abriu os olhos no impulso e encontrou as orbes avelãs focadas em seu rosto, Savannah tinha um meio sorriso e Bucky pode jurar que a viu corar quando foi flagrada, mas ela saiu do campo de visão dele mais rápido que do que deu para constatar.

— Então... — Ela limpou a garganta enquanto desligava o chuveiro. — Você prometeu que me ensinaria russo e esqueceu.

Bucky suspirou aliviado que tivessem mudado de assunto quase normalmente.

— Eu não esqueci e também não prometi nada. — Ele tentou um tom bem-humorado, enquanto ajeitava a regata, já um tanto molhada contra seu corpo.

— Ah então você é desses... — Savannah acusou, pegando a tesoura.

— O que você quer aprender a falar? — Bucky perguntou rindo e ouviu o primeiro corte.

Os olhos dos dois se encontraram quando a primeira mecha de cabelo caiu no chão.

— Não sei... — Savannah piscou devagar, sem tirar a atenção dele e sem voltar a cortar. — Que tal... “você tem olhos lindos”?

Ela voltou ao que fazia de repente como se fosse nada demais.

— U tebya krasivyye glaza. — Bucky pronunciou devagar e ouviu a tesoura novamente, vendo mais mechas caírem no chão.

— Tu tíbia crasivie e glaza. — Savannah repetiu e ele acabou rindo da forma como ela pronunciou as palavras. — Não ri ou eu vou deixar um caminho de rato no seu cabelo.

Isso só fez com que Bucky risse ainda mais.

— Problema seu, é você que vai ter que ficar olhando para o serviço mal feito. — Ele moveu os ombros como se não fosse nada mais. — Vai, repete de novo...

Savannah falou novamente, muito melhor dessa vez e, apesar de Bucky não poder ver o rosto dela naquele momento, tinha certeza que a ruiva estava sorrindo.

Ela teve que repetir mais algumas vezes até ficar perfeito, enquanto isso continuava a cortar e Bucky sentia a cabeça cada vez mais leve.

— Nada mal. — Elogiou da última vez, sentindo os dedos femininos aliarem seus fios.

— Vai, me ensina mais uma. — Savannah pediu, mudando de posição de modo que os olhos dos dois se encontraram de novo.

Bucky não desviou a atenção dela, enquanto pensava na próxima frase.

— S toboy moy mir gorazdo schastliveye. — Disse devagar, fazendo com que Savannah movesse as sobrancelhas de modo adorável.

— É um palavrão? Porque parece. — Ela riu, mas Bucky não conseguia, porque seu coração batia disparado naquele momento.

— Significa: Meu mundo é muito mais feliz com você. — Revelou, e sentiu que as mãos dela pararam com tudo que faziam.

Savannah deu um daqueles sorrisos-sol, e desviou os olhos enquanto mordia os lábios. Repetiu a frase depois de alguns segundos e dessa vez teve que tentar algumas vezes a mais...

Ela terminou com o cabelo muito mais rápido do que Bucky previa, mas não deixou que ele se levantasse pra olhar.

— Barba? — Ela perguntou o encarando por alguns segundos.

Ele pensou sobre isso e assentiu devagar, mesmo sabendo que era algo que com certeza podia fazer sozinho...

Era de ficar admirado o tanto de produtos que Savannah tinha, o que incluía também uma maquininha de cabelo e uma navalha. Pela próxima meia hora, enquanto dava os últimos retoques no cabelo e trabalhava na barba, se recusando a tirá-la totalmente, ela contou o porque tinha tudo aquilo, mas para Bucky foi bem difícil imaginar que Savannah tinha mesmo raspado a lateral do cabelo algum dia, por conta de algum corte da moda.

Mas esse assunto se perdeu em sua mente, assim que sentiu as mãos femininas em seu rosto, passando um tipo de espuma muito cheirosa, que servia para o melhor deslizar da lâmina. Mas na verdade os movimentos de Savannah eram tão lentos e delicados que era quase como se não estivesse nenhum objeto cortante sobre sua pele...

Depois Bucky ficou com as roupas ainda mais molhadas quando ela enxaguou tudo, mas não se incomodou com isso.

— Você está fazendo de propósito, não é? — Perguntou, quando viu o sorriso travesso no rosto de Savannah.

— É só água, Sargento. Você não vai morrer. — Ela riu o molhando um pouco mais e rindo abertamente disso.

Ele pensou que poderia se levantar quando acabou, mas novamente foi impedido. Savannah passou outro creme na ponta dos dedos e massageou todo o rosto dele com muita calma.

— Precisa mesmo disso? — Bucky questionou, vendo a forma dedicada como era observado.

— Nem tudo é sobre o que a gente “precisa”, James, às vezes é só sobre o que a gente quer por razões bobas. — Savannah respondeu subindo os olhos avelãs para os azuis.

Ele assentiu devagar, mas por algum motivo a interpretação que fez em sua mente nada tinha a ver com cremes. Era sobre uma única coisa que ele já vinha querendo há algum tempo...

Suspirou, afastou o pensamento de sua mente, mas não conseguiu afastar os próprios olhos do rosto feminino que pairava um pouco acima de si.

Savannah tinha sardas imperceptíveis que sarapintavam a área abaixo dos olhos avelãs, Bucky já havia reparado antes, mas nunca pode de fato olhar para o rosto dela com tanta atenção, sem que isso gerasse um momento estranho... Ela sorriu quando viu que era observada, um daqueles sorrisos que ele colecionava em sua mente, temendo que um dia fossem roubados de si e substituídos por gelo e sangue.

Bucky sentiu o coração pesar quando o medo correu suas veias, não medo de ser o Soldado Invernal outra vez, não medo de que sua vida fosse roubada e seu corpo enterrado no gelo, um medo simples de que Savannah tivesse o mesmo destino de todos os outros que já haviam passado por sua vida.

Medo de perdê-la...

Talvez um dia olhasse para ela uma última vez e não soubesse disso... E então ela seria tirada dele pela vida, pelo destino, ou por qualquer força idiota que regesse o mundo. Seria tirada dele como todos os outros tinham sido.

E então Savannah — sua doce Boneca de lábios fartos, boca suja e sorriso-sol — seria apenas um punhado de lembranças felizes que na verdade eram apenas um gatilho para melancolia. Assim como Steve, não o Grande Capitão América, apenas o seu pequeno Stevie, o punk asmático, magricela e encrenqueiro do Brooklyn...

Esse pensamento inoportuno foi capaz de pesar no coração do Sargento, causando uma angustia dolorida. Tinha muitas outras pessoas em sua naquele momento, mas Savannah era a mais importante, mesmo que ele não tivesse visto quando isso aconteceu.

— Ya ne khochu zhit' bez tebya bol'she... — Bucky murmurou como uma confissão e seu tom atraiu novamente o olhar avelã.

— O que significa? — Savannah perguntou interessada e ele disfarçou sua melancolia repentina com um sorriso.

— É a sua primeira lição de casa. Descobre o que significava que eu te ensino mais. — Respondeu como se fosse algo simples.

— Você vai soletrar? — Ela tornou a questionar.

— Não. — Ele negou devagar.

— Vai repetir pra que eu grave com o celular? — Viu as sobrancelhas dela se franzirem.

— Não. — Voltou a negar e dessa vez seu sorriso era real, uma resposta para a expressão adoravelmente embirrada no rosto da jovem a sua frente.

— Isso não é justo. É contra as regras. — Savannah protestou se afastando um passo e cruzando os braços.

— Minha aula, minhas regras. — Bucky devolveu sabendo que talvez não fosse algo que ele pudesse dizer a ela.

Eu não quero mais viver sem você... Era isso que significava. Era a verdade. Podia viver sem ela, é claro, mas não queria isso.

— Não vai me contar mesmo? — Savannah tentou mais uma vez e ganhou outra negativa.

Bucky viu quando ela assentiu devagar, se dando por vencida, mas também viu que ela se moveu sutil e sorrateiramente para o box, previu o que Savannah faria antes mesmo que ela tentasse sua “vingancinha”, mas deixou que ela pensasse que ele estava alheio a tudo, até fechou os olhos.

Mas antes que Savannah tivesse chance de realmente agir, jogando água, agora gelada em Bucky, ele foi mais rápido e a puxou junto com a mangueirinha, fazendo com que ela se molhasse inteira.

— Não! — Ela meio gritou, meio riu, enquanto tentava escapar da água sem qualquer sucesso, afinal nunca em nenhum momento foi uma “luta” justa.

Na tentativa de fugir Savannah escorregou no piso molhado, não que em qualquer instante ela tivesse mesmo corrido o risco de cair, porque Bucky já tinha envolvido a cintura dela com o braço de vibranium no mesmo segundo.

O corpo feminino acabou no colo dele, os dois encharcados pela água que tinha voado por toda a parte e ainda escorria entre eles, por conta da mangueirinha presa entre os corpos.

— Trapaça! — Savannah protestou e sua risada misturada com a de Bucky preencheu o ambiente...

— Você não achou mesmo que seu plano daria certo, não é? — Ele jogou de volta, sendo contagiado pelo humor da jovem.

— Mas era pra ter dado certo, sim. Seu estraga prazeres. — Ela empurrou o ombro direito dele, mas foi tão leve que a única coisa que Bucky conseguiu processar foi o toque quente em sua pele, que contrastava tão fortemente com o gelado da água.

E então, como uma reação em cadeira, ele finalmente ficou ciente de todas as coisas ao mesmo tempo: Do quanto estavam perto; do braço de vibranium ao redor da cintura nua dela; da mão esquerda pousada na coxa quente; do peso de Savannah sobre suas pernas e no modo como o corpo dela se moldava ao dele.

A risada morreu no fundo de sua garganta, quando Bucky sentiu o sangue começar a correr mais rápido por suas veias. Savannah parou de rir também...

Avelãs presos nos azuis.

Bucky pode sentir a pressão dos dedos dela aumentarem, como se só então ela tivesse se dado conta da forma como estavam. Uma mão no ombro dele e a outra na lateral do abdômen, mesmo que por cima da regata...

Ela se curvou um pouco na direção dele e Bucky piscou algumas vezes, lutando para afastar os pensamentos impróprios. Em um movimento rápido colocou Savannah de volta no chão.

— Você precisa se esforçar bem mais pra me pegar desprevenido. — Ele jogou, tentando aquele tom de brincadeira leve, mas o timbre bem mais rouco certamente o denunciou.

Savannah moveu a cabeça devagar, nada de piadas, nada de palavras para amenizar o clima, ela apenas deu um passo para trás e se apoiou na pia, como se as pernas fossem falhar a qualquer momento.

Bucky considerou ter feito alguma coisa de errado, algo que a ofendesse talvez, porque Savannah desviou o olhar e respirou fundo, ajeitando alguns fios do cabelo que haviam se soltado.

— Acho que acabei. — Ela declarou em um tom quase normal e Bucky assentiu, se colocando de pé e desligando o chuveiro, antes de parar em frente ao espelho acima da pia.

Ele estava tão focado em Savannah que não se preparou para o que veria em seu reflexo. Franziu as sobrancelhas, quem lhe encarava de volta não era o Soldado Invernal e sua aparência malcuidada de eremita, tampouco tinha o jovem Bucky lhe observando através do espelho, o cabelo estava um pouco diferente e a barba rala emoldurava-lhe o rosto, estava mais velho do que aquele antigo Bucky, porém bem mais novo do que o homem de uma hora atrás.

— Caramba, ficou melhor do que eu imaginava... — Ele passou a mão direita pelos fios castanhos, que estavam no comprimento exato para que os dedos afundassem neles.

— “Caralho”... Esse é adverbio de intensidade que você está procurando. — Savannah corrigiu, já com o tom bem-humorado de sempre.

— Não é pra tanto. — Ele, riu, movendo os ombros e observando o próprio reflexo um pouco mais.

Era estranho sentir que alguns bons quilos tinham saído de seus ombros... Olhando com mais cautela pode ver o Soldado escondido no fundo de seus olhos gélidos, mas Bucky disse a si mesmo que aquilo era algo com o qual podia viver. Não era totalmente o Soldado, assim como não era mais inteiramente o garoto dos anos 40, talvez fosse uma mistura estranha dos dois...

Vai ver Savannah estava certa, talvez ele pudesse ser quem quisesse dali em diante.

— Como não? Claro que é. Vou montar um perfil no Instagram pra você, e lucrar com... — Savannah fez um gesto com a mão para indicar o que diria. — ...tudo isso.

Acabaram rindo os dois e Bucky soube que certamente ninguém mais naquele mundo conseguiria fazê-lo rir como Savannah conseguia...

— Agora que eu já fiz toda a bagunça vou sair de fininho, porque a gente deve estar na hora já e eu tenho que me arrumar também, porque você não pode ser o único gostoso naquela festa. — Ela sorriu abertamente, falando aquilo como se fosse nada, e recolhendo todas as coisas que estavam sobre a pia. — Mas eu já volto, quero passar o secador no seu cabelo antes de irmos.

Bucky sempre ficaria confuso com aquele tom, porque ele nunca sabia se era sério ou apenas uma brincadeira.

— Não se preocupa com a bagunça, você já fez demais hoje. Vai lá. — Respondeu neutro. — Mas melhor colocar um roupão por cima dessa roupa molhada, tem um no meu guarda-roupa. Segunda porta, parte de cima.

Savannah pareceu prestes a retrucar, mas Bucky não deixou.

— Por favor, eu quero que se resfrie por minha causa. — Depois do pedido, ela apenas concordou, deu um daqueles sorrisos-sol e alguns passos para trás, pronta para se virar, mas parou quando ouviu seu nome. — Savannah...

— James? — Focou os olhos nos dele em expectativa.

— Obrigado por dar de mim. — Ele repetiu algo que ela mesmo tinha dito naquela madrugada.

— É o que melhores amigos fazem. — Savannah moveu os ombros, dando a exata resposta que Bucky dera.

— Não, não é. — Ele negou algumas vezes e sorriu de canto. — Isso é o que você faz.

Savannah foi a primeira a desviar o olhar, segurando o sorriso entre os dentes, ela apenas assentiu, deu alguns passos para trás e se virou.

— Vou pegar o roupão...

Bucky concordou apenas, e ambos deixaram o banheiro, ele pra levar a cadeira e pegar um rodo e Savannah se ocupando de guardar, ou melhor jogar, todas as coisas que tinha trazido de volta na bolsa.

Ele negou algumas vezes, tirando os olhos da falta de desorganização dela e voltando para o banheiro, fechando a porta atrás de si e se ocupando da bagunça no pequeno cômodo.

Tinha acabado de tirar e estender a regada molhada, quando ouviu a porta do guarda-roupa ser aberta. Riu sozinho, quando segundos depois percebeu claramente que Savannah estava dando alguns pulinhos, de certo para alcançar o roupão na prateleira mais alta. Não era mais fácil pegar uma cadeira?

O barulho de algo caindo, chamou-lhe a atenção então...

— Eu não sabia que você estava com as alianças. — A voz de Savannah veio de repente e Bucky no mesmo instante lembrou da sacola da joalheria que tinha guardado naquele mesmo lugar... Merda. — Não acredito que não me mostrou...

Quando ele abriu a porta na presa, pode ver que Savannah de costas, ela tinha acabado de tirar a caixinha de veludo vermelho de entre os papeis de seda com cuidado.

— Não são as alianças... — A viu constatar, certamente pelo formato da embalagem fechada. Era fina e comprida, não servia para anéis.

Merda, com certeza não foi daquele jeito que Bucky tinha planejado aquilo, na verdade ele sequer tinha planejado coisa alguma...

Savannah ainda estava de cabeça baixa, ela fez o movimento para guardar a caixa de volta, sem mais perguntas ou sem tentar ver o interior da embalagem.

— É um presente que eu comprei... Pra você. — Bucky ainda estava parado na porta do banheiro, uma mão na maçaneta, incerto se devia se aproximar ou não.

— E guardou todo esse tempo? — Savannah questionou, virando de frente e encarando Bucky.

Ela congelou assim que os olhos bateram nele, foi perceptível quando prendeu a respiração, as bochechas ficaram rosadas e todos os movimentos ficaram pela metade. Só então Bucky se deu conta que tinha saído do banheiro vestindo apenas a calça de moletom molhada e nada mais da cintura pra cima.

Merda...

Bucky ponderou se devia voltar alguns passos e vestir a regata outra vez, mas aquilo ficaria ainda mais estranho diante da situação. Não tinha nada demais em estar sem camisa afinal... pelo menos foi disso que ele tentou se convencer.

— Eu lembrei de você quando vi e só comprei, mas não surgiu nenhuma ocasião então... — Ele explicou tentando um tom natural.

Mas Savannah sequer pareceu ouvir, porque continuou parada exatamente do mesmo jeito. Bucky franziu as sobrancelhas, ela nunca tinha reações como aquela, mesmo quando viu o braço de vibranium... Será que eram as cicatrizes que pegavam parte do ombro e peito?

Ele pensou em se afastar, mas ao invés disso seus pés deram um passo na direção dela. Foi quando os olhos castanho-esverdeados desceram por todo o tronco lentamente, tão devagar que era quase como se Savannah estivesse contando cada músculo do abdômen definido do Sargento.

O olhar explicito dela fez um arrepio quente correr a coluna de Bucky. Outros três passos. Era inegável que estava sendo analisado, será que Savannah gostava do que via?

Sentiu o ego inflar dentro do peito com esse pensamento, isso o fez dar mais alguns passos. Viu Savannah piscar algumas vezes quase como se acordasse de um transe.

— Desculpe estragar a surpresa. — Ela voltou os olhos para o rosto dele e estendeu a caixa de veludo, já que estavam perto o bastante para que Bucky pegasse.

Foi interessante pra ele constatar o desejo claro nas pupilas dilatadas e nas iris escurecidas dela, porque Savannah parecia sempre no controle, sempre em um nível acima, como tirasse qualquer aproximação de letra, enquanto na maior parte das vezes Bucky se sentia totalmente hipnotizado por ela.

Gostava de ter aquele impacto em Savannah...

— Não era bem uma surpresa. — Ele deu mais um passo, porém não pegou a caixinha de volta. — Não vai abrir?

— Posso? — Ela devolveu e Bucky notou, pelo movimento da embalagem de veludo que as mãos femininas tremiam.

Ele se limitou a assentir, porque os pensamentos se confundiam todos em sua mente naquele momento e ainda não tinha certeza se aquela ideia de presente era idiota, boa, ou sem grande importância.

Savannah baixou os olhos e abriu a caixinha, então qualquer dúvida que Bucky tivesse se foi totalmente, queimada pelo sol do melhor sorriso que ela já tinha aberto. Devia ter dado o presente antes.

— Achei que combinava muito com você. — Declarou, enquanto ela tocava a delicada peça com a ponta dos dedos.

Era um colar: corrente delicada de ouro rosê, assim com o pingente; um sol cravejado com cristais no centro e nos raios maiores.

— É lindo. Eu amei! — Ela exclamou e seu tom de voz animado e carinhoso atestava sua honestidade. — Obrigada. Eu amei de verdade, James.

Bucky apenas sorriu, enquanto ela pegava a peça, colocava a embalagem sobre a cama e se virava de costas para ele. Levou alguns segundos para entender o que devia fazer, como se sua mente tivesse travado por um segundo, mas então finalmente se aproximou a distância restante e segurou a corrente entre os dedos.

Ele não sabia se a dificuldade em fechar o colar era apenas por causa das mãos grandes, se era por conta do vibranium ou se o motivo era que ele também tremia.

— Por que um sol? — Savannah questionou e Bucky se surpreendeu com a pergunta.

A personificava como Sol tão frequentemente que tinha até esquecido que essa correlação só existia em sua mente....

— É sempre assim que eu te vejo... — Ele foi honesto em sua resposta.

Os dedos roçaram a pele dela quando enfim conseguiu prender o colar. Savannah se virou com a cabeça baixa e os olhos no pingente que repousava acima de seus seios.

— Você é o meu Sol, Boneca. — Bucky disse o pensamento em voz alta, mesmo sabendo que talvez não devesse fazer isso.

Se cruzasse algum limite e isso estragasse a amizade dos dois ele nunca se perdoaria.

Savannah no entanto, se aproximou ainda mais dele e ficou na ponta dos pés para deixar um beijo doce e lento em sua bochecha direita.

— Obrigada... — Ela murmurou ao se afastar um passo.

Bucky sorriu de leve, sem conseguir tirar os olhos dela por um só segundo. Moveu a mão direita e tocou a dela, dando aquele mesmo um passo para perto.

Todas as suas ideias e certezas estavam em conflito... Porque Bucky ainda era o fragmento de dois homens em uma só mente, mas naquele momento, talvez ele tenha simplesmente decidido que não queria ser nenhum dos dois, não totalmente.

E a pessoa que ele queria ser não fugia, não tinha medo de dar o passo errado e ser rejeitado...

— James... — Ela meio chamou, meio implorou, com os olhos presos nos deles e a expectativa emanando de si, assim como o calor emana do sol.

E então qualquer barreira que Bucky tivesse criado para afastá-la ruiu, porque nunca negaria um pedido de Savannah... Nunca.

Ambos se moveram ao mesmo tempo para ainda mais perto um do outro, as respirações pesadas se chocaram... Estavam parados de novo, tão próximos que um nariz encostava no outro, quase como se ambos estivessem esperando a decisão seguinte.

Bucky tocou a cintura de Savannah com a mão metálica e ela correu os dedos pelo braço dele, até que subissem pelo pescoço. Era como se estivessem presos em um momento fora do tempo e espaço, esperando o encontro intergaláctico de dois corpos celestes...

Ele moveu a mão direita e tocou a nuca dela, subindo ainda mais os dedos e puxando a caneta que prendia os fios ruivos, fazendo com que escorressem até as costas. A caneta encontrou o chão em um baque seco e Bucky infiltrou os dedos por entre o cabelo macio.

A puxou então, ou talvez tenha apenas se movido na direção dela, os dois lábios se encontrando finalmente, fazendo com que Savannah suspirasse, como se tivesse esperado por aquilo a vida toda...

Bucky apertou os dedos nos fios ruivos, ao mesmo tempo em que envolvia ainda mais a cintura com o braço de vibranium, trazendo o corpo feminino para junto do seu, enquanto deslizava a língua por entre os lábios dela.

Sentiu o toque quente de Savannah deslizar por seu pescoço, ombros e braços, apreciando a pressão que ela colocava em alguns pontos.

A apertou um pouco mais contra si, como se houvesse alguma distancia que já não tivessem destruído. Savannah tinha doçura nos lábios, um gosto que Bucky nunca tinha sentido em nenhuma outra boca, mas que era exatamente o que esperava nela. E o modo como ela correspondia a cada movimento, como se os dois completassem os pensamentos um do outro era uma experiência um tanto surreal.

Nunca na vida tinha experimentado aquela sincronia com ninguém, homem ou mulher...

Podia sentir que Savannah estava na ponta dos pés, impulsionando o corpo contra o dele, fazendo com que as peles e as roupas molhadas entrassem em contato direto. Cada célula de Bucky reagia a ela e implorava por mais...

Seria crueldade fazer qualquer tipo de comparação, porque o que Barnes sentiu era que até aquele momento só havia vivido meia vida, como se fosse um daltônico que enxerga todas cores pela primeira vez.

Antes de Savannah ainda podia até ver e sentir, mas ele não sabia que estava fazendo tudo isso pela metade até que os seus lábios tocassem os dela. Até aquele momento tinha vivido apenas meia vida, mesmo antes do gelo, mesmo quando as coisas eram boas... Era como se fosse alguém que acaba de descobri um sabor novo; como se escutasse apenas embaixo d’água e finalmente emergisse para a superfície; era um daltônico que por acaso enxergou todas as cores pela primeira vez.

Era possível encontrar algo que sequer sabia que estava procurando?

Quando os lábios se afastaram, as testas permaneceram coladas, as respirações pesadas e ofegantes indo e vindo no mesmo ritmo, quase como se fosse combinado.

— Caralho... — Bucky murmurou, por não encontrar nenhuma palavra melhor.

— É, eu sei... — Savannah sorriu contra os lábios dele, fazendo com que se tocassem mais três vezes em beijos curtos.

Ele não conseguia soltá-la, mas ela também não parecia ter qualquer intenção de se afastar. Talvez ele tenha entendido finalmente que Savannah não iria a qualquer lugar. Nunca.

Ela não temia as verdades dele...

Os dedos quentes iam e vinham na pele do pescoço de Bucky, e o sorriso dela estava contra os lábios dele, foi nesse momento que o telefone tocou.

Savannah riu, parada exatamente onde estava.

— Se tivesse tocado antes, alguém levaria um tiro. — Ela declarou e Bucky acabou rindo também.

— Acho que o Gus, ele deve estar ansioso. — Respondeu neutro, mas ainda não tinha soltado a cintura dela e os dedos da mão direita agora corriam a lateral do rosto de Savannah em uma caricia lenta.

— Com certeza é ele. — A jovem concordou e ergueu um pouco os olhos para encontrar as íris azuis.

— Devia atender... Boneca. — Bucky sugeriu com um sorriso de canto que não foi capaz de controlar.

— Eu devia mesmo, Sargento. — Savannah o beijou de leve, cruzando os braços atrás do pescoço dele. — Mas só posso fazer isso se me soltar, sabe?

Ambos riram, e Bucky soltou o corpo dela lentamente. Savannah deu dois passos para trás, sem tirar os olhos dele e antes que pudesse ir de fato foi puxada de volta e teve um beijo roubado.

— Agora pode atender mesmo. — Bucky a soltou uma vez mais e ambos riram de novo.

Ele estava feliz, era um sentimento diferente, porque era completo, não vinha acompanhado de um “porém”. Não estava feliz, “só que”. Não estava feliz apenas no corpo, mas com o coração no lugar errado.

E pela primeira vez, desde que sua mente voltara a ser sua, Bucky decidiu que ao menos naquele dia não ficaria apontando as coisas que não merecia, apenas aproveitaria o que a vida tinha colocado em seu caminho...

Notas finais
Link da Música: https://www.youtube.com/watch?v=je559p7W92E Link do Colar: https://imgur.com/DoIGA9s.jpg Eu tenho que dizer que se você não está com um sorriso no rosto agora, você leu essa fic errado... Acho que nem preciso dizer que esse é o meu capitulo preferido neh? kkkkkkk Espero que tenham gostado ❤ Não sei lidar com esse casal gente, é amor demais... Bucky finalmente se apaixonou (mesmo que não tenha admitido isso conscientemente) por alguém que corresponde os sentimentos dele, eu imagino que deve ser mesmo um evento transformador encontrar alguém que é o pacote completo, depois de ficar a vida toda com pessoas por quem ele não nutria sentimentos e nutrir sentimentos por alguém com quem ele nunca poderia ficar. Savannah é basicamente a Hanna Montana do Bucky "o melhor dos dois mundos" kkkkkkkk (me deixa, eu tenho humor de tiozão, vcs sabem) Agora é saber se isso vai sobreviver a primeira social deles (com algumas aparições ilustres) e também a "conversa sobre o Steve". Será que é cedo pra planejar o casamento? (insira aqui o meme do Hommer vestido de noiva) Em breve eu estou de volta ❤ Se cuidem nesses tempos difíceis, bebam água, fiquem em segurança desinfetem os celulares e lavem as mãos Beijos e até! PS: No casamento eu não sei, mas acho que no hot já dá pra pensar neh uashaushaush