Inverno Ardente
16 Joalheria

— Alô! Terra chamando Bucky. Terra chamando Bucky! — Sam praticamente gritou, atraindo a atenção do Soldado, que piscou algumas vezes e moveu os olhos em direção ao amigo.
— Me desculpa, o que você disse? — Ele perguntou, notando que tinha se desligado totalmente do mundo externo e afundado na própria mente por alguns momentos.
Estavam desmontando tudo depois de uma bem-sucedida primeira reunião com o novo grupo de Sam. Bucky tinha ficado pra ajudar, e ainda estava processando os eventos. Foi estranho ver todas aquelas pessoas novas que pareciam totalmente deslocadas ali dentro. Não era o mesmo que se sentar com um grupo já montado, ali ninguém se conhecia e todos pareciam ter medo e vergonha.
Quando Sam perguntou se alguém queria compartilhar alguma coisa ninguém se pronunciou. E isso fez com que Bucky resolvesse falar pela primeira vez, não por ele, por aquelas pessoas que pareciam realmente precisar de ajuda... Se ouvir outros veteranos o ajudava, talvez falar ajudasse alguém, então certamente valeria a pena.
Falou sobre o sentimento de estar em perigo constante, como se estivesse sendo seguido, sobre sentir que de uma hora para a outra sua liberdade não seria mais sua. E, por incrível que pareça, contar todas essas coisas não foi tão difícil, colocar o que sentia em palavras coerentes de alguma forma amenizou as o caos dentro de sua mente.
E realmente ajudou, porque outras pessoas falaram também, e se sentiram melhores com isso. Foi estranho ver as pessoas lhe agradecendo no fim da reunião, mas Bucky entendeu que todos estavam ali não para ouvir sobre como estava tudo bem e como a vida era boa, eles não queriam lições motivacionais sobre pessoas inteiras, eles queriam se sentir compreendidos, queriam o realismo de saber que o caminho era longo e árduo para todos, mas ao mesmo tempo queriam o alívio de entenderem que não estavam sozinhos.
Era sobre compartilhar a dor, para que um dia chegassem a compartilhar pequenos progressos, e era tudo sobre isso afinal, não era sobre achar milagrosamente a cura, era sobre pequenos passos na direção certa.
E pela primeira vez em muito tempo ele realmente sentiu que estava naquela direção.
— Onde você estava cara? — Sam perguntou o motivo daquela inercia.
— Aqui. — Bucky moveu os ombros, tinha ficado pra ajudar a arrumar o lugar, afinal isso não lhe custava nada.
Acabou perdido em alguns pensamentos e quando viu o rumo inicial tinha levado as coisas para algo muito diferente. Savannah. Não era exatamente uma surpresa, afinal havia algumas semanas que a ruiva de sorriso-sol era seu pensamento mais constante.
— De corpo presente apenas, mas a mente estava bem longe.... — Sam fez um gesto exagerado enquanto ria.
Bucky resolveu que podia compartilhar sua preocupação mais urgente com o amigo, afinal Sam era de confiança, apesar de ter um humor duvidoso.
— Desculpa, é que a Savannah disse que o Ryan voltou, eu só estava pensando nisso. — Contou, levado uma pilha enorme de cadeiras para o canto, sem qualquer dificuldade.
— Ryan é o marido idiota da moça no fim do seu corredor? — Sam se mostrou preocupado.
— Ela voltou com ele, segundo a Savannah, parece que está tudo bem, mas... — Bucky suspirou, negando algumas vezes.
— Não dá pra confiar. — Sam completou, como se soubesse exatamente o problema. — Esse é o tipo mais difícil de situação, quando a vítima não consegue perceber o ciclo de abuso.
— E o que fazemos em casos assim? — Questionou, desejando que o Falcão tivesse uma solução heroica para tudo.
— Ficamos atentos para intervir caso a coisa saia do controle, alertamos o quanto podemos, aconselhamos e ficamos a postos para ajudar quando a vítima resolver que está pronta para sair disso. — No entanto ele não tinha, era tudo uma questão de esperar e torcer, o que era frustrante de muitas formas. — No fim não há muito que possamos fazer, até que ela resolva que não quer mais esse homem na vida dela. A dependência que um relacionamento abusivo cria pode, muitas vezes, ser confundida com amor ou paixão, esse é o grande problema.
— As coisas são mais simples quando a gente pode só meter a porrada no vilão. — Bucky declarou irritado.
Era o que era faria em qualquer outra época, não só como o Soldado Invernal, o jovem corajoso dos anos 40 também faria isso, na verdade já tinha se metido em brigas por muito menos... Mas não estavam mais nos anos 40, Bucky não era mais um jovem de vinte anos que podia sair por aí se metendo em confusões e todo mundo diria “é só um garoto, logo essa fase passa”, também não era mais o assassino frio que só conhecia sangue, ordens e violência. Era um homem velho em um corpo semi-jovem, que certamente queria evitar problemas com a polícia.
— É por isso que a palavra “vigilante” às vezes soa mais tentadora que a coisa toda de herói. — Sam suspirou, parecendo compartilhar do mesmo sentimento de impotência. — Sair por aí ajudando as pessoas na rua, lidando com aqueles com os quais o governo não se importa e que as leis nunca alcançam, ás vezes parece mais produtivo do que enfrentar Berinjelas Falantes.
— Você não pode dizer isso, você é o Capitão América. — Bucky brincou ignorando o apelido que o Falcão tinha dado para Thanos, mas a verdade é que toda a coisa de “herói” nunca foi o lance dele. Nunca almejou ser um herói...
Socar uns idiotas no entanto, isso sim parecia interessante.
— Talvez esse seja o motivo pelo qual eu não queira o manto. — Sam deu de ombros, terminando com as últimas cadeiras sem muita pressa.
— Eu estava brincando, Sam. — Barnes declarou, observando o outro de modo sério.
— Mas eu não. — Outro dar de ombros. — Toda essa coisa de “herói” pode ser um saco às vezes. A gente só quer fazer o que tem que ser feito, mas a burocracia é tanta que até desanima. O governo ainda encrenca comigo por causa dos acordos... — Ele riu sem o menor humor. — E como eu vou ser o símbolo justo desse governo?
— Capitão América não é um símbolo do governo. — Bucky retrucou certeiro e antes que Sam pudesse dar alguma resposta, continuou: — O soro foi financiado pelo governo, verdade. Mas o projeto supersoldado devia criar um exército, não um herói. Isso foi o Steve. Se fosse pelo governo ele teria feito filmes e shows pelo resto da vida. Steve lutava pelo povo e pelo que ele acreditava certo, ele lutava pelo ideal de uma América livre, ele não lutava pelo governo. Ele nunca levou ordens muito a sério e você mesmo o viu isso.
Sam ficou em silêncio como se processasse aquelas palavras. Bucky podia imaginar a pressão de ter aquele escudo, mas ele sabia que, se existia alguém que podia dar conta, era aquele homem ali na sua frente.
— Se o Steve te deu o escudo é porque ele acreditava que a sua visão de certo e errado é boa, e que você tem o que é necessário para o trabalho. — Opinou, sendo honesto e ganhou um menear de cabeça em resposta.
— Você também tem o que é necessário e você é super... Mais ou menos. — Sam fez o gesto com a mão e uma careta de desdém debochada.
— Acredite em mim, eu não tenho o que é necessário. Você é o que o povo precisa agora. Steve viu isso. Você não confiava nele? — A última frase de Bucky surtiu algum efeito na postura de Sam. — Além disso ele precisava de uma ajudinha do “super” porque era um nanico asmático, “super” parecia a única forma naquela época, mas hoje em dia vocês já estão além disso.
Barnes nunca se questionou sobre o motivo de Steve não ter lhe deixado o escudo, nunca precisou fazer essa pergunta a si mesmo, sempre confiou que o Capitão Rogers sabia o que aquele mundo precisava, e depois Bucky acabou vendo com os próprios olhos que, o que o mundo precisava era Sam Wilson.
— Desde quando ser “super” não conta? — O Falcão jogou de volta como se tivesse acabado de ouvir uma besteira.
Bucky franziu as sobrancelhas, porque era até estranho que ele não visse o exemplo mais óbvio.
— Tony Stark não era super, ele era apenas um homem, certo? — O nome amargou na ponta de sua língua, mas tentou não deixar isso transparecer. — Romanoff também não era super.
Sobre o último ponto Bucky tinha suas dúvidas, o Soldado Invernal tinha alguns flashes do Programa Operação Viúva Negra da URSS, e de um lugar chamado “Sala Vermelha”, ele tinha teorias que aquilo era só uma versão modificada do mesmo processo pelo qual tinha passado, o objetivo era criar armas para assassinado e espionagem. Bucky conhecia os russos mais do que gostaria e não se surpreenderia nada se as garotas da Sala Vermelha fossem “fisicamente melhoradas”.
Mas eram só teorias, e não precisava tocar naquele assunto no momento.
— Claro que eles eram super. — Sam jogou de volta como se fosse a coisa mais óbvia de todas. — Tony Stark: Super rico e super inteligente. Natasha Romanoff: Super espiã.
Acabaram rindo os dois, uma risada que se tornou um tanto estranha, afinal estavam falando de pessoas que tinha dado a vida pela humanidade. Natasha em um sacrifício para conseguir a última joia e Tony, no campo de batalha...
Tinha dezenas de “supers” reunidos lá aquele dia, mas o mundo foi salvo por um homem apenas, um que não tinha poderes ou mágica, não era um deus ou um alien. Era só um homem.
— Acho que isso é um lance dos Starks, o pai dele era super rico e super inteligente também... — Bucky moveu os ombros, desviando os olhos quando a culpa bateu violenta em sua consciência. — Era o homem mais legal da minha época.
Lembrava de admirar Howard Stark, de achá-lo um gênio muito à frente de seu tempo, assim como lembrava do momento exato em que o matou...
— Seus amigos Clint e Scott também não são super. — Limpou a garganta antes de continuar, como se isso pudesse limpar sua mente das memórias ruins. — Eles só têm assessórios muito legais e você também tem.
— Tenho mesmo. — Sam moveu os ombros de um jeito presunçoso. — E não estou afim de trocar tudo isso por um escudo.
— Ninguém disse que você tem que trocar... — Bucky retrucou de forma simples. — Você vai encontrar um jeito de conciliar as duas coisas...
Sam ficou um tanto pensativo sobre isso, mas não respondeu, Barnes sabia que ele só precisava de um tempo para processar tudo aquilo, por isso resolveu mudar de assunto:
— Mas o que estava dizendo antes?
— Eu estava falando sobre a tal ministra... — Sam pareceu aliviado de poder falar sobre qualquer outra coisa. — Sharon disse que tem monitorado as coisas e a mulher se afastou do presidente. Em um momento eles pareciam sempre próximos e agora ela foi fazer uma viagem por todo o pais em um “evento filantrópico nacional”.
Bucky uniu as sobrancelhas tentando entender aquele caso que envolvia a Ministra, faziam semanas e tudo que tentavam acabava em um beco sem saída.
— Então ela manda um de seus capangas matar a primeira dama, mas não fica com o presidente.... Isso não faz sentido. — Ele comentou, se esforçando para encontrar outras perspectivas que fizessem tudo se encaixar.
— Talvez tenha sido um crime passional, ela se apaixonou pelo presidente, tirou a concorrência do caminho e quando finalmente conseguiu o que queria descobriu que ele é péssimo de cama. — Sam opinou e Bucky teve que encará-lo por alguns segundos para ver se a teoria era séria.
Não, nem o próprio Falcão acreditava naquilo.
No fundo da mente de Bucky tinha esse sinal de alerta sobre esse caso, sobre essa mulher, porém não era algo que ele conseguia decifrar, era mais como uma intuição estranha.
— E se ela estiver procurando alguma coisa? — Jogou as primeiras palavras que lhe vieram à mente. — Talvez ela precisasse de acesso ou informação, pensou que o presidente tinha isso, mas ele não tinha e ela se afastou... Ou ele tinha e ela já conseguiu o que queria.
Bucky se assustou com o rumo das próprias palavras, qualquer coisa que fosse digna de estar apenas no conhecimento do presidente devia ser de fato muito importante.
— Gosto mais da minha teoria. A sua me assusta. — Sam ponderou naquele tom que tinha habitualmente. — Vou pedir pra Sharon ver o que descobre baseado nessas hipóteses. Ou temos uma mulher passional e possivelmente louca que faria tudo para conseguir o que quer, ou temos uma espiã internacional atrás de informações supersecretas...
— Ou talvez ela seja os dois. — Bucky lançou tão casual que só notou que não tinha pensando em dizer aquilo, quando as palavras já haviam saído da sua boa.
— Eu não gosto das suas teorias, cara. — Sam apontou, já procurando o celular.
Para Bucky restava apenas deixar as coisas acontecerem, mesmo que um pressentimento ruim, misturado com uma estranha sensação de déjà vu fizesse sua garganta travar e seu corpo inteiro se preparar para uma guerra...
✩ ✩ ✩ ✩ ✩
Duas horas depois Barnes estava em um pequeno centro comercial no Queens, tinha que encontrar Gus ali, mesmo que ainda não soubesse o motivo... O garoto havia pedido sua ajuda para “uma coisa importante” alguns dias antes e, por mais que os dois alimentassem a curiosidade de Savannah, dizendo que tinham um “grande segredo”, o próprio Bucky não fazia ideia do que aconteceria naquele dia.
Talvez Gus estivesse com problemas com mais alguns daqueles preconceituosos de merda... Foi o único motivo no qual conseguiu pensar, afinal por que mais August precisaria de ajuda de alguém como Bucky?
Ele era só um cara dos anos 40 antiquado e totalmente deslocado. Gus era o oposto disso, jovem, com um senso de estilo único e descolado, com um namorado super inteligente e amigos incríveis. Bucky Barnes não fazia ideia de como podia ajudar alguém como ele a não ser com os músculos.
Logo reconheceu a figura inconfundível acenando entre as pessoas que iam e vinham. Encontrar com Gus, mesmo que casualmente para uma sessão de filmes, era sempre como olhar fotos em uma revista, Bucky várias vezes tinha a impressão que não conhecia palavras o bastante para descrever o estilo do garoto. Ele usava uma jaqueta florida naquela tarde e mesmo de longe seu sorriso se destacava ao mesmo tempo em que ele parecia um pouco ansioso.
— Pensei que você não vinha. — Gus suspirou aliviado, quando os dois se aproximaram.
O primeiro impulso de Bucky foi checar o horário no visor do celular.
— Mas eu não me atrasei. — Ele respondeu, assim que viu que tinha sido perfeitamente pontual.
— Eu sei... Mas sei lá... — O rapaz estralou os dedos. — Eu estava ansioso, penso coisas idiotas quando estou ansioso.
Bucky podia ter dito que entendia perfeitamente como era sofrer terrorismo psicológico de si mesmo, mas preferiu focar em algo que os mantivesse longe desse assunto e quem sabe matasse a ansiedade de Gus.
— Então, o que estamos fazendo aqui? No que eu posso te ajudar? — Perguntou, vendo Gus abrir um sorriso enorme, como se tivesse esperado a vida toda para dizer aquilo.
— Eu vou comprar um par de anéis. — Ele declarou solene. — Alianças.
— Sério? Isso é legal, cara. Parabéns! — Bucky bateu amigavelmente no ombro do capaz com a mão direita e Gus sorriu mais ainda, se é que isso era possível.
— Não acha que é estúpido? — O futuro noivo questionou um tanto receoso.
— Por que eu acharia isso? — Barnes moveu os ombros quando respondeu a pergunta.
Na verdade, achava corajoso e admirável. Algumas décadas antes, no auge de toda a sua paixão por Steve, talvez tivesse sonhado com algo assim, mas jamais teria coragem...
— Sei lá, dois garotos querendo casar. — Gus jogou enquanto eles começavam a caminhar.
Sim com certeza Bucky tinha sonhado com isso em algum momento, e talvez nem fizesse tanto tempo assim, esse pensamento bobo certamente tinha passado em sua cabeça em algum dos momentos de calmaria em Wakanda, depois do ótimo tratamento de Shuri, antes de Thanos. Bucky olhava para aquele lugar lindo e se imaginava tendo uma vida com Steve, morando em uma cabana, vivendo da terra, em paz, longe de olhos curiosos, longe de toda a guerra... Uma estupidez enorme.
— Vocês se amam, por que não deviam se casar como qualquer outro casal? — Respondeu, sabendo que Gus e TJ eram e tinham tudo aquilo que ele sonhou um dia.
— Eu sabia que tinha escolhido a pessoa certa pra vir comigo. — August comemorou, apoiando a mão no ombro de Bucky. — Agora vamos, você é meu apoiou moral hoje e depois daqui eu quero procurar um apartamento, não posso morar nos meus tios pra sempre, principalmente se vou casar.
Ele riu, obviamente estava ansioso com aquela coisa nova e Bucky podia ter perguntado por que tinha sido o escolhido para aquela “missão”, mas achou que fosse uma pergunta boba, estava feliz de estar ali e era isso que importava.
No geral, considerando os amigos de Savannah, Gus era aquele com quem Bucky mais se sentia confortável, não que tivesse algo contra Abby e TJ, longe disso, os dois eram ótimos, cada um a seu próprio modo, mas podiam ser frenéticos demais às vezes e isso constantemente deixava Bucky confuso, como se recebesse muito mais informações do que era capaz de processar.
Quando os dois primos estavam juntos parecia ainda pior, eles falavam tão rápido e mudavam de assunto a todo segundo, tendo sempre opiniões contrarias sobre tudo, logo a conversa virava uma discussão e Savannah ou Gus tinham que intervir. Era um pouco confuso, Bucky jamais negaria, mas ao mesmo tempo era muito divertido também.
Gus tinha uma personalidade mais calma, com doses cavalares de humor-negro, que Savannah não gostava muito, mas que Barnes compreendia e até achava graça...
Ainda era um pouco estranho perceber que tinha mesmo feito amizade com aquele grupo tão peculiar, talvez por causa de toda a coisa de Soldado Invernal e criogenia, Bucky era um homem velho em um corpo jovem e todos ali tinham entre vinte e vinte cinco anos.
No entanto, Bucky sabia que para o pequeno e seleto grupo de amigos a idade não era um fator relevante no que dizia respeito a amizade que compartilhavam, mesmo antes deles acolherem um soldado de cem anos, isso porque o blip tinha mudado a dinâmica do grupo de forma interessante...
Antes do estralar de dedos Savannah tinha vinte, Abby dezenove e Gus e TJ vinte e um. Como os dois rapazes foram blipados e as duas garotas não, eles ficaram parados no tempo e elas envelheceram normalmente, se tornando mais velhas que o casal, o que era um grande ponto de discussão que sempre acabava em risada, o próprio Bucky já tinha presenciado isso.
Se fosse honesto, deixando de lado o desconforto inicial gerado pelo medo de ter que falar do Soldado Invernal, Bucky se sentia bem com eles. Tinham todos se tornado seus amigos também.
E tudo isso era por causa de Savannah, seu pequeno raio de sol particular. Sabia que nunca teria se aproximado de outras pessoas se ela não tivesse aberto o caminho primeiro... Bucky costumava pensar em si mesmo como um quarto escuro, mofado e empoeirado, nunca seria capaz de arrumar nada daquilo se o sol não tivesse iluminado as coisas.
Tudo começou com Savannah Devenport, e muitas coisas boas vieram depois...
Encontraram a loja que Gus queria com facilidade, era uma joalheria pequena e discreta, com preços competitivos. Não precisaram olhar muitos modelos porque o rapaz gostou de um logo que bateu os olhos nele, depois disso só foi necessário encontrar os dois tamanhos certos e então teriam esperar por alguns minutos para que as peças fossem gravadas com as palavras que August escolheu: “Melhores Juntos”, vinha de uma frase que Bucky já tinha visto o casal falar algumas vezes: “Porque somos melhores juntos”.
Enquanto Gus fazia o pagamento, Bucky estava esperando próximo ao balcão de vidro e seus olhos bateram em uma delicada peça dourada que chamou sua atenção de imediato.
— Posso ver esse? — Ele apontou e imediatamente foi atendido por uma das vendedoras.
— É uma peça de ouro rosê, cravejada de cristais Swarovski. — A moça explicou, não que Bucky realmente fosse entender alguma coisa sobre joias e materiais, mas era uma peça bonita, isso que importava. — Seu noivo vai gostar bastante.
Ela sorriu quando se referiu a Gus e Bucky riu de canto da confusão da vendedora. Pelos menos não era uma daquelas idiotas preconceituosas...
— Ele é um amigo, estamos comprando as alianças para o noivo dele. — Bucky esclareceu casualmente, enquanto examinava a peça ente dos dedos. — Isso aqui só me lembrou alguém.
Era uma coisinha delicada e frágil, principalmente no contraste com a luva preta que escondia a mão de vibranium, mas tinha detalhes impressionantes para o tamanho.
— É algum familiar? Uma amiga talvez...? — Bucky ergueu os olhos quando notou que a moça estava especulando demais em um tom interessado acima do profissional.
Ela sorriu toda encantada assim que os olhos azuis lhe encontraram. Bucky tentou não rir. A vendedora estava mesmo flertando com ele?
Era uma moça alta e magra, usando um terninho preto e com a maquiagem impecável, que devia ser uma exigência do lugar. Seus fios loiros estavam perfeitamente alisados e ela tinha os olhos negros focados em Bucky. Não era feia, mas também não causou qualquer interesse.
— É pra minha namorada. — Ele respondeu com mesmo tom casual de antes e assistiu a vendedora ficar totalmente vermelha e então murchar como uma flor que passou o dia todo sem água.
Devia sentir remorso por mentir tão descaradamente, mas queria evitar conversas desnecessárias, além disso se levasse em conta o ponto de vista da senhora Jones, sequer era mentira... Ele tinha mesmo uma namorada.
— Ela vai amar. — A moça deu um sorriso desconfortável, mas profissional.
— Vai sim. — Bucky concordou olhando para a peça mais uma vez e se decidindo. — Pode embrulhar pra presente, por favor?
A vendedora assentiu e se retirou depois de recolher a peça que ele tinha escolhido. Bucky não tinha pensando muito naquilo, apenas decidiu levar porque lhe lembrou Savannah imediatamente...
— Vamos? — Gus parou ao lado de Bucky naquele momento.
— Só um minuto que eu vou pagar uma coisa que comprei. — Ele respondeu, seguindo para o caixa.
— Você comprou alguma coisa aqui? — Gus soou surpreso e acompanhou Bucky de perto. — Mas você não usa joias... — Ele olhou por cima do balcão, mas a vendedora já havia colocado a peça em uma caixinha de veludo vermelho e a arrumava entre o papel de seda para colocar na sacola personalizada da loja. — Você comprou um presente pra quem eu estou pensando?
— Eu não leio mentes, como vou saber o que você está pensando. — Bucky riu de canto.
Talvez fosse estranho comprar um presente daqueles...
— Você sabe bem em quem eu estou pensando... — Gus revirou os olhos. — O que é?
— Você vai ver uma hora ou outra. — Bucky fez o pagamento e pegou o produto e os dois deixaram a loja depois de agradecer as funcionárias.
Enquanto caminhavam para fora do centro comercial e Gus se dava por vencido quanto ao novo segredo que Bucky teimava em manter, a mente do Soldado começou a pensar demais naquilo. O que estava pensando quando comprou aquele presente?
O assunto rondou sua mente pela próxima hora...
Aquele presente era o tipo de coisa que se comprava para namoradas e, apesar daquela piada interna, vinda de uma ideia errada da senhora Jones, que nenhum dos dois tinha se preocupado em desmentir mesmo depois de semanas, ele e Savannah não eram namorados.
E a última coisa que Bucky queria fazer era estragar aquela amizade... Savannah era importante demais para ele, precisava dela por perto por muito mais tempo que um namoro bobo permitiria.
Ele sabia que podia cultivar longas amizades, mas namoros? Esses não duravam nunca, sempre que a coisa começava a ficar séria demais ele pulava fora, era uma mania, antes da guerra sempre estava com uma garota, mas nunca era a mesma. Nunca era duradouro.
Bucky sabia que era sua própria culpa, porque ele próprio sabotava seus relacionamentos, afinal sequer conseguia imaginar passar a vida toda com alguém, sendo que seu coração pertencia a outra pessoa. Ganhou fama de galinha por isso, os pais sempre torciam o nariz para ele e as garotas confiavam cada vez menos, dois encontros e elas queriam promessas e certezas, mas Bucky não podia dar isso a nenhuma delas.
Não se importava com a má fama para ser honesto, mas sempre esteve ciente que em sua vida algumas coisas durariam e outras não. E por isso preferia que Savannah continuasse sendo sua amiga...
Mesmo quando seus pensamentos e desejos lhe traiam Bucky tentava se manter firme, por exemplo, ele tinha passado todas aquelas horas sem pensar demais no fato de Savannah estar deitada na cama dele naquele momento. Sem pensar no calor dela naquela manhã ou em nada improprio.
Se forçou a desviar o rumo de seus pensamentos uma vez mais e deu uma mordida no sanduiche natural que comia. Ele e Gus estavam sentados em uma pequena lanchonete de esquina, tinham decido comer algo antes de começar com a procura do apartamento.
— Dá pra acreditar? — Gus riu sozinho, depois de um longo momento de silêncio, como se tivesse perdido nos próprios pensamentos. — Eu comprei alianças pra pedir o meu namorado em casamento.
— Eu tenho certeza que vocês vão ser muito felizes. — Bucky sorriu também.
Era estanho estar vivendo aquilo, porque nunca tinha visto nenhum de seus amigos chegar a esse momento da vida, mesmo se tratando de casais convencionais da época. Porque o Bucky dos anos 40 morreu antes disso e o Soldado Invernal não tinha amigos...
— Eu nem acredito que isso está acontecendo. — A euforia de August era perceptível. — Teve uma época da minha vida que eu achei que ficaria sozinho pra sempre, sabe?
Os olhos negros do rapaz se perderam em um ponto fictício, como se ele relembrasse alguns momentos difíceis. Bucky nada disse, deu espaço para que Gus continuasse quando, e se, estivesse confortável pra isso.
— Não era só o fato de ser gay, eu tinha que ser um gay diferente do padrão também... — O garoto moveu a cabeça de um lado para o outro em negativa.
— O que isso significa? — Bucky fez a pergunta no impulso, e só então percebeu que podia ter sido invasivo demais. Ainda não sabia muito bem o que era educado ou não perguntar em uma situação como aquela. — Desculpa. Eu posso fazer essa pergunta? Se eu te ofendi não...
— Tudo bem, não foi uma pergunta ofensiva, além disso você é meu amigo, já provou que me respeita e aceita como eu sou. — Gus deu de ombros casualmente e ofereceu um sorriso a Bucky. — Eu sou diferente, porque além de gay eu estou dentro espectro assexual. Eu me identifico como Demissexual. Um assexual é alguém que...
— Não tem interesse por sexo. — Barnes completou, afinal a palavra não lhe era estranha, tinha se deparado com ela algumas vezes enquanto navegava internet e acabou pesquisando o significado.
— Isso. Como você sabe? — Gus pareceu surpreso de uma forma positiva.
— Internet. — Bucky deu de ombros. — Savannah falava muitas siglas que eu não entendia no começo e uma coisa foi levando a outra.
— Podia ter perguntado direto pra ela. A Savy não ia se ofender e ia explicar do jeito mais fácil possível. — A conversa prosseguiu em um tom leve. — Já a Abby é alguém pra quem não se pode fazer esse tipo de pergunta, fica o aviso, ela vira uma enciclopédia viva e de repente você nem vai lembrar mais do que tinha perguntado, porque ela vai confundir sua mente com tanta informação que é como estar na escola outra vez.
Gus riu e Bucky pôde imaginar toda a situação perfeitamente, porque algo assim aconteceu quando Abigail tentou explicar “Senhor dos Anéis”, já que Savannah não achou que Bucky gostaria do filme.
Depois da explicação exaustiva a única coisa que realmente ficou na mente de Bucky foi que havia um anel maligno que influenciava negativamente quem o tivesse, tornando o portador obcecado pelo objeto... Savannah estava certa, ele não teria gostado do filme.
— Mas enfim, um alguém que se identifica como Demissexual só se interessa por sexo se tiver uma conexão emocional forte com a outra pessoa. — Gus explicou de forma prática.
Bucky gostaria de dizer que aquela era a forma “tradicional” de fazer as coisas, as pessoas deviam se envolver sexualmente apenas com quem amavam, mas seria hipocrisia dizer isso, amor e tesão podiam caminhar em direções opostas, ele sabia muito bem disso. Era possível sentir desejo, mas não sentir amor; assim como era possível amar e afastar ou abrir mão do desejo.
No fim cada um vivenciava a própria sexualidade de uma forma, e tudo bem.
— E o TJ não é demi, então quando começamos a sair eu sempre ficava esperando o momento de tudo acabar. O momento em que eu contaria pra ele dessa minha particularidade e tudo iria por água a baixo. — Bucky se sentiu instantaneamente representado por parte do que Gus dizia, e foi estranho, porque quando estava com Gus ou TJ sempre pensava em Steve, mas daquela vez não foi com Rogers que conectou as frases. — Deus, eu sequer consigo descrever como era apavorante estar do lado de alguém tão importante pra mim, imaginando que eu o perderia a qualquer momento apenas por ser quem eu sou...
— Eu entendo. — Respondeu, deixando o sanduíche de lado por um momento para focar totalmente em Gus. — De verdade.
Era aquele exato medo que sentia quando estava perto de Savannah antes que ela soubesse a verdade, e pra ser honesto ainda tinha esse mesmo sentimento às vezes, como se uma hora ou outra fosse revelar algo de seu passado que a afastasse pra sempre.
Por mais que estivessem bem, uma sombra daquele medo ainda existia e Bucky ainda lutava diariamente para que isso não assumisse o controle de suas decisões e reações.
— Hoje em dia eu olho pra trás e dou risada, porque é claro que o TJ nunca me julgaria por isso, ele nunca desistira de mim. Eu só demorei um pouco para perceber... — Gus riu enquanto revirava os olhos. — Nós somos muito diferentes, muito, mas a gente se ama... acho que no fim é isso que conta. Juntos somos melhores.
Bucky sorriu, era impossível não admirar Gus e TJ pelo casal que eram. Savannah tinha um nome pra isso, um termo que ele achava engraçado, eu shippo.
Savannah tinha palavras estranham para muitas coisas...
— E então eu tenho essa pessoa incrível, super inteligente, com um senso de humor duvidoso e um péssimo gosto de moda, que faz a minha vida mais feliz todos os dias e que olha para os meus defeitos como se fossem qualidades. Eu seria estúpido se não quisesse passar o resto da minha vida com ele, certo? — Gus terminou e seus olhos apaixonados não escondiam seus sentimentos.
— Com certeza você seria. — Bucky concordou, admirando ainda mais o que os amigos tinham. Amar alguém que corresponde aos seus sentimentos devia ser algo incrível. — Vocês são o casal mais bonito que eu já vi.
— Sério? — As sobrancelhas de Gus se franziram em um gesto surpreso.
— Eu tenho cem anos, eu sei do que eu estou falando. — O mais velho moveu os ombros como se fosse a verdade mais simples de todas...
Não ficaram muito mais ali, apenas conversaram amenidades até terminarem seus lanches e deixarem a lanchonete.
O restante do dia foi para procurar apartamentos, Gus tinha algumas exigências que iam de valor acessível e boa vizinhança, até localização. Era importante que fosse perto da loja dos pais de TJ, mas também perto da faculdade e do trabalho de Gus, então algo mais para o centro era o ideal.
No entanto qualquer apartamento dentro do orçamento por ali era uma espelunca dez vezes pior que o prédio de Bucky e Savannah. Não que Barnes considerasse o próprio apartamento ruim, longe disso, pra ele era apenas um lugar humilde, que atendia a todas as suas necessidades, mas que talvez precisava de reforma...
Mas de fato os lugares que estavam vendo eram terríveis. O menos pior deles tinha vizinhos que não pareciam nada agradáveis, o que fez o próprio Bucky dizer “nem pensar”. Não deixaria Gus e TJ morarem em um lugar onde as pessoas os julgassem, ou onde corressem risco de serem agredidos.
— Não é possível que não tenha um só apartamento que seja o que eu estou procurando! — Gus passou a mão no rosto, depois da décima ou décima primeira visita.
Naquele ponto já fazia algum tempo que Bucky estava remoendo uma ideia e decidiu colocá-la em prática.
— Vamos dar uma parada, vou te levar em um lugar. — Disse de forma simples, fazendo com que Gus desligasse o celular e desistisse de entrar em contado com outro proprietário.
Chegaram ao destino depois de dirigirem por alguns minutos. Bucky parou em frente a fachada do lugar e tentou não se deixar levar pelas lembranças, mas era impossível... Precisou de alguns segundos para tomar coragem e entrar no prédio.
— Onde estamos indo? — Gus perguntou curioso, quando começaram a subir as escadas.
— Você vai ver... — Bucky disse apenas.
Ele respirou fundo para cruzar o restante do caminho. Ao parar na porta de madeira no fim do corredor procurou a chave que ficava sempre junto com a do galpão.
— Uou! — Gus exclamou, assim que a porta foi aberta e ele pode analisar o lugar vazio. — Esse apartamento é seu?
Bucky encarou as paredes claras e o chão de madeira, revivendo as memorias que haviam em cada canto, graças ao pouco dias que tinha vivido ali... Assentiu, sem forças para responder a pergunta verbalmente.
— Por que você vive naquela espelunca? — A pergunta ultrajada de Gus fez com que Bucky risse de canto.
— Era o apartamento do Steve, ele deixou pra mim. — Revelou finalmente, encarando a entrada do quarto do falecido melhor amigo.
— ꞌTá brincando? — Gus deu um pulo e seus olhos brilharam. — Capitão América escovava os dentes naquela pia?
O rapaz apontou o banheiro e daquela vez Bucky riu de verdade, porque de todas as coisas para se dizer, aquela era a que ele menos esperava. Assentiu de novo, recolhendo todas as lembranças e as guardando na mente.
Não precisou dizer para Gus explorar o lugar, na verdade, a menos que usasse a força, Bucky tinha certeza que nada impediria o rapaz de olhar por toda a parte.
— Caramba... — Ele assobiou olhando tudo e nada, afinal o apartamento estava vazio.
Sam tinha tirado as coisas, deixado tudo pronto para que Bucky decidisse o que fazer com o lugar, mas na verdade ele nunca quis fazer nada, não até aquele momento.
— A chave é sua. Se quiser. — Estendeu o chaveiro que tinha acabado de separar e o colocou na mão de August.
— Isso é uma pegadinha? — O garoto questionou, encarando o objeto como se fosse de outro mundo.
— Você está procurando um apartamento. Eu tenho um apartamento vazio. — Bucky deu de ombros, procurando ser prático.
Ele sabia que era exatamente o que August estava procurando e também sabia que era um lugar seguro para que o casal morasse...
— Puta merda, vai mesmo me alugar o apartamento do Capitão América? — A pergunta de August foi apenas um grito esganiçado, Bucky riu, negando algumas vezes.
— Eu não vou cobrar, Gus. — Ele respondeu, jamais tinha pensando em aceitar dinheiro algum. — Somos amigos, não é?
— Somos. Mas amigos, amigos, negócios a parte. — O rapaz declarou de forma séria. — Eu faço questão de pagar, sério.
Bucky achou melhor não discutir, embora ainda estivesse decidido a não cobrar, conversariam sobre a parte burocrática da coisa em outro momento, então ele apenas estendeu a mão direita.
— Negócio fechado. — Aceitou os termos de Gus e os dois apertaram as mãos selando o acordo.
— Minha nossa o TJ vai surtar! — O rapaz exclamou eufórico, olhando tudo ao redor. — Você tem noção disso?
Bucky sorriu, ficou feliz em fazer algo bom com o que Steve havia deixado, porque sabia que jamais teria coragem de usar em benefício próprio. Dar o apartamento para Gus e TJ parecia uma forma quase poética de finalizar sua história com Steve Rogers...
Porque afinal Bucky tinha se sentado naqueles cômodos pensando em como seria se o escolhido fosse ele, não Peggy, tinha imaginado uma vida sob aquele teto, uma vida que Gus e TJ viveriam.
Era um bom fim.
O que ele realmente não esperava é que August passasse da felicidade e euforia absoluta para as lágrimas em menos de um minuto...
Okay, o que será que eu fiz errado? Bucky pensou, dando alguns passos cautelosos para perto de Gus.
— Desculpa. — O rapaz pediu, enquanto secava as lágrimas na manga da blusa. — É que ninguém nunca fez uma coisa tão legal assim por mim...
Bucky sorriu sem-jeito. Ele não entendia totalmente, mas podia imaginar como era ser expulso de casa e então finalmente ter o próprio lar. Pousou a mão no ombro de Gus assim como Steve e ele faziam um com o outro.
— Amigos são pra essas coisas. — Afirmou compassivo e ofereceu um sorrio calmo a Gus. — Além disso, Steve gostaria de pessoas como vocês morando aqui.
Isso fez com que os olhos do rapaz se tornassem eufóricos de novo e ele desatasse a falar tudo que pretendia fazer ali, para que o apartamento ficasse pronto. Antes Gus tinha outros planos para o pedido, mas depois de saber que moraria no mesmo lugar que o próprio Capitão América tinha morado, ele sabia que tinha que fazer o pedido ali também.
Bucky ofereceu algumas coisas que estavam guardadas no galpão, nada pessoal demais ou que carregasse muitas lembranças, como a poltrona na qual tinha se sentado ao lado de Steve nos últimos dias do melhor amigo, apenas coisas que ele sabia que acabariam em nada guardadas lá. Gus e TJ fariam melhor uso de tudo aquilo.
Com tudo combinado, Bucky apenas teve que esperar Gus tirar algumas fotos do lugar e anotar medidas, assim teria tudo a mão quando quisesse comprar alguma coisa. Ficou parado em uma das janelas, olhando os prédios ao redor e relembrando a primeira vez que estivera ali, tentando matar Nick Fury ainda como o Soldado Invernal.
Era estranho lembrar tão bem de um momento em que não se lembrava de nada. Olhou nos olhos de Steve aquela noite e não foi capaz de reconhece-lo... Era por causa de momentos como aquele que Bucky ainda se perguntava se havia mesmo qualquer parte de sua mente que não tinha pertencido a Hidra, era por causa de momentos como aquele, em que Bucky se lembrava de ser apenas o Soldado, sem qualquer resquício de humanidade, que ele se perguntava todos os dias se aquele pesadelo tinha mesmo acabado...
Shuri tinha sido categórica na certeza de que havia tirado todos os gatilhos da Hidra de dentro da mente de Bucky, mas ele temia confrontar as palavras do livro vermelho uma vez mais só para descobrir que o Soldado Invernal ainda estava pronto para obedecer...
— Eu ia perguntar porque você não veio morar aqui, mas acho que se eu falar qualquer coisa sobre te afastar daquela espelunca, Savy me colocaria na lista negra dela. — Gus riu, parando ao lado de Bucky, enquanto guardava o celular no bolso traseiro. — A menos que vocês se mudassem de lá para morar juntos.
— Isso nunca daria certo... — Bucky riu, meio sem graça com a ideia e principalmente com a forma como aquela imagem se formou rápida e naturalmente em sua mente.
— Tem razão ela é bagunceira demais, você não aguentaria. — A risada alta de Gus ecoou pelo apartamento vazio. — Se bem que vocês agem como namorados o tempo todo... então.
— Nada a ver. — Bucky franziu as sobrancelhas e negou algumas vezes. De onde August tinha tirado aquela besteira?
O rapaz analisou o Soldado por alguns segundos e então perguntou de forma direta:
— Você gosta dela?
Bucky engoliu em seco, era uma pergunta que nem ele tivera coragem de fazer a si mesmo, tinha medo da resposta.
— Claro, ela é minha amiga... melhor amiga, eu acho. — Ele deu de ombros de forma casual, e se afastou de Gus.
Ainda lembrava do impacto que sofreu pela manhã, quando a própria Savannah nomeou a relação dos dois daquele jeito... Claro que Bucky queria que fossem amigos, era o que sempre dizia a si mesmo, mas “melhores amigos”, trouxe uma mistura de mil e uma lembranças e sentimentos controversos.
Tinha se apaixonado pelo último melhor amigo, e isso não acabou bem.
Ele precisou de alguns segundos para se recuperar do baque inicial, então logo percebeu que sua reação exagerada eram bobagem, Savannah não era o Steve... Bucky entendeu e aceitou isso, mas ao mesmo tempo não sabia exatamente o que significava.
Significava que ele jamais se apaixonaria por ela como se apaixonou pelo melhor amigo? Ou que Savannah jamais agiria como Steve caso isso acontecesse?
Não podia acontecer.
Não de novo.
Não com ela...
Bucky se esforçou para afastar aquele assunto de sua mente, assim como tinha feito pela manhã, assim como fazia todos os dias em que começava a pensar demais em Savannah.
— Entendi... — Gus concordou devagar, mas não pareceu interessado em dar o assunto por encerrado. — Bom, nesse caso, já que vocês são só melhores amigos, você sabe que daqui um tempo vai acabar apresentando uma namorada pra ela, não é?
Bucky quase riu daquela hipótese, só não o fez por respeito, com certeza nunca teria namorada nenhuma pra apresentar.
— E cedo ou tarde a Savy vai fazer o mesmo... — Gus continuou com cautela. — Cedo ou tarde ela vai te apresentar pra alguém... namorado ou namorada. Não acho que Savy vai ficar sozinha por muito tempo.
Um gosto amargo invadiu o paladar de Bucky quando imaginou a cena, mas ele fez seu melhor para não dar vazão a esse sentimento ruim.
— A Savannah merece ser feliz. — Respondeu, sendo honesto sobre isso.
Bucky sentiu o coração congelar, imaginou como seria... como se afastariam aos poucos porque Savannah certamente não teria mais tanto tempo para passar com ele, mas ainda seriam amigos, ainda se veriam, ainda fariam coisas juntos com um pouco menos de frequência. E ela estaria feliz... Feliz com alguém que a amaria de todo o coração, assim como Savannah merecia. Bucky ficaria feliz por ela, ele sabia disso, mas naquele momento, quando imaginou tudo, ele não conseguiu evitar sentir um pouco de inveja.
Mas passaria, com o tempo tudo ficaria bem. Pelo menos ela não voltaria algumas dezenas de anos no tempo, ela ainda estaria ali por perto...
— Concordo, e ela provavelmente pode ser feliz com muita gente e você pode fazer o mesmo também. Tem um monte de pessoas por aí que faria vocês felizes. — Gus moveu os ombros como se não fosse nada demais. — Mas nunca pensou que vocês podiam ser felizes... juntos? Porque de onde eu vejo, ela já está feliz com você, Bucky.
O soltado paralisou onde estava, queria pensar que era por causa do gelo em seus ossos, mas não tinha nada a ver com isso, tinha a ver com as duas últimas frases de Gus que ficaram ecoando em looping em sua mente.
Não respondeu, isso porque estava usando toda sua força interna para conter o rumo dos próprios pensamentos naquele momento. Não queria pensar em Savannah daquele jeito, não queria imaginar como seria se os dois fossem felizes... juntos
— Me desculpa, deixa pra lá, é que eu estou romantizando tudo hoje. — Gus riu, claramente tentando afastar o clima estranho. — Vocês são amigos e você não gosta dela desse jeito, eu já entendi.
Deu o assunto por encerrado ali e já emendou outro sobre o apartamento e o pedido de casamento, enquanto iam embora. Depois que se despediram, Bucky fez o possível para focar em qualquer outra coisa, mas sua mente se provou traiçoeira e daquele momento até o instante em que voltou para o próprio prédio, ele só conseguiu pensar em como seria a realidade que Gus sugeriu...
Seria uma boa vida. Mas pra quem? Até quando?
Bucky listou todos os motivos pelos quais um relacionamento daqueles seria egoísmo... Listou todas as possibilidades de tudo dar errado e então perdê-la para sempre, por fim, enquanto subias as escadas, lembrou de todas as vezes que prometeu a si mesmo que guardaria seu coração para Steve. Quando colocou a chave na fechadura já tinha tomado uma decisão... Não podia se apaixonar por Savannah Devenport.
Se apaixonar por ela significaria ganhar o sol de verão e retribuir com o inverno congelante, e gostava de Savannah demais para fazer algo tão ruim com ela...
Quando girou a maçaneta foi recebido por Alpine, acariciou a gata em silêncio e deu alguns passos em direção ao quarto, diferente do que imaginou Savannah não estava ali, apenas lençóis bagunçados e travesseiros amassados.
Ela tinha ido embora? Bucky sentiu um certo desapontamento por isso, mas talvez fosse melhor assim... Tirou a sacola da joalheria de dentro da jaqueta e a colocou no armário, era um presente bobo, melhor que nunca fosse entregue.
Tirou as botas, as luvas e a jaqueta, guardou tudo e se sentou na cama, enquanto puxava as mangas da camiseta até os cotovelos. O perfume de Savannah estava em toda a parte, mel e frutas vermelhas. Bucky deixou o corpo cair no colchão e ajeitou a cabeça no travesseiro, se sentindo inebriado pelo cheiro feminino...
Estava atravessado na cama, bem no meio dela com metade dos pés pra fora, desse modo tinha visão de Alpine, deitada sobre o tapete felpudo do outro cômodo e foi quando ouviu a porta abrir.
— Não acredito que eu deixei destrancado... — A voz de Savannah fez com que Bucky relaxasse antes mesmo de entrar em modo combate.
— Você não deixou. — Ele disse apenas, para avisar que já estava ali.
— James! — Logo o sorriso-sol apareceu na entrada do quarto e tudo foi iluminado pelo alaranjado dos fios dela.
— Savannah... — Bucky sorriu, sentindo um alivio estranho se espalhar por seu peito. — Eu pensei que te encontraria dormindo ainda.
Não queria dizer que ficou desapontado com a ausência dela, mas ficou.
— E eu estaria, mas o um celular começou a reclamar com falta de bateria. — Ela ergueu o aparelho e o carregador que estavam em sua mão esquerda. — Eu fui lá em casa pegar o carregador, daí aproveitei para trocar de roupa.
Ela usava shorts e uma daquelas camisetas cortadas, com os cabelos presos para cima, certamente com uma caneta, porque era o que Savannah fazia sempre, Bucky já tinha percebido.
— Por que não usou o meu carregador? — Ele perguntou, se apoiando em um dos braços, para vê-la se aproximar da cama.
— Eu pensei nisso, mas não sabia onde estava e não quis bancar a bisbilhoteira justo no primeiro dia. — Savannah deu de ombros e só então Bucky se deu conta que tinha deixado todas as coisas pessoas à mercê dela sem se preocupar.
E havia muita coisa que ela podia achar, a começar pelas armas escondidas estrategicamente por todo o apartamento...
— Ele fica aqui na primeira gaveta. — Bucky apontou o móvel ao lado da cama. — Junto com uma Glock G47.
Mediu a reação dela quando falou da arma, mas Savannah não pareceu surpresa, ela apenas apontou a cama como quem diz “posso?” e Bucky assentiu sem tirar os olhos dela.
Se jogou do lado dele então, os cabelos ruivos se soltando e espalhado por toda a parte, o que fez um arrepio quente correr a espinha do Soldado. Era uma grande besteira na verdade, afinal já tinham estado mais perto que aquilo, mas nunca deitados em uma cama e principalmente não na cama de Bucky.
— Então você esconde armas por aí igual nos filmes? — Savannah perguntou casualmente, se arrumando da mesma forma que ele.
Bucky assentiu devagar, ainda analisando as reações dela. Estavam ambos virados de lado, de frente um para o outro, com o cotovelo apoiado no colchão.
— Isso te incomoda? — Ele questionou, porque não queria que Savannah se afastasse por aquele motivo. Embora soubesse que talvez fosse mais sensato da parte dela fazer isso.
— Eu não gosto de armas, tenho meus motivos, você sabe. — Ela moveu um dos ombros, mantendo a conversa em um tom ameno. — Mas você também tem os seus motivos para ter armas, e eu confio que você sabe o que está fazendo. Então não vou usar meu “discurso desarmamentista” contra você.
Savannah riu da própria frase e Bucky se perdeu no sorriso dela... Quando os olhos castanho-esverdeados encontraram os azuis ele não conseguiu conter o impulso de erguer a mão para tocar o rosto dela. Só quando fez isso notou que, por estar apoiado no braço direito, a mão livre era justamente a de vibranium.
Devia se afastar, não costumava tocar Savannah com aquela mão, não tão diretamente ao menos, eram sempre toques mais casuais... No entanto desconsiderou o aviso da própria sensatez e apenas prosseguiu com o movimento, escorregando os dedos pela bochecha dela e alinhando alguns fios ruivos que estavam por ali.
Podia sentir o calor de Savannah através do vibranium, podia constatar a textura e a maciez da pele dela e foi impossível não sorrir. Bucky ainda não entendia aquela funcionalidade sensorial do braço, porém era sempre como uma experiência única e impactante toda vez que tocava Savannah, e talvez por isso não impedisse cada pequeno contato, como fazia antes.
A verdade é que ter sensações de tato através do vibranium o fazia se considerar mais humano e menos uma arma... talvez ainda pudesse ser mais que uma coisa sem sentimentos criada apenas para ser controlada.
— Eu posso me desfazer das armas se você se quiser... — Ele murmurou, sendo incapaz de tirar a mão do rosto de Savannah, apenas subindo e descendo os dedos sem colocar qualquer força no movimento e afastando os fios lentamente.
Ela sorriu, toda sol de verão, sem parecer nada desconfortável com aquele contato.
— Não. — Franziu o nariz, enquanto movia o rosto de forma mínima. — Eu prefiro que fique com elas e se sinta seguro e confortável dentro da sua própria casa.
Bucky sorriu, porque nunca seria capaz de se acostumar com o posicionamento de Savannah diante das coisas. Ela nunca exigia nada, ela nunca forçava... Era fácil e bom estar com ela.
— Mas e você, vai se sentir segura e confortável com elas aqui? — Perguntou, brincando com algumas mechas do cabelo ruivo, enrolando-as nos dedos apenas para sentir como os fios interagiam com o vibranium.
— Eu me sinto segura e confortável sempre que estou com você, James. — Savannah tinha os olhos fixos nos azuis quando disse as palavras de forma tão natural. — As armas não mudam isso...
Bucky piscou devagar, absorvendo o significado daquela frase. Savannah não devia se sentir daquele jeito com ele... estava tudo errado. Então por que se sentia tão bem?
Alheia aos pensamentos conflitantes que o Soldado tinha, Savannah puxou um travesseiro e se arrumou melhor, os olhos ainda focados nele, sem se importar com os dedos de vibranium mexendo em seu cabelo, tão à vontade que era quase como se apreciasse isso.
Bucky disse a si mesmo que era o bastante, que devia afastar a mão dela agora e ele até desenrolou os fios presos em seus dedos, mas não se afastou, pelo contrário, teve ainda mais contato com a pele enquanto arrumava cada mecha atrás da orelha de Savannah.
Ela fechou os olhos quando os dedos dele tocaram o pescoço, só então Bucky notou que tinha se movido um pouco mais para perto dela. Savannah prendeu um suspiro e os olhos azuis focaram os lábios fartos. Só precisaria se curvar um pouco mais para que sua boca tocasse a dela...
— Boneca? — Chamou em um sussurro rouco e isso fez com que os olhos avelã se abrissem.
— Sim, Sargento? — A voz de Savannah veio tão baixa quanto a de Bucky.
Eu quero beijar você... As palavras se amontoaram na ponta da língua dele, enquanto os dedos de vibranium paravam abaixo do maxilar dela. Só tinha que dizer... Só isso.
No entanto, o medo que sentia de estragar tudo ou de magoar Savannah, era ainda maior do que sua vontade de provar os lábios dela. Não podia perdê-la...
— Não vai querer saber o grande segredo? — Perguntou, tentando colocar alguma normalidade em seu tom. — Gus disse que eu já posso contar.
— Graças a Deus! Pensei que na minha lápide estaria escrito “morreu de curiosidade”. — Ela riu leve, sempre facilitando tudo e Bucky pode sentir o sol envolver todo seu corpo, mesmo quando se levantou, para colocar alguma distância entre os dois.
— Vou te contar tudo enquanto faço uma macarronada pra gente jantar. — Ele declarou, seguindo para a cozinha afim de ocupar as mãos e a mente, assim podia enganar a vontade que tinha de tocar a pele quente de Savannah outra vez.
Tudo que tinha que fazer era manter o controle, assim Savannah estaria sempre por perto, estar com ela era como ficar sentado ao lado de uma fogueira no inverno:
Era preciso estar perto para se aquecer, mas não perto demais para que não se queimasse...
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