Inverno Ardente
27 Fogo

Seu punho de vibranium batendo no metal da porta fazia o som grave reverberar por toda a parte, socava tão forte que todo seu corpo tremia junto, ou talvez fosse apenas a raiva correndo gelada por suas veias.
Bucky não queria pensar, não queria olhar para trás, para a câmara vazia que provava tudo que ele tinha perdido e tudo que havia restado; nada. Ele apenas queria sair daquele maldito laboratório e fazer todos eles se arrependerem. Lucia Von Bardas tinha que pagar.
Encaixada no cós traseiro de sua calça estava a arma com luzes azuis que ele pegara de cima da mesa, sabia por experiência própria que não era letal, e se fosse honesto não era a forma como queria resolver aquela situação, mas ainda assim podia ser uma vantagem, principalmente ao lidar com os trigêmeos...
Continuou golpeando o metal e embora esse até tivesse entortado um pouco, não foi a força do Soldado que abriu a porta, isso aconteceu automaticamente.
Von Bardas.
Bucky entendeu que ela tinha um tipo de conexão mental com coisas eletrônicas, e considerando as câmeras do lugar ele sabia que não tinha vantagens táticas, estava em um labirinto controlado por uma louca e ainda por cima em menor número...
Ganhou os corredores rápido, sua primeira parada foi na sala onde fora torturado, mas estava vazio, apenas o cientista ainda se encontrava desmaiado no chão. Bucky recuperou suas peças de roupa jogadas ali por cima e, depois de vestir a jaqueta e a camisa, atirou no doutor uma vez mais, apenas para garantir que ele continuasse desacordado e não fosse um problema.
Com a arma em punho seguiu pelos corredores, o som de um motor sendo ligado o atraiu e ele se preparou para o que devia ser uma armadilha...
Entrou em um tipo de hangar, onde um helicóptero se preparava para decolar.
— Olha só quem finalmente se juntou a nossa festinha. — A voz de Von Bardas ecoou pelo lugar e Bucky a viu protegida pelos trigêmeos fortemente armados.
Quando os tiros começaram, ele se ocultou como pode atrás das paredes de pedra e ferro, colocou a arma que tinha de volta no cós da calça, estava claro que não podia competir com eles em poder de fogo. O certo era esperar, ser tático, ter um bom plano, mas a raiva gelada em suas veias exigia justiça, não planos e espera.
Trincou o maxilar quando soube o que faria, pouco se importando com a própria segurança Bucky se colocou na linha de tiro, com nada além do braço de vibranium entre ele e as balas que voavam por toda a parte.
O trigêmeo que estava mais perto ficou sem munição em um momento oportuno, Bucky avançou sobre ele fazendo a arma voar em um lugar qualquer, preferindo um confronto corpo a corpo, como se apenas a violência crua pudesse acalmar sua revolta interior. Os disparos vindos de outros lugares cessaram, afinal seria impossível atingir Barnes, sem atingir o outro homem.
Cada golpe era barrado mecanicamente, a raiva sendo usava como única motivação, qualquer escrúpulo afogado na dor de perder Savannah. Bucky sequer enxergava o que estava atingindo, sequer se importava com a lógica de seus movimentos.
Do outro lado os dois homens restantes se separaram, ao mesmo tempo que um avançou na briga, o outro seguiu para o helicóptero, assumindo o lugar do piloto enquanto as hélices giravam acima da cabeça deles.
Bucky fez seu oponente cambalear para trás quando conseguiu atingi-lo com o punho de vibranium, mas isso o deixou vulnerável a um golpe do trigêmeo com as tatuagens no braço. No entanto, o soco certeiro lhe abalou menos do que a dor que já dilacerava seu peito. Ele segurou o punho do homem no ar e o torceu para trás, enquanto usava isso de impulso para jogar os dois pés na direção do primeiro, que novamente se aproximava, atingindo-lhe o peitoral e fazendo com que o grandão rolasse pelo chão.
Os dois eram rápidos e sincronizados, Bucky apesar dos esforços e fúria foi golpeado nas costelas e rosto. Sim, os russos eram fortes e focados, mas não tinham algo que Barnes possuía de sobra naquele instante. Motivação. Ambos ali seguiam ordens, frios e duros, totalmente impessoais.
O próprio Bucky sabia como era isso, porque nunca havia levado nada para o lado pessoal na vida, mesmo quando lutava na guerra ou se envolvia em brigas de rua por causa de Steve, não era pessoal. Assim como não foi durante todo o tempo que passou sobre o controle da hidra... E se fosse honesto, mesmo quando fugiu, quando lutou contra as autoridades que invadiram seu esconderijo em Bucareste, quando enfrentou os Vingadores ou mesmo quando Tony Stark estava tentando lhe matar. Nunca foi pessoal.
Ele era o Soldado Invernal e todas aquelas pessoas se opunham a isso, e de certa forma até o próprio Bucky se opunha...
A luta contra o exército de Thanos era impessoal também, ele apenas se colocou do lado certo pelo bem maior, mas não era sobre Barnes, nunca foi sobre ele. Sempre havia uma batalha, uma guerra, um inimigo, porém nunca considerou nada disso sobre si mesmo.
Até aquele momento.
Lucia Von Bardas tinha tornado tudo pessoal, não por sequestrá-lo e querer o Soldado Invernal de volta, não por todas as atrocidades que tinha ordenado antes, não por seus desejos megalomaníacos, sequer era por causa da tortura ou por ter a petulância de dizer as palavras gatilho... Era pessoal porque aquela mulher ousou tocar em Savannah.
E isso Bucky nunca perdoaria.
Atingiu o estômago do oponente mais próximo e o empurrou na direção do outro com violência, usando o peso de um irmão contra o outro e ganhando alguma vantagem naquela briga claramente desequilibrada.
— Sério? Todo esse comportamento por causa de uma simples garota? — A voz de Lucia Von Bardas soou acima do ruído incessante das hélices. — Nunca ouviu dizer que o mar está cheio de peixes?
Bucky ergueu os olhos azuis, os dentes trincando um contra o outro tamanho o ódio com o qual enrijeceu o maxilar, nunca tinha sentido desejo latente de matar alguém em toda sua vida, mesmo na guerra, mas queria matar aquela mulher. Queria ver a vida sumir do rosto dela, queria que fosse lento e cruel. Era um instinto tão insano e poderoso que ele chegou a cogitar que não fosse inteiramente seu e sim parte do que ainda havia do Soldado Invernal dentro de si, um fragmento da maldade da Hidra, o resto de gelo em seus ossos.
Mas sem o sol de Savannah em sua vida, pouco importava que tudo fosse consumido pela nevasca.
— Além disso, quando o Soldado voltar toda essa dor vai sumir, não se preocupe. — Ela gritou de novo e seu deboche fez com que cada pequeno músculo no corpo de Barnes reagisse em pura cólera.
Aproveitando o momento em que os dois oponentes se erguiam, ele jogou o corpo para a esquerda, rolando no piso frio e pegando a arma caída no caminho, não teve como se preparar ou se posicionar, da forma que parou ele mirou e puxou o gatilho, Von Bardas tentou se esquivar dentro dos limites do helicóptero, mesmo assim o projetil lhe atingiu no ombro, Bucky soube por causa das faíscas do metal e do grito irritado que ela soltou.
Se preparou para outro tiro, mas foi imobilizado no chão por um dos trigêmeos, tudo era rápido demais ali, um segundo e a situação já tinha mudado totalmente de figura, então a vantagem estava com o lado oposto.
O pé do grandão russo pressionava sua coluna, mas Bucky apenas respirou fundo antes de forçar o máximo o braço de vibranium para alcançar o calcanhar do homem no mesmo instante em que o chão começou a tremer.
Jogou o oponente para o lado oposto e rolou outra vez no piso que tremia para escapar de um golpe vindo do segundo homem. Jogou as duas pernas para cima e impulsionou o corpo junto, se colocando de pé e firmando o equilíbrio enquanto o solo se movia.
Só então notou que estava sobre uma plataforma e enquanto ela subia o teto do lugar se abria para a saída do helicóptero.
Com a arma ainda em punho teve tempo de mirar e atirar uma vez mais, antes que um soco potente lhe atingisse o maxilar, o tiro atingiu o outro oponente de raspão na perna e Bucky teve que se esquivar rapidamente, antes que o Russo que tinha as tatuagens no braço lhe atingisse outra vez.
O tremor da plataforma os jogou no chão, rolaram um por cima do outro distribuindo golpes violentos enquanto o outro homem mancava em direção helicóptero.
Com o solo firme abaixo de si, Bucky foi o primeiro a se levantar, jogando o cotovelo metálico na direção do estômago do oponente, enquanto esse tentava lhe firmar com uma chave de braço.
Colocou-se de pé e viu que estavam em uma planície na lateral das montanhas, sem nem sinal da estrada ao redor, focou na Ministra, protegida dentro do helicóptero e seguiu naquela direção em passos firmes.
Viu o medo no semblante feminino pela primeira vez e fechou o punho de vibranium, sentindo o metal ranger. Ela merecia isso...
Estava perto o bastante quando foi jogado no chão, sentiu o murro lhe atingir o meio do rosto logo em seguida e teve que piscar algumas vezes totalmente desnorteado, outro soco bem dado e sua cabeça bateu contra o chão no impacto, tudo ao redor rodou e saiu de foco.
— Ou ir com Madame, ou ter que matar Soldat. — O Russo disse, preparando outro golpe. Bucky respirou fundo e reuniu toda sua força para desviar a cabeça, tentando mover o corpo para a esquerda.
Seu oponente bateu o punho esquerdo no chão, quase deu para ouvir os ossos estralarem, embora ele não tenha parecido se importar com isso. Barnes tentou se desvencilhar totalmente, mas estava ainda um pouco tonto pelos socos direto no rosto. Foi puxado de volta e logo havia um braço musculoso ao redor de sua garganta.
Atingiu o homem com o cotovelo, mas daquela vez ele parecia mais preparado para receber os impactos.
O helicóptero começava a sair do chão, Bucky foi praticamente arrastado naquela direção enquanto continuava a golpear seu oponente com o cotovelo, mas parou quando notou os olhos de Lucia Von Bardas em si, muito atenta a cena.
— Eu acho melhor me matar, porque eu nunca vou ceder e eu nunca vou parar de te caçar, sua louca psicótica. — Ele a enfrentou, mesmo que estivesse em clara desvantagem naquele momento.
Ficou explícito no semblante feminino que as palavras não tinham agradado em nada. Ela estendeu a mãos direita e logo um dos trigêmeos no helicóptero lhe entregou um rifle de alto calibre.
— Foi como Nik disse, ou vem ou morre, e acho que você deixou seu ponto bem claro. — Ela apontou para Bucky e ele a desafiou com o olhar, como se tivesse um desejo quase suicida pela morte. — Não é o que eu queria, mas você sabe demais...
Se aquele era seu fim, então não abaixaria a cabeça.
Viu quando Lucia puxou a trava e esperou pelos sons do tiro, mas os disparos não vieram dali e sim de um ponto acima atingindo a lataria do helicóptero e fazendo com que a Ministra se refugiasse lá dentro.
Bucky ergueu um pouco o rosto e viu a figura alada bem conhecida.
— Sério que começaram a festa sem mim? — O Falcão jogou em um gracejo, enquanto efetuava mais uma série de disparos no helicóptero que decolava rapidamente.
Barnes sentiu o aperto ao redor de seu pescoço aumentar, Von Bardas estava claramente fugindo e deixando não apenas um de seus trigêmeos para trás, mas também o cientista desmaiado dentro da instalação. Ela não se importava com ninguém...
Mais disparos, dessa vez focados em Sam, que teve que fazer manobras evasivas no ar. Bucky aproveitou o rasante que passou bem próximo deles e que havia tirado por um segundo o foco de seu oponente, então impulsionou a coluna para trás, segurando os braços tatuados do Russo quando se curvou, fazendo com que o corpo do homem passasse sobre suas costas e fosse arremessado no chão, usando a gravidade e o próprio peso do grandão como vantagem.
O homem chamado Nik, no entanto, rolou no solo com destreza e ficou de pé em um simples instante, separando as pernas e assumindo a posição de combate, com os punhos erguidos na altura do rosto.
Os dois se encaram, dando passos cautelosos em um quase círculo, ambos buscando o ponto fraco de seu oponente, enquanto o helicóptero sumia de vista com Sam em seu encalço...
O Russo avançou primeiro, rápido e certeiro em um golpe que Bucky aparou com o punho de vibranium, uma vez e outra. Cada vez que um deles avançava o outro recuava e defendia como se tivessem ensaiado uma coreografia.
Tendo lutado com os três irmãos, Bucky já tinha noção que aquele era o mais preparado deles, parecia mais forte também...
Analisou o jogo de pés, procurando por uma falha ou ponto fraco conforme atacava com socos, invertendo os cruzados. Nik era canhoto pelo que Barnes pôde notar, o que deixava o lado direito com uma pequena brecha de ataque que, é claro, foi usada assim que a oportunidade surgiu. O punho de vibranium acertou o lugar exato da brecha, um ponto logo abaixo do cotovelo, entre o quadril e o meio das costelas.
Viu o homem cambalear para trás, mas tentar revidar, Barnes segurou o braço tatuado e o torceu de uma vez só, ouvindo o osso estralar. Nik ainda tentou revidar usando a mão livre para dar um soco no maxilar do Soldado, mas isso não o abalou realmente.
Ainda segurando o braço tatuado com a mão de vibranium, Bucky jogou a cabeça na direção do nariz de seu oponente. Uma, duas vezes. O homem cambaleou para trás e caiu no chão, deixando a brecha perfeita para um ataque fatal.
Tudo que Barnes teria que fazer era agir, e Nik estaria morto.
Uma parte de si queria isso, morte e vingança, porém nem tudo era sobre seus piores instintos...
— Savannah disse que você está sendo controlado... — Bucky declarou, colocando a mão para trás e sacando a arma de luzes azuis em seu cós. — Saiba que é só por isso que eu não vou matar você.
Nik ergueu a cabeça um tanto confuso, mas não teve chance de dizer nada, antes que três disparos lhe atingissem no peito e ele caísse desmaiado ali no meio da planície.
Bucky jogou o ar para fora dos pulmões, abaixando a arma de uma só vez como se seus braços pesassem uma tonelada. Todos os seus músculos doíam, tinha certeza que algumas costelas estavam trincadas e meia dúzia de tiros haviam pegado de raspão em alguns lugares. Além disso a cabeça latejava sem parar, certamente por causa de todos os choques. E mesmo assim nada chegava a doer de verdade, comparado a realidade da ausência de Savannah...
Passou a mão direita rudemente abaixo do nariz, esfregando o sangue que ele podia sentir grudado em sua pele. Enquanto isso ouviu atentamente, mas não havia nem sinal do helicóptero ou dos tiros.
Merda.
Deu uma olhada no corpo desmaiado de Nik e ponderou que o homem não acordaria tão cedo, poderia correr alguns quilômetros e ver se encontrava com Sam.
Mal tinha decidido isso quando o som da folhagem próxima lhe alertou, mesmo sabendo que a arma era equipamento com zero de letalidade mirou naquela direção pronto para disparar em quem fosse...
Assim que os dois pares de olhos se encontraram Bucky relaxou, ao mesmo tempo que a outra pessoa erguia as mãos em rendição.
— Perdi eles. — Sam resmungou derrotado, mostrando o equipamento de voo avariado, mesmo que seu estado físico deplorável, todo arranhado e com o visor quebrado já indicasse sua queda.
Bucky quis sentir raiva da fuga, mas talvez estivesse anestesiado por outras dores para se importar, ou talvez no fundo soubesse, desde o começo, que acabaria daquele jeito... Nunca uma guerra foi vencida na primeira batalha, claro que não seria sortudo o bastante para acontecer justo daquela vez.
Apenas mais uma derrota naquele dia, mais uma decepção na conta... Talvez fosse o universo finalmente dando o que Bucky merecia.
Tentou se agarrar a raiva, como se isso fosse lhe proteger de sentir toda a dor que estava por trás disso, mas a verdade era que, com raiva ou sem, a dor era a mesma. E não ia passar tão cedo.
— Esse aí está morto? — Sam apontou o russo no chão, e deu um cutucão nele com a ponta da bota.
— Só apaguei ele. Parece que é controlado por um chip intraneural. — Barnes respondeu simples, movendo os ombros sem qualquer ânimo.
— O que esse povo da Hidra tem com controle mental, hein? Não podem apenas pagar os capangas? — Wilson negou algumas vezes em clara desaprovação, então mediu Bucky dos pés à cabeça, unindo as sobrancelhas em preocupação. — Você está bem?
— Não é nada. — Respondeu, limpando o próprio rosto uma vez mais, porém sentindo que ainda estava manchado de sangue. — Tem um cientista lá dentro desacordado. Talvez um dos dois saibam de alguma coisa sobre o destino da Ministra.
Tinha que ser prático e focar no que poderia fazer naquele momento, Von Bardas ainda era um problema e precisava ser detida.
— Controlado também? — Sam questionou e Bucky se limitou a negar em um movimento curto. — Bom, vou ligar para a Sharon, vamos precisar de transporte.
Enquanto Wilson caçava o celular no traje, Barnes respirou fundo, encarando o nada por um tempo. Logo teria que contar o que aconteceu, não só para Sam, mas também para todos os amigos de Savannah, teria que dizer a eles como tinha falhado em protege-la de seus problemas, teria que contar que arruinou a vida dela de uma forma irremediável...
Talvez fosse algum tipo de maldição; destruía tudo aquilo que tocava.
— Eu teria vindo antes, mas os amigos da Savannah só me acharam agora de noite. — Sam comentou em um tom de desculpas.
Bucky assentiu, forçando um sorriso nada verdadeiro, todos eles tinham se unido para ajudá-lo de alguma forma, mas Barnes sabia que não merecia ajuda de ninguém.
Até para o próprio Wilson aquilo era perigoso demais, ele tinha acabado de despencar do ar e estava ali de pé como se nada tivesse acontecendo.
— Falando nela, a garota foi esperta, eu não teria achado o lugar se ela não estivesse seguindo seu rastro. — Bucky sentiu aquelas palavras lhe cortarem por dentro em um milhão de pequenos ferimentos que nunca fechariam. — O celular dela perdeu sinal faz umas horas, segundo aquele menino TJ, mas o outro celular que ela trouxe.... do Gus, eu acho, ainda...
Sam parou repentinamente, seus olhos focados em Bucky de um jeito analítico.
— O que aconteceu? — Perguntou, certamente vendo algo na postura do soldado.
Barnes o encarou por alguns instantes que pareceram longos demais, os olhos azuis se enchendo de água, engoliu o nó em sua garganta, tentando encontrar as palavras que pareciam lhe envenenar por dentro.
— Ela... — Não conseguiu terminar, sentiu que seus pulmões podiam colapsar sem ar, como se um pedaço de si mesmo faltasse e como se nunca fosse conseguir ser completo ou respirar corretamente outra vez. Não teve forças para fazer nada mais que negar e desviar o olhar.
Não conseguia dizer em voz alta.
Sam entendeu então.
— Bucky, eu... — Percebeu que o amigo procurava as palavras certas, mas sentiu que não aguentaria ouvi-las.
A realidade de repente havia se tornado pior que todos os seus piores pesadelos.
— Eu preciso de um ar, pode cuidar de tudo? — Desconversou, sabendo que era apenas uma desculpa.
No fundo sabia que seu instinto de fuga não o salvaria daquela vez, nada daquilo sumiria apenas porque Bucky não estava pronto para encarar a verdade, cedo ou tarde ele teria que lidar com todos aqueles problemas. E ele sabia disso.
Mas realmente precisava de um minuto, mal aguentava o próprio peso naquele momento e isso não tinha nada a ver com seus ferimentos físicos.
— Vai lá, eu cuido de tudo, vou dar uma geral no lugar e ver se acho mais alguma coisa. Também vou amarrar os dois caras e ligar para Sharon. Tenho tudo sob controle, um ar vai te fazer bem. — Wilson respondeu de forma solicita e até pareceu que queria se aproximar, mas não fez isso.
Bucky assentiu novamente, meio para o nada. Deu alguns passos para trás e virou as costas, mas parou por um segundo e olhou por cima do ombro.
— Obrigado por vir, Sam. — Disse apenas, antes de seguir em direção as montanhas.
Sua boca tinha o gosto amargo de derrota e decepção, sabia que teria que conviver com isso, com o peso em seus ombros e o gelo que tinha se alojado em seus ossos em seus ossos novamente e que parecia oprimir seus pulmões e perfurar seu coração.
Desde o começo sabia que não merecia Savannah, mas nunca imaginou que seria a ruína dela...
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Sempre pensou muito sobre a própria morte, houve uma época em sua vida que fazia isso muito mais do que era saudável. Possuía uma lista mental de todas as formas rápidas de morrer, assim como possuía uma para suas preferidas... E entre todos esses pensamentos e hipóteses havia algo que sabia com certa convicção. Morrer pelo fogo não era uma opção.
Tinha uma relação de medo e fascínio com o aquele elemento. Não era segredo que sempre preferiu o frio ao calor, mas quando se tratava de fogo... da beleza da chama e da sua estranha aura ameaçadora, havia algo que lhe enfeitiçava.
Quando tinha cinco ou seis anos sua mãe costumava ascender velas; eram perfumadas e dos mais diversos tipos e tamanhos, gostava de se sentar no tapete e observar as chamas por horas, como se formas misteriosas dançassem nelas.
Suas memórias trouxeram um dia específico a sua mente, uma tarde qualquer em que fez mais que apenas olhar... Sua curiosidade quase causou um incêndio e deixou uma queimadura leve de brinde, teria sido pior se sua mãe não houvesse chegado no momento exato. Porque de alguma forma ela sempre chegava, quase como se soubesse dos detalhes de tudo na vida antes mesmo que acontecessem...
Pensou que levaria uma bronca, mas na verdade podia contar nos dedos as vezes que a mãe tinha brigado consigo, aquele dia em questão a única coisa que ouviu, enquanto um curativo era feito em sua queimadura foi: “Tudo nessa vida acontece por uma razão. Podia ter sido bem pior, mas hoje você aprendeu que o fogo não é brinquedo. É nosso dever respeitar aquilo que não podemos controlar”.
Tudo nessa vida acontece por uma razão... Essa frase sempre esteve em sua mente, mas tinha até esquecido de onde viera.
Essa lembrança também lhe trouxe outra, como um novelo de lá que se desenrola aos poucos; recordou que as chamas consumiram parte de um belo desenho que a mãe havia feito naquela manhã, era um hobby corriqueiro e quase secreto, porque ninguém nunca via as pinturas. E, como a criança curiosa que era sempre queria vê-las e era frustrante não poder.
Naquele instante pôde lembrar com requinte de detalhes do papel chamuscado que a mãe salvou antes que se perdesse para sempre nas chamas, o desenho pintado em cores fortes e tão opostas lhe gravou na mente como o impacto de um lindo conto de fadas. Azul e laranja. Fogo e gelo. Um lobo branco e uma raposa, enroscados como yin e yang...
Não que uma criança de seis anos soubesse o que era yin e yang, mas agora, anos depois, ela sabia... mas por que justo essa lembrança tinha lhe voltado à mente naquele momento?
Com o correr do tempo e a vida acontecendo, o desenho ficara esquecido em sua memória, quase como se nunca estivesse existido, mas agora ali estava perfeito em sua mente, quase como se o tivesse visto naquela manhã...
E então, como um clique que acende um interruptor e clareira todo o ambiente, ela se deu conta da própria consciência e dos próprios pensamentos, assim como pôde sentir o calor ameno que lhe envolvia, enquanto tudo passa depressa, negro porém brilhante, como uma alma no túnel para o além.
Era isso que estava acontecendo?
Aquilo era sua alma correndo para o céu? Ou talvez para o inferno? Era rápido e confuso, como se o vento a puxasse para fora de algo. Quente, cada vez quente...
Era como ter febre, mas ao mesmo tempo ameno como estar em uma banheira na temperatura exata. O curioso é que o calor parecia fluir de si e através de si, e mais curioso ainda era não sentir uma forma corpórea de verdade.
Uma alma era assim?
Era como flutuar, mas não isso de fato, porque sentia que corria, rápido muito rápido, até ver a luz no fim do túnel... A baforada de ar frio que veio do ambiente aberto lhe ofuscou todos os sentidos por um instante. Seus pés tocaram o chão, mas não pareciam pés realmente, não os sentia assim.
Morrer era estranho.
Parou então, quieta, silenciosa, quente, sempre tão quente... Notou que tinha fechado os olhos por reflexo, uma alma tinha olhos? Ao seu redor os sons e cheiros tinham sumido, havia apenas um crepitar lento e constante em seus tímpanos. Se é que tinha tímpanos...
Abriu os olhos, ou o que pensou serem olhos, e a visão lhe veio em tons alaranjados e quentes, sempre imaginou o paraíso como um lugar azul, em pelo menos tons claros talvez, mas no momento tudo parecia visto através do fogo. Parecia de noite, mas ainda assim quase como se estivesse sob um filtro sépia de tons laranjas.
Porra, tinha ido parar no inferno!
O centro do peito, onde devia ser seu coração, bombeava rápido demais, algo corria em suas veias fervente como lava e disparava uma adrenalina nunca antes experimentada. Correu então, não porque queria, não porque fugia, não porque tinha um destino, apenas precisava correr.
O mundo laranja em sua visão era parecido com o mundo dos vivos, exceto pela cor, além disso era estranho vê-lo daquela forma, porque se sentia menor do que era realmente e muito mais quente.
Essa talvez fosse a única constante, o calor flamejante dentro de si, emanando, indo e vindo, ameno e ao mesmo tempo fervente. Era estranho, mas por algum motivo parecia... certo.
O ambiente montanhoso culminou em uma grande lagoa alaranjada. Até a água ali tinha aquela cor.
Parou na beira, a lua refletia na água, não azul como sempre, tudo ali tinha tons sépias, curvou-se então, queria ver no reflexo como era uma alma, que forma tinha, se é que tinha alguma forma.
Sua visão bateu na figura brilhante e levemente distorcida pelas águas. A primeira coisa que notou foram as chamas, estavam por toda a parte como se fosse feita delas e elas se amontoassem em um formato especifico... e logo não havia qualquer estranhamento, porque conhecia aquela figura, já a vira em seus sonhos... era uma raposa.
Savannah Devenport era a raposa feita inteiramente de fogo.
O espanto repentino fez com que escorregasse nas pedrinhas da margem e lentamente — ou rápido demais, era um conceito estranho — caísse na água. Era mais funda do que parecia, mas lhe trouxe a sensação imediata de familiaridade, de movimento, espaço... corpo.
Quando emergiu seus pulmões buscaram por ar, a respiração ofegante, como se nenhum oxigênio bastasse, como se algo primordial faltasse ali. Instintivamente levou as mãos ao rosto para afastar as gotículas que cobriam seus olhos... sim tinha mãos e olhos e um cabelo cumprido colado em seu corpo molhado, como se a água tivesse apagado as chamas e lhe devolvido a forma humana.
E simples assim nada mais era laranja, tudo era totalmente comum, uma noite no meio de uma mata qualquer.
Puta merda, o inferno era estranho...
Saiu da água, sentindo as pedrinhas sob os pés descalços e a dorzinha incômoda que vinha com isso. Pessoas mortas sentiam dor? O vento gelado lhe atingiu o corpo nu e ela tremeu, pingando na grama onde um rastro negro e queimado era perfeitamente visível. A raposa de fogo tinha feito aquilo?
Com as sobrancelhas franzidas para a peculiaridade de estar morta, Savannah ergueu as mãos no intuito de torcer a água que pingava de seus cabelos, mas não precisou de mais que um piscar de olhos para que seus dedos inflamassem em chamas vivas.
Sacudiu os braços no susto, querendo se livrar daquilo, mas de nada adiantou, o fogo cobriu seu corpo e a secou em instantes, incluindo seus fios ruivos, que ela checou imediatamente, não queimaram nem um milímetro.
— Que bizarrice do caralho é essa?! — Disse a si mesma, em um sussurro quase interno.
Estava morta, nua na frente de um lago, depois de virar uma raposa de fogo. Fogo esse que cobria seu corpo naquele momento e não lhe queimava em absolutamente lugar algum...
Parou então, estática, a mente trabalhando sozinha rápido demais, não podia ser, podia?
Sem pensar muito seguiu o rastro na grama, o fogo lhe rodeando ameno, quase um amigo estranho que não ia embora nunca, enquanto ela mantinha os braços na frente dos seios, em uma tentativa inútil de cobrir sua nudez.
Não precisou ir tão longe para ver a montanha, tampouco a saída de ar na base dela. Puta merda!
Não estava no inferno...
Sua cabeça rodou, ou talvez tinha sido o céu e o mundo todo, se sentiu repentinamente exausta, como se tivesse consumido toda a energia de seu próprio corpo em um piscar de olhos.
Não estava morta.
Estava apenas do lado de fora do esconderijo da maluca psicopata...
Algo certamente acontecera consigo naquela câmara, algo poderoso o bastante para fazer com que seu corpo resististe a incineração, virando chamas e sendo sugado para fora pelos dutos de ar.
Como em seus sonhos, Savannah Devenport havia se tornado uma raposa flamejante...
Tocou a tatuagem instintivamente, lembrando do que o desenho em seu quadril significava. “Não importa o que aconteça, não importa o quanto a situação esteja ruim, eu sempre vou sair do fogo”.
Puta merda! Aquilo era mesmo possível?
O som de galhos se quebrando bem perto, fez com que Savannah virasse automaticamente, passos pesados se aproximavam, o fogo ao redor de si aumentou como um instinto protetor automático, enquanto ela colocava os braços na frente dos seios outra vez.
E então, quanto orbes azuis lhe tocaram, totalmente confusas e admiradas, Savannah sentiu os pulmões se encherem de alivio, finalmente respirava direito. Como se seu mundo fosse completo outro vez...
— James... — Disse, observando cada passo incerto que ele dava em sua direção depois de sair do meio das árvores, como se apenas estivesse caminhando por ali sem destino.
Ele a olhava como se Savannah fosse um fantasma, uma aparição irreal e um tanto mágica. Parado perto o bastante seus olhos vermelhos e marejados refletiram as chamas que vinham dela, mas sem qualquer receio James ergueu a mão de vibranium na direção do rosto feminino.
Ela sim temeu pudesse ferí-lo, mas não teve qualquer força de vontade para se afastar, apenas fechou os olhos e esperou o metal frio tocar sua pele. Era como estar em casa depois de muito tempo. E todo o fogo se foi, como mágica, como se fosse uma extensão de sua própria vontade e soubesse que, mesmo que pudesse queimar o mundo todo, jamais permitiria que uma só chama tocasse nele.
— Savannah... — A voz rouca chamou, quase para se certificar que aquilo era mesmo real.
Ela sorriu, ergueu a mão direita e traçou a linha da barba de seu sargento com carinho. James estava claramente ferido, a pele manchada de sangue, quase como se tivesse acabado de sair de uma briga violenta. Savannah quis perguntar como ele tinha escapado e o que tinha acontecendo com a maluca psicótica, mas quando James apenas fechou os olhos, totalmente pacifico, deitando um pouco o rosto na direção da mão dela, como se necessitasse prolongar o contato com a pele quente, todo o resto ficou em segundo plano.
Ele suspirou, quase como se seus pulmões necessitassem de um ar que só pairava ao redor de Savannah, então uma lágrima pesada rolou livre por seu rosto. Ela se aproximou um pouco mais, ficando na ponta dos pés para que seus lábios tocassem os dele com carinho, apenas um beijo leve e doce, como se quisesse provar que estava mesmo ali.
— Oi... — Murmurou, quando os olhos azuis se abriram novamente e focaram nos seus, tão calma e simples que era como se nada de estranho e terrível tivesse acontecido alguns momentos atrás. Fora há apenas alguns momentos atrás, certo?
James vasculhou o corpo dela com os olhos e pareceu notar o óbvio, estava nua. Tirou a jaqueta rapidamente e passou por cima dos ombros femininos, ajeitando a peça com cuidado.
— Como? — Ele perguntou, claramente confuso, quase como se não acreditasse nos próprios olhos.
— Não sei bem.... — Savannah soprou focando os olhos nos dele. — Mas eu acho... acho que sou uma inumana.
Viu James absorver aquelas palavras devagar demais, por isso cortou o espaço restante e apenas colou o corpo no dele, o envolvendo e afundando o rosto em seu peitoral, precisava estar perto, precisava que a distância acabasse finalmente...
Não demorou para que fosse envolvida pelos braços fortes em um abraço acolhedor e quase desesperado, James afundou o rosto entre os fios ruivos e a segurava como se Savannah fosse apenas desaparecer de uma hora para a outra, mas ela não se importava, estava onde queria estar.
Estava exatamente onde devia estar... e sabendo disso, deixou que o cansaço anormal lhe abatesse, afinal James estava ali, eles estavam juntos.
Tudo ficaria bem...
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