Inverno Ardente
20 Adeus
Notas iniciais

Eu preciso de um verão,
mas o verão veio e se foi
Eu preciso de um verão,
mas é inverno no meu coração...
Winter in My Heart — Vast
✪ ✪ ✪ ✪ ✪
Bucky Barnes sabia que já tinha feito incontáveis coisas terríveis na vida, e se culpava por cada uma delas todos os dias, os pecados do Soldado Invernal sempre pesariam em suas costas, mas naquele momento a coisa terrível que tinha feito nada tinha a ver com seu alter ego, não era fruto de uma lavagem cerebral da qual ele não podia resistir, não era ordem de outra pessoa, era culpa dele e apenas dele...
Já tinha sofrido todo tipo de tortura, já havia sentido o gelo em seus ossos, conhecia a dor de perto, mas nada tinha sido capaz de partir seu coração como a lágrima que viu escorrer do rosto de Savannah.
Ele tinha feito aquilo que mais temia, ele a machucou.
Depois disso, todo o resto deixou de ter importância, as coisas aconteciam ao redor, mas tudo que Bucky conseguia era pesar o significado de suas palavras. “Isso não tem nada a ver com você”, foi isso que ele disse que foi capaz de ferir a última pessoa no mundo que merecia isso.
Honestamente ele ainda não entendia o posicionamento dela, mas entender tinha pouca importância naquele momento, porque havia magoado Savannah e isso era tudo que realmente possuía alguma relevância... Ele não tinha esse direito.
Por outro lado, também não podia permitir que a memória de Steve fosse maculada daquela forma, faria qualquer coisa pra proteger o amigo, mas esse “qualquer coisa” não incluía machucar Savannah Devenport.
No fim não era culpa de Steve e muito menos de Savannah, era sua própria culpa, ele era o problema ali, ele mesmo fez tudo errado... Desde o começo já sabia que não devia ter entrado na vida dela.
Porque Savannah não era obrigada a gostar do Capitão Rogers, assim como Steve não era obrigado a corresponder aos sentimentos do melhor amigo. Bucky não tinha o direito de exigir nada de nenhum deles. Devia ter ficado calado.
Tinha o dever de pedir desculpas, mesmo que soubesse que isso não consertaria nada. Era o mínimo que podia fazer: pedir perdão e torcer para que ela não o odiasse pra sempre, porque sabia que a amizade dos dois acabaria ali, porém não conseguia suportar a ideia de viver em um mundo em que Savannah o odiaria...
Ela estava do outro lado da sala naquele instante, tinha uma garrafa de cerveja na mão, mas seus olhos estavam perdidos em um ponto fictício, não havia sol nela, e Bucky sabia que era o responsável por isso.
Teria pedido perdão no exato instante que a primeira lágrima dela rolou, mas ficou paralisado e esses segundos desperdiçados custaram caro, porque no instante seguinte não estavam mais sozinhos. Abigail chegou trazendo consigo Sierra, a ex-namorada de Savannah.
Ele nunca a tinha visto pessoalmente, mas sabia que estava fora do país a trabalho nos últimos dois anos. Tudo que teve tempo de fazer, enquanto a jovem loira e alta entrava no apartamento e envolvia Savannah em um abraço apertado, foi abaixar a manga da camisa e pegar a luva no bolo traseiro do jeans. Escondeu a mão de vibranium mesmo sabendo que era um tanto idiota, afinal como todos os outros amigos de Savannah, Sierra também devia saber quem ele era.
Não demorou muito para que os olhos azuis escuros dela pousassem nele, foram apresentados formalmente então. “Esse é o Bucky” tinham sido as exatas palavras de Savannah.
Desde quando era Bucky e não mais James?
Ele se esforçou para ser educado, não podia estragar o dia de mais ninguém, porém a verdade é que se perdeu na própria mente tão logo deixou de ser o foco dos presentes.
Depois disso não demorou para que TJ e Gus chegassem, a casa se encheu de sons e risadas e naquele instante todos, exceto Bucky e Savannah, estavam fazendo um tour pelo apartamento.
Alguém, sequer lembrava quem, tinha lhe dado uma cerveja, mas a bebida permanecia intocada em sua mão direita, enquanto a esquerda estava no bolso do jeans. As vozes se espalhavam alegres e empolgadas, era a primeira vez que Bucky via Savannah longe da animação.
Evitava contato visual com ela, sentia que não era digno disso, sabia que tinha que pedir desculpas, mas não sabia como. Com certeza não ali, no meio do que em breve seria um pedido de casamento... No fundo queria ir embora, porque seu coração doía e seus pulmões estavam sufocando, mas não tinha o direito de deixar um clima estranho no ar, era o momento de TJ e Gus, não podia estragar isso também.
— Não, sério, esse lugar é incrível! — Ouviu a voz de TJ e logo todos estavam na sala. — De quem é?
Gus focou os olhos em Bucky, como se pedisse para que ele falasse, esse era o combinado afinal, mas o combinado não incluía Sierra. De toda forma, se ela estava ali, era porque todos confiavam, e quem era ele para questionar a confiança daquelas pessoas.
— Era do Steve. — Revelou finalmente e os olhos de TJ se arregalaram.
Savannah deu dois passos para trás e bebeu a cerveja em um gesto irritado.
— Rogers? — TJ questionou incrédulo, Bucky assentiu. — O Steve Rogers? Capitão América?
Ele concordou outra vez, queria poder falar abertamente de tudo, assim como tinha se preparado quando Gus lhe contou seus planos, mas sabia que citar Steve depois da briga seria desrespeitoso...
Era por esse motivo que também sabia que não poderiam mais ser amigos depois disso. Não queria ferir Savannah de nenhuma forma, mas também não podia desrespeitar a memória de Steve e agir como se ele não existisse ou fosse importante.
Depois de tudo que o melhor amigo fizera por ele, Bucky não tinha o direito de ser ingrato...
— Está dizendo pra mim que o Capitão América escovava os dentes naquela pia? — TJ apontou, e Bucky quis rir da coincidência, porque era exatamente o que Gus dissera quando descobriu quem era o dono do apartamento.
Os futuros noivos surtaram com isso um pouco, e Bucky ficou satisfeito que estivessem felizes. Alguém tinha que estar afinal.
— E você vai morar aqui? Já aviso que vou vir todos os dias. — TJ se voltou para Bucky novamente, em seguida procurou Savannah com o olhar. — Savy, sinto muito, mas você perdeu seu posto, oficialmente.
— É eu sei... — Ela disse apenas, com um sorriso que até pareceria verdadeiro, caso Bucky não estivesse tão acostumado com os sorrisos-sol que Savannah dava.
— Na verdade eu não vou morar aqui não. — Bucky respondeu, apenas porque tinha que continuar com os planos de Gus, porque na verdade não queria ouvir o som da própria voz nunca mais.
— E quem vai? — TJ perguntou, franzindo as sobrancelhas e todos ao redor sorriram, até Savannah.
— Nós... Se você quiser. — Gus apoiou um dos joelhos no chão e tirou a caixinha de veludo do bolso, revelando o anel. — Thomas Jefferson West, você quer se casar comigo?
Os olhos azuis de Bucky instintivamente procuraram pelos avelãs, mas Savannah tinha toda sua atenção na cena. Como tinha sido tão covarde em magoar aquela garota?
— Não... — Ouviu a resposta de TJ e teve que piscar algumas vezes sem entender. — Não. De jeito nenhum, sem chances. Eu não vou me casar você.
Gus se levantou surpreso, Bucky pode vê-lo tremer. Abby colocou a mão na boca, estarrecida com a cena, Sierra por sua vez procurou Savannah com o olhar, como se ela fosse a pessoa com todas as respostas, a ruiva apenas encarava a cena com um sorriso discreto nos lábios.
— É você que tem que se casar comigo, seu idiota. — TJ completou, ajoelhando e também tirando uma caixinha de veludo no bolso.
— Eu não acredito. — Gus riu. Os dois tiveram a mesma ideia.
Todo mundo aplaudiu e riu, Bucky procurou Savannah outra vez, enquanto o casal de noivos se beijava depois de ter dito um sim mútuo, claro que ela sabia, era a melhor amiga de TJ, e sabia guardar um segredo como ninguém.
Os olhos dela saíram da cena e pousaram em Bucky, ele desviou o rosto rapidamente e encarou o chão. Engoliu em seco, não fazia ideia de como seriam as coisas dali em diante, mas teria que se acostumar a ficar longe de Savannah.
Eles brindaram juntos, felizes, descontraídos e falantes, mesmo que Bucky não compartilhasse de nenhuma dessas características. Logo estavam sentados por ali, ele era o único de pé perto da janela, Savannah estava ao lado de Sierra, a loira mexia nos fios ruivos e dizia algo que Bucky não podia ouvir, porque as vozes dos outros e a música alta encobriam tudo.
Elas pareciam muito intimas, Bucky as observou por um momento, Sierra tinha uma certa calmaria que ninguém mais da sala tinha, os movimentos dela eram leves, sua voz baixa e serena. Sabia que ela era a mais velha entre os amigos, mas não imaginou que ela de fato fosse aparentar tanta maturidade.
Ela combinava com Savannah, Bucky pode sentir o amargo na ponta da língua, mas reprimiu isso, não era da sua conta.
Seja lá o que as duas diziam, foram interrompidas por TJ que queria saber tudo que pudesse sobre o trabalho de Sierra, Bucky não sabia especificamente o que ela fazia, mas honestamente naquele momento não conseguia se importar o bastante com nada...
Foi flagrado por Savannah quando a observava, ele quis sustentar o olhar, mas não conseguiu, ela parecia tão triste, tão magoada e isso o quebrou em pequenos pedaços cortantes. Só uma pessoa terrível seria capaz de tirar o sol do sorriso dela...
— Eu não posso fazer isso, sabem que existe sigilo profissional, certo? — A risada de Sierra se espalhou pelo ambiente.
— Mas a gente não quer saber nada especifico, apenas como é trabalhar com gente que tem poderes. — TJ argumentou, em um tom de súplica e a palavra “poderes” capturou a atenção de Bucky. — Faz dois anos que você está nisso, Sierra, e nunca diz nada.
Ele não pôde deixar de perceber que embora Savannah e tratasse a loira por “S”, todos os outros a chamavam apenas de Sierra. O curioso era que Savannah também era “S” para a loira. Devia ser coisa de casal...
— O termo que usamos é “habilidade”, na verdade. — Sierra corrigiu TJ em um tom profissional. — “Poderes” pode passar uma ideia errada de grandeza e isso pode ser ruim em dois meios: complexo de herói ou uma pressão desnecessária de ser algo mais, quando a maior parte dessas pessoas só quer voltar a ter a mesma vida de sempre e se sente desconfortável na própria pele.
— Sierra tem formação dupla em psicologia e biomedicina. — Gus comentou, porque era o mais próximo a Bucky naquele momento e parecia fazer questão de incluí-lo na conversa.
— Ai meu Deus, Gus. Quando você fala assim parece que é uma coisa grandiosa. — Sierra riu sem-jeito. — Acredite, Bucky, não é. — Falou com ele com a casualidade de quem se conhecem as décadas, mas isso não era uma surpresa, todos os amigos de Savannah eram acolhedores. — Eu tenho pais que podiam bancar e já estavam em uma das áreas, então foi muito mais fácil. Tive que me esforçar e ter foco, claro, mas eles cuidaram das preocupações externas por mim. Quem trabalha, estuda e tem que se preocupar com questões financeiras tem muito mais mérito em uma única formação do que eu em duas.
Ela fez questão de explicar com um sorriso calmo e Bucky não pode deixar de notar o olhar carinhoso de Savannah.
— Além disso, eu ainda não sou uma biomédica, eu estou atuando na área porque lido com essas pessoas com habilidades sobrehumanas, mas não terminei a segunda formação ainda, sou terapeuta apenas, meu foco é a emocional deles. — Ela terminou, mas isso não diminuiu em nada a empolgação dos outros.
— Imagina que massa ter poderes? Tipo o Capitão América! — TJ exclamou eufórico e Savannah desviou o olhar.
— Habilidades. — Sierra corrigiu como faria uma professora. — E o Capitão América foi geneticamente modificado, não é minha área direta de atuação. Eu trabalho com pessoas que desenvolveram suas habilidades ocasionalmente, elas são parte deles, não foram implantadas.
Bucky franziu as sobrancelhas, não esperava que uma civil tivesse acesso aquele tipo de pessoas.
— E são muitos? — Abby perguntou. Estava sentada com Sierra também, mas do lado oposto ao de Savannah.
— Isso é uma pergunta profissional, senhorita jornalista? — A loira sorriu de canto, e Bucky pode perceber que, pelo visto, ela não trabalhava com algo que fosse disponível para todo o público.
— Não... — Abby respondeu e seu rosto inteiro ficou vermelho.
Bucky não entendeu a reação exagerada, mas isso se perdeu em sua mente quando Sierra começou a explicar um pouco mais de seu trabalho...
Ela fazia parte de uma equipe liderada por Moira MacTaggert, uma doutora em genética com fortes contatos no governo e na CIA, mas não eram um grupo chefiado ou bancado pelo governo ou por alguma agencia secreta. Moira era quem bancava tudo, era o trabalho da vida dela achar essas pessoas com habilidades especiais e ajudá-las como fosse possível, principalmente com integração social, por isso os psicólogos na equipe.
Os pais de Sierra também faziam parte do projeto e tinham ficado por lá, enquanto Sierra voltava para Nova York por alguns dias.
Ela disse que não podia explicar muito, mas que trabalhavam com dois grupos distintos, pessoas cujas habilidades eram acionadas por um agente externo, e aquelas em que o gatilho era interior. Bucky se perdeu totalmente na explicação genética da coisa, evolução, descendência, tudo isso parecia confuso demais pra ele, principalmente naquele momento.
Mas sua atenção se manteve na conversa, principalmente quando Sierra contou que eles tinham conseguido arquivos da Shield sobre um desses grupos. Inumanos. Ela não deu grandes detalhes, porque não podia. Mas aparentemente esse era o grupo em que as habilidades se manifestavam depois de contato com um agente externo, algo chamado “névoa azul”, eles denominavam essa transição de terrigênesis.
Enquanto TJ fantasiava sobre se tornar um Inumano com poderes inigualáveis, Sierra tentou explicar sobre o segundo grupo, eles não tinham um nome oficial ainda, mas Moira os chamava de “Mutantes”, tinham um gene especifico que ficava latente até que fosse despertado por um agente interno, geralmente um momento de grande tensão emocional.
O primeiro grupo descendia de humanos que haviam sido geneticamente modificados com sangue alienígena; o segundo grupo era, nas palavras de Sierra, fruto da evolução.
Bucky se pegou pensativo, nenhuma daquelas duas palavras jamais fora citada por algum dos amigos de Steve, no entanto uma delas, e todos os termos referentes a ela, pareceram muito familiares aos ouvidos dele: Inumanos.
Mas se os arquivos tinham vindo da Shield, Bucky não se surpreenderia nada se houvesse um dedo da Hidra neles também...
Porém não queria pensar nisso, já tinha muita coisa em mente para ainda se preocupar com uma organização nazista extinta. Ele esperava que estivesse mesmo extinta, pelo menos....
TJ continuava amontoando Sierra de perguntas, porque estava crente que encontraria um jeito de se tornar “super” exatamente como o Capitão América. Ele conseguiu enfiar o nome de Steve cinco vezes em uma única frase.
— Pra resumir, veja a todos os humanos como caninos, TJ. Alguns são lobos, alguns são coiotes, alguns raposas, outros chacais, e outros tantos apenas cães domésticos... — Savannah se colocou de pé enquanto falava, usando um timbre um tanto irônico e debochado, as palavras saiam depressa, quase como se ela as cuspisse. — Não importa quantas variações tem por aí, porque somos vira-latas, TJ.
— Estraga prazeres. — O rapaz cruzou os braços contrariado e o resto da sala acabou rindo, menos Bucky.
— Sério que você resumiu toda a minha teoria evolucional em uma analogia sobre espécies canídeas? — Sierra lançou, enquanto Savannah se afastava.
— É um dom. — A ruiva moveu os ombros, passou por Bucky em passos apressados e se dirigiu a cozinha.
— Se eu tivesse um dom, eu podia ser o novo Capitão América. — TJ lançou ao dar de ombros, mas Bucky não prestou atenção porque estava pensando em ir atrás de Savannah.
No entanto nem bem tinha dado dois passos e ela voltou, com o rosto molhado e expressão concentrada o rosto. Sequer olhou pra ele, apenas se dirigiu direto para a porta.
— Onde você vai? — Sierra questionou franzindo sobrancelhas.
— Eu preciso de ar, isso devia ser uma festa e de repente parece uma aula chata de biologia evolucional. — A resposta veio sem grande entusiasmo. — Eu já estou com o meu saco bem cheio de todo e qualquer “super”. Me chamem quando a aula acabar.
Puxou a maçaneta e saiu intempestivamente, quase como se estivesse fugindo de alguma coisa. Quando ela fechou a porta atrás de si, e Bucky sentiu que todo o ar tinha ido embora junto.
— Bem direta como de costume... — Sierra declarou em um tom sério.
Gus mudou de assunto para algo aleatório, a música que tocava de fundo talvez, e logo qualquer desconforto não estava mais lá, exceto pelo olhar incisivo que Abby lançava para Sierra, quase como se quisesse dizer algo sem palavras.
A Bucky pouco importava as duas conversas paralelas, ele ainda encarava a porta, talvez devesse ir atrás de Savannah... Ela estava claramente muito brava, no entanto talvez esse fosse apenas mais um motivo para ir, assim ela descontaria toda a raiva de uma vez em quem merecia.
— Tudo bem, eu vou. — Sierra se colocou de pé, antes que ele desse o primeiro passo. Ela falava com Abby, mas atraiu a atenção de Bucky. — Você é paranoica, mas eu vou. Com licença, gente.
Os olhos azuis escuros passaram por todos ali e ela sorriu calmamente, antes de também deixar o apartamento.
Bucky desistiu de ir então, afinal claramente Savannah tinha outra companhia. Talvez fosse melhor assim...
Ainda queria pedir desculpas, sentia que devia isso a ela, mas qualquer esperança que tinha de ser perdoado já havia minguado totalmente. E talvez isso também fosse melhor, não podiam ser amigos, não se quisesse preservar e honrar a memória de Steve como ele merecia...
— Ela sabe, não é? — Mal viu Abby se aproximar, mas ali estava ela, sussurrado baixinho, enquanto TJ e Gus seguiam por uma conversa paralela no sofá. — É por isso que está tão estranha.
Bucky tentou de verdade acompanhar o raciocínio dela, mas sua mente estava longe demais... Ou talvez nem tão longe assim, apenas lá fora, onde Savannah estava. Mas ela não estava sozinha.
Sierra parecia uma boa pessoa, e ela conhecia Savannah muito bem, talvez fosse pra ser daquele jeito. Bucky não conseguiu evitar o gosto amargo no céu da boca, seus pulmões pediam por mais ar do que havia no ambiente e seu coração não parecia bater em um ritmo forte o bastante, era como estar no gelo de novo, sentindo o corpo parar aos poucos.
— Eu acho que ela vai me odiar pra sempre. Devia ter contado antes... — Abby continuava falando sem parar e Bucky sentia tudo ao redor rodar e rodar. — Quer dizer é claro que a Savy ia sacar tudo assim que olhasse na minha cara, ela deve me achar uma péssima amiga. Mas não foi de propósito eu juro. Só aconteceu, sabe? A gente foi se falando e se falando e se falando e eu só... Merda.
O monólogo de Abigail estava cada vez mais longe, Bucky não queria mais estar ali tateou o próprio celular como se isso pudesse lhe dar alguma luz, mas nenhuma ideia lhe veio à mente.
— Gente, eu tenho que ir. — Ele declarou de repente, sem se importar em cortar Abby.
— Já? Por que? — Gus virou o rosto em sua direção e Bucky tentou pensar rápido.
— É uma mensagem.... — Mentiu, sem encontrar nada melhor para dizer. — Eu não posso dizer, desculpa.
— Uh! Assunto oficial de Vingador. — TJ soprou e Bucky agarrou aquela ideia como se fosse verdadeira.
— Isso... É isso. — Ele assentiu, já pegando a jaqueta e a chave da moto. — Me desculpem.
— Vai lá cara. A gente entende. — Gus declarou e Bucky se sentiu ainda pior por ter estragado tudo justo naquele dia. Eles não mereciam isso.
— Parabéns. Vocês têm muita sorte de ter um ao outro. — Seu sorriso foi honesto, mas não conseguiu mantê-lo por muito tempo.
Pensou em dizer pra não serem como ele e não estragarem tudo, mas era um conselho pesado demais para um momento feliz, então apenas caminhou para a porta.
— Bucky? — Abby chamou e ele se virou, já com puxando a maçaneta. — Quer que diga alguma coisa pra Savy?
Ela não vai se importar. O pensamento amargo atravessou sua mente como um raio.
— Digam que eu sinto muito. — Ele respondeu, sabendo que de toda a forma teria que dizer isso pessoalmente quando a oportunidade surgisse. Se Savannah ainda quisesse ouvir.
Saiu então, correndo escada abaixo e pulando na moto como se estivesse em perseguição. Não sabia porquê estava fugindo, ou pra onde, não sabia nada além da verdade: Era um temendo idiota e sempre estragava tudo...
✪ ✪ ✪ ✪ ✪
Savannah não sabia como exatamente tinha chegado ao telhado, na verdade sequer lembrava das últimas coisas que disse antes de deixar o apartamento de Gus. O apartamento de Steve Rogers... O nome lhe causou enjoo, assim como tinha causado todas as vezes que o ouviu depois da discussão com James.
Bucky.
A correção lhe causou tontura. Fazia algum tempo que não sentia aquilo... o desespero instantâneo, a vontade de correr para qualquer lugar, a falta de ar repentina e a dor no peito. Fingiu estar bem porque não queria preocupar os amigos, não naquele dia, não quando tinham coisas mais importantes acontecendo.
Mal se lembrava de como era ter uma crise daquelas, mas assim que a sensação de morte tomou conta de seu corpo todas as dezenas de vezes que tinha sofrido aquilo durante a adolescência lhe voltaram a mente e ela soube que não podia ficar dentro daquele apartamento.
Não tinha conseguido descobrir o gatilho: era a briga com James, — Bucky — a repetição insistente do nome de Steve, a conversa enfadonha sobre poderes, os sentimentos recém descobertos ou o fato do Sargento sequer olhá-la nos olhos mais? Talvez fosse tudo isso...
Estava confusa, assustada com o que sentia, com medo, triste por causa da briga, magoada, tudo ao mesmo tempo... Eram muitos sentimentos de uma vez só e claro que isso teria um impacto. Estava arrependida, não devia ter dito as coisas que disse, por isso precisava de verdade se acalmar e esfriar a mente, pediria desculpas, mas só podia fazer isso quando suas emoções estivessem sob controle...
Não media as próprias palavras quando estava nervosa e isso era péssimo. Sempre magoava as pessoas ao redor.
Tentou respirar. Estava deitada no chão do terraço daquele prédio, os olhos fechados, e a respiração indo e vindo. Algumas lágrimas escorriam por seu rosto, mas Savannah não se importava, só limpou o rosto porque ouviu alguém se aproximar.
Abriu os olhos e logo os fios loiros de Sierra entraram em seu campo de visão, tentou não se decepcionar com isso, mas no fundo Savannah esperava outra pessoa...
Se J... Bucky fosse atrás dela, significaria que ele também queria resolver as coisas, no entanto, a julgar pela forma como ele desviava o olhar dela desde a briga, talvez ele não quisesse resolver nada.
Talvez ele nunca a perdoasse pelas coisas que disse sobre Steve Rogers.
— Você está muito brava, não é? — Sierra se deitou no chão também.
Savannah franziu as sobrancelhas, mas no fim não se surpreendeu tanto assim por sua ex saber que não estava bem.
— Eu não estou brava, só estou chateada... Ou sei lá... Na verdade nem sei direito o que eu estou sentindo. — Foi honesta, porque era fácil ser honesta com Sierra.
Continuou respirando devagar o ar entrando com um pouco mais de facilidade em seus pulmões e o coração voltando a bater em um ritmo aceitável, ainda era como se estivesse correndo uma maratona, mas pelo menos não era como se estivesse prestes a ter um ataque cardíaco.
— Me desculpa. Não pensei que isso fosse te afetar, não foi de propósito, eu juro, só... Aconteceu, sabe? — A loira começou em um tom constrito. — A gente começou a se falar todo dia e...
— Do que estamos falando? — Savannah percebeu que a conversa não estava seguindo o rumo esperado. Pensou que falariam sobre James.
Bucky.
— É sobre a Abby... — Sierra falou devagar, como se isso explicasse tudo.
— Ah... — Savannah lembrou então. — Está falando sobre o fato de vocês estarem trocando mensagens há quase um ano e só agora você ter vindo até aqui pra dar uns beijos nela?
— Você sabia... — A voz de Sierra veio em forma de afirmação.
— Ela não é muito discreta, S. — A ruiva moveu os ombros sem grande comoção — Principalmente quando está trocando mensagens com você.
Sabia fazia um bom tempo e pretendia falar com Abby sobre isso, porque sentiu que ela estava ficando distante, mas o blip foi desfeito e as coisa começam a acontecer muito rápido, depois veio o vizinho misterioso e ela esqueceu de todo o resto.
— É claro que você sabia. — Sierra riu sem grande surpresa. — Então não é isso que está te chateando?
— Porra, claro que não. — Savannah se sentou e encarou a outra de cima com um revirar de olhos. — Minha nossa porque eu seria tão escrota assim? A gente terminou S, ficar presa em um amor antigo é coisa de quem não superou e, sem ofensas, mas eu já superei você. Ainda te amo, como a amiga maravilhosa que você é, mas você é página virada.
Estava de saco cheio de pessoas presas ao passado, com certeza não seria uma delas.
— Não me ofendeu. — A loira negou com um sorriso de canto e então levantou também. — Na verdade eu meio que esperava isso de você, mas sabe como a Abby é...
— Paranoica. — Savannah completou e as duas riram. — Ela te colocou pilha, não foi?
— Ela tocou o terror, real. Está muito preocupada com isso. — Sierra confessou, e as duas se moveram um pouco para trás, assim podiam encostar na mureta de proteção da beirada do prédio. — Aparentemente tem um “código da melhor amiga” que ela quebrou.
— O código da melhor amiga só vale para quando as duas partes estão apaixonadas pela mesma pessoa. — Savannah moveu os ombros. — Seria egoísmo dizer que vocês não podem se gostar, a gente não controla o coração.
Sierra assentiu devagar e isso pareceu dar aquele assunto por encerrado. Ficaram em silêncio por alguns momentos então...
— Se não é por isso, então por que está aqui? — Sierra perguntou finalmente, sem que elas precisassem fazer contato visual. — Esse é o tipo de lugar que você vai, quando as coisas não estão muito bem.
Ela conhecia Savannah muito bem... A ruiva por sua vez deu um longo suspiro e abraçou os joelhos, se tivesse que contar, nem saberia por onde começar, sua mente e seus sentimentos pareciam um novelo de lã emaranhado em que a ponta se perdeu há muito tempo.
— É o seu amigo, Bucky Barnes. — Sierra adivinhou com facilidade.
— Abby contou não foi? — Savannah presumiu, afinal era Abigail, ela jamais deixaria de falar que um Super Soldado tinha virado amigo deles todos.
— Tudo que podia e não podia. — Sierra riu como se fosse um assunto do qual estivesse exausta. — Que conversar sobre isso?
Savannah respirou fundo, claro que queria falar, mas a briga toda vinha de algo que não era de conhecimento do público e, por mais que estivesse brava, ela jamais trairia a confiança da James daquela forma...
Bucky.
— Não posso, envolve segredos que não são meus... — Ela foi honesta sobre isso.
— Não confia mais em mim? — Sierra franziu as sobrancelhas e os olhos das duas se encontraram.
— Você ꞌtá pegando a Abby, vai saber que tipo de artimanha ela vai usar pra tirar informações de você. — Savannah devolveu, rindo de canto. — Isso é um detalhe que ela com certeza amaria publicar.
“O grande Capitão América não morreu como um herói”, seria uma manchete e tanto no blog da Abby.
— Não tenho como me defender desse argumento. — Sierra ergueu as mãos em rendição. Ambas sabiam bem como Abigail era. — Mas me diz qual o problema sem citar nomes, eu não preciso saber o segredo, só preciso saber como você se sente.
Savannah suspirou, encarou o nada por longos momentos, revivendo a briga e sentindo isso oprimir seu peito. Ela não sabia por onde começar, mas talvez falar sobre tudo fosse ajudar a desfazer todos aqueles nós. De toda a forma aquela situação não podia ficar daquele jeito.
— Ele ama alguém que foi embora, o abandou porque quis, escolheu outra vida. Deixou o James pra trás, entende? E quando eu disse isso ele ficou puto comigo. — Colocou todas as palavras pra fora, não queria sentir raiva, mas sentia, não de James é claro, Steve Rogers era o idiota.
— James? — Sierra repetiu apenas, encarando Savannah com os olhos azuis escuros pacíficos.
— Bucky. — A ruiva corrigiu. — Eu acho um apelido horrível, mas ele gosta, aposto que é por causa desse alguém idiota... — Ela suspirou contrariada.A verdade é que Barnes sempre seria o Bucky do Steve, era esse quem ele queria ser... — Ele não consegue ver que foi abandonado, e fica defendendo essa pessoa horrível que em nenhum momento pensou nele e eu saí como a vilã, e ainda não entendo porquê... Okay, que eu disse coisas que não devia, mas eu só queria... Não sei. Não sei o que eu queria...
— Você ama ele. — Sierra afirmou com a calmaria de um céu estrelado. — Você ama esse homem de verdade, não é?
Savannah assentiu devagar e engoliu em seco, abraçou um pouco mais os joelhos e tentou não chorar, sequer sabia por que tinha aquele nó na garganta e por que seu coração estava tão pesado. Amar alguém devia ser uma coisa boa.
Por que estava tão devastada sobre isso?
— Não vai me dizer nada? — Perguntou, quando viu que o silêncio de Sierra estava longo demais.
A loira suspirou e encarou o nada.
— Amar alguém como ele não vai se bom pra você, porque Bucky Barnes é o prisioneiro de guerra mais antigo vivo, ele é o que mais sofreu e o que passou mais tempo em cárcere, provavelmente sendo torturado de formas que nem sabemos que existe... — Ela disse com a voz um tom mais pesada e Savannah sentiu o estômago revirar. — Ele nunca vai ser bom pra você, ele não conseguiria, não importa o que você pensa. E você não pode se permitir gostar dele porque, isso vai te machucar cada vez mais e mais e...
— Chega! — Savannah cortou irritada, encarando Sierra com indignação. — Desde quando você é assim? Todo mundo merece uma chance. Ele não é essa pessoa terrível que você está pintando.
— Viu? — A loira sorriu calmamente e voltou a encarar a amiga. — Reação de instintiva de defesa usando golpes verbais. Eu ataquei alguém que você ama, e imediatamente você se colocou contra mim, mesmo que você me conheça há uma década e mesmo que cada coisa que eu estivesse falando fosse para o seu bem. Foi o que ele fez, protegeu alguém que ele ama de um ataque direto seu, mesmo que você só quisesse o bem dele. A gente protege quem a gente ama, é um instinto natural. Somos criaturas que reagem, S, todos nós, ninguém tem sangue de barata. E bom, ele é um soldado, ele é perito em atacar.
Savannah revirou os olhos quando viu que tinha acabado de cair em psicologia reversa, mas isso a fez pensar novamente em tudo que acontecera durante a discussão...
— Na verdade ele mais defendeu que atacou. — Ela constatou, quando se deu conta que tinha falado por minutos a fio e que James levou muito tempo pra de fato dizer algo que não fosse apenas uma defesa de Rogers.
— Isso significa que ele provavelmente gosta muito de você... — Sierra declarou em um tom surpreso. — Porque eu sei que você pode ser bem dura e crítica com as coisas que acha erradas, então essa pessoa que ele ama deve estar com a orelha quente de tudo que você falou.
Ela riu de canto e Savannah não pode deixar de concordar, tinha dito coisas horríveis sobre Steve Rogers...
— E no caso do Barnes é ainda mais instintivo fazer isso porque, apesar de tudo isso de “ele não vai ser bom pra você” ser apenas um exemplo que eu usei, porque na verdade eu acredito que ele pode sim ser bom pra você, assim como acredito que ele merece coisas boas na vida e que ele pode fazer e ser melhor, assim como todas as pessoas. Todo o restante do que eu disse é um fato. — Sierra discursou no tom profissional que tinha ao falar daquele tipo de assunto. — Ele é o prisioneiro de guerra mais antigo vivo, ele viu coisas que eu e você sequer podemos imaginar, horrores que não é possível esquecer... Então ele tem essa boa memória cultivada, esse alguém que ele ama e que, como você disse, o abandonou, acha mesmo que ele quer ver por esse lado? Acha mesmo que ele pode se permitir fazer isso?
Savannah engoliu em seco, não gostava de pensar nas coisas que James tinha vivido nas mãos das pessoas terríveis que o sequestraram, e gostava ainda menos de ver que podia tê-lo ferido um pouco mais.
— Ele não pode se dar ao luxo de perder memórias boas, S, ele não deve ter muitas, você não atacou apenas alguém que ele ama, você atacou um pedaço de luz na escuridão que deve ser a cabeça dele. — Sierra continuou, e era impressionante como ela podia entender a mente de uma pessoa daquela forma. — A última coisa que um homem como Bucky Barnes deve querer é manchar algo bom com um sentimento amargo como abandono. Mesmo que seja verdade, mesmo que você esteja certa. E mesmo que ele goste muito de você, ele não vai abrir mão disso, ele simplesmente não pode.
A ruiva ponderou isso por alguns segundos... E se Sierra estivesse certa? Rogers não era apenas uma memória, ele era a maior parte da vida de James, cada momento bom que Barnes tinha vivido fora ao lado de Steve. E ela tinha acabado de tentar destruir isso.
Como podia ser tão idiota e insensível?
— E o que eu faço agora? — Ela perguntou, esperando que houvesse uma solução milagrosa para tudo, mesmo sabendo que a vida nunca funcionava desse jeito.
— Nada. — Sierra deu de ombros como se fosse a coisa mais simples do universo. — Você mesmo disse que a outra pessoa foi embora, não é como se ele estivesse preso em um relacionamento abusivo, já acabou, ele vê o lado bom da história, fim.
— Mas ele lembra disso em todas as oportunidades. — Savannah retrucou impaciente. — Só tem o nome dessa pessoa na boca dele. Parece que ele nunca vai seguir em frente.
Sierra sorriu de canto e encarou a outra com aquele olhar azul noite cheio de calma, aquele que sempre dava quando Savannah dizia uma besteira autodestrutiva.
— Seguir em frente não é esquecer, S, você sabe disso, as pessoas têm passado, e pra alguém que tem um passado tão pesado quanto ele, reafirmar os tempos bons é um comportamento natural. — Ela explicou como quem dá aula a uma criança.
Savannah tentou absorver aquela verdade, saber que Rogers era todo o passado de James fazia ainda mais diferença naquele momento, ela percebeu que nunca conseguiria separar os dois, não haveria uma realidade em que Bucky não se lembraria do seu Steve com amor e carinho...
E ela ainda não sabia como se sentia sobre isso. Porque aquela verdade parecia oprimir ainda mais seu peito.
— Você está mesmo tão insegura que vai pedir pra ele escolher entre uma lembrança e você? — Sierra questionou de forma pertinente.
Então era isso? Insegurança? Fazia sentido, afinal era aterrorizante descobrir que amava alguém que sempre amaria outra pessoa. Porque sempre seria Steve, certo? Savannah sabia que nada do que fizesse seria capaz de mudar isso, Steve Rogers era o amor de uma vida toda, o melhor amigo, o herói que tinha lutado contra a própria equipe e contra o governo por Barnes, o ídolo, o modelo, e Bucky sempre seria leal a ele, como o bom Soldado que era...
Não tinha como competir com isso.
Mas Sierra estava certa também, apesar de tudo isso, Steve era apenas uma lembrança, ele tinha partido, e mesmo que James nunca fosse ver ou admitir o abandono evidente, isso não mudava a verdade: Steve Rogers estava morto.
No entanto, Savannah não tinha nenhuma certeza de que isso era uma vantagem...
— Uma lembrança só se torna um fantasma se você permitir que ela te assombre. — Sierra declarou, conhecendo a amiga tão bem que era como se pudesse ler seus pensamentos.
Porque era nisso que estava pensando... Como competir com um fantasma?
Talvez a melhor forma fosse começar não transformando aquilo em uma competição. Steve Rogers podia ser um grande idiota aos seus olhos, mas ele não era o inimigo, se não podia perdoá-lo por abandonar James, então talvez devesse pelo menos ser grata, afinal foi por causa dele que o Sargento escapou das mãos da Hidra.
O Capitão América merecia algum respeito...
Sierra estava certa, Savannah não podia deixar que sua insegurança colocasse James contra a parede, era estúpido pedir que ele escolhesse, era injusto de muitas formas também. A vida já não tinha tirado o bastante de Bucky Barnes?
— Era pra você ficar do meu lado, sabe? — Savannah empurrou o ombro da loira com o seu.
— Eu estou. — Ela riu e encarou a amiga. — Por exemplo, ele te magoou, então o mínimo que ele tem que fazer é pedir desculpas, mesmo que ele não concorde com o que você diz, ele tem que saber, e ver, quando te magoou. Mas eu não preciso te dar uma aula sobre relacionamentos tóxicos ou unilaterais, eu sei que você sabe reconhecer esse tipo de coisa e eu sei que se fosse esse o caso você já teria caído fora. Eu te conheço, você sabe que não pode doar mais do que tem pra alguém.
Savannah assentiu, sabia que tinha que pedir desculpas, mas merecia um pedido de desculpas também, era o mínimo...
— Eu senti sua falta. — Ela sorriu para Sierra e recebeu outro sorriso em resposta.
— Mas é claro que sentiu, eu sou maravilhosa. — A loira deu de ombros em falsa presunção.
Talvez Steve fosse assim também, alguém que sempre teria um lugar no coração de Bucky, assim como Sierra tinha um lugar no coração de Savannah...
Contudo, esperava e rezava para que ainda houvesse pelo menos um lugarzinho no coração do Sargento para si... Afinal a maior parte do coração de Savannah tinha se tornando de James.
— Então a solução é esquecer de tudo que eu sei? Esquecer tudo que ele me contou. — Ela suspirou, tentando encontrar uma linha de ação.
— Jamais. Você faz o melhor com aquilo que sabe, mesmo que o que você saiba não te agrade. — Sierra aconselhou. — E o que você sabe agora é que ele sofreu a vida toda nas mãos de outras pessoas e então foi abandonado por quem amava.
Savannah sentiu o próprio coração se partir por isso, como alguém tão bom podia ter sofrido tanto? Não era justo.
— Então faça o que você sabe fazer de melhor: Ame. — Sierra continuou, focando suas orbes azuis em um lugar fictício. — Bucky sabe como é amar alguém, mas talvez ele não sabia como é ser amado, então mostre pra ele, prove que nunca vai abandoná-lo, e coloque tanta luz na vida dele, que quando ele pensar em felicidade, é em você que ele vai pensar. — Ela sorriu e voltou os olhos para Savannah — E, claro, dá uns bons pegas nele, porque até eu sei que não se pode desperdiçar um corpo daqueles.
Ambas acabaram caindo na risada e Savannah concordou, realmente desperdiçar um corpo daqueles seria um pecado.
E James beijava tão bem...
— Agora vamos. — Sierra se colocou de pé e estendeu a mão para Savannah. — A gente precisa agitar uma festa, porque nenhum daqueles nerds lá embaixo sabe fazer isso.
— Disse a nerd que estava dando uma aula de biologia. — Savannah aceitou a ajuda e se levantou também.
Talvez tudo ficasse bem afinal de contas, podia conversar com James naquele exato momento e resolver tudo...
Mesmo assim ainda havia algo pesando no coração de Savannah um medo latente de amargo, que vinha crescendo como uma semente que brota, desde que ela havia descoberto o quanto amava aquele homem.
— S? — Chamou, sentindo a voz tremer um tom. — E se mesmo assim ele nunca me amar de volta?
Seu coração bateu fora do ritmo de um jeito pesado e dolorido. Savannah nunca imaginou que temeria algo tão abstrato, mas aquilo... aquela possibilidade a apavorava.
Amar tanto alguém e nunca ser correspondida era um pesadelo... mas isso não era exatamente o que tinha acontecido com Bucky a vida toda?
— Então, pelo menos você vai saber que fez tudo que podia. — Sierra passou o braço por cima dos ombros dela. — E vai ser azar o dele.
Savannah assentiu com um movimento incerto, só queria resolver as coisas logo e sentir que tudo estava bem outra vez, porque perder James por uma briga boba era ainda mais assustador do que nunca ser correspondida.
Ela só não esperava que ele não estivesse mais no apartamento quando ela voltou...
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— Então... Vai me dizer porque realmente está aqui? — Sam Wilson perguntou, oferecendo sua garrafa de água a Bucky, que negou com um movimento curto.
O Sargento, sentado no banco de pedra, encarou os adolescentes jogando basquete na quadra comunitária e depois voltou os olhos para o amigo. Sam tinha a pele suada, mas já não ofegava mais como há cerca de meia hora, que foi quando Barnes parou com a moto em frente ao local.
Era ali que o Falcão passava os domingos geralmente, ele dava aulas de basquete para os adolescentes da região, não que fossem aulas de verdade, aquilo era apenas Sam cuidando das crianças tanto quanto ele cuidava dos veteranos, Bucky tinha certeza disso.
— Eu já disse, Sharon passou no apartamento, que eu aluguei para aqueles amigos... — Respondeu fazendo parecer ser algo sem importância, observando os garotos jogarem como se não tivessem um só problema na vida.
Parecia pouca coisa, mas mesmo Bucky sabia que não era apenas um jogo de basquete, era um lugar seguro. Como as reuniões, só que bem mais sutil...
O que ele não sabia, no entanto, era o real motivo de estar ali. Quando saiu do apartamento que agora pertencia a Gus e TJ ele só precisava de ar, vagou pela cidade, sem rumo, os pensamentos desconexos e o peito pesado, ele só precisava pensar em outra coisa, então resolveu focar nas informações que Sharon tinha repassado e acabou ali, na quadra ao lado do centro comunitário, onde sabia que Sam estaria.
Mas nem mesmo o perigo iminente que a Ministra representava fez com que Bucky esquecesse sua briga com Savannah...
— É, eu ouvi, ela passou lá e disse o que já desconfiávamos e que não podemos fazer nada a não ser esperar. — Sam recapitulou a conversa que tinham acabado de ter. — Isso não explica por que você saiu de uma festa pra vir pra cá...
— Achei que era importante, só isso. — Bucky moveu os ombros, sem vontade de entrar em mais detalhes, mas Wilson estreitou os olhos.
— Certo, e sua cara de enterro é por que então? — Questionou perspicaz, então sorriu de canto. — Savannah não gostou do seu novo corte de cabelo?
As palavras atingiram Bucky, não pelo deboche em si, porque a primeira coisa que Sam fez assim que se viram foi rir do corte de cabelo e soltar uma piada atrás da outra, antes que o Soldado conseguisse atenção para o assunto sério da Ministra. O que abalou Bucky foram as lembranças, o corte de cabelo e tudo que tinha acontecido depois disso...
Porque naquele dia em particular sua vida estava feito uma montanha-russa. Uma noite ruim por causa do pesadelo, então melhorou um pouco e mais um pouco, chegou no que ele pensou que seria o auge do dia com aquele beijo, então foi um pouco mais além com o outro beijo no sofá, decaiu um pouco com as informações de Sharon e despencou totalmente com a briga sobre Steve, na verdade tudo tinha desabado de uma forma tão confusa que Bucky achava de verdade que não teria uma volta daquele ponto...
— Savannah não tem nada a ver com isso. — Mentiu, dando de ombros e agradecendo que Sam foi chamado pelos meninos, para que não se aprofundassem no assunto.
Os viu trocar algumas palavras, mas não prestou atenção na conversa, sua mente foi longe outra vez. Savannah... A forma intempestiva como ela deixou o apartamento ilustrava bem o quão chateada ela estava, Bucky precisava pedir desculpas, era algo que o corroía por dentro, mesmo que ela não perdoasse, mesmo que ele estivesse decidido a se afastar dela, tinha que pedir perdão.
Passou a mão direita no rosto, sentindo que o peso do próprio corpo era demais pra carregar, estava exausto, queria apenas desligar a mente, mas sabia que não conseguira fazer isso de jeito algum...
Estava tão imerso naqueles sentimentos amargos que sequer viu as crianças irem embora e Sam se aproximar novamente.
— Então está me dizendo que perdeu a oportunidade de passar o dia se divertindo com uma gostosa ruiva, só pra me passar uma informação que podia ser dada por mensagem? — Wilson jogou do nada e Bucky ergueu a cabeça imediatamente.
— Não fala assim dela, por favor. — Pediu entredentes, porque não tinha gostado nadinha do que ouviu.
— Ahrá! Ciúmes. — Sam apontou como uma criança que acaba de vencer um joguinho qualquer. Ele tinha dito aquilo de propósito? — Sabia que tinha alguma coisa rolando entre vocês.
— Não tem nada rolando entre a gente. — Retrucou na defensiva, se colocando de pé quando Sam começou a recolher as coisas da quadra.
— Então é por isso que você está aqui? Precisa de conselhos pra chegar na garota? — O amigo perguntou divertido, e Bucky apenas se manteve calado, enquanto o ajudava a recolher tudo. — Eu não me importo de bancar o conselheiro amoroso, mas não posso ler seus pensamentos, cara.
— Esquece a Savannah, Sam, nunca daria certo entre mim e ela. — O Sargento se limitou a dizer, vendo Sam jogar a mochila nas costas e seguir para o centro comunitário.
— Lá vem o drama do Soldado Invernal. — Wilson revirou os olhos em um tom entediado.
— Não é por causa do Soldado Invernal. — Bucky retrucou enquanto caminhavam. — Devia ser, mas não é.
Era irônico e estúpido que justo aquilo que ele realmente achou que os separaria, foi o que os aproximou mais, enquanto algo que Barnes nunca imaginou que seria um problema foi aquilo que os destruiu...
Mas já devia saber que algo bom nunca duraria em sua vida.
— E é por que então? — Sam franziu as sobrancelhas, enquanto caminhavam pelos corredores vazios do centro comunitário.
Bucky pensou em desconversar, em dar o assunto por encerrado, mas de todas as pessoas no mundo o homem ao seu lado talvez fosse o único que entenderia o motivo...
— Ela não gosta do Steve. — Revelou tenso e as feições de Sam pareceram um grande ponto de interrogação.
— E...? — O Falcão incentivou depois de um longo momento de silêncio, claramente esperando que Barnes continuasse.
Aquilo já não devia ser o suficiente para que ele entendesse?
— Ela não gosta do Steve, não podemos ser amigos. — Completou então, como se fosse a coisa mais óbvia do universo.
Sam parou com a mão na porta da sala em que entrariam e focou os olhos em Bucky, então riu, como se fosse algum tipo de piada.
— Você está no primário agora? — Laçou, girando a maçaneta e entrando na sala para guardar as coisas do basquete. — “Se você não vai ser amiga do Steve, então também não vou ser seu amigo, sua bobona”.
Ele imitou o que parecia uma criança de cinco anos, o que só fez com que Bucky se irritasse. Como Sam não via que aquilo era sério?
— Você não entende... — Se encostou no batente, frustrado com o posicionamento da única pessoa que realmente achou que veria as coisas da forma certa.
— É, eu não entendo, por favor explique. — Sam ergueu as mãos em rendição e parou de rir.
— É o Steve. Eu não posso trair a memória dele assim, não depois de tudo que ele fez, não só porque ele é meu melhor amigo... Ele destruiu os Vingadores por mim, é mais que ir contra o governo, ele foi contra os próprios amigos. — Bucky tentou colocar seus motivos em palavras, mas a verdade é que as coisas faziam muito mais sentido em sua mente do que quando eram exteriorizadas.
— Certo. Pare e respire. — Sam ergueu o dedo em riste, então apontou as cadeiras para Bucky. — Sim, ele te defendeu, mas você não tem nada a ver com o fim dos Vingadores, cara. O Tratado de Sokovia foi a rachadura, e você não teve nada a ver com isso. Foi o Zemo quem deu a martelada final nesse caixão.
— Me usando como pivô. — Barnes completou, sentando-se enquanto revivia as memórias amargas daquele dia.
Às vezes pensava que seria muito melhor e mais fácil se Tony Stark tivesse lhe matado naquele dia...
— Usando uma informação. — Sam corrigiu, puxando uma cadeira e se sentando também. — Uma informação que o Steve já tinha há dois anos e não compartilhou com a parte mais interessada, o Tony. Você teria continuado em Bucareste longe dos holofotes se Steve tivesse contado ao Tony muito antes que a Hidra mantou matar os pais dele. — Ele suspirou e passou a mão no rosto. — E eu não estou dizendo que o Capitão estava errado, certo? Porque eu não faço ideia do que teria acontecido se ele tivesse contado a verdade. Mas Steve fez as escolhas dele, e arcou com as consequências... Tudo que eu estou dizendo é que de todas as pessoas que colaboraram para o fim dos Vingadores, você é a única que não tem parte nisso.
Bucky encarou os próprios pés enquanto assentia sem vontade, era inútil discutir aquele tipo de assunto com Sam — ou com qualquer outra pessoa — no fim nenhum deles via a culpa do Soldado Invernal, era Barnes quem carregava esse peso sozinho.
“Nada disso é sua culpa, Bucky”, era o que Steve tinha dito uma vez, e as pessoas ao redor continuavam repetindo, e talvez em algum momento daqueles últimos dias ele próprio quase tenha acreditado nisso também, mas a discussão com Savannah só mostrou o óbvio, tudo que o Soldado Invernal tocava, ele destruía...
— Mas nada disso explica o que a Savannah tem a ver com a situação. — Sam moveu os ombros, como se a linha de raciocino de Barnes não fizesse o menor sentido.
E não fazia, mesmo dentro de sua própria mente não tinha qualquer sentido, então claro que para alguém de fora soaria confuso também.
— Ela não gosta dele. — Bucky respondeu e dizer aquilo pela terceira vez em voz alta começou a fazer com que parecesse idiota.
Mas fazia sentido em seu coração, de alguma forma estranha e idiota fazia. Porque era desonesto com a memória de Steve, assim como era desonesto com Savannah, porque se não era capaz de deixar de defender o melhor amigo, isso significava que sempre a magoaria. E não queria isso.
— Okay... — Sam se levantou e respirou fundo, ainda não parecia ter entendido nada. — Então vamos começar com, por que ela não gosta dele?
— Não sei. — Bucky moveu os ombros e foi honesto sobre isso, ele de fato não conseguia entender. Como alguém podia não gostar do Steve? — Ela só não gosta, acha que ele é um pouco hipócrita por causa do grupo de apoio que mantinha durante o blip, mas o real problema foi quando eu contei o que aconteceu depois de Thanos...
— Oh, então é isso... — Sam soprou devagar, como se finalmente tivesse um vislumbre da situação como um todo. — Você contou que ele não morreu na batalha. O motivo de termos concordado em não contar nada pra imprensa, foi por que sabíamos que algumas pessoas podiam não entender.
Bucky suspirou, se colocou de pé e negou algumas vezes se afastando de Sam, seu corpo pedia movimento, quase como se fosse um instinto primitivo, uma luta que ele precisava vencer... Havia uma parte dele que defendia Steve como um cão de guarda, Barnes não tinha certeza se tinha muito a ver com o que sentia, mas o fato é que aquela parte estava lá, feroz e pronta para a luta.
— Savannah agiu como se Steve fosse um egoísta. Atacou a honra dele. — Jogou, sem encarar o outro.
Não era capaz de entender aquela parte, Savannah não era injusta com as pessoas daquele jeito, ela era compreensiva e doce, sempre tinha algo acalentador para dizer... Às vezes Bucky tinha a impressão que ela podia ver dentro de sua alma, então Savannah escolhia algo ruim, puxava para fora e dava um novo significado, algo que tornava as coisas menos terríveis na mente de Bucky.
Ele honestamente pensou que ela faria algo assim sobre a partida de Steve, porque Bucky nunca diria isso em voz alta, nunca sequer admitiria para si mesmo, mas saber que o melhor amigo tinha voltado para casa sem ele... Partiu seu coração.
Porém Savannah não deixou as coisas melhores, ela colocou ainda mais dor em algo que Bucky lutava para manter neutro... Porque depois de tudo que tinha vivido, Steve tinha que permanecer bom, como um porto seguro. Um lugar para onde voltar quando tudo ficasse muito ruim.
E sempre acabava ficando ruim.
— “Atacou a honra dele”. Agora voltamos para a era medieval, legal. — Sam riu e Barnes suspirou, cansado de tudo aquilo.
— Deixa pra lá. Não sei nem porque eu estou de falando isso. — De que adiantaria falar afinal? Já sabia o que tinha que fazer...
Decidiu dar a conversa por encerrada e seguir seu rumo, já tinha monopolizado demais o tempo de Sam.
— Eu acho que você está vendo a situação pelo ponto de vista errado. — Wilson lançou, antes que Bucky pudesse se despedir.
O Soldado parou, franziu as sobrancelhas e puxou a cadeira novamente, virando o encosto para frente e sentando-se naquela posição contraria, com as pernas abertas e os braços descansando onde deviria apoiar as costas.
— E qual o ponto de vista certo então? — Questionou, porque realmente se havia outro modo de ver aquela situação, então Bucky com certeza queria isso.
— Ela não atacou o Steve, ela defendeu você. — Sam argumentou com a naturalidade de quem fala do tempo. — Não é que ela não goste do Steve, é que ela gosta demais de você.
Bucky absorveu aquela verdade devagar, franziu as sobrancelhas, encarou o chão. Seu coração batendo apertado por motivo algum.
— Ela não tinha motivos pra me defender de nada... — Murmurou, mais para si mesmo do que para Sam.
— Steve se foi e você ficou, Savannah provavelmente pensou que ele te magoou com isso. — A resposta veio mesmo assim. — Eu não sou ninguém pra julgar as escolhas do Steve, cara, ele fez o que ele achou que fosse certo. E a gente conhecia ele, viu tudo que ele passou, sabia que ele merecia paz.... o ponto é que a Savannah não conheceu e vendo de fora: Steve tinha um grupo de apoio sobre seguir em frente e no fim voltou para o passado, logo “hipocrisia”. Steve se foi e você ficou, logo “abandono”. Ela agiu sob o ponto de vista dela. Savannah se colocou do seu lado, contra o Capitão América, acho que a garota merece algum crédito por isso.
O coração de Bucky batia tão forte que ele mal conseguia ouvir os próprios pensamentos, em momento nenhum ele tinha visto as coisas dessa forma... A possibilidade que começou a se formar em sua mente causava uma avalanche de sentimentos, tudo vindo à tona ao mesmo tempo.
— Eu disse pra ela que as coisas não foram assim. — Retrucou sem qualquer firmeza.
Se Sam estivesse certo, se as coisas fossem mesmo como ele dizia, significava que... Savannah gostava dele. Não era apenas gostar do tipo corriqueiro, era mais que isso. Era um gostar importante e especial...
— É, e você também diz que é um assassino, mesmo sabendo que sofreu lavagem cerebral e foi controlado. — Sam deu de ombros como se fosse a coisa mais óbvia de todas. — Sua visão sobre sua própria vida não é muito confiável. Com todo respeito.
Bucky estava tão abalado com aquela descoberta que sequer deu importante para a alfinetada de Wilson. Piscou algumas vezes. Duas partes de si estavam em conflito naquele instante, duelando com argumentos que o Sargento não conseguia verbalizar. Por que estava tão surpreso afinal? Não era óbvio?
É claro que ela gostava dele... Bucky só não sabia que era daquele jeito. Porque ele, acima de todas as pessoas, sabia muito bem o que significava comprar uma briga por alguém. Bucky sabia exatamente o que significava defender alguém de algo que a pessoa não achava que precisava ser defendida...
Era isso que ele fazia com Steve.
Não. Talvez Sam estivesse errado. Ele tinha que estar. A palavra com “A” brilhava em neon na mente de Bucky e fazia seu coração bater ainda mais apressado. Savannah não podia gostar dele daquela forma...
Quer dizer, ninguém jamais tinha gostado de Bucky daquela forma, nem mesmo quando ele merecia isso. E depois de tudo, ele sabia que não merecia, principalmente não dela, porque o que Savannah merecia era o mundo todo, alguém completo e bom, alguém que pudesse dar a ela aquilo que ele tinha prometido guardar para outra pessoa... Aquela pessoa cuja simples menção ao nome era capaz de magoar Savannah.
Bucky permaneceu em silêncio, não tinha estabilidade emocional o bastante para formar palavras naquele momento, porque estava assustado e confuso, surpreso e em conflito. Não havia uma forma de conciliar aquilo...
E talvez ele soubesse disso desde o começo da briga, por isso tinha decidido pedir desculpas e se afastar. Aquele “Ela não gosta do Steve” era apenas uma forma simples de dizer que, estava mais do que óbvio que Savannah jamais aceitaria que uma parte de Bucky, que ela merecia que fosse dela, pertencesse na verdade a uma pessoa que ela sequer gostava.
Porque ela merecia muito mais que aquilo, porém Bucky não podia dar mais, porque tinha prometido... Era isso que “até o fim da linha” significava, por isso esse foi o gatilho que o fez recobrar a consciência depois de décadas. Ele tinha prometido.
Não podia simplesmente esquecer de uma promessa só porque era conveniente...
— Por que eu sinto que você está vendo essa situação como se ela te obrigasse a fazer uma escolha? — Sam estreitou os olhos, quase como se pudesse ver por trás do silêncio de Bucky — Você sabe que ficar com a Savannah não é abrir mão do Steve, certo? Ele vai estar sempre na sua mente, cara, nada vai mudar isso.
O problema era exatamente esse, Steve não estava apenas na mente de Bucky.
Era isso desde o começo, porque se fosse algo apenas em sua mente, ele podia manter ali, como mantinha todas as outras coisas, criaria um lugar seguro para as memorias dele, mas não era isso... Steve estava em outros lugares também. Estava em lugares que entravam em conflito direto com Savannah.
— E mesmo que fosse uma escolha, você acha que era isso que o Steve gostaria? — Sam continuou naquele tom que parecia fazer com que o assunto fosse bem mais simples. — Acha mesmo que ele aprovaria você abrir mão de algo bom, só para honrar memórias?
— Acho que isso é algo que não temos como saber... — Bucky deu de ombros, apenas porque não queria que Sam se sentisse em um monólogo.
— Exato! — Wilson apontou, como se aquela resposta automática valesse mais de um milhão de dólares. — Não temos como saber, porque o Steve não está mais aqui. Eu detesto dizer isso, mas é a verdade... e eu sinto falta dele também, mas não muda o que aconteceu. Eu sempre vou respeitar a memória dele e a importância que ele teve, mas isso não quer dizer que vou deixar uma lembrança tirar algo bom da minha vida.
Barnes ergueu os olhos, queria que tudo fosse tão fácil pra si quanto era para o Falcão... Mas Sam nunca tinha amado Steve.
— Steve está morto, Bucky. — Aquela declaração doeu mais do que Barnes esperava. — Não porque ele sofreu um acidente, não porque ele se sacrificou pelo mundo, ele morreu feliz, depois de viver tudo que ele desejou na vida... ele foi um herói, ele foi um amigo, um mentor e também foi um marido. Ele teve uma vida plena e ele morreu, porque foi isso que ele escolheu. — Sam colocava as verdades na mesa de um jeito claro. — E esse é o ponto, ele escolheu a felicidade dele, acima das pessoas lá fora, acima da equipe, acima de mim ou de você, ele escolheu a ele mesmo primeiro, e não tem nada errado com isso, tudo bem ser um pouquinho egoísta e escolher algo pra si, ele merecia.
— Eu sei disso. — Bucky respondeu, porque ele concordava com tudo aquilo, mas não via como se conectava com nada do que estava vivendo no momento. — Eu nunca questionei o quanto ele merecia uma vida feliz.
— Eu sei. — Sam assentiu neutro, e então encarou os olhos azuis de um jeito pesado. — Mas está sempre questionando o quanto você merece.
É porque não mereço, foi primeira coisa na mente de Bucky, mas ele resolveu baixar a cabeça e ficar em silêncio.
— Você fica dizendo que ela não gosta do Steve, mas esse não é o ponto, a única coisa que realmente importa aqui é: Você gosta dela? — A pergunta fez com que Bucky fechasse os olhos e fugisse da resposta dentro de si mesmo.
— O que eu sinto não é relevante. — Ele disse me voz alta, apenas para calar qualquer outro som dentro de si.
— Na verdade isso é a única coisa relevante, Bucky. — Sam retrucou com um suspiro. — Isso é sobre você. Quantas vezes mais você vai ficar provando sua lealdade a alguém sendo desleal consigo mesmo?
Ele não entendia, se tratava exatamente de ser leal. Leal a uma promessa que ele mesmo tinha feito décadas atrás, quando era apenas um garoto no Brooklyn dos anos 40...
— E o engraçado disso tudo é que eu nem acho que seja inteiramente por causa do Steve... — Sam jogou com um risinho sem humor. — Acho que é só você sabotando algo bom. Eu acho que no fundo você está com medo e fica fazendo uma grande lista de desculpas que no fim não fazem muito sentido.
— Medo de quê? —Aquilo era a coisa mais sem noção que Bucky já tinha ouvido.
— De deixar alguém chegar tão perto e se decepcionar, ou sei lá, cara, você tem uma cabeça muito confusa. — Wilson fez uma careta. — Talvez você esteja com medo de descobrir que pode ser feliz sem o Steve...
Bucky nunca sequer tinha pensando em ser feliz sem o Steve. Cada ideia de felicidade, era com ele. Sempre foi.
— Isso é besteira. — Desconversou com um dar de ombros. — Já superei a fase de autossabotagem.
— Não se supera a fase da autossabotagem, Bucky, você apenas aprende a prestar atenção nas suas reações e atitudes imediatas para as situações e problemas, então começa a reconhecer seus padrões. Você se polícia, reconhece as ações que são autossabotagem e as evita. — Sam explicou com paciência invejável. — Ainda assim, autossabotagem ou não, o fato é que talvez você precise seguir o exemplo do Steve e ser um pouquinho egoísta também. Está tudo bem querer algo que não beneficie nenhuma outra pessoa no mundo. Tudo bem querer algo para si mesmo. Ninguém vai te julgar por isso, nem o Steve.
Bucky respirou lentamente. Era isso não era? A “coisa” egoísta que ele queria, aquilo que não beneficiava a ninguém além dele mesmo. Savannah. Porque se fosse honesto consigo mesmo ele a quis desde o primeiro momento em que colocou os olhos nela... Quis a leveza do Sol que ela carregava; quis orbitar ao redor dela; quis a amizade e o sorriso-sol; e então passou a desejar mais que isso, porque era como se nunca tivesse o bastante dela. Mas no fundo sempre soube que Savannah Devenport merecia mais que um querer egoísta...
— E se você acha que não merece por causa de “tudo que fez”, pense que talvez você mereça sim, por causa de tudo que você passou. — Sam moveu os ombros como se tivesse dado a assunto por encerado. — Pensa que chegou os dias dos humilhados serem exaltados.
Bucky franziu as sobrancelhas para aquela última frase e encarou Wilson que estava encostado na janela com os braços cruzados.
— Graças a Deus que você escolheu ser herói, porque como terapeuta você morreria de fome. — Lançou, negando algumas vezes e Sam levantou as duas sobrancelhas para a ousadia.
— Deus me livre ser terapeuta de alguém como você. — Ele devolveu enquanto apontava, em um claro tom de desdém.
Bucky riu de canto, mas a verdade é que sabia o quanto Sam vinha lhe ajudando, e dava valor a isso. Era raro ter amigos como ele, porque é fácil achar alguém que concorde com tudo que você fala, mas alguém que aponte porque você está errado e te incentive a fazer o certo, isso era coisa de um em um milhão...
— Por que você ainda está sentado, cara? — Sam perguntou irritado. — Tem uma garota linda, engraçada, talentosa e corajosa lá fora, que gosta de você a ponto de se colocar conta o próprio Capitão América pra defender seus sentimentos, e você ainda está aqui olhando pra minha cara? Eu sou gato, eu sei... mas você não é meu tipo.
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— Vai logo atrás da sua garota, idiota. — Ele apontou a porta de modo exasperado.
“Sua garota”, essas palavras tiveram um tipo de impacto imediato em Bucky, algo que ele tentou conter a todo custo.
— Ela não é m... — Bucky não conseguiu terminar a frase, não queria dizer aquilo em voz alta. Não queria aquele sentimento de posse na ponta da língua. — Na verdade eu acho até que ela está voltando com a ex agora mesmo.
A desculpa foi mais para si mesmo do que para o outro. Porque a forma intempestiva como Savannah havia saído do lugar indicava que ela queria distância e o jeito preocupado como Sierra tinha ido atrás dela... Bucky suspirou. Talvez fosse melhor desse jeito mesmo. Afinal Sierra era uma escolha melhor, uma escolha completa e...
Esse pensamento ficou incompleto em sua mente, quando os reflexos involuntários do Soldado foram acionados automaticamente, Bucky mal teve tempo de se esquivar antes que Sam chutasse sua cadeira para longe.
— Mas que porr...? — Conseguiu se defender de um soco com certa facilidade.
— Mexe esse seu traseiro dramático e vai atrás daquela garota maravilhosa logo! — Sam tentou dar um tapa na cabeça de Bucky, mas o Soltado escapou uma vez mais. — Você lutou a guerra de outras pessoas a vida toda, agora é hora de lutar por alguma coisa sua. Para de agir como um garotinho birrento do prézinho, porque você já tem cem aos nas costas. Se você ferrou tudo porque é um idiota, conserte. Se perdeu a garota porque é tapado, lute por ela! Agora saí logo daqui, ou eu vou socar a sua fuça até você voltar a perder a memória!
— Você não conseguiria fazer algo assim mesmo que quisesse. — Bucky retrucou, mas não riu da atitude exagerada, porque as ordens de Sam ainda estavam sendo processadas.
Lute por ela. Isso seria certo? Seria justo pedir que ela escolhesse alguém que não a merecia? Alguém que talvez nunca pudesse se doar inteiramente?
— Não dúvida da minha raiva, não. — Sam advertiu, enquanto praticamente empurrava Barnes. — Agora vai, caí fora!
Bucky deu alguns passos para fora da sala, porém deu meia volta para olhar para o amigo que lhe encarava com os braços cruzados.
— Obrigado. — Agradeceu com honestidade, porque quando deixou o apartamento de Gus e TJ sequer conseguia decifrar os próprios pensamentos, mas a conversa com Sam realmente havia ajudado.
— “Obrigado”, nada. — Wilson jogou de volta. — Você está me devendo uma das grandes.
— Deus... eu já estou arrependido. — Bucky ironizou, enquanto negava diversas vezes. — Você é um idiota, sabe disso, não é?
— Igualzinho a você. — Sam apontou a porta e Barnes se virou novamente. Já estava no corredor quando ouviu: — Não esquece do sexo de reconciliação, são sempre a melhor parte das brigas, e com certeza vai melhorar seu humor.
Idiota, foi o primeiro pensamento de Bucky, o segundo ele achou melhor abster, porque não era nada apropriado.
Além disso, ele ainda tinha que processar tudo que tinha ouvido e decidir o que fazer, porque um lado de si continuava a dizer que havia uma promessa que Bucky não seria capaz de cumprir, se ficasse perto de Savannah...
Foi direto para o próprio apartamento, o que talvez tenha sido a escolha mais errada que podia fazer naquele momento, porque se queria mesmo processar os próprios pensamentos e sentimentos, ali era o pior lugar. Porque Savannah estava em cada pequeno canto e detalhe.
O lugar mal lembrava o mesmo apartamento de meses antes, tinha mais moveis, um pouco mais de bagunça também, tinha mais vida.
E era tudo por causa da Savannah...
Alpine abriu os olhos e ergueu a cabeça quando ouviu os passos, observou o dono por um instante e voltou a se encolher entre as cobertas, sem dar a mínima. Bucky se sentou na cama e deixou as costas irem de encontro ao colchão, causando um resmungo irritado da gata, que se levantou e foi dormir na sala.
Ele encarou o teto por um tempo, ouvindo a conversa com Sam em looping na própria mente... “Você gosta dela?”
Fugiu da pergunta outra vez, dizendo a si mesmo o mesmo que tinha dito a Sam. O que sentia não era relevante... Não era?
Não devia ser.
Então Bucky continuava a fugir da pergunta para evitar saber a resposta, porque no fundo tinha medo. Isso era ridículo.
Até quando continuaria a fugir das coisas?
Se moveu até a cabeceira da cama e abriu a gaveta do móvel ao lado, pegou o envelope que ficava abaixo do caderno de anotações, puxou a foto que havia ali. Ele e Steve lado a lado, nos anos 40, no meio de uma guerra, rindo...
Não lembrava porque estavam rindo, mas sempre que Steve ria Bucky ria também, era automático. Se tirasse todo o tempo do Soldado Invernal da mente, ele podia ver que tinha passado metade da vida tentando proteger Steve e a outra metade tentando agradá-lo. E nunca deu certo.
Dizia si mesmo que estava tudo bem, ninguém é obrigado a amar alguém de volta... O que sempre ignorou foi o fato de que amar alguém que não correspondia era muito difícil, e doloroso. Se consolava com o fato de que Steve não sabia, dizia a si mesmo que chegaria o dia em que contaria tudo e as coisas seriam boas. Que eles fugiriam da sociedade ou qualquer idiotice dessas...
E então se tornou o Soldado Invernal. Quando encontrou Steve em Bucareste disse que sabia quem ele era por causa do museu. Era mentira. Se lembrou perfeitamente dele no momento em que as palavras foram ditas. “Até o fim da linha”... O tirou do rio, mas não podia ficar, não podia olhar nos olhos de Steve. Não era digno.
Sua vida desde então tinha sido um grande compilado de desculpas, motivos para não contar, condições para contar... “Se”, “Quando”. Bucky era o assassino mais letal da história, mas era um grande covarde. Se escondia atrás da ilusão de que “quando Steve soubesse”.
Mas Steve sempre soube. Estava ali, na carta que Bucky tinha acabado de tirar do envelope. “Suas verdades me assustam... Não deviam, mas sempre assustaram. Talvez as de agora assustem até menos do que as de antes...”
Steve sempre soube e ele simplesmente não sentia o mesmo. Mas não era culpa dele. Rogers nunca pediu nada, Bucky deu tudo voluntariamente. Sua lealdade e seu coração, quando Steve teria se contentado perfeitamente apenas com sua amizade.
Bucky suspirou, leu a carta mesmo que fosse desnecessário, já havia feito isso tantas vezes que tinha até decorado as palavras. Respirou fundo então e colocou tudo de volta no lugar repentinamente. Havia algo que ele precisava fazer...
Quando deixou o apartamento novamente o Sol já estava se pondo. Dirigiu para leste, para uma parte tranquila do Brooklyn. Vinte minutos e já estavam em frente a um pequeno cemitério.
O grande Capitão América podia ter sido enterrado em qualquer lugar — na verdade o público tivera um velório simbólico e havia um túmulo que podia ser visitado em algum cemitério grande de destaque — no entanto os ossos de Steve Rogers estavam no mesmo cemitério que Sarah Rogers tinha sido enterrada, foi um pedido dele próprio. Um túmulo discreto, com uma identificação simples “Steven – Amado amigo e marido”. As frases bonitas ficaram para o público, mas Bucky jamais tinha visitado o lugar falso.
Na verdade, mesmo ali no túmulo verdadeiro ele não tinha ido muitas vezes...
Arrancou algumas ervas daninhas sem muita pressa, depois contornou o nome com os dedos de vibranium enluvados. Respirou fundo, tentando não se deixar levar pela emoção.
— Eu encontrei a pessoa, Steve... — Declarou, mesmo sabendo que falava sozinho. — A pessoa que é minha amiga, como eu fui o seu; a pessoa disposta a me proteger da mesma forma que eu tentava de proteger de tudo; alguém que podia ter me abandonado quando ficou cara a cara com a verdade sobre mim, mas se recusou a isso... Eu encontrei a pessoa que me olha como se eu valesse a pena, mais que isso, Steve, ela olha pra mim como se eu fosse digno, e quando ela está olhando pra mim desse jeito... eu acredito nisso... Ninguém nunca me olhou assim.
Ele limpou uma lágrima teimosa que escorria sem motivo e respirou fundo, era hora de responder a pergunta...
— Ela é a paz para a minha guerra, ela é o Sol no meu Inverno eterno... E eu gosto dela, Steve, eu gosto já tem um tempo na verdade. — Bucky disse as palavras devagar e isso foi bem mais fácil do que ele esperava. — Eu realmente gosto dela. Mais do que achei que gostaria de qualquer outra pessoa que não fosse você... E eu acho que ela gosta de mim também. — Toda sua expressão suavizou e ele sorriu. — Eu não sei se ela me ama da forma como eu te amei, mas eu sei que eu quero descobrir, Steve, é mais que isso na verdade... eu quero saber como é amar alguém de todo o coração e ser amado de volta. Eu ainda acho que não mereço, mas essa é a coisa que eu quero pra mim mesmo. É o meu desejo egoísta e bobo. E eu sei que nunca vou saber, se ainda estiver cumprindo minha promessa e guardando meu coração pra você...
Engoliu em seco. Sua mão direita tremia. Bucky nunca imaginou que diria algo como o que estava prestes a dizer.
— Eu não posso mais fazer isso... Chegamos ao fim da linha juntos, mas acontece que era apenas o fim da sua linha, o problema é que eu nunca tinha imaginado uma vida sem você antes, mas é o que eu tenho agora, não tem como voltar atrás, não tem como consertar o meu passado, não tem viagem no tempo pra mim, amigo. — Ele riu de canto e então negou algumas vezes. — E eu não te culpo, você fez o que você tinha que fazer, e eu fico feliz por você. E eu acho que você ficaria feliz por mim também... Eu estou seguindo em frente, Steve. Eu sempre vou te amar, mas eu não posso continuar guardando meu coração pra alguém que nunca quis... Acho que já é hora de dizer adeus de verdade. Adeus amigo.
Não olhou para trás, apenas partiu. Sempre haveria em espaço em sua mente para as boas lembranças que tinha com Steve, sempre se lembraria dele com carinho, ele estaria naquele lugar reservado a todos que lhe eram especiais, como sua família e o comando selvagem.
Mas Bucky sabia que seu coração não era mais o objeto de uma promessa e poderia entregá-lo a quem ele quisesse, quando quisesse e se assim quisesse...
Voltou direto para o prédio, mas não foram as escadas de seu próprio bloco que subiu de dois em dois degraus. Quando parou em frente a porta de Savannah seu coração estava aos saltos... Três batidas. Nenhuma resposta.
Bucky tirou o celular do bolso, eram sete da noite e não haviam mensagens ou chamadas perdidas. Ele ligou, mas ela não atendeu. Engoliu em seco. Savannah não queria falar com ele.
Lute por ela. Era o que Sam tinha dito, era o que Bucky tinha que fazer.
Desceu as escadas novamente e montou na Harley Davison, cruzando o Brooklyn de volta para o local onde tudo tinha começado... Mas ninguém atendeu a porta do apartamento de Gus e TJ também. Onde eles estavam?
Onde Savannah estava?
Tentou ligar novamente e outra vez não obteve resposta. Pensou por alguns instantes e não conseguiu ter nenhuma ideia de para onde todos teriam ido. Estava decidido a tentar o celular do Gus então, mas uma mensagem chegou primeiro. Era de Abigail.
Eu costumo dizer que a vida é sobre segundas chances,
porque dá primeira vez a gente sempre ferra com tudo...
A mensagem veio acompanhada de uma localização para a parte nobre da cidade. Bucky franziu as sobrancelhas. Que lugar era aquele?
De toda a forma, não importava, ele iria até o inferno se fosse necessário... Bucky iria aonde quer que Savannah estivesse.
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