Bucky Barnes viu Savannah se afastar do sofá e piscou algumas vezes, ainda atordoado com o efeito que sua vizinha ruiva tinha sobre si. Era terrível... e ao mesmo tempo era tão bom.

— Viu? Dessa vez eu não vou mandar entrar, porque não estou esperando ninguém... — Ela comentou, se referindo ao que Bucky tinha dito antes, sobre abrir a porta para qualquer um, então girou a maçaneta.

No mesmo instante o apartamento foi praticamente invadido por uma garota de cabelo roxo e óculos tão redondos quanto suas bochechas coradas.

— Eu te mandei uma dezena de mensagens e você não... — Ela encostou o guarda-chuva molhado ao lado da porta e parou onde estava assim que seus olhos focaram em Bucky.

Franziu as sobrancelhas e alternou o olhar entre ele e Savannah de um jeito desconfiado. Bucky já tinha visto a garota de longe antes, ele se lembrou imediatamente...

— Isso é um encontro? — A garota perguntou, apontando de um para o outro, depois de analisar Savannah de cima a baixo, como se estivesse conferindo a roupa da amiga.

Bucky se sentiu estranhamente constrangido, mas Savannah riu daquele jeito sol de verão e fechou a porta.

— Esse é o James, ele é meu... — Ela estava explicando, sem ter negado a coisa do encontro, quando foi interrompida bruscamente pela outa.

— Ah! O amigo gostoso e misterioso que o TJ não para de falar. — Ela apontou animada, como se tivesse acabado de lembrar.

Bucky sentiu que seu rosto queimava e Savannah deu um cutucão nem tão discreto na amiga.

— O que? Não é mentira. — A garota de cabelo roxo se defendeu, então deu alguns passos na direção de Bucky. — TJ falou isso mesmo de você, moço. Fuja pra outro país enquanto há tempo, porque meu primo é louco. Eu sou a Abigail, mas todo mundo me chama de Abby.

— Bucky. Só, Bucky. — Ele piscou algumas vezes, ainda atordoado com a forma rápida que a garota disparava as palavras. Parecia o tipo hiperativa e frenética, como se sua mente borbulhasse com mil pensamentos ao mesmo tempo.

Abby lançou outro olhar pra Savannah e a ruiva deu de ombros, Bucky entendeu que era sobre a diferenças de nome, e percebeu que apenas sua vizinha tinha problemas com seu apelido.

— Eu não vou perguntar. — Abby ergueu as mãos em rendição e então seus olhos focaram no chão da sala — Um gato!

Tanto Bucky quanto Savannah foram totalmente esquecidos, enquanto Abigail cortava a sala para pegar a bolinha de pelos branca.

— Oi pequeninho, como é o seu nome? — Ela usou uma voz fina e infantil para falar com o gato.

Savannah riu de canto e voltou a se sentar onde estava, ao lado de Bucky.

— Essa é Alpine. Ela é do James. — Disse com naturalidade.

Bucky, no entanto se sentia bastante deslocado ali no meio. Talvez as duas garotas quisessem conversar algo importante e ele estava atrapalhando.

— Acho que eu já vou indo... — Ele se levantou desconcertado e ambas as jovens focaram nele.

— Não. Senta aí, quanto mais opinião melhor! — Abby cortou no mesmo momento, erguendo um dedo em riste.

Os olhos de Bucky seguiram para Savannah e ela deu ombros com um sorriso de canto. Pelo visto nem ela sabia o que a amiga queria, mas a julgar por sua postura despreocupada e quase divertida, aquele comportamento de Abigail era algo bem comum. Bucky voltou a se sentar então, e Savannah lhe presenteou com um sorriso satisfeito.

— Você entende de política? — Abby questionou, entregando Alpine para ele.

Bucky franziu as sobrancelhas, deixando que a gata se aconchegasse em seus braços. Era uma pergunta estranha.

— Não muito. — Ele foi evasivo.

Costumava entender muito mais em sua época, afinal com a guerra batendo na porta de casa política era um assunto muito presente. No entanto, sobre a modernidade Bucky não entedia basicamente nada, mas esperava que Democratas ainda fosse a escolha certa acima de Republicanos.

— Não importa, vai ficar aí, mesmo assim. — Abby apontou, saindo da sala e indo até a cozinha para pegar alguma coisa.

Dada a naturalidade como ela fez isso e calma de Savannah, Bucky presumiu que a garota tinha total liberdade ali dentro. Voltou momentos depois com três latinhas de refrigerante.

— Eu não acho que devia tomar Coca-Cola. — Savannah aconselhou a amiga, quando pegou duas das latinhas e entregou uma para Bucky.

Em resposta, Abby abriu seu refrigerante e deu um gole enorme. Savannah riu de canto fazendo movimentos negativos enquanto tentava abrir a própria latinha sem o menor sucesso...

— Eu pedi demissão. — Abigail declarou como se fosse nada, abrindo a caixa de pizza sem pedir permissão. — Vocês não iam comer isso?

Ela pegou um pedaço de pizza e Savannah fez o mesmo, apontando a caixa para Bucky.

— Você conseguiu esse serviço na semana passada... — A ruiva desconsiderou a pergunta da amiga e focou apenas na informação.

— Pois é, mas aquele J. J. Jameson é um idiota e o Clarim Diário é uma piada. — Abby moveu os ombros de um jeito superior e deu uma mordida no seu pedaço de pizza.

Bucky estava totalmente perdido no meio da conversa, mas por algum motivo aquela sensação de deslocamento foi sumindo aos poucos...

— Achei que era seu sonho trabalhar lá... — Savannah deixou a pizza de lado para lidar cm a latinha que ela não tinha conseguido abrir ainda, mas tudo que conseguiu foi quebrar o lacre.

Bucky a ouviu murmurar um palavrão e estendeu seu refrigerante recém-aberto para ela, ganhando um daqueles sorrisos-sol.

— Era, no passado de “não é mais”. — Abby respondeu enquanto isso. — Ele não quis publicar meu furo...

Bucky não teve qualquer dificuldade de abrir a latinha mesmo sem o lacre, apenas empurrou discretamente o lugar apropriado com o polegar de vibranium coberto pela luva e pronto.

— Que furo? — Savannah perguntou, colocando as duas pernas dobradas no sofá e com isso chegando um pouco mais perto de Bucky.

Ele deu a primeira mordida na pizza e Alpine lhe encarou com olhos enormes e pidões.

— Que a Primeira Dama foi assassinada e que a aquela Ministra da Latvérnia que veio oferecer apoio é uma golpista com planos secretos. — Abby respondeu, gesticulando energicamente no meio da sala e isso fez com que Bucky parasse sua tarefa de pegar um pedaço da borda da pizza para dar a Alpine.

— Que tipo de planos secretos? — Savannah questionou, mas seu tom nada tinha de interessado, na verdade ela parecia um misto de desacreditada e divertida, quase como se Abigail sempre tivesse uma história desse tipo pra contar.

— Eu não sei, é por isso que eles são secretos. — Ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Escutem a história toda. Você também, Bucky.

Abby apontou, e ele assentiu devagar sem saber muito bem como reagir. Abigail falava rápido demais, era quase difícil acompanhar.

— Lá vem mais uma teoria da conspiração... — Savannah murmurou divertida e piscou para Bucky, mas recebeu um olhar nada satisfeito da amiga, o que só a fez rir abertamente.

É, Bucky teve certeza que Abigail sempre contava história do tipo, porque o clima ali, apesar de tudo, era mais engraçado do que pesado. Enquanto a garota ligava a televisão e parecia sintonizar a tela com o celular, Bucky se ocupou de dar mais um pedaço de borda de pizza para Alpine.

Percebeu que Savannah observava seus movimentos com um sorriso calmo no rosto e por algum motivo bobo ficou preso nos olhos castanho-esverdeados até que Abby limpasse a garganta como se pedisse atenção e jogasse uma foto na tela...

Na imagem havia uma mulher de longos cabelos negros; muito elegante; olhos azuis; lábios pintados de vermelho... E seguranças ao seu redor.

— Essa é Lucia Von Bardas, Primeira Ministra da Latvérnia. — Apontou, mostrando uma sequência de fotos da mesma mulher. — Ela assumiu durante o blip, então veio se aproximando dos Estados Unidos nesse tempo. Apoiando o país, ajudando o presidente, se tornando próxima dele.

Bucky se sentiu repentinamente enjoado, com falta de ar talvez. Se remexeu desconfortável e algo se agitou em sua mente. Quase como um sentimento de reconhecimento que não era de fato isso. Teve quase a impressão que conhecia aquela mulher, mas não conseguia lembrar, por isso deixou esse sentimento passar.

Tomou um gole de refrigerante para tirar o gosto amargo da boca e para ver se o ar voltava aos seus pulmões...

— Nisso os Vingadores desfizeram a bagunça toda e a Primeira Dama, que tinha sido blipada voltou. Mas logo depois morreu “misteriosamente” em um acidente de carro. — Abby mudou para imagens do acidente. Era um acontecimento recente e Bucky sabia, foi logo quando Steve se foi, por isso nem Bucky nem Sam deram atenção ao evento... — De novo o presidente estava sozinho, de novo a Ministra Von Bardas estava por perto. Isso não pode ser apenas coincidência, não é?

Abigail mostrou mais uma sequência de fotos do enterro da Primeira Dama e do sofrimento do presidente, a Ministra Von Bardas estava sempre por perto. Muito perto.

— Pode ser e pode não ser... — Savannah moveu os ombros sem tanto interesse. — O que mais você descobriu?

— Nada. Eu pesquisei e a mulher está totalmente limpa, uma ficha perfeita, que só me deixou ainda mais desconfiada. Pedi pra acessória da Casa Branca comentar e eles me garantiram que ela é uma pessoa de confiança que só tem ajudado nosso país. — Abby não ficou nada satisfeita em responder isso. — Me mandaram um monte de imagens das benfeitorias dela e o Clarim se recusou a cobrir meu furo.

Outra sequência de fotos, Lucia Von Bardas aparecia em diversos eventos em meio a pessoas, sempre sorrindo e ajudando, ao seu redor sempre haviam seguranças...

— Espera. Volta uma. — Bucky ordenou, sequer notando que tinha entrado no “modo soldado” e estava mesmo analisando as fotos.

Não tinha sido intencional, claro que não, mas fora treinado para observar alvos, para analisar imagens em busca de pistas, brechas ou pontos fracos. Seus olhos estavam acostumados a se atentar nos detalhes, mesmo que não quisesse ou gostasse disso.

Savannah ficou surpresa, mas Abby se mostrou absurdamente empolgada e fez o que foi ordenado imediatamente.

A foto em questão era de Von Bardas no meio de algumas crianças.

— Essa é do dia da morte da Primeira Dama. — Ela declarou, movendo a mão no ar e fazendo com que Savannah lhe desse o lugar. Se sentou ao lado de Bucky então. — A Ministra estava em uma ação de distribuição de recursos para os blipados que voltaram e não tinham onde ficar.

Bucky analisou a foto de novo, o detalhe ainda estava lá.

— Pode aproximar? — Questionou, antes mesmo de pensar sobre isso. Abby moveu os dedos na tela do celular e a imagem na televisão se ampliou em Von Bardas. — Não dela, esquerda.

A foto se moveu na tela e focou em dois homens, eram parrudos e carecas, exatamente iguais um ao outro.

— Ali. — Bucky apontou. — Esses homens aparecem com ela em toda foto.

Estava no automático, o instinto havia assumido totalmente e ele sequer pensou melhor sobre o que estava fazendo.

— São os trigêmeos Novokov, vieram com ela da Latvérnia, estão sempre juntos, colados mesmo, feito cães de caça. — Abby explicou.

Soviéticos. Bucky supôs, por causa do sobrenome e não gostou dessa constatação. Uma teoria estava se formando em sua mente, mas ainda não fazia muito sentido...

— Você tem mais imagens desse dia? — Perguntou sério e Abby deu um gritinho empolgado.

— Tenho sim. — Ela imediatamente jogou várias delas na tela. E Bucky correu os olhos treinados sobre todas imediatamente. — O que você está vendo que eu não estou?

— Não tem três. — Ele apontou a primeira imagem. — O terceiro só chega aqui.

Mas não era o fato de terem apenas dois e depois três que tinha chamado a atenção de Bucky, era a expressão especifica que havia em uma das fotos em que estavam apenas dois deles.

Ele já tinha se levantado e estava muito próximo da televisão com os braços cruzados e os olhos vasculhando qualquer outro detalhe. Viu mais uma coisa que não lhe pareceu boa.

O terceiro gêmeo, aquele que tinha chegado depois, limpava as mãos em sua primeira foto com os outros, podia não parecer nada, mas Bucky não era tão otimista assim.

— Podemos achar os vídeos na internet... — Abby propôs, digitando algo e logo enchendo a tela de vídeos.

Se levantou também e parou ao lado de Bucky, seu entusiasmo e expectativa eram palpáveis.

— Aqui. Aproxima. — Bucky apontou um dos vídeos.

Abby fez o que ele mandou. A imagem ficou maior e mais lenta. Foram dois frames apenas. O terceiro gêmeo chegava ao evento depois, em um carro preto, e movia a cabeça discretamente para uma direção especifica.

Juntando com as fotos ficava claro que ele se comunicava com os irmãos.

— Viu? Ele está acenando que algo deu certo. — Bucky mostrou. — Está falando com esses dois aqui e olha... aproxima mais.

Abby obedeceu imediatamente, como se estivesse hipnotizada. Ao focarem no gêmeo que havia chegado depois podiam notar as mãos dele sujas de graxa.

Os eventos se encaixavam perfeitamente na mente de Bucky. A Ministra estava em um evento público para que fosse vista e tivesse um álibi, então um dos trigêmeos fazia o serviço sujo, sabotava o carro da Primeira Dama e voltava com as mãos sujas de graxa, acenava o sucesso da missão para os irmãos, que ficavam satisfeitos, e depois se juntava a eles enquanto limpava as mãos.

Mas por que? O que essa Von Bardas ganhava com isso?

— Minha nossa, você é bom! Eu podia te beijar agora... — Abby comemorou em um misto de empolgação e choque. — Isso é, se você não fosse uma garota, mas já que você é um cara, esquece o beijo e se contenta com o meu “muito obrigada”.

— Então vocês acham que esse cara sabotou o carro da Primeira Dama? — Savannah parou ao lado deles e só então Bucky pareceu voltar a si.

Lembrou onde estava. Não em uma sala de estratégias de guerra; não no planejamento de uma missão; não no exército ou na hidra; certamente não com Sam, Steve ou Tchala...

Abby era apenas uma garota se envolvendo em algo que era claramente maior que todos eles ali. Algo perigoso.

— Eu acho que você devia se manter longe disso. Pra sua própria segurança. — Ele aconselhou desfazendo a postura militar instintiva e Abby pareceu decepcionada.

— Certo. Certo. — Savannah cortou, desligando a televisão. — Chega, vocês dois. James, não se deixe levar pela Abby... — Ela apontou como se nada daquilo fosse importante. — E Abby, chega das teorias da conspiração e de qualquer coisa com cafeína por uns tempos. Entendeu?

A ruiva tirou a Coca-Cola das mãos da amiga e Abby revirou os olhos entediada.

— Você entendeu, Abby? — Savannah foi ainda mais categórica.

— Sim, senhora, mãe. — Outro revirar de olhos.

Bucky se sentiu péssimo por ter falado demais, porém mesmo assim não conseguia deixar de pensar naquilo, nas fotos, nos seguranças trigêmeos e no que parecia o assassinato da Primeira Dama...

Abby juntou suas coisas e lhe deu um sorriso amigável.

— Eu vou pegar isso aqui antes de ir. — Ela abriu a caixa de pizza e pegou dois pedados.

— Onde você vai? — Savannah perguntou desconfiada.

— Casa. — A outra respondeu como se não fosse nada demais.

— Abby... — A voz de Savannah era uma advertência clara.

— É sério. Eu vou pra casa, mando até foto se você quiser. — Abigail fez o possível para levantar as mãos em rendição, considerando que havia dois pedaços de pizza com ela. — Não que eu ache que você vai ver, porque obviamente quando as línguas de vocês estiverem dentro da boca um do outro, os seus olhos vão estão fechados.

Bucky engasgou com o ar, mas Savannah mantinha o mesmo olhar sério de advertência, nada afetada pela brincadeira amiga:

— Não tenta me distrair, Abigail Hernandez, eu já saquei você.

— Não faço ideia do que você está fazendo, sério. Eu até já esqueci. Tchauzinho. — Abby acenou já na porta, com a maior cara de inocência do mundo. — Foi legal te conhecer, a propósito, Bucky.

Fechou a porta atrás de si, mas voltou um segundo depois:

— Não esqueçam da proteção...

Savannah lançou uma almofada na porta, mas Abby já tinha ido do mesmo modo frenético que havia chegado.

Bucky estava desconfortável outra vez, não por causa das brincadeiras e sim por causa de todas as informações em sua mente.

— Desculpa por isso, Abby pode ser... — Savannah riu, movendo a mão no ar, mas ele a interrompeu.

— Não, eu que peço desculpas por assustar vocês. — Se sentiu idiota por ter se deixado levar por seu treinamento daquele jeito.

Por isso devia manter distância das pessoas. Nunca podia confiar na própria mente... Em um segundo estava tudo normal e no outro o inverno em si assumia e só coisas ruins vinham daí.

— Você não assustou, acredite. — Savannah gesticulou como se fosse nada. — Abby envolve a gente nas teorias dela e é feito um vórtice que suga todo o nosso interesse. Quando ela tinha quinze ela convenceu o TJ que aquele diretor da SHIELD tinha forjado a própria morte e ela até teria me convencido também, se eu me importasse com essas coisas de heróis, agencias secretas e tudo mais...

Ela riu como se fosse uma piada boba, mas Bucky ficou ainda mais tenso, afinal Nick Fury tinha de fato forjado a própria morte...

Na verdade, o próprio Bucky não saberia disso se não tivesse dado de cara com Fury no velório de Tony Stark. Foi um daqueles momentos bem constrangedores... Não é todo dia que se encontra alguém que você tem toda certeza que matou.

Mas tudo que o antigo diretor da SHIELD disse na ocasião foi: “Que bom que está de volta, Sargento Barnes”. Nada mais.

— É melhor eu ir... — Bucky declarou, pegando Alpine e dando um passo em direção a porta.

— Você está bem? — Savannah perguntou, se levantando e dando dois passos na direção dele.

Não. Não estava. Tinha muito no que pensar.

— Sim, é só que amanhã eu acordo cedo. — Mentiu, movendo os ombros como se não fosse nada demais. — Sabe? Trabalho e tal...

Não soube se Savannah acreditou, ela moveu a cabeça afirmativamente muito devagar apenas e pareceu um tanto decepcionada, ou triste talvez.

Bucky odiou isso, odiou ser o responsável por apagar o sorriso de sol que ela tinha e odiou ainda mais porque sabia que não poderiam se ver outra vez. Já estava bem claro que não era seguro. Ele tinha que se afastar.

— Mas obrigado pela pizza e por secar a Alpine. — Agradeceu, porque no fundo precisava vê-la sorrir nem que fosse uma última vez...

Mas ela não sorriu, apenas assentiu de novo e Bucky abriu a porta.

— Tchau, Savannah. — Ele deu um passo para fora na esperança de ouvir seu nome nos lábios dela uma vez mais.

— Tchau. — Savannah acenou, sem qualquer “James” em retorno e Bucky se obrigou a caminhar para longe.

Passou para o seu bloco, fugindo da chuva que caia sem piedade, então voltou para o próprio apartamento e não permitiu que seus olhos procurassem os fios ruivos do outro lado.

Era hora de parar com isso. Com tudo.

Arrumou um lugar para Alpine dormir, improvisando com uma manta, logo depois de colocar água e leite a disposição dela. Compraria ração quando os comércios abrissem...

Então pegou a mochila que sempre deixava pronta e também uma segunda, onde colocou mais algumas coisas. Não precisava sair correndo, mas pela manhã compraria ração e procuraria outro apartamento, seria melhor assim.

Um novo lugar onde ele não falaria com os vizinhos de jeito nenhum, não importava o quão alta a música estivesse.

Mesmo assim ainda estava preocupado com a curiosidade de Abby, e principalmente com a segurança dela, por isso escreveu uma extensa mensagem para Sam, contando suas suspeitas sobre a Primeira Dama, não citou a fonte das informações, é claro, manter o anonimato de Abigail soou mais sensato. Disse que tinha descoberto navegando na internet, coisa que Bucky havia aprendido a fazer com o próprio Sam depois que comprou o celular. Não que tivesse entendido totalmente.

A resposta de Sam chegou quando Bucky já estava deitado, vestindo nada além de uma samba-canção e rolando na cama com muitos pensamentos conflitantes e nenhum sono:

Acho que você é paranoico,
mas vou ver o que descubro
Natasha era paranoica e estava sempre certa.
Mas que fiquei registrado
que eu não disse que você está certo.

Sentiu certo alivio em saber que Sam cuidaria disso, ele podia resolver o problema e não deixaria mais ninguém se machucar. Teclou uma resposta e enviou:

Claro que não. Você nunca diria isso...
A propósito, você devia usar o escudo na investigação.

Sabia que ia irritar Sam com isso, mas essa era a intenção.

O retorno não tardou a chegar e foi exatamente como Bucky esperava: um “Vai se ferrar!” cheio de dedos do meio junto.

Bucky quase riu, mas ainda havia um peso estranho em seu coração, olhou a mochila no canto do quarto, pronta para a partida e suspirou.

Amanhã à noite eu já vou estar em outro lugar, provavelmente bem longe daqui... O pensamento não lhe trouxe nada além de desgosto.

Reparou em Alpine sentada no chão frio, sequer tinha se aproximado da manta que Bucky colocara no chão para ela e o encarava com olhinhos redondos e pidões.

— Vem aqui. Vai... — Ele cedeu, chamando a gata que se aproximou com seus passinhos erráticos.

Esticou a mão para alcança-la e logo Alpine estava se acomodando confortavelmente na cama, o mais perto possível de Bucky.

Ele encarou o teto esperando o sono chegar, mas seu celular indicou uma nova mensagem. Até pensou ser Sam novamente, mas o nome na tela era outro... Savannah.

Obrigada por me fazer companhia hoje

Não respondeu, sabia que não devia, mesmo que quisesse... Tinha que parar com tudo aquilo antes de ser tarde, tinha que se afastar porque era o melhor que podia fazer por ela. E Savannah merecia o melhor.

Apagou a tela do celular e fechou os olhos, mas levou um longo tempo para realmente dormir...

Havia dor e confusão. As vozes russas se misturavam por toda parte dezenas delas. Indo e vindo.

Bucky sentia o cheiro de sangue impregnar suas narinas, algo doía e queimava em seu abdômen.

— A bala foi extraída. — Um homem disse em Russo, mas a frase foi entendida com perfeição.

— Relatório da Missão, Soldat. — Outro homem questionou, misturando inglês e russo. Alto e de cabelos muito negros.

Era o chefe do lugar.

O Soldado Invernal ainda podia ouvir os gritos da morte e não se importava, mas Bucky se contorcia em sua própria mente, lutando para sair.

— Missiya vypolnena — Sua própria voz veio em um russo perfeito. “Missão Cumprida”.

Mortes. Dezenas delas. Brutais e sem qualquer remorso. As balas em seu corpo tinham vindo dali.

Queria ter morrido. Devia ter morrido...

— O braço foi danificado, temos que retirar para reparos. — Mais palavras russas perfeitamente compreendidas.

Então apagou, depois de sentir algo em sus veias.

Quando abriu os olhos era menos Soldado e mais Bucky, tentou se mexer, mas estava totalmente amarrado em uma cadeira cirúrgica. Três fivelas no braço direito e outras muitas em seu corpo, mas do lado esquerdo não havia nada. Nem mesmo um braço...

Bucky tentou gritar, mas ninguém pareceu ouvir ou se importar, as pessoas ainda iam e vinham como se ele sequer estivesse ali.

E então ela apareceu, veio andando entre o metal e a escuridão do laboratório secreto com um vestido branco rodado e sapatinhos de boneca. Na mão carregava um tipo de soldadinho de madeira com um dos braços quebrados.

Quantos anos tinha? Sete? Oito? Seus olhos azuis tão frios quando o gelo lá fora, piscaram diversas vezes focados totalmente em Bucky.

O que uma criança fazia ali?

— O que eu disse sobre xeretar por aí, Belosnezhka? — A voz masculina que misturava russo e inglês cortou o ar.

“Branca de Neve”, foi assim que ele a chamou, e fazia sentido porque a menina tinha mesmo os mesmos traços do conto de fadas. A pele branca, os lábios avermelhados e os cabelos negros...

— Olha é o meu Shchelkunchik, Papa. — A menina também misturou russo e inglês enquanto apontava para Bucky e o homem que ela chamou de pai a pegou no colo. — Querer brincar com ele.

Sua pronuncia foi errada, mas Bucky não se importou, porque sua mente repassava a palavra “Shchelkunchik”...

O que significava? Por que ele não sabia? Não conseguia lembrar...

— Hoje não Belosnezhka, outro dia você brinca. — Ele começou a tirá-la do lugar.

— Se fosse antigamente essa menina nunca estaria andando por aqui... — Alguém sussurrou em russo, perto o bastante para que Bucky entendesse.

Dois homens traziam o braço metálico e conversavam aos cochichos.

— Antes, amigo. Estamos nos anos noventa agora, as coisas mudam. E o Barão é uma das cabeças da Hidra, ele pode fazer o que quiser, inclusive trazer a filha para o trabalho. — O outro respondeu, parando ao lado de Bucky e o preparando o braço para ser implantado de novo.

A pequena Branca de Neve encarava tudo sobre os ombros do pai, enquanto eles se afastavam, o sorriso da pequena era também uma promessa.

Ela voltaria.

Seu rostinho infantil saiu da visão de Bucky, apenas sua mão infantil podia ser vista pousada no ombro do homem que chamavam de Barão. Então Bucky piscou, tudo saiu de foco por causa da dor, a pequena mão infantil era então a de uma mulher adulta, com unhas vermelhas aterrorizantes...

Acordou com um grito preso no fundo da garganta. Seu sobressalto o colocou sentado antes mesmo que ele percebesse. O peitoral molhado de suor subia e descia em uma respiração ruidosa e desconexa. Lá fora a chuva caia um pouco mais violenta que antes e ainda estava escuro.

Tinha sido só um pesadelo. Só mais um...

No entanto a criança de cabelos negros que tinha visto era algo novo. Nunca havia sonhado com aquela menina antes.

“Shchelkunchik” a palavra que a garota usou pra se referir a ele ecoou em sua mente... E daquela vez Bucky sabia muito bem o que significava.

Quebra-Nozes...

Sentiu uma náusea súbita e correu para o banheiro a tempo que despejar tudo que tinha comido direto no vaso. Tremia e suava frio, com o pavor e o asco correndo gelados e amargos por suas vezes.

Mas por quê?

Por que sentia apavorado com uma simples garota e com a menção, mesmo que mental, de uma única palavra?

Bucky não lembrava. E talvez não quisesse lembrar.

Estava sentado no chão, encostado no box, abraçando os joelhos, como se isso fosse fazer sua respiração se acalmar. Não conseguia, havia um sentimento horrível tomando conta de si, um que Bucky não entendia totalmente. Se forçou a levantar e escovar os dentes, para tirar o gosto ruim da boca, mas nem isso lhe acalmou.

Seus pulmões arranhavam como se respirassem pó de vidro, ardia por dentro, Bucky sentia que tudo ao redor girava. Enxaguou a boca e quando cuspiu viu apenas sangue... Estava em toda parte, na pia, nas paredes, no espelho, em seu rosto e principalmente em suas mãos.

Por mais que Bucky esfregasse não limpava... O Sangue estava sempre lá, manchando tudo, porque o que ele tinha feito era terrível demais para ser apagado. Era mais que os assassinatos da Hidra, era pior. Mas o que era?

Bucky não sabia, não lembrava, então o sangue continuava lá, em suas mãos, em seu rosto, no espelho, nas paredes e na pia, mas não era real, estava tudo em sua mente.

Não conseguia respirar, simplesmente não conseguia, era como se todo o oxigênio do ambiente se extinguisse aos poucos. Havia apenas o pó de vidro em seus pulmões, cortando tudo por dentro.

Bucky cambaleou para fora do banheiro e vestiu uma roupa qualquer, apenas uma calça de moletom por cima da samba-canção e uma jaqueta do mesmo tecido cobrindo o peitoral desnudo, onde repulsava apenas a plaquinha de identificação do exército.

Deixou o apartamento assim, descalço, sem boné e sem olhar para trás. Sequer teria lembrado da luva na mão de vibranium se ela já não estivesse no bolso do moletom.

Precisava de ar. Só isso.

Notas finais
*Lucia Von Bardas é uma personagem cannon das HQs, mas aqui eu personifico ela de modo diferente, dou outras origens e outros objetivos. *Latvérnia é o país comandado pelo Doctor Doom (Doutor Destino) Lucia é de fato Primeira Ministra lá nas HQs. E claro que tinha que começar a colocar as tretas aos poucos neh, pra quê dar paz para os coitados. Abby é muito rainha das teorias da conspiração e como no caso do Nick Fury ela geralmente está certa... Vamos começar a montar o quebra-cabeças das memorias perdidas do Bucky, mas ao mesmo tempo ainda não vamos entrar na ação de cara. O próximo capitulo é bem calmo e amorzinho, porém super importante para o desenvolvimento dos personagens (bem Savky também, pronto, falei) ele se chama "Quebra-Cabeças" e vamos saber bastante sobre o passado da Savy. Bucky tá crente que vai mesmo se mudar... será que vai? Beijos e até mais!