Inverno
2 Capítulo 02
Notas iniciais
Quando acordei, não havia sinal da luz do sol, era madrugada. Estava faminto por conta da viagem, precisava de algo para comer, mesmo não estando em minha casa teria de caçar comida sem que ninguém notasse minha presença.
Dei conta de que ainda usava as mesmas roupas desde que cheguei aqui, quando acendi a luz do abajur para ajudar a iluminar meu caminho. Eu conhecia o lugar, já vim algumas vezes quando menor, embora na adolescência eu odiava o fato de ter que vir para cá, já que sempre preferi estar em casa usando o computador. Fui diretamente para a cozinha, ainda com as luzes apagadas, abri a geladeira caçando algo para comer, retirei o presunto e a jarra de suco, em cima da mesa estava o cesto com alguns pães, seria aquela minha refeição.
Afastei a cadeira ainda tentando não fazer barulho, sentei logo em seguida para poder comer. Naquele momento, enquanto eu me alimentava, eu lembrei daqueles olhos profundos pedindo por ajuda, do corpo magrinho vulnerável à qualquer soco, do sorriso fraco que se formava quando eu tentava animá-lo no dia em que o conheci.
(...)
"— Quem chegar primeiro vence. — Ele dissera traçando uma linha no chão como ponto de partida.
— Está bem o prêmio pra quem vencer será uma semana de lanches pagos da cantina da escola. — Sugeri.
— Está certo. Onde será o ponto de chegada?
— Na rua das árvores, você deve saber onde fica.
Jogamos nossas mochilas dentro da caixa velha que se encontrava ao lado, logo voltaríamos para pegá-las.
— Preparado? — Indagou, posicionando-se.
— Três, dois, um. Vai! — Gritei!
Corremos o máximo que podíamos, Liam era veloz, o seu corpo magrinho proporcionava-lhe um melhor desempenho na corrida. Eu tentei alcançá-lo, havia momentos em que realmente eu conseguia ultrapassá-lo, mas ele parecia zombar de mim quando via que estava deixando, no final, ele venceu.
Repousei em uma das árvores, meus pulmões clamavam pelo que perdeu. Liam também estava dessa forma, porém sorria enquanto me zombava falando coisas do que ele queria para o lanche de amanhã. Eu tentava ignorá-lo, porém, fiquei irritado simplesmente por perder.
Os olhos de Liam procuravam por algo no chão e dentre as folhas caídas, recolheu uma pedra. Com um pouco dificuldade, havia escrito na árvore o seu nome: Liam.
— Vem, escreve o seu. — Disse, entregando-me a pedra.
— Qual o motivo disso?
— Esse é o nosso limite, tem tantas árvores aqui que poderíamos nos confundir se em algum outro dia fizermos a mesma aposta. Ou até mesmo quebrar esse recorde.
Era idiota a ideia, porém, escrevi logo abaixo do seu nome: John."
(...)
Minhas lembranças desapareceram quando a luz do cômodo fora acesa e a imagem de um rosto masculino, que me era familiar surge.
— Insônia? — Indagou.
— Não, acabei de acordar. — Respondi, mesmo estando de boca cheia, o que me fez corar quando percebi isso.
— Era de se esperar, assim que você chegou dormiu.
Eu não notei que havia pego no sono quando resolvi deitar para ter cinco minutos de descanso. Porém, fora só falar isso que lembrei o motivo de estar ali, fora o fato de meu pai trair minha mãe com uma mulher do seu trabalho. — desgraçada — Doía saber que agora eu teria de ser filho de pais separados, e o pior, passar a me acostumar em um novo... país.
Era exagero da parte dela preferir morar com minha avó. É nessas horas que eu penso seriamente em ter minha independência.
— Aconteceu alguma coisa? — O garoto perguntou.
— Não. — Menti — Você é... — Deixei com que ele terminasse a frase, já que eu não sabia seu nome.
— Adam. Está bem, você não se lembra do garoto que te fez molhar as calças. — Ele sorriu.
Adam era o meu primo, um pequeno filho da puta que quando criança, antes de conhecer Liam, me fez passar uma madrugada assistindo filme de terror com ele e no final fingiu que estava possuído.
— Ah...
— Posso me juntar a você? — Ele perguntou e sem que eu respondesse, afastou a cadeira, sentando-se logo em seguida.
— Onde está minha mãe?
— No quarto, dormindo com nossa avó. — Respondeu, pondo uma fatia no pão que acabara de selecionar.
Eu fiquei em silêncio, nunca fui bom em conversas, já que sempre preferi ser antissocial, mas parece que ser assim, não iria durar muito, principalmente com Adam, que era o oposto de mim.
— Deve ser difícil lidar com isso. — Falou, referindo-se a separação dos meus pais.
— Muito, mas uma hora acostumamos.
— Por sorte, nos acostumamos.
Foi quando lembrei de que Adam era filho de uma tia minha, que falecera um pouco depois dele nascer, desde então, era criado com minha avó.
— Logo amanhecerá, não estou afim de ir à aula.
— É essa uma das desvantagens de estudar pela manhã: acordar cedo.
— Ao menos eu terei alguém para ir comigo à escola. A tia me fez milhares de perguntas sobre a escola, quando a papelada estiver resolvida, você será transferido. Digamos, que terá uma semana de férias. — Sorriu.
(...)
"— John, vamos, estamos atrasados, os portões provavelmente estão se fechando! — Liam gritava, acelerando os passos.
— Calma! Eu fiquei assistindo filmes até tarde.
— Pornografia, tenho certeza de que foi isso. Costumo assistir quando meus pais estão fora de casa.
Era engraçado ter aquele tipo de conversa, no início, eu fiquei com vergonha, principalmente por ele ter acertado na lata que tipo de filme eu estava assistindo. Nem todas as crianças são tão inocentes. Eu era um ano mais novo que Liam, embora não parecesse, tendo nove anos, eu me portava como um irmão mais velho, mas com esses assuntos, ele realmente se mostrava mais experiente que eu.
O único problema de Liam, era ter medo do mundo e das pessoas. Se alguém gritasse com ele, seus olhos brilhavam quando a luz do sol refletia nas lágrimas que queriam descer."
(...)
— Também fico feliz por isso, só assim saberei a quem recorrer caso precise de ajuda. Me fale mais sobre a escola.
Antes de começar a falar, Adam tinha terminado de preparar mais um pão com presunto e eu fizera o mesmo.
— Bom, você costuma assistir filmes adolescentes? — Ele prosseguiu sem esperar com que eu respondesse — É parecido, a famosa hierarquia escolar. Se você não é popular, pouco reconhecimento você terá. Olha, rimou. — Sorriu.
— Pelo que parece, você é popular. — Chutei.
— Não, sou um nada. — Disse, mas logo sorriu novamente, mostrando não se importar com isso. — Eu acho isso ridículo, porém, se chegarmos com esses argumentos dizem que é desculpinha de que é considerado indigente. Quando você começar a estudar eu te apresento a escola e você entenderá melhor.
— Realmente é ridículo, de onde eu vim era dessa forma. E tem gente que se mata para estudar em escolas assim.
— Ah sim, existe alunos lá que tiveram seus planos fracassados, até jogaram vídeos na internet na tentativa de ter popularidade. — Dissera, bebendo um pouco do suco.
— Esses vídeos em que você fala, é o que estou pensando?
— Sim, os típicos vídeos de web cam, os famosos vídeos caseiros.
A conversa estava ficando legal, Adam não era tão chato quanto eu pensei, sabia induzir alguém a conversar, mesmo se essa pessoa fosse um antissocial como eu, que aos poucos deixaria de ser, se continuasse perto do garoto.
— Acho que irei voltar para o quarto, ainda estou um pouco cansado da viagem. — Falei, levantando-me.
— Sem problema, continuarei por aqui. Provavelmente irei te ver depois da aula, até lá, irei planejar algo pra fazermos.
— Está bem. — Não havia ânimo em minhas palavras.
Deixei Adam sozinho na cozinha e voltei para o quarto. A casa voltava ao silêncio absoluto, se não fosse pelo som da chuva que acabara de dar início. O sol começara iluminar a cidade com seus raios, um deles havia entrado pela janela do quarto iluminando a parede vermelha.
Deitei na cama e fiquei observando o céu negro, com nuvens carregadas de chuva que parecia ter piedade, deixando cair apenas o pouco do que continha nelas.
(...)
"Mais um término de aula, Liam e eu voltávamos para casa pelo mesmo caminho de sempre, tendo assuntos inacabáveis.
— O que fará nesse final de semana? — Indaguei.
— Meu pai quer sair comigo. Bem que você poderia vir, não gosto de ficar só. — Era assim todos os finais de semana, sempre mostrava a tristeza no tom de sua voz. Eu imaginava ser a minha ausência nesses dias.
Minha mãe nunca que deixaria sair com estranhos. Liam não era um estranho, mas seu pai sim. Digamos que minha ela costumava não confiar nas pessoas, principalmente pelos vários noticiários de crianças assassinadas.
— Deixa pra próxima vez. — Falei tentando não dizer o verdadeiro motivo.
— Não tem problema. Você costuma dizer isso sempre."
(...)
Eu tinha medo de sempre pensar no que estaria acontecendo com Liam, no que ele estaria fazendo ou até mesmo pensando na minha ausência. Não nego, que em muito momentos, por ser garoto, eu me julgava por pensar tanto no loiro. Mas ele era meu amigo, e de longe, ninguém se igualaria a ele. Era medroso, porém brincalhão, só não era ingênuo, o que muitas vezes me deixava pensativo por ele não ser daquela forma.
Fiquei pensando naquelas imensas orbes cinzas, que dependendo do lugar variava entre o azul e verde. Ele procurava me atingir com isso, com a raridade de seus olhos típicos da região de onde viera. Eu nunca reclamei dos meus olhos castanhos, porém, não podia negar que os dele chamavam mais atenção.
Abri a mala procurando o meu refúgio, o fone de ouvido, o que me tomou minutos de paciência tentando desfazer as várias voltas que ele fizera. Até, felizmente, adormecer.
Notas finais
Tudo bem? Se ficarem confusos podem me dizer. E ah, me digam também se vocês preferem que tenha esses flashbacks. (No futuro, apagarei essa nota, então leiam, por favor :/
-
Bom, o capítulo é pequeno (e eu estou tentando deixá-los maiores), mas o suficiente para vocês entenderem o motivo da mudança de John e conhecerem o mais novo personagem, primo dele, Adam. Por favor, não me deixem, eu os imploro, e me desculpem pela demora.
-
Um pequeno spoiler: No próximo capítulo, Liam surgirá das cinzas (esse sou eu ~~tentando~~ fazer suspense, haha).
Fale com o autor