Inverno

1 Capítulo 01


Notas iniciais
Prólogo.

"Eles não cresceram juntos, mas viveram o suficiente para perceberem o tamanho do sentimento que um sente pelo outro."

Era mais uma manhã qualquer, a neve que caía tinha dado início ao inverno. O relógio marcava exatamente 06:35. Verifiquei minha mochila para saber se tudo estaria em ordem. Usei o meu casaco listrado que havia ganho de minha avó, o que tornou-se o preferido, dessa forma, eu me sentia próximo dela, embora a mesma tivesse falecido há dois anos.

Com a mochila nas costas e mãos nos bolsos para proteger-me do frio, caminhei pelas ruas largas da cidade. A escola não era tão distante, apenas alguns quarteirões longe de minha casa. Observei a pureza que a neve tinha por ser tão branca, estava caindo sobre mim e os demais que passavam por debaixo dela, assim como as casas que foram cobertas, digamos que eu chamava o lugar de cidade da paz a cada vez que nevava. Já que não havia movimento e tudo era considerado branco.

Foram cerca de dez minutos para poder observar o castelo que era o lugar que eu estudava. Tão grande, que realmente parecia ser algo da realeza por conta do imenso portão negro por onde os alunos entravam. Alguns pais costumavam levar seu filho para a escola, eu me sentia incomodado por saber que os meus não se importavam com isso, de alguma forma eu tive de aprender a sobreviver sozinho mesmo com a pouca idade que tinha.

— Bom dia, John. — Dissera o porteiro Michael.

Ele era um homem simpático e realmente sincero em relação aos diversos bons dias que recebo, jpa que não dizia aquelas palavras por obrigação da escola, mas sim por ser um homem bondoso e gentil.

Me chamo Jhon por um amor incondicional que minha mãe teve pelo eterno Beatles. Não sou dessa época, mas me sinto honrado por ser chamado assim, o que me faz querer ter nascido naquela época.

— Bom dia, Michael! — Retribui o sorriso.

Eu sempre fui um garoto de poucos amigos, na verdade, eu não tive amigos, mas nunca me preocupei com isso. Ser reservado era o que eu preferia.

As aulas se iniciaram e já não ouvia-se o som de conversa vindo dos corredores, apenas de alguns passos, provavelmente dos atrasados. Costumamos ter alguma professora que marcam nossas vidas, geralmente é a primeira, no meu caso foi a senhorita Mollie. Dona de uma beleza encantadora e de uma gentileza única, sempre mostrou-se preocupada com todos os alunos e de alguma forma procura resolver nossos problemas, porém, eu nunca fui de contar os meus.

Eu costumava ter um banco somente para mim na hora do intervalo. Não porque as pessoas tinham medo de sentar do meu lado, mas por simplesmente preferirem deixar aquele banco vazio, diziam as más línguas que um professor fora assassinado ali. Por sermos crianças, acreditávamos em tudo.

Lá estava o pobre garoto loiro apanhando novamente, sendo jogado na lata de lixo. Ninguém interferia, já que o aluno, gordo, tinha a fama de ser o valentão e ainda tinha seus seguidores que tinham de obedecê-lo. Era como um ritual, todos os dias sendo jogado naquele lugar, e se resistisse levava alguns socos. Cansado, abaixava a cabeça e aceitava ser lançado contra os entulhos.


As horas se passaram assim como as aulas. Cada aluno recebia um beijo na testa dado por Mollie, eu costumava ser o último a sair da sala, mas por algum motivo, eu senti de ser o primeiro.


— Aposto que ter surpresa em casa. — Disse Mollie, estranhado o motivo de ser um dos primeiros a receber seu beijo.

Eu apenas sorri para ela saindo da sala logo em seguida. Havia pais esperando seus filhos na entrada da escola, uns abraçavam, outros os repreendiam por receberem reclamações, havia carros, bicicletas e outros, que assim como eu, iam caminhando.

Naquele dia eu não quis ir direto para casa, optei por pegar um caminho diferente, talvez, explorar novos lugares bem melhores que os próximos de onde eu morava, era perigoso, mas tentador.

Passei por casas maiores das que eu encontrava quando ia à escola, haviam mais árvores, inclusive, uma das ruas formava um verdadeiro túnel verde por conta da quantidade, mesmo que cobertas por neve a região era bela. Eu tinha pego três quarteirões a mais para chegar ao meu destino. Dessa vez, a beleza do lugar que eu passei ia desaparecendo tornando-se frio e obscuro, mesmo sendo considerado um bairro rico. Vida ali não existia, apenas almas que tentavam ao máximo chamar a atenção na faixada de suas casas.

— Bichinha.

Eu ouvi gritos próximos dali, pela voz, era a do garoto gordo da escola. Curioso eu decidi saber o que estava acontecendo, fui seguindo sua que vinha de um beco escuro, passei por alguns tonéis abandonados até encontrá-los; o loiro e os três idiotas que o usava como saco de pancada.

O loiro estava completamente nu, seus dentes se chocavam por conta do frio, enquanto os outros riam daquela cena. Quando notei a criança gorda fechando o zíper de sua calça, pensei na possibilidade da criança ter sido abusada, mas não pude deixar de imaginar de que aquilo que ele guardara na cueca era do tamanho de um amendoim. Atitude imperdoável.

— Agora me dá a grana.

— Não tenho isso, me deixe ir, por favor. — Ele dissera, sua voz falha e tremula partiu o meu coração.

— Você quer apanhar novamente? Eu sei que você tem grana, seus pais não são pobres.

— Mas vocês já pegaram de mim hoje na escola.

Ele estava encostado na parede, não havia para onde correr já que os garotos o cercavam. Quando notei sua voz mais uma vez, percebi que ela estava rouca, o que me fez acreditar de que ele havia gritado pedindo ajuda, e seus olhos vermelhos só confirmaram o quanto ele chorava.

De fato, o abusaram, porém, a idade dos garotos e o físico gordo deixou óbvio de que eles não foram tão longe.

Já chega.

— Vocês perderam a noção do que estão fazendo? — Surgi dos tonéis assustando-os.

O loiro pôs a mão em sua parte íntima enquanto os outros se viraram assustados. Quando deram conta de que era eu, começaram a gargalhar.

Eu nunca fui um garoto que pudesse ser chamado de valentão, já que não costumava brigar. Mas se fosse preciso usar da força, eu faria o possível para não sair machucado, mesmo estando com medo.

Quando o gordo ordenou os outros dois garotos para me pegarem, segurei em minha mãe o pedaço de madeira a minha frente e consegui acertar um deles, porém o outro conseguiu me socar. Mesmo com pouca habilidade que eu tinha, o derrubei no chão usando também a madeira. Eles me olharam assustado — assim como eu me surpreendi comigo mesmo por tomar aquela atitude — e se afastaram. Louis, o gordo, não falou mais nada quando me viu segurar a arma e ir em sua direção. Eu não iria agredi-lo, apenas dei essa a impressão. Foi quando eles saíram correndo deixando-me a sós com o loiro.

Ele me olhou assustado, provavelmente achava que eu também iria agredi-lo. Se encolheu na parede implorando-me piedade com o seu olhar. Foi quando soltei a madeira e recolhi suas roupas do chão. Tentei passar a imagem de que era diferente daqueles que viviam maltratando-o.

— Deixa eu te ajudar...

— Liam. — Disse ele, completando a minha frase, ainda com a voz tremula.

— Deixa eu te ajudar, Liam. — Sorri.

Foi essa a frase que deu início a minha primeira amizade. No dia seguinte, os garotos deixaram Liam quieto, já que íamos e voltávamos juntos para a escola. Pena que essa amizade durou pouco tempo, mas o suficiente para sermos considerados irmãos. Foi quando de repente eu recebo a notícia de que ele havia sido transferido. Não me avisou, não ligou muito menos mandou cartas.

Passaram-se oito anos, mas a dor da saudade insistia em permanecer em meu coração.

Onde estaria Liam? Por sorte, ele aprendeu a se proteger.


Notas finais
Bom, é pequeno, eu sei. Mas como disse, é apenas um prólogo para entenderem como surgiu a amizade dos garotos. Antes eu costumava postar diariamente, porém, eu não posso prometer fazer o mesmo com essa fic. Eu fico grato desde já a todos que lerem e espero que gostem desse novo universo.