Invasão de Privacidade
30 Step one: proof of life. She’s our kiddo!!
Notas iniciais
“ Your hands fits in mine;
Like it’s made just for me;
But bear this in mind;
It was mean to be;
And I’m joining up the dots;
With the freckles on your cheeks;
And it all makes sense to me;
…I won’t let these little things slip out of my mouth;
But if I do, it’s you;
Oh, it’s you;
They add up to;
I’m in love with you;
And all these little things...”
Little Things
One Direction
Hotel Luxor, Seattle (segunda, 6/3 — 4:01 a.m)
Caitlin
Abro a torneira da pia, unindo minhas mãos em forma de concha sob o jato ao mesmo tempo em que inclino-me, aproximando-me o máximo possível da bancada a fim de evitar espirrar água, sorvendo uma pequena quantidade, realizando bochechos curtos, cuspindo antes de jogar o restante em meu rosto, repetindo o processo mais três vezes, me dando, parcialmente, por satisfeita.
Sabia que aquele gosto amargo e enjoativo desapareceria de minha boca somente após escovar os dentes e bochechar enxaguante e olhe lá!
—Eu realmente tenho de exaltar Thomas por ter coragem de me beijar nas últimas doze horas! — murmuro, fazendo careta ao sentir ânsia novamente — Ai, droga!! — xingo, me ajoelhando depressa junto ao vaso, segurando o cabelo segundo antes de ter mais um pouco do que havia comido na noite anterior expelido num jato fraco uma, duas, três vezes seguidas, me fazendo apoiar a parede ao final, respirando devagar, fechando os olhos.
Os enjoos haviam começado ontem pela manhã e fora só o prelúdio de como o domingo seria estranho, para dizer o mínimo.
Para começar, Oliver havia mudado os planos após uma conversa, pouco antes de nos reunirmos para o café da manhã, com o senhor Queen e com Damien, optando por adiar o embarque para o final da tarde, o que acabou se mostrando providencial.
Logo que terminamos refeição, nos encaminhamos para o orfanato e a partir daí meu dia se transformou em idas constantes ao banheiro. Não sei dizer o que exatamente havia sido o gatilho, talvez o calor sufocante ou a baixa umidade, talvez o bendito iogurte que aceitei dividir com uma garotinha ruiva, esperta e encantadora ou mesmo o cheiro forte de café fresco, mas a verdade é que após o lanche das nove, passei mais tempo “abraçada” ao vaso sanitário do que a meu namorado, o alívio vindo somente a tardinha, quando voltamos para o hotel.
Por conta deste meu mal estar, nos despedíramos de Felicity e Oliver ali mesmo, não indo, como planejado, acompanhá-los ao aeroporto e, por conseguinte, ao shopping como tínhamos prometido a Amy. Ela, aliás, nos surpreendeu a todos com seu carinho e atenção comigo. Não que isso fosse anormal. Não é. Amy é uma criança carinhosa por natureza, mas também manhosa em alguns momentos. Por essa razão, quando não reclamou ficamos imensamente aliviados. Eu em especial.
—Cait, tudo bem aí? — Thomas pergunta, entrando sem me dar chance responder -Bae, o que houve? Por que não me chamou? Está ferida? Sente dor? — preocupa-se, agachando-se de frente para mim, apalpando meu corpo com cuidado e atenção.
—Não dava pra falar enquanto metade do que comi ontem saia pela minha boca, Tommy!! — respondo, malcriada — E pare de me apalpar! Só está conseguindo piorar meu mal estar — ralho, estapeando-o, aliás, este é outro detalhe desagradável que percebi: estava sem paciência. Detalhe: apenas com ele! — Volta pro quarto. Amy pode acordar ou rolar da cama — ordeno, praticamente o expulsando.
—Coloquei travesseiros e almofadas para fazer barreira e caso acorde, posso escutá-la -argumenta, me olhando preocupado — Sente-se melhor? Parece pálida — observa, tentando me tocar novamente.
—Eu estou bem — minto posto voltar sentir ânsia, retendo-o ao erguer a mão — Só me dê …- não consigo terminar a fala, me voltando a tempo de evitar o vômito atingir os pés dele.
Sinto, mais do que vejo, Thomas se ajoelhar a meu lado, segurando meus ombros, apoiando-me enquanto expilo o pouco que ainda restava em meu estômago no vaso.
—E aí? Melhor agora? — pergunta quando finalmente paro, me ajudando levantar e apoiar a bancada da pia.
—Pareço melhor Tommy? — devolvo, puxando o ar com força.
—Se eu puder ajudar em algo… — sugere, se inclinando e, julgando que iria me beijar, o afasto sem nenhuma delicadeza.
—Pelo amor de Deus Tommy, acabei de vomitar! — reclamo.
—Não ia te beijar, amor. Só queria limpar seu pescoço — justifica-se, enrugando o cenho — Tá brava? Por que tá brava comigo? — questiona-me igual criança.
—Não estou brava com você Tommy! — respondi, irritada, olhando no espelho, molhando a mão, limpando a sujeira em meu pescoço .
—Me chamou de Tommy três vezes nos últimos dez minutos — observa e suspiro, me voltando para ele.
—Ok, talvez esteja um pouco estressada aqui, mas também estaria se nada que comeu tivesse parando no seu estômago nas últimas vinte e quatro horas, sem mencionar o gosto de estopa suja na boca — resmungo, ele me “quebrando” com sua fala seguinte.
—Me diz o que posso fazer para que se sinta melhor que faço — prontifica-se, olhando-me de uma forma que faz meu coração se partir em milhões de pedaços — Cait….
Me atiro em seus braços, chorando copiosamente, me sentindo a pessoa mais ingrata da face da terra!!
—Desculpa — peço, entre um soluço e outro — Me desculpa Thomas. Você aqui, todo solícito, e eu te dando patada! Desculpa amor, desculpa — repito, sentindo seu peito vibrar quando rir.
—Não se preocupe bae. Entendo que está passando por um momento difícil — diz, me afastando o suficiente para ver meu rosto, enxugando-o delicadamente — Quero que saiba que estou aqui, para o que precisar — reitera, beijando minha testa, o que só me faz chorar ainda mais — Tudo bem amor. Vai ficar tudo bem — sussurra carinhosamente, uma mão afagando meu cabelo enquanto a outra passei por minhas costas por cima da camisola em uma carícia despretensiosa, mas que surte um efeito inesperado em mim.
Conforme vou me acalmando, tomo consciência de seu corpo colado ao meu. O calor irradiado por ele, seu cheiro somados ao subir e descer delicado, despertam meu desejo. Fecho os olhos, aspirando o perfume amadeirado que amo, ficando mais e mais consciente da presença dele. Instintivamente, deslizo as mãos por seu peito por cima da camiseta detendo-me na cintura. Seguro as bordas, levantando-as devagar, suspirando ao tocar a pele quente.
—Cait…!?! — o tom levemente rouco com que pronuncia meu nome acende o alerta em meu cérebro.
Além de ainda não ter sido liberada para fazer sexo, a filha dele estava deitada ali perto e certamente nos veria. O afasto novamente. Com jeito e carinho desta vez.
—Melhor voltar para o quarto. Já estou me sentindo melhor — digo, sorrindo sem graça — Estou melhor, acredite — friso -Vou aproveitar para tomar um banho, escovar os dentes e depois volto para a cama — sugiro.
—Tem certeza? — insiste, tocando meu rosto.
—Tenho — sustento.
—Ok — concorda — Quer que te traga outra camisola? — pergunta.
—Não precisa, vou usar essa mesma. Não sujou — dispenso, beijando seu rosto — Vai lá. Daqui a pouco me junto a vocês — aviso.
—Tá certo — concorda, retribuindo meu gesto antes de se voltar, parando e me olhando -Não tranca a porta. Assim te escuto com facilidade — pede, deixando a porta entreaberta.
Respiro fundo, olhando o vazio antes ocupado por ele antes de me voltar, despindo a camisola e entrando no box. Tomo uma ducha relativamente rápida (sem molhar a cabeça), escovo os dentes (duas vezes seguidas), uso enxaguante bucal (igual número de vezes que usara a escova), me visto, escovo o cabelo, prendo-o em um coque alto e frouxo, retornando ao quarto, parando um segundo junto a porta para admirar a cena.
Havíamos pedido uma cama extra e a pusemos colada a nossa, aumentando o tamanho. Depois que os funcionários saíram, Thomas empurrou ambas para o canto, colando um lado a parede, o que impediria Amy cair caso passasse por sobre nós enquanto dormíamos (Felicity avisou que era bastante inquieta, outra característica parecida com o pai). Por medo de ela me chutar, ele a posicionou entre suas costas e a parede a qual revestimos, por assim dizer, com almofadas para evitar que se machucasse. O resultado foi uma noite de sono tranquila para nós três (enquanto os enjoos não me fizeram despertar, lógico). Agora ele a estava ninando, o que indica que havia despertado ou talvez tido um pesadelo, coisa que tem com certa frequência segundo as tutoras do orfanato. Isso, aliás, era algo que minha prima e Thomas haviam concordado em ser a primeira providência tão logo conseguissem a guarda: acompanhamento psicológico para descobrir o motivo dos sonhos. Ao vê-lo ali, recostado a cabeceira, pernas esticada e cruzadas, segurando a filha nos braços, cantando baixinho, meu coração se aquece. Thomas tem muitos defeitos (assim como eu) mas com certeza será um pai maravilhoso.
Suspiro, chamando sua atenção, o sorriso de menino que me dá fazendo minhas pernas tremerem. Como um ser humano pode ter tantos tipos diferentes de sorriso? Me encanta quando sorri como agora, límpido e cristalino, sorriso de garoto que tem algo precioso nas mãos. Me leva ao céu quando sorri de forma meiga e gentil, como fez a pouco no banheiro. Quebra qualquer resistência quando sorri daquele jeito sedutor tão característico dele. Me põe em chamas quando me olha e sorri daquele jeito safado, cafajeste, que me despe e faz amor comigo só em olhar.
—Vem pra cama — chama, dando duplo sentido a frase, colocando Amy delicadamente no colchão, ela agarrando quase que imediatamente uma boneca de pano que Donna tinha lhe presenteado no Natal — Tudo bem? — pergunta, com jeitinho, tão logo me acomodo a seu lado.
—Tudo — digo, me aconchegando a seu peito — Desculpa as grosserias de agora a pouco. Não esperava que meus enjoos iriam começar justo neste final de semana e de forma tão intensa — confesso, brincando com os pelos negros e grossos (havia despido a camisa por conta do calor, certamente, quando segurava Amy em seu colo).
—Não se preocupe com isso. Só preciso saber que ficará bem — declara, beijando o topo de minha cabeça, acariciando meus braços com suavidade.
—Preciso sim porque te agredi sem necessidade. Mais de uma vez — insisto, sorrindo curto ao notar sua pele arrepiar-se ante meu toque — Acho que além dos enjoos, meus hormônios também se agitaram, não sei bem porquê. Se for preciso permanecer mais dias aqui, vou pensar em procurar uma ginecologista obstetra para não atrasar meu pré natal. O que acha? — pergunto, franzindo o cenho quando não responde — Thomas, concorda que devo procurar um médico? — repito, recebendo um gemido indecifrável em resposta — O que disse? — pergunto, afastando-me o suficiente para ver seu rosto.
—Disse que não dá pra raciocinar direito com você fazendo isso em meu peito -resmunga, apontando minhas mãos ainda movendo-se em seu abdômen vagarosamente — Sério Cait, não seja má comigo — implora, fazendo uma cara tão sofrida que preciso espremer os lábios para não rir — E sim, Devemos procurar orientação e acompanhamento médico enquanto estivermos e Seattle antes que eu enlouqueça ou entre em ebulição!! — dramatiza e desta vez não consigo conter o riso — Tá rindo porque não é você que precisa se segurar dia e noite!! — reclama.
—Quem falou isso? — contesto, passeando a língua por meus lábios, mordendo o inferior — Também tenho desejos, Thomas — digo, movendo-me rápido, sentando em seu colo — Desejo de beijar….- me inclino, tocando seu peito com a boca, demorando-me um segundo ali, sugando a pele — Tocar e ser tocada…- pego sua mão, pondo-a sobre meu seio, levando a minha a seu rosto — E fazer outras coisinhas com meu namorado gostoso!! — exclamo, distribuindo beijos rápidos a começar do pescoço até alcançar sua boca, gemendo rouco quando segura firme meu quadril, forçando-o contra o seu, a dureza evidente sob o short me deixando molhada.
—Porra Cait, assim acaba comigo!! — sussurra junto a meu ouvido, mordendo o lóbulo.
—Nós dois estamos a perigo, meu amor...Só para constar! — exclamo, retribuindo o gesto, olhando de soslaio para Amy, que dormia tranquila, me afastando com relutância — Quando chegarmos ao orfanato vou ligar para doutor Rossi e avisar que irei procurar um obstetra. Mesmo que precisemos ficar apenas um ou dois dias, não quero correr riscos — comunico, entrelaçando nossos dedos — Quem sabe nos libera para namorar um pouquinho — indago, suspirando.
—Quem sabe — repete, me puxando para outro beijo, tão sedento quanto o que lhe dera, o vibrar insistente de um celular chamando nossa atenção — Deve ser o seu de novo! — sopra, não escondendo a irritação — Sua mãe ligou quatro vezes em menos de cinco minutos!! — revela e enrugo o cenho novamente, me esticando a fim de pegar o aparelho sobre o criado mudo — Isso sem mencionar a dezena de mensagens que deixou — acresce e olho a tela, aguardando a chamada seguir para a caixa postal para somente então desbloquear o aparelho.
Depois de Lissy ter consertado nossos aparelhos antes de viajar (sem explicar o porque de ambos terem parado por completo a partir do sábado à tarde), havia estranhado o fato de não haver nada neles. Nenhuma chamada não atendida, nenhuma mensagem de texto, nenhuma notificação de qualquer tipo, seja em redes sociais ou grupos de WhatsApp. Nada. Zero em ambos aparelhos. Apesar de não ter comentado, percebi que Thomas também estranhara. Em dado momento pareceu-me desconfiado de algo, mas por alguma razão guardou para si.
—Não vai retornar? — pergunta, não me dando tempo responder — Se bem que aposto que ela vai ligar novamente em…- sequer concluiu o raciocínio e o aparelho começou a vibrar em minha mão — Bingo! — exclama, torcendo o nariz — Melhor atender antes que ela pense que estou impedindo de fazer — supõe.
—Depois retorno — dou de ombros, deixando a chamada se redirecionada para a caixa postal outra vez.
—Melhor não Cait. Ela já não foi com minha cara sem ter feito nada para merecer. Se começar a pensar que estou te impedindo de atender suas chamadas ai mesmo que entro na lista negra dela. Se é que ainda não entrei — resmunga e rio, tocando a tocando a ponta de seu nariz.
—Nem é dramático, meu amorzinho!! — o provoco, nós dois olhando o aparelho, que vibrava novamente.
—Pronto, agora é seu pai quem tá ligando. Qual o problema comigo afinal? Por que meus sogros me odeiam? — novo drama e rolo os olhos.
—Sua fama de mulherengo e aversão a compromisso, talvez?!?- brinco — Mas não se preocupe, não é ele. É minha mãe. Ela sempre pega o celular dele quando não a atendendo — digo, atendendo — Oi mãe. Qual o problema? — pergunto, a voz poderosa de meu pai contradizendo minha informação.
< Desta vez sou eu mesmo filha, muito embora sua mãe esteja a meu lado > informa e suspiro.
—Oi pai. O que há? Por que mamãe está me ligando com tanta insistência? — quero saber, me acomodando melhor ao lado de Thomas.
< Antes de qualquer coisa, vou colocar no viva voz porque quero me certificar que ambas permanecerão calmas e principalmente não irá gritar ou se irritar com nossa filha, meu bem. Estresse não faz bem a Cait em seu estado atual > argumenta e enrugo o cenho.
—Como assim em meu estado atual? — repito, me retesando de imediato.
< Sabe bem a qual estado seu pai refere-se, Caitlin— mamãe afirma, não me dando tempo contestar < Ele está preocupado como neto ou neta que nos dará! Como pôde fazer isso conosco? Esteve aqui por dias, Dias, e ficamos sabendo que seríamos avós através de uma postagem na internet! Pior: através de um print da rede social desse seu namorado irresponsável! Fomos os últimos, Os Últimos, a sabermos que nossa filha Única está grávida novamente. Tem idéia do quanto isto é vergonhoso para nós? > bufa, deixando-me estupefata e sem palavras por um segundo < Fale alguma coisa! Defenda-se, diga que não contou por vergonha ou medo, mas fale! > ordena, me tirando da inércia
—Mãe eu… — ensaio, cerrando o punho, respirando fundo — Em primeiro lugar, não tenho do que me envergonhar. Estou grávida, não com alguma doença contagiosa que sai propagando mesmo sabendo-me portadora — bufo, não permitindo nem ela nem Thomas falar — Em segundo lugar, não contei a vocês porque sabia exatamente qual seria sua reação e também porque não tinha certeza se conseguiria levar a gravidez a termo. Não tenho ainda. Sofri uma ameaça de aborto alguns dias e ainda estou em recuperação — comunico não para sensibilizá-la (não tinha essa ilusão!) mas apenas para que soubesse o que se passava — E finalmente, se decidimos engravidar é problema meu e de Thomas — minto, mordendo meu lábio, ansiosa.
< Está me dizendo que, conscientemente, decidiu arriscar sua saúde em uma gestação antes do prazo recomendado por sua médica? > interroga, novamente não me dando oportunidade responder < Ainda que eu acreditasse nisso, e não acredito, julgaria estar perdendo o juízo engravidar desse seu namorado inconsequente!>
—Ele não é inconsequente! Não o conhece. Não sabe nada dele, portanto pare de fazer pré julgamentos!! — esbravejo, aumentando levemente a voz, minha pulsação aumentando.
—Amor, por favor tente manter a calma — Thomas pede, segurando minha mão — Está gelada — comenta.
stá certa. Me desculpa > escuto minha mãe pedir quase que imediatamente após o comentário dele < Estou chateada Caitlin. Achei que confiava mais em nós, em mim! E agora vejo que me enganei. Prefere comunicar sua felicidade até a estranhos do que a mim. A que ponto chegamos!! > lamenta-se, e sinto meu coração apertado.
—Não é isso mãe. Ninguém, além daqueles envolvidos em meus exames, sabia de nada justamente porque antes eu queria ter certeza que tudo daria certo, que conseguiria manter meu bebê e assim pretendíamos não fosse a ameaça de aborto. Somente depois dela Lissy e tia Donna, por exemplo souberam que estou grávida. Foi uma decisão minha e de Tommy — reitero, optando omitir, por hora, trata-se de gêmeos.
< Se é assim, porque então por que ele fez essa bendita postagem? Por que expôs, para quem quisesse ver, que espera um filho dele? Até anunciar que estavam procurando casa para morarem juntos o infe… ele anunciou! > revela e enrugo o cenho, confusa.
—Oi?? Que história de casa é essa? — indago, olhando para meu namorado, que parecia tão surpreso quanto eu.
< A casa que seu namorado disse estavam procurando para vocês. Está tudo aí, na postagem. Como foi que você não viu filha? > é meu pai quem questiona, me deixando ainda mais confusa.
—Tanto meu celular quanto o de Thomas deram problema esse final de semana — conto — Vocês não teriam uma cópia desta postagem, teriam? — quero saber.
< Enviei para você em uma das primeiras mensagens. A abelhuda da Marize fez questão de printar o bendito post e me enviar com um de seus comentários mordazes! > revela e entendo sua raiva.
O que a havia irritado, na verdade, não era o fato de serem os últimos a saber do bebê, mas que tenha sido seu desafeto a contar-lhes.
—Um segundo mãe — peço, afastando o aparelho, abrindo o aplicativo de mensagens, abrindo a primeira enviada por ela no dia anterior, a surpresa me tomando ao ver a foto na qual Thomas e eu aparecemos, abraçados, provavelmente tirada no evento de reabertura da clínica, e abaixo dela a legenda onde minha gravidez e nossa busca por uma casa para morarmos era anunciada. Até mesmo o setor da cidade que supostamente escolhêramos era mencionado. Mais o pior era que dava claramente para ver quantas e quais haviam sido as últimas pessoas a curtirem! — Eu não entendo. Quando isso aconteceu? — interrogo, voltando o celular para que Thomas pudesse ver a foto, me dando conta da besteira que fizera ao escutá-lo xingar alto.
—Que porra é essa??? — quase grita, me sobressaltando e acordando Amy.
—Thomas, olha o linguajar! — ralho, soltando o aparelho, chamando a menina com as mãos, que choramingava.
—Desculpe — pede, permitindo a ela passar por cima dele, vindo para meu colo — Desculpem meus amores, não quis assustá-las — reforça, beijando o topo da cabeça dela enquanto abraça a nós duas, um chiado esquisito chamando nossa atenção.
—Minha mãe! — exclamo, procurando o aparelho.
—Sua mãe tá aqui? — Amy pergunta, fungando.
—Não docinho. Estava falando no celular com ela quando seu pai meio que nos assustou — minimizo, vendo quando Thomas o recupera — Me…
—Alô, senhora Snow, bom dia. Aqui é Thomas Merlyn. Como vai? — ele atende antes que pudesse impedir — É, eu sei, estava aqui ao lado dela todo o tempo — diz, me dando uma piscadinha — Então, como Cait falou, nós não…. Não eu….Eu sei senhora, mas nós…. estou ciente sim senhora… não senhora -responde pacientemente, sem bufar ou rolar os olhos, o que me surpreende, não nego — Não faço a menor idéia de como isto aconteceu. Lhe dou minha palavra de que não tive nada a ver….eu sei e acredito que minhas redes sociais tenham sido hackeadas… Eu tenho uma vaga noção de quem possa ter feito e garanto a senhora que farei a pessoa se arrepender do…. não senhora, sem violência — promete e arqueio a sobrancelha — Sim senhora….Sim senhor….Sim senhor — anui seguidamente, me fazendo imaginar o que meus pais estariam exigindo dele enquanto apoio Amy quando ela senta-se em meu colo — Este era nosso plano senhor. Desde o começo. Cait e eu optamos por manter sigilo até termos certeza que tudo estaria bem com ela...Não, nenhuma ameaça inclusive, fomos informados que todos foram capturados. Estão presos a espera do julgamento — comunica, sorrindo fraco — Pois é, nenhum de nós esperava por isso. Sim… Como disse, dou-lhes minha palavra de que não permitirei nada de ruim acontecer a ela ou meus filhos — diz e sinto-me gelar, olhando-o assustada — Estamos bem, sim. Nós quatro. Amy está aqui, conosco — informa e solto o ar que mal notara haver prendido. Quando meus pais foram me visitar, de surpresa, no final do ano passado, havia lhes contado parte do que se passara alguns dias antes de eles chegarem e os problemas em relação a guarda de Amy Lee. Não tudo, evidente, ou mamãe teria surtado — Não, não estamos na mansão Queen. Na verdade, tivemos de vir a Seattle resolver algumas questões referentes a minha filha...é, eu sei. Também ficamos, todos nós, surpresos no começo, mas como falei ao senhor e a sua esposa na época, quando me envolvi com Felicity jamais pensei que nos reencontraríamos na situação que ocorreu, com ela namorando meu melhor amigo. Menos ainda que me apaixonaria por Cait — declara, sincero, beijando meu ombro — Uhum verdade. O mundo às vezes é um ovo! — exclama, piscando outra vez e não consigo evitar rolar os olhos — Sim senhor...Sim….Estou cuidando disso senhor — diz e novamente o olho de sobrancelha arqueada recebendo um sorriso maroto em resposta — Pode deixar senhora, assim que retornarmos a Starling pedirei a Caitlin que ligue avisando...Sim, com certeza. ..Sim senhora….Ok. Vou passar para ela — avisa, me estendendo o aparelho, segurando e beijando as palmas da mão de Amy.
—Mãe? — chamo, ouvindo-a suspirar.
< É, parece que o irresponsável não é tão irresponsável assim! > sopra e tenho vontade de rir < Estão tentando adotar a filha dele? > quer saber.
—Mais ou menos — digo, fazendo careta — É um pouco mais complicado e sobre isso prefiro falar pessoalmente e na presença de Felicity e Oliver, se não se importa, por se tratar de um assunto que envolve diretamente nós quatro -lembro-a.
< Certo. Quando voltarem nos comunique que iremos fazer uma visita, afinal, quero saber como meu netinho ou netinha está > pede.
—Obrigada pela parte que me toca!! — ironizo, sacudindo a cabeça negativamente — Desculpa mãe, não quis dizer isso — peço, ouvindo-a, para meu espanto, rir.
< Não precisa se desculpar meu bem. Não falei por achar que estava implícito estar te incluindo quando falei> garante < E sei bem como são os primeiros meses, os enjoos, os desejos…— enumera, a voz de meu pai cobrindo a sua ...As oscilações de humor! Se puxou a sua mãe, tenho pena do meu xará!! Vai sofre um bocado, o coitado > papai diz e escuto o estalido de um tapa desferido seguido de resmungos dele e contestações dela, ambos parecendo esquecerem ainda estarem ao telefone por alguns minutos.
—Hã, tá tudo bem ai?- pergunto, escutando-os bufarem, o que é no mínimo estranho. E engraçado, reconheço.
< Tudo meu bem. Só seu pai que pensa ser engraçado > mamãe responde e espremo os lábios para não rir < Bem, agora que já esclarecemos as coisas, vou te deixar descansar porque ainda deve ser bem cedo em Seattle. Desculpa se te acordei > pede, mostrando uma faceta que não conhecia: a de mãe zelosa e preocupada < Cuide-se Caitlin. Tome bastante água porque sei que o clima aí nessa época do ano é seco, se alimente nos horários certos, como coisas saudáveis, se bem isto nem precisava lembrar, já o faz regularmente! Não durma tarde, se for o caso expulse-o da cama. Não, do quarto, é mais seguro > dispara e lembro de qual outra pessoa da família Felicity herdara a tagarelice.
Minha mãe não era dada a conversações longas. Em geral era bem sucinta. Mas quando algo a interessava, aí sai de baixo!! Foi assim quando se juntou a tia Donna para falarem mal de Tommy ano passado
<...E principalmente, faça seu Pré-natal direitinho. Nada de pular consultas ou relaxar nos cuidados prescritos ainda que teve essa ameaça de aborto. Mesmo tendo parte deste cidadão a seu lado, é meu...nosso neto e já queremos bem a essa criaturinha! > diz, me emocionando < Nada de choros Caitlin. Desgasta o organismo sem necessidade, desidrata, sem falar que dá tantas rugas quanto sorrir demais! > recomenda e rolo acintosamente os olhos, fazendo Tommy sorrir < Tente nos manter informados, sim. E mais uma vez cuide-se > reforça < Te amamos! > ouço-o dizer juntos, despedindo-se logo em seguida, desligando segundos antes de mim.
—Tudo bem amo!? — Tommy pergunta após alguns minutos, acariciando meu rosto, secando algumas lágrimas teimosas.
—Tá triste Cait? Fica não. Eu cuido de você! — Amy declara, segurando meu rosto com suas mãozinhas, me fazendo olhar em seus olhos azuis, límpidos e sinceros e desabo em lágrimas, abraçando-a forte.
—Eu amo você princesinha da titia! Amo! — declaro entre soluços.
Leva alguns minutos (muitos, para ser franca. Malditos hormônios!) para que consiga me controlar e parar de chorar. Quando o faço, deito novamente, Amy abraçada a mim, enquanto Tommy levanta, indo para a varanda com seu celular em mãos, fechando a porta envidraçada ao passar, os raios de sol começando surgir no horizonte. Não podemos ouvi-lo, Amy e eu, devido a espessura do vidro, mas por seus gestos e algumas notas mais altas emitidas por sua voz, temos certeza de estar quase gritando com a pessoa do outro lado da linha.
—Papai tá bravo! — Amy cochicha em meu ouvido.
—Está sim, mas só um pouco...espero — digo ao vê-lo chutar um banquinho plástico lá fora.
—Por que ele tá bravo tia Cait? — quer saber, apoiando o queixo nas mãozinha entrelaçadas sobre meu ventre (havia mudado de posição na cama) olhando dele para mim.
—É que um dos amigos dele fez uma bobagem e por isso levou bronca de minha mãe — resumo, imaginando o sabão que mamãe teria lhe passado a pouco — Mas logo vai ficar tudo bem anjinho — tranquilizo-a, sorrindo quando retorna ao quarto — Mais calmo amor? — pergunto, estendendo a mão em um convite mudo ao mesmo tempo em que Amy senta-se.
—Calmo, sim. Mas ainda quero fazer churrasco de rato!! — solta, a reação de Amy e a minha vindas em sequência, a dela em forma de expressão verbal. A minha em forma de uma crise de riso que acaba contagiando a ambos.
—Ecaa papai!!
Durante um tempo impreciso tudo que fazemos é rir. Rimos tanto que Amy fica com soluços e eu com um pouco de dor de barriga. Quando finalmente nos controlamos, é hora de nos arrumarmos para ir ao orfanato. Tomo banho, ajudo Tommy a banhá-la e enquanto nos vestimos, ela e eu, ele toma banho e se arruma lá dentro do banheiro mesmo.
Pegamos a bolsa de Amy, nossas bolsas e descemos para tomar a refeição no restaurante do hotel em um clima mais calmo e surpreendentemente tranquilo após a conversa com meus pais.
Deixamos o hotel pouco depois das nove, seguindo direto para o orfanato, aonde encontramos com os irmãos Winchester. Tão logo Amy se põe a vontade entre as outras crianças, participando das atividades programadas pela orientadora (as irmãs faziam questão de ter uma profissional que cuida desta área), Dean e Sam nos convocam a uma reunião, atualizando-nos sobre a investigação a respeito do casal que abandonara Amy no aeroporto.
—Consegui uma pista forte a este respeito e estou indo averiguar. Um conhecido que trabalhou na equipe de segurança do aeroporto por muitos anos quem me deu a dica — conta, entusiasmado igual criança com brinquedo novo — Pensei que talvez quisesse me acompanhar Tommy — sugere.
—Quero sim. Se importa amor? — meu namorado pergunta, igualmente animado
—Não desde que prometa que não vai ser agressivo com eles, caso os encontrem — condiciono, silenciando seu protesto — Nem pense em dizer que não faria isso!! — alerto-o, bufando quando rir — Falo sério Thomas! Não pode gritar com esse pessoal se quiser obter respostas, não concorda Dean? — questiono-o, ele se atrapalhando um pouco na resposta.
—Hã...claro, claro. Concordo plenamente — diz, sem muita convicção e arqueio a sobrancelha.
—Eu devo admitir que acho difícil não querer gritar com alguém que abandona um filho, seja ele natural ou adotivo, em algum lugar, por qualquer motivo que seja! — Victória declara.
—Penso o mesmo, mas neste caso talvez haja atenuantes — Sam opina, estalando os dedos — E por falar em atenuantes, preparou os papéis que pedi? — pergunta, ela confirmando.
—Estão bem aqui — vai até sua mesa, pegando uma pasta vermelha — Reuni toda documentação que pediu referente a chegada da Amy ao orfanato mais o que a polícia informou na época — avisa.
—Ótimo. Vou sair daqui direto para o fórum dar entrada nos pedidos de reconhecimento de paternidade e maternidade, assim adianto as coisas para quando Oliver dê notícias — diz, guardando o material em uma valise de couro bem antiquada para alguém tão jovem — Já tenho o exame de DNA, agora resta apenas o laudo do legista afirmando que o corpo enterrado não é de Amy Lee que nem precisaremos esperar o processo de maternidade/ paternidade findar para dar entrada n de guarda compartilhada. Aliás, seria interessante quando Felicity voltar vocês entrarem em contato com as testemunhas do casamento. Quero colher os depoimentos o mais rápido possível para termos tudo que precisaremos quando o processo começar — orienta.
—Faremos isso. Por hora acho melhor irmos andando Dean. Não quero demorar. Cait não está muito bem — Tommy revela, se voltando para mim — Caso doutor Rossi te indique alguém, tenta marcar consulta para amanhã porque quero te acompanhar — pede.
—Farei isso sim — anuo, lhe dando um selinho — E não se preocupe, vou ficar bem — tranquilizo-o — ganhando um beijo casto em resposta.
—Não faça arte doutora, ou te ponho de castigo — brinca e rio.
—Pode deixar — reitero, acompanhando a ele e os irmãos Winchester a porta juntamente com as gêmeas — Tenham cuidado — reforço, acenando, aguardando-os sair para retornar ao interior da casa — Érica, Vic, vou só fazer uma ligação e já ajudo no que puder — aviso.
—Não se preocupe com isso Caitlin. Descanse — Vic recomenda e nego com um aceno.
—Uhum, uhum, não senhora. Se ficar parada é pior. Não vou fazer esforço nem atrapalhar, mas parada não quero ficar — aviso, pegando meu celular — Assim que terminar a ligação podem me arrumar algo para fazer — adianto, ambas rindo divertidas.
—Ok. Já até sei como pode ajudar — Vic diz, piscando.
—Beleza. Vou ligar e já volto — repito, me afastando um pouco.
Ligo primeiro para doutor Rossi, que me indica uma colega na qual confia, me passando o número dela, fazendo algumas recomendações em como diminuir os enjoos enquanto não consulto. Depois ligo para a mansão Queen a fim de saber notícias de Thea. Moira me informa que ela estava bem melhor, mas o médico recomendou repouso por mais três dias, o que não seria fácil. Também me conta que um oficial havia ido a mansão procurar por ela, mas o senhor Queen tomara a frente e estava resolvendo o assunto com os advogados da QC, para não nos preocuparmos. Em seguida ligo para Isabel, contando sobre a conversa com meus pais e que em breve teríamos uma reunião de família convocada por eles, ela rindo de meu desespero. Ainda conversamos um pouco antes de me despedir e ir me juntar as gêmeas. A tal forma de ajudar sobre a qual Vic falara era acompanhá-la as compras de mês para o orfanato, Amy e mais duas garotinhas e um garotinho esperto, além de dois ajudantes, indo conosco.
Foi bem divertido ajudá-la. E instrutivo também. Como sempre morei sozinha (mesmo quando estava noiva) não tinha muita prática em compras grandes, coisa que precisaria mudar tanto pela chegada dos bebês quanto pela presença de Amy e, claro, porque iriamos morar juntos, logo, precisava começar a pensar em quantidades maiores de tudo, especialmente fraldas!
Aliás, perdi um bom tempo na seção de bebês. Acabei, incentivada pelas crianças, comprando muitas coisas: fraldas, talco, perfumes, escovas de cabelo (para os bebês e para Amy e as duas garotinhas), algum brinquedos, um móbile de berço (que Tommy ficaria louco quando fosse montar, estou certa!), lençóis, almofadas de canto para os berços (ou berço, não tinha pensado se compraria um ou dois!) entre outras coisas. Até pijamas combinados para Thomas, os bebês e eu comprei!! Também levei comigo uma infinidade de mamadeiras e pratinhos coloridos.
Ao final, além das compras para o orfanato (na qual ajudei também comprando muitas sobremesas e lanches para a criançada), havia um volume quase tão grandes de compras pessoais minhas que me senti um pouco envergonhada. Sem mencionar que teria de acomodar tudo em nosso quarto de hotel!
Quando chegamos ao orfanato, Thomas ainda não havia retornado, o que me preocupou um pouco. Aproveito a euforia das crianças em ajudar descarregar o carro para ligar a médica indicado por doutor Rossi, conseguindo agendar uma consulta para a tarde da terça, indo ajudar tão logo desligo.
Havíamos acabado de sentar na mesa para almoçar quando Tommy chega, sozinho. Depois de ir lavar as mãos, senta-se a meu lado na mesa, contando como foi o encontro com o casal que havia pego Amy.
—Eles contaram que estava tudo indo bem, até uma das enfermeiras que tinha entregue Amy a eles ligar avisando sobre pessoas estarem a procura dela — conta, servindo-se — Depois da ligação, assumiram terem começado a ficar mais e mais apavorados até decidirem ir embora de Seattle. E justo no dia em que estavam no aeroporto para embarcar, assumiram ter tido um tipo de surto que os fez largarem minha filha no aeroporto, em um local fora do alcance das câmeras de segurança, e fugirem — revela, olhando para Amy — Segundo disseram, agiram por impulso e se arrependeram antes mesmo de deixarem o aeroporto, mas quando voltaram e viram o tumulto, ficaram envergonhados, perderam a coragem e foram embora — conta, acenando a ela, que comia em outra mesa com as amiguinhas — Também contaram terem-se escondido da polícia e que tinham conhecimento de onde Amy estava, que acompanharam parte do crescimento dela a distância — diz, levando uma porção de comida a boca .
—Seria a família Diaz? — pergunto, curiosa.
—Provavelmente — responde, terminando de engolir, parecendo refletir um segundo — Na verdade, não há provas de que estavam de fato sendo ameaçados, além do telefonema. A polícia, na época, não encontrou nada de suspeito nas imagens e o casal admitiu não ter ido a procura. Estavam amedrontados — conta, coçando o queixo — Dean ficou de ver com uns amigos se as imagens da investigação estão disponíveis e tentar, caso estejam, solicitá-las. Assim saberemos se havia, de fato, alguém seguindo os dois.
—Acha que imaginaram? — pergunto, limpando um sujinho de molho no canto de sua boca.
—Acho porque, partindo do princípio de que os Diaz pretendiam usar minha filha para se vingar do juiz, por que a deixariam ser levada para um orfanato quando poderiam tê-la pego no aeroporto sem nenhuma interferência? — levanta a questão, me olhando — Segundo os arquivos do orfanato, Amy passou cerca de vinte e cinco minutos em um canto do aeroporto, no ponto cego das câmeras de vigilância, sozinha dentro do bebê conforto. Somente quando começou a chorar as pessoas em volta procuraram pelos pais dela. Se alguém ligado aos Diaz os seguia, por que não aproveitou a oportunidade? — repete, olhando-a novamente — Algo nisso tudo não se encaixa. É como se faltasse uma peça no quebra cabeças — pondera.
—Acha que podem estar mentindo para se proteger de um processo? — questiono — Se bem que não acredito que ainda possam responder por isso — respondo a mim mesma.
—Penso que não para ambas coisas, logo não teriam porque mentir para nós — diz, me dando atenção novamente — Ainda assim Dean vai averiguar junto a Sam se podem ser acusados de algo — revela, sorrindo ao pegar minha mão — Mas vamos mudar um pouco de assunto. Como foi sua manhã? Sentiu enjoo? Conseguiu descansar? Ligou para doutor Rossi? — interroga e faço careta.
—Liguei e tenho consulta marcada para amanhã no final da tarde — conto — Não tive quase nenhum enjoo… depois que comprei a medicação natural sugerida por doutor Rossi — revelo, mordendo meu lábio inferior — Quanto a descansar, bem, não deu pra fazer isso porque fui com Victoria fazer as compras do mês...e acabei comprando um monte de coisas para mim, digo, para os bebês, com a ajuda de Amy. E também comprei coisinhas para Amy e as crianças daqui. E para mim. E pra você — disparo falar, fazendo-o rir — Na verdade, acho que posso ter exagerado um pouquinho assim!! — assumo, exemplificando com meus dedos — Agora estou pensando em como vamos guardar tudo no hotel — suspiro de forma tão dramática que até eu mesma rio do exagero.
—Daremos um jeito — tranquiliza-me, beijando minha mão — Mais alguma novidade? — quer saber.
—Falei com Moira e Isabel. Thea está bem melhor, Isabel vai preparar o terreno para o jantar em família e a clínica escola começou a funcionar pra valer a partir de hoje — enumero, vendo seus olhos brilharem — Ah, Isabel também contou que uma outra empresa vai trabalhar no projeto dos Glades junto com a Global. Parece que é de Gotham, mas ela não soube me dizer com certeza. Seu pai pretende começar mês que vem. Pediu uma reavaliação dos terrenos para ter dados atualizados — conto.
—Bom saber que a Global não estará sozinha nessa — diz, voltando-se quando Amy corre em sua direção, pegando-a no colo — Olá boneca! Brincou muito hoje? — pergunta, beijando e soprando no pescoço dela, fazendo-a rir.
—Brinquei um pouco e ajudei tia Vic e tia Cait nas compras. Tem um montão de coisas pros meus irmãozinhos!! — conta, abrindo os braços, passando a detalhar parte do que compramos, lembrando ter comprado algo para Felicity também, prendendo nossa atenção pelo restante da refeição.
Depois do almoço, Vic e Érica me convencem a subir e descansar um pouco em um dos quartos, o que se mostrou uma boa idéia. Não tinha percebido o quanto estava cansada até deitar na cama macia. Acordo quando já havia escurecido, sentindo-me renovada.
Desço ao encontro de todos, achando-os na sala, Thomas completamente envolvido em jogos com as crianças. Observo-o interagindo com elas um tempo sem ser notada, admirando o homem que invadiu meu apartamento e meu coração de forma arrebatadora, imaginando-o brincar em um tapete com nossos filhos e levo as mãos a meu ventre, acariciando-o. Era estranho começar uma família com três filhos, não sei se estava preparada, mas já os amava igualmente e sabia que não abriria mão disso por nada!
Sorrio de volta quando percebem minha presença, indo me juntar a eles nas brincadeiras até que o jantar é anunciado. Acabamos por tomar mais aquela refeição ali, junto com todos, demorando-nos um pouco mais a ir embora (deu um pouco de trabalho acomodar minhas comprinhas no carro!) e a dormir por conta de Amy querer mostrar tudo que comparamos ao pai.
No dia seguinte, a rotina se repete: passamos toda manhã no orfanato (tem sido um grande aprendizado para nós dois), saindo um pouco mais cedo por conta da consulta. Essa, aliás, teria sido perfeita não fosse um pequeno detalhe: a tal doutora Diana Wright era simplesmente linda!!! O resultado? Morri de ciúmes! Mesmo Thomas não me dando motivos para tal ( e não deu mesmo. Nem unzinho sequer!!), mesmo ela tendo sido super profissional durante todo o tempo, senti ciúmes. Foi de longe a consulta mais longa e tensa de toda minha vida!
Ao final, estava mal humorada e sem vontade nenhuma de interagir. Com ninguém. Por sorte ele percebeu e tratou de manter Amy ocupada. E se manter com o mínimo de distância até meu humor melhorar, o que só aconteceu na tarde do dia seguinte, quando Felicity ligou avisando que apesar de ter um corpo no túmulo, não teriam problemas em provar não ser da Amy porque se tratava de um menino!
Essa notícia trouxe alívio para todos nós pois agilizaria e muito as coisas. Já estava, aliás, graças a tenacidade de ambos advogados, Sam e Laurel. Em Massachusetts, eles teriam apenas de esperar o laudo oficial e a deliberação do juiz, o que não demoraria mais do que uma semana graças a influência de Damien. Aqui, também aguardávamos o envio do laudo oficial e da deliberação para dar sequência, mas Sam conseguira uma ordem preliminar permitindo a Tommy permanecer com Amy fora do orfanato.
Enfim as coisas estavam dando certo e logo estaríamos regressando a Starling, o que evitaria ter de fazer nova consulta com a doutora Diana, para minha alegria….e de Tommy!
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Suite Hotel Astor, Massachusetts (quinta, 16/3 — 17:15 p.m)
Felicity
Sorrio, admirando pela milésima vez o pedacinho de papel que me daria, enfim, o direito de levar minha filha para casa em definitivo, sem medo de baterem a porta querendo tomá-la de mim. isto é, tão logo a justiça reconhecesse minha maternidade.
Seria engraçado não fosse irritante e estressante precisar provar por A mais B que ela era minha filha sendo que já havia um teste de DNA dizendo isso! Mesmo Damien tendo explicado o porquê de cada etapa, que eram passos necessários para que ninguém, algum dia, resolvesse contestar a decisão judicial (fato que se ocorresse não iria prestar porque certamente a criatura padeceria nas mãos de Oliver e Tommy), que seria um processo até bem mais demorado não fosse seus conhecimentos e nossa agilidade (entenda aí Laurel e Sam Winchester) em providenciar o que era preciso antecipadamente, absolutamente nada do que havia dito me convenceu de que aquilo tudo era pura idiotice.
Ter de provar que o corpo daquele menino (era um Menino, droga!) não era o de minha filha foi o ápice da idiotice para mim. Como alguém poderia questionar minha filha estar viva se já a pegara nos braços centenas de vezes nos últimos meses? E ainda por cima era um menino enterrado lá, caramba!! Um.Me.Ni.No! Juro que tive vontade de soletrar na cara do juiz do caso quando pediu provas de que Amy estava viva. E Oliver também. Mamãe então nem se fala!! Não fosse a calma de meu padrasto e Laurel a coisa teria, desculpe a expressão, teria fedido naquela sala!!
—Agora é só irmos a Seattle e logo teremos nossa garotinha para nós!! — murmuro, beijando, com cuidado, o papel.
Logo que recebemos, cerca de meia hora atrás, Damien enviou uma cópia autenticada para Sam. Ele já havia dado entrada nos processos de pedido de reconhecimento de paternidade e maternidade simultaneamente e tão logo chegássemos a Seattle iria, junto com Laurel, tentar agendar a primeira audiência.
—E tome tempo e paciência, não é feijãozinho? — acaricio meu ventre, que aumentara sensivelmente estes dias -Logo, logo sua irmãzinha vai estar conosco em definitivo — sopro em tom de confidência, erguendo o olhar ao escutar a porta do banheiro ser aberta, um Oliver deliciosamente molhado, enrolado numa toalha apenas da cintura para baixo, saindo lá de dentro, me deixando com tesão!
—Pare de me olhar desta maneira antes que sua mãe ou pior, o juiz, nos pegue no flagra outra vez!! Lembre que daqui a pouco virão para a bendita videoconferência com meus pais e Thea — adverte, atirando-se sobre o colchão, beijando meu ventre por cima da camiseta
—Você também não coopera!! Como posso não pensar em sexo se fica ai, se exibindo, pelado, pelo quarto! E ainda por cima todo molhado desse jeito!!! — estapeando seus ombros largos, gemendo ante o contato demorado de seus lábios, um arrepio gostoso irradiando do ponto onde tocava para o resto do corpo na velocidade de um raio! — Oliver, quer parar! Desse jeito vou precisar ficar imersa em água gelada se quiser parecer minimamente normal quando seus pais ligarem. Sem mencionar que sua irmã é capaz de captar este tipo de situação mesmo estando a quilômetros de distância — resmungo, ele rindo contra minha barriga, provocando nova onda de arrepios — É sério babe. Não me tormenta ou mando meus pais as favas e nem vou me dar ao trabalho de disfarçar quando aparecerem. Muito menos de parar! — ameaço, ele finalmente erguendo-se o suficiente para olhar meu rosto vermelho.
—Isto eu não duvido já que tem os genes de Donna Smoak!! — brinca, piscando, sentando-se ligeiro, mudando completamente de assunto — Tentou falar com Cait? — pergunta e nego.
—Uhum, uhum. Ainda não — na verdade havia esquecido o pedido dele antes de entrar no banho posto não estar conseguindo contato com Tommy — Vou fazer isso agorinha mesmo — digo, pegando meu celular e por uma dessas coincidências cósmicas, ele começa a tocar — Mas olha que coincidência!! — exclamo, mostrando a tela do aparelho para ele, atendendo-o a seguir — Cait, não morre tão cedo! Estava agorinha mesmo para te ligar — falo, animada, mas a resposta me vem em sons indecifráveis acompanhados por resmungos, fungados e choro. Não conhecesse minha prima tão bem, me preocuparia — Cait, o que houve? Sente-se mal? Cadê o Tommy? — faço a besteira de perguntar e logo a escuto chorar mais, entendendo, por entre os fungados palavras soltas como sorvete, Amy e ele vai me odiar — Ok, ok. Me acompanhe agora — peço, repetindo eu mesma o que a ordenava fazer sob o olhar divertido de meu noivo — Cheire a flor….sopre a vela...lentamente...cheire a flor...sopre a vela… sai daqui ou vou te esganar! — ameaço no mesmo tom que falava, fazendo-o gargalhar alto ao levantar-se, caminhando até o armário -Isso...devagar….agora me conta o que está acontecendo? — repito.
Eu vou perder meu namorido Lissy! > declara em tom sofrido e preciso me controlar para não rir.
Cait não era dada a usar apelidos muito menos fazer drama. Normalmente. Mas quando o fazia era digno de um Oscar!
Tommy vai odiar dentro de alguns dias, tenho certeza disso! > repete, fazendo uma pausa para respirar Antes, fica tranquila que está tudo bem com Amy Lee > assegura, fazendo nova pausa aonde a escuto assoar o nariz e aproveito para tentar entender o que se passava, muito embora tivesse uma leve suspeita.
—Certo. Obrigada por cuidar dela todos estes dias. Você vai ser uma mãe maravilhosa!! — meu elogio sendo a senha para outra crise de choro — Cait, precisa relaxar meu bem. Lembra de respirar e me fala o que está te angustiando — peço, sinalizando a Oliver ir atender a campainha — Se quiser, pode ir começando sem mim — libero, ganhando um selinho, voltando minha atenção a minha prima novamente.
< Há dias tenho sido péssima com ele Lissy. Só reclamo, resmungo e dou patada mesmo ele não tendo feito nada para merecer! > conta fungando outra vez Te falei sobre a doutora Diana, não falei?> pergunta e confirmo.
—Falou sim. O que tem ela? — quero saber.
< Tem que nos encontramos, por acaso, com ela enquanto passeávamos no parque com Amy e banquei a megera ciumenta de novo! Pior: em frente a ela e o filhinho! O menino começou a chorar porque elevei a voz. Não gritei Lissy, eu juro. Só elevei um pouquinho a voz quando a vi limpando o sujinho de sorvete no queixo do Tommy. Mas também, porque ela tinha de fazer isso no Meu namorado e na minha frente? Você também faria o mesmo, tenho certeza, se a visse pessoalmente >-justifica-se igual criança e abro um sorriso, aguardando-a prosseguir.
< Ela foi embora, evidente, mas depois disso demos o passeio por encerrado e voltamos para o hotel onde acabei brigando com Tommy…> pausa aonde a escuto suspirar profundamente < Oh, Lissy, eu vou perdê-lo! Ronnie estava certo. E papai também. Puxei a mamãe. Tenho um gênio horrível! Tommy não vai aguentar por muito tempo! Eu vou perdê-lo!! > se lamuria e respiro fundo, decidindo que era hora de intervir.
—Ok. Em primeiro lugar, você não é, nem de longe, nem se esforçando muito, uma pessoa horrível — a corrijo — É de longe a pessoa mais linda e gentil que conheço, entre outros atributos que poderia passar o restante da tarde e a noite enumerando — declaro, sinalizando a mamãe, que surgia a porta, entrar — Em segundo lugar, se tia Carla fosse assim tão terrível, tio Tom já a teria largado. E por último, mas não menos importante, Tommy te ama, Cait. Jamais vai te deixar — asseguro, mamãe arqueando a sobrancelha -Cait tá surtada — sussurro, ela pedindo que lhe desse o celular — De jeito nenhum! — nego, esquivando-me quando tenta tomá-lo uma vez, duas, falhando na terceira — Mãe, vê lá o que vai dizer! — alerto.
—Cait, benzinho, é tia Donna — identifica-se, pondo o aparelho sobre o colchão mostrando ter colocado no viva voz.
< Oi tia. Como está? > perguntam, parecendo mais comedida.
—Estou bem e você também vai ficar — assegura — Escute benzinho, não sei o teor de sua conversa com Felicity até agora, mas uma coisa posso te assegurar: vai passar — diz, firme — Essa angústia, essa vontade de matar o mundo ou apenas seu namorado sem vergonha, ele merecendo ou não….
—Mãe!!! -ralho, sendo prontamente ignorada.
—Essa dor no peito, a ansiedade, o medo, tudo vai passar. Pode não ser hoje, ou amanhã, ou mesmo depois de amanhã, mas vai passar. São seus hormônios agindo meu bem, nada mais — afirma, tranquila- Não se tornou má, não deixou de amar esse traste moreno e gostoso de olhos azuis….
—Minha nossa, mãe! — tapo os olhos com as mãos.
—Nada disso mudou nem vai mudar. Seus hormônios que são responsáveis por essas variações de humor e se o gostosão te ama tanto quanto parece, vai suportar tudinho de bom grado — garante, uma risada abafada se fazendo ouvir, para meu alívio — Digo mais: se ele for esperto vai entender e procurar meios de te ajudar assim como meu genro lindo, loiro e gostoso tem feito com minha bebê! — exemplifica e me deito, cobrindo o rosto com o travesseiro — Porque relacionamentos são construídos de pequenas coisinhas como essas. Estar junto, lado a lado, seja na alegria ou no mau humor. É nestes momentos que o verdadeiro amor se revela — declara e retiro o travesseiro, olhando-a pasma — Portanto, respire fundo, chore quando quiser chorar, xingue e bata quando sentir vontade. Ele aguenta. Tem ombros largos, fortes e…
< Hã...grato pelos elogios Donna. Cada um deles. Mas é melhor moderar. Tem menores no recinto! > Tommy avisa, as risadas de Amy e Cait soando juntas.
—Meu bebezinho está ai? Quero falar com ela!! — mamãe se empolga mas antes que se aposse, pego o aparelho de volta, tirando-o do viva voz.
—Depois mãe. Agora preciso falar com Tommy e Cait — decreto — Tommy? — chamo.
< Oi, estamos aqui e coloquei no viva voz > avisa.
—Sem problemas. O que tenho para dizer pode ser ouvido por Amy — digo, sorrindo — Saiu! A decisão do juiz saiu. Ele reconheceu Amy. Estamos com a certidão de nascimento dela aqui, conosco, e já enviamos os laudos para o Sam. Tentamos ligar assim que recebemos a documentação, mas não completava — justifico.
As redes estavam com problema >explica com voz embargada < Então agora é oficial? Ela é nossa garotinha? > questiona, emocionado.
—Ainda falta o juiz daí reconhecer a validade dos documentos e aceitar nosso pedido de guarda, mas segundo Laurel e Sam será questão de horas. Talvez um dia ou dois, a depender da quantidade de processos. Mas sim, ela é nossa garotinha! — exclamo, também emocionada.
< Ouviu isso princesa? Você é nossa menininha! > repete e quase posso vê-lo girando-a no ar < Minha, de sua mãe, de sua tia Cait e do seu tio Ollie. Nossa garotinha!!! >
“...I won’t let these little things;
Slip out of my mouth;
It’s you;
It’s you;
They add up to;
I’m in love with you;
And all your little things”

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