Introspectana

3 Saga 1 Capítulo 2 - Enfrentamentos Éticos parte 1


Introspectana

Capítulo 2: Enfrentamentos Éticos


By Bolchen (Cláudio Y. H.)

–--------------------------------------------------------------------


Entre arbustos e arbóreas, numa noite clareada pela Lua minguante aos pequenos pensamentos, Introspectana e a professora sentavam ao redor de uma fogueira. Na figura daquela pônei das crinas brancas, claras dos fantasmas que saem de seu interior e assombram o seu próprio redor, o redor de sua aura. Sentimento das perdas mundanas acobertadas por uma tremule sensação do evitar chegar perto do perigo. A unicórnio, sentada à fogueira, simplesmente não conseguia olhar para a potra dos olhos roxos, mantendo o seu olhar ao fogo constantemente.

Introspectana, num quebrar de silêncios, perguntou:


–Não deseja alguma coisa? Um pouco de água? Um pouco de enlatado?-.


E a professora nada respondeu, apenas e continuamente olhando para baixo, ao mato. Introspectana simplesmente se calou e, novamente, a olhar para a fogueira. Nada das duas trocarem algum começo, nem mesmo um pouco de jeito. O céu de poucas nuvens, um clima nublado entre as duas.

Introspectana, em outra tentativa de quebra de silêncio, perguntou:


–Qual é o seu nome?-.


A potra, um pouco relutante, finalmente respondeu:


–Meu nome...- Dizia, dando um suspiro e finalmente respondendo – Meu nome é Touch Light-.


Recalando-se, voltava ambos os seus olhares para a fogueira. Um pouco nervosa Touch Light perguntou:


–E qual é o seu nome?-.


Também suspirando, respondeu.


–Meu nome é Instrospectana-.


Naquele momento, um pouco das tocadas anteriores haviam se acalmado. Os cascos da Touch ficavam se friccionando um ao outro, com várias viradas bruscas de seus olhos roxos para os lados, mas sempre voltando novamente para baixo, vendo os cascos se batendo e atritando, como naquelas usinar elétricas que movem um imã para gerar energia. Energia atritada para falar, mas não falado quando, antes, vem a Introspectana a começar a indagar novamente:


–Você, pelo jeito, parece que realmente tinha muito sentimento com relação aos seus alunos...- Dizia, olhando para a fogueira.

–Sim... Eles... Eram muito importantes para mim...-.


Para desabafar um pouco e suspirando mais uma vez, Introspectana se levantou e aproximou-se um pouco da Touch, percebendo que as tremules friccionavam ainda mais a cada passo dado. Dessa situação, Introspectana recuou um passo e voltou-se a sentar, continuamente olhando ao fogo.


–Você tem certeza que não quer falar algo a respeito do que aconteceu?- Perguntou a potra branca.

–Olha...- Respondeu, agora friccionando os cascos um pouco mais forte – os meus alunos sempre foram muito importantes para mim e meio que... Você sabe... Perdê-los assim abruptamente não é uma coisa TÃO normal para uma pessoa ter de lidar... -.

–Desculpe... -.

–Não precisa se desculpar, Ó grande feiticeira de chifres fálicos- Disse, agora se levantando, encenando e, ao mesmo tempo, com os olhos bem abertos e dilatados — Sua grande, poderosa e elevadíssima consciência pode ser notada de tanta certeza que você tinha de que eles deveriam realmente morrer. Me desculpe se eu não tenho essa capacidade toda, tá? Ó, grande senhoria Introspectana!- Ironizava, em encenação Shakespeariana.


Introspectana ficou um pouco surpresa e de olhos bem abertos para a pônei cinza, dado o fato do contraste de atos entre uma anterior e a atual Touch Light, ainda mais naquela gentileza e calma serenidade de uma professora que flutuava num leve tocante de penas para, em seu lugar, uma irônica encenação em nome de uma crítica social e, por vezes, do momento. Talvez alguma lembrança passada de professora.

Já se recompondo, Introspectana prontamente retrucou:


–Mas não tive escolha. O destino quis que fosse assim-.

–Ah sim! O destino tem forma e matéria. Gente! Olha a nova descoberta científica que eu fiz: Descobri que o destino possui forma e conteúdo! Agora não só estou a ganhar um grande prêmio, como também estou ficando louca! Só pode ser! – Continuava a ironizar.

–Assim como existe o Espírito do Caos, os Espíritos da Harmonia e do amor? Não é tanta loucura assim como você pensa- Falou, serenamente.


Então, no repente, a pônei terrestre voltou a se sentar e, assim como a Introspectana, olhar a fogueira. O vento enxurrava o fogo numa movimentação peristáltica, que era a conversa engolida de toda a situação. Alguns galhos de árvores flutuavam à beira do fogo, a mando da magia branca. A lua sempre se mantinha parada como sempre fora a ser parada, no mesmo lugar de sempre, mesmo diante de tudo isso.

A Unicórnio notava diversas facetas por trás daquela pônei terrestre, o que a fazia indagar certas coisas para si mesma mas, sabendo que assim nada se sabe, então jogou uma indagação para fora:


–Então... Por que você parece estar tão calma diante de mim? Ao mesmo tempo tão agitada?-.

–Eu... Não sei...- Dizia, olhando pra baixo – Você é muito mais estranha do que eu pensei.

–Estranha... Como?-.

–Às vezes, tento sentir que você deveria ser a culpada por isso tudo ou que foi você quem matou todos os meus alunos, mas ao mesmo tempo não consigo sentir raiva de você, mas puramente medo... -.

–Talvez a sua raiva não seja a sua ironia?- Indagou, agora olhando diretamente para a Touch.

–Minha ironia? Talvez o meu desespero.., — Afirmou, agora tornando o seu olhar para o céu, novamente num suspiro – O desespero da finalidade, sabe? Ou melhor, do começo de algo... O desespero pela origem que no fim, não há origem algum... Como o Universo, as estrelas e os planetas, donde se tira aquelas pobres e desesperadas perguntas que, no fim, não há resposta, mas respostas... E todas elas, certas e erradas-.

–É a ironia da vida...- Respondeu.


Agora, os ventos não mais assopravam contra a fogueira, mas contra as pôneis. O céu agora estava um pouco mais cheio de nuvens, mas jamais alguma tampando a lua. Novamente, Introspectana a recolher alguns galhos com a sua magia e a joga-los na fogueira. Touch estava mais calma e, talvez, mais aberta a novas questões.

Sabendo disso, a unicórnio branco então retornou o seu olhar para a pônei branca e perguntou:


–Então... O que você fazia da vida? Suas lutas, suas frustrações...-.

–Eu era professora da escola do Primário de Ponyville... – Respondeu, mais calma e olhando ao céu – Meus alunos eram muito importantes para mim...-.

–Importantes como?-.

–Você sabe... Enchiam-me de vida e esperança, aquela coisa chamada infância. Um toque deles me dava mais vontade de viver. Tinham grandes sonhos e expectativas, falavam bastante e aprontavam bastante, mas isso tudo sempre resultando num passo mais perto da realização- Pronunciava, agora sorrindo.

–Você se importava bastante com eles...-.

–E ainda me importo... – Lacrimejava um pouco – Independente de estarem aqui, ali ou acolá, se são espíritos, se estão no céu ou no Tártaro, apenas e simplesmente ainda me importo com eles... -.

–Tinha algum em especial que você realmente gostava muito?-.

–Não serei hipócrita em dizer que não- Disse, agora lacrimejando mais – Flowerness de fato fora a minha aluna mais querida. Não a que tirava as melhores notas ou a mais educada, mas a que simplesmente me fez mais feliz e mais viva-.

–Flowerness? Aquela para quem que você caiu ao chão e a primeira que você suplicou em desespero? A pégaso negra?-.

–Sim... Ela foi a minha aluna mais preciosa. Simplesmente... Não merecia que... O destino a levasse... — Relutantemente falava, soluçando ao falar.



Percebendo já aquela luz despejando vários pontos iluminados e molhados, Introspectana se levantou e, finalmente, conseguiu chegar perto da pônei terrestre, não tendo mais aquela reação agitada de antes como ocorria. Andava em pendules passos, olhando sem seriedade para a Touch Light, dentro dum jeito mais ao contrário da inversão de perigo, agora perigo de luz. A explosão de luz, especificamente.

Mas o clarão da lua não ofuscava a certeza absoluta: O formato relutante de perceber e aperceber que, necessariamente, acolher um agora é o mínimo. Acolher coletivo de ambas e, na noite simples e estrelas partindo, necessário um pouco era a amizade, como a pônei branca de perto, sentada e aconchegando mais perto da professora. Com os seus cascos nas costas dela, olhando mais mais.


–Desculpe se o destino quis assim... Mas é assim que funciona o mundo-.

–O pior... – Em tentativas soluçadas de fala – É que o mundo não funciona direito... -.

–Eu sei disso... -.


No clarão da fogueira vista e atada pela professora, conjuntamente Introspectana sondava o seu olhar um pouco mais distante no repente, avistando ao fundo algo além, subliminar. Uma silhueta diferente entre as árvores.


“Um dia eu mudarei você e você me entenderá... Provarei a você que posso conseguir.” Pensou.


Em pé, a silhueta desapareceu.


–------------------------------------------------------------***------------------------------------------------------------


Naquela manhã, Introspectana e Touch Light sondavam por arredores de um rio, provavelmente em algum lugar já mais distante de Ponyville. O rio demonstrava uma mistura azulada de cinzas, da fumaça e do esgoto que Equestria produzia em massa naqueles tempos. O gramado se contaminava com graus de verde-escuro aliados por algumas árvores secas e galhos sucumbindo à gravidade. Introspectana apenas olhava à frente, casco a casco, enquanto a pônei cinza apenas seguia os seus passos.

Mais do que um céu claro, era um céu acobertada cada vez mais por nuvens. As nuvens introspectivas e as nuvens daquele lugar pareciam jorrar uma chuva de chocolate pelos redores, mas a diferença é que o gosto não era de chocolate. E, mais do que isso: As nuvens não eram tempos de festas.

Em um dado momento, a professora se viu nublada e em neblina, com tanta nuvem pairando sobre ela e a Introspectana. A nuvem chegava com chuva de dúvidas, chuva de marfins. Mas agora a chuva era de dúvidas mesmo. Andando, perguntou:


–Introspectana... Por que estamos indo para Hoofington? Lá é uma cidade um tanto quanto poluída... -.

–Eu sei que é um tanto quanto estranho estarmos indo para lá, mas é que tenho negócios pendentes a resolver por lá... -.

–E o que seriam esses... Negócios?-.

–Você entenderá... -.


A cada passo que andavam, cada vez mais as nuvens se adensavam entre as duas e o céu. As nuvens de dúvidas se misturaram com as nuvens físicas, enrolando outra chuva de chocolate. Em cada casco andado, notava-se que as arvores perdiam mais galhos e folhas: Por cada jeito feito, mais inequações surgiam.


–Introspectana... Afinal... Como você conseguiu fazer tudo aquilo?-.

–Aquilo o que?- Respondeu, olhando para trás em direção à professora.

–Você sabe... Aquelas levitações, os coices, enfim... Tudo aquilo... -.

–Faz parte do que eu sou. Apenas isso... – Respondeu, olhando de novo para frente.

–Mas e o que era aquilo que você fez com aqueles garanhões? O que você fez com eles, afinal?-.

–Bom... – Respondia, com olhar distante e para trás – Eu apenas suguei a maldade dos corações deles-.

–Como?! Isso é possível?!- Perguntava, perplexa

–Sim, é possível. E esse é o meu talento especial. Por isso que é tão crucial que você guarde segredo a respeito disso-.

–Entendo... Mas como você conseguiu dar aqueles coices?-.


E nada respondeu a potra branca, tornando a sua face para frente, deixando a professora sem resposta. Caminhando mais, finalmente avistava-se, ainda que entre as nuvens cinzas, as silhuetas do gigante de concreto pairando a paisagem, com grandes fábricas visíveis ao fundo e muitas rodovias sendo construídas. Com o rio ao lado afinando à medida que caminhavam, logo avistaram a estrada e a tomaram, rumo a Hoofington.

Em algumas partes do caminho, percebiam diversas casebras abandonadas e de madeira, muito provavelmente antigas casas que perambulavam por lá tempos antes da civilização tomar a forma daquele contemporâneo. Alguns poços estavam praticamente destruídos, assim como várias placas de sinalização e aviso.

Aos poucos, começava-se a ver algumas carroças elétricas rachando por aqueles redores e muitas potras amontoadas em alguns pontos. Certamente, era um ponto de prostituição. As casebras, ao caminho, começavam a se misturar com alguns prédios de concreto e também, tão maltratados quanto. Diversos pôneis também estavam sujos e abandonados tal como as casas e os prédios, só que até mais imundos e entediados, em cantos de várias esquinas e edifícios. Olhavam secamente tudo e todos, suspirando pelo suspiro. A cabeça rolando por todos os lados e, sentados, jogavam-se por nada ao chão. Na mão de todos, estavam cachimbos de madeira ejetando sons melodiosos e atonais e, em alguns, apareciam notas musicais ao ar. Introspectana, nesse instante, parou e virou para trás:


–Aqui – Disse ela, mostrando o casco com tapa-ouvidos – Isso aqui evitará que você também seja induzida por essas drogas-.

–Err... Obrigada – Disse ela, pegando e colocando-os – Mas e você? -.

–Eu sou imune a isso. Relaxe-.

–Espera... Donde você tirou esses tapa-ouvidos?-.


Sem responder, continuaram a caminhar. Naquele momento, começaram então a caminhar pela calçada, visto que o movimento de carroças se intensificava. Em pouco tempo, as duas chegaram a um edifício arbitrário, abandonado em meio àquele ambiente suburbano de Hoofington. Percebia-se que os arredores do mesmo estavam mais acobertados de pôneis usando drogas em relação a outros edifícios.

Chegando à entrada do edifício, foram paradas por um garanhão bem maior que as duas. De tão sujo que estava, não se percebia nem marca e nem cor. Nem mesmo um pônei, aquele que nem perceber ser era, percebendo-se apenas um monte sujo geral.


–Quem é que deseja falar com o senhor Flute D’ Charm?- Perguntou, ficando de frente às duas.

–Sou eu, a Introspectana. Preciso falar com ele-.

–Ah! Aquela pônei que trabalhava pra ele? Pode entrar! – Disse ele, desviando do caminho – Mas espera... Quem é a gostosa atrás de você?-

–Ela está me acompanhando apenas. E... Menos, Desperate. Você não é tudo isso que acha que é- Afirmou.


De supetão, ele jogou a Introspectana para o lado e começou a encarar por cima a professora.


–Será que estou ficando cego ou é a lâmpada do seu flanco me ofuscando de belezura? – Disse ele, encostando o casco para perto do queixo dela – Bem que notei que você tem futuro por esses redores...-.

–...- Encabulava a professora – Introspectana... Socorro...-.

–Calma, Desperate. Ela não é uma das Servintes dessas bandas-.

–Ahhn.... Que pena! – Falou, voltando novamente a ficar no portão, de lado – Pela cara dela, eu pensei que fosse-.


Então, as duas logo começaram a retomar os passos, agora seguindo um corredor um pouco escurecido e iluminado por uma pequena e pálida luz branca. Já um pouco distante de Desperate, Touch Light perguntou, em voz baixa:


–Eu tenho realmente cara de servinte?-.

–Digamos que... – Respondia, um pouco constrangida – A quem eu quero enganar? Sim, você tem cara – Respondeu, em voz normal;

–Ó céus...- Disse, um pouco magoada e cabeça pra baixo.


Andando de pouco em pouco, chegaram a uma escada. Subindo-a (Para mais perto do céu) percebia-se um ponto de luz saindo de seu final. E chegando lá, podiam-se visualizar estantes de pedra em um canto e arquivos em outro canto da sala. Ao centro, uma mesa e um pônei sentado, um unicórnio azul de cabelo cinza e ondulado, curto, ondulando tanto quanto as ondas frequências de sua marca registrada, uma nota breve dentro de um pentagrama. O quadro pintado com uma Octavia e Vinyl ao fundo em uma pose de abraço complementavam o ambiente seco e vazio. Talvez só o quadro demonstrasse alguma cor comparado ao cinza e o reto de todos os cantos do lugar, sem enfeites.

Ambas se aproximaram à mesa do unicórnio, com Introspectana se introduzindo.


–Senhor! Matei o famoso gangster Rich Way como pediu. – Afirmou.

–Perfeito, Introspectana. Assim ele não irá atrapalhar as sinfonias de continuarem a tocar para as multidões enquanto fazia as mesmas gritar em um desespero atonal – Falava, olhando para cima e com um casco levantado.


Se levantando, começou a rodar pela mesa e por elas.


–Nada como ver que as sinfonias continuam tocando de forma tão harmoniosa como sempre a música quis. Nada impedirá de todos os pôneis continuarem a apreciar a verdadeira e boa música de uma Octavia ou uma batida de uma DJ Pon3 – Falava.


Enquanto voltava a se sentar em sua mesa, a pônei branca perguntou:


–E agora o senhor promete não revelar o meu segredo? -.

–Prometer? Pensei que apenas tinha prometido uma carruagem de ouro. Nada impede de o seu segredo já não estar sendo partilhado nesse momento-.

–Espera... Você contou para mais alguém?! – Disse, surpresa.

–Introspectana, minha cara! — Afirmou, se levantando da cadeira e se aproximando dela – Você não pode confiar em todos que estão ao seu redor. E sinceramente: Não acho que o seu segredo seja grande coisa para alguém se preocupar -.

–Você tem ideia de como os republicanos poderão literalmente cortar o meu chifre nessa história? VOCÊ TEM IDEIA?! – Gritava, brava.

–Eles não são tão poderosos como você imagina, Introspectana. Quem agora manda em Equestria são os Gangsters e os empresários! E você sabe disso muito bem- Pronunciou, sorrindo e olhando para o alto.

–Mas com o governo em minha cola, talvez seja difícil eu conseguir ficar em paz nisso tudo-.

–Paz? Acha mesmo que com esse poder que você possui é paz que você quer? – Voltava sua face para a unicórnio, agora com um sorriso sarcástico – Sabemos muito bem que, com esse poder, o seu desejo por um mundo melhor está acima de qualquer desejo próprio de paz-.


Depois da última frase, a potra dos olhos azuis se esquivou para baixo, demonstrando um pouco de constrangimento com a situação. Ao tempo todo, a professora nada havia falado a não ser assistir, sem um pio, a cena toda. Refletindo um pouco, retomou o olhar e encarou novamente o pônei azul.


–Para quantas pessoas você contou? – perguntou.

–Contei para mais duas potras. Mas agora isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que preciso de mais uma ajuda sua para os meus planos – Falou, voltando à sua cadeira – Preciso que vá entregar uma mensagem importante para um conhecido meu-.

–...Está bem...- Respondeu.

–Mas uma coisa posso dizer de você, antes, minha cara e peculiar unicórnio. Você, por mais que esbanje todo esse poder, vejo que você não possui senso algum de orgulho por eles, mas ao mesmo tempo não possui nem mesmo orgulho de si. É como se você tivesse um dever que necessariamente tem de cumprir e vejo que você realmente parece estar muito focada em querer atingi-lo-.

–Análises à parte, senhor, o que é que você deseja?-.

–É muito simples – Falou, pegando papéis da gaveta da mesa – Tudo o que eu quero é que você simplesmente entregue essa carta a um garanhão que mora na área nobre de Hoofington. Ele mora em uma mansão cercada de guardas do governo e, principalmente: Alguns são imunes ao seu poder devido à devoção dos mesmos ao regime. Então você terá de ser cautelosa em utilizar o seu poder lá-.

–Está bem. Farei isso. E o que ganharei em troca?-.

–Além da manutenção da minha boca calada, uns 400 bits a mais-.

–Tudo bem. Farei isso – Aceitou, pegando os papéis da mesa – Mais alguma coisa?-.

–Não. Está tudo bem agora. Pode ir. E a nova carroça que pediu está lá no estacionamento. — Terminou, voltando-se com a cadeira de costas para as duas.


Então, com papéis em cascos, ambas estavam para sair até que ele interrompe antes.


–Ah! Antes de irem... – Voltava a cadeira para frente – Essa servinte ao seu lado cobra muito caro por um “servicinho” agora? -.

–Ah... Não, ela não é servinte, senhor. Ela apenas está me acompanhando -.

–Que pena – Voltou a ficar de costas – Pensei que finalmente teria algo de melhor qualidade em relação ao que tem por essas brandas.


Agora sim, ambas andando para fora da sala e a pônei terrestre a ficar novamente magoada, desceram as escadas e se despediram de Desperate para então finalmente, dar a volta ao edifício e chegar ao estacionamento, que era externo ao prédio. Vazia, contava apenas com uma carroça, robusta e feita de aço, tal como as carroças de Rich Way. Com as duas subindo nela, Touch Light finalmente pronunciou:


–Err... Posso perguntar algumas coisas, Introspectana? -.

–Claro que pode – Dizia, enquanto utilizava a sua magia para ligar a carroça.

–Por que afinal ele manda em você? Se você é tão poderosa, por que você simplesmente não pode tira-lo do seu caminho?-.

–Você sabe qual é o meu poder, não sabe?-.

–Sim! Tirar a maldade dos outros pôneis! Tanto que eu mesma vi!-.

–A questão é: Como vou utilizar tal poder em alguém como ele que não possui maldade alguma no coração?-.

–Como?!- Respondeu a professora, confusa.

–Isso mesmo. O senhor Flute D’ Charm não possui qualquer maldade em seu coração-.

–Mas como isso é possível?! Ele é um traficante de drogas! Isso simplesmente não faz sentido-.

–Eu explico- Respondeu.


Antes de explicar, ela finalmente deu a partida na carroça e saíram do estacionamento, andando pelas ruas. Claramente via-se Touch olhando estarrecida a Introspectana, que estava à sua frente.


–Veja bem...- Falou, olhando para frente – Em nosso mundo, existe certos parâmetros julgados pelos Deuses que entendem por definir a bondade e a maldade das pessoas. Uma vez traçados tais parâmetros, isso servirá como medida automática para que eu possa sugar a maldade de um pônei-.

–E o que leva o pônei azul a não possuir maldade alguma?-.

–Simples. Ele não trafica as drogas que ele produz em nome de um benefício próprio, mas de um bem maior, o que tira qualquer culpa de cima dele, pois ele apenas serve um bem maior e não o bem próprio. No caso, ele serve em nome da música e, aí, quem realmente então eu posso tirar maldade é do Espírito da Música e não dele-.

–Mas isso não faz sentido – Disse, se aproximando da potra branca – Além de ele ter a própria escolha em seguir ou não o Espírito da Música, isso não tira o fato de milhares de pôneis estarem a cada momento se destruindo com sinfonias incontroláveis!-.

–Não sou eu quem define esses parâmetros, são os espíritos- Respondeu, continuamente a olhar pra frente-.

–Mas então existe espíritos para cada tipo de coisa pro mundo?-.

–Sim, existe. Porém, a maioria dos espíritos atualmente estão petrificados no Jardim de Esculturas de Canterlot, o que também inclui as antigas princesas, como você bem sabe-.

–Sim... Eu sei o que aconteceu. Com certeza foi uma época bastante conturbada para Equestria quando as próprias princesas se corromperam e tiveram de serem derrubadas-.


Pausando um pouco a conversa, elas estavam a chegar finalmente em uma área mais limpa da cidade, onde havia um maior número de cruzamentos e sinalizações. Saindo de um semáforo, partiram para uma grande rodovia aérea adjacente à onde estavam.


–Atualmente, os espíritos do bem e do mal se reencarnaram em forma de pôneis. Eu infelizmente desconheço o paradeiro atual deles. Mas posso lhe garantir: Não são nem um pouco mansos e tampouco possuem dó de quem chegue perto deles-.

–Mas isso não contrasta um pouco com o que deveriam ser, especialmente o Espírito do Bem?-.

–São espíritos que mantém uma coisa, mas não significa que devam ser esta coisa. Entenda isso-.

–Entendo...- Terminou.