Introspectana

6 Saga 1 Capítulo 4 - No meio do caminho...


Introspectana


Capítulo 4: No meio do caminho...

By Bolchen (Cláudio Y. H.).

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No meio do caminho


“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”.

(Drummond, Carlos. No meio do caminho in Alguma Poesia, 1930).


Em um motel localizado na periferia da cidade, Introspectana e Touch Light descansavam em nome do próximo dia. Enquanto Introspectana se deitava na cama e assistia a uma televisão (velha) à frente da cama, Touch sentara-se numa cadeira de aço, sustentando o seu rosto com os cascos e olhando pela janela, vendo as estrelas e os formosos céus, risonhos, mas não tão límpidos. Sua imagem não resplandecia, mas a lua descia até ela e contornava todos os cantos do céu – Dos olhos.

Introspectana, ao mesmo tempo em que assistia a um noticiário, notando claramente que estampava o acontecimento no hospital, também atava à Touch, vendo-a um pouco triste, delicada. Os raios de seus olhos não refletiam um sonho intenso, mas claramente notava-se um espírito amado, salve-salve.

Preocupada e séria, utilizou sua magia e desligou a televisão, levantando-se da cama e cavalgando lentamente até a plena e distante professora que já viu o vendo, venda dos sonhos. Da venda, se aproximava um pouco mais para entender a luz que se ofuscou.


-O que foi, Touch? Por que está tão triste? – Perguntava.

-Olha, Intro... Sabe aquele momento em que você percebe que perdeu tudo o que tinha e agora tem de recomeçar de novo e de outra forma? – Disse, suspirando – Eu não sei até quando ficarei com a memória dos meus alunos dentro do meu coração... -.


Vendo ela continuamente a olhar para a lua, acompanhou a sua ida.


-Esse brilho da lua... É você se projetando nela, não? – Perguntou a pônei branca.

-A lua sempre me consolou. Eu sei que a Princesa Luna está atualmente transformada em estátua, mas... Não sei... A lua é a forte luz dentro da escuridão: É ela que ajuda os milhares de outras esperanças a serem notadas pelos outros pôneis. É dela que as estrelas também se somam em nome da... Harmonia... – Dizia, bem melancólica.

-Mas às vezes precisamos encontrar a nossa própria luz... -.

-Eu sei... Depender da luz dos outros é o que faz de nós sermos seres que magoamos fácil. E é por isso que é tão difícil esquecer os meus antigos e adoráveis pequenos pontos de luz... – Soltava algumas lágrimas.


A unicórnio, percebendo esse movimento, chegou mais perto da pônei terrestre, pegando uma outra cadeira para perto dela. Colocou um dos cascos em suas costas e a abraçou de leve, olhando para a lua. Falou:


-A luz dos outros são luzes para nos tornar-nos contínuos... – Abraçou mais ainda a pônei cinza ao seu peito — ... Um dia você encontrará a sua luz para continuar... -.

-Isso soou tão científico... Heheh... – Respondeu, rindo e chorando ao mesmo tempo.


Por mais algum tempo, ficaram paradas olhando a lua juntas. Notavam naquele salve-salve várias e grandes formações diferenciadas de rochosas, protuberâncias de um passado. As marcas registradas, não mais marcas comerciais, eram as marcas dos símbolos únicos, as marcas das antigas formas de harmonia. Seis estrelas eram visíveis na lua.


-O que acontecerá se os pôneis continuarem a esquecer esse céu que tanto nos ilumina? – Questionava a tristeza.

-Eu não sei... Talvez um dia venham a novamente entenderem a própria existência... –.


Em um momento, Introspectana resolveu mudar um pouco de assunto, partindo novamente para algumas questões do passado.


-Quem era essa tal de Flowerness que você tanto adorava? Ela era a aluna que te fazia mais feliz? –.

-Ah... Flowerness... – Suspirava, sorrindo tristemente — Minha pequenina e fofa pegaso de olhos vermelhos, tão ardentes quanto o sangue vivo e fresco, não envenenado, mas puro. A sua curta crina brutalmente branca, num bege extremo do branco que tem vontade de se sujar e, por isso, sentir-se limpa. Sapeca e atônita, curiosa em nome de suas descobertas pequenas, mas a crescerem... -.

-Você realmente adorava muito ela para descrever de forma tão detalhada... -.

-Ela realmente foi a aluna que mais me alegrou e... e... Você... A... – Olhava esbugalhada ao céu – Matou... – E continuava a olhar.

-Uh... Sério... Foi o destino que quis assim... Não tenho culpa, eu juro... – Dizia, bem séria.


Por um momento, ela pausou um pouco a conversa, até...


-Droga... Você não é tão fácil de avacalhar como gostaria de fazer... – Brincou a professora, olhando ao céu.

-Em compensação, você é uma safadinha que adora RECEBER de todo mundo, se é que me entende – Sorria maliciosamente.

-Aiai... Você realmente é uma figura, Intro... – Falava, calma.


Rindo baixo, agora encontrava a professora uma calma necessária e mais liberta para recontar os feitos de sua aluna, sem tirar o seu olhar do céu. Mais receptiva, Introspectana estava pronta para ouvir uma história.


-Eu lembro uma época engraçada em que acreditava em amor. Pensava que um dia viria a ser abençoada pela Princesa Cadence, ainda que ela não esteja mais entre nós, abdicando da própria imortalidade em nome do seu amor por um único pônei. Mas percebi, também, que esse sentimento nunca chegaria ao mesmo sentimento e pureza que é a amizade. E foi a minha querida Flowerness que me despertou essa verdadeira forma de sentir as coisas... – Falava, pensativa.

-E como começou essa história? -.


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-Feliz primeiro dia de aula, meus alunos! – Gritava a professora.


Entre risadas e gargalhadas, milhares de filhotes se aventuravam entre as carteiras e paredes de uma sala relativamente colorida, muito mais amarronzada, rosa e verde do que as cores dos edifícios afora. Nos tetos, os mesmos enfeites que se espelhavam desde a época da Cheerilee, assim como as janelas iluminavam um céu glorioso acima das cinzas que tomavam conta de Ponyville.

Milhares de filhotes se amontoavam em vários e cantos e depois se jogavam uns contra os outros, numa espécime de batalha. As poldras se retiravam em outros cantos mais calmos, conversando sobre conversas. Já alguns outros poldros, se aventuravam a guerrear pela mão da Touch Light, que ainda mantinha a mesma aparência que a atual.

A professora, um pouco nervosa, tentava acalmar os sapecas, tendo sucesso em alguns, insucesso em outras.


-P-por favor... Jimmy Six... S-s-sente-se e não cuspa... no Sandpony! – Imperava, muito nervosa e com um tom de voz um pouco baixo e respirado.


Entre mandos e desmandos, um dos filhotes se destacava nessa bravura e contestação: Era Flowerness, muito mais jovem do que a do último ano do primário. Voava por todos os cantos, pegando alguma coisa e tacando para cima.


-GUERRA DE FLORES! YAY! – Gritava.


E milhares de flores se espalhavam por todo canto. Flowerness não sentia uma malícia, sentia um entusiasmo inocente. Jogava as flores por arredores, redores e corredores. Corria por cantos afora da sala e até da janela. Sentimento de espalhar pros outros e muito além das quatro paredes. Via as cores vermelhas e azuis num jeito esquisitado pela professora, que imediatamente perdia as próprias sustentações diante do caos instaurado.


-P-p... Por... Favor, senhorita Flowerness! D-d-desça a-agora... No... Chão... – Falava, mas ofegante e nervosa.


Não conseguia interromper o próprio suor, o calor consumado em esquinas do seu nervosismo. Mais do que um “não aguentar”, era um “quase não desabar”. Todos os pôneis jogavam flores para cima, lápis aos lados.

Outro pequeno potro se aterrissava por cima da professora, jogando-a para o lado e aproveitando para continuar a correr. Jogara uma flor na Touch caída, que já estava entupida de flores em sua boca. Cuspindo, tentou correr atrás da peste, tropeçando numa mochila e caindo desastrosamente.

Outra acolá se juntava à Flowerness e começaram a jogar flores por cima de todos, muito além da professora. As flores voaram até outra esquina do corredor fora da sala. E muita comida também se jogava por cima dos outros: Salgados, refrigerantes e doces se confundiam numa mistura japonesa de doce e salgado, sinfonizando calamidades públicas.

Não conseguia mais controlar tudo, até que...


-O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! -.


E vinha a figura de uma égua grande, emburrada na cara e engordada no corpo. Crina enrugada e vestimentas alargadas. Laranja pálida na pele, verde-vômito na crina, combinados por uma olhada preta dos olhos. Marca registrada: Régua. Calafrios ou medos não... Terremotos tomaram o corpo da professora, e dos alunos que se quietaram subitamente.


-SENHORITA TOUCH LIGHT! -.

-S-s-s... S... – Gaguejava, nervosa.

-RESPONDA! –.

-... Sim? ... – Olhava triste e tremule.


A gigantona pônei terrestre caminhara lentamente, com a cabeça bastante erguida e olhando para baixo, vendo uma Touch quase se ajoelhando diante dela. Com mais autoridade, surtou mais ditadas.


-Venha para a minha sala. AGORA! – Mandou.

-E... E-e-está bem... -.


Da ajoelhada, levantava-se trêmula e rastejando no seu medo. Os outros alunos igualmente caminharam pesado, sentando-se dificultadamente em suas carteiras. Flowerness havia se escondido atrás da mesa da professora estando preocupada e em esquiva.

A professora caia e levantava. De medo. Andava a passos se jogando pra frente e trás, em gravidade a machuca-la. Terremotos em escalas Richterianas homericamente mutilando a sua alma. A pegaso, preocupada, após a professora não ser mais visível em seus passos após a porta, resolveu segui-la. A professora andava ondulando o corpo, tonta e cansada. A respiração se jogava num supetão de sensações oclusivas.

Em um dado momento, virou um corredor, ainda passando um mal entreolhado para os tetos e os cantos, olhando para trás também. A pegaso se escondeu atrás de um bebedouro, não sendo notada pela professora. Já em distância segura, voltou a seguir.

Na última virada do corredor, a entrada para um suspiro melancólico: “Sala de direção” estava escrito na porta. Touch continuava no mesmo treme-treme e ofegante que esteve o tempo todo, mas agora os terremotos internos se multiplicavam. A pegaso se escondia bem na beirada da virada do corredor, esperando a professora entrar.

Entrou... Para o suspiro. A pegaso, em supetão, dava passos finos, evitando que os seus cascos pudessem soar muito altos naquele chão, ainda que cheio de feno e palha. Perto da sala da diretora, podia finalmente escutar a conversa e o julgamento no purgatório.


-COMO VOCÊ PODE DEIXAR OS SEUS ALUNOS FAZEREM O QUE BEM ENTENDEM?! QUE TIPO DE PROFESSORA VOCÊ É?! FOI PARA ISSO QUE TE CONTRATEI?! – Gritava, olhando secamente.

-E... eu... e-e-eu... –.

-E COMO TODA AQUELA SUJEIRA PODE COMEÇAR A VOAR PELA SALA?! QUE ISSO AGORA?! A ESCOLA VIROU UMA MÁQUINA DE LAVAR ROUPA POR ACASO?! – Caminhava pela sala, pra lá e pra cá.

-Eu... Tentei impedir-los... Mas... -.

-MAS FOI POUCO! – Bateu o casco sujo em sua mesa – VOCÊ TEM QUE SER MAIS FORTE! PARE DE SER TÃO FRACA! MELHORE A SUA CONDUTA IMEDIATAMENTE, SENHORITA TOUCH LIGHT – Gritou bem perto do rosto da professora.

-Melhorarei... – Olhou para baixo, triste.

-Isso que dá esse governo mixuruca estar dando emprego pra qualquer servinte que passa perto de uma mesa... – Olhava para o lado, indiferente.


Nesse momento, um pouco do nervosismo aumentava, mas ao mesmo o retruco se aproximava das suas línguas, um calor de tempo.


-Eu... Eu não sou servinte... -.

-NÃO É?! OLHA SÓ PRA VOCÊ, SENHORITA TOUCH LIGHT: VOCÊ ATÉ PARECE QUE NASCEU PRA SER UMA! NÃO É À TOA QUE VOCÊ É TÃO INCAPAZ DE LECIONAR... -.

-Por favor... Para de me chamar desse jeito... Não é o tipo de... –.

-POR QUE? SÓ PORQUE ESTOU REAFIRMANDO O QUE VOCÊ É?! OLHA SÓ PRA VOCÊ: NERVOSA A CADA PALAVRA QUE EU DIGO! É COMO SE VOCÊ REALMENTE FOSSE! – Berrava.


As aguas internas se extravasaram nas últimas palavras ditas. A pônei da crina ondulada não mais conseguia manter-se sentada na cadeira, em cada momento se esquivando de atar o seu olhar para aquela diretora à sua frente. A pônei grande de berros absurdos batia freneticamente em sua mesa, formando até mesmo uma mancha de desgaste em uma parte fixa da madeira. Soluçava o toque de luz em piscadas de lâmpada a se queimar, quase queimando o seu interno. Com os cascos, tampava o seu rosto molhado por si mesma, uma tentativa de apagar as chamas da lâmpada queimada.


-Por favor... Para... por favor... – Soluçava, chorando.


Em um dado momento, um grande barulhão à porta da diretoria, um coice contra a madeira queimada.


-PARA! FUI EU QUE COMECEI A BAGUNÇA NA SALA! DEIXA A FESSORA EM PAZ! -.


A pegaso se postulava em enfrentamento, no comportamento de defesa de quem encara os mais fortes. A diretora já não estava brava ou berrava: Havia equipado um alto-falante em sua garganta, com um som de guitarra e coro roco de imposição.


-ENTÃO FOI VOCÊ QUE COMEÇOU A BAGUNÇA?! –.

-Bem... – Recuava um pouco, falando um pouco mais baixo — ...Sim! Fui eu sim! Eu que comecei tudo e, por favor, Diretora... Não faz nada com a fessora... –.


Estava um pouco triste, mas ainda sim postulava em um enfrentamento, encarando muito além dos olhos da grandalhona. E essa, em pose séria e atroz, caminhou até a pequena poldra, encarando em torre de marfim. Em nojo, se repulsava de volta para a sua mesa.


-Tudo bem... A senhorita Touch Light pode voltar à sua sala e continuar a aula. Agora... – Retornava o olhar para a pegaso – Você está suspensa por dois dias! -.

-Obrigada Diretora... – Agradeceu a Pégaso.

-Se vocês me derem licença, tenho assuntos PENDENTES para resolver! – Terminou a Diretora.


Saindo da sala, ambas ficaram de frente uma da outra trocando, por alguns segundos, algumas encaradas até ambas rirem uma da outra. A professora estava tremendo, mas apenas pequenos tremores escondidos enquanto que a pegaso se alegrava novamente. Ambas se sentaram ali mesmo, no chão. A pônei terrestre sorria novamente.


-Ai.. O que posso dizer? Obrigada, Flowerness... -.

-De nada, fessora... E... – Com o rosto de arrependida.

-Que foi? Por que ficou triste assim, de repente? -.

-Foi tudo culpa minha. Eu não queria que aquela monstra fizesse isso com a fessora... -.


Melancolicamente, o olhar da pegaso se tornava para baixo, enquanto Touch, já acalmada, se aproximou da pequena, abraçando-a com toque de pena. Pena de plumas. A pegaso se desconsertava, um interrogativo em sua mente. Já a “Fessora”, como a pegaso chamava-a, estava a quase soltar lágrimas, mas não soltava, pois nada de si havia de porque sair.


-Você é muito fofa, sabia? – Dizia, sorrindo – E agora está tudo bem, embora você esteja suspensa por alguns dias... -.

-Nah! Isso eu aguento! Não se preocupe, fessora! – Sorria.

-E tome cuidado para não cometer de novo aquela bagunça na sala, viu? -.

-Ah... Sim... Evitar bagunça com outros... Né não, fessora? -.

-Não... – Tornou a olhar a pegaso bem profundamente – É para evitar essa doida britadeira da diretora Hahah! – Ria.


Ambas se levantaram, andando juntas pelo corredor e caindo na gargalhada. Um começo pelo nome do começo. A amizade é um começo de todos os dias.

Mais do que uma andada no corredor, uma aula que seguiu de uma outra forma, outra perspectiva. Não, não sem bagunça, perfeitinha e alunos sentados. Mas a alegria dos dias coloridos de um arco-íris sônico espelhava um céu menos fervoroso de cinzas como aqueles dos tempos da falta de Harmonia. As cores voltaram em breve, mas se foram na mesma velocidade quando a cinza dominava de novo tudo.

Mais que uma cinza ou cinzas, eram os cinzas. Artigo definido para uma existência plena e única, exclusividade cinzenta de uma sociedade exclusivista como a sociedade ponyana atual. Não mais uma cor de pasta de dente ou histórias de açúcar, mas certamente bens de consumo duráveis. Linhas limpas da limpeza interior de almas coloridas, não sombrando cor depois de uma exterminada na alma. O exterminador de insetos mudou de emprego: Exterminador, mas de cores.

A cor voltava de vez em quando.

Mas voltará?


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-Então foi assim que você conheceu aquela potrinha? -.

-Foi sim... A minha grande amiga... A-P-P-S – Soletrou.

-Como? –.

-Amigas Pôneis Para Sempre... -.

-Ahn... -.


E ambas continuavam abraçadas e na mesma posição, na mesma lua vista.


-Então... Que tal irmos dormir agora, Touch? Acho que está meio tarde para ficarmos namorando aqui, à meia noite – Sorria.

-O-o-o que? Não! Apenas estava... – Envermelhava a cara, empurrando a unicórnio para o lado, desabraçando — ...Hey! Foi VOCÊ que começou a me abraçar e tudo! -.

-Mas você deixou e até bem além. Afinal, deve ter sido legal a sensação que teve no flanco... – Brincava.

-E-eu?! Você... Ahn... – Disse, se entristecendo — ...Nunca mais se aproveite de mim... -.

-Bem... Acho que agora podemos ir dormir, não? – Emburrava a cara.


A pônei da crina ondulada se levantava lentamente, espreguiçando os cascos e as pernas. Caminhava lentamente, ganhando um sono instantâneo e aspecto cansado. Introspectana só continuava a sorrir do jeito que sempre sorria. Olhava em todos os sentidos aquele flanco cinza, relativamente maior que a de éguas normais. Quase passava a sua língua entre os dentes.

A égua cinza rebatia a crina aos lados, primeira para a esquerda e depois para a direita. Olhava distante nesse momento, fruto do próprio sono que pegara. Para Introspectana...


“Esse flanco é uma delícia! Não é à toa que te chamam de Servinte... – Pensava.

“EU OUVI O QUE VOCÊ DISSE!” Gritou a professora, pensando.

“Nossa... Haha! Até esqueci-me de tirar essa magia de telepatia... Desculpa!”.


Terminando o seu ritual de preparação sonífera, aquela potra de olhos roxos finalmente deitava-se vagamente, com a coberta a puxar e colocar acima dela, cobrindo o seu corpo todo (E o flanco também). Introspectana, sem rituais, foi para o lado direito que sobrava da cama de casal, mantendo uma certa distancia da pônei que olhava a janela. Certa distância...


-Hey! Para de mexer no meu flanco! – Reclamava a professora.


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Um campo semi-pavimentado dentro de uma floresta semi-densa. Uns galhos secos largados terra afora e muita lama entre arbustos e cóleras. Introspectana e Touch Light se abatiam entre pedra e buraco do asfalto maltratado, em cima da carroça prezada. Do céu relativamente claro e sem nuvens, associado com um dia ensolarado e pacato, uma calma que se substituía constantemente pelo barulho do motor, ainda que baixo.

Ambas pulavam constantemente entre cada buraco e cada pedra no caminho. No caminho havia uma pedra no meio do caminho. Havia uma pedra no meio do caminho.

Num momento, Introspectana utilizava a sua magia para guiar a carroça enquanto abria uma carta.


- ...De acordo com essa carta... – Abriu a carta – O senhor Flute D’ Charm deseja que nós destruamos um grande centro de cultivo de pedras mágicas -.

-Pelo menos acho que não teremos de matar pônei nenhum, né? – Lamuriava, preocupada.

-Desta vez não, mas vamos ter de batalhar desta vez... -.

-Mas por que? –.

-De acordo com a carta, os fazendeiros dessa região são bem agressivos e, como sabe, estão cultivando drogas, então será complicado impedi-los. Desta vez ele disse para eu utilizar a minha magia como quiser, pois os fazendeiros possuem um alto nível de maldade no coração -.

-Por que eles possuem? -.

-Como sabe, os fazendeiros não servem a nenhum espírito maior, mas apenas para a própria ganância em vender as Pedras do Amor. Então, basicamente, por não servirem a um bem maior, então toda a culpa cai sobre eles. Se servissem, a exemplo, para a Estátua da Princesa Cadance eles teriam um índice zero de maldade, o que não é o caso -.

-Eu ainda acho que esse tipo de conceituação dos espíritos algo equivocado... -.

-Olha... – Direcionava o olhar para a professora, de forma séria – Como eu disse antes, não sou eu que faço as regras, mas sim os espíritos. Então não me culpe por tanta incoerência nas leis espirituais... -.

-Ainda não sei por que você ainda não os contestou... -.


Introspectana suspirou nessa ultima resposta, talvez guardando uma tremida séria, fruto também de seus olhos, que demonstravam um fechar, olhando distante. Sua seriedade não parecia nada comum e Touch não entendia o que ocorria, mas apenas lhe dava rancor de algo que poderia a lhe trazer rancor, ainda que nem tivesse algo acontecido.

Os caminhos lentamente tornavam-se mais lama, menos verde e mais desértico. Pedras maiores se misturavam com as menores. O cinza sempre foi cinza nesse aproximar ao campo de cultivo de pedras, também sempre cinza.

A professora tornava a olhar uns pôneis de cara emburrada, empurrando diversas pedras por vários cantos e campos. Alguns de cara triste, outros em caras neutras e olhando fundo para a terra. Suas marcas registradas geralmente se constituíam de pedras, minerais ou mesmo flancos brancos. Interessantemente, a porcentagem de adultos flancos brancos era relativamente grande nesse local.

Da carroça andada a parar, Introspectana pegava um anel que estava largado nos assentos da carroça, colocando-a no chifre. Rejeitava alguma ideia, mas de repente mudara, pegando um outro anel de casco, largado também na carroça, e o ofereceu para a sua companheira.


-Aqui... – Entregava o anel – Você realmente vai precisar dela hoje -.

-Mas é sério que vamos ter de realmente fazer isso por força bruta? Não há realmente um jei... JÁ SEI! – Exclamou.

-Hã? – Estranhava.


Ao fundo, a professora notava um estranho monomotor, velho e carregado de asas de madeira muito mal conservadas, aparentemente um avião velho e sujo, feito de madeira e algumas partes de aço. Touch tornava-se entusiasmada com a sua ideia.


-Podemos utilizar aquele avião ali para destruir o cultivo de pedras! Aposto que existe alguma magia de anti-crescimento de pedras que você saiba, não? –.

-Bom... Existe sim um feitiço que eu possa usar... Mas não acha um tanto quanto arriscado aquele avião? -.

-Tudo bem... Eu sei pilotar aviões! Deixe comigo! – Sorria.

-Só que, antes, terei de derrubar aqueles três potros que estão tomando conta do avião... -.

-Tá! -.


A professora se escondeu atrás de uma pedra gigante, enquanto que Introspectana correu até uma pedra, perto do avião. Escondendo-se, rastreou o local: Havia três garanhões tomando conta do avião, com várias pedras sendo utilizadas como obstáculos. Havia dois moinhos construídos ao norte e cinco grandes áreas de cultivo ao oeste do avião.

De sorrateiro, ela pulou até uma outra pedra e depois outra. Na última pedra, estava exatamente por trás de um dos potros. Com uma magia breve, pegou ele por trás, tampou a boca com os seus cascos e bateu com a sua cabeça na cabeça dele, desmaiando. Deixando o potro atrás da pedra, foi até uma outra pedra que também se mantinha atrás de um potro. Pegou-o, tampou a boca, bateu com o casco na cabeça e desmaiou.


“Vem de sorrateiro, Touch!” Pensava para Touch.


Touch começava a caminhar lentamente, de pedra em pedra. Chegando quase perto da última pedra antes do avião, ela tropeça numa pequena pedra. Milhares dos garanhões daquele local a notaram, o que a deixou nervosa.


-Ferrou! Rápido! CORRE, TOUCH! -.


A professora correu desesperada e trêmula. Os fazendeiros começaram a equipar os seus anéis, assim como alguns também umas inchadas. Touch correu até a Introspectana, que já desmaiou o ultimo potro necessário. A pônei terrestre se jogou no lado do piloto, enquanto que Introspectana já se sentava na área do copiloto.

Touch tentava dar a partida, mas sem sucesso.


-Rápido, Intro! Usa sua magia e gira a hélice! -.


Com uma aura branca, a hélice girava. E o motor finalmente ligou. Vários pôneis estavam chegando perto delas. A professora, então, deu a partida e o avião começou a andar. Um potro desgovernado chegou até a frente do avião. Temendo por ele, Touch tentou desviar, enquanto que Intro a controlava para não fazer isso.


-Hey! Eu disse que não quero matar um pônei! Deixe-me desviar! -.

-Confie em mim: Não vai precisar! -.


Com um medo partido da hélice, contaminou o potro em sua frente, que desviou do caminho do avião. No meio do caminho tinha uma pedra.

Continuando a andada, o avião tomou velocidade e começou a voar. Touch forçava como podia para que o avião continuasse a subir. Alguns pôneis no chão pegaram suas bestas e começaram a atirar nelas. Várias flechas atingiam o avião, mas sem danificar seriamente.

Dando uma grande curva no céu, Touch fez um retorno em direção aos cultivos. Introspectana se levantava de seu assento e conjurava uma magia. De seu chifre, saiu diversos feixes de luz em direção às milhares de pedras dos cultivos. Todas as pedras começaram a virar pó e vários pôneis corriam por todos os lados, desesperados. Touch fez outro retorno até outro cultivo, que também teve a unicórnio a jogar diversos feixes de magia nas rochas, imediatamente se desintegrando.

Introspectana, vendo a firmeza com que a professora pilotava o avião, brincou:


-Imagino como você deve ser um avião quando está pilotando uma relação íntima, se é que me entende – Gritava, sorrindo.

-Você vai brincar justo agora?! Vai tomar banho, vai! – Retrucou, zangada.

-Já tomei meu banho. A diferença é que você toma também banho, mas um outro tipo de banho... -.

-PARA, Tá?! Agora não é hora de brin... AH! O MOTOR PAROU DE FUNCIONAR! -.

-... Ferrou... -.


Então, desesperada, a professora saiu de seu assento e foi pra cima da Intro, dando coices incidentais na cara dela, inclusive um com uma nova marca registrada.


-Aí! Quer parar de me dar coice?! – Continuava a ser atingida – FICA CALMA, *yay*! -.

-SOCORRO! ESTAMOS FERRADAS! AAAAAAAAH! – Gritava, desesperada e com lágrimas ao rosto.


O avião se turbinava em direção ao solo. Num último instante, Introspectana acionou uma nova magia que acobertava ambas, sumindo do avião e aparecendo novamente ao solo. A professora, por medo e tremulações, estava abraçando fortemente a pônei branca, que sorria e respondia ao abraço se esfregando contra a Touch.


-Puxa... – Sorria maliciosamente – Você tem uma crina tão gostosa... Imagino que você também esteja muito afim de algo além desse abraço... -.

-O que?! – Empurrou a unicórnio — ... Não! Não é isso que você entendeu! Eu estava com medo... – Envergonhava-se.

-Tudo bem... Me desculpa. Hahah!– Respondeu, rindo.


Nesse momento, subitamente pararam de rir e perceberam que milhares de pôneis começavam a correr até elas, igualmente soltando várias rajadas de flechas e preparando os seus anéis. As duas prontamente correram até a carroça estacionada, pulando em cima dela e partindo rapidamente.

Em pouco tempo, retornando pelo caminho cheio de buracos e pedras, finalmente perdiam de vista aqueles garanhões enfurecidos. A carroça corria numa velocidade alta, com o vento já atrapalhando a vista das duas.

Entretanto, percebeu-se que havia uma outra pedra perseguindo-as, pedra em forma de carroça. No meio do caminho tinha uma pedra.

Nessa carroça tinha um pegaso segurando duas bestas, enquanto um pônei terrestre seguia a viagem pilotando a carroça. A professora estava abaixada no banco de trás enquanto que a Introspectana percebera aquela carroça intrometida. Nisso, mantinha o controle da carroça com a sua magia e em repente, diminuiu a velocidade, aproximando-se da carroça que as perseguiam. Nesse momento, o pegaso atirou uma flecha, cuja foi destruída pela unicórnio, que bateu com o seu casco nela. Então, pulou até a outra carroça e, com o chifre, tornou corno aquele pegaso, que caiu ao chão de terra rolando até o mato. Para completar, bateu com o casco na cabeça do motorista, que desmaiou.

Introspectana rapidamente pulara da carroça e retornara para a sua. Ao fundo, uma arvore caía, atingida pela carroça desgovernada. Após algum tempo, pararam no meio do caminho, já distantes da fazenda de pedra.

Respiravam ofegantes diante do acontecido, com direito a diversas paradas para respirar. Carroça parada, se esquivavam de si mesmas para uma licença para abstraírem tudo o que aconteceu. Paradas em cima da carroça, trocavam olhares.


-Nossa... Foi tudo muito rápido, Intro... Arf! Arf! – Respondia a professora, expirando e inspirando profundamente.

-Calma... AAAAR... FFFFF.... Pronto! Agora estou melhor depois disso... E... Eu não sabia que você sabia pilotar! Aonde é que você aprendeu a pilotar aviões? – Perguntava, estranhando com um sorriso.

-Assim como você nunca me contou a respeito de como consegue sugar a maldade dos outros? Questiono é se você não é uma vampira pônei... -.

-Ah sim... Eu sou uma vampira e quero MUITO sugar algo de você e não é sangue, se é que me entende... – Sorria como sempre.

-Errl! Credo! Isso foi muito nojento, Intro... -.

-Ué? Tenho culpa que... Sua pele é tão macia e sedosa? Que você é tão quentinha e que daria uma deliciosa refeição? -.

-Eu... – Envergonhada e sorrindo — ...Eu não tenho culpa de ser gostosa... – Tornava a cabeça para baixo.

-Uí! Se sentindo toda poderosa, hein?! – Sorria.

-De qualquer forma... – Levantava de novo – Você também não é lá feia como parece, embora só faltasse brilhar ao nascer do sol e soltar purpurinas, saltitando e jogando flores mundo afora... -.

-Ah sim... Tipo, parece e não é, né? Como se aparência e parecer não fossem a mesma coisa... – Brincava.

-...Isso que dá eu formular frases de forma tão superficial... – Colocava um dos cascos no rosto.


Ambas então se deitaram nos bancos da carroça, olhando o céu. Introspectana nos bancos da frente; A professora nos bancos de trás. A unicórnio sorria e maninha os seus olhos fechados, apreciando um vento bravo que atingia aerodinamicamente a carroça, enquanto que a professora olhava o céu imaginando a si mesma e aos outros, vendo os próprios cascos tentando tocar aquele céu. De sorriso e olhos ligeiramente abertos, se surpreendia.


-Mas... Você ainda não me respondeu, Touch... -.

-O que não respondi? -.

-Como é que você sabe pilotar um avião? -.

-É uma longa história... Melhor não contar... E, como disse, você ainda tem que me contar sobre a SUA história... -.

-Eu contarei, mas por enquanto preciso que compreenda que o meu anonimato é crucial nesse momento em que estou envolvida com a Mágia -.

-...Está bem... — Suspirava, decepcionada.

-Mas... Sério: Como você aprendeu a pilotar aviões? E por que pilota? -.

-Bem... Sabe como é, né? Os obstáculos da nossa vida, às vezes, impedem uma solução superficial para as coisas. Às vezes, temos de ir longe e aprender com os outros a como contornar as coisas e superar os desafios de nossa existência.


Afinal... Com uma aluna que voava e tentava superar tudo com o máximo que pudesse, ainda mais em alternativas além das óbvias...


...Aprendi então um novo jeito de conseguir superar os meus medos e você também me ajuda nesse caminho, Intro...


Aprendi que não se desvia apenas do caminho com uma pedra...


...Ou que uma pedra estaria no caminho...


Aprendi que tenho de superar tudo e não esquecer, jamais, que a realidade continua sempre. E por essa realidade, eu jamais posso esquecer que...


...Tinha uma pedra no meio do caminho... -.