Into You

3 3. A conversation with just me


Notas iniciais
O novo aluno era intrigante. A personalidade dele era complicada. E Eren tinha certa predileção por tomar sempre o caminho mais difícil.

Capítulo 3.

A conversation with just me

Levi era um homem de palavra.

Seus métodos para conseguir provas ou inocentar clientes podiam até não ser considerados os mais lícitos – não completamente desonestos, obviamente, mas nada que ele pudesse apresentar diretamente diante de um júri sem que isso manchasse sua reputação. Porém, de uma coisa ele podia se certificar: sempre cumpria suas promessas.

E era por isso que estava ali, depois de um dia absolutamente exaustivo em seu escritório, sentado no mesmo banco comprido de madeira, rodeado de mochilas esportivas e casacos de moletom cor-de-rosa, observando o bando de gazelas – um grupo diferente do que ele viu na primeira vez, mas que ainda assim, conservavam o senso estético e de comportamento que parecia ser comum por ali.

A música era diferente da aula anterior, mas do mesmo estilo, e ressoava em um volume moderado. O professor estimulava a todas a moverem-se como ele demonstrava, com seus gestos lentos e fluídos, que nenhuma das alunas conseguia imitar perfeitamente. Eren, era como ele havia dito que se chamava no encontro anterior.

Quando Levi entrou na sala – a porta já aberta parecia ser um hábito – e todos direcionaram os olhares na sua direção, ele notou o sorriso do menino, claramente satisfeito com a sua presença. Levi foi direto para o mesmo lugar da outra vez, e de lá não saiu. Se Eren esperava que ele se juntasse ao resto da sua turma, não se pronunciou. E mesmo as ávidas gazelas, curiosas demais para fazer qualquer movimento a princípio, tiveram que deixá-lo ali para continuar sua aula.

Hanji pediu que ele comparecesse às aulas, mas ela não disse uma única palavra sobre participar ativamente em todas elas, e ele esperava que essa brecha na sua promessa fosse o suficiente para conservar sua dignidade por algum tempo, ao menos. O seu paletó já havia sido deixado de lado há algum tempo, e ele dobrou as duas mangas da sua camisa até pouco abaixo dos cotovelos, e afrouxou o nó da gravata. Tudo o que queria era estar em casa naquele instante, para tomar um banho longo e relaxar os músculos tensos depois de horas sentado em uma cadeira de escritório.

Depois de checar rapidamente seus e-mails no celular, e responder alguns mais urgentes, não havia muito o que fazer por ali, além de notar que a turma da noite, apesar de menos barulhenta como o professor prometera, não tinha mais talento para a dança do que a anterior. Na verdade, era um tanto torturante ter que assistir àquelas cenas que não seriam nada além de deploráveis, fatalmente potencializadas pelo fato de que o ponto de vista que Levi tinha, sentado naquele banco, não era dos mais privilegiados – e acredite quando ele diz que não era uma boa paisagem de se observar tão de perto. Nem um pouco.

Hanji deveria ser grata por tê-lo em sua vida. Colocar seu nome nos filhos dela. Pensando melhor, isso seria terrível. Só o pensamento de Hanji e Erwin gritando “Levi, não suba na mesa” ou “Levi, tire o dedo do nariz” já fazia arrepios agourentos subir pelas suas costas. Péssima ideia, mudança de planos. Levi arrumaria outra maneira de usar a sua infinita generosidade para barganhar com Hanji no futuro. Não a deixaria esquecer de nenhum dos inúmeros sacrifícios que ele esteve disposto a fazer para que esta festa de casamento se tornasse realidade da maneira como ela queria.

Soltando o ar, o advogado apenas apoiou as costas na parede atrás de si, e direcionou seu olhar para algo mais agradável de se observar: Eren. Não que Levi fosse um entusiasta da arte de performar o corpo no ritmo de uma música de gosto duvidoso – ele não estava minimamente interessado no assunto. Porém, a maneira como o garoto conseguia prender a atenção dos observadores com seus movimentos era algo a se destacar, e Levi tinha que admitir, era basicamente impossível não parar para olhar.

Eren tinha um sorriso pronto para exibir sempre que percebia o olhar do homem. Era um sinal de escárnio, ou ele estava realmente se divertindo ao notar a atenção voltada para si. Levi não se importava. Se ia ser obrigado a ficar naquele lugar por tanto tempo, então ao menos teria que arranjar maneiras melhores de distrair sua mente por algumas horas a cada semana.

E assistir Eren dançando não parecia a pior das opções.

Eren não podia negar seu entusiasmo ao ver que o aluno que chamara sua atenção na aula de sábado havia de fato comparecido novamente. O nome dele era Levi – Eren não esqueceria essa informação – mas ele já havia apelidado carinhosamente o seu querido aluno como Grumpy Cat, e era assim que se referiu a ele quando conversou com seus colegas naquele breve final de semana. Porque não foi só ele quem se sentiu intrigado com a presença do homem, embora isso tenha ocorrido de diferentes formas. Armin estava absolutamente aterrorizado depois do primeiro contato, e Jean estava além da indignação porque não conseguia conceber a ideia de alguém se matricular em uma escola de dança e não querer dançar. Annie e Mikasa não haviam se pronunciado oficialmente, mas ele sabia que ambas também estavam um tanto curiosas – no caso de Mikasa, a curiosidade beirava a desconfiança.

Eren reconhecia que Levi era um caso complicado, e que ele ainda não havia compreendido totalmente as suas ações ou a forma como o homem pensava, mas não podia negar que o desafio o atraía, e o fato de Levi ter retornado só alimentava ainda mais a sua motivação. Faria aquele homem dançar de qualquer jeito, não importava os métodos que fossem necessários para isso. Jean até propôs uma aposta – se Eren conseguisse fazer o Grumpy Cat dançar qualquer coisa até o final do mês, Jean faria o papel da Bruxa Má do Oeste na apresentação da turma infantil do final do ano. Se Eren não conseguisse, ele que seria a Bruxa.

Ele não se importava nem um pouco com essa aposta. Se faria Levi dançar – e ele faria – isso seria puramente por causa das suas convicções pessoais. E talvez… Talvez, também, por ter realmente gostado do que viu quando Levi foi embora naquele outro dia. Ele tinha tudo no lugar, e Eren havia ficado ansioso para ver como seria se colocasse aqueles quadris para se moverem do jeito certo. Mas isso era apenas um fator de motivação adicional.

Como esperado, Levi não se moveu daquele banco durante todo o decorrer da aula. Ele não tentou insistir para que o homem se juntasse ao resto da turma, nem uma única vez. Fazia parte do seu plano integrá-lo gradualmente e fazer com que ele se acostumasse com a ideia, ao invés de forçar o caminho e obrigá-lo a qualquer coisa. Sua experiência já dizia que essa era a melhor forma de convencer alguém a fazer algo que não queria. E Levi não parecia ser do tipo fácil.

Pelo espelho, notava claramente o olhar do homem fixo no seu corpo, e, fosse o interesse dele na dança, pura e simplesmente, ou algo a mais, Eren não o deixaria ter sequer a chance de escapar em ambos casos. Quando a aula enfim terminou, o sorriso que ele lançou às suas alunas não continha apenas a cordialidade usual. Havia também uma parte de satisfação e de antecipação pelo que havia planejado fazer naquele dia. Levi se ergueu do seu lugar no banco, já movendo-se para a saída, e, assim como da última vez, Eren o interceptou.

— Gostou da aula, Levi? – A casualidade com que falava parecia incomodar Levi em algum nível, mas Eren não estava ligando nem um pouco para isso. Levi murmurou alguma resposta que poderia ser considerada positiva, e Eren abriu um pouco mais o seu sorriso, enquanto abria uma garrafa de água, e tomava um gole rápido. – Mas não o suficiente para se juntar ao resto da turma?

— Olha, garoto… – Levi soltou um cansado suspiro, que fez Eren pensar que talvez ele fosse mais velho do que aparentava. Que idade ele poderia ter? Seu corpo parecia muito bem conservado, disso não havia dúvidas. O rosto era pálido e quase pareceria delicado, se não fosse aquela expressão constante que misturava sede assassina de sangue e vingança com um aparentemente tédio crônico e irremediável. A únicas rugas que conseguia notar eram, de fato, aquelas entre as suas sobrancelhas, que pareciam vincadas permanentemente em um eterno sinal de incômodo. Neste caso, sua alma, pelo menos, poderia ser a de um idoso. Eren verificaria a ficha de inscrição dele lá embaixo mais tarde, só para saciar sua curiosidade sobre o assunto. – Não sei se ficou claro para você, mas eu realmente não quero ficar aqui. Se você tiver a decência de me expulsar da sua aula, com livre-justificativa, eu ficaria grato, na verdade.

Eren o fitou, intrigado. Jean tinha razão, não era usual alguém se inscrever para aulas de dança contra a vontade. Isso geralmente acontecia com casais, um marido incauto arrastado por uma esposa excessivamente entusiasmada, ou com garotinhas cujas mães possuíam expectativas muito altas e irreais. Mas um homem adulto sacrificando sozinho suas horas de descanso após o trabalho para ficar algumas horas sentado em um banco, isso não acontecia todos os dias. E Eren estava absolutamente interessado em saber os motivos que o levavam até ali.

Se Levi esperava pela fatal pergunta “Então por que está aqui?”, não demonstrou. Ao invés disso, Eren resolveu partir por outra rota. Sorriu – algo quase automático nos últimos tempos, principalmente quando necessário, e muito útil em todas as situações, e seus olhos faiscaram com o crescente entusiasmo por toda aquela situação.

— Quer tomar um suco comigo? – A pergunta saiu naturalmente, antes que ele tivesse tempo para processar exatamente o que diria. Levi também pareceu ter problemas em compreender.

— Como?

— Um suco. Tem um lugar no final da rua que é ótimo. E é natural, você sabe, preciso manter a ferramenta de trabalho afiada. – Ele piscou um dos olhos, matreiro, passando a mão sutil e sugestivamente pelo tórax, e Levi franziu a testa ligeiramente, o que na sua expressividade bastante limitada, deveria ser o equivalente a um revirar de olhos. – O que me diz?

— Esse tipo de proposta no ambiente de trabalho soa um tanto anti-ético. – Levi retorquiu, mas isso não abalou a confiança que Eren parecia exalar sem esforço. O sorriso de canto surgiu facilmente no garoto. – Você chama todos os seus alunos para tomar sucos? – ele completou, sem realmente responder a questão.

— Só os que têm sorrisos simpáticos como o seu.

Levi soltou o ar pelo nariz – seria isso uma risada contida? Eren precisaria criar um dicionário Levi-Expressões humanas/Expressões humanas-Levi, se quisesse manter algum nível de compreensão mútua. De qualquer forma, Levi juntou seus pertences em um dos braços e seguiu em direção à saída da sala, agora vazia. Eren levou alguns segundos para compreender o que acontecia, e Levi parou próximo à porta, olhando para trás.

— Você não vem?

— Claro. – O sorriso aberto voltou a se espalhar pelo rosto, quando ele seguiu Levi sem mais questionamentos de ambas as partes.

Quando passaram pela recepção, Eren notou o olhar longo e inquisidor de Armin. Ele havia presenciado o momento da aposta com Jean, afinal, e provavelmente já havia deduzido pelo menos metade dos pensamentos que passaram pela mente de Eren desde então. Desde que Armin não resolvesse intervir nisso e se ele conseguisse atingir seu objetivo final, nada disso importava muito.

Sem demora, já estavam ambos acomodados em uma das mesas externas na lanchonete da esquina, Eren com seu suco e Levi dispensando qualquer coisa com aspecto tropical e pedindo um café extra-forte. Ele parecia ser o tipo de pessoa que passava por cima de qualquer enrolação, pois tão logo receberam seus pedidos no balcão e escolheram uma mesa, ele já fitou Eren com um olhar que dizia claramente que era melhor ele ser direto no que pretendia com tudo isso.

Eren tinha que admitir, já havia ficado bastante surpreso apenas com o fato de ele ter aceitado seu convite sem maiores argumentações. Tinha que aproveitar aquela oportunidade se queria mesmo se aproximar, de alguma forma, daquele homem, embora, naquela altura já nem soubesse realmente se essa era mesmo sua intenção. O fato era: Eren era curioso. Sempre fora e isso sempre trouxe resultados desastrosos, mas ele simplesmente não sabia quando parar. E o Grumpy Cat que ficava sentado na lateral da sala durante todo o decorrer das suas últimas duas aula havia despertado sua curiosidade no nível máximo. Então, nada mais justo do que encontrar uma forma de ao menos tentar saciar essa curiosidade súbita e não planejada.

— Então, Levi… – Eren brincou com o canudo do seu suco, disfarçando parte do seu nada sutil interesse enquanto falava. – Pode me explicar por qual motivo exatamente você está fazendo aulas de dança? Porque você não está dançando, literalmente, e isso deixa as coisas um pouco mais difíceis para mim, sabe? – Ele sorriu mais uma vez, erguendo o olhar para o outro. – Se eu entender o que você está tentando fazer, vou poder te ajudar.

Levi hesitou, o que já deixou Eren ainda mais atento, porque, do pouco que ele havia conseguido observar, aquele não parecia ser um homem que hesitava. Ele desviou claramente o olhar e pegou sua xícara – de uma forma pouco usual, por cima ao invés de segurar pela alça, Eren não pôde deixar de observar – sorvendo um longo gole do café que devia estar absurdamente quente.

Uma hipótese completamente sem sentido passou por Eren como uma onda, enquanto ele observava minuciosamente o comportamento do seu aluno. E se… E se Levi realmente não estivesse interessado na dança em si, mas sim, em outra coisa naquela escola? Não seria a primeira vez que pessoas se inscreviam nas suas aulas tentando chamar a sua atenção especificamente, e ele sabia identificar esses alunos sem dificuldades. Levi não parecia realmente o tipo que faria isso, mas… quem era ele para julgar? Levi poderia muito bem ter o visto dançar em alguma ocasião, e então, se apaixonado perdidamente, e agora, estava apenas tentando disfarçar o seu embaraço com café quente e aquela expressão fechada de tédio mortal. Isso era até fofo, se ele fosse pensar bem.

Eren geralmente seguia a ética profissional e rejeitava esses alunos apropriadamente, deixando clara a sua falta de interesse romântico e focando somente na relação profissional. Invariavelmente, eles desistiam das aulas de imediato logo após isso, e Eren evitava maiores conflitos. Ele não estava totalmente certo de que queria seguir esse protocolo não-oficial com Levi, no entanto. Talvez ele quisesse saber aonde isso iria parar. Talvez ele quisesse ver outras expressões no rosto daquele homem tão estoico. Talvez ele quisesse causar alguma reação e ver os olhos de Levi brilharem de desejo por ele, só para ver como eles ficariam. Não podia negar, Levi não era exatamente o seu tipo, mas também não era nada de se jogar fora. E quem era Eren para desperdiçar quando uma oportunidade dessas caía diretamente no seu colo?

— Você parece bem estúpido sorrindo desse jeito sem motivo, sabia?

O tom de voz de Levi era mordazmente irônico, quase ofensivo, se Eren levasse para o pessoal. Ele não havia percebido a expressão que fazia. Mas ele sabia que estava perto da verdade, ah, sabia, e isso o enchia de uma energia ainda mais perigosa. Seu sorriso aumentou sem que ele percebesse de fato.

— Me diga… – Eren deixou sua voz mais baixa e grave propositalmente, inclinando-se sobre a mesa, segurando a ponta do copo de suco entre os dedos. – Quais são as suas motivações, Levi? – Ele acariciou cada sílaba com cuidado, baixando o olhar sem deixar de focar no rosto da sua companhia, cuja expressão não se moveu um único milímetro desde o início da troca de palavras. – O que trouxe você até mim? No quê eu posso ajudar você?

— Isso é ridículo, realmente. – Levi apertou a fonte do nariz, parecendo realmente incomodado. Mais rugas surgiram no espaço entre as suas sobrancelhas.

— Pode me contar. – Eren incentivou, e logo quando pensou em mais formas de fazer Levi se sentir à vontade para admitir que tinha um crush irremediável, uma atração fatal, amor à primeira vista que não pôde evitar quando o viu de longe, o homem se mexeu, desconfortável na cadeira, e soltou o ar pesadamente, começando a falar.

— É por causa do casamento. Hanji, a mulher louca que me inscreveu nessa besteira de aula de dança – sem ofensas, mas é besteira mesmo – resolveu que quer enfiar uma coreografia completamente estúpida na festa, e acredita que para dançar a merda de uma valsa com ela, eu preciso de aulas. – Levi disse isso tudo sem uma única inflexão na voz, sem qualquer alteração no seu semblante, e com uma irritação tão evidente que jamais poderia ter sido forjada.

— Oh. – Foi a única coisa que Eren conseguiu pronunciar enquanto levava algum tempo para acessar essas informações novas no seu sistema. Casamento. Valsa. É, fazia sentido. Eren havia visto uma mulher com Levi no primeiro dia em que ele apareceu, e Armin havia comentado alguma coisa sobre esse episódio também, agora que ele se permitia lembrar sobre isso. Ok, talvez ele estivesse um pouco embaraçado por ter pulado para outras conclusões de início, mas ninguém precisava saber. – Então, você tem um… – Relacionamento aberto, quem sabe? – Prazo a cumprir, é isso?

— Aparentemente. Três meses. – Levi apreciava calmamente seu café. Eren havia esquecido completamente o suco.

— E você falou sobre uma coreografia?

Levi resmungou alguma coisa incompreensível enquanto puxava seu celular.

— A maluca me mandou essa merda, espera… – Eren não conseguia acreditar que alguém que tratava a noiva por “maluca” estivesse realmente pronto para se casar, mas talvez fosse apenas uma questão de apelidos carinhosos. Algo no fundo da mente de Eren gritava que aquele homem podia chamá-lo do que quisesse, quando quisesse. Foco, Eren.

Levi havia aparentemente feito uma pergunta, e perdido na sua imaginação selvagem como estava, não ouviu uma única palavra.

— Desculpe, como?

— Seu número. Eu vou mandar o vídeo.

Eren não entendeu por que Levi precisava mandar o vídeo para ele, se podia simplesmente mostrar agora, mas ele pedira seu número, e ele não iria recusar um pedido tão simples, ainda mais quando isso permitia que ele tivesse o número do celular do outro em troca. O vídeo foi enviado logo em seguida, e Eren assistiu, no volume mais baixo. Ele agora estava genuinamente surpreso, porque nem em um milhão de anos, em centenas de reencarnações, ele conseguia conceber a ideia de Levi, aquele mesmo homem sentado à sua frente, dançando daquela maneira. Se não estivesse tão chocado, e não soubesse que isso provavelmente o irritaria, teria rido da ideia.

— Ok, isso daqui não parece nada fácil, já que não é do seu… estilo.

— Não diga.

— Mas não é impossível! – Voltando ao seu otimismo inicial, Eren completou. Não iria desistir de Levi tão fácil assim, e, quando ele pensava isso, estava se referindo estritamente à dança, obviamente. – Quero dizer, talvez fazer você se soltar seja o maior desafio de todos, e vai requerer muito trabalho de ambas as partes, mas acho que podemos fazer alguma coisa sobre isso, juntos.

— O que sugere? – O olhar cético de Levi já deixava muito claro que ele não acreditava em qualquer mágica que Eren porventura pudesse fazer.

— Quem sabe eu possa… – Dançar na sua despedida de solteiro.— Utilizar outros métodos.

— Se você vai dizer que eu posso ficar bêbado na festa e dançar, não estou disposto a abrir mão da minha dignidade para nada disso.

— Eu não ia dizer isso, mas não deixa de ser uma ideia. – Eren deu de ombros, sorrindo com a imagem mental de um Levi descontrolado e sob efeito de álcool dançando sobre a mesa da festa. Ele pagaria o dinheiro que não tinha para ver isso ao vivo.

— Eu não pretendo fazer nada do que você faz nas suas aulas, também. – Levi soltou o ar, subitamente ainda mais cansado. – Por que você não me expulsa de uma vez? Se eu tiver uma garantia do professor de que eu sou física e mentalmente inapto para qualquer atividade recreativa envolvendo meu corpo, talvez Hanji me livre disso.

Eren podia pensar em uma ou duas atividades recreativas com aquele corpo que ele não se oporia a tentar, mas era melhor guardar isso para si.

— Acho que você não gosta mesmo das aulas com o resto da turma, mas o que me diz de aulas particulares? – A ideia surgiu espontaneamente na mente de Eren, e ele quase desejou poder dar tapinhas nas próprias costas por ter tido uma epifania tão brilhante assim de repente. Os olhos de Levi franziram um pouco mais fundo, como se ele estivesse considerando seriamente a alternativa. Eren se encheu de coragem mais uma vez, quando não deu de cara com uma recusa logo de imediato. – Podemos nos encontrar depois dos horários das minhas aulas, ou nos dias em que eu não tenho nada agendado, quando você puder, e eu vou ter tempo para me dedicar inteiramente ao seu caso. Você não vai precisar fazer nada na frente dos outros, seremos só eu e você. O que acha?

— Eu vou ter que pagar a mais por isso?

— Absolutamente não. É uma oferta especial, só para você. As condições continuam as mesmas, já que sou eu que estou oferecendo isso por vontade própria. – Eren deu de ombros, diminuindo a importância disso. Provavelmente teria que convencer Armin a deixar a escola aberta além do horário, e não ganharia nada pelas horas extras, mas a intuição de Eren dizia a ele que valeria a pena, e ele sempre havia possuído bons instintos. Levi era um desafio pessoal, e não fazia parte da sua natureza jogar a toalha assim.

— Então por que está me sugerindo isso? – Dessa vez a expressão de Levi era unicamente intrigada, e ele largou a xícara, agora vazia, na sua frente, estudando cuidadosamente o rosto de Eren.

Ele pensou por alguns instantes, sobre qual seria a forma correta de responder sem fazer Levi pensar que ele era insano, e decidiu que ser sincero poderia ser a melhor saída. Inconscientemente, seu sorriso abriu um pouco mais, e ele quase sentiu toda a sua postura relaxar mais uma vez, enquanto apoiava o queixo em uma das mãos, com o cotovelo sobre a mesa pequena de madeira que o separava de Levi.

— Acho que eu não estou pronto para desistir de você, Levi.

Eren disse isso, mesmo que ele próprio não tivesse certeza sobre o significado que investira naquela frase.

Wow, ele falou isso mesmo? Que palavras ele usou, exatamente?

Hanji havia ficado perigosamente entusiasmada quando Levi contou a ela sobre a oferta de Eren. Ele devia mesmo ter mantido a informação em sigilo.

— Você não tem nenhum morto esperando você para abri-lo ou qualquer coisa assim? Eu tenho trabalho a fazer aqui, se não se importa. – Ele movimentou alguns papéis, organizando-os em pilhas muito bem enfileiradas sobre a escrivaninha de madeira escura.

Era início da tarde, e Hanji estava ocupando espaço no seu escritório sem ter sido convidada. Levi errou em acreditar que aquela era apenas uma visita rápida para saber como estavam as coisas, e cometeu um erro maior ainda ao responder às perguntas dela de forma sincera. Agora, pagava pelo seu engano tendo que aturar as reações extremas e dramáticas da sua amiga – que ele, sinceramente, perguntava a si mesmo por que havia recebido esse título.

— Eu não me importo. – Ela sorriu, sem se mover do lugar na cadeira à frente dele. Levi soltou o ar lentamente, e decidiu que ignorar Hanji podia ser uma alternativa, embora ele soubesse que isso dificilmente surtiria efeito. – Estou em horário de almoço, e combinei de almoçar com Erwin em um restaurante perto daqui, que faz um chili maravilhoso. Não quer almoçar com a gente? Aliás, você ao menos almoça quando está aqui?

Levi escolheu não responder de propósito à questão.

— Então, você não deveria estar almoçando com ele? – Ele sibilou. Hanji nem piscou, mesmo que qualquer um com um pouco mais de bom senso percebesse nitidamente o tom de ameaça da sentença.

— Tenho um tempinho sobrando. Então, o seu professor de dança é aquele fofo de cabelo castanho que estava na entrada aquele dia? E ele te ofereceu aulas particulares? – A ênfase que ela colocou nas duas últimas palavras incomodaram Levi mais do que deveria. – Assim, do nada? Só você e ele em uma sala no meio da noite dançando juntos? Sozinhos? Um com o outro?

— É exatamente esse o significado de aula particular.

— Quer saber o que eu acho?

— Não.

— Acho que esse professor totalmente está dando em cima de você, Levi! É tão óbvio, sério, não tenho dúvidas de que ele está ca-i-di-nho por você.

O semblante de Hanji estava mais radiante do que em todas as vezes em que ela provou os vestidos de casamento, e olha que ela estava realmente empolgada com aquele monte de seda, tule, bordados e camadas e camadas de babados. A alegria desmedida em Hanji estava começando a dar calafrios em Levi. Isso nunca era sinal de coisas boas.

— Mal passou do meio-dia e você já está bêbada, Hanji?

— Eu estou falando a verdade, me dê algum crédito, por favor. Vai me dizer que você não achou ele interessante também? – Levi novamente se dignou a não responder essa pergunta, focado nos documentos que precisava ler. – Então, você aceitou as aulas, não aceitou?

— Ainda não decidi.

— Aaaah Levi! Não me diga que você está pensando em desistir! Você já tinha prometido pra mim! – Hanji resmungou como uma criança que acaba de descobrir que vai ficar sem sobremesa, e aquela dorzinha que volta e meia eclodia na cabeça de Levi começava a dar o ar de sua graça. – Além do mais, você é quem vai sair ganhando… se é que me entende…

Levi não deixou que Hanji continuasse a listar todas as vantagens que ela via nas tais aulas particulares – sendo que nem todas eram referentes à dança em si, e ele não queria nem começar a ouvir todas as barbaridades que ela continuava a tagarelar. Expulsou Hanji de uma só vez, empurrando-a pelos ombros porta afora e tendo o cuidado de trancar logo depois.

Ele estava com o número de Eren salvo, e combinou que daria sua resposta sem demora, assim que verificasse a sua disponibilidade para as tais aulas particulares. Ainda buscava uma forma de se livrar disso sem precisar ouvir as lamentações sem fim de Hanji, e não precisava que ela repetisse todo o seu drama mais uma vez para ele saber que não se veria livre desse compromisso tão facilmente.

E, sendo sincero consigo mesmo, agora que havia conseguido ao menos uma forma de fazer isso sem ser necessário humilhar-se em público, não parecia mais um pesadelo tão horrível assim fazer essas aulas. Sem falar que o professor não era de todo ruim.

Levi puxou seu celular do bolso, e escreveu uma mensagem rapidamente, voltando ao seu trabalho logo depois, sem verificar qualquer resposta durante todo o resto do dia.

“Aceito sua proposta”.

Notas finais
Olá o/ Eren partiu para o ataque, mas o resultado não foi exatamente o que ele esperava, não é mesmo? Pobrezinho, deu dó. (mas ele vai cobrar isso tudo nas aulas depois, pode ter certeza). Espero que tenham gostado do capítulo ^-^ demorou um pouquinho mais do que o planejado, porque a minha beta estava com uns problemas (final de semestre é o inferno, everybody) então, o capítulo está não-betado - se houver algum errinho detectável por aí, sintam-se livres pra me avisar, btw, porque eu sou muito terrível em revisar, sempre escapa alguma coisinha. Bem, é isso~ nos vemos no próximo e espero mesmo que estejam gostando o/ bye bye ~