Intimacy
10 Capítulo 10
Notas iniciais
No caminho para casa Clara pensava no que fazer. Helena estava certa, tinha que conversar o Cadu o mais rápido possível. Afinal, ainda estavam juntos, eram amigos, se respeitavam, e ele merecia saber o que estava acontecendo. Mas tinha tanto medo. Era incrível como Marina fazia com que ela se esquecesse do resto do mundo, de todas as complicações dessa situação. Quando estava com ela não sentia medo. Mas era perder a fotógrafa de vista que sua mente se tornava mais populosa do que o recomendado.
Não seria nada fácil abrir o jogo com o Cadu, com toda a sua família. Afinal de contas, seria uma mudança enorme em sua vida: romper o casamento de dez anos e assumir uma relação com uma mulher. Quer queira, quer não, envolveria a família toda, não só ela, Cadu e Ivan. Receava rejeição por parte do filho e do resto da família. Contava com o apoio de Helena, claro, mas Helena era diferente. De repente, Clara sentiu-se uma adolescente com medo das consequências.
Não abriu a boca durante a curta viagem, o que Ivan estranhou, mas viu a cara de preocupação da mãe e preferiu ficar quieto.
– Ivan, filho, preciso que você fique aqui na tia Helena pra mamãe poder conversar a sós com seu pai.
– Ih, já vão brigar.
– Meu filho, cla-claro que não. Nós só vamos conversar.
– Mas vocês têm brigado muito. — Falou triste.
– Eu sei, meu amor. Mas vai passar. — Pôs a mão em seu ombro. — Ó, Marina te mandou um beijo. — Beijou sua bochecha.
Ivan sorriu.
Clara encontrou Cadu na porta.
– Ué, tá saindo?
– Oi, Clara. — Deu um selinho. — A Verônica ligou, tenho que ir lá no galpão resolver algumas coisas do bistrô. — Falou animado esfregando as mãos. — Tô com pressa. Cadê o Ivan?
– Tá na Helena.
– Tá bom. Te vejo mais tarde, meu amor. — E saiu.
– Cadu.. — Clara foi deixada falando sozinha.
Clara buscou Ivan.
– Cadê meu pai?
– Teve que dar um pulo lá no bistrô.
– Trabalhando até agora? — Fez beicinho.
– Pois é, meu filho. Coisa importante. — Beijou sua cabeça. — Cadê o dever de casa? Traz lá, não pode atrasar com a matéria não, cara.
Depois de ajudar com o dever, os dois jantaram sozinhos e Clara o pôs para dormir.
– Te amo, meu bichinho.
– Também te amo, mãe.
Foi para a cama. Não estava com sono, olhava para o teto exausta de tanto se preocupar. O celular tocou. Era Marina, e mais uma vez era como se sua mente se esvaziasse.
– Te acordei?
– Não. Já estava pensando que não ia ligar mais. — Falou brincando.
– E eu lá consigo ficar muito tempo sem falar com você, Clarinha?
Clara sorriu.
– Liguei para te desejar boa noite, e dizer que já estou morrendo de saudades. — Falou fofa.
– Eu também. Muita. — Suspirou. — Boa noite, Marina. — Falou apaixonada.
Foi só a voz de Marina sumir para as vozes de sua cabeça voltarem. Clara pensou no fato de Marina estar ‘com saudades’. Claro. Era noite e ela ia dormir sozinha. Assim como Clara, que agora estava sozinha, mas logo estaria com quem não mais queria estar. A noite seria longa.
Cadu voltou tarde da noite, fazendo barulho. Se trocou e se jogou na cama. Clara cerrou a mandíbula irritada. Poxa, tinha acabado de cair no sono. Consideração era pedir demais?
– Clara. — Chamou baixinho, com a mão na sua cintura. — Tá acordada?
– Não. — Clara resmungou se afastando.
Cadu riu. — Amor, o bistrô está fazendo o maior sucesso. Você devia estar lá, devia estar vendo. Seu maridão agora é um homem de negócios. — Beijou seu pescoço.
– Parabéns. — Falou sonolenta.
Cadu beijou seu pescoço novamente e desceu a mão da cintura até sua bunda.
– Cadu! — Clara tentou se afastar de novo.
– Ah, Clara, para! — Falou no seu ouvido, beijando. — Vamos aproveitar que você já acordou mesmo. — Moveu a mão para sua barriga.
Clara segurou sua mão e falou mais alto. — Cadu, para!
Ele então se virou reclamando alto e se deitou o mais longe possível.
No outro dia Clara ligou para Marina.
– Bom dia, minha linda! — Falou entusiasmada.
– Oi, Marina, tudo bem? — Clara disfarçou.
– Oi, o que houve? — Marina falou desapontada.
Avisou que não poderia ir trabalhar porque acompanharia Cadu para uma bateria de exames. Pediu mil desculpas.
– Claro, claro. Tudo o que precisar.
– Deixa eu adivinhar. — Vanessa falou assim que Marina se despediu. — Não vem trabalhar porque o filhotinho pegou piolho?
– Não, Vanessa. Não é nada disso. É com o Cadu, vai fazer alguns exames para ver se o tratamento está evoluindo. Coisa séria.
– Claro. O Cadu. Até quando você vai aceitar ser a segunda opção? Isso não combina com você, Marina!
– Vanessa, sinceramente, você não tem coisa melhor para fazer não? — Se irritou. — O Cadu ainda é o marido da Clara, eles têm uma vida juntos. E mesmo se não o fosse, são amigos, é o pai do filho dela. Ela está mais do que certa em dar uma força para ele. O cara tá precisando, poxa.
– Tá, tá. Não está mais aqui quem falou. Desculpa.
Marina sentiu a falta de Clara o dia todo, pois a mesma não ligou ou mandou mensagem nem uma vez. Ficou apreensiva, com medo de que algo ruim estivesse acontecendo, ou com Cadu ou entre elas. Medo de que Clara estivesse repensando. Pensou em ligar, mas achou melhor esperar por ela. Esperou, e nada.
A verdade era que Clara estava com a cabeça lotada, precisava falar com Cadu, mas não sabia como entrar no assunto, e não conseguia ‘horário’ com o marido. Ele parecia até estar sentindo o que estava por vir. Estava sempre ocupado, fugindo. Passou o dia todo fazendo exames e agora estavam se arrumando para um jantar importante com Laerte e Verônica. Cadu não parava de falar no restaurante e Clara não conseguia conversar.
Ah, Marina. Vamos jantar com a gente. Já ficou com essa cara aí o dia inteiro, vamos clarear a cabeça um pouco, que mal faz? — Vanessa e Giselle insistiam.
– Ai, gente. Tá bom, vai. — Disse sinalizando com as mãos para que saíssem do quarto. — Já fico pronta. — Suspirou checando o celular mais uma vez.
Marina deixou que Vanessa escolhesse o restaurante e depois a mesa, não estava muito animada. Assim que se sentou, como se uma energia atraísse sua atenção, Marina olhou para uma mesa do outro lado e viu Clara com sua família. Esta, também como se pudesse sentir o olhar da fotógrafa, captou seu olhar. Clara sorriu ao vê-la, pensou em se levantar e ir falar com ela, mas Cadu, que estava absorto numa conversa com Verônica, segurava sua mão trazendo-a de volta à realidade. O marido não ia ficar nada contente se ela o fizesse. Deu um tchauzinho de longe. Marina correspondeu o cumprimento, mas não o sorriso contente. Poxa, não custava nada ela ter mandando uma mensagenzinha que fosse. Sem contar que também invejava Cadu por poder segurar sua mão na frente de todo mundo quando quisesse. Suspirou olhando para sua mesa, o dia tinha acabado de ficar pior.
Tentou não ficar olhando para a mesa dela, não queria que o marido percebesse e não queria se torturar vendo o casal junto. De longe até pareciam felizes. No entanto, não conseguia evitar, se pegava olhando vez ou outra. Quase que por instinto.
Clara e companhia se levantaram. Para sair seria impossível não passar perto da mesa de Marina. A caminhada pareceu mais longe do que era, enquanto se debatia sobre o que fazer. Tinha que falar com ela, claro, não podia ignorá-la assim, muito menos depois de tudo que tinha acontecido. Só que não precisou pensar muito mais para tomar uma decisão.
– Marina! — Ivan, falou animado.
Marina se virou sorrindo. — Ei, bonitão! Que saudades de você. Olha só o seu tamanho, como você está crescendo! — Se abraçaram.
– Nem tem tanto tempo assim, Marina. — Cadu falou claramente irritado.
– Eu sei. — Falou séria. — Mas quando a gente fica longe qualquer mudancinha é drástica, num é não? — Falou animada com o Ivan.
– Você bem que podia chamar a gente pra tomar banho de piscina de novo, né?
– Ivan! — Clara reclamou. — Mais educação, meu filho. Marina vai pensar que você só gosta dela por causa da piscina. Desculpa, Marina. — Olhou para ela com aquele olhar que Marina conhecia tão bem.
– Tudo bem. — Se virou pra Ivan. — É claro, você pode ir lá sempre quiser, é sempre bem-vindo. – Falou pegando suas mãos.
– Então vamos? — Cadu falou puxando o filho. — Boa noite para vocês.
– Boa noite. — Clara disse demorando mais do que devia para se virar. Não queria perdê-la de vista de novo ainda.
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