Internato
5 Capítulo 5
Alicia
Subi, tomei um banho. Arrumei o cabelo bem devagar.
Me olhei no espelho e toquei o cola que Leo me dera. Era bem simples, prateado. A corrente era tipo snake e o pingente era duas asas de anjo cruzadas, como uma proteção.
Sequei uma lágrima teimosa.
Desci, preparei um lanche. Mastiguei tudo muito bem.
Eu estava fazendo questão de fazer tudo metodicamente.
Era o único jeito de ocupar minha cabeça com outra coisa que não fosse Léo. No que fizeram com ele. No que faziam agora mesmo. No que queriam dele.
A falta que ele fazia era esmagadora. Não vê-lo, não ouvir sua voz, não sentir seu cheiro. Não ouvir suas piadas ruins ou suas implicâncias. Não senti-lo por perto.
Quando me deitei, tentei não pensar. Imaginei que ele estava no banho, ou fazendo um lanche. Qualquer coisa para explicar o porquê da cama dele estar vazia.
Não aguentei muito tempo e acabei me arrastando para a cama dele. Me enrolei na coberta dele e agarrei seu travesseiro, assim como eu queria ser capaz de fazer pessoalmente. Inspirei fundo e seu cheiro me embriagou.
Então não fui mais capaz de aguentar, e deixei sair o que estava me sufocando. Tudo o que segurara desde o momento que o vi ser levado saiu num jorro. Lágrimas intermináveis e soluços persistentes me inundavam. E tudo o que eu conseguia pensar era que se eu não tivesse parado para comprar um chocolate estupido – que agora estava esquecido na nossa escrivaninha – aqueles caras teriam nos encontrado juntos. E ninguém era capaz de nos derrubar.
-x-
Leon
Eu acordei e estava no mais completo escuro.
Estava sentado em algo duro, numa posição desconfortável. Meus braços estavam amarrados para trás, e meus pés também estavam presos. Estava difícil de respirar.
Cerca de três segundos depois minha mente despertou o suficiente para perceber que tinha um saco grosso na minha cabeça.
Mas não tive muito tempo para imaginar onde estava: o saco foi abruptamente tirado da minha cabeça e uma luz forte foi jogado no meu rosto.
Tinha uma voz que dizia algo repetidamente, mas eu não conseguia me lembrar do que era. Eu simplesmente não entendia. Sabia que vinha da pessoa que segurava a luz, e que quem quer que fosse estava muito puto comigo.
Minha cabeça girava.
Todos meus membros doíam, latejavam.
Estava com fome, com sede.
Mas eu só tinha uma coisa em mente: Alicia.
Onde ela está?
Ela está a salvo? Segura?
Só isso importa.
-x-
Alicia
Não sei em que ponto eu dormi. Provavelmente desmaiei após encharcar o travesseiro e ser quase impossível sentir o cheiro dele – até por que àquele ponto meu nariz podia ser considerado inexistente.
Só sei que acordei com o sol batendo no meu rosto. Me sentei e percebi que estava na cama dele. E que devia ser mais de dez horas, por que o sol só bate nas camas nesse horário.
Levantei numa espécie de transe: tudo parecia irreal.
Cada pequena tarefa diária – até mesmo comer -, era incrivelmente difícil com a dor da falta de Leo. Era incrível o quanto eu era apegada com esse garoto. Afinal, ele fora minha esperança e salvação dentro do orfanato. E foi meu guia quando conseguimos sair. Tem sido um protetor. E o único amigo que já tive.
Ele é tudo que já tive. E respirar sem ele... já me parece errado. Se ele não está por perto, se há a mínima chance dele não estar respirando... porque eu seria digna disso?
Lágrimas insistentes continuavam caindo no meu rosto. Mesmo eu dizendo à elas para não caírem, mesmo eu tentando segurá-las elas rolavam. Parecia que ia acabar me sufocando. Que elas me afogariam por dentro.
Certo, eu não sou tão dramática assim.
Mas até a pessoa mais durona do mundo ficaria arrasada se lhe tirassem tudo o que ela já teve. Se lhe tirassem sua base.
E eu me sentia péssima.
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