Interlúdio

2 Catarina


Estou sentada em uma cadeira e há uma mesa de metal logo a minha frente. A sala é vazia e escura. Estou completamente nua, mas não sinto frio. Meus cabelos estão soltos, maiores do que eu me lembrava; eles caem sobre os meus ombros e beiram a cintura.

É como se eu tivesse dormido por muito, muito tempo. A cabeça lateja, minhas mãos tremem e sinto a garganta seca.

Quanto tempo se passou?

Há uma folha e uma caneta em cima da mesa. Não sei como tenho ciência, mas sei que preciso escrever uma carta, e preciso escolher um, apenas um, destinatário. Os rostos passeiam na minha mente enquanto fecho os olhos. Lembro-me de um clarão e tenho a sensação de que o vento roça meu rosto novamente. Lembro-me, também, de sentir o peito apertado. Pensei que fosse só a tristeza e toda melancolia de que estava cheia, mas, naquele momento, o aperto me pareceu um pouco mais real do que são os sentimentos. Eram meus sentidos. Minha pele, o tato, meus ossos, minhas veias. Acho que depois choveu, mas eu não estava mais lá para saber.

Eu dirigia e estava de noite. Naquele dia, não havia música no carro, não havia pressa, não havia ninguém me esperando, nem nada especial. Eu só queria chegar em casa e descansar. Foi o que aconteceu.

Vinte e cinco anos e milhas demais nos ombros. Quem vai entender?

Abro os olhos e estou na avenida onde o carro reduziu-se a um monte de metal retorcido. Ele ainda está lá, o caminhão também e há sangue, muito sangue, no chão, mas não há ninguém por perto. A cidade está vazia. Os mercados, padarias, lojas, tudo está exatamente como deveria, mas ninguém nas ruas. As casas também estão vazias. Sei porque caminho até poder encontrar a minha casa. Devo ter caminhado por horas até chegar, mas o tempo para mim não faz mais diferença. A verdade é que, aqui, ele não existe.

Quando entro em meu quarto, tudo está como quando eu ainda era viva. Roupas em todo lugar, meus sapatos vermelhos no canto da porta, bem onde eu os deixei na noite retrasada, depois de ter chegado da festa. Esses sapatos foram a primeira compra do meu primeiro emprego; tão antigos e tão bons. Quem vai calçá-los, depois de ontem?

Minha mãe sempre me dizia para não deixá-los espalhados por aí.

Mãe.

Meus lábios apertam-se. Ah, mãe, eu sinto muito. Eu sinto tanto... Você pode ficar com eles, se quiser. Me desculpe por essa bagunça. Por toda bagunça. Eu saí de casa e você me disse pra eu dar conta do recado, lembra? E olha só, ainda tem louça de quinta feira na pia. É que tudo é corrido, agora. Quase me falta tempo para respirar. Quero dizer, faltava. A festa, no sábado, foi o aniversário de um amigo, eu precisava ir. Mãe, será que você pode cantar uma canção pra mim? Não, não pode. Eu entendo.

Sinto meu corpo trêmulo, meu coração parece ser feito de chumbo, é pesado demais. É estranho. É como se eu ainda existisse.

Escuto a porta abrir, reconheceria o andar de longe.

— Acabei de entrar aqui. Consegui. – Pausa — O chaveiro veio.

A voz do meu pai soa abatida. Com ele, entram o chaveiro, minha tia e minha avó. Os rostos estão inchados, as duas mal falam-se uma com a outra, mas ambas têm um sincronismo quase perfeito. Meu pai senta-se no sofá e termina a ligação. Ele está estático e seus olhos estão cheios de lágrimas que não caem. Volto para o meu quarto e abro o guarda roupas, minha tia também está lá, mas é como se ela não pudesse ver o que faço. Pego um roupão e me cubro. Ela começa a escolher um entre os vestidos que estão pendurados, sei para o que eles vão servir: meu funeral. Gostaria de poder dizer a ela que pegasse o mais ridículo de todos e que deixasse os melhores para alguém que ainda possa ir ao cinema. Para alguém que ainda possa sorrir. Alguém que não saiba sobre mim.

Saio dali e ando no quintal. Há um carro estacionado e há alguém dentro, posso escutar o choro.

— Deus, me ajude. Deus, me ajude. – A voz da minha mãe está mais rouca do que nunca. — Deus... – Ela chora, e chora, e chora — Deus...

Mãe, por que está aqui? Você não deveria ter vindo. Vá pra casa, mãe. Vá descansar.

Tento enxugar as lágrimas que caem em seu rosto, mas ela não pode me sentir. Eu não estou aqui. Me afasto do carro e ela fecha o vidro da porta. Há vizinhos olhando.

Mãe, eu sei que as coisas complicaram-se, mas vão melhorar, eu prometo. Lembre-se dos bons momentos, deixe que eles te ancorem em um lugar onde você vai ficar em paz. Você pode fazer isso. Você me ensinou a não duvidar de mim, me ensinou a ser uma mulher, me ensinou a gostar de mim, me ensinou tantas coisas. Agora, você terá que aprender a lidar com a dor. Vai passar, mãe. Eu prometo que vai.

Sim, eu prometo. Mas o que eu sei sobre a vida, afinal?

Queria que ela me escutasse, queria ter voz, queria ter carne, pele e osso reais no mundo dela. Meus pés descalços começam a sentir o chão. Agora, eu sinto frio. Encosto o rosto no vidro do carro. Eu só queria tocá-la. Só queria poder ser criança, outra vez, e caber ali. O calor parte dos meus olhos. Não sabia que mortos tinham lágrimas, até que choro.

Depois de algum tempo, minha mãe resolve entrar. Minha tia está arrumando a cozinha e meu pai ainda continua sentado. Queria saber onde Caio está. Será que ele sabe sobre mim?

Minha mãe senta-se e abraça meu pai. Não vejo isso há anos, desde bem antes dele sair de casa, na verdade. Ambos nunca conheceram outras pessoas, mas nunca conseguiram se acertar debaixo do mesmo teto. Parece até um retrato antigo que guardei na gaveta: os dois, lado a lado, e eu, pequenina, nos braços. Todos sorríamos, mas foi há tanto tempo… Bem antes do Caio, bem antes dos gritos e das brigas. As mãos dos dois estão dadas e é por isso que eu sei que a dor é forte. Dói em mim também. Deito-me no colo deles, tentando reproduzir a cena antiga e tudo o que sinto é minha consciência desfazer-se aos poucos. Eu não quero ir, quero ficar mais um pouco.

Por favor, me deixe ficar.

Por um momento, imagino que as mãos da minha mãe estão acariciando meus cabelos. É o que ela também imagina.

Talvez o céu seja aqui. O paraíso corresponde ao sentimento de eternizar este instante. Mas talvez eu não tenha sido sentenciada ao céu.

Acho que nunca o mereci.