Intercambista
1 Capítulo 1 - Adeus Brasil
Notas iniciais
xoxo
Abro meus olhos estando ciente de que não dormi um minuto sequer. O despertador do celular toca mais alegre do que nunca a música “Girls Just Want to Have Fun” da Cyndi Lauper e eu começo a me arrumar, sentindo-me como naqueles filmes americanos, onde a garota descobre que seu pai na verdade é um super e rico rei. Mas toda minha alegria desce pelo ralo quando ouço as gargalhadas de minha mãe logo atrás de mim, na porta. Minha alegria era tanta que nem a vi pelo espelho.
-Mãe!
-Desculpa filhota, é impossível não rir sempre que percebo o monstro que criei. – Disse gargalhando, saindo corredor a fora.
Minha mãe era louquinha. Até temia deixá-la sozinha por um ano, mas existe uma necessidade gritante dentro de mim, capaz de me tirar de qualquer fossa: EUA! Sou obcecada por cada um dos 50 estados deste país e não vejo a hora de postar algumas fotos de quando estiver por lá no meu Facebook para que todas as invejosas da escola vejam. Não é sempre – ou melhor, nunca – que tenho algo para me exibir, então, não custa nada ter um gostinho de vitória pra variar.
Arrumada, com um casaco em cima do outro para poupar espaço na minha bagagem, pego minha malas que já estavam prontas e saio porta a fora. Encontro minha mãe colocando minhas comidas preferidas em cima da nossa pequena mesa redonda.
-Ah mãe, eu te amo por isso, sério, pode dormir tranqüila, porque depois de comer tudo isso, se o avião cair eu morrerei feliz.
-Não fala besteira, menina! Sabe que minha pressão anda meio desregulada ultimamente e que eu saiba, ainda quer uma mãe viva quando voltar.
-Claro, quem vai usar os importados daqui um ano? – Disse feliz da vida.
Talvez se meu pai existisse eu até poderia ir mais tranqüila, afinal, minha mãe teria companhia, mas o cachorro foi tão desgraçado que a abandonou assim que descobriu sua gravidez. Pobre mamãe, consegue sustentar uma casa sozinha. É claro que não tão sozinha, pois eu consigo dar uma mãozinha com meu emprego meia boca num barzinho que tem aqui perto. Trabalho lá desde os 13 e ganho o suficiente para ajudar minha mãe e juntar para o intercâmbio.
-Eu não to acreditando... Enfim meu sonho vai se realizar e eu vou andar de avião! Eu nunca andei de avião.
-Isso tudo é fruto de você mesma minha filha, pode falar com orgulho que foi você quem conquistou. E apesar de eu querer prolongar mais este momento, já são cinco horas e seu vôo sai às oito. Vamos, sim?
-Claro, claro, vamos lá. — Disse desesperada, tendo uma leve vontade de chorar. Após colocar os pés pra fora desde pequeno apartamento, só o veria de novo daqui um ano!
Nem mesmo as buzinas que começavam soar do lado de fora me tiraram do frenesi particular. Meu celular assoviou e li a mensagem de Clarissa, a única pessoa que se lembrava de mim todos os dias e a única que considerava amiga na escola:
“Boa sorte amigaaa, vou sentir saudade e se seu avião cair, me deixa ficar com aquele ursão do seu quarto? Hahah
Bjs”
Sorri com sua mensagem e respondi brevemente, pegando minhas malas e acompanhando minha mãe para fora do apartamento. O caminho foi tranqüilo, pegamos ruas mais almas, e por obra divina não ouve congestionamentos longos. Chegando no Aeroporto de Guarulhos, não consegui segurar a emoção e antes de fazer checkin, dei um super abraço na minha mãe e chorei à beça dizendo que a amava. Reneé deixaria saudades.
Bagagens despachadas, hora de esperar. Me localizei dentro daquele aeroporto e procurei pelo meu portão, facilitaria quando chamassem meu vôo.
Já no avião, não conseguia parar de imaginar tudo o que aconteceria nos EUA. Que legal, eu seria uma quase norte-americana por um ano! Não havia possibilidades de me conter. Paz, ar puro, tranqüilidade! Adeus buzinas infernais! Adeus vizinhas fofoqueiras! Adeus escola pública! Adeus e adeus e adeus!
Claro que haviam coisas que eu gostava no Brasil, como a comida da escola, por exemplo. Quase todos reclamam, mas eu gosto. Também sentiria falta da Clarice, da minha mãe, das nossas idas ao cinema. Inclusive do zoológico que eu achava maneiro.
Dormi sem perceber no avião era sempre assim. Uma comissária de bordo me chamava e eu olhei meio sem entender nada.
-A gente chegou? – Perguntei.
-Ainda não senhorita, desculpe por interromper seu sono, mas estamos quase lá e você precisa preencher esses dois formulários. – Olhei bem para aqueles dois formulários e fiquei confusa. Provavelmente percebendo isso, a mulher me informou – Este aqui – Apontou para o branco – ficará com você durante toda sua estadia, você não pode perdê-lo. Já este aqui – Apontou para o azulzinho – você entregará na imigração.
-Claro, claro. – Respondi, sem entender absolutamente nada, me arrependendo logo em seguida de não ter esclarecido minhas dúvidas.
Me sinto ferrada. Preciso da minha mãe para resolver isso pra mim!
(...)
Amém! Consegui. Enfim, deus! Que saco esse negócio de alfândega e imigração. Eu mais gaguejava do que falava e meu inglês saiu pior do que nunca, fora que me perdi neste aeroporto enorme. Mas consegui passar e com minhas malinhas procurava pela minha host family que de acordo com a agência, me esperaria no salão de desembarque. Mas cadê?
Meu sonho já se tornava pesadelo, até que vi um senhor de bigode escuro, com aparentemente 40 anos de idade segurando uma plaquinha, aonde estava escrito “Isabella – Brazil”. Era minha deixa! Meu coração ansioso se acelerou um pouco e eu fui até ele com um sorriso simpático. Agora colocaria meus cinco anos de curso de inglês em prova. Adeusinho português.
-Isabella? – Falou Charlie (a agência já me apresentara quem seria minha host family, eu só não havia feito contato ainda).
-Senhor LaBow?
-Sim, sim querida. Sea bienvenido!
Fiquei meio sem graça com aquilo. Ele estava falando em espanhol. Será que eu estava no país errado? Não, preferia a opção de que ele achava que eu falava espanhol ao invés de português, mesmo assim, resolvi agradecer em inglês.
-Obrigada senhor! – Falei contente, disfarçando minha vontade de chamá-lo de burro.
Charlie foi super simpático no trajeto até sua casa, que ficava em um ótimo e calmo bairro em Boston. Tudo era lindo, as árvores eram pequenas comparadas as do Brasil e a maior proteção que tinha uma casa eram cercas de madeira de tamanho médio. Aquele local era bem afastado do centro da cidade, aonde tudo era uma loucura.
Estava calor e em várias casas haviam crianças correndo com bexigas d’água e outras brincadeiras molhadas. Aquilo me fez sorrir e esquecer de tudo. Era um mundo completamente diferente.
-E então Bella, o que está achando? – Estranhei o apelido, mas soava melhor que Isabella.
-É tudo maravilhoso. Superou minhas expectativas.
-Ótimo. Fico feliz que tenha gostado do breve passeio. Durante sua estadia ainda vou te levar para vários lugares. Você vai adorar a neve.
Meus olhos brilharam com aquilo. Neve! Oh sim, neve! Quem diria.
Assim que paramos de frente a sua casa meu queixo caiu. Era enorme! Como assim?! Na frente se destacava um imenso jardim verdinho, com a grama bem aparada e repleta de flores nos cantinhos da casa, inclusive em cada lado da entrada. Uma trilha de concreto levava você da calçada até três degraus que davam numa pequena varanda para então chegar à porta do imenso sobrado branco. Outra coisa que me chamou a atenção foi uma bandeira dos EUA pendurada na parede, próxima a uma janela. Várias casas tinham aquilo. Estava me corroendo de vontade de entrar lá dentro.
-Filha, antes de entrar, preciso te lembrar que Emmett não é meu filho verdadeiro, ele é adotado. Achei melhor falar, assim te livro de entrar em alguma situação constrangedora.
-Claro, senhor, eu me lembro, obrigado.
Por que ele veio me contar isso? Situação constrangedora? Pela foto que a agência me mandou, o tal de Emmett é um garotinho de, sei lá, onze anos? Isso não me assusta, talvez eu até ganho uma grana extra trabalhando de babá.
Ele abriu a porta e a casa de filme apareceu. Um piano, uma mesa de jantar enorme mais a frente, perto da cozinha, sofá confortável, TV de tela plana e uma escada de madeira que combinava com todo o branco da casa.
-Isabella! – Falou uma voz feminina. Olhei para uma portinha ao lado, de onde Sue saia. Ali era, provavelmente, a lavanderia pelo barulho de máquinas.
-Senhora LaBow!
-Pode me chamar de Sue, querida.
-Sim, tudo bem. Obrigada por estar me recebendo aqui.
-Não é nada. É sempre bom ter uma presença feminina nesta casa. A propósito, Emmett saiu com uns amigos. E seu inglês é ótimo.
-Obrigada.
Após um tour pela casa gigante com direito a piscina, me encaminharam para meu quarto. Achei que ia ficar no sótão como em quase todos os diários de intercâmbio que vi, mas na verdade fiquei em um quarto lindo, enorme, ao lado do de Emmett. Gostei daquilo. Seria bom viver como parte da família. Após uma soneca de aproximadamente quatro horas, bateram na minha porta.
-Bella? – Disse Charlie.
-Sim?
-Sei que está cansada, mas é agosto e amanhã será o primeiro dia de aula tanto para você quanto para todos. Seu último ano.
-Oh claro.
-A agência me informou quais seriam as matérias de sua preferência e eu consegui todas. Trigonometria, biologia, futebol, inglês, história mundial, francês e teatro. Ali naquele canto estão os materiais necessários. Todos os dias vamos lhe dar dinheiro para comprar seu almoço, os horários você pega amanhã e como a escola não é tão longe daqui, pode ir com Emmett se quiser.
-Mas senhor, eu...
-Sem conversa. Está tudo decidido. Vamos te tratar como uma filha aqui dentro e você sabe que pode contar conosco para o que quiser, não sabe?
-Sei, mas por favor, não quero causar má impressão.
-Causará se não aceitar que a partir de agora faz parte da família.
-Sendo assim, tudo bem. Sei que é meio tarde, mas o senhor se incomodaria se eu fosse até a Wellesley High School? Quero ver como é a escola, assim eu não me perderei amanhã.
-Me chame de Charlie, querida. Pode ir se quiser, mas prefiro que não vá sozinha. Você não conhece essas bandas, acabou de chegar. Sue pode te acompanhar.
Assenti e falei obrigada. Argh, odiava bancar a boazinha. Eu não sou mal educada nem nada disso, mas formalidade demais é um porre. Mas calma, com o tempo tudo vai se acalmar e eu serei eu mesma.
Mesmo estando cansada das sete horas dentro de um avião – e na classe econômica -, fazia questão de ir até minha escola para conhecer tudo. Não era nem pelo fato de que tinha medo de me perder amanhã, era por ansiedade mesmo.
Sue, simpática como sempre, me levou até a gigantesca escola estilo High School Musical. Quando ia descer do carro, seu telefone tocou e ela atendeu.
-Sim?... Claro, mas... Como assim? O que ele pode ter feito de tão grave?... Edward conseguiu fugir?... Mas e Emmett?... Detido?!...Estou indo agora mesmo, obrigado senhor Cullen. – Sue fechou os olhos em pleno desgosto e encostou-se ao banco. Quando me olhou novamente parecia magoada e prestes a chorar. – Bella, posso te deixar aqui? Preciso resolver uns assuntos, quando quiser ir me ligue, sim?
-Claro. Obrigada pela carona e independentemente de qual seja o problema, tudo ficará bem.
Sue assentiu e eu saí do carro. Pelo jeito o filho dela deve ter entrado numa fria. Não sabia que até menininhos eram detidos por aqui, mas bem, pelo jeito, eram sim. Caminhei para a entrada da escola e quando estava prestes a entrar, um policial veio apitando. Congelei e ele disse um negócio rápido demais e eu não entendi nada. Após repetir umas três vezes, eu enfim compreendi.
-Não pode entrar ai mocinha. A escola não abre mais hoje, estamos preservando tudo para amanhã, desculpe.
-Mas...
-Não existe “mas”. – Disse rabugento e autoritário.
Não pedi desculpas. Aquele cara não merece educação, mas sim um belo tapa na cara. Apalpei meus bolsos em busca do meu telefone para ligar para Sue, até que lembrei: Não tenho telefone aqui, muito menos o número de Sue. Droga, a pobrezinha estava tão desesperada que nem disso lembrou. Como sempre tive a melhor das memórias, não teria problemas em voltar para casa. Provavelmente seria uns vinte e cinco minutos de caminhada.
Quando virava a esquina, vi as costas de um homem esbelto entrando por uma porta pequena na lateral da escola. Ele não parecia fazer parte de nada ali, já que usava uma jaqueta de couro, jeans desbotada e cabelos bagunçados. Parecia mais um jovem rebelde. Dei uma olhadinha para o policial e vi que o mesmo estava distraído mexendo no celular.
Curiosa e ansiosa para ver a escola, segui os mesmos passos do garoto que vi a pouco. Abri a porta e dei de cara com alguns degraus que faziam caracol. Confusa, os subi sem fazer ruídos, até conseguir tropeçar nos próprios pés e só não rolei escadaria a baixo, porque segurava o corrimão.
Perdi as contas de quantos degraus subi, mas quando dei por mim, estava em um corredor amplo, cheio de armários, portas e cartazes do time da escola.
-Uau! Isso é demais! – Falei em português.
-Falando línguas estranhas? – Falou uma voz rouca, logo atrás de mim.
Merda! Fui pega! Me virei aos poucos e vi o cara mais gostoso de todos os tempos. Era o mesmo que entrou aqui a pouco, mas posso afirmar que de frente sua beleza é ainda maior do que de costas. Segurava um cigarro e um taco na mesma mão.
-E-e-eu... eu só. Desculpa, eu...
-Você é nova aqui, certo? Nunca te vi. Fiquei aqui esperando que quem estivesse me seguindo fosse um cara no qual poderia dar uma surra, mas me surpreendi quando uma frágil garota passou por mim.
-Eu não estava te seguindo. Só percorri o mesmo caminho que você. – Falei nervosa, sentindo minhas bochechas queimarem.
-É o que todas dizem e se quer saber, ainda bem que não estava me seguindo, porque você não é boa nisso. Não consegue nem controlar esses seus pés barulhentos. Mas em compensação... – Disse, dando um trago no cigarro e me olhando de cima à baixo — até que é gostosinha, embora esteja afetada por mim e com olheiras.
O que há de errado com os americanos? Por estar no território deles, precisei conter minha vontade de pular no pescoço daquele cafajeste e preservar meus tapas, dando-lhe socos de uma vez. “Espera eu me enturmar que você vai ver quem vai ter olheiras, seu safado”. Minha raiva era tanta, que passei por ele tocando nossos ombros com certo ódio e em português, o xinguei:
-Vai pro inferno, seu monte de esterco!
A porta bateu atrás de mim e ao longe pude ouvir suas gargalhadas. Sim, eu queria chorar, eu precisava chorar, mas quando cheguei do lado de fora para fazer isso, o maldito policial me pegou.
-Você está muito encrencada mocinha.
Ah não, mas eu mal cheguei!
Notas finais
Spoiler: Capítulo 2 - Irmãos
Nem percebi, que estava andando sem rumo este tempo todo. Me sentei em uma calçada em baixo de uma árvore enquanto o sol desaparecia aos poucos. Não conseguia parar de chorar. Quaisquer líquidos que eu tinha dentro do corpo se foram pelos olhos. Acabei me assustando quando uma mão pesada pousou em meu ombro.
XOXO
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