Interativa - O Décimo Reino
12 XII - Como as Coisas Terminam
Notas iniciais
— Rápido, por aqui! – Aurea corria e sussurrava para Evan ao seu lado, os dois estavam no que poderia ser um alto prédio. O corredor estava escuro, com algumas portas escancaradas e um sinal de “F29” na placa ao lado de um elevador quebrado. Haviam escadas nas duas extremidades do corredor, uma levando para cima e outra para baixo. As portas de marfim marrom oito condomínios estavam bem marcadas com cortes e outras marcas de impacto.
— Estou indo... – Evan estava ofegante, respirando com uma certa dificuldade, mas estranhamente parecia que a garota estava com bem mais dificuldade de respirar que ele.
O som metálico de um Scrael batendo suas patas surgiu fazendo os dois voltarem a correr pelas escadas, subindo para o próximo andar, que era desconcertantemente igual ao anterior, exceto pela placa que agora indicava “F30”.
Aurea levou a mão ao peito, não estava conseguindo mais respirar agora, sua boca estava bem aberta enquanto ela procurava engolir a maior quantia de ar que seu corpo permitisse.
* * *
Tudo isso havia começado pela chegada deles na “mina” de Orichulum que estava soterrada. Aurea havia rapidamente tentado contornar a área e encontrar uma saída do local mas Gilliam informou que não havia mais nenhum caminho para entrar, isso significava que não havia nada que pudessem fazer, as pessoas estavam perdidas, segundo a análise que ela mesmo fez estariam perdidas de qualquer forma já que aquilo havia acontecido a quase uma semana. Pedro reclamou do tempo perdido para ir até ali e disse que se soubesse disso nem teria aceitado vir, Aurea replicou que se eles soubessem nem precisariam ter vindo. Gilliam pediu silencio aos dois, mas nenhum obedeceu. Iniciaram uma discussão com direito a gritos e olhares de raiva, Gilliam gritou para ficarem quietos, mas não foi ouvido.
Quando Gilliam finalmente teve gritar alto o suficiente para ser ouvido por metade da cidade, quatro Scraels abriam caminho pelas pedras que soterraram a mina. Daniel desapareceu como uma gota de agua caindo sobre um rio, ninguém era doido de ficar parado em frente a quatro Scraels. E todos sabiam disso. Pedro conjurou uma barreira em segundos, impedindo o avanço dos monstros e correu também, acompanhado por Gilliam, Evan e Aurea.
O alvo dos três era a estrada, mas alguma coisa estava no caminho. Uma barreira de energia negra. Eles puderam sentir o impacto da força os jogando para trás. Gilliam olhou para a energia que se fez visível com o choque e rapidamente percebeu que haviam sido presos enquanto os jovens apenas olhavam confusos para frente. Ele mal teve tempo de explicar além de um “estamos presos!”. Ainda no calor do momento, a barreira de Pedro se partiu, dando a passagem as criaturas.
A partir daí as coisas estavam completamente ferradas. Gilliam sabia que não poderia conjurar nenhuma magia poderosa o suficiente para os libertar, não tão rápido. E nunca conseguiriam lutar contra quatro daqueles demônios.
Aurea e Pedro tentaram se acalmar, mas aquele dia não estava deixando os dois se manterem no controle de suas emoções. Não mesmo, já que Aurea havia corrido para a direita em direção a um prédio abandonado e Pedro para a direção contraria rumo a um beco nas ruas escuras da cidade. Gilliam correu com Pedro sem mal olhar para Aurea, mas ao ver que Evan não estava ao seu lado parou. Estava prestes a mudar de direção ao ver o garoto correndo com Aurea mas dois Scraels já estavam em seu caminho, enquanto os outros perseguiam Aurea e Evan.
* * *
Pedro correu o mais rápido que podia, não estava sendo egoísta ao não se importar com quem estava deixando para trás, pois ficar para trás apenas significaria morrer com a pessoa. Por isso correu sem olhar para trás enquanto o som das patas do monstro o seguia, graças a adrenalina que corria por seu corpo podia ouvir até seus acelerados batimentos.
Continuou correndo até entrar no beco, que provavelmente tinha um muro, saltou sobre ele sabendo que aquilo não atrasaria o Scrael. Parecia estar no que seria um antigo bairro pobre, com as casas baixas e mal construídas, agora já destruídas pela ação do tempo. As ruas eram estreitas e estavam cheias de lixo, animais mortos ou coisas assim. Muitas partes do chão de paralelepípedos estavam manchadas, provavelmente era sangue velho, já que na maioria alguns ossos as acompanhavam. Nesse instante o jovem se decidiu que não se juntaria aquilo de jeito algum.
— Seu idiota, para dentro da casa! – Um grito feroz e reconhecível fez Pedro retornar um pouco para o ambiente real em que estava. Era Gilliam falando algo obvio, que haviam estudado na academia antes de sair para as ruas. Como eu pude esquecer isso? Pedro se puniu mentalmente por não ter pensado melhor, se tivesse tempo para analisar a situação como nos exercícios teria ido com Aurea. Pelo menos Gilliam estava por perto, e isso diminuiu um pouco a tensão dele. Correu para o canto da rua, pulando a cerca de uma casa qualquer, agora podia ouvir os passos pesados do homem atrás dele.
Ambos entraram na casa sem olhar para trás, as patas dos monstros continuavam batendo, agora mais distantes.
— Luz envolva este local e nos proteja do que nos espera lá fora. – Pedro levantou seu braço e seus dedos foram envoltos no fraco brilho da magia Branca, que se espalhou pela casa lentamente.
* * *
— O que está acontecendo? Temos que correr! Vamos! – Evan continuava tentando puxar Aurea, mas era incrivelmente mais fraco que ela, e se sentia muito mais fraco graças ao esforço que fizeram até agora. Suas duas mãos envolviam o braço da garota e faziam esforço na tentativa de a levantar, já que estava sentada no chão escorada na parede. Os Scraels estavam subindo as escadas.
— Vai logo, anda... – A voz de Aurea estava alterada, falava com muita dificuldade. Ao puxar ar sua respiração fazia um chiado estranho.
— Maldito dia em que eu escolhi fazer magia Negra e não Branca... O que você tem? Vamos, temos que ir! – Evan puxava incessantemente a garota, mas nem um resultado se mostrou em seu ato.
Aurea fechou os olhos. Era ridículo morrer ali, tão... tão sem sentido. Havia lutado para sobreviver, para chegar até onde estavam e tudo acabaria assim?
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