Intempestiva
5 Capítulo 5. Ela não era tão corajosa
Notas iniciais
O trabalho no supermercado se tornou extremamente interessante. Eu gostava de circular pelos corredores lotados, de ver os funcionários exercendo suas funções e de entender toda a logística de compra e venda. Ser proativo era um dos meus principais objetivos.
O clima na faculdade ficou estranho quando Daniela repentinamente demonstrou interesse pelo Louco, apesar de continuar me observando daquele jeito de soslaio. Eu já via o caso como perdido. Ela era uma pessoa peculiar demais. A paciência para lidar com mulheres complicadas não estava em mim.
Ela fazia jus àquela música complicada e perfeitinha, sem a parte que a gente se envolvia. Daniela só tinha uma palavra para me dizer: “não.”.
Por esse motivo eu deixei-a de mão e aceitei o que nos sobrou: a amizade e a parceria em sala de aula.
Mas naquele dia as coisas ocorreram de forma diferente. É claro que eu já estava acostumado com o jeito da Daniela, porém não com aquela nova mudança de comportamento. Ela me encarava como se eu tivesse cometido um crime e escondido as provas. Aquele olhar acusatório me desafia como se quisesse me dizer algo. A audácia estava lá, a intenção também, só faltava a coragem de dizer o que a incomodava tanto. Mas a complicada Daniela não era tão corajosa como eu havia pensado.
Caio estava menos carrancudo depois que teve a chance de sair com a Daniela. Logo, logo eles iram assumir seja o que fosse o envolvimento deles. Eu não estava frustrado por ele ter conseguido o que eu não conseguia. Existem histórias que não deveriam ser vividas e no fim sempre existia uma razão para não acontecer. Algumas vezes nós descobrimos o motivo, outras vezes não.
Como me faltava tempo disponível para ir a barzinhos, baladas e até mesmo nas confraternizações entre amigos, fiquei longe durante meses. O trio se acostumou com as minhas negativas.
O trio estava mais unido do que nunca e eu passei a ser um mero telespectador. Erissa foi a única que não mudou comigo. Daniela continuou seguindo daquele jeito peculiar.
Iniciei a minha pesquisa sobre temas que poderiam ser abordados no meu Trabalho de Conclusão de Curso com cautela. Não poderia ser qualquer um, tinha que ter ligação com o que eu escolhia para atuar.
Celeste estranhou a minha determinação, mas também ficou feliz e orgulhosa.
— Alguma sugestão? Perguntou.
— Temas que envolvem o cuidado com o meio ambiente são interessantes.
Celeste estava conectada a praticamente tudo que envolvia o meio ambiente. Ela pretendia cursar engenharia ambiental.
Celeste era uma moça de cabelos escuros, pele bronzeada, fisicamente ela se parecia com a nossa mãe, mas os olhos escuros foram herança do nosso pai. Ela tinha um jeito moleca que deveria ser por causa da idade. Houve uma fase em que ela ficou revoltada comigo pelo simples fato de eu ter nascido com os olhos azuis. Eu simplesmente ria da sua revolta, já que não tinha muita coisa que eu podia fazer a respeito, a não ser dar a ela um kit de lente de contatos.
Celeste ficou irritada, no entanto, ao pensar melhor, ela gostou do presente. A minha irmã só tinha 10 anos, enquanto eu tinha 15. Hoje ela estava com 14 anos e já entendia que no meu caso o gene hereditário da Teresa era mais forte.
Na maioria das vezes nós nos dávamos bem, a não ser nos casos em que ela intensificava o seu lado intrometida.
Nas provas finais e antes do TCC, o que eu já sabia finalmente aconteceu: Caio e Daniela iniciaram um namoro. Ele se mostrou mais feliz do que uma pessoa que ganhou na Mega Sena. Com toda a sinceridade, eu torcia pelo namoro deles.
O tema da minha defesa foi o desenvolvimento empresarial sustentável na adoção das boas práticas que estivessem alinhadas aos seus propósitos e valores, ao assumir a responsabilidade pelo impacto ambiental, demonstrando a importância de integrar o desenvolvimento do negócio com ações relacionadas ao conceito de sustentabilidade.
Depois de me formar, eu continuo a trabalhar na gestão de uma das redes do supermercado da família. O meu pai me deu uma promoção no supermercado e eu virei gerente. Será que era mérito? Talvez seja uma junção do meu esforço e comprometimento como funcionário de uma patente menor e o lugar de privilégio que eu ocupava por ser o filho do chefe.
Eu me esforcei para exercer o meu trabalho da melhor forma possível, e apesar de não ser um dos meus pontos fortes. Eu valorizava as construções de uma relação interpessoal, no planejamento, controle e organização das rotinas dos comércios varejistas, na gestão de estoque, arrumação de mercadorias e programação de compras da nossa rede de supermercado.
Livre da faculdade e com apenas 21 anos, eu só queria me divertir no meu momento de distração pós TCC. Perto do aniversário da minha irmã Celeste, a casa dos Torresland estava fora do prumo. A calmaria deu lugar ao agito devido aos preparativos. A minha mãe contratou uma nova organizadora de eventos para dar conta de tantos detalhes propostos por ela mesma. Ela até me intimou a contratar um DJ para a ocasião. Eu chamei o meu amigo Caio que havia tocado na minha última festa.
Com fome, eu me dirigia à cozinha, mas na metade dos degraus eu me deparei com a parte de trás de uma cabeleira ruiva. A minha mãe recebia visitas...
Sem querer ser visto pelas duas, eu voltei para o quarto e quase tropecei em Celeste que segurava um urso de pelúcia rosa. Ela me olhou curiosa.
— Você está fugindo de quem, Gustavo?
Até parece. Eu cruzei os braços.
— Para o seu governo, eu não fujo nunca.
— Sei. Ela mantinha as maçãs do rosto apertadas, nitidamente continha o riso.
Eu olhei-a de uma maneira também divertida ao levantar as mãos de um jeito sugestivo. Inicialmente Celeste me fitou sem entender, mas quando se deu conta ela correu. Eu a seguia de perto sem dar uma chance de fuga e a encurralei na sala de TV perto da escadaria. Eu pego-a pelos braços e inicio uma tortura de cócegas. O riso convulsivo atravessou sua garganta. O urso foi temporariamente esquecido aos seus pés.
— Para Gustavo! Para! Ela pediu entre risos. Ficando agoniada.
Eu fiquei com pena e decidi parar de torturá-la com cócegas.
— Você é do mal.
Eu sorrio jocoso.
— Você está falando da boca para fora.
Eu baguncei os seus cabelos escuros. Ela se afastou dos meus toques e se inclinou para pegar o ursinho rosa.
Celeste amava ursos de pelúcias. Ela tinha vários deles espalhados no seu quarto e possuía ciúmes de todos.
— Você é tão divertido.
— Obrigado. Senhorita, eu estou curioso para saber onde você vai com essa coisa feia e rosa?
Ela me olhou feio.
— Ele não é feio, é lindo. Ela apertou o urso carinhosamente. — Vou dá-lo a uma garotinha linda que está lá embaixo. Você ainda não a viu?
— Não.
Celeste deveria ter gostado mesmo da criança para querer dar um dos seus queridinhos.
— De quem é a monstrinha?
— Ah! Gustavo, coitada da criança. Eu fico pensando se você vai chamar seus filhos assim.
Eu estremeci.
Essa questão iria ficar só nos pensamentos dela, pois eu não seria progenitor de nenhuma criança. Eu não cuidava nem de mim, quanto mais de alguém dependente.
— Eu vou lá entregar o presente para aquela bonequinha. Ela virou em minha direção para dizer. — Não quer ir comigo?
— Passo a vez.
Ela deu de ombros e saiu murmurando sobre o dia em que eu tive meus filhos. Celeste amava crianças e eu a entendia, mas por que teria que ser os meus filhos? Não poderia ser ela? Claro que na idade e tempo certo eles chegariam para quem os quisesse.
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