Instrumento Tempestuoso.
6 2ª pt: Encontrada.
Notas iniciais
Oi, gente! Prometi que viria aqui postar hoje e vim! Estou morrendo de sono, mas compromisso é compromisso e ainda é antes de meia noite. Este capítulo ficou bem grandinho.
Trilha Sonora:
Radioactive - Imagine Dragons
Only if for a Night - Florence
Dog Days Are Over - Florence
Beijinhos ♥
Trilha Sonora:
Radioactive - Imagine Dragons
Only if for a Night - Florence
Dog Days Are Over - Florence
Beijinhos ♥
O dia estava ligeiramente quente quando sai pela porta do apartamento antigo do centro de Manhattan. Decidi não avisar a ninguém que sairia e me arrumei rapidamente, tomando um café em seguida. Despertei tão bem e ansiosa que nem me reconheci diante do espelho. Semicerrei os olhos, enquanto me acostumava com a luminosidade externa.
Eu estava aflita, minha respiração estava momentaneamente descompassada. Enquanto eu aguardava que algum Sombrio surgisse de algum canto esquisito. Meu queixo despencou quando uma moto negra e com brilho intenso estacionou diante de mim. Os músculos do rapaz eram bem desenhados sob a camiseta de mangas longas e negras. O capacete cobria seu rosto por inteiro e uma Levi’s jeans cobria suas pernas compridas e musculosas, altas. Um coturno terminava toda a pose de menino mau. Ele puxou um capacete de um antebraço e vi – de relance – o dragão enrolando-se em seu antebraço, seu brilho intenso chegou aos meus olhos. — Nora? – Ele indagara.Que voz mais linda... mas não era a mesma voz. Ela estava mais grossa agora, adornada por um leve acariciar de língua e um tom irônico. — Bem na hora, suba na moto, Anjo. – Ele pediu, ao longe. Desci a remessa de escadas, mas parei, ao notar o apelido muito próximo. — Você me... — Você tem a aparência de um. – Um riso rouco saiu com a voz sexy abafada. Minha nossa. — Suba logo, antes que eu desça daqui e lhe coloque na moto, agora mesmo. Fiquei estática, minha respiração se descompassou e dei passos vacilantes adiante, ele estendeu o capacete diante do meu torso e me estiquei para pega-lo. Nossos dedos se roçaram e o ar ao meu redor pareceu faltar. Meus pés pareceram flutuar, mas eu só senti o calor das pontas dos seus dedos... como essa sensação poderia vir a acontecer? Ele afastou a mão rapidamente e ligou a moto com impaciência. O momento se dispersara no tempo e coloquei o capacete sobre os cabelos pesados. Sempre gostara de moto e me apoiei com as mãos nas alças na parte lateral do assento. A moto saiu rasgando, me desequilibrando e afastando meus punhos do assento, jogando-os para frente, abraçando a cintura do rapaz, olhei pelo retrovisor e seus olhos negros pareceram me acariciar internamente. “Assim está bem melhor.” Uma voz disse em meus pensamentos. Tudo bem. Tudo bem. Todos sabiam que os Sombrios eram sobrenaturais e tudo o mais, mas, aquela voz, dentro da minha cabeça, não era algo normal. Mas não estávamos em uma situação muito agradável para discutir o assunto. Deslizar pelo asfalto era tão reconfortante que continuei a encara-lo durante todo o trajeto. Seus olhos não desgrudavam da pista, e os músculos de seu abdômen me instigavam para mais perto. Tudo nele transbordava maldade e me transmitia certo receio. Estar com ele, mesmo sabendo que o rapaz da adorável voz o mandara, me deixava insegura, mas tudo aquilo era por Vee. Para encontra-la o mais rápido possível. O calor de seu corpo me relaxou e um cheiro forte entrou por minhas narinas. Um cheiro de limpo e de pele lavada. Loção de barba e cheiro próprio... cheiro de menta. Um cheiro adocicado que me derretia ao seu redor. Começamos a passar por locais mais afastados da cidade, chegando a áreas bem mais calmas, passando das áreas residenciais. Passamos por tantos locais que era difícil gravar o caminho, na verdade, era mais como se o motorista daquela motocicleta estivesse dispersando em círculos para confundir minha mente, mas ele obtinha muitos artifícios para perder tempo fazendo aquilo. O rapaz parou a moto no meio fio daquela parte afastada da estrada. Não havia nada ao redor a não ser uma área verde de grama e natureza. Desci da moto e ele desceu em seguida, experiente. Desafivelando seu capacete e pendurando-o no guidom da moto. Meus dedos se enrolaram, sem saber mais como pressionar aquele maldito botão para tirar aquele capacete quente de cima da minha cabeça. Tudo aquilo tinha vários motivos. Sua pele. Seu rosto. Sua boca. Suas maçãs da face. E principalmente aqueles olhos de um negro intenso, até o céu noturno sem estrelas ficava no chinelo perto daqueles olhos. Uma imagem fugida me cegou por poucos instantes, mostrando-nos em uma cama, eu em seu colo, enquanto admirava aqueles mesmos olhos, mesmo com a noite lá fora. — Com dificuldades, Anjo? – Ele indagou. Aquele apelido de merda de novo. Era ou não um apelido de merda? Então, se era, porque minhas pernas se chacoalharam com a proximidade? Porque meu queixo tremeu quando ele, com dedos ágeis e repletos de calos secos, retirou os meus com imensa delicadeza e simplesmente encontrou o botão, libertando-me do capacete? Ele era pelo menos quinze centímetros mais alto que eu. Aquilo era bom, eu me sentia ainda mais feminina. Seu peitoral era alto, demonstrando seu corpo esbelto. Seus fios eram ligeiramente louros, como se pudessem se alterar em tom a qualquer momento. As pontas deles quase roçavam as sobrancelhas de mesmo tom, misturando-se. Seus cílios colocaria inveja em qualquer garota que passava inúmeros minutos alongando e enrolando os seus, enquanto eles eram curvilíneos perfeitos. Seus lábios estavam úmidos e entreabertos em um sorriso de canto sexy. Dentes retos e brancos sorriram para meu rosto.
— Prontinho. Simples assim, um clique e ele solta. – Seu tom saiu irônico, enquanto ele guardava o capacete que eu usara ao lado do seu, no guidom da moto. — Eu sei como se abre. – Disse entredentes, cruzando os braços sob os seios. Ele começou a caminhar sem olhar para trás. O segui pelo caminho de cascalhos, olhando ao redor. Olhando a paisagem e fingindo não ver aqueles brilhos fugidos que surgiam aqui e ali... Uma mão tomou meu pescoço. Meu ar faltou e meus pés rastejaram o chão, chutando o ar. Meus dedos institivamente fecharam-se em torno do braço de quem atacava, tentando me libertar.Rapaz, olhe para trás! Eu queria gritar e chamar aquele dono de olhos negros brilhantes. Ele se virou. Calmo, mas ameaçador. — Solte-a. – Seus dentes estavam cerrados. Em dois passos de suas longas pernas, ele estava diante de mim, mas sem me olhar nos olhos. Ele olhava sobre meu ombro direito, provavelmente onde os olhos de quem atacava estava. Uma risada seca furou meus tímpanos. — O que fazem por estas redondezas, Patch? Um Sombrio na ala dos Divinos? Isso realmente me abala, um pouco. O antebraço se apertou no centro da minha garganta. Prensei os olhos e meus pés se ergueram do chão, pela altura do homem que me segurava. — Eu mandei soltar. Você conhece as consequências, Roland. — Me chamando pelo nome? Isso é galanteador. – Roland soltou uma risada de deboche. Aquele som arrepiou todos os meus pelos e eu sabia que de bondade, ele não deveria ter nada. — Está partindo pelo lado mais difícil. Responda, então, o que quer com ela? – Patch indagou, notei que seus ombros estavam tensos e sua mandíbula estava travada. O ar ainda me faltava, e meus pulmões ardiam pela falta quase que completa de ar. Minha visão estava momentaneamente abalada e sentia minhas pernas inchadas, por estas estarem penduradas. — Sinto o cheiro do Instrumento nela. – Roland disse, afundando seu nariz no meu pescoço e sugando o ar. Me reprimi, sentindo um pouco de nojo pela grande proximidade de seu abdômen em minhas costas, me pressionando para mais e mais perto. As sobrancelhas de Patch se uniram e ele estava ainda mais próximo. Sentia sua respiração batendo em minha testa e aquela era minha válvula de escape para a situação. Me afoguei em seu cheiro, fechando os olhos.“Fique calma.” Algo me sussurrou. Eu ainda precisava saber o que era aquilo, mas novamente não me encontrava em situação apropriada para um equacionamento de dúvidas. — Explique-se. Nada de joguinhos para cima de mim, Roland. – Patch disse, seus lábios quase não se moviam. Olhos rudes voltados para o rapaz atrás de mim. Este, soltou uma gargalhada momentaneamente balançada. — Rixon me enviou aqui. Sentimos o cheiro daquela loura de olhos azuis. Você deve se lembrar da criança que todos já viram. Sentimos o cheiro daquela criança, nesta garota. – Ele informou. Patch pareceu acreditar, seus olhos abaixaram-se e me fitaram. Subiram novamente e naquele momento eu sabia que ele não teria piedade. Eu senti. Senti que ele faria o que fez. Senti em minhas veias, percorrendo no meu sangue, pulsando em meu coração, por isso fechei os olhos, incapaz de testemunhar a cena que se seguiria. Mas eu escutei. Alto. Claro. Atentamente o soco que foi desferido no rosto do rapaz que me soltou em seguida. Cai de joelhos, me protegendo com os braços em torno da cabeça. Rosto o mais próximo possível das pernas. Patch passou por mim, indo atrás do rapaz. Outro som de carne contra carne. Forte. Alto. Chocando alto em meus tímpanos. — Nunca mais ouse em fazer o que fez hoje. – A voz de Patch saiu abafada, e me virei lentamente para ver a cena. Sabia que estava feia naquele momento. Olhos inchados pelo choro reprimido. Pernas e short sujos pela poeira abaixo de mim, mas fiquei sentada com o coração martelando no peito, pedindo paz. Patch levantou Roland pelo colarinho da camisa. O rapaz negro esbugalhou os olhos pretos, mas não tanto quanto os de Patch. Seus dreadlocks chacoalharam um pouco com o movimento e sem nenhuma palavra, Patch o soltou no chão. Roland saiu cambaleando pela viela, em direção ao matagal que se estendia em todas as direções. Fiquei confusa, sem entender o que se passara naquela intensa troca de olhares, e fiquei confusa pelo caimento dos ombros de Roland, que parecia mal quando me prendeu em seus braços, mas tão dócil quando saiu andando para outra direção. O que ele era? Me indaguei. Patch estendeu sua mão máscula diante do meu rosto. Continuei lá, abalada demais para me mover. Não entendi nada que fora dito naquela conversa... e aquela sensação provocada por esse Patch era tão estranha, que me levava a loucura de prever seus mais simples movimentos, principalmente pelo momento de tensão que passamos juntos. Me assustei quando Patch desceu seus dedos quentes por meus braços e me ergueu de forma abrupta, certificando-se que eu estivesse em pé; bem diante de seu torso. — Vamos. Ainda temos que andar mais um pouco. – Sua voz saiu rouca, enquanto seu braço se estendia e se enrolava em minha cintura. Seus dedos apertando a pele de minha barriga. Me apoiei contra ele, deixando que ele me conduzisse dentre aquela estrada de terra seca. Suspirei. – O que ele era? Seu toque era tão confortável. Quente. E senti seu peito tremer quando ele respondeu: — Eu não poderia estar contando. Mas não sou injusto. E isso seria tremendamente injusto com você. – Meu coração afundou um pouquinho, e deixei que um sorriso escapasse de meus lábios. – Não se anime muito. Só essa pergunta por enquanto. Fiquei quieta, engolindo em seco, me espantando com a súbita troca de personalidades. — Enfim. – Ele suspirou, recomeçando. – Roland mencionou Rixon. Vamos ter de começar do início, então. Você nem era nascida nesse início. – Ele murmurou o final para si mesmo. – Rixon fora escolhido pelo lado Divino, mas ele não aceitou e seu corpo também não passou pelo necessário. Propuseram que ele tentasse com o Lado Sombrio, o mesmo ocorreu e então ele se revoltou contra todos nós, tornando-se a Primeira Alma Renegada. Depois disso ele vem arrastando muitos para o seu lado e não podemos fazer nada para impedir. Roland é um de seus companheiros, mas existem Imortais que dizem que ele pode oscilar. Sua voz ficou melancólica ao final da frase, mas apenas um resquício que passaria despercebido por outra pessoa. Então existiam mais que Sombrios e Divinos. Pelo o que eu ouvia, os Renegados não tinham nada de bondade ou piedade com o próximo. Eles só queriam cada vez mais novatos revoltados para integrarem seu exército. Pude notar pelos movimentos certeiros do braço de Roland em meu pescoço, que eles não emitiam respeito, e nem mesmo bondade por pessoas do sexo feminino, minha garganta ainda ardia, recuperando o ar aos poucos. Me apoiei em seu corpo, enquanto uma luz se irradiava no fim daquela pequena e estreita estrada. Olhei mais adiante, procurando, mas a luz era forte demais e meus olhos arderam. “Não force...” Aquela voz de novo. Eu tinha de falar agora. Não havia nada para impedir. — Ér... Patch, não é? – Me certifiquei, engolindo em seco com a pronúncia do nome. — Exato, Nora. – Ele concordou, sua voz grave e sexy. Acariciando meu nome. — Que voz é essa na minha cabeça? – Indaguei, olhando agora para meus pés, enquanto meus olhos relaxavam da leve ardência recém-provocada. “Qual voz?” Ali! De novo! — É sua voz. – Eu disse, parando abruptamente e me virando. Um frio abateu em minha cintura, quando seu braço protetor me soltou. “Não me diga.” Lá estava ela novamente. Levemente embargada, mas era a voz dele. Em minha mente, pois ele não moveu os lábios quando disse aquilo. Fiquei sem ar. Não só pela voz presa em meus pensamentos, mas também pelo formato do seu rosto e pela cor negra dos seus olhos. — Venha. Estamos quase lá. – Ele disse, os cantos de sua boca se ondulando em um leve sorriso. Meu pulso ficou quente com o toque de seus dedos, levando-me um pouco mais a fundo. Respirei fundo, atenta a qualquer som – ou voz – presa em minha cabeça. Minha atenção, depois de muitos passos dados, revirou-se para a luz que se tornou mais e mais forte. Chegando mais perto. Mas, segui o comando que sua voz tinha me dado antes. Não forcei. Apenas posicionei os olhos lá e consegui enxergar aos poucos. Ver as pontas daquele Castelo branco tocando as nuvens lá em cima. Sua luz própria se misturava com a luminosidade do sol. Cobrindo a grama bem podada ao redor de luz e vida. Bandeiras douradas se ostentavam acima. Pedras antiquadas o completavam por fora. Um portão enorme, de ponta a ponta mostrava um campo grande lá dentro. Com diferentes flores de cores distintas.
Quando chegamos ainda mais perto, borboletas começaram a nos rodear. Braços, pernas e cabeça. Sorri diante das cócegas que o roçar daquelas asas delicadas feito papel faziam. Patch parecia ligeiramente rijo ao meu lado. Apenas olhando adiante. Olhar impenetrável. Linhas marcadas, e maxilar trincado. Aquilo deveria ser um pouco incômodo, ter de se estar do lado oposto para uma situação que não lhe dizia respeito. Meu coração se apertou com o sentimento de solidariedade que senti. Ao final, as borboletas se dispersaram e chegamos ao portão. Patch olhou lá dentro, procurando alguma forma de chamar alguém. A cor branda do portão me chamou a atenção e caminhei lentamente até ele. Toquei meus dedos por sua textura gostosa como veludo, sentindo um leve roçar nas pontas dos meus dedos. O portão se abriu diante de mim, chamando-me. Um leve cântico surgiu ao fim de sua abertura. Ele ficou lá. Aberto. Nos esperando. Me virei para fitar e chamar Patch, mas este estava olhando vidrado adiante. Como se algo de muito imaculado houvesse ocorrido. — Vamos. – Chamei hesitante, fitando-o, procurando algo. Ele pareceu ponderar durante alguns instantes. Mas, notei que segurava a respiração, até que ele estivesse ao meu lado – tenso. O portão se fechou atrás de nós e meu corpo se inundou de emoção instantânea. Era tão bom lá dentro. Reconfortante. Uma sensação de lar. Se vendo ao longe era lindo, de perto – ou melhor, dentro – era ainda mais perfeito. Não havia outra expressão que pudesse descrever o ambiente se não “maravilhoso”. Um sorriso estampava meu rosto, enquanto as borboletas voltavam a nos rodear. Mas agora, eu notava que elas acendiam e apagavam, como luzes de boates. Elas roçavam minha pele, me recepcionando. — Estas são como a Shaunee. Mas, espontâneas demais. – Patch informou ao meu lado, chacoalhando a cabeça em direção as borboletas. — Quem é essa? – Indaguei, tentando interagir com o assunto. Ele sorriu divertido com meu desconhecimento. — A garota que te levou naquela primeira noite. — Ah. – Concordei, lembrando-me da bela mulata de cabelos lindos. – Mas ela não se parecia com uma borboleta. Patch ficou quieto. Não me respondeu. Como se aquele ponto da conversa não pudesse ser simplesmente discutido assim, em um local aberto. “Ou, em um local com Divinos.” Era ele. Suspirei. Sabendo que poderíamos conversar daquela forma. Me impressionei com o que fiz, mas apoiei minha mão em seu ombro e sussurrei ao seu ouvido: — Você lê pensamentos? O.K, Nora Grey! Isso foi ridículo. — Não. – Ele respondeu em voz alta. Suas mãos estavam para trás, deixando seus músculos ainda maiores. Sua jaqueta de couro fazia barulho com seus movimentos calculados. Como caminhamos muito. Chegamos com agilidade até o início de um curto lance de escadas. Patch esperou que eu subisse primeiro, para depois caminhar atrás de mim. Chegamos ao topo. Mais flores se ostentavam naquela varanda, assim como bancos brancos. Toquei a mão na maçaneta e a porta dupla se abriu abruptamente, deixando-me um pouco desconcertada. — Patch, você demorou pra... Um rapaz loiro parou com seus passos e palavras assim que seus olhos se pousaram em mim. Olhos violetas me fitavam com tamanha intimidade. Percorrendo-me da cabeça aos pés, um sorriso de canto meigo dominou todos os pontos de sua face e seu cabelo dourado pareceu ficar mais sedoso. Patch interrompeu aquela súbita paquera, enquanto tocava a lateral de seu corpo no meu, como se quisesse mostrar sua presença. — Já começou? – Ele indagou, ignorando apresentações ou cumprimentos. — Estavam esperando a garota, Nora. – Ele disse para Patch, mas sorrindo em minha direção. Fiquei momentaneamente abalada com aquele tratamento e soltei um sorriso fraco, como que para mostrar que estava vendo todo aquele olhar intenso. — Então vamos logo. – Patch disse, empurrando-me sem delicadeza alguma com a mão no centro das minhas costas. Foi então que meu queixo despencou diante de tanto poder. Tanta luz. Dourado. Prateado... branco. Paz resguardada ali. Como se fosse um local guardado para você se acalmar. Esquecer seus problemas. E era exatamente de tal forma que eu me sentia. Embalada por mãos calorosas; acariciando meus fios. Lá a decoração era ao contrário do Castelo Sombrio. Ladeada por coisas brancas, claras, brilhantes. Gesso de ouro, brilhando a luz do sol, entrando por uma parede de vidro que dava para um jardim lateral. Lá também havia aqueles Sete... Tronos. Eles estavam enfileirados, mas ali era diferente, não havia um maior que outro, mas sim um mais adiante que os demais. Todos brancos com desenhos a mão dourados e estofado creme. Modelados de formas diferentes, feitos para apenas um corpo. — Aguardem aqui. – O rapaz de fios dourados pediu, seguindo adiante por um corredor. Eu o seguiria, se a presença de Patch não fosse tão forte para mim. Sua mão ainda estava no centro das minhas costas, deixando-me levemente desconcertada. — Aqui... é lindo. – Sussurrei, ainda olhando ao redor. Vendo desenhos em vidros no teto. Um lustre prateado se ostentava no centro de tudo. — Não elogiou o outro Castelo. Algum preconceito com a cor preta? – Era a voz sedosa de Patch, reverberando por todos os cantos. Me virei em sua direção, sua mão se soltando do toque íntimo. — Eu estava desesperada aquela noite. E quando vi toda aquela gente, a situação piorou. – Lamuriei, dando de ombros. Mas, porque diabos eu, tipo, desabafei com ele?Você nem o conhece! Não mesmo. Não conheço Patch, não posso simplesmente lhe contar meus sentimentos assim, sem mais nem menos. — Então, na próxima vez irá elogiar? – Ele terminou a indagação com uma piscadela. Enruguei os lábios, arqueando uma sobrancelha. Ele estava flertando... comigo? Um dos cantos de sua boca se repuxou, sorrindo de maneira reservada. Abri os lábios para responder. — Ora, ora. Olá, Patch. – A voz emitia um poder, dava para sentir nos meus poros. Patch se retesou e deu passos certeiros, ameaçadores, ainda mais que a voz, até que se instalasse ao meu lado, protegendo-me, marcando presença. Agora, os Sete Tronos estavam ocupados. Todos os ocupantes utilizavam túnicas brancas, também cobrindo todo o corpo e os rostos. Nem os queixos eu conseguia ver. — Hank. – Patch disse, movendo a cabeça rigidamente. Acompanhei seu olhar, desvencilhando-me da imagem de Sete pessoas ali sentadas. Chegaram a ouvir nossa conversa? Eles rastejaram, ou algo assim? Nem ouvimos a chegada. Ou talvez fizeram como em meu quarto, simplesmente apareceram. Hank exibia uma aparência completamente máscula, de um homem sábio, que já viveu muito para conhecer a maioria das estórias existentes no Mundo. Os olhos azuis dele me arrebataram incialmente, fazendo com que eu não soubesse para onde olhar. Se olhava para os olhos, a aparência juvenil, ou suas vestes completamente brancas. Seus olhos, o tom deles, me desconcertou, passando como fogo por minha pele. Me chamando e me afastando ao mesmo instante. — Você deve ser Nora. – Ele chamou meu nome. Levantei a cabeça rapidamente e acenei em positivo. A boca travada. A garganta seca. — Veio aqui para saber sobre sua melhor amiga, Vee Sky, estou certo? – Ele indagou, em um tom mais gentil, aproximando-se lentamente. — Exatamente. – Concordei com a cabeça. — Onde está Kalona? – Patch indagou ao meu lado, um pouco inquieto. — Já está vindo, Patch. – Hank bufou, parecendo frustrado em ter de mudar o rumo da conversa. — Por favor, sente-se. – Ele pediu, olhando-me nos olhos, indicando uma das cadeiras estofadas atrás de mim. Talvez pelo cansaço, ou por simplesmente me sentir embalada por seu comando, eu me sentei. Depois de alguns instantes, Patch se sentou ao meu lado. “Eles explicarão melhor.” Patch conduziu as palavras até minha mente. Eu sabia que era ele. Reconheci sua voz. Mas mesmo assim, aquilo era desconcertante. Eu me sentia um pouco invadida, sem poder interromper sua chegada em minha mente. Concordei com a cabeça. O nervosismo me tomou inicialmente, enquanto Hank ficava em pé diante das Sete pessoas ali sentadas, silenciosas. Mas, minha mente entrou em turbilhão maior ao presenciar aquela cena. Eu sabia que nunca me esqueceria de sua chegada. Ele, aquele homem alado, não precisava me dizer seu nome... de certa forma eu sabia.Isso, é Kalona... Uma voz perdida em névoa se misturou em meus pensamentos, quase inaudível. Ele estava a vontade, mesmo em uma área que não lhe pertencesse. Pés descalços, bronzeados. Calça preta pendendo em seu quadril estreito e ombros largos sem nada lhes cobrindo. Deixando a mostra seu abdômen bem definido. Olhos negros, como seus cabelos me encararam. Senti frio. Um gelo me queimando de dentro para fora e engoli em seco, desviando os olhos, fitando minhas mãos. Aquela beleza toda era aterrorizante demais. Tudo aquilo era muito aterrorizante. Tudo estava indo depressa demais. — Olá, Nora. Ouvi muito a seu respeito. – Sua voz saiu grossa, extrovertida, batendo nas paredes e voltando contra mim. Concordei com a cabeça, sem levantar os olhos em sua direção. — Trouxemos algumas informações interessantes para você. – Kalona iniciou e só então, engolindo em seco, decidi encara-lo diretamente nos olhos. – Sua amiga não está no Lado Sombrio, nem no Divino. Mas sabemos que ela não fugiu. Nem foi morta, ou algo parecido. Mas ela foi levada, como já deveria saber. — Então, decidimos investigar mais a fundo. – Hank tomou a deixa. – Temos problemas a resolver, e esse pareceu se encaixar com os demais. Na realidade, um velho problema. Desconfiamos que ela esteja com os Renegados, mas não encontramos sua aura por lá. Estamos trabalhando com uma garota daqui, para descobrir. Ela está para se transformar e tem visões. – Hank se explicou, me encarando.Roland! Algo se acendeu em minha mente. Meus olhos brilharam, para poder contar. Talvez aquele cheiro que ele sentia em mim fosse o de Vee. “Não conte nada a respeito de Roland. Posso ver essa vontade em seus olhos cinza, Anjo.” Dessa vez me espantei. Uma ordem. Curta e direta. Endireitei as costas, olhando para todas aquelas pessoas. Eu queria contar. Eu realmente queria contar. Mas aquele conselho me pareceu o melhor depois de muito tempo, então decidi segui-lo. Abaixei os olhos para o braço direito de Hank. As andorinhas se enrolavam livremente, um brilho opaco as contornando. Enquanto em contraste, Kalona exibia um Dragão forte enrolando-se em seu antebraço esquerdo, o brilho era mais forte e mesmo estando em um local que não lhe pertencesse, evidenciava um poder maior; mais abrangente. Se eles emitiam assim tanto poder, porque não investigavam mais a fundo? Eu precisava de Vee. Nem sabia o que iria dizer para a Srª Sky, caso ela me ligasse, o que talvez aconteceria, por este motivo deixei meu celular no meu quarto. Dentro de uma gaveta. — E como vamos fazer para trazê-la de volta? – Indaguei, com mais coragem que pensei que guardava. — Temos de entrar em contato com o Clã Alto. Só eles podem decidir algo, principalmente quando o problema não está no nosso espaço. – Hank disse, um sorriso ainda tamborilava em suas feições. — Ou seja, terei de esperar? – Indaguei, indignada, cruzando os braços. — Terá de esperar. Patch será seu informante. Sempre lhe contará as novidades da forma que lhe couber. – Kalona disse, dando um leve movimento de cabeça em direção a Patch, ao meu lado. Eu deveria gritar? Espernear? Eu não sabia o que fazer. Eu já estava cansada e nem sabia como minha melhor amiga estava. Aquilo tudo era confuso demais. Conhecer novas pessoas. Novas estórias. Saber de coisas que nunca pensei que existissem. E, mesmo sem ninguém ter mandado, saber que eu tinha de guardar todo aquele segredo deles. Toda aquela omissão que eles resguardavam em si. Eu tinha de ajuda-los por este lado. Assim como eles estavam me ajudando na parte em encontrar Vee, o mais rápido possível. Concordei com a cabeça, incapaz de me movimentar de melhor maneira. — Leve-a para casa, Patch. – Kalona ordenou, virando-se de costas e seguindo por um corredor com Hank ao seu lado. Patch se levantou e me ergui ao seu lado, seguindo seus passos até o campo do Castelo Divino. Fechamos a porta dupla atrás de nós. Patch estava quieto, caminhando de forma confiante, seu foco era o portão de saída. Desferi meu olhar para um ponto brilhante no chão, chamando-me, clamando por minha atenção. Sem pensar em Patch, ou em qualquer outra pessoa, caminhei até o ponto. Me abaixei e toquei uma corrente presa na grama. Era dourada e parecia nova. Com os dedos, retirei o pó ali antigo, guardado.
Guarde isto com você. Sim, vou guardar. Antes que Patch pudesse se virar, guardei aquela medalha com um símbolo em círculo e algumas coisas escritas – que não consegui ler – no bolso do short jeans. Patch já estava diante do portão mágico quando cheguei perto. Ele se virou, provavelmente para avisar alguém, mas alguém foi mais rápido, abrindo-o para nós. Provavelmente nos viram por alguma câmera de segurança e abriram o grande portão para nossa saída. Na verdade, pura e verdadeira, eu queria acreditar naquilo. Nunca teria certeza se meus pensamentos eram verdadeiros. E aquele, parecia um bem mentiroso. A moto estacionou no meio fio, próximo a casa de Harrison. As luzes estavam apagadas, exatamente do jeito que eu deixara. A rua estava quieta, quase em silêncio. Tirei o capacete e o estendi para Patch. Seus dedos pegaram em um modo automático, mas seus olhos estavam instalados na casa, lá atrás dos meus ombros. — Ahn... Eu vou indo. – Gaguejei, um pouco incerta. Com medo talvez. Para minha surpresa, ou até pavor extremo, Patch acenou em positivo com a cabeça, e dando partida na moto, ele se foi. Engoli em seco, enquanto caminhava em direção a porta de entrada. Abri a porta com minhas chaves, trancando-a atrás de mim, e depositando-as no aparador, ao lado da porta. Acendi as luzes da sala, e da cozinha, logo atrás, divididas por um balcão de granito no centro, com exatas quatro banquetas, como se minha mãe ainda estivesse naquela casa. Suspirei. Tudo estava calmo demais. Eu precisava encontrar Scott e lhe contar tudo o que sabia. Ou o pouco que conhecia. Subi as escadas, indo em direção à porta de seu quarto. Uma pancada forte me atingiu na cabeça, derrubando-me contra o chão, sem ar. O pingente no meu bolso esquentou, e o afaguei, como se aquilo pudesse acalmar algo. Rolei no chão, ficando de costas e percebendo a porta do meu quarto completamente aberta; tudo revirado lá dentro. Papéis de parede arrancados, cortinas derrubadas, carpete rasgado, fotos caídas, roupas espalhadas. Um desespero me abateu. Como eu podia denominar aquilo que aparecera diante de meus olhos? Um monstro, talvez? Olhos vermelhos me fitavam. Um corpo de homem, mas esguio e em alguns pontos a pele sumia, deixando a mostra ossos amarelados, velhos e nojentos. Ele abriu a boca e um odor nojento se estendeu pelo corredor. No seu couro cabeludo continha trechos sem fios, enquanto os fios que restavam eram extremamente ressecados. A pele que ainda existia era esverdeada. Meus olhos estavam arregalados e provavelmente fora isso que retirou a gargalhada daquele grandalhão. — Qual o seu nome, criança? – Voz grossa e gosmenta indagou, inquieto. Fiquei quieta. Não confiava o bastante para dizer meu nome. Não com ele ali, revirando todas as minhas coisas. Enquanto Harrison e Scott não estavam em casa... eu estava sozinha; abandonada. — Está optando por este lado, então? – Ele indagou. Seus passos marcando caminho, enquanto meus cotovelos ficavam ralados, por eu arrasta-los pelo tapete persa do corredor. Minha garganta estava ardendo, enquanto eu pensava em algo, qualquer coisa. O pingente no meu bolso, estava rasgando o tecido do jeans, queimando qualquer coisa que estivesse em seu caminho, e a próxima “coisa” seria a pele de minha coxa. O grandalhão se estendeu diante de mim, pegando-me pelo colarinho da camiseta, e erguendo meus pés do chão com uma agilidade absurda. Ele aproximou nossos rostos e seu cheiro se propagou de tal forma a atingir meu estômago, sua saliva pingou em pontos do meu rosto, subindo fumaça e cheiro de carne queimada. Eu não tinha armas e muito menos força para lutar com alguém daquele porte. Fui arremessada para longe. Deslizei pela parede do outro lado do corredor, arfando de dor. Momentaneamente tonta e buscando um ar não presente em meus pulmões naquele momento. Cobri a cabeça com os braços, quando ouvi seus passos apressados, correndo desesperados em minha direção. Sem me dar tempo para pensar. O medalhão no meu bolso, começou a queimar minha pele e o puxei, deixando-o queimar a palma da minha mão. Minhas pálpebras ficaram vermelhas e abri os olhos, assustando-me quando notei que o ponto de luz vinha de entre os meus dedos. O grandalhão tinha interrompido seus passos, admirando a luz que se propagava diante dele. Seus dedos se estenderam em direção à luz, e suas unhas secas e firmes rasparam em minha mão, em uma tentativa falha de resgatar o medalhão. Suas unhas fizeram cortes e depois seus olhos rolaram nas órbitas e ele caiu para trás, marcando um estrondo no chão e deixando-me ainda mais apavorada. Levantei os olhos, que estavam bem embaçados e fitei a imagem negra no final do corredor. As mãos fechadas em punhos. Mesmo em um dia de conhecimento, eu nunca vi olhos tão negros como os de Patch naquele momento. Tudo ocorreu em câmera lenta. Patch caminhou em minha direção, enquanto ele ficava pouco-a-pouco embaçado. A corrente do medalhão, de alguma forma, se enrolou em meu pulso se mantendo firme. Enquanto minhas pálpebras pesavam, e eu caia para trás, sentindo que meu corpo afundava em uma escuridão confusa e de cansaço extremo do meu corpo, mente e coração.
Notas finais
Desculpem o horário e quantidade de palavras! Espero que vocÊs gostem. Quem curtiu a aparição de Patch? E vocês leitores ocultos, apareçam! Beijos e até o próximo!
PS.: Responderei os comentários assim que possível! ♥
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