Instrumento Tempestuoso.
3 1ª pt: O Surgimento.
Notas iniciais
Música do capítulo: Seven Devils - The Florence.
Beijões s2
Manhattan, dias atuais.
A fila de entrada consistia em corpos animados e agitados e Vee era uma daquelas pessoas. Estava irritada com a impaciência de Vee, olhando impacientemente, a cada cinco segundos, para seu relógio dourado de pulso. O brilho do mesmo refletindo para todos os lados, espalhando-se pela calçada de Manhattan.
— Mas que demora! – Ela berrava dentre os burburinhos da fila.
Eu ainda não tinha entendido se todo aquele escândalo era pelo fato de ter dois garotos olhando para suas pernas – que estavam completamente para fora, por conta de seu justo vestido preto de couro – ou se era por ela estar realmente irritada. Vee sorriu descaradamente para os garotos atrás de mim. Ah, pronto, ali estava a resposta. Revirei os olhos para sua atitude e também me apoiei com uma mão na cintura.
Seus olhos verdes voaram em minha direção e seus lábios carnudos pintados de rosa, prensaram-se em uma linha fina. Demos alguns passos adiante.
— Enfim! Dois passos. – Ela zombou mexendo em seu cabelo louro e colocando-o para trás dos ombros. Começou a abanar o ar redor de seu rosto. – Ai que calor. – Murmurou.
— Vee. – Sibilei. – Deixe de ser ridícula, por favor.
— Seu cabelo é que está ridículo. – Os meninos atrás de nós riram com seu comentário maldoso.
— Calados. – Pedi ao me virar. Abanando meus fios ondulados para trás de um ombro. Diferente dos de Vee, meus cabelos eram negros e iam até o centro das costas, enquanto os seus iam até o topo do bumbum.
Vee era alta, com uma altura complicada para se arranjar garotos, enquanto eu tinha uma altura mediana. Aquela altura que fica ótima com sapatos de saltos e saias rodadas, que era como eu estava vestida, mas por escolha de Vee.
— Desculpe. – Ela fez beicinho e jogou a cabeça para um lado. – É que estou estressada.
— Ah. Não me diga. – Sorri amarelo.
— Você também parece estressada.
— Você falou do meu cabelo, ora essa.
— Estão falando de cabelo de novo? – A voz de Scott, nosso grande amigo e filho de Harrison, o homem que cuidou de mim após a morte misteriosa de minha mãe quando eu tinha menos de um ano, surgiu.
Me virei de súbito animada por sua chegada. Ele arqueou as sobrancelhas quando me olhou. Franzindo as grossas sobrancelhas castanhas e destacando o tom escuro de seus olhos, em contraste com a pele clara, ele lembrava Harrison.
Scott levantou as mãos e penteou meus fios até as pontas, deixando-os ajeitados. Um dos rapazes que estava atrás de nós, pareceu murchar com a chegada de Scott.
— E aí, loura. – Scott brincou com Vee e bagunçou seus cabelos.
— Ah, merda. Você veio mesmo. Sempre me pergunto por que Nora te chama para tudo. – Ela disse mexendo em algo dentro da pequena bolsa prateada pendurada em seu ombro, pouco se importando com a investida de Scott em bagunçar seus cabelos.
— É porque ela me ama, ainda tem dúvidas disso? – Ele deu uma piscadela para mim.
— Ah claro, morro de amores. – Respondi ruborizada.
Gritos começaram a vir do final da fila e Scott nos empurrou adiante, nos mostrando um buraco até a pessoa mais próxima.
— Faltam três pessoas! – Vee cantarolou batendo palminhas no ar.
— Uau. E você sabe contar, realmente incrível. – Scott arqueou as sobrancelhas fingindo surpresa.
O sorriso de Vee desmanchou e ela deu um soco no ombro de Scott que não se moveu.
— Isso aí, continue tentando. – Ele disse olhando-a de soslaio.
— Vocês parecem um casal. – Enruguei os lábios. – Espera. – Me desesperei com o olhar arrebatador de Vee. – Se parecem com aqueles casais que se odeiam, é isso.
— Melhorou muito o início da sua frase. – Vee sorriu sem mostrar os dentes, em um modo completamente falso. Estando – ou apenas fingindo – incomodada com meu comentário. Scott, olhando adiante, para um ponto fixo da fila, pareceu não notar.
Segui seu olhar, mas nada vi, apenas um rapaz tentando entrar enquanto mostrava seu documento e ele não tinha nenhuma tatuagem que revelasse sua identidade como Sombrio ou Divino, os novos “comandantes” da cidade de Manhattan, assim como de outras, mas com outros Sombrios e Divinos.
A fila andou mais um pouco e Vee era a próxima, o segurança pediu sua identidade que ela apresentou.
Ele anotou algo na comanda e a entregou junto ao documento de Vee.
Scott tomou minha identidade em mãos e a entregou junto a sua para o segurança. Depois de alguns instantes ele entregou duas comandas a Scott e o mesmo me puxou pelo pulso até uma mesa próxima no interior do Pandemônio.
— Porque você tem essa mania? – Indaguei enquanto me sentava ao seu lado, nossas pernas se roçando suavemente.
— Qual delas? Ser lindo, ou sensual?
— E humilde também. – Sorri amarelo, para seu jeito sarcástico de sempre. – Ficar pegando minha comanda, como se precisasse cuidar de mim.
— Preciso cuidar de você, ou acha que saímos juntos por que gosto da sua companhia?
— Ai que horror! – Empurrei seu ombro, chocada.
— Estou brincando, Grey. – Ele sorriu e passou a ponta do nariz pela minha bochecha.
— Isso sim é coisa de casal. – Vee disse se sentando ao meu lado com três drinques em uma bandeja. – Vamos, bebam logo.
— Tem um “Boa noite Cinderela” aqui? – Indaguei cheirando o conteúdo do copo e enrugando as sobrancelhas.
— O que eu faria com seu corpo dopado, Nora querida? – Ela riu e eu a acompanhei.
— Só tem um “Boa Noite Borralheiro” no de Scott. – Vee prensou os lábios ao passar o copo para o mesmo.
— Ah, você quer abusar do meu corpinho? – Ele indagou e passou uma mão pelo seu peitoral escondido pela camisa azul clara.
Vee colocou o dedo em direção à garganta, pela boca, como se estivesse vomitando.
— Vocês são nojentos. – Sibilei entredentes, vendo a cena toda de ódio trocado.
Viramos os copos ao mesmo tempo, o líquido descendo em um rasgar pelo caminho da minha garganta e arfei um pouco, deixando o copo na mesa.
— Ai meu Deus, eu amo muito essa música. – Vee disse se levantando sem esperar por ninguém.
Estranhei enrugando as sobrancelhas com sua saída repentina. Foi então que notei um dos garotos da fila, no centro da pista de dança, chamando-a.
— Sua melhor amiga é uma pervertida. – Scott comentou, assistindo a mesma cena que eu.
— Não a chame assim. – Pedi, olhando-a dançar agarrada com um dos garotos sorrindo para seus olhos, antes de se emaranharem em um beijo profundo. – Como ela consegue?
Scott pareceu notar meus olhos arregalados para a cena.
— O quê? Beijar alguém que acabou de conhecer? – Ele indagou. Seus dedos estavam passeando por uma das minhas coxas, e eu tentava evitar o calor que seu toque me provocava.
Acenei em positivo, inerte por seu toque de forma tão íntima.
Isso afastou meus olhos da visão de Vee se agarrando com um menino qualquer. Meus olhos se fecharam instantaneamente, as batidas não ritmadas do meu coração formavam um compasso constante em meus tímpanos. Suspirei.
— Faz parte do jeito dela, Grey. – Ele respondeu e suas mãos ficaram tensas sobre minha coxa.
Um frio abateu minha pele, quando ele deixou de me tocar e sorri, tentando aliviar o frio interno e um clima tenso que se formou ao nosso redor. Nossos sorrisos congelados, mas seus olhos não estavam nos meus, como sempre ficavam. Ele fitava, novamente, algo em um ponto distante. Acompanhei seu olhar e dessa vez eu vi algo, ou melhor, não vi algo. Vee não estava no lugar de um minuto antes. Meus olhos, instantaneamente, percorreram todo o centro do Pandemônio, olhando para todos os cantos que eu sabia que existia lá. Olhei para todos os banquinhos diante do bar de mármore escuro. Percorri muitos corpos que dançavam a solavancos na pista de dança e olhei até para o espaço entre a parede e a cabine do DJ, mas nada encontrei. Onde estava aqueles fios louros e brancos?
— Onde está a Vee? – Indaguei virando-me repentinamente na direção de Scott, o mesmo não me olhava e procurava algo ao redor, com mais desespero que eu. – Vou ir dar uma olhada no banheiro.
— Sim. – Ele respondeu enquanto se levantava e estendia uma mão em minha direção. Seus dedos se fecharam em torno dos meus, olhei para união de peles.
— Vou sozinha, Scott. E você também não pode entrar no banheiro feminino. – Tentei puxar minha mão de volta com toda a força e seu peitoral bateu contra meu rosto. Sua mão segurou minha cintura, aflita.
Quando Scott se certificou de que eu estava de pé, ele me soltou de todas as maneiras. Sua mão abandonou a minha e a outra minha cintura, e seus olhos se libertaram dos meus. O que era aquilo tudo?
Quando abri os lábios para responder, Scott me puxou com força em direção à ala do banheiro masculino e feminino. Só então notei a marca de suor no centro de suas costas, seguindo pelo caminho de sua costela, de baixo para cima. Ele estava aflito.
Paramos diante da porta branca com uma figura gasta de uma menina pintada de vermelho, mas agora a tinta estava descascada e praticamente rosa, devido ao tempo.
Scott soltou meu pulso e se apoiou na parede com um ombro, esperando. Cruzou os braços diante do corpo, delineando seus músculos sob o tecido azul de sua camisa cara.
Abri a porta do banheiro feminino esperando encontrar Vee lá dentro.
Me deparei com uma loura de vestido negro, mas ela era magra demais e não era Vee. Então decidi procurar pelas baias.
Todas estavam abertas, como de costume, e só havia algumas meninas diante do espelho comprido do banheiro. Arrumando os cabelos e retocando a maquiagem, enquanto falavam sobre os meninos que na opinião delas era o mais gato de toda a balada.
Deixei as conversas insignificantes para trás e abri a porta do banheiro. Scott não estava mais lá. Ótimo, pensei, não basta um amigo perdido, eu precisava de dois, mesmo.
Antes que eu pudesse procurar por Scott, ele surgiu da porta do banheiro masculino, também com um desenho, mas de um rapaz em azul em uma tinta descascada.
— Ela também não está lá. – Ele informou.
Arqueei as sobrancelhas. – Porque ela estaria no banheiro masculino, Scott?
— Não sei, talvez o rapaz com quem ela estivesse, levou ela para lá. Eu não sei, Grey. – Ele respondeu apenas, enfiando as mãos nos bolsos de sua calça jeans escura.
— Está aflito demais. – Notei me aproximando de seu torso e passando meus dedos pelo suor constante de sua testa.
— Estou responsável por ambas. – Ele deu de ombros, sem me olhar nos olhos e nem se incomodar com meu toque. Limpei os dedos na barra da minha saia e olhei para o outro lado do corredor.
Uma porta preta dupla persistia no final do mesmo. Eu nunca a tinha visto ali, persistente, como se tivesse um Mundo encantado por trás das mesmas. Scott acompanhou o meu olhar e apenas com isso ele entendeu o que eu queria. Seus dedos pressionaram a pele do meu pulso e ele me puxou adiante, em direção à porta.
Abrimos a mesma juntos e demos de cara com um corredor com algumas latas de lixos transbordando com conteúdos nojentos. Só então notei a camada vermelha no chão. Pisei sobre o sangue que emanava um odor rude ao redor, entrando em minhas narinas.
— Isso é recente. – Sussurrei olhando para o ponto fixamente.
Scott ficou quieto, olhando para o mesmo local que eu e de soslaio vi algo negro se mexer. Me virei de súbito, minhas vistas embaçadas pelas lágrimas enclausuradas.
Havia um homem. Ou melhor, um Sombrio. A tatuagem de dragão, com contorno brilhoso, circulava seu antebraço esquerdo. Impondo respeito com a luz própria. Seus olhos negros pousaram sobre os meus e as pontas de seus fios louros e dourados despejavam-se em sua testa. Sua jaqueta de couro estava dobrada até a altura dos cotovelos e então ele correu em uma velocidade que eu nunca pensei que existia. Com isso, o borrão de Vee jogada sobre seu ombro se formou, indo e vindo bruxuleante.
Cambaleei na direção em que só sobrou o rastro do Sombrio e Scott me segurou pela cintura, em um desespero mais evidente que o meu. Ele olhava fixo para o mesmo ponto, mas era como se algo de diferente tivesse ocorrido ali. Ou se ele soubesse algo que eu não sabia.
Deixei que as lágrimas rolassem de meus olhos. Todos meus momentos desde meus sete anos com Vee vieram, naquela súbita jogada de memórias que te fazem sentir saudades da pessoa. Que fazem seu coração apertar e ficar pequenino, como um grão de areia.
Foi então, que no momento de desespero, eu vi aquela luz pela primeira vez. Inicialmente ela apareceu em um milésimo de segundo e sumiu com um piscar de olhos. Me concentrei no brilho que tinha visto e ele reapareceu. Um pontinho voando acima de minha cabeça, brilhos o percorriam, mas eu não conseguia identificar o que era aquilo. A imagem bruxuleante sorria para mim, mesmo sem haver rosto.
Seu brilho forte se espalhou por meu rosto e um alívio me abateu instantaneamente. Um alívio em mente e coração e meus músculos relaxaram, deixando-se levar pela sensação tranquilizadora daquele pontinho luminoso de paz.
— Vamos. – Sussurrei para minha própria surpresa.
Quando dei por mim, comecei a seguir aquele ponto que inicialmente pensei ser um vagalume, mas lá no fundo do meu coração eu sabia que não era.
Scott estava agarrado a minha mão e quando lhe chamei o mesmo não hesitou, nem apertou ou afrouxou o pressionamento nos meus dedos, ele apenas me seguiu. Seguindo não só a mim, como aos meus instintos mais profundos e desconhecidos. Aqueles que nem eu sabia que existia ali dentro da minha alma.
Meus olhos não abandonavam a pequena figura fantasmagórica. Apagando e acendendo, mas em nenhum momento diminuindo a velocidade.
Eu a segui as cegas, sem olhar o caminho a minha volta. Permanecemos imbatíveis, atravessando a noite e a neblina dos arredores de Manhattan. Estávamos muito afastados do centro, isto era evidente pelo fato da falta de sons de centro de cidade. Como buzinas constantes, ou pneus raspando no asfalto. Burburinhos de conversas ou risadas excessivas.
Havia apenas o silêncio que me deixava surda, e sonzinhos ao nosso redor, indicando a presença de grilos. Mas aquele som era tranquilizador para mim
Depois, senti uma mudança na temperatura. O pequeno calor que nos cerca na cidade nos abandonou, sendo invadido agora pela brisa leve, abanando meus cabelos para trás dos ombros, com isso os dedos de Scott fizeram movimentos constantes em torno da minha mão, esquentando-a.
Assim com o ar mudou de pesado para leve, o chão sob meus pés também mudaram. Antes andávamos sobre o asfalto, sentindo alguns pedregulhos e o som do meu salto constante reverberava em meus tímpanos. Mas agora tudo isso nos abandonara. Meus saltos não faziam mais aquele som, não havia algo duro em que pisar. A maciez era sentida, tão pura quanto o som dos grilos ao nosso redor. Mais puro ainda, que o ar frio nos preenchendo. Era grama, algo verde. Era a natureza. Estávamos na mata densa de Manhattan.
Caminhamos durante muitos minutos e aquele pontinho parecia confiante em um ponto distante, escondido. Scott, atrás de mim, pareceu hesitar durante alguns instantes. Seus dedos ficaram frouxos e suados, mas não havia nada que provocasse qualquer tipo de calor ao nosso redor. Parei meus passos e o pontinho parou junto. Oscilando pausadamente, me aguardando...
Olhei nos olhos escuros de Scott. – O que houve?
Algo nos trouxe aqui, era minha vontade de vociferar. Vee, minha melhor amiga desde sempre, deve estar em algum lugar aqui e Scott cofiou naquele ponto de luz da paz inicialmente. Porque tanta hesitação agora?
Eu me sentia embalada naquela parte da cidade. Envolvida não só pela brisa, como pela sensação de paz momentânea. Sentindo fios invisíveis percorrendo pontos estratégicos de minha pele. Ao longe, havia uma melodia tocando, acariciando o interior dos meus tímpanos, meus lábios se moveram com a letra. Como se eu sempre a conhecesse, como se ela fizesse parte do meu destino. Uma baixa e distante melodia, envolvendo a noite ao nosso redor.
Holy water cannot help you now
See, I've had to burn your kingdom down
And no rivers and no lakes can put the fire out
I'm gonna raise the stakes
I'm gonna smoke you out
Água benta não pode te ajudar agora
Veja, eu tive que queimar seu reino
E nenhum rio e nenhum lago pode apagar o fogo
Vou levantar as estacas
Vou acabar com você
Meus olhos se fecharam e curti a melodia um pouco sádica e embriagante. Daquelas que te dá vontade de jogar a cabeça para trás e cantar aos sussurros, ou daquelas que eriça os pelos dos seus braços, mostrando que ela significava algo para você de qualquer forma. E era assim que me sentia naquele momento. Sendo embalada, levada pela canção. Pela voz. Pela melodia e pela letra.
Meus lábios se moveram precisamente, minha língua acariciando as estrofes cantadas, minha garganta se apertando com vontade de cantar bem alto, de forma que toda e qualquer coisa viva ao meu redor escutasse minha voz. Escutasse o que eu quisesse dizer com a música. Escutasse e soubesse que a conhecia de alguma forma. Nos arredores sombrios das minhas memórias ela estava lá, lapidada com ouro brilhante.
Voltei à realidade com um piscar de olhos. A música ainda soava de algum ponto distante e o pontinho ainda estava ali, diante de mim, sobrevoando acima de minha cabeça.
Olhei para trás e Scott olhava adiante, sem me olhar nos olhos. Como se não soubesse o que fazer agora. Como se não pudesse impedir.
Comecei a caminhar e o pontinho me guiou pelo resto do caminho. Entramos mais fundo na mata e avistei um vulto negro à distância.
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