Instituição JGMB - Interativa

21 Epílogo - O Fim É Apenas Um Novo Começo


Notas iniciais
E chegou o momento que todos aguardavam. Senhoras e senhores, apresento-lhes: O fim da JGMB! Finalmente, o epílogo está sendo postado. Na verdade, eu o terminei na madrugada de ontem para hoje, mas estava tão cansada que resolvi só revisar agora de manhã. Espero que gostem. Até a próxima, ;)! PS: Lembrando que Henry recebeu fatos irreais dos pais após passar pelo apagador de memória, ou seja, nem tudo que ele fala aqui é verdade absoluta.

15 anos depois

Estavam todos os líderes reunidos no terraço, que funcionava como uma espécie de sala de reunião. Jefferson Rush, com 47 anos, Tanaka Dong-Su, com 45 anos, Zulu Khumalo, com 46 anos, David Moore, com 43 anos e, o mais jovem do grupo, com seus 35 anos, Henry Kamadewa Murray.

A conversa estava se desenrolando, mas Henry estava longe. Ouvia o bate-papo, mas não o escutava. Seus olhos se concentravam na linda manhã de sol que fazia lá fora. Na verdade, o clima era o exato oposto de como estava 15 anos atrás.

Henry se lembrava bem de como tudo havia começado: De repente um vírus começou a atacar as pessoas do mundo todo. Ele as dominava mentalmente e as faziam acreditar que o mundo todo estava acabando e se tornavam agressivas quando discordavam delas. Ou era algo assim, Henry nunca tinha dado muita atenção aos sintomas. Mas sabia que era real. Tinha uma lembrança bem antiga de um grupo de doentes que pegaram para tratar entrou na sala onde estava e tentaram o convencer a se unir a eles. Não foi nada legal.

Mas seus pais foram um dos principais investidores na criação da base, o que fez com que o colocassem como um dos líderes dela. A base era basicamente um refúgio para aqueles que não se contaminaram e para todos aqueles que chegassem, pois esses se provam imunes. A base era como uma cidade móvel. Tinha desde escola a hospital e podia se tele transportar para qualquer lugar na superfície da Terra. E o grupo que invadiu a sala onde Henry estava passou por algum tipo de experimento que os fez ficar saudáveis novamente. Ele os via de vez enquanto pela Instituição. Alguns bem mais do que outros.

Aquele lugar era como um sonho. Mas do que adianta um sonho ser realidade se não pode vive-lo? Ele vivia trabalhando com a administração o tempo todo e as reuniões também eram muitas. Restava pouco tempo para fazer o que gostava ou então passar o tempo com a família. A vida pós-apocalíptica nos livros parecia tão divertida, mas na vida real era só mais um dia comum.

Em meio a essas filosofias, Henry quase nem percebeu quando David Moore chamou sua atenção.

—Murray! Murray! – Tirou-o dos devaneios. – Está ouvindo?

—Ah, sim. – Se ajeitou na cadeira. – Sobre a nova vacina que nosso laboratório fez, mas que ainda não foi testada em humanos. – Se lembrou do tópico que estavam debatendo antes de começar a viajar na maionese. – Acho melhor testar primeiro nos ratos, como de costume. Por mais que tenhamos melhorado bastante, ainda não acho que é seguro injetar essas substancias direto nas pessoas.

Os outros líderes se entreolharam.

—Muito boa a sua opinião, Murray. – Jefferson disse ironicamente. – Mas teria sido melhor se a tivesse dito quando estávamos falando sobre isso. Agora a pauta é sobre como o nosso exército tem atuado na hora de resgatar os “imunes à doença” nas cidades.

Henry não pôde deixar de ficar um pouco envergonhado com aquela espécie de “esporro”. Não o entendam mal. Para ele, governar a base até que era legal, mas tem uns momentos em que a função se torna extremamente cansativa. Porém, para a alegria do pequeno, David recebeu uma mensagem no celular e quis fazer um pronunciamento que acabou por encerrar a sessão de debates.

—Meus amigos, tenho uma notícia excelente para dar! – Contou animado. – Scarlett acabou começando o ultrassom sem mim e já saiu os resultados. Após Thomas e Albert, finalmente, nosso terceiro filho será uma menina!

Todos deram uma salva de palmas e foram cumprimentar o novo pai (Pela terceira vez).

—E então? – Dong-Su perguntou. – Qual vai ser o nome da pequena?

—Esse é o problema. – David confessou. – Ainda não fazemos a mínima ideia.

—Poderia ser Kelly. – Henry sugeriu. – Ou Helen. Gosto bastante dos dois.

—Uhn. – David levou uma das mãos ao queixo, como se estivesse pensando sobre. – Vou considerar sua sugestão. Também preciso saber se Scarlett tem alguma ideia. Ela é melhor nisso do que eu.

—Mas vai ser ela que vai ficar no seu lugar, não é? – Zulu perguntou. – Quero dizer, a liderança agora está completamente composta por homens. Precisamos de pelo menos uma mulher aqui no futuro.

—Isso dependerá do que ela quiser ser. – David respondeu um pouco ríspido. Se era porque não queria que sua filha fosse uma líder ou porque Zulu tinha uma fama de mulherengo e foi ele quem comentou o fato, era difícil dizer. – Se ela quiser me suceder, vai. Se não, não vai.

A conversa que estava tomando o rumo para ser tensa foi felizmente cortada pelo brilho eletrizante que circulou a cúpula do terraço e que fez com que a paisagem mudasse de deserto ensolarado para uma pequena ilha com gramado úmido à noite. Dava para ver que a cidade, ao longe, estava apagada por causa do horário de recolher. Henry logo sacou o que estava acontecendo. Aquilo só podia significar uma coisa.

Um grupo imune ia entrar.

O debate foi automaticamente suspenso e os cinco líderes desceram rapidamente para a sala de controle. Era um espaço enorme, cheio de computadores com câmeras de todos os lugares do mundo e gente as monitorando. Apesar de que seria bem melhor se não tivesse que permanecer escura, sem um único raio de sol podendo entrar ou lâmpada podendo ser acessa por causa dos computadores, até que era bem confortável. Desde que aquelas pessoas tivessem café, estava tudo bem.

Uma das monitoras estava em pé e acenava para eles, os chamando para ir ali. Deveria ser essa quem monitora as câmeras da área aonde foram tele transportados. Todos foram até ela.

—Onde estamos, senhorita...? – Dong-Su questionou e deixou uma brecha para a mulher falar seu nome, porém olhando-a mais de perto, percebeu que já a conhecia. Acabou ficando um pouco envergonhado antes mesmo que ela passasse as informações.

—Monitora dos Antigos Territórios Sul Coreanos Yi Hyun-Ae se apresentando ao serviço, senhor. – Identificou-se. – Detectei ainda há pouco um grupo na cidade de Yeosu burlando o horário de recolher e atravessando a ponte que leva ao nosso ponto de parada. Obviamente estão nos procurando.

—Muito bem, senhorita Yi. – Jefferson elogiou. – Agora, é melhor ir conosco para coordenar a entrada deles.

—Sim, senhor Rush. – A monitora levantou-se da cadeira animada com a ideia de ver a luz, pelo menos a de lâmpadas, novamente. – Melhor nos apressarmos. Eles já estão chegando.

As seis figuras desceram os andares em ritmo acelerado para chegar lá embaixo. Dong-Su, por algum motivo, ficou o mais afastado possível de Hyun-Ae, e Zulu pedia que mandassem dois guias para apresentarem a base para o novo grupo, pelo telefone celular.

Ao chegarem na porta da frente, viram pelo monitor ao lado que o grupo já estava tateando a área da base. Hyun-Ae abriu a porta para que eles entrassem. O grupo era formado por 7 coreanos, que olharam maravilhados ao redor. Assim que todos passaram, Hyun-Ae fechou a porta de novo e instalou rapidamente tradutores em suas orelhas. Como já tinha prática nisso, foi bastante rápida, mas foi o suficiente para um dos integrantes daquele grupo a encarasse por muito tempo.

—Olá. Sou David Moore e estes são Jefferson Rush, Tanaka Dong-Su, Zulu Khumalo e Henry Murray. Somos os líderes deste lugar que chamamos de base e lhes damos todos as boas-vindas. Aqui não precisarão se preocupar com o que assolava suas vidas lá fora. – David saudou-os. – Ah, já estão chegando seus guias. Esperamos que se sintam bem aqui. Melhor do que em suas antigas casas, pelo menos.

Os outros líderes já estavam se retirando, mas David ainda cochichou para Henry.

—Já que não estava prestando atenção na reunião de hoje, deixaremos os trabalhos extras para você. – Entregou-lhe uma lista com todas as tarefas. – Aqui está o que deve fazer. E que isso não se repita. Se quiser ficar pensando durante debates, se inscreva na aula de filosofia. – E se retirou.

Henry deu uma pequena olhada no papel, mas continuou lá um pouco mais. Gostava de ver como é que pessoas novas chegavam. Até aquele momento, só um dos guias havia chegado, na verdade. Ele parou bem a frente do grupo se fez uma saudação:

—Olá a todos. Meu nome é Christian Fell Ford e vou ser seu guia pelo tempo que precisarem para se adaptarem a base.

—Olha, se eu fosse vocês não iria na desse cara. – O outro guia havia acabado de chegar por trás com uma rosa vermelha em mãos. – Podem confiar, ele não é tão legal quanto eu. E, aliás, só eu posso ir na dele. Entendidos?

—Ah, não. – Chris resmungou. – Tanto guia por aqui e tiveram que mandar logo o Comte?

—Claro que sim, meu amor! Jean é único, não existe melhor. Mas não fique triste, você está em segundo lugar. – Jean deu uma última cheirada na rosa e a estendeu para Chris, que recuou um pouco. – Comprei esta rosa para você enquanto vinha para cá. Entre as pétalas coloquei uma cópia da chave do meu quarto. Espero que compareça. – E deu uma piscadela.

—O único lugar que iria onde estivéssemos sozinhos seria o calabouço. Para te prender. – A paciência de Chris para com Jean já estava se esgotando.

—Nossa, que ousado, Fell. Não imaginei que fosse desses. – Jean respondeu. – Você me deu uma ótima ideia: Vou reservar o calabouço só para nós nos divertirmos juntos um dia desses.

Chris bufou alto e chamou quatro dos sete para se juntar ao grupo dele e começou a apresentar a base para eles.

—Não adianta tentar escapar, Ford! Você ainda vai ser meu! – Jean gritou para ele, que não o deu ouvidos. – Ele está tão na minha que tem vergonha, aposto. – Concluiu mais baixo. – Que fofo. Um dia vou conseguir mostrar a ele que não precisa ser tímido assim perto de mim.

E então pegou o restante e começou a mostrar a base para eles. Quer dizer, para quase todos. Aquele que ficou encarando Hyun-Ae antes continuava a encarando. Ele parecia estar próximo de sua terceira década de vida. Tinha cabelo preto escorrido e fisionomia ainda um pouco infantil para a idade.

—Ahn... – Hyun-Ae começou. – Eu não instalei direito o tradutor em você? Você precisa seguir um dos guias para conhecer a base, seu novo lar.

—Hyun-Ae? – Ele perguntou. – Yi Hyun-Ae?

Hyun-Ae franziu as sobrancelhas de surpresa e estranhamento.

—Como sabe meu nome?

O garoto se aproximou mais dela. Seu olhos estavam lacrimejando.

—Sou eu. Daisuke. Yi Daisuke. Não se lembra de mim? – Perguntava desamparado. – Seu filho.

Hyun-Ae teve um sobressalto maior. Deu um passo para trás.

—Desculpe, mas você deve estar me confundindo com outra Yi Hyun-Ae. – Disse. – Nunca tive nenhum filho.

Aquilo parecia ter atingido ele no coração como uma flecha.

—Mãe, sou eu, não se lembra? Você me adotou porque fui vítima daquele furacão que teve no sul e desde então virei seu ajudante na hora de testar os projetos de engenharia. – Recordou. – Só que teve aquele dia em que recebeu uma carta para estudar na Groelândia ou algo assim. E você aceitou. Pouco tempo depois o mundo acabou e pensei que não iria nunca mais te ver. Mas ouvi comentarem sobre este lugar, esta base, em que aqueles que conseguiram fugir dessa ordem ficavam e resolvi que valia a pena tentar. E aqui está você!

O garoto correu para abraçar Hyun-Ae, porém ela desviou e se escondeu atrás de Henry, que chamou seguranças para leva-lo aonde ficavam aqueles que não se curaram ao todo da doença. Quando ele saiu, Hyun-Ae se desgrudou de Henry.

—Me desculpe pelo inconveniente, senhor Murray.

—Não, está tudo bem. Estou aqui para isso, não é mesmo?

—Mas... É que tem uma coisa que me deixa inquieta. – Contou. – Ele sabia meu nome completo. Como saberia algo assim?

Henry sorriu para acalmá-la um pouco. Se lembrava dela no grupo que invadiu seu escritório 15 anos atrás. Quem diria que agora ela estaria passando pela mesma coisa que ele?

—Há muito tempo atrás, quando tudo começou, um grupo desses entrou no escritório dizendo me conhecer e sabiam meu nome também, quando na verdade não nos conhecíamos. – Revelou. – Chamamos esse “distúrbio” de Memorgis. Ainda não sabemos como isso acontece, mas estamos investigando.

Hyun-Ae ficou de cabeça baixa.

—Espero que esteja certo. – Falou. – Quero dizer, se eu tivesse tido um filho, lembraria, não? Que tipo de monstro horrível uma mãe seria se não se lembrasse do próprio filho? – Ela levantou a cabeça novamente. – Bem, penso que já o atrapalhei demais, senhor Murray. Vou voltar agora mesmo para meu trabalho. Até mais.

—Até. – Henry se despediu enquanto a outra se dirigia para os andares de cima.

Pegou o papel que David o entregou do bolso e o desdobrou.

“Primeira tarefa: Checar como as coisas andam no laboratório”.

...

“Concentração! Concentração!” – Pensava consigo mesmo. – “Se colocar mais do que o necessário anula tudo o que fez até agora. Isso tem que ter a reação certa.”

O químico, porém, prestava tanta atenção em seu conta-gotas que não percebeu sua colega de laboratório e aprendiz chegar por trás.

—E aí, chefinho! O que está fazendo?

E então já era tarde demais para salvar a amostra. Caiu tanto do reagente no resto do líquido que bolhas começaram a sair do tudo de ensaio de modo que parecia uma explosão de vulcão de bicarbonato de sódio.

Ele teve que respirar profundamente várias vezes para não ter um ataque naquele momento.

—Carol, como espera evoluir sua carreira neste setor do laboratório se sempre atrapalha nas descobertas importantes? Eu não tenho poder para tanto, mas o nosso chefe pode te demitir se continuar assim.

—Ah, Ed. Qual é? Você não contaria isso ao senhor Flemming, não é? Eu sou só uma aprendiz aqui. E, além disso – Ela se aproximou mais dele, que estava limpando a bancada para começar tudo de novo, e cochichou em seu ouvido. – sou eu em quem você confia para guardar suas seringas com seus remédios.

Ed deu uma risada sem graça. Realmente não gostava de falar muito, mas sua aprendiz o forçava a tanto.

—Ameaças para cima de mim? Sabe que isso não funciona.

—Ameaça? Não, só estava falando o quanto sou importante para você. – Parou um pouco. – Bem, parando para pensar agora, realmente parece uma ameaça. Mas juro que não foi essa a intenção.

—Isso em que estou trabalhando é muito importante. É sobre essa doença misteriosa a qual muitas pessoas chegam aqui dizendo conhecer alguém daqui com uma história envolvendo uma escola na Groelândia. É realmente algo sério, e brincar como você faz só atrasa tudo.

—Ah, tá. Mas tem algo mais importante do que isso agora.

—O que pode ser mais importante do que o trabalho?

Carol puxou Ed pela manga do jaleco apontando para a entrada do laboratório.

—Aquilo lá!

Ed virou-se e percebeu que seu chefe, John Flemming, estava mostrando as pesquisas dos outros setores para Henry Murray. A verificação semanal era naquele dia e o escolhido para isso foi o líder inglês. Ed ficou nervoso por alguns instantes, mas conseguiu se controlar facilmente, voltando ao normal antes que qualquer um pudesse perceber.

—Seu crush! – Carol complementou.

Ed observou-a de lado.

—Eu não gosto dele. – Disse seco. – Graças a você não teremos nada para mostrar.

Carol fez beicinho, mas se endireitou quando John Flemming chegou ao lado do líder, que estava com um bloquinho na mão, anotando tudo o que os outros diziam.

—Edward Flemming, o líder do setor de medicamentos. – John o saudou. – Tenho certeza que deve ter feito descobertas interessantes essa semana.

Ed apontou várias fórmulas e aperfeiçoamentos que os outros cientistas do setor fizeram, mas parecia que Henry estava apreensivo com outra coisa.

—Mas e quanto à cura da Memorgis? – Questionou quando o outro terminou de falar. – Algum avanço?

—Infelizmente, não conseguimos nada. – Ed respondeu olhando feio para Carol, que deu de ombros. – Mas estamos trabalhando duro para chegar a uma conclusão.

Henry deu um suspiro alto e triste de cansaço e preocupação.

—Hoje chegou um rapaz que dizia que uma das monitoras era a mãe dele. – Revelou. – Também lembro que uma vez chegaram uma mulher com duas crianças dizendo ser sua mãe e esposa dele. Parece que estão surgindo cada vez mais pessoas assim. Não podemos usar o apagador de memória para sempre. Por isso espero que realmente a cura venha rápido.

—Claro, senhor Murray. Sabendo desse novo incidente, iremos aumentar nossa dedicação.

John Flemming levou Henry para analisar outro setor e Arícia se aproximou mais uma vez para falar com Ed.

—Viu? Você ficou nervoso ao falar com ele.

—Claro que fiquei nervoso. Não concluí o trabalho mais importante. – Constatou. – Veja bem, eu só comentei semana passada que ele é bonito, esperto e gentil por que são características difíceis de achar juntas em um líder. E isso é só. Ele não parece ser o tipo que eu teria como amigo. Agora, permaneça em silêncio e me passe o elemento ao seu lado.

...

Henry ficara triste e desapontado por não terem terminado ainda o antídoto desse fenômeno estranho que era a Memorgis. Ter que mandar que passassem pelo apagador de memória parecia ser muito errado, mas era a única solução disponível no momento. Decidiu, porém, que antes de fazer a próxima tarefa da lista, veria sua esposa e seu filho no maternal. Isso o deixaria mais contente.

Bateu na porta do maternal algumas vezes e então abriu a porta. Todas as mães e a professora olharam para ele.

—Olá. Desculpe interromper, mas será que poderia roubar a Arícia e o Valentim de vocês só um minutinho?

Algumas mulheres suspiraram comentando como queriam que seus maridos as visitassem durante o dia. Arícia, antes de sair da sala, as deu um olhar mortífero como se dissesse “Ele é meu e ninguém tasca”, o que fez com que todas se calassem.

Do lado de fora, os três se deram um abraço triplo bem amoroso com direito a um beijo na testa do filho e outro nos lábios da mulher. Ao se afastarem, Henry observou um pouco sua esposa, Arícia, e o filho deles, Valentim. O menino só tinha dois anos, mas já se mostrava bem parecido com o pai. A pele era cor de cobre e os cabelos lisos e negros como ébano, apesar dos olhos cor de amêndoa serem da mãe. Ele era mesmo um bebê muito fofinho em seu macacão verde e rostinho de sono.

—Oi, querido. Como você está?

—Bem, dirigir isto aqui cansa, mas não é nada que o superpapai aqui não consiga fazer.

—Ainda bem, porque o superpapai daqui a pouco vai ter que tomar vergonha na cara e cuidar do filho, já que a supermamãe vai ter que trabalhar.

—Calma lá, que eu ainda tenho muita coisa para fazer e falta uma hora para a aula acabar. – Começou. – E, além disso, continuo achando que você na cozinha é um perigo. Não vai sobrar nada para os outros comerem, coitados.

—Há há há, engraçadinho. É por isso que sou a responsável pelas comidas naturebas. – Explicou. – Como só devoro comida boa, não tem perigo.

—Mas, e então, como o pequeno Tim está indo hoje?

—Ah, ainda bem que perguntou. – “Como se não fosse falar por si mesmo se não perguntasse” Pensou Henry. – O Tim aprendeu a contar até dez! – Contou. – Com o ábaco!

—Nossa! Isso é muito bom!

Neste momento Chris passou correndo e logo atrás vinha um Jean cheio de implicância. Isso atraiu a atenção da família, que os observou passar.

—Eles são engraçados, esses dois. – Arícia comentou. – Sinto que conheço aquele Christian de algum outro lugar.

—Ele é um guia recorrente. Deve ser por causa disso. – Constatou. – Bem, gente, por mais que eu queira ficar aqui com vocês, papai tem que trabalhar.

—Ah, sim, claro. – Arícia concordou. – Tim, dá tchau pro seu pai.

—Tau, papai. – O menino acenou enquanto falava errado. Os pais riram enquanto Henry se afastava.

Henry, dessa vez, foi correndo até a sala de treinamento do exército. Segundo a lista, precisava ver qual estratégia seria utilizada para a próxima vistoria contra o mercado negro. Subiu até as salas especiais do último andar e interrompeu o treinamento. A general deixou a monitoria com um dos subornados e se dirigiu a Henry batendo continência.

—General de Exército Isis Khumalo se apresentando ao serviço, senhor.

Os dois foram para a sala de planejamento estratégico, alguns andares abaixo, e conversaram bastante sobre o mapa tático de onde procurar os bandos que traficam os objetos da base para as pessoas de fora e como atordoa-los sem chamar muita atenção. Na hora da finalização, porém, foram mortalmente interrompidos por um árabe que chegou com um menino de 5 anos e uma garota de 12.

—Isis, já é quase meio-dia. – Avisou. – Seus filhos estão com fome. Vamos logo almoçar que daqui a pouco preciso pegar o meu turno no trabalho.

—Miguel! – Isis repreendeu. – Agora sou eu quem está trabalhando! Podem ir comendo, mais tarde encontro vocês no refeitório.

Miguel fez uma expressão de aborrecimento no rosto e continuou.

—Você sempre diz isso, mas nunca aparece e sempre acabo chegando atrasado para o trabalho por causa disso.

Isis levantou o olhar do papel com a aparência mais braba do que um touro mecânico.

—Ah, não. Você não vai começar isso aqui, vai?

—Ora, não é só essa questão! É tudo! – Miguel desabafou. – Você sempre foi assim! Sempre os assuntos militares antes de qualquer coisa! Hoje foi a formatura de passagem do Ali do maternal ao nível 1, mas você compareceu? Nãooo! E também foi a mesma coisa quando a Maya fez as transições dela. E nem para perguntar a noite como foi a festa, se sua May estava feliz, porque chegou com a porcaria de uma metralhadora para lustrar. – Pausa dramática. – Uma METRALHADORA! Como acha que seus filhos vão crescer com esse tipo de visão em casa!? Sou praticamente um pai solteiro!

—Caramba! Toda semana é essa mesma ladainha! Será que você só sabe reclamar!? – Revidou. – Acha que é fácil comandar o exército, ficar com as crianças enquanto você trabalha e ainda chegar em casa antes do dia acabar e deixar trabalho para o dia seguinte só para poder ver minha família alguns minutos antes de dormir e depois acordar antes de todo mundo só para repetir a rotina toda de novo!? Que manter isso tudo aqui seguro para que quando cresçam possam seguir a vida mais facilmente do que nós seguimos?

—Mas a que preço? Eles precisam da figura materna na vida deles! E de todas as mulheres eu escolhi você para ser a figura materna de meus filhos! Eu só queria um dia em que todos nós estejamos juntos como uma família normal!

—E é para isso que estou perdendo o tempo em família agora! Para que no futuro possamos estar todos juntos novamente, com nossos filhos crescidos e netos seguros e protegidos! Porque eu amo vocês! Eu te amo, Miguel!

—Também te amo, Isis!

E a briga de repente se encerrou em um amasso intenso. Henry estava aterrorizado com a cena que acabara de acontecer em sua frente. Se virou para o filho do casal, que estranhamente estava bem com aquilo.

—Sabem, se fossem meus pais, já estaria escondido em baixo da mesa.

Os dois deram de ombros.

—Já estamos acostumados. Eles sempre desabafam e depois fazem as pazes desse jeito.

—É. E depois disso sempre nos dão sorvete!

—Err... Está bem, então. – Henry achou melhor não falar mais nada. – Já peguei tudo que preciso, então já vou indo.

O casal não percebeu a saída de Henry e ele não fez questão que reparassem. Simplesmente continuou suas tarefas como se nada tivesse acontecido.

...

—Ah, Murray. Finalmente chegou. – Zulu o saudou. – Onde estava?

—Terminando as tarefas que Moore passou.

Henry espalhou pela mesa da sala de reunião do terraço para que todos pudessem ver as informações e se sentou. Agora um projetor foi instalado por causa da conferência que teriam com a família real dinamarquesa, que foi o único reino que não foi infectado pela doença.

—Ótimo. – Dong-Su elogiou. – A qualquer momento eles começarão a conversa e então estaremos livres para almoçar.

Pareceu que foi só falar neles que estática apareceu na tela e revelou a família real dinamarquesa. No canto direito, a rainha Margareth VI. No esquerdo, o príncipe consorte Harold I. E no meio havia um jovem de quase 15 anos que nunca apareceu antes. Ele tinha o cabelo moreno claro, o queixo e as orelhas como de Harold e olhos castanhos, bochechas e nariz como o de Margareth. Estava meio óbvio que só poderia se tratar do filho do casal, o príncipe. Por algum motivo que Henry desconhecia, eles estavam sempre parecendo estar de mau humor quando tinha conferência com eles, como se fossem prisioneiros falando com os guardas.

—Boa tarde. – A rainha saudou. – Espero que não se importem que nosso filho esteja aqui dessa vez.

—Ambos concordamos que Harold II tem idade o suficiente para aprender o que fazemos aqui para quando for nos substituir. – Harold pai complementou.

—Não que eu realmente queira... – Antes que Harold filho completasse a frase a mãe deu-lhe uma cotovelada de leve no braço para que parasse de falar. – Ai!

A discussão sobre as relações Base-Dinamarca durou um tempo até que deram por falta de um documento que ficou no andar de baixo.

—Vou pegar. – Henry disse enquanto se levantava para descer as escadas.

Henry se meteu por entre as caixas até achar o documento entre uma e outra. O puxou, mas assim que o fez caiu mais papéis e poeira sobre ele. Começou a catar tudo quando uma manchete de um jornal antigo chamou-lhe a atenção:

“EUA confessa produzir novo gás mortífero junto ao laboratório australiano ‘Quimical Rush’. Mais informações na página 3.”

“Engraçado”. – Pensou. – “É o mesmo laboratório que a família de Jefferson administrava.”

A curiosidade de Henry não pôde resistir em dar uma olhada naquela matéria. Iria levar só alguns segundos. Mas duraram minutos. Toda a verdade estava vindo à tona. Não parecia ter vírus nenhum, e o fim do mundo, a cada novo jornal que Henry revirava, se tornava cada vez mais real. Mas o que estava acontecendo?

—Murray? Murray? – Moore chamava por ele ao longe até o notar entre duas caixas. – O que está fazendo aí? Já se passaram quase 15 minutos e você não voltou.

Henry se levantou e David conseguiu ver o que ele estava lendo.

—Moore... – Henry mostrou uma página onde tinha a imagem de uma simulação de como a bomba de gás agiria. – Você sabe o que é isso?

—Oh, Henry. – David nunca o chamava pelo primeiro nome. – Esperava que esse dia nunca chegasse...

Notas finais
Como é de costume meu, aqui vão algumas curiosidades referências e mudanças que fiz no decorrer da história: —Para quem leu AS (AntiSociedade), volta lá um pouco que irá perceber: Moore era o cara que aparecia no documentário que Michael e cia assistiu após fingirem se aliar aos líderes. —O fato de Henry gostar dos nomes Kelly e Helen se deve ao fato de que elas são suas descendentes em AS. —Não sei se repararam, mas o sobrenome de Miguel (Lieber), é o mesmo sobrenome de Joseph de AS. Então, sim. Joseph é parente distante do líder Zaíre Khumalo. —Ed tinha uma quedinha pelo Henry. Penso não ter deixado isso claro, mas em alguns trechos dei dicas sutis quanto a isso. Alguém conseguiu perceber? —Agora deu para perceber como o Edson, de AS era meio louco e passou a insanidade para a Kelly. Desde o princípio, por causa dessa descoberta de Henry, os Murray foram suprimidos como "chances altas de rebelião", vamos disser assim. Ah, e para quem acha que ainda viu pouco da minha chatice, não tem problema. Fiquem ligados neste capítulo, pois a qualquer momento o atualizarei com o link da minha próxima fanfic sobre as Crônicas dos Kane, assim que eu lançá-la. E também queria saber o que vocês acham de uma página no twitter para minha conta no Nyah. É que enquanto escrevia esta história sentia tanta necessidade de compartilhar algumas coisas com vocês, mesmo não podendo, que talvez criar uma conta no twitter fosse a melhor solução. Bom, gente. É isso. Espero que tenham gostado e que nos encontremos mais vezes. Até a próxima, ;)!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!