Instinto Certeiro

1 A aprovação em um latido!


Notas iniciais
Boa leitura! ♥

Aburame Shino, um Alpha que estava muito satisfeito com sua vida. Era um professor renomado na Academia de Konoha, apesar de ter tido um começo controverso. Era cultural que as salas de aulas fossem assumidas por Omegas e, algumas vezes, por Betas. Um Alpha dando aula para crianças? Raríssimo.

Mas ele mostrou com perseverança, paciência e dedicação que casta tinha pouco a ver com competência em sala de aula. Aos poucos angariou reconhecimento e conquistou a confiança da comunidade a ponto tal que os pais disputavam com fervor uma vaga na classe desse homem.

Sim. A carreira era um ponto incontroverso de bons resultados.

Já a questão pessoal gerava certa polêmica. Era um homem de quase quarenta anos, solteiro convicto e nada interessado em mudar seu status nas (poucas) redes sociais que alimentava de quando em quando. Decisão que desafiava o entendimento dos colegas e amigos, afinal de contas, quem em sã consciência escolheria abraçar a solidão a ter uma família e ser produtivo para a sociedade contribuindo com filhos e uma descendência?

Pois, aparentemente, Shino estava muito satisfeito com a vida previsível, rotineira e panejada que seguia um rumo sem surpresas e reviravoltas. Sentimento que não o isentava da “preocupação” de amigos e suas indesejadas interferências. Como se não bastassem comentários inconvenientes, ainda existiam empurrõezinhos para encontros às cegas em que talvez algum tipo de amor surgisse...

O Alpha aceitava com estoicidade um ou outro, para que o deixassem em paz por um tempo; sabendo que sua aparência exótica e seu jeito introvertido afastariam qualquer pretendente e ele voltava à vidinha de sempre.

E era assim que ele estava indo para mais um desses arranjos que lhe empurravam, disposto a passar uma parte da noite (talvez menos de uma hora) tentando interagir com uma pessoa estranha que nem disfarçava o arrependimento e a vontade de encerrar tudo e voltar para casa. Ele, ao menos, ocultava tais sentimentos por trás da face que nunca exibia o que seu coração sentia.

Chegou ao parque central de Konoha uns dez minutos antes do horário combinado, um tanto surpreendido pelo lugar escolhido. Geralmente seus dates preferiam restaurantes, cinemas ou shoppings. O parque às nove da manhã era... atípico. Era impossível não ficar curioso.

Tão logo passou a caminhar entre os canteiros floridos daquele começo de abril, captou os olhares que atraia. A figura alta, de inegável presença Alpha, vestido com um longo casaco apesar do calor, cuja gola escondia quase metade do rosto assim como os óculos de sol escondia outra parte significativa sempre atraia a atenção. Já estava acostumado.

Andou por algum tempo até encontrar um banco vago sob a copa de uma sakura. A chuva de pétalas rosa já diminuíra bem, conquanto continuasse uma cena linda de se ver. Ficou sentado ali, silencioso e observador por quase meia hora, tentando concluir se o date estava atrasado ou havia desistido quando notou um mastim de pelo branco e tamanho significativo se aproximar para farejar os seus sapatos.

O grande cão preso numa coleira vermelha de onde escapava uma corrente, vinha quase arrastando um Omega ofegante, de face corada e um tanto suada. Alguns fios de cabelo castanho grudavam na testa pequena e triângulos tribais charmosos competiam com o leve rubor por espaço nas bochechas fofinhas. Começou a se dar conta do inusitado aroma de morangos quando um choque de realidade cortou a sensação:

— Caralho, Akamaru! Sei que tô em forma, mas haja pique!

A resposta do animal foi sentar-se sobre as patas traseiras, entreabrir a bocarra e deixar que uma parte da língua escapasse por entre a respiração barulhenta.

Shino ficou um tanto chocado com a falta de modos e limpou a garganta tentando se recompor. Isso atraiu os olhos castanhos que, por sinal, tinham uma constituição rara, quase animalesca. Surpresa modificou a expressão do rapaz por um segundo, logo sendo substituída por um sorriso enorme que exibiu uma fileira de dentes perfeita em que caninos proeminentes se destacavam:

— Shino? Só pode ser, Naruto caprichou na descrição — estendeu a mão livre — Sou Inuzuka Kiba. Prazer em conhecer. Esse é o Akamaru, meu amigão.

Shino demorou meio segundo para compreender que ali estava a segunda metade do seu encontro. E mais meio segundo para estender a mão e devolver o cumprimento aos modos ocidentais.

— O prazer é meu — devolveu um tanto baixo, sem mentir. Porém sem muita certeza de estar sendo totalmente honesto.

— Essa árvore é boa, o que acha de montar o piquenique aqui? — o Omega sugeriu olhando ao redor.

— Piquenique? — Shino repetiu — Nós combinamos um?

Isso atraiu a atenção alheia. O rapaz mirou de volta, com as sobrancelhas franzidas de leve:

— Ué? Não ficou nas entrelinhas? O que achou que a gente ia fazer num parque? Caminhada? — hesitou — Não que seja ruim, mas para um primeiro encontro seria melhor caprichar mais, não?

— Sim...? — o Alpha devolveu, novamente inseguro. A situação estava totalmente fora do que se habituou!

— Beleza, Shino — muito a vontade por tratar um desconhecido com tanta intimidade, apontou um espaço mais próximo do tronco da árvore que fornecia a sombra. O ponto alto do Hanami já tinha passado, poucas pessoas confraternizavam no gramado, tornando fácil encontrar um lugar agradável.

— Parece bom — respondeu se erguendo do banco e seguindo o outro.

Só então notou que a mochila de uma alça que ele carregava estava bem gordinha, o Omega veio mesmo preparado para o piquenique!

A primeira coisa que Kiba fez foi soltar o cachorro da coleira, permitindo que explorasse os arredores. Isso deixou Shino um tanto preocupado, seria prudente soltar um animal tão grande onde desconhecidos passavam?

Kiba pareceu ler a dúvida, pois enquanto agitava uma toalha vermelha tirada da mochila, comentou:

— Akamaru é muito comportado. Minha família trabalha com o adestramento de animais a gerações!

A resposta serviu para acalmá-lo, permitindo que assistisse enquanto o rapaz tirava uma vasilha da mochila e uma garrafinha térmica. Ficou um tanto incomodado por não ter trazido nada. Mas como ia abduzir das “entrelinhas” que fariam um lanche informal no gramado? Shino pensou que o parque seria o ponto de onde iriam para outro lugar!

Em silêncio pegou o celular do bolso do casaco:

— Vou pedir algo pelo IFood...

— Não precisa — Kiba cortou e mostrou a vasilha cheia de onigiri — Tem bastante aqui.

O Alpha observou os bolinhos, em dúvida sobre a segurança de ingerir aquilo. Nenhum deles tinha o mesmo tamanho e todos apresentavam uma aparência disforme...

Ignorando os pensamentos duvidosos que iam pela mente do outro, Kiba ajeitou-se na toalha vermelha, colocando a guloseima no meio junto à garrafinha. Terminou tirando da mochila: dois copos de plástico, uma garrafa de água e uma vasilha para cachorro. Shino ficou chocado tentando imaginar como tudo aquilo coube na mochila.

— Akamaru! A água está aqui. E se for esvaziar o tanque me avisa, não podemos deixar minas no gramado!

O chamado fez o cachorro voltar correndo para dar umas lambidas na água fresca, por fim deitando-se com parte do corpo na toalha, parte na grama; onde passou a acompanhar a interação dos humanos.

Foi a vez de Shino acomodar-se de frente para Kiba, que sorria animado.

— Tem certeza? — Shino indagou — Posso encomendar alguma coisa, talvez a sobremesa.

Mal terminou de falar e viu os olhos brilharem interessados, mas a resposta foi um gesto de mãos descartando a oferta.

— Aqui perto tem lugares que vendem sobremesas. Conheço uma sorveteria no outro quarteirão que é ótima, relaxa.

— Okay — concordou simplista.

— Aqui, pega — estendeu vasilha com bolinhos.

O Alpha não quis ser grosseiro e recusar a gentileza pouco apetitosa, por isso aceitou fisgar um. O gesto foi imitado por Kiba que não pensou duas vezes antes de morder com gosto, engolindo quase metade do onigiri antes de recolocar o recipiente ao alcance de ambos.

Menos empolgado, Shino mordeu a ponta do bolinho e surpreendeu em como o gosto era diferente da aparência: muito bom. O arroz estava no ponto certo, o tempero era suave embora perceptível, o recheio de salmão vinha caprichado.

— Bom — elogiou antes da nova mordida mais confiante.

— Hum, fica tranquilo — a resposta foi dada de boca cheia — Fiz só de salmão. Nem todo mundo gosta de umeboshi, preferi não abrir muito as opções.

— Obrigado — falou com sinceridade. Não era muito fã de alimentos com gosto forte demais.

— Não sou nenhum chefe culinário, mas o básico eu sei fazer — a revelação veio sem afetação, mas ficou arrogante no complemento — O onigiri é a minha carta na manga, porque eu sei que fica bom pra caralho e...

Calou-se, enquanto o rosto ganhava um adorável rubor que divertiu Shino:

— Carta na manga? — provocou de leve antes de terminar o primeiro bolinho.

— Pra uma boa primeira impressão — Kiba revelou evitando qualquer contato visual — Nada a ver com... cê sabe... fisgar pelo estomago... hum, pega mais!

Terminou a frase empurrando os alimentos para mais perto do Alpha, que assistiu distraído. Era impressão sua ou tinha algo cheirando a morangos por ali...?

— Ei!! — a voz de Kiba soou um tantinho irritada, trazendo o outro de volta dos próprios pensamentos.

— Desculpe, o que disse?

— Eu disse: “então você é professor na Academia de Konoha?” — repetiu com um biquinho mal-humorado. Odiava ser ignorado daquele jeito e Shino ficou distraído por alguns segundos.

— Sim, eu sou.

— O Naruto comentou. Achei bem legal, porque você é um Alpha e tal. Não deve ter sido muito fácil.

Shino pegou um novo onigiri, aproveitando para ganhar tempo. Lembrou-se que Naruto era companheiro de Uchiha Sasuke, responsável pelo setor jurídico da Academia. Não eram exatamente amigos, fato que o surpreendeu um tanto quando o Omega de cabelos pretos veio sussurrar sobre encontros arranjados. Era muito fora do perfil do rapaz...

— Foi um grande desafio — admitiu por fim.

— Aqui — Kiba encheu um copo com suco de frutas que trouxera na garrafinha térmica e ofertou menos emburrado.

A aceitação foi imediata. Era algo tão fora do que estava acostumado que Shino se pegou achando tudo muito... confortável. E diferente dos encontros usuais dos quais participava.

— Obrigado. Você também trabalha com adestramento de cães? — a pergunta foi feita antes de que provasse o suco. E foi um baque que quase o fez cuspir o líquido que estava terrivelmente doce! O oposto do que preferia.

Apesar disso, fez um esforço para engolir. E, se percebeu algo, Kiba não transpareceu.

— Sim! — o Omega respondeu animado — Somos especialistas em niken, como o Akamaru!

Shino virou o rosto de leve observando o mastim extremamente comportado, pela primeira vez notando que era mirado de volta com uma atenção canina predatória. Não captava hostilidade ou perigo nos grandes olhos castanhos, mas um quê de... avaliação que o arrepiou. Estava sendo... avaliado por um cachorro?

— Ele parece bem esperto — insinuou.

— E é! — a animação de Kiba triplicou — É a primeira vez que trago ele pra um encontro. E eu nem te avisei, espero que não se incomode!

— Não me incomodo. Está sendo bem inusitado.

— Já faz um tempo que não tenho um encontro, terminei um namoro de um jeito bem ruim e fiquei meio na fossa. Foi o Naruto que me convenceu a vir nesse encontro, ele disse que você era um cara legal.

Shino ergueu as sobrancelhas querendo saber como o companheiro de Uchiha Sasuke poderia concluir esse tipo de coisa, já que mal conversavam. Incrivelmente, sentiu-se um tantinho grato. A manhã estava indo bem, apesar dos “julgamentos” caninos estava se divertindo. E o Omega era uma figura e tanto. Bonito fisicamente, de personalidade inusitada.

— Obrigado — Shino agradeceu o elogio, notando em seguida um ar de expectativa que tomou conta do rosto trigueiro. Completou fácil e sincero: — Você também parece legal.

Kiba sorriu e apontou os bolinhos que diminuíam no decorrer da conversa:

— Come mais! Não precisa ser tímido.

A sobrancelha esquerda do Alpha se ergueu atrás dos óculos de sol e ele se ouviu provocando:

— A carta na manga? — indagou apenas para ver um vermelhão subir pelo pescoço alheio e se espalhar pelo rosto a ponto de quase ocultar as marcas do clã.

— Eu... não...

— Estou brincando — aliviou — Estão muito bons.

— Pus capricho aí, Shino. Confia — sorriu evitando contato visual — Você tem quantos anos? Eu tenho trinta e cinco.

— Eu fiz trinta e seis em janeiro.

— Ah! Eu faço em julho. Dia sete de julho. Não fiz faculdade, sai do Colegial e comecei a trabalhar com minha família, fui um pouco rebelde na adolescência, mas agora criei juízo.

— Fiz Pedagogia e especialização em Pedagogia. Comecei na Academia com um estágio que foi evoluindo até se tornar um cargo efetivo e virar minha carreira. Nunca fui rebelde.

Kiba riu ao ouvir a última parte.

— Nem precisava me dizer! — exclamou servindo-se de um pouco mais de suco.

Shino observou a cena. Do mesmo jeito, ninguém precisaria dizer que aquele rapaz adorava coisas doces. Mesmo que não tivesse provado do suco, logo chegaria a tal conclusão, como excelente leitor do comportamento humano.

Conquanto, talvez, também começasse a gostar de doces, como aquele cheirinho de morango que insistia em pairar pelo ar...

*****

Depois que os bolinhos e o chá se acabaram, Kiba deitou-se na grama, usando as mãos como apoio para a cabeça e cruzando os calcanhares (apenas para ajudar na digestão). Akamaru mudou de lugar, apenas para recostar-se contra o dono. Shino permaneceu sentado, alternando olhares por sob os óculos hora para observar o céu, hora para observar Kiba.

Assim o alpha se pegou ouvindo sobre como o rapaz era rebelde na adolescência , como lutou pelo sonho de ser policial, tendo que desistir pelas limitações a própria casta. Mas nada que o impedisse de tentar ser feliz trabalhando na profissão escolhida pelos Inuzuka a gerações.

Também se pegou falando sobre sua infância, como costumava ir ao parque estudar insetos, desejoso de seguir os passos do pai e se formar na carreira de entomologista, decisão que norteou sua vida até o Colegial, época em que teve contato com outro universo pelo qual se apaixonou: a arte de ensinar um ser humano. Foi fácil abandonar o sonho infantil e abraçar a profissão marcada pelo destino. Nunca tinha revelado tanto de si em um encontro às cegas, e uma única coisa serviu como incentivo. Sentia que aquele Omega estava interessado de verdade em conhecer sua história.

Quando o assunto se esgotou, restou um silêncio confortável. O clima abafado trazia certa letargia, fazendo Kiba suspirar vez ou outra.

— O que acha de um sorvete? — Shino ofereceu apesar de saber com certeza qual seria a resposta.

— Claro! Conheço uma lanchonete ótima, você vai gostar.

Rapidamente juntaram as coisas, com Kiba socando tudo de qualquer jeito na mochila. Logo indicava o caminho do lugar conhecido que era perto dali.

E estava lotado! Tiveram que entrar na fila e esperar mais de quinze minutos.

— Vale a pena! — Kiba garantiu quando viu que estavam demorando.

— Eu acredito — Shino não sentia pressa alguma em ir embora.

A afirmativa recebeu um sorriso enorme por parte do Omega e um latido vindo de Akamaru. O mascote parecia lembrá-los de que estava ali e merecia um docinho também.

Todavia não ganhou nada, claro. Não era apropriado para cachorros. Foi impressão de Shino ou Akamaru pareceu emburrar?! Eita!

Segurando os sorvetes sabor morango nas mãos, voltaram para o parque, para terminar o passeio. O local estava mais cheio, não encontraram nem um banco para se sentar, conquanto fosse igualmente divertido apenas andar pelo caminho de cimento sobre a grama.

— Foi um encontro bem divertido! — o Omega exclamou quando o sorvete terminou — Obrigado!

— Também achei — Shino soou sincero. Foi divertido e diferente de tudo o que havia experimentado antes — Podemos trocar contatos?

— Sim! — Kiba concordou, já sacando o celular e esperando que o Alpha fizesse o mesmo para que trocassem os contatos por aproximação.

— Posso te chamar para um segundo encontro? — a pergunta saiu dos lábios de Shino sem que fosse planejado.

Nunca antes sequer sentira vontade de rever as pessoas com as quais se encontrou. E aquele rapaz exótico, preparado para um piquenique e acompanhado por um cachorro o fez se sentir mais confortável do que qualquer outro.

Talvez valesse a pena tentar conhecê-lo um pouco mais...

Porém Kiba coçou a nuca um tanto sem jeito, olhou para um lado, depois para o outro evitando contato visual, até que encarou o Alpha:

— Posso dar resposta hoje a noite?

Shino ficou um tanto chocado. Ou nem deveria. Sua aparência fora dos padrões e seu jeito um tanto sombrio causavam a mesma reação nas pessoas. As afastavam de sua vida.

Ignorando a insegurança disparada no coração do Alpha, Kiba explicou:

— Cara, eu sou péssimo com relacionamentos. Muito azarado, sabe? Meu último namorado era um escroto e não foi por falta de aviso. Dessa vez eu trouxe o Akamaru, vamos conversar quando chegar em casa e se ele aprovar, tudo bem!

Dessa vez Shino ficou MUITO chocado. Ele acabou de ouvir que seria avaliado por um cachorro?!

— O quê?!

— É, Shino. O Akamaru me avisou que o meu ex era um cuzão, mas eu ignorei. Esse cachorro tem um instinto certeiro! Vou confiar nele. Pode ser?

Shino suspirou. Bem, aquela desculpa era nova e criativa. Seus dates anteriores não se preocupavam em justificar a dispensa. Aquele rapaz ao menos estava sendo gentil e... os pensamentos foram cortados ao notar os olhos castanhos enormes de Akamaru em si, atentos e curiosos. Avaliadores.

Seria possível que...? Não!

— Tudo bem — concordou distraído, preparando-se para nunca mais ver aquele rapaz interessante outra vez.

— Perfeito! Vamos, Akamaru! Até mais, Shino.

— Até...

Observou o Omega dar meia volta e afastar-se alguns passos. Apenas para parar e olhar por sobre o pescoço:

— Akamaru? O que foi? — indagou confuso, notando que seu amigão nem saiu do lugar.

Como resposta, recebeu um latido animadíssimo.

Sem compreender nada da cena, Shino assistiu um vermelhão subir pelo rosto do Ômega, enquanto ele corava sem jeito. Um cheiro irresistível de morangos o atingiu e o deixou um tanto sem fôlego. Era delicioso.

— Akamaru! Assim, do nada? Só... caralho!!

O Alpha mal notou a agitação alheia, concentrado que estava em apreciar o aroma instigante. Como algo podia mexer com seus instintos assim, dando um contraditório tom de aconchego ao seu coração?

— Ei?! — por fim o tom ofendido de Kiba trouxe Shino de volta de seus devaneios. Ele abriu os olhos que mantivera semicerrados sem perceber. As narinas se movendo como se seu inconsciente quisesse mais daquele cheiro...

— Sim? — indagou por fim, um tanto quanto vítima de certo embotamento mental.

— Tem certeza, Akamaru? — o mal humor latente despertou Shino de uma vez. O homem deu-se conta do rapaz emburrado na sua frente, os braços cruzados e ofendidíssimo por ter sido ignorado.

Um latido foi uma resposta cheia de ênfase e certeza.

— Me desculpe — Shino sussurrou — Me distrai.

— Notei! — o bico diminuiu um pouco — Akamaru disse que você está aprovado para um segundo encontro. Só nós dois dessa vez, mas já to pensando em retirar a oferta. Você dormiu aí?

— Não! Não... — Shino surpreendeu com a própria reação enfática. Não era um homem de impulsos, conquanto sentiu medo de perder a oportunidade — Será um prazer. Obrigado.

Kiba sorriu largo, sem um resquício da expressão emburrada restou na face trigueira. Ele era só alegria.

— Ótimo! Dessa vez vou ouvir os conselhos do meu grande amigo e confiar. Ele disse que você tem cheiro de ser um cara legal, então vou investir.

Oras, Shino quase rebateu que em contrapartida, o Omega tinha cheiro de morangos! Era óbvio agora, aquele aroma só podia ser os feromônios do outro homem tentando seduzi-lo. E estava funcionando. Ah, como estava!

Para disfarçar os efeitos, virou-se para Akamaru e coçou atrás da orelha branquinha.

— Obrigado, garoto — brincou de um jeito que era fora do seu jeito rotineiro. Prometendo secretamente que faria tudo para honrar aquele voto de confiança canino.

Kiba nada disse, além de oferecer um sorriso ainda maior. Alívio era a palavra que o definia naquele instante. Tinha gostado daquele Alpha alto, bonito e misterioso. Gostou do jeito introspectivo e atencioso, cheio de gestos respeitosos que não passavam de qualquer limite pessoal, de como ele parecia interessado e prestava atenção no que dizia. Shino lhe causou uma forte primeira impressão, queria reencontrá-lo e conhecê-lo melhor!

Mas foi sincero: era um desastre ao escolher os parceiros. Seu último namoro terminou de um modo quase catastrófico. E não foi por falta de aviso: Akamaru parecia odiar o sujeito. E fazia questão de deixar claro o tamanho do ranço.

Assim como mostrava que gostou de Shino. E que aquele professor calmo e agradável estava aprovado. Tanto pelo dono quanto pelo mascote!

Inuzuka Kiba colocou toda a sua fé no latido que garantia a aprovação de Aburame Shino. E jamais se arrependeu de confiar no instinto canino. Instinto certeiro!

Notas finais
foi inspirada em uma imagem!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!