Insomniacs
1 Capítulo Um - Sr. Solitário
Qualquer um que olhasse para Alex naquele momento, diria imediatamente que ele estava deprimido. Se qualquer um de seus amigos possuísse um diploma em psiquiatria, ele provavelmente acreditaria. Mas se um desses amigos fosse Scott Favors, que se apresentava como sendo uma das pessoas mais inteligentes do mundo, então Alex teria achado essa coisa toda de depressão totalmente hiperbólica. Mesmo quando Oliver White — outro amigo querido que era especializado em tomar conta de tudo e todos do grupo — disse que ele precisava de ajuda, Alex ainda assim não acreditava nele, pondo essa história de depressão toda de lado mesmo depois de tendo gastado a semana inteira trancado em seu quarto, como se isso fosse normal.
Não, Alex Webber estava bem. Ele não precisava de ajuda.
Alex Webber estava perfeitamente bem.
Mesmo quando ele parecia não conseguir fechar os olhos para cair num sono que ele tanto ansiava, ou quando sua cabeça não fazia nada além de doer, ele ainda pensava que estava tudo bem. Ou era sua cabeça ou o seu quarto que parecia rodar em várias direções, ele não se lembrando de ter lido ‘perfeitamente capaz de rodas 360 graus’ na descrição do apartamento antes de aluga-lo.
As vezes ele tinha a impressão de ouvir vozes só para então perceber que não era nada a não ser os movimentos nos vizinhos. As vezes ele tinha a impressão de ver silhuetas andando pelo apartamento, apenas para perceber que eram apenas seus olhos brincando com ele.
Um dia, ele realmente parou para pensar nas palavras de seus amigos, se perguntando se isso era realmente depressão ou algum outro tipo de doença mental em desenvolvimento. Mas então, nada realmente tinha acontecido para que ele ficasse assim, e depressão não se criava tão facilmente, não é? Não era como se ele tivesse acordado em um dia e estava de repente deprimido. Não, isso era impossível.
Era sua terceira noite sem dormir. Max havia uma vez lido em um artigo na internet sobre como alguém poderia morrer se não tivesse dormido por mais de alguns dias, mas Alex achou isso claramente exagerado. Olhe para ele, ainda vivo e perfeitamente bem. Era sua terceira noite sem dor e quase uma semana e meia desde que ele havia saído de seu apartamento. O relógio na parede marcava exatamente 3 da manhã.
Alex suspirou, se sentando no sofá da sala. Havia tentado dormir na cama, apenas para ficar encarando o teto ao qual já tinha se tornado extremamente familiar, tanto que ele podia contar cada rachadura. Então havia desistido e ido para o sofá, sentando-se encolhido lá e ligando a TV numa série aleatória em um canal aleatório, ao qual ele não estava realmente assistindo.
Se alguém o visse, achariam aquela imagem patética. Sua pele estava mais pálida, não tendo contado com o sol há dias. Ele apenas comia quando sentia fome (o que era rato) e ele pensou que provavelmente tinha perdido peso. Ele quase podia imaginar Oliver brigando com ele, muito vividamente. Seus olhos estavam vazios, sem brilho, sem emoção, nada. Como ele poderia estar deprimido se simplesmente não sentia nada?
Ele olhou para o relógio na parede da cozinha. 3:15 da manhã.
Seu estomago estava roncando, e ele sequer conseguia se lembrar do quê e quando tinha comido pela ultima vez. Indo até a geladeira, o nada dentro dele foi substituído por irritação quando a encontrou vazia. Checando os armários, não conseguiu encontrar nem uma misera caixa de cereal ou biscoitos. Com um bufo, ele percebeu que depois de dias trancado em seu apartamento, sua comida tinha acabado.
Ele pensou em suas chaves penduradas ao lado da porta, decidindo se era uma boa ideia sair e ir comprar algo para comer. Talvez devesse ir pelo caminho mais fácil e pedir alguma coisa de algum restaurante. Mas talvez essa fosse uma boa razão para que ele saísse para o mundo real, e comprar um estoque de comida para um mês inteiro. Seria uma boa ideia, não? Não sair de seu apartamento por um mês fazia valer a pena o sacrifício.
Era por um bem maior.
Com isso em mente, ele pegou suas chaves, calçou os chinelos mais próximos, e saiu do apartamento. Era outono e frio lá fora, mas ele tinha certeza que seu moletom aguentaria, afinal ele não faria nada além de ir até o mercado 24 horas mais próximo e voltar para casa. Além disso, eram 3 da manhã e ninguém ligaria de ver um cara de calças de pijama e moletom preto na rua.
Ele seguiu para o elevador, batendo seu pé impacientemente com a descida. O tempo parecia passar mais devagar fora de seu apartamento — lá dentro, ele podia sentar na frente da TV e as horas pareciam passar em minutos. Mas aqui estava ele, esperando as portas do elevador se abrirem e parecia que a espera iria mata-lo.
Enquanto entrava em seu carro, Alex sentia como se tivessem se passado duas horas. Ele dirigia em silencio, tentando pensar em como faria isso o mais rápido possível. As ruas estavam vazias, e as únicas coisas no caminho eram luzes vermelhas dos semáforos, alguns mendigos na calçada, e o mais irritante de todos, bêbados conversando alto. Ele teve de parar o carro enquanto alguns daqueles bêbados atravessavam a rua. Um deles, um homem, deu uma olhada em Alex que estava sentado ao volante e acenou como se o conhecesse. O homem batia com a mão no capô do carro, gritando palavras que nem se importava em ouvir. Alex apertou ainda mais o volante, engolindo a raiva que começou a borbulhar na boca do estômago. Ele só queria fazer isso o mais rápido possível e voltar para seu apartamento.
Buzinando o carro, dizendo a eles que claramente não queria lidar com nenhuma merda que o homem bêbado estava tentando puxar, Alex pisou fundo no acelerador e disparou pela noite. O homem bêbado gritou com ele com raiva, embora ele claramente não precisasse se importar.
Quando ele finalmente chegou ao mercado, uma leve dor de cabeça tinha começado a se formar, crescendo mais e mais como se tentasse chamar sua atenção, enquanto ele saia do carro e ia até a porta do mercado. Resmungando, ele pegou um carrinho e literalmente jogou dentro dele tudo o que lhe parecia comestível enquanto passeava pelos corredores por alguns minutos. A dor de cabeça estava aumentando enquanto ele pagava pelas compras com o primeiro cartão de credito que encontrou em sua carteira.
Ao voltar para o carro, enquanto arrumava as compras no banco de trás, a dor de cabeça se tornou uma completa enxaqueca, uma mistura de uma volta numa montanha russa e uma ressaca forte combinadas. Sabendo que não iria melhorar até que voltasse ao santuário de seu apartamento, Alex rapidamente ligou o carro e saiu do estacionamento, uma mão no volante e outra massageando suas têmporas na esperança de que o gesto lhe trouxesse algum alivio.
Dirigir de volta para seu apartamento significava voltar pela rua que ele pegou pela primeira vez, e isso o levaria direto para a encruzilhada e o maldito sinal vermelho novamente. Nesse ponto, a segurança não era mais sua maior prioridade. Oitenta quilômetros por hora sem cinto de segurança no meio de uma rua era praticamente um grito de suicídio, mas Alex não se importava muito. Três da manhã e o risco de ele bater em alguém era praticamente nulo, não era?
Esse pensamento superficial e julgamento apressado provavelmente foi a explicação de por que tal cena se seguiu depois. Sem falar na dor de cabeça, que só piorou. Ao se aproximar do cruzamento, Alex tinha certeza absoluta de que a rua estava vazia. Nenhum bêbado estúpido tentando atravessar a rua, nenhum sem-teto colocando as mãos na janela do carro. A estrada estava vazia e ele apenas pisou no acelerador, ignorando o sinal vermelho piscando.
Foi quando sua dor de cabeça piorou ainda mais, ele teve que fechar os olhos e beliscar aquele ponto bem entre os olhos com força. O latejar era demais para ele, ele sentiu como se sua cabeça estivesse se dividindo em duas.
Ele não sabia se era sua dor de cabeça que ele tinha que culpar ou ser grato, mas pelo menos ele desacelerou por causa disso. Então, novamente, foi a razão pela qual ele fechou os olhos em agonia pela primeira vez, porque quando os abriu novamente, o que viu foi a figura de um rapaz, parado estupefato bem na frente de seu carro estúpido.
Tudo o que aconteceu depois foi puro reflexo. Ele tirou a mão rapidamente da cabeça e agarrou o volante com força, antes de virar o carro de lado, brusca e repentinamente. Seu pé foi para o freio, batendo quase de repente. O carro guinchou e virou. O carro parou bruscamente em tal instante, Alex conseguiu parar o carro, mas em vez disso bateu com a testa com força no volante, tudo por cortesia de não usar cinto de segurança.
O mundo girou mais uma vez ao seu redor. O carro parou, mas sua cabeça ainda parecia girar. Seu pescoço estava dolorido e sua testa provavelmente estava sangrando. A náusea correu em sua direção e ele sentiu vontade de vomitar. Alex respirou fundo, sentindo todos os ossos de seu corpo virarem geleia. Era um sinal vermelho. Ele apenas passou por ele e havia alguém.
Alguém.
O pensamento o fez abrir um olho, resmungando baixinho. Ele não bateu naquele alguém, bateu? Alex se atrapalhou com a porta do carro, abrindo-a, seu corpo ainda parecia que estava prestes a desmoronar. O vento da noite fria o cumprimentou quando ele saiu. Seu carro parou bem no meio da encruzilhada deserta. Havia o cheiro de pneus queimados no ar e atrás dele havia-,
Ele xingou baixinho.
Realmente havia alguém, agora jogado na rua. Ele se aproximou da figura, agora sentada no asfalto e segurando sua perna. Era um rapaz. O rapaz estava se movendo (ou ao menos fazendo algum movimento que indicava que ele ainda não era um cadáver) e Alex agradeceu aos céus por não ter matado alguém. Ele ainda não havia se recuperado do choque. Sua cabeça ainda estava girando.
"Ei, você está bem?" ele disse com a voz rouca.
“Eu pareço bem, porra?!” O rapaz respondeu, parecendo raivoso. Com isso, Alex concluiu que ele estava condição boa o suficiente para ficar com raiva, então não precisaria se preocupar muito.
Ao chegar mais perto, ele pôde ver o rapaz claramente. Era um garoto, talvez na sua idade ou até mais jovem, com grandes olhos verdes e cabelo loiro, rosto bonito e angular. Ele carregava uma mochila nas costas. O que alguém como ele estava fazendo na rua as três da manhã era um mistério. Ele parecia completamente bem, porém, sem um arranhão. O garoto estava segurando suas pernas, com a mão na coxa e Alex podia ver, provavelmente o lugar onde o farol de seu carro conseguiu cutucá-lo. Não parecia haver sangue, pelo que Alex agradeceu.
"Se você pode fazer tanto quanto reclamar, então eu acho que você está bem", disse Alex.
O menino zombou. Ele olhou para Alex e houve uma estranha sensação de calor e familiaridade que ele sentiu de repente. Isso não era um déjà vu, mas de alguma forma ele teve a sensação de que já tinha visto o garoto antes.
"Espere. Você está sangrando," o garoto disse, de repente soando mais preocupado do que seu tom real de estar chateado.
"Eu estou?" Alex perguntou, sem perceber. Levou a mão à testa e viu, um filete vermelho no dedo.
O garoto se levantou de repente, dizendo indiretamente a Alex que ele estava perfeitamente bem. Bom. Alex poderia ir para casa em paz agora. Depois de tudo o que aconteceu, ele ainda tinha seu apartamento em mente. O estranho estava bem, então não precisava se preocupar.
"Você está. Parece ruim," o estranho disse de volta, mancando em direção a Alex e agarrou-o pelo ombro, dando uma olhada mais de perto.
O contato o surpreendeu. Ele não gostava de ser tocado e ninguém havia feito isso nas últimas semanas. No entanto, este estranho apenas veio em sua direção, agarrando-o pelo ombro e dizendo-lhe que estava machucado. Só então ele sentiu o sangue escorrendo em direção ao olho direito, atrapalhando sua visão. Alex se limpou apressadamente com as costas da palma da mão e voltou para seu próprio carro. O rapaz estava bem, então não havia necessidade de ele realmente estar lá mais do que deveria.
“Não, eu estou bem. E já que você também está bem, eu vou voltar agora,” ele disse, mancando de volta para seu carro.
"Eu não estou!" O rapaz exclamou, como se de repente percebesse que era ele quem tinha sido atropelado primeiro
Alex apenas murmurou baixinho e voltou para o carro. Tudo o que ele tinha em mente era voltar para seu apartamento e tudo ficaria bem. A dor de cabeça não havia passado exatamente. Foi bem quando ele alcançou a janela de seu carro que a náusea finalmente bateu novamente. Ele agarrou a janela com uma mão enquanto a outra segurava seu estômago. Assim, ele vomitou na rua, bem ao lado de seu carro. Não havia muito que saísse de seus lábios, lembrando-o de como ele não comia uma refeição decente há dias, lutando contra a fome que abrigava em seu estômago antes de sair furioso de seu apartamento. Pelo menos o vômito o fez se sentir um pouco melhor.
“Ei, você não está bem, sério,” O garoto disse novamente. Alex meio que esqueceu por um minuto que ele estava lá.
“Estou bem, garoto,” ele disse, entrando no carro e batendo a porta.
O garoto ficou bem na frente da porta, batendo na janela. Alex só queria ir para casa, só isso. Ele massageou a têmpora mais uma vez, tentando ganhar as forças que lhe restavam para a curta viagem de volta para casa. Olhando de volta para o volante, ele pôde ver a mancha de sangue espalhada nele, bem no ponto onde sua testa havia feito contato com a textura dura. Talvez ele precisasse de pontos. Ele não sabia.
Ele estava prestes a dirigir novamente quando o sangue começou a correr de volta para seus olhos. Ele limpou apressadamente de novo com um gemido. Desta vez, ele estava pronto para pisar no acelerador antes de ser interrompido mais uma vez pela porta assento do passageiro sendo aberta. O estranho deu uma espiada lá dentro antes de entrar no carro sem sequer ser convidado.
"O que você está fazendo?"
Parecia que Alex se esqueceu de trancá-lo em primeiro lugar. Ele meio que se arrependeu de não ter feito isso.
"Estou entrando e vou garantir que você chegue em casa com segurança."
Isso não fazia sentido para Alex. Deveria ter sido ele, aquele que bateu no garoto, para fazer isso em seu lugar, não deveria?
“Você não está fazendo nenhum sentido, garoto.”
“E se você tivesse uma concussão e desmaiasse no meio do caminho? E se você bater em outra pessoa de novo? E se você adormecesse e nunca mais acordasse?”
Ele gemeu. Tudo o que ele queria fazer era uma corrida rápida para o mercado e ele se envolveu em um acidente de trânsito com uma vítima tão estranha. Ele olhou nos olhos brilhantes do garoto mais uma vez e ele parecia sério e determinado.
“Eu não vou levar você para casa comigo,” ele disse.
"Eu não estou pedindo a você porque eu vou de qualquer maneira."
Ele acabou de ouvi-lo errado? Ele estava sendo tão afortunado agora por bater em alguém como este garoto, que nem mesmo teve vontade de processá-lo ou exigir outra coisa, ou ele estava sendo tão infeliz em vez de ter um cara tão desbocado e ilógico ao seu lado em primeiro lugar?
Ele estava com muita dor de cabeça para discutir. Sua testa continuou sangrando e o sangue chegou a seus olhos mais uma vez.
“Se você tiver um corte na cabeça, o sangue não vai parar tão fácil assim,” o estranho disse de repente, tirando um lenço do bolso de trás e enxugou os olhos de Alex suavemente com ele. Ele moveu-se então para pressionar a ferida muito suavemente. Ainda assim, Alex sibilou, tanto pela dor quanto pela estranha sensação de ter um estranho tocando-o de uma forma bastante íntima.
“Pare com isso. O que você está-,"
"Estou ajudando você", disse o garoto.
Alex olhou para o menino mais uma vez. Isso era estranho em tantos níveis e nada disso fazia sentido. Então, novamente, ele estava muito cansado e com muita dor para até mesmo lutar. O garoto parecia sincero e se isso fosse algum tipo de golpe, sem dúvida seria tão estranho e malsucedido. Ele suspirou antes de pisar no acelerador, voltando para seu apartamento sem dizer mais nada.
Com o canto dos olhos, ele podia ver o garoto ostentando um sorriso.
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O garoto estranho disse a ele para manter o lenço colocado em sua testa o tempo todo. No momento em que ele voltou para seu apartamento, todo o seu corpo parecia esgotado. Quem teria pensado que sair de seu apartamento resultaria em tal cena? De alguma forma, isso o convenceu a nunca mais colocar o pé fora de seu quarto. Seu apartamento era de fato o porto seguro que era.
Ele jogou as chaves na mesa ao lado da porta e caiu em cima do sofá. Sua mão agora segurava o lenço ensanguentado que repousava sobre sua testa. Ele havia se esquecido completamente do estranho se o garoto não fizesse barulho novamente.
“Não se deite assim, Sr. Motorista Maluco. Você tem que manter a cabeça mais alta que o resto do corpo”, disse ele, puxando Alex mais uma vez pelo ombro e ajudando-o a se sentar no sofá. Ele gemeu, tanto pela sugestão quanto pelo contato corporal.
Mas de alguma forma o estranho estava certo. Tudo pareceu melhor quando ele se sentou assim, sua cabeça não parecia tão pesada e a náusea finalmente se livrou de seu estômago. Ele fechou os olhos e tentou respirar uniformemente.
"Do que você me chamou de novo?" ele disse depois que alguns segundos se passaram.
“Sr. Motorista Maluco,” o garoto respondeu com indiferença.
Alex gemeu. Ele queria comentar sobre como o garoto estava sendo muito amigável o chamando de Senhor, mas, novamente, com todo o absurdo que aquele garoto estava exibindo, ser muito amigável era a coisa menos importante contra a qual ele poderia protestar.
"O que? Você não gosta do nome? Você bateu em mim primeiro.”
A realidade o atingiu mais uma vez. Ele bateu o carro em alguém. Ele abriu o olho esquerdo e olhou para o garoto sentado ao lado dele — o garoto estava mancando desde o carro até o apartamento, parado dentro do elevador com uma das mãos apoiada na parede. Ele olhou para as calças que ele estava vestindo e só depois de inspecioná-lo de perto percebeu o pequeno rasgo ao redor da coxa direita. Alex podia ver o sangue encharcando o tecido e uma ferida feia atrás dele, ainda fresca e rosada na pele do garoto. Ele devia estar com dor também.
“Sua perna está sangrando,” Alex disse, tirando o lenço de sua testa e inspecionando o ferimento do garoto.
“E eu acho que distendei um músculo lá também. Nenhum osso quebrado, o que eu acho bom. Não se preocupe, eu vou ficar bem,” Ele disse tão fácil assim com o mesmo sorriso, tentando convencer Alex de que ele estava bem.
Isso estava longe de ser lógico.
"Eu bati em você, me desculpe", disse ele.
O garoto deu de ombros. "Nada demais. Você está mais ferido do que eu. Então considere isso como karma pelo que você fez comigo.”
Nada fazia sentido para Alex.
"Estou bem agora. Eu gostaria de levá-lo para casa, pelo menos, para lhe mostrar minhas desculpas, mas acho que não posso agora.”
Uma parte dele queria que o garoto simplesmente dissesse algo como: 'Ok, então posso ir para casa sozinho agora.' O garoto simplesmente diria isso e sairia do apartamento, deixando Alex sozinho como ele queria. Mas o que ele disse a seguir deixou Alex completamente confuso.
"Bom. Então você pode me levar para casa amanhã de manhã,” ele disse com o mesmo sorriso alegre.
Alex ficou pasmo. Ele nunca tinha conhecido um garoto tão ridículo antes. Seu queixo provavelmente caiu, ouvindo a resposta estúpida. Se ele não estivesse em tal condição, Alex provavelmente teria soltado um berro, fazendo comentários sarcásticos e dando a ele a carranca mais maldosa que ele tinha, tentando afastar o garoto. Em vez disso, o sangue escorreu em direção ao olho e a dor de cabeça ameaçou voltar. Ele colocou o lenço mais uma vez na testa e ergueu a cabeça, olhando para o teto.
"Eu não estou oferecendo a você uma festa do pijama", disse ele, tentando soar maldoso.
“Não há necessidade disso. Estou fugindo de casa e não tenho onde passar a noite mesmo. Além disso, tenho que ter certeza de que você está completamente bem, Sr. Motorista Maluco. Sem concussão, sem necessidade de chamar uma ambulância ou algo assim”, ele continuou.
Ele estava prestes a perguntar por que o garoto fugiu, mas novamente percebeu que nem se importava. Além disso, não era uma coisa muito Alex Webber para fazer.
“O que você está fazendo agora é completamente estranho, você sabe, não é?”
“Foi você quem me bateu, Sr. Motorista Maluco. Pelo menos você pode me deixar cuidar de você em vez de processá-lo. O semáforo estava vermelho. Não fui eu quem infringiu a lei”, disse ele. O tom de sua voz também não soava como se ele estivesse tentando tornar o assunto sério, então Alex apenas deixou assim. Talvez ele precisasse ser grato.
Nesse ponto, pelo menos o garoto estava certo. Ele estava errado aqui.
“Não me chame assim.”
“Chamar você de quê?”
“Motorista Maluco. Parece estranho.”
Mas, novamente, tudo já era tão estranho.
"Como devo chamá-lo, então?"
De alguma forma, suas pálpebras ficaram pesadas. Ele não dormia há dias.
“Eu não sei, outra coisa,” ele disse, as palavras saindo mais como um murmúrio em seu próprio ouvido.
“Ok, então Sr. Alex Webber,” o garoto disse, ostentando a mesma risada que estranhamente parecia que ele tinha visto e ouvido centenas de vezes antes.
Ele estava tão sonolento. Isso foi o efeito de perder muito sangue na testa, pensou consigo mesmo, desconsiderando a outra questão em sua mente, algo sobre como o garoto soube seu nome. A pergunta estava na ponta da língua antes que o sono o levasse e ele se viu caindo em um sono profundo do qual havia sido privado por dias.
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Não foi o sol brilhando através da cortina que o acordou. Não foi sua dor de cabeça também. Ou talvez sim, mas Alex tinha certeza de que foram mais as batidas constantes na porta de seu apartamento que o fizeram abrir os olhos. Ele gemeu. No momento em que ele abriu os dois olhos, a dor de cabeça voltou. Ele havia adormecido em cima do sofá, com a cabeça erguida.
A batida não diminuiu e Alex gemeu. Levantando-se, o lenço caiu de sua testa no chão, revelando o sangue vermelho e pegajoso que o encharcava. Certo, sua testa estava sangrando. Ele bateu o carro ontem à noite e havia um garoto estranho.
Falando em garoto estranho, ele rapidamente virou a cabeça, examinando a sala. O referido garoto não estava em lugar nenhum e ele suspirou de alívio. O menino provavelmente estava farto de sua própria charada estúpida e finalmente foi embora. Ele olhou em volta e desta vez pensou na possibilidade do garoto roubar algo de seu apartamento, mas isso ele poderia verificar cuidadosamente mais tarde. Mesmo que fosse roubado, ele não se importaria em perder alguma coisa, pois isso também não significaria nada para ele. Ele poderia conseguir um novo tão fácil quanto isso, e com o que ele vinha fazendo ultimamente, não faria diferença.
Quem quer que estivesse atrás da porta provavelmente estava tão impaciente quanto o próprio Alex, pois continuava batendo. Ele realmente não precisava pensar em quem estaria lá fora batendo como um maníaco. Pela primeira vez, ele percebeu que realmente não tinha muitos amigos que se importassem o suficiente para lhe fazer uma visita surpresa. Em segundo lugar, morar em um prédio com porteiro não significava nada daquelas Testemunhas de Jeová ou algo semelhante a um vendedor de porta em porta teimosamente parado na frente de sua porta. Ninguém poderia entrar no elevador e parar em seu andar se seus nomes não fossem declarados em uma lista permanentes de antemão (e Alex podia contar os nomes listados em sua lista com apenas uma mão) ou se o porteiro não tivesse ligado para perguntar se a pessoa poderia subir.
Resmungando, Alex caminhou até a porta, abrindo-a.
“Alex, eu trouxe comida para você. Eu sei que você provavelmente não sai há uma semana e-, puta merda, isso é sangue?”
O Scott olhou para ele com o queixo caído. Scott o conhecia há muito tempo, sabia que Alex não era fã de contato corporal. Ao contrário do garoto estranho da noite passada, Scott apenas olhou para ele e conduziu Alex de volta e disse-lhe para se sentar no sofá. Alex fez isso quase com boa vontade, apenas querendo não fazer nada além de dormir de novo e ter um pouco de paz.
Scott foi até a cozinha e se atrapalhou com as compras que comprou para Alex. No fundo de sua mente, ele pensou o quanto a viagem da noite passada foi um desperdício. Ele deveria ter segurado aquela fome se soubesse que Scott viria na manhã seguinte e encheria sua geladeira.
Scott voltou para a sala com um pano cheio de gelo e uma caixa de primeiros socorros. Ele se ajoelhou na frente de Alex.
“Alex, o que aconteceu? Parece sério.”
Alex zombou. "Não é nada. Acabei de sofrer um acidente ontem à noite.
"Você bateu a cabeça no balcão ou algo assim?"
Ele revirou os olhos. Alex não seria tão estúpido. Scott se ofereceu para limpar o sangue que havia secado em sua testa, agora nada mais que algo pegajoso. Ele quis recusar, dizendo ao mais novo que ele poderia fazer isso sozinho, caminhando em direção ao banheiro e limpando-o sozinho, apenas para perceber que seu corpo ainda estava fraco e rígido. Normalmente ele não gostava de ser cuidado por alguém. Ele poderia cuidar de si mesmo muito bem, mas talvez apenas desta vez ele devesse abrir uma exceção.
“Não, eu saí para fazer algumas compras. Eu bati em alguém na rua”, disse ele.
Scott gentilmente limpou o sangue de sua testa e Alex apenas fechou os olhos, querendo que acabasse o mais rápido que pudesse, sabendo que a cena em si era estranha o suficiente para qualquer olho que ousasse se aventurar. Com a menção de 'bater em alguém', Scott propositalmente (ou talvez não) pressionou seu ferimento com bastante força, deixando-o carrancudo, xingando baixinho.
"Espere. Você bateu em alguém? E a pessoa morreu?"
“Não, idiota. O garoto sobreviveu.”
“Você bateu em um garoto? Alex!”
"Não foi desse jeito!"
Gritar só fez sua dor de cabeça piorar.
“O garoto está bem, certo? Apenas alguns arranhões. Na verdade, meu ferimento é pior do que o dele”, disse ele, tentando continuar a explicação.
Scott suspirou aliviado. Então, novamente, Alex não conseguia pensar como seria se ele realmente tivesse batido no menino e tirado sua vida. Ele não sabia como poderia viver com isso. O mais jovem cuidou de seu ferimento. De alguma forma, ele desejou que fosse Oliver quem tivesse aparecido. O mais velho seria mais suave e gentil que Scott. Mas, novamente, se fosse Oliver quem viesse, ele provavelmente o forçaria a ir para um hospital.
“O que realmente aconteceu, Alex?” ele perguntou.
Alex suspirou.
"Dor de cabeça terrível. Era um sinal vermelho. Eu deveria ter parado.”
“E o garoto?”
Agora que Scott perguntou sobre ele, Alex pensou mais uma vez no garoto estranho, o garoto que fugiu de casa às 3 da manhã. Ele provavelmente saiu de seu apartamento mancando e com a coxa ensanguentada. A culpa começou a crescer na boca do estômago.
“Ele veio para casa comigo.”
"O que?"
“Sim, é estúpido. Mas ele veio para casa comigo. Para este apartamento. Ele se foi quando eu acordei”, disse Alex.
Scott ergueu a sobrancelha, aparentemente achando difícil acreditar na história.
“Pelo menos isso significa que ele está bem,” ele disse novamente, as palavras soando mais como uma garantia para si mesmo do que para Scott.
Scott não fez mais perguntas a ele, dizendo-lhe para ficar quieto quando ele derramou álcool no ferimento, isso fez Alex murmurar muitas palavras feias. Ele o remendou, colocando um curativo em sua testa. Scott havia dito algo sobre ir para o hospital, mas Alex recusou, sabendo que ficaria bem. O próprio Scott havia dito que a ferida não parecia precisar de pontos e, pela primeira vez, ele realmente levou a sério as palavras e o julgamento de seu amigo.
“Você sangrou bastante, Alex,” ele disse depois que terminou, pegando o lenço esquecido do chão. Só então percebeu que não havia devolvido o lenço do menino estranho.
"Pois é."
O garoto já conhecia seu apartamento. Talvez ele viesse para pegá-lo de volta? Ele não sabia.
Scott havia trazido um pouco de frango para ele e eles comeram em silêncio depois. Alex sabia que se não fosse por seu machucado, Scott iria lhe dar outra palestra sobre voltar para a faculdade ou sair de casa, ser social e tudo de bom que ele não tinha tempo de ouvir. Alex comeu em silêncio quando Scott começou a falar sobre como seus amigos estavam, como estava a faculdade e praticamente toda a 'diversão' que ele estava perdendo.
Scott saiu por volta das três da tarde. Ele acordou por volta do meio-dia, o que significava que havia dormido em silêncio por um longo tempo. Parecia que precisou de um acidente e uma testa sangrando para conseguir dormir em paz.
“Alex, você tem que sair deste lugar em algum momento,” Scott disse enquanto o levava até a porta.
Alex suspirou, sabendo que essa conversa viria mais cedo ou mais tarde.
“Os outros estão preocupados com você. Todos nós estamos.”
Eles sempre faziam coisas desnecessárias. Alex Webber estava completamente bem e ele poderia cuidar de si mesmo. Ele não precisava que as pessoas se preocupassem com ele.
“Você não precisa. Eu posso cuidar de mim mesmo. Estou bem”, disse ele.
Scott estava prestes a discutir com isso antes de lembrar que um teimoso Alex não era um oponente tão fácil de derrotar, afinal. Ele virou as costas e caminhou em direção ao corredor. Alex observou enquanto seu amigo caminhava em direção ao elevador antes de se lembrar de algo.
“Ei, Scott.”
Scott se virou.
“Não conte ao Oliver sobre eu ter sofrido um acidente, ok?”
Ele não queria que Oliver ficasse preocupado. De todos os seus amigos, Oliver seria o único a importuná-lo tanto sobre este pequeno acidente, dizendo-lhe para ir ao hospital e fazer uma tomografia e todos os testes possíveis para determinar se ele estava bem. Para essa frase, Scott soltou um pequeno sorriso e de alguma forma Alex percebeu que havia dito a coisa errada.
"Eu não vou se você prometer sair desse apartamento."
Alex gemeu. Ele não fez nenhuma promessa, apenas fez um gesto com a mão que praticamente disse a Scott para sair rapidamente. Seu amigo apenas riu de volta.
“Não se esqueça de lavar o lenço!” disse ele, antes de desaparecer em direção ao elevador.
Alex fechou a porta depois disso, suspirando. Finalmente, ele conseguiu o apartamento para si. A ausência de pessoas ali lhe dava conforto, mesmo tendo Scott lá parecia ultrapassar a santidade do lugar. Ele caminhou de volta para o sofá e sentou-se lá, fazendo algo que ele mais amava. Ele olhou para a televisão à sua frente, vendo seu próprio reflexo, pálido e completamente horrível com um rosto tão inexpressivo. Ele parecia tão patético, de fato.
Olhando para a mesa de centro ao lado dele, ele podia ver o lenço ensanguentado sendo cuidadosamente dobrado.
Suspirando, levantou-se novamente, levando o lenço consigo e foi até a pia. Ele precisava devolvê-lo. Lavar vinha primeiro, no entanto. Ele poderia olhar para a parede o quanto quisesse depois disso.
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