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27 Uivos, trocas de farpas e outro passado...
Notas iniciais
Porém, o ruivo teve de frear para não acabar esbarrando em Kiba, que se levantou de supetão, e que tão rápido quanto se ergueu, se pôs a caminhar rumo a uma cabaninha que ficava mais ao fundo do terreno, onde os materiais de jardinagem e algumas outras tralhas que apenas serviriam de estorvo se guardadas dentro de casa eram guardadas. A porta do pequeno cômodo, como de praxe, estava trancada. Aquela porta não era párea para a determinação de um garoto furioso, e foi arrombada com pouco esforço do moreno. Tudo sob o olhar atento do ruivo, do loiro, mais atrás e de Tsume, que estava na varanda.
Ver Kiba chorando e naquele estado era algo que feria a todos.
O moreno logo saiu do cômodo com uma grande pá em mãos, indo a passos largos até um canto do quintal, à sombra de uma árvore, onde começou a cravar a pá na terra com toda a força que tinha. Se seu amigo partira, o mínimo que poderia fazer é dar um fim digno a ele. Estava com raiva do mundo por terem levado seu amigo, então não media força e não media consequências. Junto com as gotas de chuva, suas lágrimas grossas e mudas escorriam. Era uma cena que Gaara não conseguia mais assistir calado.
O ruivo suspirou andou em direção a seu namorado, pois precisava ampará-lo. Entretanto, Kiba estava agitado. Não precisava de consolo agora, apenas queria descontar a frustração de ter uma parte de si mesmo arrancada sem mais nem menos. E foi por isso que, quando Gaara aproximou-se com palavras de conforto e pousando sua mão no ombro do maior, Kiba sacodiu seu corpo com um pouco de violência e, sem querer e nem mesmo perceber, acabou acertando uma cotovelada no maxilar do ruivo, que acabou caindo sentado no chão lamacento, e ainda teve que ouvir um “Sai daqui! Me deixa!” gritado a plenos pulmões vindo do moreno.
Por mais que o moreno estivesse enfurecido e mal soubesse o que estava fazendo, tanto o golpe quanto as palavras haviam machucado Gaara, que ainda estava sentado em meio a lama, com a mão rente ao rosto e uma expressão carregada de mágoa. Kiba só parou o que fazia quando uma mão agarrou firmemente os seus cabelos da nuca e começou a puxá-lo com força, praticamente arrastando-o para dentro de sua casa. O moreno acabou soltando a pá e levando a mão até o braço de quem o segurava, tentando se soltar do agarre que o estava machucando. Mas, se Kiba tinha força, naquele momento o loiro que o puxava tinha mais.
Naruto levou Kiba sob protestos, gritos, xingos e arranhões até o quarto do próprio moreno, onde entrou com ele e fechou a porta com força.
–O que você pensa que tá fazendo, Naruto? –Kiba ralhou com raiva, empurrando o loiro que a pouco lhe soltara, fazendo-o bater as costas contra a porta.
–Vai tomar um banho quente agora, seu babaca! –Naruto ralhou de volta, apontando para a porta do banheiro da suíte. –Eu sei que você está triste demais, mas isso não te dá o direito de agir como um idiota! –Gritou, assustando o moreno por um instante. –Vai, agora!
–Meu melhor amigo está morto e você pensa que... –Kiba tinha seu dedo apontado para o rosto de Naruto e gritava a plenos pulmões. Isto até ser cortado pelo loiro, que desceu a mão com que apontava para o banheiro com toda a força contra a face do moreno, em um tapa estalado que o calou.
–Banho... Agora! –Murmurou o loiro, em tom pesado, fitando o amigo que, por conta do tapa, estava com a face virada e não lhe fitava de volta. A gritaria havia cessado. –Eu sinto muito pelo Akamaru, Kiba. –Falou em tom mais ameno. –Por favor, tome um banho ou vai se resfriar. Aproveite e se acalme, sim? –Pediu ao garoto que estava de costas para si. –Depois peça desculpas ao Gaara.
–E por quê? –Kiba perguntou quase imediatamente, mas ainda com a face virada.
–Por não saber se controlar. –O loirinho se retirou do quarto, sem fazer questão de dar uma última olhada para o amigo, já que este também não o fazia. Porém, Kiba estava virado apenas para que o loiro não visse o quanto ele chorava. Depois de ter agido de forma um tanto egoísta, não merecia pena ou compaixão. Acabou pegando uma toalha, uma muda de roupa e foi para o banheiro.
Na cozinha, sentada em uma cadeira, estava Tsume, com uma expressão abatida.
–Só você para dar um jeito nele... –A mulher, que tomava uma xícara de chá, murmurou, entre um gole e outro.
–Ele vai se acalmar. –Falou, correndo os olhos pelo cômodo. –Onde foi o Gaara? –O loirinho perguntou. Tsume respondeu apenas apontando para o quintal com o dedo.
–Ele é outro cabeça dura. –A mulher suspirou fundo.
Naruto foi até a porta e viu Gaara, em meio à chuva torrencial que ainda caia, com a pá na mão, continuando a cavar o buraco que Kiba começara anteriormente. Ofegava visivelmente, mas não demonstrava que iria parar sem terminar o serviço.
O loiro também deixou a casa e juntou-se ao ruivo, não antes de ir até o cômodo de porta arrombada e pegar outra pá. Os dois garotos de olhos claros trabalharam juntos para abrir um vão na terra, e quando este já era suficientemente largo e profundo, os dois pegaram a manta em que Akamaru costumava dormir e, a pedido de Tsume, envolveram o corpo do cão nela, antes de deitá-lo no buraco, para depois cobri-lo com a terra anteriormente retirada. Tudo em silêncio. E quando acabaram, Gaara soltou a pá junto a árvore e se foi, rumando, provavelmente, à sua própria casa. Sem se despedir ou dizer qualquer outra coisa. Tudo em silêncio.
Naruto tomou uma porção da sopa à prova de resfriados da família Inuzuka, secou-se e trocou de roupa. Não queria ficar doente. Queria falar com Kiba antes de partir, mas este se trancou em seu quarto, isolando-se. Vendo que não daria em nada, foi para sua casa, não sem antes prestar suas condolências a Tsume, que estava abatida também.
No domingo, os únicos animados eram Mei e Minato. A casa dos Inuzuka estava de luto; Naruto havia acordado com sintomas de gripe; Gaara tinha dor no maxilar e também no peito; Sasori estava preocupado com o primo, que agia de forma estranha e chorava baixinho pelos cantos; e não menos estranho, Sasuke acordou com um péssimo pressentimento, que embrulhou seu estômago o dia inteiro.
Para não desperdiçar o domingo, o “casal animação” resolveu sair para desopilar. Sensações ruins estavam rondando a todos. Foram até o jardim cultural da cidade, que nada mais era que uma área florida e arborizada, com caminhos ladrilhados, cercados de obras de arte, mesclando entre monumentos de caráter mais clássico e obras de arte moderna. Era um bom lugar para passear, pois era bem tranquilo. Havia boa música, mesas de xadrez e uma pequena cafeteria. O lugar exalava paz.
Paz esta que não durou muito. Na verdade, a paz estava ali, mas uma presença incômoda também estava. Quando Minato e Mei iam até a cafeteria para comer alguma coisa, avistaram em uma das mesas sombreadas por uma árvore imponente, uma ruiva sentada junto a um homem de terno e cabelos compridos. Kushina e mais alguém.
–Quem é aquele com ela? –Indagou Mei, fitando descaradamente a mesa que estava a mulher.
–Eu acho que é um dos Hyuuga. –Comentou, mudando de ângulo algumas vezes para tentar identificar o homem. Movidos pela curiosidade, o casal andou um pouco, para ter uma visão melhor. Aparentemente os dois não haviam sido notados ainda, isto até o loiro avistar a cicatriz estranha na testa do homem e identifica-lo. –Hizashi. –Silabou Minato, um pouco alto demais. O moreno moveu a cabeça para todos os lados, a procura de quem havia lhe chamado, até se deparar com o casal “M²”.
–Minato, olá! –Saudou o homem, vendo os dois se aproximarem. Não era a intenção do casal, mas sair correndo e se esconder entre as moitas para passar despercebido era um tanto humilhante. Kushina, ao se deparar com seu ex-marido e sua atual mulher, estampou uma expressão de desagrado no rosto e não fez questão de escondê-la. –O que fazem por aqui? Celebrar mais um pouco o namoro de vocês?
–Namoro? –Indagou Kushina, fitando Mei nos olhos, e depois Minato.
–Sim, namoro. –Devolveu Mei, no mesmo tom provocativo que a ruiva usara anteriormente. –Somos oficialmente namorados.
–Hn... –Grunhiu a ruiva. –Parabéns. Aproveitem enquanto podem. –Alfinetou, vendo Mei sorrir cínica. –Espero que tenham muitos filhos. –Provocou descaradamente, sorrindo de canto ao ver Mei cerrar os punhos. –Ele não é nenhum dono de agência de modelos, mas quebra o galho. –Gargalhou. A morena respirou fundo, franzindo as sobrancelhas, enquanto Minato fazia o mesmo para não acabar estapeando a ruiva. Hizashi estava meio perdido, então só ouvia.
–Não pensamos em ter filhos, ainda. –Falou Mei, após um longo suspiro e após estampar o mais falso dos sorrisos nos lábios. –Cuidar do filho que você ridícula e miseravelmente abandonou, por ora, me dá trabalho o suficiente. –O sorriso tornou-se verdadeiro ao ver a expressão de Kushina murchar. –Mas, é recompensador. Ele é um amor de pessoa. Deve ter puxado a Minato. –Finalizou, ditando com descaso. Hizashi pigarreou tentando de modo falho fazer uma intervenção discreta.
–Enfim, Minato, aposto que vieram apreciar a arte. –O moreno tentou amenizar o clima, falando a primeira coisa que veio a cabeça.
–Exato. –Respondeu, entendendo a deixa. Por mais que quisesse ver o circo pegar fogo, entrou na onda do Hyuuga. –E vocês, o que fazem aqui?
–Negócios. –Afirmou Hizashi, deixando uma interrogação na cabeça do loiro e na de Mei também.
–Kushina uma mulher de negócios? –O loiro gargalhou. –Essa é nova.
–Uma ótima mulher de negócios. –A ruiva se intrometeu, enfatizando o “ótima”.
–Claro. –Minato ditou irônico. –Espero que cuide de uma empresa melhor do que cuida de um filho. –O loiro continuou retrucando em tom irônico. Mei murmurou um discreto “autch”, o que só irritou ainda mais a ruiva. Minato não queria falar do abuso que Naruto havia sofrido, então estava se segurando.
–Nos anos que fui negligenciada por você, aprendi várias coisas. –Rebateu. E o clima pesara novamente.
–E com certeza uma delas não foi como ser uma boa mulher, ou uma boa mãe. –Devolveu Minato.
–Você está muito engraçadinho, Minato... –A ruiva comentou, bebericando a xícara de chá que estava na sua frente, tentando acalmar os nervos, que atualmente estavam sendo pisoteados. –Se você fosse piadista assim quando estávamos juntos, quem sabe estaríamos juntos ainda.
–Pois é, sou um comediante. Mas, ainda bem que esse senso de humor é recente. Aparentemente a falta dele me livrou de uma criatura extremamente desagradável. –A troca de “gentilezas” continuava. Mei estava quieta na sua e Hizashi segurava o riso.
–Ui... –Ironizou a ruiva. –Suas palavras são duras. Você irá para o inferno por conta delas. –Ditou com falso descaso.
–Eu vivi com você, então acredite, o inferno deve ser fichinha! –Cuspiu escárnio na cara de Kushina, que já tinha uma veia saltada na testa. –Mas, nós vamos indo. Divirtam-se! –Minato despediu-se, dando as costas e partindo na companhia de Mei. Sabia o quanto Kushina estava se corroendo de raiva, então sua missão ali estava acabada.
–Você é afiado, Minato. –Comentou a morena.
–Aprendi com a mãe do Kiba. –Contou. Os dois riram e seguiram seu caminho. Já na mesa que ficara para trás, uma mulher cheia de raiva segurava-se para não gritar.
–Eu espero pelo dia em que poderei dançar e bater cabelo no túmulo dele! –Rosnou com raiva. –Enfim, quanto tempo para começarmos a nos mover?
–Alguns dias, talvez. –Estimou.
–Começar um jogo aniquilando uma das peças principais logo de cara é muito gratificante... –Ela murmurou, causando arrepios no homem que lhe fazia companhia.
–Você me assusta... –Contou o homem. Ela sorriu.
–Como se você não fosse obter benefícios com isso. –Rebateu. –Me ajude com a minha parte, e eu lhe ajudarei com a sua. –A mulher deu uma piscadela, levantando-se e caminhando rumo à saída do jardim. –Mande um beijo pro Neji, enquanto não estiver brigando ou batendo nele. –Finalizou irônica e gargalhando de si mesma.
E este, era o fechamento de um domingo extremamente tenso. Na manhã seguinte, a tediosa e desagradável rotina pegou todos. Naruto, já um pouco melhor, arrumou-se e foi rumo à escola. Passou na casa de Kiba, mas Tsume disse que o moreno não iria sair de casa. Não que o loiro já não esperasse por isso. Seguiu seu caminho, solitário.
Na escola, observava de seu cantinho na sala de aula os seus colegas. Velhos hábitos nunca morrem. Viu que Neji estava usando base, ocultando alguns arranhões. Também tinha um novo chaveiro pendurado em sua mochila, o que fez o loirinho sorrir. Viu também, que Gaara estava com olheiras, e seus olhos estavam avermelhados, sem contar o pequeno hematoma no maxilar. Tentou puxar assunto com o ruivo, mas este estava aéreo.
O resto da aula foi tão tediosa quanto o possível. Copiou todas as matérias duas vezes, uma para si e a outra para levar para Kiba, que faltara. E assim que a aula havia se encerrado, o loirinho foi entregar as folhas para o amigo. Claro que isso poderia esperar, mas ele queria mesmo era saber como Kiba estava. E segundo Tsume, que lhe recepcionou, o moreno não estava bem.
–Ele não saiu do quarto, e não comeu nada também. –Contou a mulher, preocupada. –O máximo que ele fez foi ficar na janela do quarto, olhando pra onde o Akamaru foi enterrado.
O loiro tentou, mas não conseguiu nada. Fez um suco de laranja e um sanduíche, para ver se o amigo se animava em comer, mas não funcionara. Não respondia direito a perguntas e não fazia questão de manter uma conversa. E não foi só naquele dia, pois a história se repetiu nos três dias seguintes. O moreno jogado na cama, em estado deplorável, se alimentando muito mal, limitando-se a algumas mordidas de qualquer coisa e, ao que parecia, não lembrava mais quem era Gaara. Os dois não se falaram mais depois daquele episódio.
Na sexta-feira, a coisa mudou um pouco de figura. Tsume havia saído e Kiba também saiu de sua toca, ficando boa parte do dia sentado ao lado da sepultura do amigo, conversando com seu parceiro de uma vida.
Depois de horas, o moreno cabisbaixo e ainda inconformado, voltou para seu quarto e se jogou de qualquer jeito na cama, a qual muitas vezes compartilhou com o amigo. Desde que os dois eram “filhotes” até o ponto de terem de disputar por espaço nela. Disputa que na maioria das vezes quem perdia era Kiba. O garoto mergulhou novamente em um mar de negro de nostalgia, sendo engolido pelas grandes ondas de saudade, fazendo com que a mesma acabasse “vazando” de seus olhos em formas de lágrimas.
Seus devaneios profundos foram cortados por uma sensação de dor, como se alguém o beliscasse no tornozelo que não havia sido posto para cima da cama, e estava tombado rente a ela.
–Ittai! –Exclamou, levantando-se num pulo. Pensou que pudesse ter sido uma aranha, mas quando se sentou na cama, estranhou o que viu. Não era um inseto. Era um filhote de cachorro. Husky, pelas suas características. Olhos claríssimos, que lhe fitavam curiosos, parecendo-se com um lobo. Pelagem que começava negra no alto da cabeça e nas costas do bichinho e que ia clareando conforme descia, passando por tons de cinza e chegando ao branco nas patinhas. –Quem é você? –Indagou, afagando o bichinho, que tentava morder seus dedos. –E por que quer tanto me morder? Está com fome? –Conversava com o filhote hiperativo, que latia de forma esganiçada, quase como se estivesse concordando.
Kiba, depois de bastante tempo apenas chorando, sorriu. Pegou o bichinho no colo e foi até a cozinha, esquentando algumas sobras de carne, desfiando e oferecendo ao cachorro, que comia com gosto.
–Sabe, eu perdi um amigo como você... –Desabafou com o cãozinho, não que ele entendesse ou fosse responder. –E eu sinto muita falta dele... –Lamentou-se. –Reparou que o filhote tinha uma coleira, mas não dizia nada escrito. –Quem perdeu você deve estar triste também. Mais tarde vamos procurar seu dono. –Falou, afagando o filhote, que corria pelo chão. Kiba pentelhava o cão, que rosnava e tentava lhe morder, em uma brincadeira sadia. O moreno estava saindo de seu luto. –E sabe do que mais? Esse seus olhos azuis e carinha de bocó me lembram alguém. –Riu consigo mesmo. –Qual será o seu nome? –Perguntou ao cão. Quem nunca fez algo do tipo? Porém, uma voz lhe respondeu, dando um susto no moreno. Não era o cão falando, mas uma voz conhecida.
–Ele não tem um nome. –Falou a voz grave que pertencia ao ruivo, que por sua vez, estava escorado no batente da porta da cozinha. –A moça do abrigo de animais disse que ele era o mais barulhento de lá.
–Gaara... –Murmurou o moreno, levantando-se e, sem jeito, caminhando até o ruivo. Ele tentou diversas vezes falar algo, mas sua voz não saía. –Eu preciso me desculpar...
–Não precisa. –O ruivo o cortou, dando-lhe um abraço e um beijo longo em seguida. –Eu te amo. Deveria ter vindo aqui ver você. –Sorriu para o maior.
–Eu também te amo muito... Eu... Me desculpe por não lhe dar atenção, também. Eu também acabei lhe agredindo... Não estava muito bem e...
–Tudo bem, passou. A partir de agora, vou ficar com você. –Deu um selinho em Kiba. –Não se preocupe. Sua preocupação agora deveria ser a de escolher um nome para ele. –Apontou para o filhote de husky, que rolava no chão.
–Como? –O moreno ainda não assimilara a situação. –Ele...
–É seu. –O ruivo respondeu a pergunta de Kiba, mesmo antes dele a fazer. Nesse momento, os olhos castanhos dobraram de tamanho. –Sei que não vai cobrir o vazio deixado pelo Akamaru, mas ele pode ser um bom amigo. Não sei se agi certo, mas fiz pensando no seu bem.
Kiba espremeu seus olhos por alguns instantes. Deles, algumas lágrimas ainda insistiram em cair, mas logo eram secas pela manga do moletom do moreno. Antes que Gaara começasse a pensar que houvesse tomado a decisão errada e tivesse “tocado na ferida” cedo demais, o moreno o abraçou. O abraço mais forte que já dera em alguém. Na medida em que ele desabava em um choro de felicidade mesclado com tristeza, sussurrava “obrigado” e “eu te amo” diversas vezes no ouvido de Gaara.
–Não chora, seu idiota. –Deu um puxão no cabelo de Kiba, que fez soltá-lo do abraço. Sorriu terno para o namorado, que limpava as lágrimas e dava algumas fungadas. –Alguma ideia de como chama-lo? “Pequeno Rebento do Demônio Que Gosta de Roer Tapetes” não é algo muito legal. –O ruivo comentou, fitando o cachorro que se divertia enquanto estraçalhava um dos tapetes de Tsume. O moreno pensou e pensou, enquanto fitava o filhote.
–Que tal Toboe? –Sugeriu Kiba. –Ele é nosso, e não só meu.
–Toboe é lega. –Comentou Gaara, se sentando no chão e chamando o pequeno, agora nomeado de Toboe, para seu colo. –Nada mais justo. Depois das “garras” e das “presas”, vir um pequeno “uivo” para completar o time é algo legal. –Falou, fazendo menção ao significado dos nomes de Tsume, Kiba e Toboe, respectivamente. Kiba riu.
–Obrigado, Gaara. De coração. –Agradeceu o moreno.
–Não por isso... –Retribuiu a gentileza, com descaso. Recebeu um beijo terno para completar o agradecimento. –Ele é seu agora. A moça daquele lugar disse que ele foi abandonado na porta. Alguém o comprou, e por ele ser um diabinho, o abandonaram. –Afagou o cão. –Cuide bem dele. –O moreno maneou positivamente com a cabeça.
–Você vai me ajudar. –Sorriu, sendo retribuído.
O moreno jamais iria se esquecer dos momentos com Akamaru, mas estava disposto a criar momentos com o mais novo membro da família, que seriam tão bons quanto os que teve com o falecido amigo. Estava seguindo em frente.
–Ei, Gaara, o que quer fazer agora? –Perguntou, à medida que afagava os pelos de Toboe.
–Um lanche pra você. –Respondeu, indo lavar as mãos e abrindo a geladeira. –Depois vamos a pet shops comprar algumas coisas pro pentelhinho. Aí vamos ir mostrar ele pro Naruto, já que, de um jeito estranho, essa cara de bocó e esses olhos me lembram ele. –Comentou, com estranheza, causando risos no mais velho. Ao ver isso, Gaara sorriu de lado. –É tão bom ver seus caninos de novo. –Brincou o ruivo, falando dos dentes de Kiba, que eram um tanto protuberantes. Recebeu o gesto infantil de mostrar a língua como resposta.
E por falar no loirinho, sua sexta-feira também estava diferente. Era dia de consulta com o Dr. Uchiha, porém, desta vez o moreno requisitou a presença do loiro maior e também de Mei. Por quê? Ninguém sabia, mas assim o fizeram.
Na hora marcada, os três estavam na sala de espera, conversando com Tenten sobre assuntos banais. O papo foi cortado quando o telefone da moça tocou e era o moreno, avisando que os três poderiam entrar. Isso era atípico, já que o próprio moreno vinha abrir a porta e chamar os pacientes. Porém, quando o trio adentrou na sala, entendeu o motivo do moreno não ter aberto a porta. Ele estava jogado no sofá, e na frente deste, havia três cadeiras.
–Olá. –Saudou o moreno, apenas erguendo de leve a cabeça. –Sentem-se. –Apontou para as cadeiras.
–Não entendo muito de psiquiatria, mas não deveria ser o contrário? –Indagou Mei, tomando um assento para si.
–Deveria, mas desta vez quem fará as perguntas serão vocês. –Contou o moreno, causando estranheza. –Depois de tantas confissões, achei necessário dividir algo com vocês. –Suspirou.
–Você não precisa dizer nada, se não quiser... –O loirinho falou.
–Sim, eu preciso. –Murmurou, porém de forma firme. –Desde que me contou sobre seu passado, Naruto, eu estive pensando em falar com vocês. Sinto que posso estar traindo a confiança de vocês. –Explicou.
–Sasuke, você faz bem para o Naruto. –Falou Minato, fazendo Naruto corar de vergonha. –Seu passado não importa. Cada um convive com seus próprios demônios.
–Leve apenas como uma velha história então, Minato. –Sasuke suspirou. –A história de “por que alguém foi taxado de psiquiatra pedófilo por uma ruiva sem escrúpulos”. –O moreno deu uma risadinha. –Escutem o que tenho a dizer. É importante para mim.
–Já que insiste, vamos ouvi-lo. –Mei ajeitou-se na cadeira.
–Pois bem. –O moreno também ajustou sua posição. –Começa há alguns anos, quando estagiava. Consegui me formar relativamente rápido em meus cursos. Não sei se comentei, mas meu Q.I. também é suficientemente alto para ser conhecido como “gênio”. –Contou, surpreendendo a todos. O moreno tinha de fato um ar intelectual, mas ninguém esperava por isso.
–Gênio tipo o Naruto? –Minato inquiriu curioso.
–Mais ou menos. Sou bem inferior a ele, em intelecto. –Explicou. –Tenho facilidade em absorver e me lembrar de coisas, o que aliado ao meu hábito de ler, me fez relativamente inteligente, e por conta disso, recebi um “tratamento especial” na faculdade.
–Em que sentido? –A mulher curiosa perguntou.
–Eu poderia cursar o que quisesse, quantas aulas eu aguentasse, por um valor bem reduzido e fixo, isso em troca de trazer renome a universidade. –Explanou. –Enquanto eu ganhasse concursos, debates, competições e tivesse notas altas, faria quantos cursos e quantas aulas eu quisesse. Claro, isso por baixo dos panos.
–Eu hein... –Comentou a morena. Só pensar em estudar tanto já lhe dava dor de cabeça.
–É um pouco sujo, mas me ajudou muito. Fiz medicina e psicologia ao mesmo tempo, tendo aulas quase todas as noites e diversos turnos matutinos e vespertinos. –Expôs o moreno, deixando os demais boquiabertos. –Se não fosse tão organizado e dedicado, acho que morreria. –Confessou rindo. –Fiz medicina em quatro anos, a especialização em psiquiatria em um ano e meio, e também concluí psicologia em quatro anos.
–Isso é impossível! –Exclamou Mei, incrédula. Sasuke apenas apontou para sua estante, onde três troféus de madeira, com uma placa de algum metal prateado brilhante repousavam. Neles, os méritos intelectuais de Sasuke eram exaltados. Mei estalou a língua. –Tá, mas e onde isso se torna relevante para a história?
–Foi no estágio do curso de psicologia que ela aconteceu. O resto que contei foi a título de curiosidade mesmo. –Pigarreou. –Enfim, em um desses estágios, conheci e comecei a tratar de um garoto. Ele tinha treze anos, eu vinte e... Precisarei entrar em detalhes? –Indagou Sasuke, suspirando, um tanto incomodado. Era algo complicado para ele de falar.
–Apenas o resumo está bom. –Naruto interviu. –É o suficiente. –Falou como um verdadeiro psiquiatra.
–Ok... –Pela enésima vez, puxou o ar profundamente. –Eu o acompanhei, nós nos conhecemos melhor e acabamos nos envolvendo demais. Nunca fizemos nada demais, eram apenas beijos. Eu era maduro o suficiente para saber que isso era errado, mas não tentei evitar. –Passou as mãos pelo rosto, tentando se acalmar. Mei e Minato ouviam tudo sem expressar nada. Naruto estava um pouco surpreso, e isto estava estampado em seu rosto. –O pai do garoto descobriu, quis me processar e tudo mais, porém meu irmão, que me deu o maior sermão da minha vida, junto com os advogados e donos da faculdade, encobriram tudo. A família do garoto mudou-se para longe, e eu segui minha vida... Fim. –Concluiu irônico. –Basicamente, é isso.
O silêncio incômodo tomou conta do lugar. Estava tornando o ar cada vez mais denso. Porém, ele foi cortado por uma gargalhada. Sim, uma gargalhada, vinda do loiro mais velho. Sasuke o fitou com estranheza, assim como os outros dois.
–Errar uma vez não te torna alguém ruim, Sasuke. –Ditou Minato, após parar de rir. –Se apagássemos os erros do passado, nossa sabedoria e experiência do presente deixariam de existir. Não se culpe, sim? –Consolou-o. –Você é uma ótima pessoa. Alguém em quem confiaria de olhos fechados, assim como seu irmão. Errar só te faz humano, Sasuke. –Foi firme em suas palavras. Levantou-se e foi até o moreno, que fez o mesmo, para então trocarem um firme aperto de mão. –Olhe para o Naruto. –Apontou para o filho. –Você o reconhece? Lembra-se de como ele chegou aqui?
O moreno parou para pensar, enquanto fitava o loirinho e este o fitava de volta. Lembrou-se daquele garoto tímido, para o qual parecia que doía falar alguma palavra. Que se protegia atrás de roupas longas e aparência desleixada. Que sofria tudo calado. Mal falava com seu pai e não tinha nem sombra de amigos. E que hoje, era uma pessoa totalmente diferente, querido por muitos, falante e brincalhão e sem aquelas roupas pesadas e obsoletas...
–É tudo obra sua, Sasuke. –Minato cortou os devaneios do moreno. –És um bom homem. –O moreno estava sem reação. –Erros todos nós cometemos. O importante é a redenção. –Sorriu. Um típico sorriso daquela família. –Mei! –Chamou a atenção de sua namorada, que estava viajando nas coisas que o loiro falava.
–Sim? –Respondeu um tanto abobalhada.
–Vamos para casa, não vamos mais atrapalhar a consulta. –O loiro soltou a mão do médico, indo até a porta, acompanhado de Mei e sendo seguido pelos olhares dos demais. –Naruto, você já sabe o caminho de casa, não preciso mais me preocupar em lhe buscar. –Sorriu para o filho, e depois se retirou acompanhado de Mei.
O moreno novamente estava sem reação. Estava estático fitando a porta que acabara de se fechar. Devaneios e mais devaneios... A deixa para eles aparecerem e dominarem alguém era o silêncio, e a deixa para eles evaporarem... Bom, era quase qualquer outra coisa, como um abraço inesperado, tal qual o moreno recebeu de Naruto.
–Obrigado... Por tudo, Sasuke. –Murmurou o loirinho, com a voz abafada por conta de seu rosto estar colado ao corpo do outro, que de modo relutante, retribuiu o abraço. Não precisavam de mais nada naquele momento.
De noite, Sasuke levou Naruto até em casa, e fora convidado para jantar. Kiba, Gaara e Toboe, que fora trazido junto, estavam lá também. Mei se divertia com cachorrinho, que era tão hiperativo quanto ela. Sasuke conversava com o casal de garotos sobre o relacionamento dos dois, oferecendo-se para ajudar em qualquer problema que eles tivessem, como passar por situações humilhantes quando viessem a se assumir. Já os dois loiros tomaram conta da cozinha. O cãozinho corria por tudo como se fosse o dono do lugar.
Tiveram um jantar animado e bem harmônico. Uma noite perfeita para terminar um dia conturbado.
Bom, noite quase perfeita.
Minato fora atender o interfone que acabara de tocar, com certa relutância. Pela hora, que já passava das 22h:00min, não conseguia pensar em alguém conhecido que pudesse estar ali no meio da noite. Ao ouvir a palavra “polícia” e ver de longe as luzes vermelhas e azuis da viatura, permitiu a entrada daquelas pessoas. Dois detetives, de expressões fechadas se aproximaram, cumprimentando a todos de modo geral, focando sua atenção no loiro maior.
–Namikaze Minato? –Um deles questionou, causando estranheza em todos.
–Sim, eu mesmo. –Minato respondeu relutante.
–Por favor, nos acompanhe. Você está preso.
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