Inside
6 Sujeira, olho clínico e bonecos.
Naruto pegou uma folha e um lápis, o qual ficou brincando de girar nos dedos.
— O que quer que desenhe?
— A princípio um sonho seu, uma vontade que tenha, algo que almeja, algo que- – O moreno acabou sendo cortado por algumas batidas na porta. Isso não era comum, já que Tenten raramente o chamava durante consultas.
— Está esperando alguém? – Perguntou o Sasuke, brincalhão. Naruto apenas riu, começando a rabiscar no papel, meio em dúvida sobre o que desenharia.
O mais velho levantou-se e foi curioso até a porta.
— Sasori? – Ficou um tanto surpreso.
— Eu mesmo! – Ele respondeu, terminando de digitar algo em seu celular e guardando-o em seguida.
— O que faz aqui? Eu estou com um paciente. – Dava para notar em sua voz que estava enxotando o ruivo.
— Não é assim que se recebe um amigo, Sasuke. – Falou, falsamente sentido. – Ainda mais aqueles que te trazem um relógio suíço de prata, cravejado com diamantes e, atualmente, pilhas e engrenagens novas e bem ajustadas.
— Meu relógio! – Tudo se esclareceu como num click. – Claro! Nem lembrava que pedi para trazê-lo. Me desculpe.
— Uchiha Sasuke se desculpando? Sinto-me uma pessoa especial. – O loiro, que inevitavelmente estava ouvindo a conversa dos maiores, franziu o cenho, afinal Sasuke havia se desculpado algumas vezes com ele até agora.
Talvez fosse algo somente entre os dois. Coisa de amigo, ou algo assim. Não entendia muito bem essas relações.
— Se você fosse humorista, morreria de fome, Danna. – Rebateu. – Cadê o relógio?
— Ah, sabia que estava esquecendo algo. – Disse o ruivo, fazendo o moreno revirar os olhos. Nisso, Sasori pegou uma caixinha, que portava em um dos bolsos do sobretudo que usava. – Aqui. Pode olhar, está perfeito. Nenhum arranhão, como sempre. – Gabou-se, estendendo a caixa aveludada para Sasuke.
— Humildade não é seu forte, Sasori. – Abriu a caixa, inspecionando o objeto. – Mas devo admitir que você faz um trabalho impecável. Entre, vou fazer um cheque. Não atrapalhe Naruto.
— Certo, certo. – Adentrou o recinto, movimentando as mãos, a fim de esquentá-las. –Cara, que frio! Ainda bem que aqui tem ar-condicionado, eu poderia ficar aqui para sempre.
— Não, não poderia. Você trabalha, e eu também, como pode perceber. –Apontou para Naruto, que ria da conversa dos dois enquanto desenhava.
— Percebi sim. Você tem um belo trabalho ai. –Falou com certa malícia, que lhe rendeu uma encarada de Sasuke, que pegava seu talão de cheques. – Como é seu nome mesmo chibi?
—Naruto, Uzumaki Naruto. – Falou, tão naturalmente que surpreendeu Sasuke. Ele estava fazendo progresso rápido.
— Certo, Naruto. Não vou esquecer. – Disse se aproximando do mesmo. –Você desenha bem, little fox. – Referiu-se às marquinhas nas bochechas do mesmo, e isso arrancou uma risada do loiro.
— Little fox? Legal. E obrigado, hmmm... – Naruto pensou por alguns instantes. – Puppet’s boy.
Sasori arregalou os olhos com espanto, e Sasuke olhou diretamente para o menor, que ainda desenhava calmamente.
— D-do que me chamou? – Perguntou Sasori, incrédulo. Sasuke também tinha uma expressão mista de curiosidade e espanto.
— Puppet’s boy, garoto das marionetes, ou algo do tipo. É isso que você é, não é? O cara das marionetes.
Sasori estava sem palavras, apenas olhava fixamente para Naruto, que o olhava de volta com uma cara de quem não está entendendo nada.
— Sasuke? – Inquiriu Sasori, com uma expressão que dizia “você contou a ele?”.
O fato de Sasori fazer marionetes era de conhecimento de poucos, apenas sua família, Sasuke e Tenten sabiam. E agora Naruto também, aparentemente.
— Eu disse algo que não devia? – Perguntou Naruto.
— N-não, é que... Eu... – Sasori tentava formular uma frase.
— É que quase ninguém sabe o “lance” do Sasori com marionetes. Só estamos surpresos com o fato de você saber. Aliás, como?
— Sasuke lhe disse algo? – Indagou Sasori, que ainda estava meio perplexo.
— Eu não disse nada, ruivo. Por que diria? Vocês acabaram de se conhecer, por que diabos eu teria falado algo? Quer dizer, não costumo falar para estranhos que eu tenho um amigo artesão, se é que me entende. – Disse o moreno com evidente ironia. – Teu Q.I. tá caindo!
— Você! – Apontou para o moreno. – Cale a boca por gentileza. E você – apontou para o loiro, dessa vez. – Como sabe que faço marionetes? É como um segredo pra mim. – Disse o ruivo.
— Desculpe, eu não sabia que era algo sigiloso, e menos ainda que faz marionetes.
— Como assim? Não tô entendendo nada! – O ruivo espichou na cadeira, levando as mãos à cabeça.
— Eu não sabia, mesmo. Foi mais um palpite.
— Palpite? Nem sendo alguma espécie de vidente pra palpitar tão bem! Você tem alguma veia paranormal? – Sasori questionou, alterando o tom.
Sasuke riu, seu amigo estava meio bobo, talvez pela surpresa.
Sasori bufou e pegou Naruto pelo moletom, o puxando com certa violência.
— Fala! Como você sabe? Alguém contou? Quem? FALA!
Sasuke correu até seu amigo, puxando-o para trás e livrando Naruto, que tinha uma expressão de choro no rosto.
— Calma aí Sasori! Já chega! – Falou com o tom de voz também alterado. –Você esta assustando o menino! – Sasuke pegou o rosto de Sasori, virando-o em direção a Naruto.
— Gomen Naruto-kun. Eu não queria assutá-lo. Gomen! – Falou o ruivo já voltando a si. – Pode dizer como soube, por favor? É importante para mim.
— T-tudo bem, não foi nada. E digamos que deduzi isso.
Com essa frase as expressões de dúvida voltaram para o rosto dos adultos. “Deduzir? Isso é impossível!” pensou Sasuke.
— Deduzir? Como assim? – Perguntou Sasori. – Você me espiona ou algo assim? – Naruto abandonou a expressão de medo e a substituiu por um sorriso.
— Não, só te observei desde que entrou. Veja, enquanto você conversava com Sasuke sobre o relógio, você gesticulava com as mãos, e no punho do seu casaco, eu vi que tinha um pouco de serragem bem fina. – Sasori ergueu o punho e viu que o menor tinha razão. – Então eu pensei que você fazia móveis ou algo assim, mas quando você estava mexendo as mãos para esquentá-las, seus movimentos foram leves e graciosos, típicos de um titeriteiro, e mais tarde vi que você tem algumas marcas de pressão, como cicatrizes, nos dedos, que eu imaginei serem dos nós dos fios que são usados para controlar alguns tipos de marionetes. Só liguei alguns pontos. Imaginei que a serragem então fosse de alguma marionete que você pudesse estar lixando ou polindo.
No momento não se sabia de quem era a expressão mais embasbacada da sala, se era a de Sasori, que estava com a boca aberta olhando para cada canto de sua roupa, ou a de Sasuke, que simplesmente encarava Naruto com uma expressão que demonstrava um grande “Hã?”. O silêncio se fez presente, ouvia-se apenas o barulho do lápis de Naruto, que voltara a desenhar como se nada tivesse acontecido.
— Mas se você não trabalha com marionetes, você deve ter outra profissão. – Continuou o loiro, à medida que desenhava.
— Certo... Não me diga que você sabe qual é – Disse Sasori, fitando Sasuke, que demonstrava tanta incredulidade quanto ele mesmo.
— Se quiser eu não digo, mas tenho um palpite. – Disse o loiro com naturalidade.
— Uau, você me dá arrepios, garoto! – Naruto sorriu. Sasuke, que estava atrás dele, sinalizou para que Sasori continuasse a estimulá-lo, e pegou seu bloco. – Certo então gaki, faça sua mágica.
— Você, além de ser professor, é joalheiro ou ourives, ou ambos. – Falou o loiro, largando o lápis e recostando-se à cadeira.
Sasuke fez uma expressão de “caramba” enquanto escrevia, ao mesmo tempo que Sasori possuía uma expressão boba no rosto.
— Na mosca... – Murmurou o ruivo. – Como você...
— Ponta dos dedos, terceiro botão do sobretudo e... – Levantou-s,e indo em direção à mesa em que Sasuke deixou o relógio. – Isto.
— A parte do relógio eu até entendo, mas e o resto? Como?
— O relógio é a pista mais óbvia, mas não foi ela que te entregou, e sim o resquício de pó de ouro nela, que vem dos seus dedos. – Apontou para os mesmos, à medida que balançava a caixinha do relógio, de modo que o ouro reluzisse. – A parte do professor foi por causa do pó de giz no botão do casaco. –Concluiu.
— Você é incrível, chibi. Tem meu respeito.- Disse o ruivo, olhando mais uma vez suas roupas.
— Obrigado! – Respondeu o loiro com um sorriso.
Sasuke sorria enquanto por sua cabeça passava mil e uma formas de dizer o quão incrível Naruto era. Ambos moreno e ruivo se entreolhavam admirados e estarrecidos.
— É bom ter um amigo inteligente, para variar. – Falou Sasori, lançando um olhar divertido para Sasuke, que bufou.
— Você também é meu amigo, Sasori-kun? – Perguntou o loiro com uma expressão alegre.
— Com certeza! Você é demais, garoto. – Sorriu Sasori, afagando os cabelos do menor. Naruto apenas riu divertindo-se com a situação. Ele havia conseguido mais um amigo.
— Devo concordar, Naruto, você é incrível! Não só por suas deduções sobrenaturais, mas por tudo.— Disse Sasuke, pondo uma mão no ombro do menor.
— Obrigado... Fãs. – Brincou Naruto, fazendo-os rir.
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