Inside
19 Some Nights and Time After Time...
Notas iniciais
O loirinho sorriu com a resposta meio emburrada do outro.
–Então, o que quer fazer? –Perguntou o moreno olhando em volta.
–Primeiro vou tomar um banho, mas fique à vontade. –Respondeu o loirinho, levantando-se em seguida e mancando, dirigiu-se à escada. Subiu a mesma com a ajuda do moreno, que apareceu ao seu lado para escorá-lo. O loiro foi até seu quarto com a ajuda do outro, e lá pegou uma muda de roupa e mancou até o banheiro, onde iniciou um banho quente e relaxante.
Sasuke aproveitou esse tempo para vagar pela casa e explorar os cantos que eram desconhecidos para si. Andou por alguns corredores observando com curiosidade. Os quadros e as obras de arte que ornamentavam a casa eram de muito bom gosto. Entretanto, nenhuma das obras, renascentista ou de arte moderna, chegou aos pés da beleza de uma foto de pai e filho, ambos sorridentes e cobertos de terra. Pareciam duas crianças na verdade. O moreno sorriu e logo seguiu seu trajeto pelos corredores da grande mansão Namikaze. Dobrou um corredor e se deparou com uma porta dupla feita de madeira, com diversos detalhes e desenhos que lhe davam um ar mais imponente.
Sua curiosidade falou mais alto e então ele resolveu abri-la, e não se arrependeu. Para um viciado em livros, a visão da ampla biblioteca que estava escondida atrás das portas grossas de madeira fora um deleite. O ambiente era de tamanho mediano, e suas paredes eram forradas com prateleiras de cor escura e os espaços que não eram cobertos por essas peças, eram preenchidos com vidraças de vidro escuro, com filtro UV, para diminuir o dano que o sol pudesse causar aos livros. A coleção de manuscritos era de tirar o fôlego. Contava também com uma mesa de xadrez bem trabalhada em madeira bem escura, com duas cadeiras aparentemente bem confortáveis, uma oposta a outra.
Sasuke entrou na biblioteca, tão empolgado quanto uma criança em uma loja de brinquedos. Havia livros dos mais diversos assuntos, desde os contos de Grimm até pequenas coleções de livros que falavam sobre cientistas e suas teorias. Livros das mais diversas áreas do conhecimento também ocupavam seu espaço nas prateleiras. Foleava um livro sobre um assunto qualquer de forma tão compenetrada que levou um baita susto com a voz de Naruto, que em algum momento entrou no cômodo.
–Gosto desse cômodo. –Disse com nostalgia. –Passei grande parte da minha infância aqui, de tudo um pouco. –Contou o loirinho. –Grande parte de minha “esquisitice” veio daqui. –Sasuke riu das palavras do menor.
–Minha infância quase toda atrás disto. –Apontou para a mesa no canto da sala. –Eu jogava muito xadrez. Quando meus pais brigavam, jogava com meu irmão. Ele queria me distrair um pouco. Competi em diversos torneios, escolares e profissionais, e ganhei s grande maioria deles. –Murmurou ele, sentando-se em uma das cadeiras, seguido por Naruto que se sentou na outra.
–Você tem cara de enxadrista mesmo. –Riu. –Não sei muito do esporte, apenas li um exemplar que ensinava os conceitos básicos. Topa uma partida, Sr. Invencível? –Desafiou. Sasuke riu em deboche, se apossando das peças negras e organizando seu lado do tabuleiro. O menor fez o mesmo. Pouco tempo depois, a partida já queimava alguns neurônios dos dois competidores.
–Naruto, se importa em conversarmos hoje ao invés de amanha de tarde? –Indagou o moreno, recebendo um erguer de sobrancelha que demonstrava a confusão do loiro. –Tenho um compromisso amanhã de tarde, quando seria nossa consulta.
–Não tem problemas, não quero atrapalhar nada. –Sorriu, movimentando sua torre, dando um fim no cavalo de Sasuke, que não deixou barato e vingou-se mandando a torre do loiro para fora do tabuleiro com seu bispo. –Então, o que quer saber, Dr. Uchiha? –Sorriu fitando o tabuleiro atentamente.
–Bom... Com que peça do jogo você mais se identifica? –Questionou, movendo um de seus peões remanescentes. O loiro pensou por alguns segundos e respondeu:
–Acho que com o cavalo. –Levou a mão ao queixo. –Excêntrico, pode ser uma pedra no sapato, pode pular por cima de seus obstáculos, mas que precisa ser usado com cuidado para não cair em uma armadilha. –Sorriu e moveu um peão em seguida, acabando com o segundo cavalo do moreno, que torceu os lábios em desagrado. –Quem perder o jogo paga a pizza do jantar. –Sorriu desafiador.
–Alguns te achariam insolente em desafiar um enxadrista mais experiente, mas eu aceito. –Retribuiu categoricamente o sorriso. Quase quarenta minutos depois, o mais velho levava o loirinho para um beco sem saída. Estava poucos movimentos de dar cabo do rei do adversário. Na sua vez, posicionara a rainha alinhada ao rei de Naruto. Na sua vez seguinte mataria a torre que ladeava o seu alvo, para então dar-lhe o xeque-mate. Sorriu ao ver que o loirinho estava encurralado. Entretanto, seu sorriso morreu ao ouvir a voz do loiro, em tom arrogante dizer-lhe pausadamente:
–Xeque-mate, Sasuke. –O moreno espantou-se, para só então voltar a prestar atenção na situação do seu lado do campo. Discretamente, Naruto havia deixado o rei de cor negra sem uma rota de fuga. Para onde quer que fugisse, havia uma das peças brancas, só esperando para exterminá-lo. –Quero pizza de frango com catupiry. –Sorriu vitorioso, vendo a expressão atônita de Sasuke.
Algum tempo depois, um Sasuke inconformado e um Naruto triunfante estavam na mesa jantando a pizza, paga pelo moreno, e conversando sobre assuntos diversos. Naruto contava sobre seu fim de semana para Sasuke, que lhe ouvia atentamente, rindo e comentando as situações um tanto inusitadas.
–... E encontramos vocês lá no parque. Antes disso o Sasori e o Gaara-kun estavam conosco, mas foram embora logo. –Concluiu o loirinho, dando uma mordida em uma fatia de pizza.
–Gaara? –Perguntou Sasuke, despertando a curiosidade do loiro. –Ele está bem?
–Eu acho que sim... Por? –Expressou sua curiosidade.
–Ele foi meu paciente. –Contou, bebericando seu refrigerante. –Ele pode ser um pouco difícil de lidar.
–Como assim?
–Não deveria quebrar o sigilo dos meus pacientes, mas digamos que ele tem uma bipolaridade extrema. Acessos de fúria e crises depressivas eram coisas constantes. –Murmurou desinteressado.
–Tipo bipolaridade? –Deu um fim na fatia que comia.
–Tipo um desequilíbrio. Ele é uma ótima pessoa, e bem no fundo só era incompreendido. Recebia um tratamento meio inadequado da família e isso o deixava assim. Mas ele está bem agora, sob controle. Seus pais mudaram de cidade, praticamente o abandonando, e até acho que isso foi bom. Gente desagradável. Hoje ele ainda deve viver com a avó e também sendo vigiado pelo Sasori. –Contou o moreno, levando a louça até a pia e jogando a caixa em que veio a refeição no lixo.
–Caramba, que barra. –Comentou.
–É complicado mesmo. Digamos que a situação de vocês é um pouco parecida. Basicamente é depressão, entretanto vocês reagiram de modos diferentes. Você se fechou e ele praticamente pirou. –Explicou o moreno.
–Entendo... –Murmurou, brincando com seus dedos sobre a mesa. –E eu, você acha que eu estou melhorando? Quer dizer, acha que eu posso “pirar” também? –Perguntou preocupado. Sasuke riu prostrando-se de forma analítica em seguida.
–Para mim você já está bem melhor. Nunca vi alguém reagir tão bem e tão rápido. Você era fechado e introvertido, e hoje está cheio de amigos. E isso em um intervalo de tempo muito rápido. Tenho orgulho de você. –Sorriu, recebendo a mesma reação do loiro. –No seu caso, normalmente, seria necessário receitar uma medicação pesada imediatamente. Deveria ter prescrito remédios fortes desde o primeiro encontro, mas resolvi te dar uma chance e não me arrependo disso. –Naruto apenas alargou ainda mais aquele sorriso que Sasuke tanto gostava. –Mas e aí, tem algum jogo de tabuleiro? Mas dessa vez, sem apostas. Você é tão sorrateiro e trapaceiro quanto seu pai! –Engatou um novo assunto.
Naruto gargalhou e saiu correndo em disparada rumo ao seu quarto para buscar suas caixas e mais caixas de jogos. No caminho do loiro até seu quarto, o som do telefone residencial soou por toda a residência, já que a linha era a mesma para todos os aparelhos. Sasuke recebeu um grito do menor, mandando-o atender a ligação, e assim o fez.
–Residência dos Namikaze! Deseja falar com quem? –Indagou formalmente. Não estava na casa da mãe Joana.
–Oh, Sasuke! O que faz aí? –Questionou a voz do loiro maior do outro lado da linha.
–Minato-san! Bom, eu acompanhei Naruto até em casa, vimos seu bilhete e ele me convidou para ficar fazendo-lhe companhia. Vamos jogar alguns jogos, depois vou para casa. –Respondeu.
–Entendo... –Murmurou. –Sasuke, seria abusar de sua boa vontade pedir para você passar a noite aí? Para o Naruto não ficar sozinho, sabe? –Ditou apreensivo. –Digo, não voltarei para casa essa noite, se é que me entende... –Falou baixinho, envergonhado. Sasuke sorriu.
–Ah, claro. Sem problemas então. –Murmurou. –Minato-san, tem alguma coisa que eu deveria saber? –Perguntou, percebendo o tom desconfortável do outro.
–Sobre Naruto? Bom, ele não tem dormido bem ultimamente. Pesadelos...
–Entendo... Mas não se preocupe, ficarei por aqui então.
–Muito obrigado. Te devo mais uma! –Desabafou- Fique à vontade, e sinta-se em casa! Escolha um quarto, pode pegar alguma roupa que lhe sirva no meu guarda-roupas.
–Obrigado pela hospitalidade. Aproveite bem sua noite e divirta-se! Mande um alô para Mei. Não se preocupe com nada por aqui. –Não conseguiu mais segurar o riso. Mas não de deboche, estava feliz pelo outro. –Boa sorte e usem proteção! –Ditou. Esperou uma resposta, mas só vieram gaguejadas desconexas de um home envergonhado, então desligou, ainda rindo.
–Quem era? –Indagou o loirinho carregado de caixas, cortando os devaneios do outro.
–Seu pai. –Respondeu casualmente, ajudando o menor com as caixas. –Ele pediu para eu pernoitar aqui, ele não voltará para casa tão cedo, se é que me entende.
–Oh, entendo sim. –Franziu o cenho em uma careta. Imaginar o que seu pai faria com Mei não era exatamente uma coisa divertida. –Pelo menos terei companhia! –Sorriu e foi retribuído. –O que quer jogar primeiro, Sr. Perdedor Inconformado? –Provocou.
Sasuke sorriu desafiador. E a noite dos dois foi construída em cima de tabuleiros dos mais variados. Banco imobiliário, war, jogo da vida, perfil... Jogos simples, mas muito divertidos. Com o esperado, Sasuke faliu no banco imobiliário, teve suas legiões aniquiladas no war, faliu mais uma vez no banco imobiliário, fracassou lamentavelmente no jogo da vida e seu conhecimento de mundo foi obliterado pelo de Naruto. Era como querer medir conhecimentos astronômicos com Galileu, matemáticos e físicos com Einstein, musicais com Beethoven e assim por diante.
–Eu desisto, você é um monstro! –Exclamou Sasuke, recebendo uma gargalhada do loirinho, que no momento guardava os jogos e peças nas devidas caixas.
–Obrigado, eu acho...
–Um monstro que precisa ir dormir. –Ditou o moreno, olhando em seu relógio de pulso, que marcava quase meia-noite. –Deixa que eu termino de guardar e arrumar tudo e vai pra cama.
–Tudo bem então, tou-san. –Disse divertido. –Boa noite, Sasuke. –Roubou-lhe um abraço.
–Boa noite, Naruto. Qualquer coisa vou estar em algum dos quartos de hóspedes. –retribuiu o abraço.
–Obrigado por ficar aqui comigo. –Murmurou abafado, por conta de seu rosto estar colado ao corpo do maior.
–Não precisa agradecer. –Sorriu. Sentia-se bem com o loiro. –Agora vai dormir. Nos vemos amanhã de manhã, mas não a tarde. –Lembrou-lhe. –Mas antes, onde ficam os medicamentos? Estou com um pouco de dor de cabeça.
–Certo. –Desfez o abraço. –Tem ali naquele armário da cozinha, no banheiro principal e no banheiro do meu quarto e do quarto do tou-san. –Explicou. –Procure alguma coisa e vá dormir também. –Falou em tom preguiçoso, rumando ao seu quarto em seguida.
–Pode deixar. Boa noite, Naruto.
–Boa noite.
Sasuke foi até o tal armário, procurando alguma aspirina. Quando achou, ingeriu um comprimido com um gole d’água. Apagou as luzes e foi para um quarto de hóspedes para se instalar e passar a noite. Entrou no primeiro que viu, retirou a roupa, ficando só de cueca e jogou-se na cama, entrou embaixo dos cobertores e permitiu-se relaxar naquele colchão confortável, rendendo-se ao sono em pouco tempo. Naruto fazia o mesmo em seu quarto.
A noite seguia tranquila e silenciosa. Do lado de fora, uma brisa chacoalhava as árvores, arrastava folhas e tornava tudo bastante bucólico. Mas a calmaria sempre precede a tormenta. Na mansão, algo cortou o silêncio. Gritos afoitos, o barulho de algo quebrando e pedidos de ajuda despertaram Sasuke, e o mesmo saiu da cama em um pulo. Os gritos vinham de Naruto.
O moreno saiu em disparada para o quarto do loirinho, abrindo a porta, ligando a luz e se deparando com cobertores revirados, um abajur quebrado no chão e Naruto se debatendo na cama, gritando coisas desconexas, pedindo para que não tocassem nele e clamando por ajuda. Mas não estava consciente, ele ainda dormia. Estava perdido em um de seus pesadelos. Ele chorava e se debatia, tendo se defender de algo que lhe perseguia. Sasuke correu até a cama, chamando pelo loiro e tentando acalmá-lo, segurando suas pernas e seus braços para que não se ferisse.
–Naruto! –Chamava, mas não recebia respostas. O loirinho suava frio. –Naruto, é um só um pesadelo! Eu estou aqui!
Nada.
Depois de se debater ainda mais afoito, o loirinho acordou, sentando-se de supetão na cama, olhando em volta, fitando seu quarto, fitando Sasuke, mas era como se não reconhecesse nada. Estava quase catatônico. Ele dormia sem camisa, então quando se sentou, Sasuke, que ainda imobilizava as mãos do menor, pode ver seu peito. Viu que o coração do loiro batia de forma forte, acelerada e muito descompassada. A respiração do menor também estava descompassada. Ela ere entrecortada. Por mais que ele tentasse puxar, o ar não vinha em quantidades generosas. Sua garganta parecia apertar, sufocando-o.
Pela cabeça de Sasuke só se passaram algumas palavras, das quais a maioria era inútil, apenas três delas, ordenadas de forma coerente foram úteis “Ataque de pânico”. Os olhos azuis repletos de desespero fitavam o moreno como se clamassem por ajuda. Naruto emitia sons estranhos de sua garganta, mas chorava mudo por conta de não conseguir inspirar normalmente. Sasuke só podia fazer uma coisa para acalmá-lo, e em uma fração de segundos, o fez. Ergueu sua mão a uma altura considerável, e com uma dor em seu próprio peito, desceu-a com força, desferindo um tapa no loirinho, que o calou.
O moreno ficou apreensivo fitando a face do menor, que estava virada e ficando vermelha. O tapa doera mais em si do que em Naruto. O loirinho parecia se acalmar, o método de Sasuke surtiu efeito. Ele, pouco a pouco, normalizava sua respiração e seu coração se acalmava no peito. E seu choro agora era audível e sôfrego. Sasuke o puxou para um abraço.
–Por favor, me desculpe Naruto! Desculpa! –Apertava o menor, que se agarrou no moreno como se este fosse um porto seguro. –Eu não queria fazer isso, mas... Me desculpe!
Não obteve resposta. Também não precisava de uma. O loirinho pouco a pouco se acalmava nos braços de Sasuke. Suas lágrimas molhavam o tórax nu do maior, e pouco a pouco, o contado foi se tornando menos firme.
–Tudo bem com você agora? –Pediu em um sussurro, tirando algumas mechas de cabelo, encharcadas de suor, da face do loiro.
–O-obrigado, S-Sasuke... –Murmurou em meio aos soluços. –E-eles queriam me p-p-pegar, m-mas eu não conseguia fugir e... –Falava de maneira atropelada, agitando-se novamente.
–Shhhhh... Não diga mais nada. –Acariciava os fios loiros do garoto que agora estava praticamente deitado em seu colo. –Vou pegar um copo d’água. Não se preocupe, eu logo voltarei. Nada vai te fazer mal, ok? –Perguntou. O loiro apenas moveu a cabeça positivamente. –Certo. Tome um banho, você está suado. –Novamente ele concordou, levantou-se ainda tremendo bastante, pegou uma cueca e uma toalha e foi até o banheiro de seu quarto.
Sasuke rapidamente desceu até a cozinha, onde pegou um copo no qual jogou dos comprimidos de calmante, triturando-os com uma colher. Um só, no estado do loirinho, seria eliminado rapidamente do organismo. Encheu o copo com água e voltou ao quarto, deixando o recipiente em seu criado-mudo. Da porta do banheiro, podia ouvir um choro baixinho.
Pouco depois, o loirinho saiu do cômodo, voltando ao quarto, apenas de cueca. Sasuke estendeu um roupão ao menor, que prontamente o vestiu e sentou na cama. O moreno pegou a toalha e começou a enxugar os cabelos dourados do outro. Também viu a marca avermelhada, e em alguns pontos roxeada, que sua mão deixara no rosto dele.
–Desculpe por isso. –Passou a mão no ferimento.
–Ah, sem problemas. –Murmurou distante.
–Beba isso, vai te fazer bem. –Buscou o copo e entregou-o à Naruto, que bebeu todo o conteúdo prontamente. Naruto sentou-se na poltrona que havia em seu quarto a pedido de Sasuke, que prontamente trocou os lençóis molhados de suor da cama do menor.
Terminado, o loiro voltou a deitar-se, e com o efeito do calmante, não tardou em voltar a dormir, por mais que não quisesse. Tinha medo de ter mais pesadelos. Sasuke prometeu que ficaria com ele. Cumpriu sua promessa. Não voltou mais para seu quarto. Sentou-se na poltrona, jogou uma pequena manda em suas costas para combater o frio, e ficou velando o sono do menor, não sem antes varrer para um os cacos da porcelana do abajur que se quebrara.
Minato voltou logo de manhã cedo para casa, obviamente muito feliz. Se não tivesse que trabalhar, não voltaria tão cedo. Como um pai protetor, foi até o quarto do filho e deparou-se com o mesmo dormindo tranquilamente, sendo zelado por um moreno de olhar distante, que nem reparou sua presença. Fitava o menor fixamente, mas estava visivelmente distante.
–Sasuke? –Chamou, puxando o moreno de volta a realidade. O moreno o fitou aliviado, fez sinal para que o outro não fizesse barulho e saiu do quarto, puxando Minato junto. –Aconteceu alguma coisa?
Sasuke massageou as pálpebras de modo sonolento.
–Prepare um café bem forte. Precisamos conversar.
O loiro maior foi até a cozinha, iniciando o preparo do café. Também precisaria de uma xícara reforçada. Pouco tempo depois, o moreno apareceu na cozinha, já devidamente vestido.
–Minato-san, Naruto tem algum trauma ou fobia? –Perguntou direto.
–Não que eu saiba... –Ficou pensativo. –Mas por quê? –Devolveu a pergunta. Sasuke explicou o que houvera durante a madrugada, fazendo Minato ficar alarmado.
–Ele só parou depois do tapa que tive que dar nele. –Confessou. –Acho que pesei demais a mão. Doeu em mim também. Peço desculpas pra você também.
–Não, não precisa. Eu devo agradecer muito você, Sasuke. Meu pai e o pai de Kushina eram doentes cardíacos. Naruto poderia muito bem ter enfartado. –Espremeu os olhos.
–Não vamos pensar nessas coisas. Ele está melhor, isso é o que importa. –Bebeu mais um gole de seu café. –Verei o que posso fazer em nossas próximas consultas. Já falei com ele e disse que hoje não poderei atendê-lo. Minha mãe às vezes tem um ataque de boa samaritana e lembra que tem um filho.
–Tudo bem, sem problemas. –Disse Minato, deixando sua xícara na pia. –Devo acordá-lo para ir pra escola?
–Não. Creio que ele nem levantaria. Ele dormiu sob efeito de calmantes. Provavelmente vai até de tarde assim.
–Certo. Obrigado novamente.
–Não precisa agradecer. Eu vou indo também, preciso dormir um pouco. Depois que ele acordou, não dormi mais também. –Se despediram com um aperto de mão, e novamente Minato emprestou um de seus carros para o moreno.
O loiro maior também foi se aprontar para o trabalho. Passou no quarto do filho para lhe dar um beijo, mesmo que ele não percebera. Quando ia saindo, avistou Kiba, que iria com Naruto para a escola. Avisou que o menor não iria à escola hoje, pois não estava muito bem. Ofereceu-se para dar uma carona ao moreninho, que aceitou.
Kiba teria suas desventuras na escola sozinho no dia de hoje. E por falar nele, desembarcou em frente à escola, despedindo-se de Minato, desejando-lhe um bom dia de trabalho. Entrou na escola, vagando meio sem rumo. O dia seria tedioso sem seu fiel escudeiro.
Foi para a sala de aula, onde ficou por um tempo sozinho, até que seus colegas chegaram e a aula iniciou. A primeira aula era com Sasori. Kiba recebeu diversas provocações, mas sempre respirava fundo. Na aula de artes, lecionada pelo ruivo, teriam de fazer uma peça com argila, então a aula estava mais descontraída. Kiba estava com alguns outros colegas, conversando casualmente. Observava seus “inimigos” sempre que podia, e notou que eles diluíam demais a argila, e que estavam com um pacote de balões de festa. Sem falar que lhe olhavam, soltando risadinhas. Isso definitivamente não iria prestar. Seus devaneios foram cortados pelo seu celular que vibrou em seu bolso. Limpou as mãos e viu que havia recebido uma mensagem
Peça para sair um pouco antes do intervalo, vá até o banheiro do ginásio. Não saia de lá até o final do intervalo. Não se preocupe, apenas faça.
Estranhou. Quem não estranharia? Olhou em volta, procurando qualquer coisa suspeita, mas não achou nada. Repetiu o movimento diversas vezes, mas nada. Só os garotos que riam dele. Seria coisa deles? Se fosse, não iria fugir. Não queria ser sujo de argila, o que provavelmente seria, mas não fugiria.
Cerca de cinco minutos antes do intervalo, pediu para ir ao banheiro. Não estava mentindo, afinal. Iria ao banheiro. Depois de alguns minutos de caminhada, chegou aonde queria. Ficou a espera de qualquer sinal, mas não ouvia nada. O intervalo já começara há alguns minutos, ele já estava ficando com fome. Precisara almoçar. E era o que iria fazer, se não tivesse ouvido a voz dos garotos que tanto lhe incomodavam. Ditavam coisas como “ele sumiu” e “onde aquele idiota se enfiou?”, e isso o acuou um pouco. Não que sua coragem se dissipara, mas preferiu se esconder e manter-se limpo.
Quando ia se esconder em uma das cabines, a porta do banheiro foi aberta de supetão, revelando Gaara, que portava uma sacola escura. Fitou o garoto, que o olhou fixo de volta. O ruivo rapidamente levou a mão até a sacola que portava. Kiba fechou os olhos, se preparando para o que viria. Ouviu um barulho de plástico e logo em seguida o estrondo da porta se fechando, senso sucedido por um “Aqui no banheiro ele também não está!”. Ficou mais confuso que já estava. Sua confusão e espanto multiplicaram-se quando viu que havia uma sacola próxima à porta, e esta continha um hambúrguer ainda quentinho e um refrigerante. A fome estava grande, então comeu sem pestanejar. Recebera outra mensagem.
Não saia daí até o fim da aula, ou terá problemas com manchas. Levo suas coisas pra você e copio a matéria.
E as estranhezas não paravam. Gaara era um cara mais legal que imaginara. E fez isso mesmo. Quem lavava suas roupas era sua mãe, e ela surtaria com manchas de argila. São terríveis!
Passou o resto do período escolar no banheiro, ouvindo músicas, mexendo na internet por meio do celular e bom, fazendo o que um garoto com os hormônios a flor da pele faz em um banheiro. Não se orgulhava desse seu lado. E o tempo passou surpreendentemente rápido. Alguns minutos após o fim das aulas, ouviu algumas batidas na porta do banheiro, e em seguida viu o garoto de cabelos vermelhos abrir a mesma, fitando-o por poucos segundos, antes de desviar o olhar. Gaara era tímido.
–Ei, obrigado por me avisar sobre Neji. –Agradeceu sorrindo, estendendo a mão para um aperto.
–Ah, n-não por isso. –Retribuiu o gesto. –Eles já foram, então já é seguro. Eles deixaram as bexigas nos armários deles, mas já falei com a diretora, que vai confiscar e “passar um mijão” amanhã.
–Mas você não vai se ferrar junto? –Indagou Kiba, preocupado.
–Talvez, mas creio que não. Anistia aos delatores... –Riu. –Bom, já pode sair do seu exílio.
–Certo, obrigado de novo. –Agradeceu novamente, pegando seus pertences.
–Por que Naruto não veio para a aula hoje?
–Minato-san disse que ele não estava se sentindo bem. –Falou, já andando lado a lado com Gaara pra fora daquele lugar. –Vou passar lá agora, ver como ele está.
–Vocês são muito amigos, não? –Indagou o ruivo. Ambos já caminhavam pela rua. Gaara morava no mesmo sentido da casa de Kiba.
–É. Uma amizade que surgiu de um jeito bobo, mas acho que hoje daria a vida por ele se fosse necessário. –Confessou, fazendo o ruivo se espantar. –Eu nunca vou poder retribuir o que ele já fez por mim. Digo, ele já é como um irmão pra mim, indiretamente me arrumou um emprego relativamente estável, com um bom salário que dá pra ajudar em casa, e de brinde me arrumou uma figura paterna. –Continuou o moreno, fitando o horizonte com um sorriso nostálgico polvilhado com amargura. –Minato-san é como um pai pra mim. –Gaara o ouvia atentamente. Seguiram conversando até se verem parados em frente à casa do moreno.
–Bom, eu fico por aqui. –Despediu-se com um aperto de mão. –Nos vemos amanhã, eu acho.
–Bom... –Respondeu meio desconfortável, ficando em silêncio em seguida.
–Ah, você não pode conversar comigo na escola, por causa do Neji. –Concluiu. Gaara pensou que o outro fosse se irritar, mas isso não aconteceu. –Tudo bem, seu número eu já tenho. Podemos nos falar por sms sempre que quiser. –Sorriu.
–H-hai... Me desculpe.
–Sem problemas. Mas agora tenho que entrar, preciso ir ver o Naruto. –Ditou abrindo o portão e entrando, acenando para o ruivo que seguiu seu caminho.
–Quem era seu amigo, Kiba? –Perguntou Tsume, a mãe de Kiba, que surgiu de dentro da casa.
–Ah, é o Gaara. Ele legal. –Expôs casualmente, dando um abraço um beijo na mãe. –Vou me trocar e depois vou na casa do Naruto. Ele não foi pra aula e fiquei preocupado.
–Tudo bem, você vive lá mesmo... –Riu. –Esse loiro me lembra alguém, mas não sei exatamente quem... –Levou a mão ao queixo, puxando pela memória, mas não obtendo nenhum.
–Ele é filho de Namikaze Minato e Uzumaki Kushina, se não me engano. Não sei como não comentei nada com você até agora... –Disse com descaso, pegando uma fruta e comendo-a, um tanto apressado. Tsume estapeou sua própria face, como se algo óbvio viesse a sua mente.
–Mas é claro! Minato e Kushina! –Exclamou. –Eu sabia que aqueles cabelos loiros me eram familiar! –Riu de si mesma. –Mande lembranças para Minato uma hora dessas, nós éramos muito amigos. -Contou, chamando a atenção do filho. –Eu era amiga da mãe dele há muitos anos, antes de ela conhecer Minato. Quando os dois começaram a se conhecer menor, me aproximei do loiro também. Só perdemos contato quando os dois começaram a ter problemas na relação... –Contou em tom mais sério. –Minato vivia na empresa, Kushina também. Naruto deve ter passado por umas poucas e boas...
–Realmente. –Concordou. –Mas está melhorando, está se tratando com um psicólogo muito bom. Hoje teria consulta, mas pelo que Minato falou, houve um imprevisto e ele não terá. Também não se sentiu bem de manhã.
–Vá ver o que houve com seu amigo. –Kiba sorriu e concordou, despedindo-se da mãe com um beijo e saindo em disparada em seguida.
–Deixe um beijo para Hana! –Gritou antes de cruzar o portão. Tsume apenas concordou, sorrindo terna. Seu filho era uma ótima pessoa.
Naquela tarde, Kiba chegou e encontrou Naruto ainda dormindo. Quando o loirinho acordou, Kiba lhe serviu o que era para ser um almoço, mas pela hora já se encaixava em um lanche da tarde. Perguntou sobre a marca em sua bochecha e Naruto resumiu-lhe a história. Kiba lhe fez companhia pela tarde e também à noite. Pernoitou lá a pedido de Minato, que ainda estava preocupado com o filho. Pai e filho tiveram uma conversa aquela noite também.
E nesse ritmo os dias foram passando, formando semanas, e as semanas já iam se acumulando também. Naruto seguia com suas consultas normalmente. Loiro e moreno conversavam bastante, riam e se divertiam muito, criando laços fortes, entretanto, Naruto ainda não se abrira com o moreno sobre seus pesadelos. Sempre sentia-se desconfortável com o assunto. Sasuke não insistia, sabia que alguma hora o loirinho iria se abrir.
Minato e Mei iam muito bem também. Sempre que podiam passavam um tempinho juntos, sendo em casa ou em qualquer outro lugar. Mei dormir na mansão Namikaze não era mais surpresa para ninguém. Como ela era uma celebridade conhecida e ele um grande empresário, o caso dos dois não demorou a ir parar na mídia. Revistas, jornais, programas de fofoca, todos falavam do casal. Eles não se importavam, não precisavam esconder nada de ninguém.
Kiba também estava se tornando conhecido. Estava trabalhando bastante como modelo, em campanhas cada vez maiores. Mei sempre lhe ajudava quando podia, arrumando trabalhos em campanhas e comerciais para o menor. As garotas, não só do colégio, estavam rastejando aos pés do jovem galã. Estava se tornando uma pequena celebridade. Fã clubes dele existiam por todo o lugar, e aonde ia, sempre acabava autografando alguma foto. Geralmente era algum comercial de cuecas. Naruto, que muitas vezes saia com o amigo, sempre ria das situações. Com o dinheiro que o menor ganhava, em algum tempo a família Inuzuka conseguiu comprar uma nova casa, em um bairro mais nobre e com um jardim maior, onde a mãe e a irmã do menor podiam cultivar a paixão das duas, flores.
Todo o final de tarde, Tenten não ia mais para a própria casa. Ia direto para a casa dos loiros, onde estava dando lições de kung-fu para Naruto e também para Kiba. Meditação, golpes e combinações mais complexas... Gastava seu tempo ensinando os menores a serem mais fortes. Naruto por ser mais magro, era mais esguio e rápido. Kiba era rápido, mas não tanto quanto o loiro, o moreno era mais forte e preciso. Com o tempo, Kiba foi melhorando seus reflexos e Naruto ganhando massa muscular, ficando mais equilibrados. Não que o loiro tivesse virado um daqueles “marombados”, ele nunca teria um corpo assim. Estava com um pouco mais de braço e com os músculos do tórax, abdome e pernas bem mais firmes. Nem tudo isso era fruto do kung-fu, pois o loirinho fazia academia com Kiba em sua própria casa.
Na escola, pouca coisa mudara para os dois. Kiba e Gaara mal se olhavam na escola, mas viviam conversando por mensagens. Naruto também conversava com o ruivo, com menos frequência, mas conversava. Moreno e ruivo papeavam até no meio das aulas. Mas ao vivo, não. Apesar de péssimas pessoas, Gaara tinha apresso por seus amigos e não queria estragar a amizade com os mesmos. Naruto e Kiba não se importavam e não implicavam com o amigo. Neji e seu grupo estavam sempre aprontando algo, mas nada grande, pois ainda estavam sob observação por conta das suas brincadeiras de mau gosto.
Aniversário deriva do latim e quer dizer “aquilo que volta todos os anos”, e o dia da volta anual chegara para Naruto. Era aniversário de Naruto. Depois de vários e vários dias e diversos bilhetinhos com pistas, finalmente chegara.
O dia do loiro não passara em branco. Pela manhã, foi acordado por Kiba, que mais uma vez dormira na casa do loirinho. O moreno acordou o amigo com gritos, jogando-se em cima do mesmo e enchendo-o de cócegas e beliscões. Mais tarde, o cumprimentou formalmente, com um abraço cordial. Como se a sessão com Kiba não tivesse sido o bastante, quando o loirinho ia deixar seu quarto, ao abrir a porta, só conseguiu ouvir um pequeno estouro, uma chuva de confetes e o barulho irritante de uma corneta, que combinados, quase o mataram do coração. Era seu pai, que logo lhe puxou para um abraço.
Mei, que também dormiu na casa, logo apareceu com a cara amarrotada e os cabelos bagunçados para dar parabéns ao seu então filho. Enteado e madrasta são coisas muito formais para quem se ama como mãe e filho. Naruto e Kiba ainda teriam aula, então no café da manhã as comemorações não se estenderam. Mei havia feito um cupcake especial para o loirinho. Pouco depois, Sasuke chegara apressado na casa dos loiros. Felicitou e abraçou o menor, e como Mei estava ali, resolveram dar o presente de que os cartõezinhos com pistas tanto falavam. Dentro de uma caixinha de veludo preto, estava a estrela de prata cravejada com diversas pedras que Naruto vira certa vez na joalheria de Sasori, e esta estava presa junto a uma bela corrente do mesmo material. Naruto agradeceu muito aos dois. Parecia uma criança que havia ganhado um doce. Após isso, o moreno se ofereceu para levar os dois menores para a escola, há que o loiro maior estava atrasado.
Já na escola, alguns colegas do loirinho também lhe parabenizaram-no, assim como os professores. Neji planejava algo também, mas recebeu um recadinho de Kiba e desistiu de qualquer coisa. No intervalo, em um cantinho escondido da escola, Kiba e Gaara davam o presente que compraram juntos para Naruto. Uma pulseira de ouroboros, a serpente ou dragão que morde o próprio rabo. Era de um metal escuro. Era um dragão bem trabalhado, e a pulseira se fechava e se fixava ao pulso quando o rabo do dragão entrava em sua boca, fazendo um “click”. O loirinho adorou, adorava símbolos.
Após isso, Gaara voltou para seus outros amigos, e loiro e moreno foram comer alguma coisa. O restante das aulas passou tranquilamente. Já em casa, um bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro, repleto dos mais variados confeitos, esperava pelo loirinho. Não fora comprado, Mei que havia preparado tudo com as próprias mãos. Comeram como crianças gulosas, ela, o loirinho e Kiba que havia ido junto com o loiro para casa. Passaram o restinho da tarde rindo e se divertindo. Naruto havia se sujado com cobertura próximo à boca, e Kiba no queixo. Isso trouxe memórias aos dois, fazendo os dois rirem.
E agora estavam os três jogados em sofás, comendo mais bolo.
–Acho que este foi o melhor aniversário que já tive! –Exclamou o menor.
–Deve ser por causa da companhia! –Brincou Kiba, arrancando risadas dos demais.
–Mas ninguém disse que terminou. –Disse Mei levando seu prato até a pia. –Aquela garota de coques passou aqui antes. Ela deixou seu presente no quarto. Disse que era dela e do ruivo. –Mal ela terminou a frase, o loiro correu para seu quarto, deparando-se com um embrulho comprido, o qual foi logo desfeito.
Dentro, encontrou algo que há muito queria, e havia comentado isso com a moreninha. Era uma katana, cujo cabo simulava o corpo de um tigre, e da sua boca saia a lâmina comprida e afiada. A bainha que lhe comportava era linda também. No bilhete que veio junto, dizia que a arte do cabo fora feita pelo ruivo, e a lâmina pelo avô da garota. Naruto passou um bom tempo manejando a arma, quase cortando Kiba por diversas vezes. Só parou com a chegada de seu pai, com o qual ficou só, já que Kiba e Mei alegaram ter um trabalho a fazer.
–Escute Naruto... –Chamou a atenção do menor. –Eu não sabia o que lhe dar de presente. Procurei algo de valor para te dar, mas não achei.
–Não tem problema. Vamos passar o resto do dia comemorando juntos. Pra mim é o suficiente. –Ditou abraçando o mais velho.
–Eu não terminei. –Expôs o maior. –Por não achar algo, mandei fazer. É meio brega, mas espero que goste. –Puxou uma caixinha do bolso e estendeu ao menor. Era um daqueles relógios, aqueles modelos antigos, que se prendiam a roupa por meio de uma corrente comprida e elegante, e na outra ponta o relógio. No exterior da tampa do aparelho estava gravado o nome de Minato, com uma bela caligrafia, e ao abrir a pequena tampa, uma foto dos dois loiros sorridentes decorava seu interior. –Olha, eu também tenho um. –Mostrou. –Tem a mesma foto, mas no meu vêm escrito Naruto. –Sorriu. Os olhos do menor marejaram e ele abraçou seu pai com força. –Se arrume, vamos jantar fora.
Assim o loirinho fez, depois de mais um tempo abraçado ao pai. Tomou banho, vestiu uma calça preta, um all star azul-celeste, uma camiseta branca simples e por cima desta, uma jaqueta também preta com detalhes em tons de azul. No pescoço, ostentava a estrela que ganhara, no pulso seu dragão. Do bolso da calça, saia uma corrente prateada, e dentro deste bolso, o relógio que ganhara.
Minato também vestira algo elegante, e os dois saíram rumo a algum restaurante fino. Naruto achou que era algo casual, mas quando chegaram ao local, todos os seus amigos lhe esperavam. Kiba, Mei, Sasori, Tenten, Gaara também estava lá e é claro, Sasuke. Todos lhe abraçaram e o parabenizaram, alguns pela segunda ou terceira vez, outros pela primeira.
O local em que estavam também era um Karaokê. Mas não um meia-boca, ali só cantava quem realmente tinha talento. O loirinho se sentou a mesa, de um lado seu pai, do outro Sasuke. Fizeram os pedidos e algum tempo depois foram atendidos. Nesse meio tempo, as conversas mais diversas rolaram soltas.
O clima de descontração foi substituído pelo de surpresa, quando simultaneamente os dois loiros e Sasuke se pronunciaram:
–Aniki?
–Itachi?
–Sorte do Dia?
Gritaram. Não eram três pessoas diferentes, mas sim a mesma. E este, é claro, deu atenção aos chamados que recebeu, estranhando. Ele não estava sozinho, pelo contrário, estava bem acompanhado por uma bela mulher de olhos cor de mel e cabelos de cor azul, um pouco inclinado ao roxo. Esta também estranhou, mas logo se tranquilizou quando foi puxada em direção à grande mesa de onde vinham os gritos.
–Minato-san! Sasuke! Eh... Garoto da rua! –Saudou os três. –Olá aos demais também. –Garoto... –Cumprimentou Kiba com um manear de cabeça. –Danna... Tenten... Bela dama que não conheço, mas que me é familiar. –Sorriu.
–O que faz aqui, Aniki? –Indagou Sasuke, direto.
–Não é assim que se cumprimenta seu irmão, otouto idiota. –Disse casualmente. –Me dê um abraço logo! –Sasuke foi até seu irmão, dando o que o outro pedia. Quando se separaram, o moreno maior fitou Naruto, que o olhava com curiosidade. –Perdão, mas esqueci do seu nome.
–E eu mal sei o seu. –Devolveu.
–Realmente não fomos apresentados formalmente. –Estendeu a mão ao menor. –Uchiha Itachi, o membro mais legal da família! –Sasuke revirou os olhos. Naruto retribuiu o cumprimento com um aperto de mão firme, se apresentando.
–De onde você conhece o Itachi, Naruto? –Indagou Minato, cumprimentando o maior também.
–Ele é o “Sorte do Dia”. –Disse. –Ele quem me ajudou aquela manhã.
–Exato. –O moreno maior sorriu. –Ah, esta é Konan, minha namorada! –Exclamou com felicidade. –Este é Sasuke, meu irmão mais novo, aquele é Namikaze Minato, amigo de longa data, Sasori, meu amigo e joalheiro preferido, Tenten, secretária kawaii de Sasuke, Naruto, filho de Minato. E bom, os demais eu não conheço.
–Inuzuka Kiba. –Disse o canino.
–Terumi Mei. –Apresentou-se a mulher.
–Prazer! –Sorriu a garota. Parecia uma pessoa legal. –Itachi, que falta de consideração! Como você não os conhece? Ambos são modelos! –Beliscou Itachi no braço. –Desculpem, ele é meio lento às vezes. –Eles riram, e Sasuke além de rir disse que concordava com a cunhada. Levou um tapa de seu aniki por isso, mas valeu a pena.
–Bom, não querem sentar-se conosco? É aniversário de Naruto e estamos comemorando. Tudo por minha conta, a menos que seja um encontro mais romântico. –Disse Minato.
–Seria uma honra. –Respondeu a garota. “Menina educada” pensaram todos.
A nova dupla juntou-se a mesa, respondendo uma bateria de perguntas que fora feita. Itachi era muito animado e muito bem humorado. Era o contrario de Sasuke, que era mais formal. Sempre retrucava o que o irmão falava, mas seu olhar para ele era de admiração. Konan era uma graça também. Simpática e muito educada. Ela e Mei engatavam conversas femininas sempre que podiam. Tenten se juntava a elas também. Sasuke conversava com Sasori sempre que podia, mas sempre estava trocando palavras com o loirinho, isto quando o menor não estava em uma conversa animada com Kiba e Gaara.
–Bom, nos viemos despreparados para cá e nem lhe compramos um presente, Naruto-kun. –Disse a garota de cabelos excêntricos.
–Não se incomode com isso. Nem com isso e nem com essas formalidades. Me chame apenas de Naruto. –Sorriu limpando a boca com um guardanapo. Konan lhe sorriu de volta, pegando alguns guardanapos de onde o loirinho tirara o seu. Após alguns minutos dobrando e moldando, surgiu em suas mãos uma flor feita com os papéis.
–Pegue! –Estendeu a dobradura. –Ainda lhe darei algo mais decente, mas no momento é só o que posso fazer. –Disse com seu cenho sereno, formando um sorriso amigável.
–É lindo! –Respondeu impressionado. –Muito obrigado, e parabéns pelo talento!
–Obrigada!
–Mas e aí, Sasuke. –Itachi chamou atenção do irmão menor, que bebia e conversava com Sasori. –Ainda canta em karaokês? –Indagou provocativo. Sasuke o fuzilou com os olhos.
–Ainda? –Indagou Naruto.
–Quando morávamos juntos, pra ajudar nas despesas, Sasuke se inscrevia em concursos de Karaokê... Era imbatível! -Explicou Tenten, recebendo um olhar mortal do amigo.
–Nunca me contou isso, Sasuke. –Disse Naruto, em tom provocativo, cutucando as costelas do moreno.
–É um fato irrelevante. –Retrucou o moreno sem jeito.
–Não é. Você canta bem, e perder um concurso era raridade. –Falou Tenten. –Não quer mostrar o que sabe fazer? –Apontou para a área do Karaokê, que tinha uma pequena pista de dança.
–Não! –Exclamou. Todos insistiram muito e pressionaram, mas o moreno se negava e já estava todo vermelho.
–Ele deve ter perdido o jeito. Com essa voz Quero-quero cantar deve ser a última coisa que ele consegue fazer. –Provocou Itachi. Ele sabia onde atingir o irmão para ser a gota d’água.
–Engula suas palavras. –O moreno mais novo levantou, retirou o casaco que usava e subiu no pequeno palco. Conversou com os músicos que estavam lá em cima, pois performances ao vivo também eram rotineiras do local. Após uma conversa que não durou poucos minutos, Sasuke foi ao microfone, com uma voz rouca e disse: -Ladies and Gentlemen, this is Mambo Number Five! –Olhou para a mesa de onde viera e acrescentou. –Convido aos casais felizes a se dirigirem à pista de dança. –Ele sabia que Itachi odiava dançar.
E assim a música começou, o som contagiante dos trompetes logo ecoou pelo local. Algumas pessoas, acompanhadas de seus pares, foram para a pista de dança, afinam Mambo Nº 5 é algo muito contagiante. Mônicas, Pâmelas, Sandras, Ritas, Jéssicas, Tinas... Todas na pista de dança.
–Minato, levanta! –Gritou Mei. Ela estava empolgada!
–Eu? Não, obrigado. Eu não danço... –Respondeu meio sem jeito.
–Parece um velho! –Repreendeu. –Que desfeita com sua namorada! Kiba, levanta! –Puxou o moreno pelo braço. O garoto nem teve como retrucar. Logo estava na pista de dança com a maior. E ele até que dançava muito bem.
–Sasori? –Falou Tenten em tom manhoso.
–Não. Nem vem. –Respondeu firme.
–Idiota. –A garota ralhou. –Seu primo vai mostrar como se faz! Vem Gaara! –E outro garoto foi puxado, e meio tímido, entrou no ritmo dançando com Tenten.
–Você já sabe, Itachi. –Falou Konan, logo tirando a echarpe que usava e botando-a na cadeira.
–Não, você é quem sabe. Eu não danço. –Outra resposta firme. A garota lhe fitou com uma cara incrédula, como se lhe indagasse se isso era sério mesmo.
–Ótimo, vou achar alguém que dance comigo! Seu irmão canta muito bem, e você não presta nem pra dançar. –Provocou, ouvindo um sonoro “uuuu” de quem ainda estava na mesa.
–Eu conheço alguma coisa de danças de salão. –Interrompeu Naruto, levantando-se.
–Desde quando? –Indagou Minato. –E você não era o garoto tímido?
–Desde muito tempo atrás, e sim eu era o garoto tímido. E eu não quero passar vergonha na mesa das pessoas que têm dois pés esquerdos. –Disse sério. –Dançaria comigo, Konan-chan? –Perguntou galante.
–Ei, eu não deixei ela dançar com você. –Retrucou Itachi.
–E também ninguém perguntou nada, Itachi. –Disse a garota. –Claro que aceito Naruto. –Disse-lhe sorrindo. E logo mais um casal estava na pista de dança.
–Devíamos nos sentir mal pelo fato que as garotas da mesa ao invés de estarem conosco, homens de bem, estarem dançando com garotos de colegial? –Questionou Sasori.
–Provavelmente. –Respondeu Minato.
Na pista de dança todos estavam animados. Sasuke cantou diversas músicas, de diversos estilos e por horas a pista ficou cheia. Com os instrumentos do palco e um pouco de talento, Sasuke pediu e se ofereceu para juntar-se ao grupo para que tocassem a “Valsa de Strauss”. A pista antes agitada e frenética, agora estava mais calma e elegante. Quem não sabia valsar, foi pegando o jeito, afinal é algo fácil. Os três garotos galanteadores agora mantinham uma postura ereta e guiavam suas parceiras em uma bela dança. A pista estava cheia, mas ninguém se esbarrava.
Já era tarde da noite quando Minato foi acertar a conta. Sasuke estava conversando com Naruto sobre qualquer coisa e ambos riam bastante. Todos já se preparavam para ir. Foram juntos até o estacionamento que ficava no subsolo do restaurante. Todos haviam deixado seus veículos lá, então não viram porquê de não irem juntos. As últimas conversas eram findadas e cada um seguia para seu carro. Tenten havia vindo com Sasori e Kiba com Mei, então iriam juntos.
Nada alarmante, até que uma voz desconhecida para a maioria foi capaz de estragar toda a noite.
–Parabéns, Naruto. –Disse a voz. O ambiente era um pouco escuro e todos estavam um tanto alarmados procurando a origem da voz. Tudo que restara da noite eram algumas cabeças que buscavam algo, curiosas e dois loiros estáticos.
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