Insano Desastre

10 O sabor de... alguma coisa


Capítulo Dez – O sabor de... alguma coisa

Era seu dia de folga.

Renji poderia optar por ficar com Byakuya, mas dessa vez, realmente queria ficar um pouco com os amigos, afinal, não se viam e se reunião há tempos! E, se o Kuchiki achava que poderia amá-lo um dia, teria que compreender.

Estavam todos bebendo. Kira reclamava de seu capitão, do quanto este era dramático e escandaloso. Hisagi apenas ouvia, contente em colocar lenha na fogueira. Matsumoto só bebia, como a boa alcoólatra que era. Estavam todos entretidos demais na própria vida, mas, em algum momento, a conversa chegou a um tópico ridículo. Ou não.

– Como vocês sabem alguém é a sua alma gêmea? – Hisagi perguntou, sem a menor vergonha.

– E isso existe? – Kira respondeu com outra pergunta.

– Claro que sim! – Matsumoto respondeu, aparentando indignação. – Apenas... sabemos. A pessoa te completa, sendo diferente ou não de você. – Ela ainda pensava muito em Gin. Sempre pensaria, para falar a verdade. Eles se completaram um dia e isso é algo que ainda acontece.

– A pessoa te ama. – Renji se manifestou.

– Não. Amor nem sempre é suficiente. O que adianta amar e não demonstrar? Você não pode realmente morrer com isso guardado, é ridículo e covarde demais. – Kira declarou com a voz deprimida de sempre, sorvendo mais da bebida que os copos a sua frente comportavam, em seguida.

– E se eu achar que sei? – Hisagi indagou novamente.

– Você sabe. O que é, Shuhei? Está apaixonado? – a loira realmente não podia perder uma novidade.

– Não é nada, Rangiku-san. – Ele estava constrangido. É claro que havia alguma coisa, mas ninguém iria realmente insistir, muito menos Matsumoto. Ela sorriu de forma sapeca e desistiu claramente do assunto. – Ah... Garçom, mais aqui. – Acenou para o homem que estava servindo as mesas.

A conversa sobre amor não durou muito mais. Logo estavam todos ocupados demais com seus próprios dramas e suas próprias comédias. Menos Renji. Essa conversa ainda o deixaria acordado durante a noite, pensando.

...

Então era isso. De acordo com todo o senso de amor próprio, Renji deveria... ser feliz. Apenas isso. Mas o problema era todo esse. Amava-o, sendo nobre e arrogante, pois ainda era Byakuya Kuchiki. Amava-o com toda a sua existência, e, mesmo que desejasse correspondência ao mesmo nível, nunca achou realmente que um homem como Byakuya (entenda por lindo, inteligente, rico, com todas as mulheres aos seus pés, enfim, sem defeitos. O que era uma mentira) pudesse sentir a mínima atração por um homem como Renji (entenda como mais ou menos em tudo, sem qualidades. O que era uma mentira). Então, resolveria isso de uma vez por todas. Não gostava de ser um fardo para alguém, apenas a ideia era insuportável. Muito menos um fardo para a pessoa amada.

...

Suspirou, cansado. Às vezes Renji conseguia lhe fadigar mais que uma batalha intensa. Percebeu que o outro estava distante desde que se encontraram, de poucas palavras e nenhum atrevimento. Claro, era o primeiro round ainda, conseguiam muito mais. Sempre pareciam apressados para consumar o ato de uma vez, mas Renji estava lerdo e nem podia culpar o pós-sexo, já que ele estava assim antes de... Você entendeu! O que era muito chato. Olhou para Renji, estirado na cama com uma expressão pensativa e distante, bem diferente do habitual.

– O que há, Renji? – O ruivo pareceu finalmente despertar de seus profundos pensamentos — ou não tão profundos. Nunca se sabe quando se trata de Renji.

– Nada... – ele disse de forma extremamente vaga, antes de completar. – Taichou?

– O quê? – Byakuya não sabia se ficava irritado ou preocupado com o comportamento de Renji.

– Posso fazer um pedido?

– Aconteceu alguma coisa? – Era definitivo, estava preocupado. Renji não costumava pedir algo.

– Sim... ou não. Eu não sei. – confessou.

– O que você quer?

– Faz amor comigo? – Assim, sem cerimônia e na cara dura. Esse definitivamente não era Renji. Mas, por que recusar?

Algo que poderia ser a sombra de um sorriso atravessou o rosto do mais velho. Tocou os cabelos vermelhos com suavidade e plantou um beijo em sua testa.

Foi diferente de qualquer outra vez. Foi mais lento, foi mais necessitado, foi mais intenso. Cada som erótico parecia de tom único, antológico. O cheiro de Renji ficou marcado em sua mente, como ferro quente em carne fresca. A textura era pele e se sentia apenas calor. Roupas nunca foram mais desnecessárias e incomodas. Tinha gosto de algo diferente. De nunca mais. Se isso tivesse algum gosto, claro. Quando acabou, puderam pensar no que realmente estava acontecendo.

Era esquisito, saber que falou a palavra proibida a Byakuya e este não fugir. Amor... o que era? Era a pontada de algo que vinha em seu peito toda vez que olhava para o moreno em seus braços? Toda vez que ouvia sua voz? Provavelmente. Beijou a boca do outro, apenas um selinho, e se desvencilhou de seu abraço. – O que está fazendo?

– Eu... – Suspirou resignado. – Me desculpa, taichou. Eu não acho que possa mudar alguma coisa. Eu queria que fosse bom para ambos...

– Do que você está falando? – Renji se levantou, procurando as peças de roupas pelo quarto.

– Renji?

– Taichou, já está óbvio. Para nós dois. O senhor é capaz de amar. O senhor apenas não é capaz de amar a mim. – Byakuya arregalou os olhos, um calafrio de algo que se assemelhava ao mais puro horror ao que estava por vir desceu por toda sua espinha. E a voz conformada de Renji era ainda pior. – Estamos livres agora. – Observou calado enquanto o Abarai saia porta afora, provavelmente para sempre.

...

Estava certo. Sempre esteve, na verdade. Byakuya teria eternamente o próprio orgulho até o fim dos tempos, não seria por um reles mortal como Renji que ele desceria do pedestal. Enganava-se sobre a presença do Kuchiki. Achava que, se apenas um amasse, seria o suficiente. E aí estão as provas de tamanha ingenuidade. No momento, o Abarai se fazia de forte. Coisas como: "não vou chorar agora" ou "eu nem queria, mesmo" ajudavam. Apesar de ser a mais pura mentira.

O tempo estava combinando com o seu humor: fechado. Parecia que ia chover. E realmente começou a chover, nem tardou muito.

Gotas gordas de água gelada batiam em seu corpo, machucando ou limpando, ele não sabia distinguir. O cheiro de Byakuya parecia se extinguir lentamente, deixando no rosto de Renji um semblante que carregava a mais inalterada melancolia. Usou o shunpo para chegar ao alojamento, lugar este que significava apenas trabalho, agora.

Entrou na instalação, encharcado, deixando um rastro molhado por onde passava. Andou mais um pouco até o local onde ficava a cama, cambaleante. Encostou-se a porta, como que procurando apoio. Desceu deslizando até estar sentado no chão, olhando desnorteado para tudo.

Como pôde ter tido tudo o que queria e perdido este tudo tão logo? Era tão azarado assim? Sentia-se tão idiota e patético que morrer poderia até ser uma boa opção. Ou não. Estava pensando em todos os momentos que passaram e que, provavelmente, nunca se repetiriam, quando a primeira deslizou por seu rosto.

O que era isso? Oh... Fazia tanto tempo desde que chorou pela última vez que nem se lembrava da sensação. Era salgado e úmido. E patético. Agora Renji sabe o sentimento de chorar por algo tão estúpido e banal como o primeiro amor. Mas, havia prometido para si mesmo: iria tentar viver. Tentar ser feliz.

{···}