Insanity
5 Little Insane
Notas iniciais
– Parece que ela tem uma melancia no lugar da barriga.
– Fala sério, ainda não está tão grande assim. Ta mais pra um melão ou um abacate, sei lá.
– Não está tão grande assim? Parece que ela engordou uns quinze quilos! Na boa, ela está enorme de gorda.
– Eu não sei porque ela não abortou. Seria muito menos humilhante e ela não estaria estragando o futuro dela com isso.
– Ela só vai ter esse filho pra segurar o namoradinho. Fala sério, em que espécie de mundo paralelo vocês acham que Cody Smith ficaria com ela?
– Vocês acham que eles vão voltar?
– Ouvi dizer que os pais dela vão fazer eles se casar.
– Que tragédia! Coitado, ficar com aquela gorda estúpida pelo resto da vida só porque a vadia não quis abortar.
– Eu ainda estou me perguntando o que ele viu nela. Na boa, a bunda dela é tão grande que eu não sei como ainda cabe na cadeira.
– Parece que ele tirou a virgindade dela atrás das arquibancadas depois do último jogo da temporada de futebol.
– Fala sério?! Por que ela ainda usa camiseta mesmo? Isso só faz marcar ainda mais a barriga.
– Talvez ela esteja gostando de estar grávida.
– Que garota de dezesseis anos gostaria de ter um capeta dentro da barriga?
– Quem vai saber se é só um mesmo? A barriga dela está tão grande que eu não duvido nada que sejam gêmeos.
– Mas ao menos ela vai ficar com uns super peitos.
– Falando nisso, vocês acham que esse sutiã aumenta os meus peitos?
– Não.
– Sim.
– Ele os levanta tanto que eu estou vendo a hora eles pularem e saírem andando por conta própria.
– É da coleção nova da Calvin Klein?
– Thalia?
Thalia não estava prestando atenção na conversa das amigas, então pisca duas vezes, focalizando a imagem de Thamires Castelliano.
– Ãn... O que? — pergunta, ouvindo as risadinhas das garotas
– Você acha que esse sutiã faz os meus peitos parecerem maiores?
Thalia olhou para o busto exposto da amiga. Sua pele era da cor de chocolate, e os peitos pareciam prestes a saltar do sutiã preto que ela usava.
– Eu não sei pra que você quer que eles pareçam ainda maiores. — ela diz, vestindo a própria blusa com as iniciais do colégio — Você já parece uma vaca leiteira.
Thamires era uma garota legal. Ao menos, na maioria das vezes. Era de origem mexicana e sua família era extremamente rica pois era dona de alguns poços de petróleo. Ela possuía aquele tom de pele invejável, cabelos de um castanho escuro lisos e compridos e olhos da mesma cor. Thalia a achava bonita na oitava série, mas desde então ela começou a adquirir corpo e ficou parecendo uma Nick Minaj natural. Era estranho. E repugnante.
– O que?! — ela parecia surpresa, Thalia desviou o olhar do busto exagerado da garota e olhou para o seu rosto de traços delicados e com a mandíbula travada
– Fala sério Thams, todas nós sabemos que quando você tiver filhos, fome eles não vão passar né. — disse, fazendo as amigas rirem
Thamires estava constrangida, mas acabou fingindo uma risada e as acompanhou. Thalia foi até o espelho para prender o cabelo, depois que havia o cortado, alguns fios sempre acabavam escapando do rabo de cavalo. Pelo reflexo ela pôde ver Thamires a observar com raiva.
– Você pegou pesado. — Pamela disse, ela estava ao seu lado e fingia amarrar os cadarços do tênis branco
– Não tão pesado quanto ela deve estar. — Thalia disse, desistindo do rabo de cavalo e soltando os cabelos — Alguém precisa abrir os olhos dela antes que ninguém mais consiga a sustentar em cima de uma pirâmide.
Pamela riu.
– Desde quando você é cruel assim?
– É de nascença. — Thalia piscou para a amiga, saindo do vestiário e vendo as amigas a seguirem
O campo lá fora estava com a grama recém cortada e molhada. O sol estava escondido por detrás de algumas nuvens e devia fazer no máximo uns sete graus. Thalia se amaldiçoou internamente por não ter vestido a meia calça por baixo do moletom.
– Ei, gente, vamos passar a coreografia mais uma vez antes de prosseguirmos, ok?- falou alto, para que todas pudessem a ouvir
As garotas se encaminharam cada uma para o seu lugar. Thalia, que estava na fileira da frente, olhou para trás e fingiu uma expressão de desgosto.
– Ei, Thams, talvez você devesse bancar a nossa dj hoje. Não acho que você esteja muito no clima pra treinar depois que comeu aquele duplo cheesebaconburguer no almoço.
Thamires a encarou com a boca aberta enquanto ouvia o coro de risadas ao seu redor. Depois foi até caixa de som, plugou o próprio celular e deu play na música eletrônica.
Thalia sorriu de lado para a garota quando ela se jogou no banco dos reservas, e depois gritou.
– Cinco, seis, sete, oito!
Insanity ☠
Annabeth odiava o banheiro da escola. Apesar de ter aparência de limpo e o odor forte de desinfetante, ela podia sentir a gordura do piso aderindo a sola vermelha do seu salto enquanto ela caminhava até a pia de mármore para lavar as mãos. Outra coisa que a fazia torcer o nariz era aquilo que eles chamavam de sabonete líquido. Não era de admirar se o detergente de lavar louças de sua casa ressecasse menos as suas mãos do que aquele sabonete.
Ela se olhou no espelho. Aquela garota ali a sua frente simplesmente não parecia ela. Sempre que via o próprio reflexo tinha de piscar os olhos algumas vezes para se tocar de que não era uma miragem ou uma lembrança da velha Annabeth. A Annabeth boazinha, inocente, caridosa e divertida que ela costumava ser já não existia mais. Não havia sequer um fio de cabelo da sua cabeleira loira que ainda fizesse parte de quem ela era.
Suspirou, tocando os cachos dourados do cabelo e sentindo a sua textura macia. O batom de tom nude não parecia mais combinar tanto com ela como quando ela o comprara, o vestido de bolinhas com a saia larga e aquela meia calça a faziam parecer continuar ser a mesma, mas Annabeth se sentia presa em baixo de uma carapaça. Nada ali fazia parte de quem ela realmente era. Nem o sorriso parecia pertencer a ela.
A porta do banheiro se abriu, a fazendo ter um sobressalto, e por ela entraram algumas calouras. Ela sorriu para elas e elogiou a trança que uma delas usava, agradeceu quando elas disseram que ela estava linda e que votariam nela para rainha do baile e depois saiu. Atordoada.
Sua visão estava turva e enquanto ela caminhava pelos corredores de tons pastéis do colégio tudo parecia girar. Os armários pareciam flutuar a sua frente, e as pessoas ao redor eram como miragens ou borrões. Não conseguia distinguir os seus rostos. Os seus ouvidos zumbiam e ela podia jurar escutar a música do velho desenho animado que assistia quando era criança.
"- Pai! Não, sério! Você precisa vir, vai ser divertido!
– Você sabe que eu adoraria, minha princesa. Mas eu realmente preciso trabalhar. Que tal deixarmos para a próxima?
– Você está dizendo para deixarmos para a próxima desde que eu tinha quatro anos!
– E quantos anos você tem agora?
Annabeth riu aquela risada sapeca de criança.
– Quase cinco!"
"- Estou tão orgulhosa de você, minha filha.
– Estou tão feliz, mamãe! Ser a Julieta sempre foi o meu sonho, a senhora sabe!
– Você vai ser a Julieta mais incrível e maravilhosa que já existiu! Até a verdadeira Julieta vai ficar com uma pontinha de inveja."
"Annabeth você é incrível!"
"Obrigada, Annabeth! Você é a pessoa mais maravilhosa que existe!"
"Annabeth, você é tão bondosa! É tão bom saber que ainda há gente como você no mundo!"
"Annabeth."
"Annabeth!"
"Annabeth?"
"E para rainha do baile, Annabeth Chase!"
"Annabeth!"
Ela cambaleou até o canto mais vazio do corredor, se escorou ao metal gelado dos armários de um tom de roxo escuro e sentiu o frio queimar a pele de seus ombros que estavam fervendo. Suas pupilas estavam dilatadas e ela estava tonta, cansada e tendo alucinações, já que aquela voz não parava de chamar o seu nome.
– Annabeth? — a loira pulou de susto ao sentir os dedos frios sobre a sua pele, o contato corporal a deixava nervosa
– Pare! Pare! — ela ordenou a si mesma que parasse de imaginar coisas — Já chega!
– Annabeth? Você está bem?
Ela abriu os olhos, receosa, e deu de cara com o rosto preocupado de Taylor Anderson.
– Eu... Só estou com uma dor de cabeça muito forte. — suspirou, se afastando das mãos geladas da amiga e colocando as mãos nas têmporas — Você tem algum analgésico?
– Não... Você não acha que talvez fosse melhor ir na enfermaria?
Annabeth conteve a vontade de pedir para que ela a deixasse em paz e sumisse, respirou fundo, e respondeu com a voz mais doce que conseguiu:
– Não é nada, só uma enxaqueca mesmo. Provavelmente foi por causa daquele hambúrguer enorme do almoço, devia ter escolhido a salada. Daqui a pouco passa, e além do mais, hoje tem ensaio da peça e você sabe que eu não perco por nada!
Taylor sorriu e começou a falar animadamente sobre o seu papel. Annabeth tentava sorrir e parecer interessada, mas aquelas lembranças ainda ecoavam em sua mente.
Lembrava da primeira vez que entrara no teatro da escola e de como o achara simplesmente incrível. Prometera a si mesma que um dia iria pisar naqueles palcos, que ia estar sob aqueles holofotes e que todos que ocupassem aquelas cadeiras iam ficar de pé para a aplaudir.
Como era ingênua aquela época, meiga.
Ficou encantada com o lugar, e seu irmão a dissera "Tem um clube de teatro que se reúne aqui todos os dias. No fim do outono e da primavera sempre tem a apresentação de uma peça. Esse ano vai ser Romeu e Julieta."
Annabeth rira e dissera ao irmão que ia interpretar a Julieta. Ele duvidara e os dois apostaram uma ida ao Winter Park. Ela ganhara, e ele teve que descer da estação mais alta e perigosa. Annabeth o achara o máximo, o cara mais corajoso do mundo.
Ela sentia falta dele. Mais do que costumava admitir. Assim que colocou os pés no carpete de veludo, aquele mesmo carpete em que pisara pela primeira vez na visita ao colégio e no qual ela e Malcom apostaram corrida, ela notou que sentia mais falta do irmão do que tudo.
Ele sempre fora o seu herói, o seu protetor, seu anjo da guarda e o seu refúgio. A protegia dos monstros do escuro e das crises de tpm, não trocava a sexta de "Filmes, seriados e pipoca com pasta de amendoim" com ela por nenhuma saída com os amigos ou com a namorada. Ela o amava tanto... E ele se foi.
Tão rápida e brutalmente que não ouvira o último "Eu te amo" que Annabeth o dirigiu. Não ouvira e nem tivera forças para atender o último apelo da irmã.
"Por favor, não vá! Fique, por favor! Eu não sei o que vou fazer sem você!".
Esse fora o único desejo de Annabeth que ele não conseguiu realizar. Ironicamente, era o mais importante.
Ela não podia o culpar por ter partido. Talvez, se fosse ela em seu lugar, e tivesse escolha, também tivesse escolhido ir. A única coisa que o mantinha preso a vida eram os aparelhos do hospital... E isso não havia sido o suficiente.
– Annabeth? Você já tem o quarto decorado? Precisamos adiantar as cenas com o Mr. Darcy o mais rápido possível!! — o senhor Juardaton era um cara legal apesar do nome esquisito, da voz afeminada e de todo o drama e estresse que envolviam a sua personalidade bipolar — Faltam poucos meses para as férias de verão, oh meu Deus! Precisamos correr, o tempo está, literalmente, voando!!
Annabeth sentiu os seus olhos piscarem mais vezes do que seria adequado. Seus pensamentos estavam longe e apesar de ótima atriz, achava difícil se concentrar na voz distante do professor de teatro, quem dirá então na suas falas.
– É... — sua voz estava falha e sua garganta arranhou quando ela tentou falar — Desculpe, senhor Juardaton, mas não acho que esteja em condições de ensaiar hoje... Fiquei acordada até tarde estudando as falas e acabei acordando com tamanha dor de cabeça que não consigo me concentrar em nada. Será que pode me dispensar, por hoje?
O professor concordou com acenos rápidos de cabeça e voltou a tagarelar sobre alguns detalhes que precisavam ser ajustados. Annabeth cambaleou, ainda meio tonta, até a saída do teatro. Todo o seu corpo se arrepiou quando sua mão se fechou sobre o metal gelado da maçaneta de bronze.
"Será uma honra lhe apresentar ao melhor lugar do colégio, irmãzinha."
Insanity ☠
Nico estava atordoado. O sinal para a quinta aula já havia tocado a algum tempo, ele correra do bloco em que tivera aula de marcenaria até lá e ainda assim acreditava estar atrasado, mas ao abrir a porta da sala de aula não havia ninguém, nem uma alma penada sequer.
Ele voltou ao corredor, que continuava com o fluxo normal, entrou na sala de novo e se sentou na sua habitual cadeira perto da janela. Passou alguns minutos esperando mas ninguém apareceu. Procurou algum aviso grudado ao quadro ou na mesa do professor, mas nenhuma dica do que poderia ter acontecido. Jogou a mochila sobre os ombros e saiu da sala, espiou pelo vidro da porta da sala da frente e não havia ninguém. A do lado também estava vazia. Não havia mais ninguém no corredor.
Ele se arrastou pelo piso escorregadio, o cenho franzido. Seria outra simulação de incêndio? Mas havia ocorrido uma no mês passado! Quanto mais se aproximava do grande ginásio do colégio mais o som abafado e distante se tornava mais claro. Entrou no local climatizado e se misturou discretamente no meio da multidão. Abriu o zíper do casaco e se sentou no canto mais isolado.
Percy Jackson estava a algumas fileiras à frente, seus amigos sempre o cercando. Nico não podia ouvir, mas apostava os três quilos de cocaína em sua mochila que o assunto era sobre mulheres, futebol, ou basquete, quem sabe. Eles falavam alto, e sempre se viravam para olhar para Percy, para ver se ele estava ouvindo, prestando atenção, ou rindo de alguma coisa.
A sirene do mega fone da vice diretora soou, chamando a atenção até dos mais dispersos. Nico estava especialmente curioso a respeito do que estavam fazendo ali.
– Boa tarde, caros alunos. — as mãos enrugadas da mulher estavam cruzadas, e apesar de seus pés estarem escondidos pelo longo vestido ele podia jurar que ela estava com aquele tique nervoso no pé direito — Se tudo correr dentro do esperado, os senhores serão liberados tão logo essa palestra se encerre. Peço encarecidamente que se mantenham atentos e abertos a todas as informações que serão apresentadas. Convido agora a phd em sociologia pela universidade de San Antônio, Thardara Clenton!
Uma salva de palmas e uma jovem de cabelos encaracolados e volumosos subiu no pequeno palco que havia sido colocado no centro na quadra. De onde Nico estava, na arquibancada, ela parecia não ser maior que um amendoim.
A mulher se apresentou e tentou introduzir o assunto da forma mais leve possível (ao menos o quão leve e descontraído aquilo poderia ser). Nico sentiu os músculos do seu braço se contraírem e a sua mandíbula travar ao entender a onde aquilo iria chegar.
– A aceitação a mudanças, o olhar de compreensão, o carinho e atenção são fundamentais para quem está passando por um momento de aceitação do novo corpo. — Thardara continuou falando, sua voz era calmante mas aquilo não o tranquilizava — Lembrando que um olhar de compreensão é diferente de um olhar de pena. Depois de tudo o que fatídico passou, depois de superar a auto piedade, aquilo que ele menos precisa é ser olhado com pena quando passa pelos corredores. Ele quer alguém que o distraia de seus problemas, que o ajude com alguma dificuldade, que o faça se sentir aceito. Justificar seus erros pela sua "falta de sorte", dizer sempre sim com a justificativa de "O coitado já passou por tanta coisa" não vai ajudar em nada no seu processo de superação!
Os olhos negros de Nico vagavam por toda a arquibancada, nunca encontrando os misteriosos e procurados cinzas. Ele franziu o cenho, tenso pelo que estava por vir. Ignorou a ausência de Annabeth, sabia que a loira podia ser tudo menos inconsequente, e encontrou gelados olhos azuis o fitando.
Thalia parecia irritada, seus cabelos recém cortados voavam e pareciam flutuar ao redor da echarpe vermelha. Havia uma mínima possibilidade, que até então Nico havia ignorado, de que talvez ela também soubesse a onde aquilo iria chegar. As vezes ele se perguntava se todos eles não estavam subestimando a inteligência da morena.
– Convido, portanto, a aluna do penúltimo ano, Katie Gardner!
Katie não recebeu aplausos. Tudo o que houve foi um constrangedor silêncio, seguido por cochichos e conversas paralelas.
Ela caminhava em passos pequenos e lentos até o centro do palco. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo, os olhos cor de caramelo ainda tinham aquele olhar triste de sempre, usava calça jeans com um pesado sobretudo cor de rosa. Parecia a mesma, se a manga esquerda do casaco não estivesse vazia.
Nico não podia ver por baixo das camadas de roupa, mas apostava que também havia um grande curativo em seu abdômen, onde a bala passara de raspão.
Katie Gardner tinha uma braço amputado.
– Oi. — sua voz soava fraca e frágil, e ela parecia não ter coragem de encarar os colegas, já que não desviava o olhar do microfone em suas mãos — Muitos de vocês devem me conhecer, eu sou a namorada do Travis. Bom... Como eu, tudo o que vocês devem querer é que essa palestra acabe para que possamos ir para casa, então eu vou prometo ser bem breve. Eu levei um tiro de raspão no abdômen e três no braço esquerdo durante uma tentativa de assalto. Foi muito... Recente, e eu prefiro não entrar muito em detalhes, mas o que aconteceu foi que as balas atingiram a minha musculatura esquelética e eu acabei ficando com os músculos do braço atrofiados, além de ter perdido muito sangue. Não havia outra saída então a única coisa que me restou foi amputar o braço. Eu não espero outra reação de vocês, senão surpresa, piedade, dó. Mas o que eu quero dizer é que prezem pelas suas vidas. Aproveitem as boas oportunidades, apenas as boas. Os pequenos erros e escolhas erradas podem tomar grandes proporções até que não consigamos mais escapar da nossa própria teia. A vida é curta, e infelizmente eu só pude me dar conta disso quando a vi passar diante dos meus olhos.
Katie levantou o rosto molhado por lágrimas. Seus olhos passearam por todo o lugar e pararam em Nico antes que ela completasse o que tinha a dizer.
– Eu sou muito grata a nova oportunidade que me foi dada. Foi um braço, só um braço. Poderia ter sido a minha vida. Acordem todos os dias e agradeçam por estarem onde estão, pelas chances que lhes foram dadas. E procurem sempre, de toda forma, aproveitar as chances de crescerem como pessoa, como cidadão, como filho, amigo, namorado. — sua voz falhou e ela desviou o olhar, entregou o microfone ao diretor e falou um alto e sonoro — Obrigada.
Katie fugiu em passos rápidos, quase correndo. O ginásio estava tão silencioso que Nico podia ouvir a própria respiração.
A tal mulher ainda falou algumas breves palavras de encerramento. Nico estava atordoado demais, assim como os outros alunos, e perdido em pensamentos. Apesar disso, a figura de cabelos loiros esvoaçantes que passou correndo pelas portas atrás de Katie não passou despercebida por ele.
Agradeceu mentalmente por Annabeth sempre estar um passo à frente de todos eles. Não sabia como a loira havia descoberto os planos da direção, mas ainda bem que tinha o feito.
Insanity ☠
Thalia não precisou de uma mensagem ou recado para chegar à conclusão de que tinha de ir ao velho e abandonado ginásio do colégio o mais rápido que pudesse. Não tinha ideia de como Katie havia criado aquela história mirabolante toda sozinha, mas ainda bem que tinha o feito. Talvez a garota não fosse tão tola quanto ela achava.
O portão enferrujado rangeu quando ela o abriu e os seus tênis faziam um barulho oco enquanto ela caminhava pela madeira desgastada e antiga do lugar. Por ser abandonado, não havia sistema de climatização e Thalia acabou acendendo um cigarro pela simples sensação de ter algo para fazer.
Nico di Ângelo estava sentado em um dos poucos bancos que não estava quebrado. Seus cabelos estavam compridos, chegando ao seu queixo. Havia uma áurea de mistério que o envolvia e parecia irresistivelmente interessante para Thalia. As mãos enfiadas nos bolsos do casaco pesado, os tênis de hike pretos... A armação de óculos antiquada. Aos seus olhos, ele parecia uma antítese ambulante.
– Não sabia que você fumava. — ele soltou, sem a olhar diretamente
– Presumo que você não saiba muitas outras coisas a meu respeito. — Thalia o encarou, tragando o cigarro o mais lentamente possível — Você não me conhece.
Ele não se deu sequer o trabalho de dar de ombros. Thalia se sentiu impelida a ir até onde ele estava e o obrigar a a olhar quando ela falasse, mas se limitou a jogar o cigarro no chão e apagar o resto de chama com a sola do sapato.
– Talvez eu realmente esteja equivocado em meu conceito sobre você. — ele disse, coçando os grandes cabelos negros
Ouviram o ranger da porta e por ela entrou um Percy apressado. Thalia se perguntou como ele aguentava o frio que estava fazendo apenas com o moletom de capuz que usava.
– Pensei que estava atrasado... — ele diminuiu o passo ao ver que ainda éramos apenas os três e franziu o cenho antes de perguntar — Onde está Annabeth?
– Não é novidade ela ter se atrasado. — disse
Nico se limitou a se aconchegar um pouco mais na cadeira de plástico e comprimir os lábios. Ele provavelmente sabia de algo que Percy e eu ignorávamos.
Não demorou muito mais até que Annabeth chegasse com todo o glamour, importância e sensualidade que a envolviam. Ela apertou um pouco mais o casaco contra seu corpo e soprou ar quente nas mãos brancas e descobertas. Seus cabelos estavam um pouco assanhados e ela provavelmente havia acabado de vir do lado de fora do colégio.
Caminhou calmamente até onde nós estávamos e colocou as mãos no bolso do casaco, arqueou as sobrancelhas loiras e umedeceu os lábios com a ponta da língua.
– Ta legal, alguém faz ideia do que aconteceu naquela merda de ginásio? — fui a primeira a se pronunciar
Percy deu de ombros, como se não estivesse muito surpreso e Nico não mudou de expressão, apenas encarou Annabeth esperando que ela começasse a falar.
– Eu me senti meio mal hoje durante a aula de teatro e acabei saindo... Eu pretendia apenas pegar minha bolsa no armário e me mandar.- ela suspirou, como se estivesse realmente cansada — Mas ai eu ouvi o diretor e a vice diretora conversando baixinho sobre tentar fazer alguém se sentir o mais à vontade possível e ressaltar a acessibilidade do colégio e imaginei que seria simplesmente coincidência demais se aquilo não estivesse relacionado a Katie.
Ela trocou o peso do corpo de perna e jogou o cabelo loiro sobre o ombro esquerdo.
– A encontrei no banheiro perto da coordenação. Tive um baita trabalho pra fazer ela não gritar, aparentemente ela ta com alguma espécie de trauma da gente e não aguenta sequer ouvir a menção dos nossos nomes. Demorou, mas consegui a convencer a me contar o que ela estava fazendo ali. — ela riu sem graça — Não precisei fazer muita coisa, ela tinha inventado a história do assalto sozinha e inclusive foi isso que ela contou aos policiais que foram ao hospital investigar o que havia acontecido e como ela havia levado aqueles tiros. Eles disseram que não iam a pressionar muito sobre o assunto e a deixariam descansar, então acabei de incrementar algumas coisas a mentira e está tudo certo. Ela vai à delegacia prestar depoimento mais tarde.
– Tudo certo? — ri, não acreditando que uma pessoa poderia ser tão cínica e fria quanto Annabeth — Eles vão chegar a nossos nomes, Annabeth. Katie não vai conseguir responder as perguntas e inventar mentiras ao mesmo tempo.
– Se ela conseguiu criar essa história, não duvido de mais nada. — Nico se manifestou — Se ela está mesmo tão apavorada assim, duvido muito que diga qualquer coisa relacionada à nós. Ela sabe que qualquer passo em falso pode custar a vida dela.
– Já mandei abandonarem o carro dela a uns 200 quilômetros daqui. Vão colocar fogo e apesar disso as digitais vão ficar, assim vão chegar ao nome de algum dos distribuidores e não a nós. De quebra talvez eles ainda encontrem alguns pacotes de maconha ou crack com ele e aí vão desviar o rumo da investigação.
– Você não se sente mal incriminando alguém que não tem nada a ver com isso? — perguntei, encarando os seus olhos duros
Annabeth sorriu sem mostrar os dentes.
– Eu só quero salvar minha pele, e pra isso eu passarei por cima de qualquer um que seja preciso. Além disso, eu não estou incriminando ninguém já que esse crime não aconteceu. As digitais dele vão estar lá, o estoque de drogas e o porte ilegal de armas... Já entreguei uma foto dele para Katie o reconhecer pelo retrato falado. Além disso, dei um jeito de a arma do crime ser queimada junto com o carro.
– Como você consegue dormir de noite? — perguntei
Annabeth riu e ignorou a minha pergunta, virou de costas e simplesmente caminhou elegantemente sobre os saltos exorbitantemente altos até o portão. Antes de passar, ela virou e encarou diretamente os meus olhos.
Seu olhar era gelado e afiado, seus olhos pareciam aço derretido.
Quando ela falou, sua voz poderia não passar de um sussurro, mas aos meus ouvidos pareceu ter vinda de um dos velhos alto falantes.
– As vezes, estar acordada pode ser um pesadelo ainda pior.
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