Insane Beauty
2 Capítulo II: A Máscara Veneziana
Notas iniciais
Muito obrigada a todos que comentaram :)
Ter deixado Quinn Fabray sozinha no apartamento fora um grande peso nas costas de Rachel Berry. Não que ela houvesse a abandonado, mas Rachel tinha suas responsabilidades. A peça da Broadway que ela estrelaria começaria em breve e os últimos ajustes e ensaios finais estavam a todo vapor. Não era de sua vontade sair de casa naquele dia chuvoso de céu cinzento; era uma necessidade.
Mesmo que Quinn lhe garantira que ela não se importava que Rachel saísse por algumas horas, ela continuava se sentindo culpada. A verdade era que Rachel não queria sair de perto de Quinn, ela só queria embalá-la em seus braços e lhe passar conforto e segurança, mas a vida não parou depois que a loira recebera aquele “doce presente” estampado em seu corpo. Ela poderia estar machucada, mas o mundo lá fora não dava à mínima.
New York não tinha um clima muito convidativo naquele dia. Ao amanhecer, o céu se apresentou triste e sem vida com sua coloração acinzentada e grandes nuvens carregadas invadia o espaço dos arranha-céus. O sol não apareceu em nenhum momento do dia para cumprimentar os moradores estressados da metrópole que nunca para. Os ventos eram gelados e faziam com que todos desejassem que nunca tivessem saído de suas camas quentes e confortáveis. A chuva apareceu no fim da tarde e nem todos puderam apreciá-la, inclusive Rachel.
O clima melancólico e triste deixava Rachel meio deprimida. As coisas não estavam lá tão fáceis como ela gostaria e aquele dia sem cor ou brilho não ajudava muito em sua vontade de viver a vida. Quando ela saiu do teatro e sentiu os pingos frios e cortantes da chuva, ela blasfemou em voz alta e soltou um ou dois palavrões enquanto acenava para um táxi leva-la para casa.
No caminho Rachel pensou na loira machucada em sua casa. Ela amava tanto Quinn. Sempre amara, desde criança, mas naquele tempo o amor não era como aquele que ela sentia atualmente, ou pelo menos ela achava que não. Sempre teve um carinho tão grande e um sentimento de proteção em relação a ela, um amor talvez até maior do que os de seus pais.
Aos doze anos, quando já era capaz de distinguir o certo do errado, o bem e o mau e quando já tinha idade o suficiente para ter certeza do que sentia, Rachel se viu amando sua melhor amiga de uma maneira diferente. Ela não sabia exatamente quando aquilo começara, mas ela tinha o palpite de que sempre gostara de Quinn de uma maneira mais especial do que ela imaginava. Naquele tempo, quando percebeu seus sentimentos por Quinn, ela ainda era Lucy. A realidade bateu em sua cara como um tapa alguns dias depois da saída delas do colégio, quando Lucy estava determinada a não ser mais Lucy e a ser alguém que todos respeitariam, e ela não via problema se alguém a temeria.
Rachel havia ficado assustada quando se viu sentindo coisas mais fortes por Quinn, por isso ela guardou esses sentimentos no fundo de seu coração, trancando a chave em um baú que nunca se abriria. Ela viu Lucy Caboosey se transformar em Quinn Fabray em um tempo recorde. Presenciou cada mudança, desde física até as de personalidade e caráter.
Ela estava lá quando Quinn decidiu pintar seu cabelo de loiro. Estava lá quando ela fez seu tratamento para acne, estava lá em todas as suas aulas de balé e estava lá quando Quinn decidia fazer uma dieta. Estava lá quando o número das medidas do corpo dela diminuíram. Estava lá quando Quinn fazia seus exercícios. Estala lá quando ela fez o teste para líderes de torcida. Estava lá quando o apelido Lucy Caboosey havia caído no esquecimento, sendo substituído por Rainha de Gelo.
Rachel sempre esteve ali, observando as mudanças de Quinn e a assistindo ficar tão linda. E ficar perto daquele jeito não fora fácil. Fazia aqueles sentimentos crescerem cada vez mais dentro de si, urrando em desespero para serem libertados.
Rachel os manteve trancados durante um bom tempo.
Quando tinham treze anos, Rachel se lembrava de acordar numa manhã de domingo com a campainha de sua casa sendo tocada incessantemente. Minutos depois, uma Quinn alegre e radiante apareceu como um furacão em seu quarto, sorrindo e dando gritinhos animados, pulando de um lado para o outro como uma criança que acabara de ganhar aquele presente tão desejado. Rachel lhe perguntou o porquê de toda a euforia e Quinn lhe respondeu que estava tão feliz porque havia dado o seu primeiro beijo. A morena mascarou sua tristeza com um sorriso falso e uma série de perguntas para lá de convincentes; ela sempre fora uma atriz, afinal.
Ela chorou quando Quinn fora embora e chorou por todas as vezes que Quinn ficava com um garoto ou quando ela lhe dizia que gostava de alguém.
Mas aos catorze anos, quando Quinn a beijou na biblioteca vazia no colégio, as lágrimas se transformaram em sorrisos e toda a desilusão havia dado espaço àqueles sentimentos que ela não aguentou mais guardar. Aquele fora o seu primeiro beijo. Ela se lembrava do gosto defrapuccinode morango da boca de Quinn e sentia todos os arrepios que sentiu quando sua língua entrou em contado com a língua da loira cada vez que se recordava daquilo. Ela havia sentido seu estômago se contrair em voltas inteiras e todos os pelos de seu corpo se eriçar. Rachel estremeceu quando Quinn lhe deu aquela mordidinha no lábio tão sensual.
Depois daquele beijo, Quinn agiu como se nada tivesse acontecido. Seu comportamento não mudara nada, mas sempre que podia ela roubava um ou outro beijo da morena, que não se fazia de difícil em relação à loira.
Durante algum tempo a relação das duas permaneceu daquele jeito. Rachel não se envolvia com ninguém e mesmo que Quinn flertava com alguns garotos e garotas só para ter o prazer da sensação de ser desejada, nunca fora adiante com nenhum deles. Ela sabia que Rachel nutria sentimentos por ela e se fosse honesta consigo mesma concluiria que também sentia coisas fora do comum pela morena.
Rachel não era mais virgem e tampouco Quinn era quando fizeram sexo pela primeira vez, aos dezesseis anos. Mas para Rachel aquela fora como sua primeira vez. Ela não havia sentido tanto prazer e amor quando deixara com que o garoto Jesse lhe possuísse. Rachel gostava de pensar que a transa com Jesse nunca fora real e quem verdadeiramente havia tirado sua virgindade havia sido Quinn.
Nunca se esqueceria daquela noite. O jeito como Quinn passeou suas mãos macias por todo o seu corpo. A delicadeza, mas a firmeza ao agarrar seus nádegas ou seus seios. Os beijos suaves e molhados deixando rastros úmidos por sua pele. Os sussurros ao pé da orelha lhe dizendo o quanto ela era linda. O cheiro de flores do corpo de Quinn misturado com o cheiro de sexo que as embalava em uma explosão de sensações que nunca nenhuma havia sentido antes. Os gemidos e sons guturais que dançavam pelo ar em uma orquestra erótica e convidativa. Os fluidos de seus corpos se misturando e transformando-se em um. O prazer tão magnífico no final que mais parecia quimérico e o sono tranquilo e sem sonhos ruins fecharam aquele momento tão especial.
Aquela era certamente uma noite que deveria ser lembrada.
Quinn e Rachel embarcaram em uma relação confusa e sem definições. Não tinham maiores compromissos, mas mergulhavam em um mar de fúria se alguma delas se envolvesse com outra pessoa.
Se perguntassem para qualquer uma das duas o que elas eram, provavelmente nenhuma saberia responder. Nem Rachel com suas infinitas palavras na ponta da língua ou Quinn com seu intelecto superior.
Amigas? Namoradas? Amantes?
Não se sabe.
Mas uma coisa era certa e até a mais cega das pessoas poderia ver naquele relacionamento tão cheio de dúvidas e turbulências: Amor.
Elas se amavam mais do que tudo no mundo e por mais que cometessem tantos erros e de tempos em tempos feriam os sentimentos uma da outra, cometer esses atos falhos nunca foi algo planejado. Amavam-se apesar de tudo. Amavam-se apesar dos problemas de Quinn ou da personalidade tão forte de Rachel. Amavam-se apesar da desaprovação das pessoas ou do tempo tão corrido.
Era simples assim, mas não tão simples como ambas gostariam que fosse.
Talvez o fato de não terem uma definição para aquela relação foi o trauma que sofreram quando Judy e Russel Fabray descobriram que elas estavam “juntas”. Aquele era mais um dia que Rachel gostaria que fosse deletado de sua memória. Por ser um homem tão religioso, foi irônico Russel se assemelhar com o próprio demônio naquela tarde primaveril.
Não era para eles terem descoberto, ao menos não daquele jeito, mas aconteceu. Os pais de Quinn iriam para um encontro de casais na igreja em que eles frequentavam, mas por algum motivo, por algum maldito motivo que Rachel sempre amaldiçoaria, eles voltaram antes do previsto. As duas estavam no sofá da Mansão Fabray, tão absortas nos beijos e mão bobas que não escutaram o carro estacionar na garagem ou o barulho da porta sendo aberta.
A boca de Quinn estava no pescoço de Rachel e sua mão estava firmemente apertando sua coxa por baixo da saia quando Russel e Judy viram aquela cena.
Houve um escândalo a partir daquele momento. Russel xingava e gritava, palavras como “pecadora”, “inferno” e “decepção” saíam de sua boca como uma cachoeira jorra água. Judy mantinha uma expressão de horror em seu rosto e uma boca fechada. Quinn tentava se explicar e Rachel quis ajuda-la, mas seu tão expansivo vocabulário parecia estar com falhas.
Russel Fabray sabia que os pais de Rachel eram gays e uma vez ele fora questionado por um membro de sua igreja se ele não se incomodava com a amizade de Quinn com a garota de pais homossexuais. Eu confio na educação que dei a minha filha, ele havia respondido em ar seu costumeiro ar de superioridade. Ele não aprovava o estilo de vida de Hiram e Leroy Berry, mas ele tinha a capacidade de respeita-los e poderia reconhecer que eram pessoas de bom caráter e que Rachel era uma boa menina, que sempre esteve ao lado de Quinn mesmo nos momentos mais sombrios e ele era grato por isso. Sua filha parecia feliz ao lado de Rachel Berry e muitas vezes ele se perguntava como aquela garota pequena e tagarela conseguia animar tanto Quinn, que geralmente tinha uma personalidade tão fria como a neve.
Bem, naquele momento ele foi capaz de entender.
Ele tentou ser compreensível e zelar pelo bem estar de sua filha, mas não foi capaz de ver Quinn com outra mulher. O preconceito e os antigos ensinamentos mais a preocupação com sua imagem falaram mais alto. Quinn poderia ter uma amiga com pais gays e essa amiga poderia também ser gay, ele não se importaria – tanto assim –, mas sua filha não poderia ser gay. Isso já era algo que não lhe passava pela garganta.
E foi naquele fim de tarde primaveril que Russel Fabray expulsou sua filha de casa.
Judy não disse uma palavra para defender sua menina.
Quinn e Rachel não ficaram surpresas.
Quando Rachel finalmente chegou a seu apartamento, uma cobertura grande e elegante em um dos mais luxuosos condomínios de New York, o local estava se afogando em escuridão e silencio. Ela entrou o mais quieta possível e colocou seus ouvidos para trabalharem, querendo alguma pista de Quinn. Não queria incomodá-la se ela estivesse dormindo, por exemplo.
Mas Quinn não estava dormindo. Ela estava em seu quarto, usando apenas uma lingerie preta e sentada no chão. Estava de frente da grande porta de vidro que praticamente tomava a parede inteira e que lhe proporcionava uma bela vista de New York, com suas luzes e anúncios. Gotas de chuva escorriam pelo vidro transformando tudo em uma paisagem ainda mais bonita. O cinzeiro de cristal descansava ao lado do notebook de Quinn que também estava no chão. Uma taça vazia e meia garrafa de vinho também se faziam presentes.
O lugar estava escuro e a única iluminação que havia no quarto era de New York do lado de fora e dos raios que vez ou outra cortavam o céu com seu brilho encantador e perigoso. O ambiente não estava aquecido e Rachel era capaz de ver com a pouca luz no local que a pele de Quinn estava arrepiada de frio. Seus cabelos estavam soltos e caiam sobre seus ombros como fios de ouro macios e leitosos.
—Quinn – Rachel chamou em voz baixa, temendo o que viria a seguir.
Era como se Quinn estivesse se virando em câmera lenta. Tudo parecia devagar demais e sufocante demais aos olhos de Rachel. O ar estava pesado e ela sabia que depois que a loira estivesse de frente para ela, as coisas ficariam difíceis de lidar.
Pela primeira vez, Rachel não ficou contente em estar certa sobre algo. A máscara escondia o rosto de Quinn completamente. Era feito de um material branco e fino como porcelana. Na parte das bochechas, olhos e nariz, uma renda vermelha como sangue enfeitava a cor clara, e por trás dela, pinturas douradas davam um ar mais sofisticado à peça. A parte inferior era toda branca, mas a boca era pintada em um vermelho da mesma cor da renda, como um batom. Além dos orifícios para os olhos e as narinas, a máscara era completamente fechada.
Rachel se lembrava daquela máscara. Elas foram para o Carnaval de Veneza dois anos antes. Era uma festa extravagante e cheia de cultura, com pessoas dançando e se divertindo nas ruas com suas fantasias chamativas e bem trabalhadas. Quinn havia se apaixonado pelo evento, talvez pela quantidade de história que pairava o lugar e em quão artístico era tudo aquilo. Rachel também havia aproveitado, mas tinha que admitir que algumas das fantasias a assustava. Como lembrança, Quinn havia comprado uma máscara,aquelamáscara, e levado consigo de volta para New York.
O ar estava preso nos pulmões de Rachel, por alguma razão, ela não conseguia soltá-lo. Ela olhava para a imagem de uma Quinn Fabray seminua com uma máscara veneziana no rosto de maneira perplexa.
—O que é isso, Quinn? – Rachel perguntou quando finalmente conseguiu respirar adequadamente – O que significa isso?
O silencio engoliu o lugar durante alguns instantes. Quinn não pronunciou uma palavra, quase não se mexia. Rachel era capaz de ver por entre as sombras os olhos dilatados de Quinn em um tom de verde intenso e cru, mas aquelas duas órbitas brilhantes estavam muito mais sombrias do que a escuridão em onde o local estava mergulhado. A cor das íris de Quinn criava uma combinação bonita com o vermelho das rendas da máscara e Rachel poderia até achar aquilo algo atraente de ser ver se o ar não estivesse tão insanamente pesado.
—Me responde, Quinn – Ela tentou adquirir um tom de voz mias severo, mas teve certeza que uma voz estava fraca e entrecortada.
Quinn a encarou por mais alguns segundos e suspirou profundamente, desviando os olhos para a taça de cristal que repousava ao seu lado.
—A máscara é mais agradável – A máscara abafava sua voz e ela falou tão baixo que Rachel mal pôde compreender.
—Do que você está falando? – Rachel arriscou se aproximar um pouco, ficando a dois passos de distancia da loira, que continuava sentada no chão.
—É mais agradável – Repetiu – Do que meu rosto.
—O quê? – A morena sentia-se incrédula.
—Meu rosto está destruído. Está feio – Pausou, suas unhas arranhando a pele de sua perna –Euestou feia.
—Você não é feia, Quinn – Disse tentando manter a calma – Nunca foi e nunca vai ser.
—Nunca fui? – A loira perguntou, sua voz meio alterada. Ela se virou subitamente para Rachel, que foi capaz de ver os olhos de Quinn se transformarem em duas bolas de fogo, verdes e ardentes – Você tem certeza disso? Você por acaso de lembra deLucy Caboosey?
—Eu me lembro da Lucy – Ela respondeu suavemente, se aproximando da outra e sentando em seus joelhos, de frente para ela – Eu me lembro da Lucy, uma garota doce e carinhosa. Uma garota tão inteligente e gentil que me conquistou no mesmo instante em que trocamos as primeiras palavras.
O fogo dos olhos de Quinn se apagou naquele momento como se tivessem sido atingidos por um jato d’água. Seus ombros se encolheram e sua cabeça de abaixou. Rachel ouviu um leve fungar de dentro da máscara e sabia que ela queria chorar, mas que não se permitiria a fazer aquilo pelo menos por enquanto.
Quinn começou a arranhar a própria perna com tanta força que sua pele estava adquirindo um tom tão vermelho quanto o dos detalhes de sua máscara; se continuasse mais um pouco, sua pele começaria a criar finos filetes de sangue.
Rachel segurou a mão que machucava a si mesma e perguntou, na voz mais doce e calma em que conseguia num momento como aquele:
—O que aconteceu? Por que você está machucada?
E foi naquele instante que o fogo voltou aos olhos de Quinn, ardendo com mais vontade. Ela soltou sua mão da de Rachel e cravou suas unhas na outra perna.
—Descobriram.
—Descobriram?
—Descobriram! – Ela exclamou – Descobriram que eu peguei aquele dinheiro.
Rachel finalmente entendeu. Quinn tinha uma galeria de arte bastante prestigiada em New York, onde ela vendia não apenas suas próprias obras como as de outros artistas também. Mas ela também comprava peças, e quando isso acontecia, o fornecedor da peça lhe dava o número de sua conta bancária para que ela pudesse depositar o valor do pagamento. Mas Quinn conhecia os gerentes das principais agencias bancárias e com a ajuda deles, além de depositar o dinheiro da peça que havia comprado, desfalcava uma quantia maior que cinco mil dólares das contas e dividia o lucro com as pessoas que a ajudavam em uma divisão de 30% para eles e 70% para ela. Todos aqueles que ela já havia roubado eram ocupados e ricos demais para perceber o desfalque em sua conta.
Bem, até agora.
—Aquele filho da puta desgraçado descobriu que eu tinha pegado a merda do dinheiro dele – Sua voz transbordava ira e suas unhas se afundavam cada vez mais em sua pele – E por isso ele resolveu me castigar.
Rachel suspirou triste. Ela sabia que Quinn roubava das pessoas. Ela nunca aprovara, mas também nunca se esforçara demais para que ela parasse com aquilo e saber disso fazia com que ela se sentisse culpada.
—Ele não comunicou a polícia porque seria uma bela hipocrisia – Ela soltou um riso curto – Um criminoso chamar a polícia porque outro criminoso estava o roubando.
—Ele também fazia coisas… Hum… – Hesitou por um momento – Erradas?
—Sim, por isso não envolveu a polícia nesse assunto, mas ele não ia deixar barato. Ele é um cara que preserva dinheiro como preserva a vida e, além disso, é um tremendo machista. Lembra-me de Russel – Disse em tom amargurado — Ficou furioso quando descobriu que estava sendo trapaceado por uma mulher – Ela riu, mas seu riso rapidamente morreu e deu espaço a uma voz fria como gelo – E então ele fezisso.
—Eu sinto muito – Ela pegou sua mão novamente, impedindo que se ferisse mais. Marcas profundas de suas próprias unhas estampavam sua pele.
—Eu também sinto – Ela se calou por um segundo e no seguinte estava rindo histericamente, um riso doentio e cheio de maldade que Rachel sabia que não lhe definia – Mas eu não deixei barato. Eununcadeixaria.
—O que você fez?
Rachel não viu, mas teve certeza que Quinn sorria sob a máscara, um sorriso malicioso e perverso, o mesmo sorriso que ela costumava dar quando era a capitã das líderes de torcida.
—Bom… Ele tirou de mim a segunda coisa mais importante de mim – Ela enrolou a ponta dos fios de cabelo em um dedo e o puxou, formando um delicado cacho. Soltou uma risadinha quase infantil – Então eu tirei a dele.
—E o que é isso? – Encarou os olhos de Quinn.
—Vou te dar uma dica – Seu tom era divertido e brincalhão e se aquele assunto não fosse tão sério, qualquer um poderia confundir aquele diálogo como um mero bate papo – É um por menino.
Franzindo o cenho, Rachel pensou.
Um por menino.
Um por menino…
Um por menino…
Um por menino só poderia ser…
Seria isso?
—Por favor, Quinn, me diga que não é...
—O pinto? – Ela a interrompeu – É isso mesmo.
O queixo de Rachel tocava o chão. Quinn estava falandosério? Quando ela pensou que castraria a pessoa que havia feito aquilo com Quinn, ela não tinha pensado no sentido literal.
—Está falando sério? – A morena ainda custava a acreditar.
—É claro que eu estou – Quinn respondeu agora meio indignada, cessando suas risadas subitamente – Eu não brinco com essas coisas, Rachel.
—Não deve brincarmesmo– Rachel disse alterada, surpreendendo a loira a sua frente – O que deu em você? Você ocastrou?
—Eu não o castrei – Rebateu defensiva – Eu mandei castrar – Murmurou meio envergonhada – Mas meus meninos ainda não o encontraram. Parece que ele está fora do país.
“Meus meninos” era a forma como Quinn se referia àqueles que às vezes faziam o trabalho sujo para ela.
—Você vai mandar os “seus meninos” pararem com isso agora mesmo – Gritou.
—O quê?
—É isso mesmo. Você vai manda-los parar e vai mandaragora.
—Eu não vou fazer isso – Quinn gritou de volta, arrancando a máscara e jogando-a em um canto qualquer. Estava ficando abafado demais e difícil de respirar dentro daquilo.
—Você vaisim!
—Não vou – Bateu o pé como uma criança.
—Você vai sim, Quinn Fabray, e eu não estou pedindo, estou ordenando!
Quinn paralisou por um momento. Rachel estava realmente brava e quando Rachel Berry estava brava, podia ser assustadora, até mesmo para Quinn Fabray.
A loira abaixou a cabeça e se encolheu, exatamente como uma criança que leva uma bronca do pai. Pegou o celular que até então Rachel não havia reparado que estava no chão e fez uma ligação. Murmurou algumas ordens e rapidamente desligou.
Rachel olhou para ela, seus olhos agora tristes e cansados.
—Por que fez isso? – Indagou tristemente – Por que fez isso? Isso é…
—Loucura? – Interrompeu.
—Cruel. Eu ia dizer cruel.
—Olha pra mim, Rachel, olhe bem – Mencionou seu rosto –Issonão é cruel?
—Sim, é cruel, mas você procurou. Tanto procurou que achou – Ela viu os olhos de Quinn se encherem de lágrima, mas a loira respirou fundo e tencionou o maxilar – Você não devia estar roubando das pessoas.
Quinn assentiu.
—Você está certa, mas me responde uma coisa: O fato de eu tê-lo roubado lhe dava o direito de acabar com a segunda coisa que eu mais preservo na vida?
—Não – Rachel admitiu.
—Crueldade com crueldade não machuca, Rachel. Eu paguei pelo o que fiz, ele também deveria pagar.
—Ele vai pagar. Vai pagar no tempo que o destino achar que for melhor, pagar de maneira justa, pela polícia ou talvez pela morte, mas não por suas mãos – Deslizou o dedo pelo nariz manchado com um hematoma esverdeado em forma de linha de Quinn, posando logo depois um beijo delicado em seus lábios – Fazer o que você iria fazer te tornaria tão cruel quanto ele.
Quinn não disse uma palavra. Afastou-se de Rachel e buscou sua máscara, caminhando logo depois para a porta de seu quarto a fim de sair.
—Quinn – Rachel a chamou.
—Sim? – Ela virou-se novamente para a outra.
—Você disse que tiraram de você a segunda coisa que você mais preservava na vida – Parou alguns instantes – Qual é a primeira?
A loira piscou um par de vezes com o semblante sem expressão, mas de repente sorriu um sorriso doce e adorável, o sorriso que fazia Rachel derreter e perceber o quanto amava aquela mulher.
—Você.
Notas finais
Agradeço por ler e se você puder, me deixe um review, hein?
mizzdlovato.tumblr.com
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