Insane

5 Capítulo 5- Um Pouco de Descanço


Aproximava cada vez mais o canivete da minha boca, dizendo repetidas vezes — Começaremos pela língua, para não corrermos o perigo da fofoqueirinha atacar de novo, ok? – A minha cabeça tava fraca, eu não conseguia dizer nada, todo o meu corpo se encontrava completamente paralisado, e tudo que eu pensava, sentia, via, era aquele homem e seu canivete, que agora cortava o canto da minha boca, e nada de dor, nada de sofrimento, só o desespero de se pensar no próximo corte tomava conta de mim. Eu tinha que pensar.Tinha que pensar em qualquer coisa. De repente várias cenas se passavam na minha cabeça, uma primeira que me reconfortava: o dia do crucifixo, em que um deles, o mais velho, parecia no mínimo sensato, simpático, bondoso. Logo o segundo pensamento veio, esse do mesmo dia, com um Frankiee autoritário, tomando a posição de líder do mais velho, os seus olhos brilhantes, vermelhos, sua voz alta, sua rouquidão, o que me fazia lembrar de seus gritos, e de uma coisa que minha mãe sempre me dizia, que quem gritava perdia a autoridade. Logo pensei no que isso iria me ajudar.

Nesse momento o canivete já cortava os meus lábios, e olhando para a esquerda eu só via várias sombras, como se fossem seguranças, enquanto moradores passavam pelo lado de fora.

Agora o canivete estava dentro da minha boca. Se arrastava, dançava, na minha língua, ia pela minha gengiva, e começou a cortar, aos poucos, e comecei a virar para traz, a me arrastar pela parede até encostar no chão. E no ápice do meu desespero, pensei: Eu posso ficar sem minha língua. Ninguém precisa das minhas palavras, já que a única pessoa que as ouvia devia estar tão longe, como o meu assassino dizia, no inferno. Tudo isso havia passado pela minha cabeça no exato momento em que vi um pedacinho de madeira, e na hora, via muita utilidade para aquilo. Com o pedaço, fui cortando aos poucos a meia comprida de Frankiee, que observava atentamente a minha língua, que parecia medi-la, ou, do jeito que estava drogado, poderia ver um outro universo lá dentro. Fui chegando ao seu tornozelo, fui cortando, até que o canivete atravessou rapidamente a minha boca, e Frankiee caiu no chão, berrando de tanta dor, enquanto metade de seus homens corria atrás de mim, que sentia o sangue escorrendo pela minha boca, que devia estar um retalho. Consegui chegar até o ponto de ônibus, e peguei um com destino pra qualquer lugar. Saltei do outro lado da cidade, e andando, fui pra casa. Nem pensei em ser seguida, só no meu cansaço, em como estava perplexa. Entrei em casa e fui direto pra o meu quarto, e dormi ao som das batidas na minha porta, dos gritos da minha mãe, dos móveis quebrados, e não fiz nada, estava cansada, deixaria tudo pra amanhã, a delegacia, a mudança, a casa da minha avó no interior, o velório, a morte... Agora eu poderia dormir. Talvez, quando amanhecesse, as coisas não fossem tão piores.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.