Insólito (Hiatos)
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Dimitri estava entediado.
Admirava, distraidamente, a pálida luz do pôr do sol através das arqueadas janelas de sua residência, enquanto seus dedos encontravam, involuntariamente, as teclas do enorme piano de cauda posicionado ao lado norte de sua sala de música. Nem mesmo ousava pensar em sua vida, pois tudo o que poderia refletir sobre ela se esgotara. Não havia nada mais para pensar.
Isso o frustrava profundamente.
Chegou a caçoar de si mesmo perante aquele momento, como se seu lado sádico estivesse rindo da situação por ele mesmo imposta. Ele dizia: “está vendo? Eu lhe avisei que sua vida seria arruinada se você ficasse preso dentro deste castelo para sempre. Agora, arque com as consequências sozinho.” Por um lado, ele tinha de admitir sua razão.
Entretanto, depois de esperanças perdidas e tanto sofrer por vidas roubadas dele injustamente, Dimitri decidiu fechar-se para o injusto e cruel mundo. Afinal, tudo de que ele necessitava estava dentro de sua confortável moradia. Ele decidira não mais prestar atenção ao seu inconveniente lado masoquista e, simplesmente, voltou a tocar as teclas do piano, sem realmente pensar em nada. Aquilo era mais cômodo e feliz: estar em ignorante paz; estar sossegado, finalmente.
As notas suaves de sua música predileta dançavam no ar e preenchiam sua mente de forma melodiosa, inflamando-a com uma sensação de pura satisfação. Eram cifras melancólicas, porém resumiam bem sua vida, em que nada de bom existia. Elas levavam-no sempre ao mesmo episódio, de forma sutil, mesmo que Dimitri fizesse forças para não recordá-lo, pois quando o som suave circundava seus pensamentos, raramente havia barreiras para as memórias indesejáveis retornarem.
Seus esforços foram em vão, certamente. Sem ele esperar, ou remediar, as repetidas recordações de suas mãos presas em cordas, fortemente amarradas aos pulsos, invadiram-no. Ele ainda podia sentir a áspera ardência cravada a elas, todas as vezes em que tentava se libertar do impiedoso aperto. Foi forçado a ver o brutal assassinato de sua mãe, seguido pelos de suas três irmãs, sem poder fazer nada para impedir que aquilo acontecesse. Ele recordava-se de gritar, debater-se convulsivamente, implorar aos assassinos por clemência, mas eles nem ao menos olharam em sua direção. Estavam ocupados demais inflamando sua casa com álcool para poder ouvir o que Dimitri dizia.
As labaredas do fogo que se seguiu já eram esperadas por Dimitri, que já não tinha mais esperança de viver e considerava a destruição do próprio lar o menor dos danos. O fato de queimarem sua casa e todas as lembranças felizes que ali residiam quase não foi cogitado por sua mente devastada. A própria vida chegara ao fim quando o obrigaram a assistir à mesma sendo tirada das pessoas que mais amava. Dimitri deixaria o fogo carbonizá-lo de bom grado. Até começara a sentir, ao longe, um estranho formigamento nos locais em que seu corpo deveria estar sendo consumido pelas chamas. Porém, não as sentia como deveria, afinal, a dor sufocante em seu coração era muito maior do que a sofrida por sua pele. A única coisa em que conseguia pensar era na hora em que sua alma liberta finalmente encontraria as do resto de sua família massacrada tão injustamente, e completamente indigna de clemência.
Porém, pouco antes de a inconsciência levá-lo ao local de paz tão almejado por ele, Dimitri sentiu algo forte puxando-o para longe das chamas. Era um par de mãos pequenas e enrugadas, contudo firmes. Ele quis ordenar às mãos que parassem de arrastá-lo para longe de sua família, quis gritar para que a pessoa se afastasse e o deixasse ali para morrer também, mas não encontrou a própria voz para fazê-lo. Estava fraco demais para sequer abrir os olhos. Permitiu-se, então, derivar perante a escuridão que o cobria, enquanto seu corpo era levado para longe por entre as labaredas incandescentes.
— Dimitri? Dimitri? – sacudidas fortes fizeram-no despertar, mas não o permitiram escapar do terror de suas lembranças. – Dimitri, querido, acorde. Quantas vezes terei de lhe dizer para não dormir sobre o piano? Parece até que não me escuta.
Pestanejando repetidamente para espantar a onda esvoaçante do sonho, Dimitri finalmente pôde focalizar o rosto de sua avó, que o encarava com suavidade e verdadeira preocupação latente. Ele franziu o cenho, rapidamente, para o braço escorado sobre o piano e tentou, sem sucesso, descobrir quando exatamente caíra no sono. Em seguida, encarou os olhos castanhos da velha senhora.
— Desculpe-me, vovó. Acho que nem ao menos percebi o sono chegando.
Dimitri esperava aparentar arrependimento, tal qual uma criança perante o olhar repreendedor de sua avó, mas não pôde evitar que um sorriso escapasse de seus lábios ao vê-lo – algo que a deixou ainda mais carrancuda. Ela era a única capaz disso. Alguns poderiam dizer que ele era alguém extremamente sério e solitário, porém, perto de Yeva, Dimitri quase não conseguia manter aquela fachada endurecida. Ele a amava tanto, que se permitia ser um pouco emocional, pois ela era a única pessoa que restara de bom em sua vida.
Em poucos instantes, porém, a expressão da avó suavizou-se ao fitá-lo com mais atenção.
— Ah, Dimka! Você não tem jeito. – disse ela, carinhosamente, enquanto balançava a cabeça e acariciava o rosto do neto. – Quantas vezes serei obrigada a lhe dizer a mesma coisa? Bem, vamos pôr um fim a isso. Eu apenas queria chamá-lo para o jantar, mas, como você não respondia, deduzi que pegou no sono outra vez.
— Tudo bem, vovó, cuidarei para que isso não ocorra novamente. – ele tomou as mãos da avó com ternura e as levou aos lábios, beijando-as galantemente. Yeva corou, agraciada pelo gesto do neto. – Obrigado por vir pessoalmente até aqui.
— Ora, não o deixaria passar fome, não é mesmo? Vamos, vamos, apresse esses passos! O jantar será servido em breve.
— Sim, senhora. – Dimitri respondeu em tom brincalhão, enquanto prestava continência à avó.
Ela riu suavemente.
— Deixe de ser bobo, Dimitri. Eu sou apenas uma avó preocupada.
— Sim, sim. Nem me atrevo a contestar esse fato.
Dimitri levantou-se do banco com energia renovada e passou o braço protetoramente ao redor dos ombros miúdos de sua querida avó. Ela o retribuiu prontamente e os dois passaram a descer as longas escadas em direção ao salão de jantar, que estava abarrotado de criados apressados, servindo a comida que exalava uma mistura de cheiros deliciosos. Todos ali temiam desagradá-lo, mas Dimitri não se sentia irritado àquela noite, pelo contrário, a depressão insistia em causá-lo piores danos. Contudo, tentou ao máximo escondê-la e distrair a atenção da avó para outros assuntos. Yeva era muito perspicaz, no entanto, e sua expressão dizia claramente que ela conseguia perceber a lamúria do neto.
— Tudo parece tão delicioso. – Dimitri divagou distraidamente, sentindo a fragrância invadir as narinas. – Estou louco para devorar a comida de uma vez.
— Não se apresse, Dimka. – ralhou Yeva. – O jantar não irá fugir.
— Sei disso, mas ainda assim quero comer de uma vez.
— Pois, então, vamos nos sentar.
Sem precisar de mais delongas, Dimitri sentou-se à ponta da enorme mesa talhada em mogno escuro – como era seu lugar de costume –, sendo logo acompanhado por sua avó, que se acomodou ao seu lado, porém no assento à direita. Seus olhos finalmente deixaram-no, o que seria um alívio se não fosse a expressão desolada que demonstrou ao encarar os espaços vazios a sua volta. Dimitri não quis perguntar qual a origem da tristeza dela porque tinha medo da resposta. Então, ficou calado durante toda a refeição, que foi comida em silêncio. Sentia, momentaneamente, o olhar de Yeva sob sua silhueta.
Depois de um longo período silenciosamente confortável, Yeva não conseguiu controlar a curiosidade, nem sua ânsia pelo bem estar do neto.
— Querido, estive pensando... – ela começou.
— Em quê? – Dimitri estava em dúvida sobre que assunto a avó poderia querer tratar.
— Você anda tão sozinho ultimamente, bem, não que você não fosse solitário antes, mas sinto-o cada vez mais infeliz neste enorme castelo. Você não tem amigos, só pensa em trabalhar, tampouco tem a companhia de uma parceira que... – Dimitri a interrompeu bruscamente.
— Oh, não. – ele disse. – Não comece com esse assunto, vovó! Eu sei muito bem aonde a senhora quer chegar com isso e não estou disposto a debatê-lo.
Ela encarou o prato vazio por alguns instantes.
— Desculpe se pareço inconveniente, querido, mas fico extremamente preocupada com você. Eu não vou durar para sempre, Dimka, e penso que você ficaria muito infeliz com minha partida. E tem outra coisa: você não sente falta de alguém para amar? Quero dizer, de entregar seu coração a uma jovem especial? Todos querem esse sentimento, querido, e não em vão. Há uma razão para isso: ele é maravilhoso. Eu nunca entendi quais os motivos de você ainda não possuir uma esposa. Você é tão bonito, encantador, muitas moças se interessariam por você se quisesse.
Dimitri estava apavorado. Ele sempre temeu, profundamente, que sua avó falasse sobre aquele determinado assunto, mas, cedo ou tarde, ele sabia que ela o abordaria. Só nunca passou por sua cabeça que poderia ser naquele exato momento. A única coisa em que conseguia pensar era: por que, justamente, agora?
— Eu não quero falar sobre isso. – ele respondeu rispidamente, mas a avó pareceu não se intimidar nenhum pouco perante a carranca quase homicida no rosto do neto.
— Mas você precisa, Dimitri. Não vá fugir do assunto mais uma vez!
Ele queria, porém. Incontrolavelmente.
— Vovó, já é t-tarde. – gaguejou, procurando por alguma desculpa apressadamente. – Tenho muito trabalho e coisas importantes a fazer. Se me der licença, eu vou... – Dimitri não conseguiu pensar em algo melhor, por isso deixou a sentença pairando no ar.
E antes mesmo de Yeva poder contestá-lo, ou continuar o monólogo apaixonado, Dimitri praticamente correu em disparada em direção ao seu quarto, trancando a porta logo ao passar. Ele apoiou a cabeça sobre a madeira escura e respirou profundamente a fim de se acalmar. Porém, enfrentava sérias dificuldades em fazê-lo.
As palavras de sua avó tamborilavam teimosas em sua mente.
“Você não sente falta de alguém para amar? Quero dizer, de entregar seu coração a uma jovem especial?" Ela o questionara. Dimitri não conseguiu respondê-la durante o jantar, mas ao contrário do que Yeva pensava seus motivos não chegavam nem perto de uma esquiva. Ele supunha existir uma resposta talvez até mesmo óbvia para a pergunta, porém ele não sabia. Dimitri não merecia encontrar o amor. Ele fora carregado por marcas terríveis demais no passado – desde externas à internas – para ter a capacidade de sentir aquela sensação tão pura.
"Todos querem esse sentimento, querido, e não em vão. Há uma razão para isso: ele é maravilhoso." Dimitri poderia concordar com a avó e admitir a maravilha por trás de tal emoção, porém seria hipócrita se o fizesse. Ele jamais sentiu algo tão profundo por alguém que não fosse de sua família – e ele pensava que esse tipo de amor nem era válido, já que pareciam coisas tão distintas. Dimitri não queria correr o risco de se apaixonar. Era uma pessoa acomodada com o fato de que não a possuiria jamais. Ele não suportaria colocar em risco a vida de outro alguém por algo tão egoísta, afinal, ele já perdera tantas pessoas da mesma maneira. Amar significava fraquejar. E ele não podia se permitir ser tão acessível.
“Eu nunca entendi quais os motivos de você ainda não possuir uma esposa.”
Dimitri preferia que ela jamais ficasse sabendo, pois ele mesmo tentava ocultar os motivos a si, constantemente.
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