Notas iniciais
Açucarado esse penúltimo capítulo *-*

Alguns anos depois...

– Amor, eu preciso dar uma volta na praia. Não aguento mais ficar dentro de casa.
– Acho melhor não. Olha o tamanho dessa barriga e se essa criança resolve dar sinais de que vai nascer no meio da praia?
– Ela esperou tanto, espera mais um dia. Vamos... Por favor? Hein?
Uma olhou com olhos de cachorro pidão, a outra olhou com olhos de dúvida.
Clara e Marina ajeitavam as fotos da lua de mel na Grécia nos aparadores da sala enquanto discutiam se iam à praia ou não.
– Quantas vezes eu vou ter que falar pra vocês se enxugarem depois de sair da piscina? Olha a bagunça que vocês dois estão arrumando. Achei que como irmãos mais velho você fosse mais responsável, Tomas. Mas pelo jeito... – brigou Clara dando um tapa na bunda de cada um dos meninos e os puxando para um beijo – Meus bichinhos. Pro banho. Agora!
Tomas era o segundo filho de Marina e Clara. O garoto, dois anos mais velho que Ivan, havia sido adotado dois anos e meio depois que Marina e Clara haviam se casado.

***
Marina e Clara conversavam sobre ter outros filhos. A fotógrafa disse que também gostaria de adotar, mas que não queria adotar um bebê como a maioria. Gostaria de adotar uma criança mais velha, independente do sexo.
Clara abraçou a ideia da esposa e ambas rodaram orfanatos a procura de alguma criança que as encantassem logo de cara.
Quando foram visitar o último orfanato da lista, ao andarem junto da diretora pelo local, Marina observou um garoto de cabelos encaracolados e pele dois tons mais morena que a de Clara, sentado com uma câmera fotográfica nas mãos. A câmera era antiga, daquelas de usar filme, mas o menino parecia tão íntimo daquele objeto que Marina logo se encantou.
Foram dias de visitas e esperança. Então, dois dias antes de o natal chegar, Tomas estava junto de Clara, Marina e Ivan.
Houve o processo de estranhamento do menino que nunca havia vivido numa casa maior que um banheiro e nunca tinha tido uma família de base heterossexual, muito menos homossexual. Mas Tomas reagiu bem à novidade. E tudo ficou mais fácil quando Ivan deu espaço para que se tornassem melhores amigos além de irmãos.

***
Clara e Marina andavam a beira mar de mãos dadas enquanto os meninos, mais a frente, chutavam a água molhando um ao outro.
– Às vezes acho que adotamos um peixe. Nunca vi gostar tanto de água – ela respirou fundo de olhos fechados.
– Você está respirando mais devagar, cansou, né?
– Uhum... Essa barriga... Andar na areia grávida é um pouco mais difícil.
– Não vou nem falar “eu te avisei”. Vamos embora. Meninos, venham! A mãe de vocês está cansada.
Os quatro caminharam até o calçadão e pararam numa barraca onde vendia água de coco.
– Quer beber alguma coisa?
– Não, amor. Só vai buscar o carro, por favor. Quero ir pra casa.
– Você está pálida, vida. Vamos passar no médico.
Tomas e Ivan ficaram com a mãe enquanto a outra mãe corria até o carro.
Ivan foi até a barraca e tirou umas moedas do bolso. Voltou com um coco nas mãos.
– Bebe só um pouco mãe, só um pouquinho.
– Marina? Quando me contaram que você estava grávida eu custei a acreditar, mas com essa barriga gigantesca fica impossível – disse Vanessa tirando os óculos escuros e indo até Marina para cumprimentá-la.
Marina tinha a mão sobre a barriga e respirava lenta e profundamente, bebericando a água que Ivan trouxera. Não conseguia nem expressar a feliz surpresa em rever Vanessa depois de tanto tempo.
– Você está suando frio, Marina! O que foi? – a ruiva tinha os olhos preocupados.
– Minha filha... Acho que ela quer nascer – respondeu Marina com um sorriso amarelo. Olhou para baixo e havia um riacho incolor, mas de cheiro forte, escorrendo por suas pernas.
– A sua bolsa estourou! – disse Vanessa – Cadê a Clara, meu Deus? Ela não te deixou sozinha...
– Ela foi buscar o carro – respondeu Tomas – Mãe, respira fundo. Calma. Calma.
– Me dá sua mão – pediu Vanessa.
Marina segurou a mão da ruiva até prender a circulação. Sentia uma dor inigualável. As contrações começaram a atormentar Marina que às vezes não conseguia segurar o grito no fundo da garganta.
– Aaaai... Não vou aguentar – dizia Marina entre uma contração e outra – Sempre soube que eu não seria boa nisso.
– Calma, respira fundo e pode apertar a minha mão o quanto quiser – a mão de Vanessa já estava quase roxa.
O dono da barraca, vendo a situação, chegou com um pedaço de papelão para abanar Marina que estava pálida, suando em bicas e respirando ainda mais rápido.
– Ai, meu Deus! Marina! – gritou Clara estacionando o carro e saindo correndo.
– Vai pro hospital agora. A bolsa dela acabou de romper – disse Vanessa se levantando e oferecendo as duas mãos para que Marina se apoiasse.
– Calma, calma, calma – repetia Clara mais pra ela mesma do que pra Marina.
– Que calma, Clara? A Marina tá quase parindo no meio da rua – disse Vanessa.
Marina se apoiou em Vanessa e em Clara e logo se sentou no banco do carro, com as duas mãos na barriga, forçando uma massagem inútil.
– Eu fico com os meninos – disse Vanessa assim que fechou a porta do passageiro.
– Não! A gente quer ir – reclamou Ivan.
– Hospital não é lugar de criança. Vou levar vocês pra casa da Chica.
– Vanessa! – chamou Clara quando deu partida no carro.
– Hum?
– Obrigada!

Clara corria o máximo que podia dentro da normalidade. Gostaria de ativar um botão para fazer o carro voar e chegar mais rápido ao hospital.
– Clara? – Marina chamou assustada. As mãos apalpando a barriga.
– Que foi, amor?
– Minha barriga... Ela está dura – as lágrimas da fotógrafa cessaram instantaneamente. Medo começou a crescer dentro de Marina.
– Isso é normal. É por causa das contrações. Estamos quase chegando...
Uma nova contração acometeu Marina e ela voltou a respirar fundo.
– Contração é essa dor insuportável que estou sentindo? – perguntou a fotógrafa depois de voltar a respirar normalmente.
Clara franziu os lábios e balançou a cabeça.
Marina que estava com os hormônios à flor da pele voltou a chorar copiosamente e a negar com a cabeça.
– Isso não foi uma boa ideia, amor... Você que deveria ter ficado grávida. E se ela estiver sofrendo aqui dentro? Ai... Ela precisa sair daqui – disse Marina aos prantos. Mil situações caóticas rondando sua mente.
Um nó pequeno na garganta de Clara começou a apertar. Ver Marina desesperada e não poder fazer nada também a deixava desesperada.
Enquanto Marina tentava controlar a respiração com a cabeça inclinada no encosto do banco Clara estacionava o carro em frente ao hospital.

Chica chegou ao hospital no final da tarde acompanhada quase pela família inteira. Só faltou a Rosa que ficou cuidando de Ivan e Tomas.
Clara estava dentro da sala de cirurgia ao lado de Marina que já estava pronta para dar a luz.
O obstetra chegou à sala dando boa tarde e então Clara beijou Marina e pegou em sua mão. O grande momento se aproximava.
– Eu estou com medo, amor... – disse Marina baixinho enquanto o médico se posicionava diante de suas pernas abertas.
– Você está indo muito bem, calma. Já está acabando – garantiu Clara dando mais um beijo em Marina.
Marina apertou a mão de Clara com toda força que sentia e fez força para empurrar a filha para fora. Gritava de dor, achando que não conseguiria. Pediu que fizessem uma cesárea de emergência. Mas o médico insistiu para que ela continuasse empurrando. E quando achou que as forças haviam acabado deu um último grito. O corpo cansado caiu na maca e um choro foi ouvido. Choro esse que era mais forte que o de Marina.
– Você conseguiu! – disse Clara cobrindo Marina de beijos. Chorando mais que a fotógrafa e a filha.
A menina gritava usando toda a força de seus pulmões. A enfermeira a enrolou num lençol azul e a entregou para Marina que não estava acreditando em tudo que acabara de acontecer.
– Oi – sussurrou Marina com a voz embargada – Oi minha filha, oi princesa.
– Ela tem os seus olhos – disse Clara – Tão linda, tão linda...
Marina inclinou a cabeça na direção de Clara e as duas selaram os lábios, sorrindo em seguida.

Alguns meses depois...

Helena estava de braços cruzados observando a movimentação da casa e perguntando-se se valeria a pena comprar um apartamento maior. A família estava crescendo cada dia mais e o espaço estava ficando cada vez menor.
Felipe e Silvia conversavam com Clara sobre maternidade. Silvia exibia uma barriga de sete meses e os seus gêmeos poderiam nascer a qualquer momento.
Luiza e André estavam sentados controlando o pequeno Henry que queria a todo custo brincar com a pequena Elis que mamava tranquilamente em Marina.
Ivan e Tomas jogavam vídeo game no quarto com Pedro, o filho que chegou de repente na vida de Helena e Virgílio. Pedro ainda era pequeno demais para conseguir acompanhar o ritmo dos primos, mas se divertia.
O almoço foi anunciado e de repente a mesa estava cheia de pessoas. Rosa já não estava mais tão ativa como no passado, mas ainda fazia pratos que deixavam todos de boca aberta. Benjamim já não estava mais entre eles. Alguém lá em cima solicitou sua presença num atípico dia frio carioca.
A campainha tocou enquanto todos se serviam. Rosa abriu a porta e deu passagem para Flávia e Vanessa entrarem. As duas haviam firmado mesmo um relacionamento.
Enquanto todos almoçavam Marina começou a analisar o contexto em que estava e os olhos ficaram marejados.
Virgílio com sua sensibilidade invejável percebeu que a fotógrafa estava fora de órbita e perguntou o que estava acontecendo.
Clara olhou para a esposa e pousou sua mão sobre a mão dela.
– Não é nada demais gente, acho que a maternidade me deixou mais sensível que o normal – garantiu Marina tentando se desfazer do nó em sua garganta.
– Mães ficam mais sensíveis mesmo – disse Luiza – Cada dia tenho mais certeza disso.
– Eu deveria ter feito esse brinde antes, mas acabei me esquecendo. Aproveitando a pausa que fizeram quero propor um brinde a essa família que de repente se tornou incomum, mas cheia de amor, cumplicidade e felicidade. Um brinde a todos – disse Helena erguendo sua taça de vinho branco.
Todos ergueram suas taças e copos e fizeram o famoso timtim com grandes sorrisos nos lábios.
– Vou aproveitar a oportunidade para agradecer – disse Marina pousando sua taça na mesa – Agradecer pelo acolhimento de vocês. Eu que sempre fui sozinha e que até uma boa parte da minha vida tinha apenas meus livros e a minha câmera como companhia, fazer parte de uma família como essa é divino. Eu nunca poderia supor que conhecendo essa pessoa incrível – seus olhos passaram por Clara e depois em cada um que estava presente à mesa – Eu conheceria pessoas tão amáveis como vocês. E nunca poderia supor também que teria por você Chica um sentimento igual ao que eu tive e ainda tenho pela minha mãe. Obrigada, vocês são, definitivamente, a minha família.
Chica tinha os olhos úmidos e um sorriso bobo. Nem ela poderia supor que um dia veria a filha casada com outra mulher e que estaria tão a vontade com isso. Livre de qualquer preconceito.
– Eu amo vocês família – disse Marina por fim.
Luiza que estava ao lado de Marina tascou um beijo demorado em sua bochecha e Clara deu um beijo sereno na esposa.
– O discurso foi muito bonito, muito bom, mas podemos voltar a comer? – disse Vanessa já com o garfo na boca.
Todos riram e a conversa voltou a fluir em alto e bom som novamente.

Marina estava no antigo quarto de Luiza alimentando a pequena Elis.

Helena e Clara acompanhavam o momento com sorrisos bobos nos lábios.
– É a minha parte preferida – disse Marina apontando para a pequena que sugava com força o peito da mãe – É uma sensação surreal.
– Te falei que ser mãe era a melhor coisa do mundo, vida – respondeu Clara tirando alguns fios de cabelo de Marina do rosto.
– Sempre achei que você fosse engravidar de novo, irmã.
– Talvez... – Clara sorriu em cumplicidade com Marina.
– Vai me dizer que você está grávida?
– Não. Ainda não. Mas estamos pensando nisso.
Marina levantou-se da cama com Elis no colo, batendo levemente nas costas da filha esperando que ela arrotasse para fazê-la dormir sem preocupações.
– Vocês são a família mais linda que eu já vi, depois da minha é claro – disse Helena admirando os cuidados maternais de Marina.
– E eu sou a mulher mais feliz do Universo – disse Clara indo até a esposa e a filha.
– Te amo – sussurrou Marina ainda embalando Elis – Te amo, te amo, te amo, te amo...
Clara encostou-se em Marina, o nariz em seu pescoço e a mão em seu rosto.
– Eu também te amo.

Notas finais
Choveu criança nesse capítulo, hein? HSUIAHSUIAHSUAIHSUIA O melhor foi eu perguntando a minha amiga sobre como eram as dores do parto. O que eu tenho a dizer sobre isso: Não quero ter filhos, mano. Doeu só de imaginar, hauhauahauahua '-'