Inquietude

12 Furacão


Notas iniciais
Músicas usadas: Vaga-lumes Cegos - Cícero Além do que se vê - Los Hermanos Usei fielmente, ou não, alguns fragmentos da briga de Cladu que aconteceu na quinta-feira mais épica do mês, hahaha *-*

“Ninguém vai dizer
Que foi por amor
Todos vão chamar de derrota”

– Boa sorte – disse Marina quando estacionou o carro em frente ao prédio número 45 – Queria subir com você, segurar sua mão, mas...
– A gente sabe que é melhor não – completou Clara segurando a mão de Marina entre as suas.
Marina puxou Clara pela nuca, mas foi para dar um beijo em sua testa. Ficaram com as testas unidas alguns segundos, controlando a vontade de se beijarem.
Os dois elevadores haviam acabado de subir quando Clara colocou os pés no hall do edifício. Sem pensar muito subiu pelas escadas, aproveitou para liberar um pouco da adrenalina que lhe deixava com as pernas bambas.
Parou em frente ao apartamento de Helena receosa pelo que estava atrás dela lhe esperando.
Ao colocar o pé direito no interior do apartamento todos os olhares se voltaram para ela. Ivan saiu correndo ao seu encontro. Clara ajoelhou no chão ficando da mesma altura que o filho, o abraçou como se soubesse que nunca mais o veria.
– Tira a mão do meu filho! – gritou Cadu assim que mãe e filho uniram seus corpos.
– Ele também é meu filho – respondeu Clara entre os dentes.
– Mãe... O que está acontecendo? – perguntou Ivan assustado com o clima tenso que lhe rodeava.
Clara puxou Ivan para os seus braços de novo e disse só para ele ouvir:
– Depois a mamãe te conta tudo, prometo que... – Clara respirou fundo desatando o nó que estava em sua garganta – Prometo que a mamãe vai resolver tudo, tá bom? – Clara disparou beijos no filho e então Helena pediu que Luiza o levasse para o quarto.
Rosa saiu com Benjamim para a cozinha e na sala ficou apenas Helena, Virgílio, Clara e Cadu.
– Vamos conversar como adultos que somos – disse Helena tão nervosa quanto os outros presentes.
– Me deixa sozinho com ela – disse Cadu não tirando os olhos raivosos de Clara que sustentava e retribuía o olhar.
– Você tem...
– Me deixa sozinho – repetiu Cadu interrompendo Virgílio.
Virgílio e Helena ficaram ali por perto, não tinham bola de cristal para adivinhar o que aconteceria, por isso preferiram não ir pra muito longe.
– Eu deveria ter desconfiado – começou a dizer Cadu estático em seu lugar – Você mudou completamente. Seu jeito de vestir, seu cabelo, até suas unhas... Você...
– Eu não mudei por ela, mudei por mim. Mas ela tem certa culpa nisso. A Marina me fez ver um lado meu que eu achei que não merecia tanta atenção – Clara permanecia do outro lado da sala com o olhar focado na figura atordoada à sua frente.
Cadu riu irônico não colocando nem um pouco de fé nas palavras de Clara.
– Ela te comprou com dinheiro, aquela viagem para Angra dos Reis e pelo jeito... – Cadu buscou com os olhos o envelope com as fotos e o achou em cima da mesa de centro – Te comprou com... – sentiu a bile chegar à garganta ao pensar na esposa se relacionando sexualmente com outra mulher – Sexo.
Cadu tirou todas as fotos do envelope e jogou na cara de Clara que levou um susto duplo. Confusa pegou algumas fotos e desacreditou que aquilo havia parado nas mãos de Cadu. Mas não tinha tempo para criar teorias. Abriu um pequeno sorriso ao ver a foto que havia tirado de Marina e respondeu:
– Não seja ridículo, Carlos Eduardo... Eu estou apaixonada por ela.
Cadu riu como se tivesse acabado de ler uma piada.
– Você nunca gostou de mulher! – vociferou.
– Nunca disse que não gostaria.

“Eu sei, é o amor que ninguém mais vê”

– Você acha que eu me casei com você por quê? – perguntou Clara – Pra colocar uma aliança no dedo? Pra ser chamada de senhora e ser respeitada por ai? Eu me casei com você por que eu te amava.
– Amava... – repetiu Cadu tão baixo que ele mal ouviu – E já está se sentindo solteira pelo jeito... Sua aliança foi parar no lixo como o nosso casamento?
Clara olhou para o dedo anelar e viu apenas uma marca dois tons a menos que a cor de sua pele. Ela estava perdendo cada vez mais pontos.
A morena respirou fundo, enxugou o rosto lavado pelas lágrimas e limpou a garganta.
– Eu só vou me desculpar por não ter conseguido... – não encontrava palavras para amenizar o impacto da verdade – Não ter conseguido esperar... Caramba, Cadu! Você fugiu dessa conversa o tempo todo. Eu não tinha a intenção de fazer nada antes de terminar com você. Acontece que as coisas acontecem independe da vontade da gente.
– Agora a culpa por você ter se vendido pra essa mulherzinha é minha? Você não pensou em nenhum momento em mim ou no seu filho!
– Eu pensei em vocês o tempo todo – disse Clara – O tempo todo! Eu não queria MESMO que tudo acontecesse desse jeito. Eu fui sincera, fui leal, até onde deu... – os olhos de Clara transbordaram de novo.
– Você se comportou como uma verdadeira... – Cadu espumava de ódio – Vagabunda!
– EU NÃO SOU UMA VAGABUNDA! EU ESTOU APAIXONADA POR ELA! – vociferou Clara usando toda a potência dos seus pulmões.
Cadu encurtou o caminho até Clara e levantou a mão, pronto para descê-la no rosto de Clara. Virgílio se materializou ao lado de Cadu abaixando a mão erguida e Helena foi para o lado de Clara, protegendo a irmã caçula.
– Bate! – provocou Clara – Me bate que eu sumo no mundo com o meu filho e com a Marina.
Cadu se soltou das mãos de Virgílio e Helena vendo que poderia se afastar o fez. Mas permaneceu atrás do sofá junto do marido, assistindo de camarote ao fim daquele casamento que julgava ser perfeito.
– E você acha que eu vou deixar o MEU filho convivendo com aquela mulherzinha?
– Eu já falei pra você não falar assim dela – disse Clara se aproximando tanto de Cadu que sentiu o hálito quente em seu rosto.
– Tá vendo? Você defende mais essa MULHERZINHA que o seu filho.
– Não fala do meu filho! – gritou Clara partindo pra cima de Cadu.
Agora Virgílio se viu obrigado a segurar Clara.
– Nada do que eu decidir pra minha felicidade vai atingir o meu filho, entendeu? Ele vai preferir mil vezes nos ver longe um do outro, do que perto brigando feito cão e gato – disse Clara.
Sentindo-se esgotado Cadu recolheu as fotos do chão e sentou no sofá. Não aguentou a declaração de Clara ecoar em sua mente e sentiu a torrente transbordar em seus olhos. Jogou as fotos em cima da mesinha de centro e apoiou as mãos no rosto. Não poderia se sentir mais humilhado.
Clara ajoelhou-se ao lado dele.
– Eu vou... – Clara chorava tanto quanto Cadu – Vou pegar minhas coisas e vou pra casa da Marina até você arrumar um lugar pra você ficar. O Ivan... Ele pode ficar com você.
– É claro que ele vai ficar comigo! – disse Cadu.
– A gente ainda vai conversar sobre isso – respondeu Clara sentindo a consideração desaparecer – Cadu olha pra mim!
Cadu não respondeu com gesto algum e nem com palavras.
– Eu só queria que você entendesse que estou fazendo isso para o bem de todos. Não posso mais negar o que está acontecendo aqui dentro – Clara colocou a mão espalmada no peito agitado – O que você viu nessas fotos é só a concretização de algo que já estava internalizado, sabe?
– Chega! – disse Cadu se levantando – Cadê o Ivan? – olhou para Helena esperando a resposta.
– Cadu! – chamou Clara.
– Ivan! – gritou Cadu indo para o quarto de Luiza – Vamos embora.
– Espera! – pediu Clara apavorada – Deixa eu conversar com o meu filho!
– Você não vai falar nada com o Ivan – disse Cadu – Você fez suas escolhas, agora aguente as consequências.
– Se você afastar o meu filho de mim eu te mato! – gritou Clara salivando raiva.
– Foi você que se afastou dele. Foi você que nos trocou.
– Eu não troquei o meu filho por ninguém, caramba! Eu nunca vou deixar o meu filho, nunca vou deixar de ser mãe dele. Ser ex-esposa eu posso, não ligo, não vai fazer diferença na minha vida, agora ex-mãe? NUNCA!
Ivan apareceu com Luiza nos calcanhares.
– Tira o Ivan daqui que a gente não acabou essa conversa – disse Clara agora chorando de raiva e pela possibilidade de ficar sem o filho.
Luiza ia puxar Ivan pela mão quando Cadu foi mais rápido e pegou o filho do colo.
– Cadu, coloca o Ivan no chão! – pediu Clara chorando copiosamente – Por favor... – a voz mal saia, esmagada pelo medo.
Cadu colocou o filho no chão cautelosamente, mas antes que Clara pudesse se sentir aliviada segurou forte a mão do filho e passou por ela, empurrando-a para o lado, fazendo com ela caísse sentada na poltrona que estava às suas costas.
– Mãe! Mãe! – Clara ouvia Ivan gritar corredor a fora.
Helena foi até a irmã, tomando-a nos braços e sentindo os olhos transbordarem.
Luiza foi à cozinha buscar um copo de água.
Virgílio foi atrás de Cadu tentar convencê-lo a voltar para conversar civilizadamente.
– A Marina! – disse Clara de repente lembrando-se que a fotógrafa deveria estar lá embaixo sendo consumida pela preocupação e curiosidade – O Ivan... – disse em seguida com os olhos transbordando de novo.
– Calma! – pediu Helena entregando o copo de água para Clara – O Virgílio foi atrás do Cadu. Vocês precisam conversar quando a poeira abaixar por que agora vocês vão acabar se engalfinhando.
– E o Ivan? Eu não posso deixar que o Cadu encha a cabeça dele com história inventadas. Eu não posso perder o meu filho, irmã...
– Você não vai ficar sem o seu filho – assegurou Helena. – A gente não vai deixar.
A campainha soou insistente e Luiza correu para a porta. Ao abrir se deparou com a figura aflita e pálida de Marina que sem esperar qualquer autorização entrou no apartamento.
Clara levantou-se e correu para os braços dela. Os olhos fechados, as lágrimas descendo face abaixo. O coração apertado cansado de bater desesperado.
– Eu não aguentei... – disse Marina apertando Clara em seus braços – Eu precisava ficar do seu lado.
Clara abriu os olhos e se afastou de Marina.
– O que foi, meu amor? – perguntou Marina virando-se na direção dos olhos de Clara.
Cadu estava parado na porta, olhos faiscando e a mão fechada em punho.