Inimizade Amorosa
26 O que seria da vida sem um clichê básico?
Notas iniciais
- Onde está Daniel? -perguntou Cecília aflita. Ela estava organizando todos os padrinhos na fila, já que só faltava apenas cinco minutos para o casamento começar, e Daniel não se encontrava em nenhum lugar.
- Mas ele não falou aonde ia pra senhora? -perguntei espantada com esse desaparecimento dele.
- Disse... Ele foi visitar um amigo, mas já devia ter chegado... –respondeu olhando para os lados.
— Um amigo? –estranhei. – Mas antes do casamento? –perguntei.
— Sim... É que era o único horário de visita que ele poderia ir antes do casamento... –respondeu me deixando mais confusa ainda, e depois de falar arregalou os olhos e saiu de perto de mim. Mas... Por quê? Que amigo é esse? Eu não deveria saber? Ah, que droga! Ta parecendo que perdi a memória de novo com tanta pergunta na minha cabeça...
— Até que enfim! –ouvi Cecília exclamando, e vi que Daniel havia acabado de chegar.- Venha, venha, você é o primeiro padrinho a entrar... –Cecília disse indicando um caminho para Daniel passar e chegar até mim. Quando ele se aproximou eu quase tive um mini-ataque do coração. Ele vestia um smoking preto, com uma rosa branca na lapela, e uma gravata borboleta preta. Seu cabelo negro estava penteado de lado, o dando um charme maior do que o normal, e seus olhos possuíam um tom azul escuro profundo. Simplesmente lindo.
— Oi. –o cumprimentei sorrindo, e em resposta ele me deu um pequeno selinho, fazendo as borboletas no meu estomago se agitarem mais do que o normal. Nunca vou cansar de sentir essa sensação perto dele.
— Onde estava? –perguntei com a curiosidade a mil.
— Visitando um amigo... –ele respondeu sem dar muita importância com cara de quem queria mudar de assunto.
— Que amigo? –perguntei- Sua mãe disse que tinha ido agora por conta do horário de visita... –completei confusa. Daniel me olhou bem nos olhos e pensou por um tempo antes de responder.
— Isa... Que tal deixar isso pra depois? –perguntou e o encarei mais confusa. – Tenho que lhe contar uma coisa, mais isso vai acabar com a festa... Bem, eu acho. Prometo que depois te falo certinho. Aliás, está linda! –falou, e mudou de assunto. Lhe lancei um sorriso forçado e comecei a prestar atenção na decoração. A igreja estava com um tapete vermelho até o altar, e por intermediário havia panos brancos e dourados pelos bancos, com alguns vasos transparentes de rosas vermelhas e laranjas. Estava tudo muito lindo.
— Qual é? Você não está brava, está? –perguntou tentando me fazer olhar em seus olhos. A verdade era que eu estava sim. Poxa, não me lembro de quase nada e ele agora fica com esse mistério de não me falar quem foi visitar em algum tipo de clínica... E segundo ele quando me contar vai acabar com a festa. Mas... Por quê? Droga! Agora só estou mais curiosa!
— Desfaz esse bico... Ta parecendo criança! –me zoou. Sorri falsamente, o fazendo rir. – Mas é bobinha mesmo...
— Para... –falei rindo um pouco também.
— Ta, mas promete que não vai ficar toda emburradinha pra cima de mim? –perguntou e olhei para ele com uma cara diga de dizer que eu não era mais tão criança pra isso. – É que tenho uma surpresa pra hoje à noite... –sussurrou, e antes que eu pudesse perguntar o que era ouvimos o som de um violino começando a tocar a música que faria a entrada do noivo e dos pais dos noivos, então ficamos quietos esperando nossa vez. Depois que todos já haviam entrado, ficamos de olho para a porta da igreja esperando Beck que já estava atrasada dez minutos. Depois de mais alguns minutos esperando, ouvimos a famosa marcha das noivas, e as portas se abriram, revelando uma noiva maravilhosa. O vestido de Beck se consistia em um tomara-que-caia longo branco, que dava destaque as curvas de seu corpo. No busto, em alguns lugares da calda e no final da calda toda bordada, era possível ver um bordado diferenciado, com zircônios e pedras, dando um destaque a mais para o vestido. Seu cabelo castanho escuro estava preso em um coque, o qual trazia uma pequena tiara com o véu. Mas o que mais se destacava nela era o sorriso. Um sorriso verdadeiro, que fazia a todos que olhavam para ela sorrir de relance, como se pegássemos um pouco de sua alegria. E a partir dali a celebração se iniciou e só teve fim as 19h30min. Eu poderia dizer que a celebração foi entediante, que quase dormi e que a única parte emocionante foi na hora do “se alguém tem algo contra esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre”... Mas estaria mentindo. Foi maravilhoso ver a alegria dos dois ali juntos, felizes. E na hora em que foram assinar o papel, eu deixei uma pequena lágrima cair. Não que eu seja sempre tão emotiva, mas é que o fato deles estarem felizes me deixou feliz... E por mais estranho que seja, me peguei imaginando se um dia eu viveria uma noite como aquele, com véu e grinalda na igreja me casando com Daniel. Desde que seja um futuro distante, digo.
— Parabéns! –eu os saldei quando peguei minha rosa.
— Obrigada, Isa! –Beck respondeu com voz chorosa, mas com o sorriso intacto. Depois cumprimentei João Paulo também, e Daniel fez o mesmo. Logo depois descemos do altar e saímos da igreja.
— Foi lindo, não? –perguntei quando já estávamos lá fora.
— Sim... É bom ver minha irmã feliz. –Daniel respondeu sorridente.
— Bom, já que a cerimônia já acabou... O que você tinha que me falar mesmo? –perguntei, e vi que ele parou de sorrir.
— Mas é curiosa, não é?! –exclamou e riu. – Deixa pra mais tarde, não quero falar sobre isso agora...
— Por favor! –pedi, e ele se fingiu de surdo.
— Ah, é assim?! –perguntei arqueando uma sobrancelha, e ele não me respondeu. – Tudo bem então. –falei e voltei para a igreja à procura do banco onde meus pais tinham se sentado.
— Isabela! –ouvi ele falando irritado, e então senti uma mão em meu ombro que me assustou, pois me lembrei de quando Carlos Eduardo me segurou com aquele pano em meu rosto.
-Ai! Trouxa! –falei com a respiração mais acelerada quando vi que era Daniel. – Me assustou...
— Calma, sou só eu... Vem aqui fora, que te explico... –ele disse com uma expressão mais séria. O segui, e sentamos nos degraus da igreja enquanto o casamento ainda se seguia com a entrega das rosas para os padrinhos.
— Primeiro, me escute até o final antes de tomar qualquer iniciativa. Você pode não gostar do que vou falar, mas faço isso porque prometi a ele. Sei que não se lembra de muita coisa sobre o Cadu... –ele começou a falar e eu o encarei de olhos arregalados. Claro! Como não tinha ligado os pontos antes?! Ele não queria falar sobre isso porque achava que eu ia ficar aborrecida, mas aborrecida nem chega perto do sentimento que estou sentindo.
— Você visita o cara que quase me matou?! –exclamei tão baixo que parecia um sussurro.
— Isa, por favor, me deixa terminar. –pediu e eu o analisei. Não tinha escolha a não ser ouvir o que ele tinha a falar, então assenti. – O Cadu possui uma doença. Uma doença grave. Ele descobriu que tinha isso quando era criança, por isso se mudou para São Paulo, em busca de um tratamento. Ele foi medicado como psicopata, e tomava vários remédios por dia, até que seus pais se separaram e ele voltou a morar aqui apenas com a mãe. Ele começou a tomar os remédios errados, e às vezes nem tomava. Com isso ele desenvolveu outra doença, a Depressão. Quando a doença chegou a um nível mais crítico, ele se “apaixonou” por você, ou pelo menos convenceu o subconsciente dele que era apaixonado por você, e quando ele foi naquele dia no seu prédio, ele tinha tomado os remédios em uma dose muito mais alta do que o normal, mexendo com a cabeça dele. Então ele te sequestrou porque não aceitaria um “não”, e porque precisava de uma companhia. –ele contou, e suspirou. — E bem... Quando eu e seu pai fomos junto com a polícia atrás de você na casa dele, eu me lembrei que aquele tipo de atitude poderia ser de uma pessoa com distúrbios, e prometi que se ele te soltasse eu seria amigo dele, que ele sempre poderia contar comigo... E como logo depois ele te soltou, achei que era justo cumprir minha palavra, então sempre que posso vou visitá-lo na clínica psiquiátrica que ele está internado... –terminou de falar olhando para nossos pés, enquanto eu tentava processar tudo que ele havia dito.
— Como você sabe disso tudo? –foi a única coisa que consegui perguntar.
— A mãe dele e o médico me contaram. E segundo o médico dele, é bom que ele tenha pelo menos uma visita para não se sentir sozinho... E como ele não pode ir para a cadeia por ser menor de idade, vai ficar lá internado até que as doenças possam ser controladas... –respondeu, e levantou o olhar para mim. As pessoas já estavam saindo da igreja, então me levantei, o fazendo levantar. Eu queria chorar, saber que alguém fez tudo aquilo comigo por conta de uma doença idiota me deixava nos nervos, até porque, Carlos Eduardo não pode ser responsabilizado pelos seus atos se fez tudo aquilo quando estava dopado de remédios. Só de pensar como deve ser difícil conviver com uma doença dessas, já me dá arrepios. Então, em vez de ficar brava com Daniel, ou algo do tipo, apenas o abraço bem forte para ver se esse vazio que estou sentindo passe logo, e eu consiga esquecer tudo isso pelo menos por hoje. Logo depois que me solto de seu abraço, ele me dá um pequeno beijo na bochecha, limpando uma lágrima que caiu.
— Eca! –ouvimos uma voz por trás dizer, e vimos que era Tomás.
— Espero que continue com esse pensamento por mais alguns anos... –falei rindo.
— Por quê? –ele perguntou confuso.
— Porque não quero ter um irmão galinha igual ao Daniel. –respondi e ri mais ainda, já que Daniel tinha feito cara de indignado.
— Mas então, se você não gosta de quem é galinha, porque fica aos beijos com o Daniel? –Tomás perguntou me fazendo ficar vermelha.
— Ignora sua irmã, Tomás. É mentira dela, não sou galinha. –Daniel falou e eu ri.
— Vamos para a festa? – perguntou meu pai aparecendo com a minha mãe.
— Vamos. –respondi, e com isso Daniel foi atrás de seus pais para poder ir para a festa.
Quando chegamos lá, a primeira coisa que reparei foi na decoração. Tudo era muito lindo! A mesa era revestida de panos brancos e dourados, igualmente as cadeiras. Um vaso de rosas vermelhas ficava no centro da mesa, acompanhado com oito pequenas velas. Em volta do salão tudo estava enfeitado com rosas vermelhas e lírios brancos, e no local onde o bolo estava havia um espaço reservado para as fotos, com alguns sofás. O bolo tinha cinco camadas e parecia estar transbordando dele leite condensado, e era rodeado por morangos. Em cima havia dois bonequinhos, um igual a Beck vestida de noiva lendo um livro e o outro de João Paulo escrevendo.
— Filha, você ta bem? –minha mãe perguntou me assustando. Achei que minha cara devia estar melhor, porque enquanto fiquei no carro fiquei ensaiando um sorriso que convencesse a todos que estava feliz, e que o que Daniel disse não havia mudado nada na minha forma de pensar. Mas havia, e muito.
— Ótima. A decoração está linda, não é? –perguntei.
— Sim, está. –minha mãe respondeu e sorriu. Logo depois fomos até a mesa e nos sentamos à espera dos noivos para o jantar ser servido. Eu não comia desde a hora do almoço, estava morrendo de fome!
Depois de uma hora Beck e João Paulo chegaram, e o jantar foi servido. Quando todo mundo já havia comido, e tirado algumas fotos naquele espaço com sofás, Beck colocou uma música para João Paulo e o João Paulo colocou uma para ela, e por incrível que pareça, as músicas que eles escolheram eram a mesma! Chama-se “Balada do Amor Inabalável” da banda Skank e segundo eles foi essa a música que estava tocando quando eles se beijaram pela primeira vez. Achei super romântico e estava lá toda sentimental observando Beck e João Paulo dançando que quando a música acabou nem reparei que Daniel havia saído de meu lado e estava junto com o DJ.
— Com licença... Queria chamar a atenção de todos. –falou ele. Agora eu me pergunto o que ele está fazendo ali?
— Isso, obrigada. –agradeceu quando todos ficaram em silêncio. – Estou aqui por dois motivos... O primeiro é parabenizar o João por encarar o fato de que terá que aguentar minha irmã até que a morte os separe... –disse e todo mundo caiu na risada. – Brincadeira, brincadeira. Mas de verdade queria parabenizar a vocês por terem um amor tão... –falou parando para achar uma palavra. — Tão verdadeiro. E foi inspirado em vocês que eu tive uma certa ideia, que seria meu segundo motivo de estar aqui. A certo tempo eu sofri psicologicamente achando que a garota da minha vida havia morrido, pensei as piores coisas possíveis. Mas graças a Deus, ela não morreu. –ele disse e direcionou seu olhar para mim. A única coisa que me pergunto é: ”Onde tem um lugar pra eu esconder minha cara??” — E foi por essa experiência de achar que minha vida estaria destroçada sem ela, que hoje, não sei como, tive a coragem de vir aqui na frente de quase todas as pessoas que eu conheço, para pedir a mão dessa jovem... Claro, em namoro, sou muito novo pra casar. –completou fazendo as pessoas rirem de novo. Meu coração estava a mil, estava chocada de mais para fazer qualquer coisa. Sério isso? Sério mesmo? O Daniel que era o traste infeliz, um pegador, galinha, chato, irritante, fofo, lindo, meigo e... Já perdi a linha de raciocínio. Ah é, o Daniel, me pedindo em namoro na frente de TODO MUNDO?! Acho que vou cair durinha daqui a pouco.
— E então, Isabela Ferreira, quer namorar comigo...? –perguntou e eu continuei sem reação por mais um tempo. Até que obriguei as minhas pernas a andarem e fui até onde ele estava.
— É... Eu... –comecei a falar, mas então o DJ arrancou o microfone da mão do Daniel e deu pra mim, esperando que eu respondesse por lá. Então, por um ato de coragem retirada não sei de onde, respondi:
— Claro, porque não? –e eu beijei Daniel. EU, pela primeira vez tomei a iniciativa. Logo depois todos gritaram em aprovação, e o DJ colocou pra tocar a música “Do seu lado” do Jota Quest.
— Faz muito tempo, mas eu me lembro você implicava comigo. Mas hoje eu vejo que tanto tempo me deixou muito mais calmo. –eu e Daniel fomos para a pista de dança junto com o restante do pessoal e começamos a cantar. – O meu comportamento egoísta, seu temperamento difícil. Você me achava esquisito eu te achava tão chata... –cantamos, até que Daniel sussurrou em meu ouvido:
— Gostou? Eu que escolhi a música...
— Eu quase morri de vergonha! –exclamei. –Mas gostei sim... –respondi em meio ao sorriso. Em resposta ele me deu um leve selinho, e continuamos a cantar e dançar.
— (...) O amor é o calor que aquece a alma.O amor tem sabor pra quem bebe a sua água... -cantamos e o beijei novamente.
— (...) um dia serei seu marido, seu príncipe encantado. Ter filho, nosso apartamento, fim de semana no sítio, ir ao cinema todo domingo só com você ao meu lado...
— Não fala assim, que senão eu me apaixono! –brinquei o fazendo rir.
— Já não está apaixonada não, é? –questionou.
— O que você acha? –perguntei.
— Tenho lá minhas dúvidas... –respondeu e lhe mostrei a língua. – Mas vem cá, que a surpresa ainda não acabou... –ele disse me levando para o canto dos sofás que agora estava vazio.
— Você se lembrou dos dia em que estávamos na praia? –perguntou e eu assenti. – Teve um, em especial, que foi quando eu e você fomos passear a noite com Mona, e você me lembrou de que quando eu era criança queria ser astronauta... –ele começou e completei:
— E você me contou que achava que poderia roubar uma estrela, para dar a garota que conquistasse seu coração, pois ela traria o brilho incessante de uma estrela para sua vida, ou algo do tipo... –falei me lembrando da cena em minha cabeça.
— Isso. –ele respondeu. – E como não está ao meu alcance roubar uma estrela... Achei que essa iria servir. –ele disse tirando um pacote de veludo do bolso da calça. –Pode não ser tão lindo quanto você, mas representa a minha intenção... –terminou e tirou de dentro do pacote um colar dourado, que possuía um pingente de estrela dourado com um brilhante no centro.
— Daniel... –falei meio sem palavras enquanto ele colocava o colar em meu pescoço. –Isso é... –falei perdida.
— Lindo? –sugeriu.
— Lindo, maravilhoso, romântico... E... E eu não mereço você. –falei olhando para o chão.
— Quem disse? –ele disse levantando meu rosto e se aproximando.
— Eu estou dizendo... Não mereço você. Você fez tudo isso e eu não fiz absolutamente nada... –respondi.
— Fez sim, me fez feliz. –ele disse e antes que eu pudesse contestar me beijou. Os fogos de artifício novamente entraram em ação e não pude fazer mais nada. Eu estava feliz. Muito feliz. Finalmente já havia me lembrado de quase tudo, meus cortes já estavam se fechando, refiz amizades, tenho uma família maravilhosa e até que enfim consegui me acertar com Daniel. Nossa história é cheia de brigas, intrigas, beijos, amor e ódio. Somos como aqueles casais bens clichês, mas o que seria da vida sem um clichê básico?
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