Inimigos Íntimos
26 Jantar na casa da namorada.
Eu não gosto dos seus joguinhos
Não gosto do seu palco inclinado
Do papel que você me fez passar
De idiota
Não, eu não gosto de você
[Look What You Made Me Do — Taylor Swift]
Pov Miyako
Estou me perguntando onde estou, desde que abri os olhos, toda essa escuridão em minha volta indica que não estou em meu quarto, o que me leva a crer que ainda me encontro na base de Kaiser. Sei que estou deitada, porém, não consigo me mexer, é como se todos os meus músculos estivessem dormentes, uma sensação agoniante, diga-se de passagem, é como se estivesse presa.
Por mais que a minha cabeça estivesse latejando bastante e os ouvidos zumbindo, procurei me concentrar em alguma parte do meu corpo para conseguir me movimentar; escolhi os pés, e digo que foi bem trabalhoso, pois parecia que eles não queriam corresponder aos movimentos. Aos poucos essa sensação agoniante foi passando, como se algo de ruim tivesse levantado do meu corpo e sumido para sempre.
Recuperando esse sentido, pude perceber que estava coberta com algo macio e quentinho, assim como o travesseiro no qual me encontrava deitada. Senti algo pesado se mexendo do meu lado, significa que não estou sozinha na cama, será que Kaiser tinha deixado Hawkmon deitar ao meu lado? Não, do jeito que ele estava transtornado, era capaz de ter torturado o coitadinho daquele mesmo jeito horripilante.
A dormência pode ter passado, só que a dor na minha cabeça não, ainda latejava bastante, como se tivesse recebido um golpe forte e desmaiado por alguns minutos. Mas como isso pode ter acontecido? Procuro puxar na minha memória, a última lembrança era de que havia atravessado o portal para o Mundo Digital e Kaiser me aguardava, olhando daquela forma demoníaca, como quisesse me bater e a partir dali não lembro mais de nada, tudo ficou escuro, e o incômodo se intensificando ainda mais.
Gemi baixinho, levando uma das mãos nas têmporas, massageando para ver adiantava alguma coisa, nisso, senti o peso do meu lado se mexer novamente, só que dessa vez se virou e agarrou-me pela cintura, puxando para que ficasse com o corpo colado em si, causando-me arrepios, como se a minha pele reconhecesse aquele toque. Pude sentir sua respiração quente em meu pescoço, o ar entrava e saia lentamente de seu nariz, mostrando que estava num sono tranquilo. O cheiro do corpo dele, era bom e ao mesmo tempo familiar, o mesmo perfume do quarto daquele idiota.
Me virei, ficando de frente para essa pessoa, e o aperto se tornou ainda mais forte, tanto que acabei apoiando as minhas mãos em seu peito, numa tentativa de me soltar. Era para eu ficar assustada, no entanto, fiquei curiosa, tanto que uma das minhas mãos tomou vida própria e deslizou pelo peito, contornando a cintura, sentindo a textura do tecido e todos dos detalhes da roupa. Segui contornando os seus braços, ombros e pescoço, de forma que adentrei minhas mãos em seu cabelo, sentindo o quanto ele era macio e sedoso.
Kami, isso tá estranho demais, primeiro o cheiro, agora a roupa cheia de detalhes e os cabelos compridos, se tocar no rosto dele, será que vai ter alguma coisa?! Posso estar ficando louca, mas a pessoa quem está deitada aqui, do meu lado era… Não, não pode ser! Ou pode ser? Por ser o unico que tem acesso a esse lugar...
Abri a boca chocada com a constatação, ok, um momento, essa dor que estou na cabeça está me provocando alucinações, as quais não estou conseguindo distinguir ao certo. Só posso estar em algum sonho ou devaneio (até porque isso já está se tornando cada vez comum em minha vida), só que dessa vez estou deitada na mesma cama e, pior, meu maior inimigo me abraça, de uma forma que parece que iria fugir a qualquer momento, e eu tocando nele, como se fosse um objeto desconhecido.
Só vou acreditar que isso é real, se um dos escravos dele invadir aquela porta, chamando-o para alguma emergência.
— Ken-chan, Ken-chan! — A luz foi acesa, por reflexo fechei os olhos com força e sentei na cama, bem atordoada com a claridade. — O Bakemon mandou os… — Escutei uma vozinha bem fininha ao fundo, que aos poucos foi morrendo, só senti que algo subiu na cama e quando abri os olhos, me deparei com ele me fitando de maneira alegre. — Miyako-san, você acordou!
— Hãn? — Foi tudo o que consegui murmurar no momento.
Ele começou a falar sem parar, e eu não estava entendendo nada do que ele dizia. Pisquei algumas vezes os olhos, virando a cabeça para os lados, identificando o local no qual me encontrava, de fato, esse não era meu quarto, significando que não estava em casa e sim, no Mundo Digital, no quarto de Kaiser, na cama dele, e… Girei a minha cabeça para o lado do peso, me deparando com ele dormindo profundamente, a boca minimamente aberta, as bochechas coradas e os cabelos desgrenhados, lhe dando um ar angelical, o oposto do que é quando está acordado.
Ai Kami! Definitivamente, não era um devaneio...
— KYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH…
Dei um berro tão alto, que por reflexo acabei o empurrando para cair da cama; o baque seco no chão, o fez com que acordasse e rapidamente se levantasse, achei que ele iria me fuzilar pelo olhar ou iria dizer alguma piadinha infame, só que não, a forma que me olhava, era tão estranha, parecia… Me analisar minimamente, tanto que piscou algumas vezes os olhos, parecendo confuso.
— Miyako-chan?
Essa era a voz do meu parceiro, olhei para a ponta da cama me deparando com ele e Wormmon me olhando de modo surpreso. Me levantei num salto, cheguei a empurrar Kaiser para o lado, fazendo com que ele caísse sentado no chão novamente; sufoquei Hawkmon em meus braços e em seguida o soltei, analisando cada cantinho do seu corpo, verificando se estava machucado, mas para a minha surpresa não tinha nada, ele estava muito bem, as pernas bem brilhantes, parecia até que tinha engordado.
— Ai Hawkmon, você está muito bem! — Me abracei nele, o apertei tão forte, parecia que ia esmagá-lo.
— Miyako-chan, você finalmente voltou! Senti tanto a sua falta! — Ele parecia aliviado.
— Eu voltei? Como assim? Aonde eu fui? — Achei bem estranho o que disse, parecia que tinha acontecido alguma coisa bem grave comigo, será que fiquei muito tempo desmaiada?!
— Bem, é que aconteceram várias coisas com você, começando pela…
— Pela sua queda no chão, enquanto passava um pano. — Kaiser finalmente se manifestou, não havia notado que ele estava parado bem ao meu lado, imediatamente soltei Hawkmon e levantei para fitá-lo.
Queda no chão? Bem, isso explica o porquê do desconforto que sentia na cabeça, porém, não explica o porquê ele estava dormindo ao meu lado. Kaiser me pegou de surpresa, ao colocar os óculos no meu rosto, clareando a minha visão, notando o que alguma coisa estava diferente nele, não parecia aquela pessoa que havia me recebido antes, os cabelos estavam um pouco mais compridos, o seu rosto parecia estar mais descansado e os olhos eram o que mais chamava a atenção, pareciam mais serenos, e não era algo forçado como nas fotos, era natural.
— Está com fome? — Não tinha sarcasmo e muito menos deboche no seu tom de voz, era baixo e calmo, quase como um sussurro.
Antes que eu abrisse a boca para perguntar alguma coisa, meu estômago roncou alto, respondendo a sua pergunta. Notei que abriu um sorrisinho de canto, parecendo se divertir com essa reação espontânea; isso tá muito estranho, por um momento cheguei a pensar na possibilidade de estar em frente a um Bakemon, pois Kaiser com esse tipo de reação é no mínimo inusitada demais, não combina com o tipo de pessoa que é, deve estar aprontando, nada vindo dele é de bom grado, sempre tem algo por trás.
Essa possibilidade se dissipou quando ele mexeu em seu bracelete, ordenando que trouxessem algo para nós comermos. Alguns minutos se passaram, e dois Gotsumons entraram no quarto, portando duas bandejas com os mais variados tipos de comida, do jeito que estava faminta, poderia comer tudo aquilo tranquilamente.
Sentamos na cama, já tinha atacado um sanduíche e bebia copo de suco, a sede que sentia era demais, contudo, o que o Wormmon disse chamou a minha atenção e fez com que o meu apetite fosse para o espaço.
— Ken-chan, não comam muito, lembre-se de que o jantar na casa da Miyako-san é daqui a duas horas.
Na mesma hora me engasguei com o líquido, desencadeando uma crise de tosse, que parecia não ter fim; Hawkmon ficou tão preocupado, que bateu algumas vezes na minhas costas para ver se conseguia voltar ao normal. Kaiser parecia pouco se importar com as minhas reações, continuou tomando seu suco, de maneira tão tranquila, como se fosse a coisa mais natural do mundo o que Wormmon disse. Respirei fundo, para tentar recuperar o fôlego e processar as informações passadas, eu sabia que esse cretino tava aprontando alguma coisa, meu sexto sentido não me engana em relação a ele.
— Jantar? Que história é essa? — Questionei praticamente gritando em seus ouvidos.
— Ué, não está lembrada?! Minha sogra, que por coincidência é a sua mãe, me convidou para jantar em sua casa, para oficializar o nosso namoro. — Deu uma risadinha debochada da minha cara, enquanto eu entrava em pânico, só de pensar na possibilidade desse dissimulado sentar na mesma mesa que a minha família.
— Não estou lembrada de nada disso! — Me defendi na mesma hora, ele só podia estar brincando comigo, isso só podia ser uma espécie de jogo para mexer com o meu psicológico.
— Mas eu me lembro muito bem, bem até demais, uma lembrança inesquecível. Você me convidou para ir até a sua casa, inicialmente eu não queria, tinha que voltar aos meus planos para dominação do Mundo Digital, só que você insistiu de um jeitinho, que não consegui resistir... “Ken-kun, é só um pouquinho, estou sozinha em casa.” — Ele me imitou fazendo as aspas, lançando-me um olhar malicioso, fazendo-me corar de raiva na mesma hora.
Cerrei os punhos com fúria, quem esse idiota pensa que é?! Ele estava brincando com a minha mente, se divertindo às minhas custas! Posso não me lembrar de como isso aconteceu, mas uma coisa é certa, eu jamais chamaria ele para vir na minha casa, ainda mais sozinha!
— Você está mentindo, me nego a acreditar que rebaixei a isso. — Balancei negativamente a cabeça.
— Miyako-chan, ele não está mentindo, é tudo verdade. — Hawkmon se manifestou confirmando a informação.
Olhei para Kaiser, que me lançava um sorriso vitorioso, então era verdade mesmo… Ai meu Kami! Isso não pode estar acontecendo! Levantei da cama e caminhei de um lado para o outro, pensando nos motivos que me levaram para convidar esse idiota para ir na minha casa quando estava sozinha, será que rolou alguma coisa entre a gente? Não pode ser, é irreal demais pensar nisso, mas e se aconteceu? Porque eu não me lembro de nada?! Kaiser mencionou sobre uma pancada que recebi na cabeça, será que teve uma consequência, tipo a perda de memória recente?!
Voltei pra cama, me sentando, e olhando para o nada, pensando se existe mesmo essa possibilidade, esses olhares estranhos que ele está me lançando desde a hora em que acordei, e a forma como me trata, sem grosseria, indica que alguma coisa mudou entre nós. Só fui acordar da minha confusão mental ao vê-lo entregar a minha mochila, me deparando com várias coisas pessoais minhas, as quais jamais trairia pra cá, nem teria o porquê, já que tínhamos uma relação escrava-mestre e sempre voltei para casa no mesmo dia.
Meu Kami! Isso só fez confirmar as minhas suspeitas! Senti meu rosto queimar na mesma hora, eu não acredito nisso, que ódio!
Arranquei a mochila de suas mãos, e sai pisando forte em direção ao banheiro, precisava de um banho para ver se conseguia me acalmar um pouco. Tranquei a porta e tirei a roupa que vestia, fui para baixo d’água, imediatamente peguei o sabonete e esfreguei em meu corpo, como se limpasse todo e qualquer contato que tive com aquele ridículo.
Bufava de tanta raiva, mais de mim mesma, sei que meu corpo e muito menos os meus cabelos não tinham culpa, não consigo evitar, depois de tudo de ruim que ele fez em minha vida e na dos meus amigos, como fui deixar que as coisas chegassem nesse ponto? Depois de tudo de ruim que fez, não só em minha vida, como a de todas as pessoas ao meu redor, como fui capaz de deixar que isso acontecesse?!
Finalizei o banho desligando o chuveiro, e enrolando a toalha no corpo e nos cabelos, não podia demorar mais muito, já que o “jantar” era daqui a duas horas, precisava no mínimo de uma hora para me arrumar e os outros 60 minutos seriam para ajudar a minha mãe. Me sequei rapidamente, passei o creme pelo corpo, escolhi um lingerie na mochila e vesti um roupão, enquanto não decidisse que roupa usar, era mais indicado usar por hora isso.
O ar no banheiro estava abafado e úmido, me arrumar aqui estava fora de cogitação, a roupa ficaria toda molhada. O ideal seria me vestir no quarto, mas será que ele ainda estava lá? Discretamente abri uma fresta da porta, verificando que a barra estava limpa, somente os Wormmon e Hawkmon se faziam presentes e terminavam de comer a refeição das bandejas.
Suspirei aliviada, pegando a mochila e saindo do banheiro, fiquei prestando um pouco de atenção nos Digimons, na interação que os dois tinham, parece que eram amigos de anos. Fiquei me perguntando, quais motivos levariam Wormmon a se preocupar tanto com Kaiser? Notei já faz algum tempo que ele não possui nenhum Anel Negro em seu corpo, significando que está aqui por livre e espontânea vontade; o que mais achei estranho, é a forma como ele chama aquele cretino, é diferente dos outros escravos, é mais carinhoso e íntimo, como se conhecessem há muito tempo. Será que ele foi o seu primeiro escravo e por isso tem tanta liberdade? O que será que foi prometido a ele, para ter tanta devoção assim? Sendo que aquele idiota não era nenhum pouco merecedor de todo esse zelo.
De repente eles ficaram em silêncio, como se tivessem percebido que tinha saído do banheiro, essa foi a brecha para me aproximar da cama e colocar a mochila sobre ela, a abrindo e retirando todas as opções de roupas, espalhando-as pela cama e me dando conta que, as peças nas quais tenho aqui são os presentes das minhas irmãs, roupas nas quais não usei até hoje por achar que esse estilo não combinava comigo.
Espalmei uma das mãos na testa, isso é sério mesmo? Com tantas opções no guarda roupa, fui escolher justo essas?! E o pior de tudo, estou em duvidas, não sei o que vestir.
Os Digimons perceberam o meu estado e começaram a opinar sobre as peças, fizeram uma votação sobre elas, eles tinham opiniões bem divergentes, o que acabou ocasionando uma calorosa discussão sobre o cumprimento dos vestidos e as cores. Por mais que tivessem boas intenções em me ajudar, deixaram-me ainda mais indecisa no que vestir.
Escutei a porta do quarto se abrir e bater no baque seco, o que fez os Digimons se silenciarem e se virarem para ela, lançando olhares assustados. Não precisaria me virar, para saber que quem tinha entrado, a aura negra que essa pessoa possui anuncia de qualquer maneira a sua chegada no ambiente. Senti que parou ao meu lado, com o canto de olho, vi que ele olhava para as opções de roupas na cama e se abaixou pegando uma delas, parecendo analisar minuciosamente o tecido.
— Uma ocasião tão especial como essa e você me trás isso?! Não tinha umas peças melhores para vestir? — Questionou desdenhoso, segurando o vestido com as pontas dos dedos, parecendo mirá-lo em meu corpo.
— Não me lembro de ter pedido a sua opinião sobre o que vestir. — Respondi ácida, arrancando a peça de sua mão, dando as costas para voltar ao banheiro. Porém, antes de dar dois passos, ele agarra forte meu pulso, me puxando para ficar de frente para ele.
— Nunca me dê as costas, escrava. Só porque você acordou está cheia de graça, não preciso lembrar quem manda por aqui, não é mesmo?! — Me fitou intensamente, como se pudesse ver a minha alma, ler os meus pensamentos.
— Lembro sim, Kaiser-sama. — Fiquei com uma vontade de revirar os olhos para ele, limitei a controlar o sarcasmo na minha voz.
— Que bom. Devo lembrá-la também de que, uma gracinha sua e seu Digimon é quem paga. — O aperto em meu pulso foi se tornando mais frouxo, apenas confirmei com a cabeça, recebendo um largo sorriso presunçoso de volta. E tem como não lembrar? Idiota! Que vontade de encher essa sua cara de tapas! — Ah, antes que eu me esqueça, tome isso. — Ele me soltou, entregando-me uma caixa de papelão lacrada. Olhei desconfiada para aquilo, tudo que vinha dele, era de caráter duvidoso.
Peguei o pacote, era um pouco pesado, balancei algumas vezes antes de abrir, recebendo uma revirada de olhos, vinda da parte dele. Para acabar com o mistério, rasguei as fitas que o prendiam e abri, me deparando com um aparelho celular, parecendo ser mais moderno e consequentemente, mais caro.
— Um celular?! — Arqueei uma das sobrancelhas em sinal de dúvida, a troco do que ele vai me dar outro aparelho.
— Digamos que o seu antigo celular estava com depressão e se atirou na parede, cometendo suicídio.
— O que? Ele me fala isso na maior cara de pau, soltando uma sonora gargalhada da minha cara de pateta.
Senti vontade de chorar, ele havia quebrado meu antigo celular, toda a minha vida estava ali, fotos com meus amigos, músicas, mensagens… Nada disso é recuperável, tudo foi perdido para sempre. Soltei um suspiro triste, é como se uma parte de mim tivesse sido arrancada e eliminada, para não ser lembrada nunca mais.
Kaiser pigarreou, interrompendo meu momento de bad, eu juro que se ele falasse mais alguma gracinha, a minha mão ia voar na sua cara.
— Deseja mais alguma coisa, Kaiser-sama? — Falei entre dentes, controlando minha raiva.
— Pela sua demora, no mínimo já deveria estar pronta, mas do jeito que você é enrolada, não sei porque isso me surpreende. — Ele me soltou e se virou, seguindo para a porta, sem antes é claro, de virar sua cabeça para trás e me soltar uma bomba. — Você tem trinta minutos para terminar de se arrumar e voltar para o seu quarto. Bakemon acabou de sair do banho e já ajudou a sua mãe no jantar.
Trinta minutos? Meu Kami, o que vou fazer?
— KYAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH…
— Argh! Para de gritar, sua gralha! Anda logo! Seu tempo está acabando! — Ele bateu a porta com força, me deixando em pânico.
Que droga, tenho pouco tempo para me arrumar e não sei o que vestir, isso está parecendo conspiração contra mim! Olhei para os lados e percebi que estava sozinha no quarto, aonde foram parar os Digimons? Logo agora que ainda estou em duvidas do que vestir… Ah, quer saber de uma coisa, vou pôr o vestido que ele estava em mãos, a Momoe-neechan me deu no natal passado, era fácil de colocar e o tecido era mais leve, em comparação com os outros modelos.
O jeito era fazer uma hora render em trinta minutos, como a pior parte, que era a escolha tinha passado, o cabelo optei por prender metade dele e enrolar um pouco as pontas, tentar forjar alguns cachos, o que não deu muito certo, umas partes ficaram mais lisas do que enroladas. No rosto optei por colocar uma maquiagem mais simples: lápis nos olhos, um pouco de cor nas bochechas e batom rosa claro. Brincos discretos nas orelhas e sapatilha da mesma cor do vestido nos pés, dando o toque final que precisava.
Parei em frente ao espelho, analisando como havia ficado o conjunto da obra, o tempo passou tão rápido e notei que algo inédito aconteceu, consegui me arrumar devidamente em vinte e oito minutos. Ao me virar de frente, para sentar na cama e esperar por Kaiser, a porta se abriu, e não foi ele quem apareceu, e sim Wormmon, informando que já era hora de voltar, Bakemon estava a minha espera.
Caminhamos em silêncio pelos corredores escuros da base, ao chegar na sala de controles, Wormmon entregou o meu D3 e indicou a tela na qual o portal estava aberto. Ao se despedir de mim, me desejou boa sorte no jantar e me informou que Kaiser havia partido para se arrumar e que dentro de alguns minutos chegaria na minha casa.
Um clarão na tela e bingo, estava em meu quarto, de frente para uma cópia minha enrolada na toalha; sem falar nada, voltou a sua forma original ele seguiu para o portal, para logo em seguida fechar e as coordenadas sumirem. Respirei aliviada, puxando uma cadeira e me sentando, olhando para as paredes, as pelúcias e a cama bem arrumada, tudo em seu devido lugar. Olhar para essas coisas, fez com que um sentimento estranho se abatesse em meu peito, uma angústia, dava a impressão de que fazia muito tempo que não estava por aqui, sendo que na verdade, um dia havia se passado.
Minha atenção foi tomada com batidas na porta, ao gritar “entra”, minhas irmãs surgiram, eufóricas e ofegantes, uma segurava dois vestidos e um sapato, enquanto a outra um secador de cabelos e escova. De repente, elas se silenciaram, trocaram um olhar cúmplice, para logo após me olharem da cabeça aos pés, ficando boquiabertas, por já estar pronta, antes mesmo de virem querer me enfeitar mais que uma árvore de natal.
— Veja Chizuru, nossa Imōto-chan já é uma mulher! Nem precisa mais da nossa ajuda! — Momoe choraminga, dando voltas ao meu redor.
— Não é o que dizem por ai, o amor transforma as pessoas, temos que agradecer a Ichijouji Ken, fez uma revolução e tanto na vida da nossa maninha! — Chizuru bate palmas animada, dando alguns pulinhos. Ah, se você soubesse a revolução que ele fez na minha vida, com toda certeza não falaria nessa animação toda.
— Você precisa ver a agitação que a mamãe está por conta desse jantar, depois que você saiu da cozinha, ela nos confessou que está com medo de que não consiga agradá-lo, afinal, ele é uma pessoa famosa, está acostumado a ir em jantares mais chiques, diferentemente do que vai ser hoje. — Momoe colocou os vestidos na cama e sentou-se ao lado deles, esticando os braços para o alto.
— Não se preocupem com isso… Err, ele meio que já provou a comida da nossa mãe e gostou. Tenho certeza de que tudo o que foi preparado é do seu gosto. — Me arrisquei falando isso, sem saber qual seria o cardápio do jantar. Espero mesmo que isso aconteça, caso contrário, terei o maior prazer de enganá-lo na frente de todos.
— Você está estranha, aconteceu alguma coisa, que você não quer nos contar? — Chizuru colocou uma das suas mãos no queixo, cerrou os olhos e analisou as minhas expressões, tentando ver se descobria alguma coisa.
— Err… Bem… Estranha? Eu? Porque isso? — Gaguejei arregalando os olhos, tentando ao máximo esconder ao máximo o quanto estava perdida.
— Sei lá Miya, você anda bem estranha nos últimos tempos, se alguma coisa está acontecendo, pode se abrir conosco, somos as melhores conselheiras que existem. — Momoe me lançou um olhar confortador.
— Tá tudo bem comigo, não se preocupem. — Respondi da maneira mais convincente, elas se entreolharam, balançando a cabeça afirmativamente, parecendo compreender a minha resposta.
Antes que Chizuru abrisse a boca para falar mais alguma coisa, a campainha tocou, as duas saltaram, dando um gritinho histérico, comemorando alguma coisa.
— Ele chegou! Ele chegou! — Era isso o que elas falavam, enquanto olhava sem entender o porquê de tanto entusiasmo.
O que? Não seria possível ele já ter chegado, faz nem dez minutos que cheguei em casa, e no mínimo ele levaria uma hora de metrô até aqui, isso contando com a meia hora em que levei para me arrumar no seu quarto, e tenho certeza de que não era um Bakemon quando foi me entregar o celular. Esse babaca tá querendo confundir ainda mais a minha cabeça.
— Miyako, acorda pra vida, levanta daí! — Chizuru pegou a minha mão e me puxou para que levantasse.
— Vai lá receber o seu namorado, antes que o nii-san o pegue pelo pescoço! — Momoe dá uma risadinha, enquanto me empurrava pelos ombros para fora do quarto.
— Você precisava ver a cara que ele fez ontem quando a mamãe falou do jantar, se já estava bravo pelo fato de ter pego vocês dois num maior amasso no sofá, ficou ainda mais furioso! Ichijouji Ken que se cuide!
Parei no meio do corredor, sentindo o sangue sumir do meu corpo, chocada com a bomba que a Chizuru me largou, uma frase com muita informação, na qual não me recordo de absolutamente nada, mas nada mesmo! Se antes eu já tinha ficado abismada com a possibilidade de ter convidado Kaiser para vir aqui em casa quando estava sozinha, estou ainda mais estarrecida ao saber que nós demos um amasso no sofá da sala e que Mantarou-niisan nos pegou em flagrante. Kyaaahhh! Meu Kami, que vergonha! Não estou me reconhecendo mais! O que deu na minha cabeça em fazer isso?!
Falando no meu irmão, ao pôr os pés na sala, veio correndo em minha direção e me abraçou, bem forte, parecendo sentir-se aliviado por estar ali; retribui, o apertando bem, que sensação mais estranha, senti um aperto no peito, parecia que não o via a tanto tempo. Ficamos alguns segundos assim, até nos soltarmos e ele me verificar, bem como fazia quando era pequena, para ver não estava machucada, soltou um suspiro, pude ver o alívio em seu rosto.
Mamãe apareceu na porta da cozinha, mandando ele me soltar e eu ir atender a porta, pois a campainha tinha tocado pela segunda vez e nem havia prestado atenção, Oh, droga! Do jeito que é aquela criatura, é bem capaz de querer dar alguma punição a Hawkmon por ter demorado a recebê-lo. Respirei fundo, enquanto ia lentamente para hall de entrada, estava tremendo quando coloquei a mão na maçaneta, não vou mentir, tinha medo de como seria o decorrer desse jantar, como agiria com a minha família.
Então é isso, adeus vida, foi bom enquanto durou…
Um, dois, três…
Abri a porta me deparando com ele em minha frente, na forma de Ichijouji Ken, segurando um buquê de flores na mão direita, enquanto a outra, estava na campainha, parecendo que ia tocar novamente. Ao me ver, ajeitou sua postura, ficando ereto, ajeitando as flores em sua mão, pequenas ações que passaram em câmera lenta para mim. Alguns segundos se passaram e ainda estava parada na porta, olhando para ele, sem esboçar nenhum tipo de reação, como se o mundo tivesse parado naquele momento.
Indiscretamente, meus olhos desceram pelo seu corpo, analisando a sua roupa, as cores claras tinham caído bem em seu corpo, o deixaram mais descontraído, tiravam um pouco toda aquela nuvem negra que paira sobre sua cabeça, dava-lhe um ar mais angelical.
Impressão minha, ou ficou calor? Sentia-me abafada com aquela roupa, o tecido do vestido se tornou quente, tanto que meu corpo começou a suar, deixando-me ofegante. Por mais que respirasse, puxasse bem fundo o ar puro nos meus pulmões, o único cheiro que sentia era do seu perfume, forte e marcante, deixando-me entorpecida e, ainda mais paralisada.
Ele abriu um sorriso de canto, deixando completo todo o conjunto da obra. Senti meu coração disparar e o fogo se alastrar pelo meu corpo, concentrando-se tudo em meu baixo ventre, tornando-se insuportável. Minhas pernas bambearam, sentia que ia ao chão ao qualquer momento, a cabeça tentava processar qualquer informação, e nada, meu processador tinha dado pane total e não tinha jeito de funcionar.
Aquele era mesmo ele?! Era o garoto que tinha virado a minha vida do avesso?! Era aquele que fazia atrocidades com os Digimons?! Olhando desse jeito, era como se tivesse um anjo em minha frente, totalmente o oposto do que realmente era. Um diabo com cara de anjo, assim como era Lúcifer.
— Aqui, ó, tá escorrendo um pouco de baba. — Ele se aproximou, debochado, passando o canto do casaco pelo meu rosto.
O que? Eu tava de boca aberta, babando por ele? Grr, que ódio!
Revirei os olhos sem paciência, isso respondia qualquer qualquer coisa que tinha me dito. Dei espaço para que ele entrasse e fechei a porta, sentindo seu olhar sob minhas costas, causando reações em meu corpo, fazendo com que se arrepiasse. O que está acontecendo? Porque eu estou reagindo desse jeito? Esse tipo de reação só teria no tempo em que era sua fan girl, e não deveria ter agora, não depois de todo o mal que propagou por aí.
— Ichijouji Ken, seja bem vindo! — A voz de minha mãe fez com que saísse dos conflitos internos. Me virei para encará-los, Ken fingia muito bem, estava com uma expressão suave no rosto, sorrindo timidamente.
— Sra. Inoue, boa noite, não tive a oportunidade de lhe dizer ontem, estou honrado pelo convite, há tempos esse era o meu maior desejo, oficializar o nosso namoro para as nossas famílias. — Me parei ao seu lado e ele entrelaçou nossos dedos, pegando a minha mão e dando um beijo nela. Não esperava esse tipo de ação vinda de sua parte, senti as minhas bochechas corarem, não passando despercebido pela minha mãe. — Bem, trouxe um presente para você, espero que goste. — Entrega as flores para ela, que olha de modo emocionado e coloca uma delas no nariz, inspirando seu cheiro.
— Uau, são lindas, obrigado pela gentileza! Miyako, você vai deixar seu namorado parado na porta de entrada?! Vamos, entrem! — Minha mãe deu as costas, voltando para cozinha.
— É Miyako-chan, coisa feia deixar o seu namorado plantado na porta. — Ken sussurrou debochado em meu ouvido, me fazendo corar de raiva.
Ai que ódio! Isso não pode estar acontecendo comigo! Bem que tudo isso poderia ser um pesadelo e eu acordar dando de cara no chão. Como é ridículo! E ainda teve a cara de pau de me chamar de Miyako-chan só para me provocar, que ódio!
Ken retirou os seus sapatos e os deixou ao lado do meu, seguimos pelo corredor, o fitei com o canto de olho, ele parecia analisar o ambiente que pisava, a estratégia deveria estar toda pronta em sua mente, só precisaria do momento certo para colocá-la em ação. Chegamos na sala, meu pai se encontrava ali, em silêncio, olhando para nós, esperando que algo acontecesse ou falassemos alguma coisa.
Antes que eu abrisse a boca, minha mãe surgiu me carregando para a cozinha, a fim de ajudá-la na finalização do jantar, deixando Ken “a vontade” com meu pai, sob a alegação de que eles tinham muito que conversar; do jeito que o clima estava tenso no ambiente, poderia esperar qualquer coisa vinda dali.
Ao colocar os pés na outra peça, fui atacada pelas minhas irmãs e foi feita uma enxurrada de perguntas em relação ao Ken, elogios sobre a roupa que vestia e as flores que ele trouxe para mamãe, enquanto eu só pensava no que aqueles dois falavam na sala, no que ele dizia, para ser mais específica, já que colocou bem a sua máscara de bom moço e estava atuando muito bem no seu teatrinho.
Finalizamos o jantar e colocamos a mesa, discretamente fui dar uma espiada na sala para ver como ia o andamento das coisas, me deparei com meu pai e Ken dando risada de alguma coisa, um riso tão falso, que chegava a me deixar enjoada. Vi que Mantarou-niisan tinha se juntado a eles, não ria, sua expressão era séria, os olhos cerrados e os dentes trincados diziam tudo, ele não tinha gostado do meu “namorado” e sentia-se incomodado com a sua presença, se pudesse o tocar porta para fora, faria isso sem pestanejar. Pelo o que conheço meu nii-san, ainda deveria estar bravo por ter nos encontrado sozinhos em casa e pelo tal amasso que demos.
— Imōto-chan, algum problema? — Mantarou questionou, chamando atenção dos outros dois presentes, fazendo com que eles olhassem para mim, prestando atenção no que falaria.
— Err… Bem… — Mas que droga! Estava corando de novo, só que dessa vez era de vergonha! Ken estava se divertindo com as minhas expressões faciais, pude ver a sombra de um sorriso no seu rosto. — Podem ir para a mesa, o jantar está pronto.
— Já era hora, estava faminto! — Meu irmão se levantou, indo para minha frente, colocando a mão na minha cabeça, afagando os meus cabelos. Que bicho mordeu ele hoje? É estranho demais ele ser tão carinhoso comigo.
Seguimos em silêncio para a mesa, tudo estava lindo demais, perfeitamente arrumado e decorado, as cores dos alimentos entravam em contraste com a louça branca. Todos seguiram para os seus lugares, meus pais nas pontas, de um lado Mantatou e Momoe, do outro, eu sentada no meio dele e Chizuru. Antes de sentar, Ken deu uma de cavalheiro puxando a cadeira para mim, arrancando suspiros das minhas irmãs e uma fuzilada de meu irmão, daquelas de dar medo a qualquer mortal.
Ele sentou-se ao meu lado, como se nada tivesse acontecido, ignorando totalmente os olhares lançados em sua direção. O clima estava tenso demais, só se escutava as respirações dos presentes, enquanto cada um se servia. Em pouco tempo, todo aquele colorido decorava os pratos dos presentes nesta mesa; me servi no automático, me sentia tão nervosa, segurava a barra do meu vestido com força, olhando toda aquela comida na minha frente, porém, sem fome alguma, sentindo meu estômago se revirar.
— Uau Sra. Inoue, isso está uma delícia! — Ken foi o primeiro a abrir a boca e elogiar a comida da minha mãe, ele parecia eufórico, balançava os hashis de um lado para o outro.
— Fico feliz que tenha gostado, é simples, mas é de coração. — Ela abriu um sorriso acolhedor, fazendo com que toda aquela tensão que existia se dissipasse.
O jantar transcorreu de maneira tranquila, minhas irmãs conversavam com ele, que prontamente respondia todas as suas perguntas, algumas constrangedoras, deixando-me muitas vezes envergonhada, querendo me esconder em um buraco. Meu irmão e papai não davam um pio, só prestavam atenção no que eles conversavam, e nas reações bizarras de Ken, toda vez que mergulhava algum alimento no molho shoyu, seja um sushi ou um uramaki.
Elogios a minha mãe não faltaram, o quanto era deliciosa a sua comida e que jamais havia provado algo tão gostoso em sua vida; ela ficou tão emocionada, que acabou o convidando para jantar uma segunda vez, só que dessa vez, gostaria que os seus pais viessem junto. A cara que ele fez não foi das melhores, porém, procurou disfarçar dando um sorriso amarelo, dizendo que conversaria com eles sobre a ideia e marcaria em breve alguma coisa.
Minhas irmãs retiraram as louças da mesa, Ken prontamente se ofereceu para ajudá-las na cozinha, Chizuru não permitiu, mandando-o ir para sala com meus pais, pois quem faria isso era eu. As duas quase me enlouqueceram, enquanto lavavam os pratos, passei meia hora sendo torturada com suspiros e elogios em relação a ele, dizendo que tinham gostado muito dele, não tinha deixado a fama subir em sua cabeça, era um garoto educado e simples.
Escutar ele rindo na sala com meus pais foi o ponto alto da minha raiva, jurei que esse jantar ia ser tenso e rodeado de troca de farpas, ainda mais depois de toda a decepção que causei a eles em relação ao Koushiro-kun, porém, me surpreendi com a forma que Ken agiu essa noite, sendo completamente o oposto do que estou acostumada, mostrando o quão é dissimulado e manipulador com as pessoas.
Finalizamos na cozinha e arrumamos a mesa, a hora da sobremesa havia chegado, me surpreendi ao abrir a geladeira e ver uma linda torta de morangos ali, Momoe me questionou o porquê de tanto espanto, sendo que eu própria havia feito, sob a supervisão da mamãe, pois era a sobremesa favorita de “Ken-chan”. A noite das bombas foi essa, primeiro o Bakemon que ficava no meu lugar fez um bolo lindo e segundo, eu o chamei de Ken-chan? Minha irmã me confirmou que o chamo assim há tempos, e achou estranho ter me referido a ele o jantar inteiro por Ichijouji-san.
Não sei se bato nele por ter mandado o Bakemon agir desse jeito ou me atiro numa ponte por ter deixado a situação chegar nesse extremo, ai, como eu queria ter uma máquina do tempo e voltar naquele dia em que bati nele, chegar para aquela Miyako e dizer: “não faz isso, você não sabe cilada que vai acabar se metendo. Vai pra casa descansar, é o melhor que você faz.” Mas não, fui impulsiva, nunca penso nas consequências, bem feito, vou ter que aguentar esse imbecil na minha cola para sempre; vê se usa a cabeça na próxima vez.
A sobremesa foi servida, olhei para aquele bolo em minha frente, dei uma colherada e devo admitir que o fantasminha fez um bom trabalho, estava bem gostoso; Ken abriu a sua boca e tivemos mais uma sessão de elogios, só que dessa vez todos direcionados a mim, me enaltecendo, dizendo o quanto era linda e que cozinhava bem.
Não, para, ele só pode estar de deboche com a minha cara! Esse teatrinho todo já nojento demais, parabéns, viu, palmas para você, vossa majestade! Quer uma reverência depois disso?! Não precisou de Torres e nem Anéis Negros para conseguir conquistar a minha família, conseguiu esse feito utilizando bem a sua lábia e a máscara de bom moço, quase todos caíram no seu conto, com exceção do meu irmão, que acabou se retirando ao final do jantar.
Que noite mais comprida! Para piorar o meu mártir, eles não calavam a boca e isso estava me deixando com dor de cabeça. Dei graças a Kami quando chegou às nove horas e ele informou a todos que precisava ir embora, devido a distância que tinha de percorrer para casa. Deu vontade de soltar fogos de artifício, finalmente me veria livre dele, nem que fosse por algumas horas, precisava de paz, já que amanhã teria que aguentar ele torrar a minha paciência o dia inteiro.
Fiquei tão feliz ao ver ele se despedindo dos meus pais, mentalmente dizia tchau em todas as línguas que conhecia, só faltava sair pulando por aí, certamente faria isso no meu quarto. Porém, como tudo o que é bom dura pouco, minha felicidade foi cortada com um pedido dele, de acompanhá-lo até a porta de entrada do meu prédio. Olhei para meu pai, com a esperança de que dê uma resposta negativa, e para minha surpresa, fez um sinal com a mão, dando entender que permitia.
Ai que saco, hein! Fiquei tão brava, que sai bufando na frente dele, nem o esperando colocar os sapatos. Só fui me dar conta do erro que cometi quando parei no elevador, que droga, agindo novamente na impulsividade, parabéns pra mim! Já estava prestes a me virar para ir atrás dele, quando o vi parado ao meu lado, com as duas mãos no bolso, numa expressão aparentemente tranquila, tenho medo do que vai vir daqui em diante.
O elevador chegou e entramos no mesmo, a cada andar que ele descia o silêncio entre nós continuava, ai Kami, só me resta pensar nos tipos de atrocidades que faria com Hawkmon por conta dessa minha atitude. Dessa vez não deixaria que acontecesse nada, se tiver que punir, que seja a mim e não o meu parceiro.
Chegamos no térreo, a porta se abriu e damos de cara com Takeru-kun, segurando algumas compras, e nos fitou com espanto, arregalando seus olhos em seguida. Ele parecia bem surpreso em nos ver, Ken saiu na frente, trocou um cumprimento seco com ele e deu poucos passos, parando no hall de entrada do prédio, parecendo me esperar.
Encarei o loiro por dois segundos e, antes que ele abrisse a boca para falar algo, sai do elevador passando ao seu lado de cabeça baixa, parando ao lado de Ken, enlaçando sua mão, sentindo o quanto estava quente. Não precisaria me virar, para sentir o olhar de Takeru-kun, no mínimo deveria estar fazendo todos os tipos de questionamentos. Uma coisa é certa, amanhã certamente, todos saberão que Ken estava aqui em casa, como se já não me bastasse todos os problemas e tormentos nos quais tenho que me preocupar
O silêncio reinava entre nós, respirei fundo, pensando no que poderia falar a ele, será que um pedido de desculpas diminuiria a minha punição?!
— Err… Kaiser-sama... — Abri a boca para falar e ele fez sinal com a mão, para que eu parasse imediatamente.
Ele se virou para mim, encarando o fundo dos meus olhos numa expressão indecifrável, não sei como, só senti o meu corpo ser empurrado com certa brutalidade contra a parede, e os seus braços prenderem a minha cintura, unindo os nossos corpos. Seu rosto foi parar contra o meu pescoço, senti sua respiração quente, parecia estar inspirando meu cheiro, sei lá, a única coisa que sei é que deixou a minha pele toda arrepiada.
Meu Kami, o ar faltou em meus pulmões com toda essa proximidade, minhas pernas pareciam gelatina, sentia que ia desabar a qualquer momento, procurei me apoiar na parede. O que será que ele planeja? Me amedrontar? Brincar comigo e mexer com a minha mente?
— Como sempre impulsiva… Coisa feia deixar seu namorado para trás, Miyako-chan. Essa sua atitude me deixou muito magoado, fiquei triste, sabia?! — Falou num tom baixo e debochado, enquanto seguia com seu nariz para o outro lado do meu pescoço, provocando diversos efeitos em meu corpo, os quais não estou gostando nenhum pouco.
— Não fiz por mal, você sabe como eu sou… — Minha voz saiu num fio, toda essa proximidade estava me deixando tensa demais.
— Ah, e como eu sei, você deveria controlar melhor, toda essa sua impulsividade, isso sim. Sabe muito bem que só te traz coisas negativas agindo desse jeito, seu parceiro quem o diga…
— Por favor, não faça nada de mal ao Hawkmon, se tiver que punir alguém, que seja a mim.
— Está me dando carta branca para punir você, Inoue? — Ele muda sua posição e me encara, colocando a mão no meu queixo e levantando o meu rosto. Pude ver um sorriso desdenhoso surgir nos seus lábios.
— Faça qualquer coisa, mas não machuque o Hawkmon! — Dessa vez implorei, num sussurro baixo.
— Hum, está mais obediente?! Saiba que isso é uma proposta bem interessante, tenho várias ideias de punição, talvez você possa ser boazinha e me divertir um pouco.
—Divertir? — Sussurrei sentindo meu corpo inteiro tremer, pensando nos tipos de loucura que esse lunático pretende.
— Ah Miyako-chan, coisa feia, você não se lembra de nós, sozinhos, naquele sofá grande e confortável, assistindo o “filme”? — Ele fez questão de desencostar uma das mãos para fazer as aspas, para logo em seguida voltar para minha cintura, apertando-me com força.
Senti meu rosto corar violentamente, ele estava brincando com a minha mente.
— Não me recordo de nada disso, você está mentindo para mim! — Fechei meus punhos, ia bater em seu peito, porém, ele foi mais rápido, utilizando uma das suas mãos para em segurar as minhas duas, as colocando para o alto e colando os nossos corpos, voltando a encostar o seu rosto em meu pescoço.
— Mas eu me lembro muito bem, o quanto você foi bem boazinha comigo. — Senti a palma da sua mão livre correr pela minha coluna, o tecido fino do meu vestido fazia com que sentisse todo o calor que ela emanava, deixando-me em chamas.
— Está delirando, eu nunca faria algo com você! — Rebati engolindo um pouco de saliva, me segurando para não ofegar com todo aquele contato.
— Ah não? Então me explica o porque está toda arrepiada? Vai me dizer que está com frio? — Sussurrou, correndo a ponta da língua e mordiscando o lóbulo da minha orelha, me arrancando de forma que não consegui conter um gemido.
Estou sentindo que vou desabar, ai droga, eu não acredito nisso, definitivamente é a treva! Meu corpo não poderia estar sentindo todas essas sensações, ele não deveria estar provocando isso em mim! Desde que o vi entrando por aquela porta, senti que alguma coisa estava errada comigo, deveria sentir nojo e repulsa, mas não, me sentia ansiosa, com o corpo fervendo e coração a mil, esperando qual seria o próximo passo dele.
Fechei os olhos, respirando ofegantemente, bem que um raio poderia cair, me fazendo acordar, só que infelizmente não é um devaneio, é real demais. Senti que ele desencostou-se do meu pescoço, colando as nossas testas, só pela sua respiração conseguia sentir o quanto estava perto de mim; minhas pernas tremeram, todo o sangue do meu corpo foi para as bochechas, sentindo elas esquentarem.
Sua mão que segurava meus pulsos, os libertou e, instintivamente, envolvi os braços em torno de seu pescoço Meu Kami, ele vai me beijar! E eu não sei como vou reagir!
Podia sentir os nossos lábios se encostando, contudo, o elevador fez “plim” e se abriu, abri um dos olhos para ver quem estava saindo, me deparando com Takeru-kun e Patamon me olhando de forma assustada, como se tivessem visto um fantasma. Tratei de fechar o olho novamente, só desejando que um buraco se abrisse aqui e agora, para me enfiar dentro e nunca mais sair.
E eu fiquei esperando pelo beijo que não saiu, Ken se afastou de mim, soltei um gemido frustrado ao abrir os olhos e me deparar com ele afastado de mim, com as duas mãos no bolso do casaco, rindo descaradamente da minha cara.
— Ah, Inoue, precisava ver a sua cara. Como você me diverte! — Gargalhou debochado, deixando-me furiosa. — Bem, tá na minha hora. Tenha bons sonhos comigo, escrava. — Piscou um dos olhos e saiu andando para fora do prédio, sumindo da minha vista.
Ai que ódio! Que vontade de matar esse desgraçado! Que cara de pau, como teve coragem de fazer isso comigo!
Cerrei os punhos com tanta raiva e fui subir as escadas, do jeito que estava furiosa era o melhor a se fazer, precisava descarregar a minha frustração em alguma coisa, senão iria explodir. Cada degrau que eu pisava, imaginava a cara daquele imbecil, por mais que respirasse fundo, estava louca para gritar, para socar ele.
Levei uns dez minutos até chegar em casa, ainda sim não tinha me acalmado, fiquei ainda mais furiosa ao passar pela sala e escutar as minhas irmãs fazendo piadinhas a respeito da demora para sumir, e para piorar a minha situação, além de estar vermelha, meu vestido estava todo amassado, levando a crer que tínhamos dado um amasso.
Bati a porta do quarto furiosa, trancando para não ser incomodada e me atirei na cama, colocando o travesseiro em minha cara, aí não me segurei, berrei bem alto, colocando para fora tudo o que sentia. Hawkmon, como sinto a sua falta, se você estivesse aqui comigo agora, minha noite com certeza acabaria um pouquinho melhor, você faria de tudo para me acalmar e me ver sorrir.
Por um tempo fiz isso, quando a minha garganta começou a doer parei, me sentindo bem melhor. Retirei o travesseiro do rosto e me levantando da cama, ao me olhar no espelho me assustei com o estado que estava a minha cara, os cabelos desgrenhados e os óculos sujos, cheios de marca. Troquei de roupa, colocando meu pijama, o vestido joguei bem longe, queria rasgar, queimar, me livrar de qualquer lembrança do quão foi desastroso esse jantar.
Me joguei na cama novamente e dessa vez olhei para o criado mudo, me deparando com a caixa que Kaiser havia me entregado, era o meu novo celular. Não deveria abrir aquilo, porém, a minha curiosidade era tanta que acabei cedendo a tentação, me deparando com um dos últimos modelos lançados, pela propaganda, ele tinha muitas funções, daquelas de deixar qualquer um babando. O preço era uma fortuna, meus pais teriam que trabalhar quase um ano inteiro para me dar algo desse valor, quanto será que pagou?! De qualquer forma, vou dar um jeito de devolver esse dinheiro, só preciso voltar a trabalhar na loja novamente.
Liguei o aparelho e esperei inicializar o sistema operacional, me deparando com uma foto minha e de Hawkmon, tirada no início do ano no Mundo Digital. Explorei todos os aplicativos que tinha, nada de muito diferente dos que já usava, só que eram mais modernos e mais ferramentas; abri a parte de músicas, deparando-me com algumas músicas do playlist antigo e outras novas, sendo os últimos lançamentos das minhas bandas preferidas.
Será que existia a possibilidade de alguma foto do meu celular antigo estar salva ali? Kaiser poderia muito bem ter aberto o último backup que fiz e salvado as minhas lembranças ali. Se bem que, ele não seria tão bonzinho assim, só que não custa ter esperanças, né!
Abri o arquivo das fotos, me deparando com mais de duzentas imagens, várias delas continham eu e as minhas irmãs se divertindo, seja num parque aquático, ou no cinema, ou até mesmo em casa, brincando nos jogos de dança; apesar de não me lembrar de nenhuma delas, adorei todas as imagens, ficamos muito lindas nelas!
Passei mais um pouco as fotos, me deparando com uma série de selfies minhas junto com Kaiser, em posições completamente constrangedoras, algumas pareciam fotos promocionais dos doramas, outras como capas de mangás, o que me levou a crer que deveria ser algum filtro da máquina. A medida que fui passando, senti o sangue sumir do meu corpo, tinha de tudo: eu sentada no seu colo, lhe abraçando por trás e, pior de tudo, tinha fotos de nós se beijando no rosto!
Kyaaaaaaaahhhh! Imediatamente larguei aquilo, vontade de tocar na parede e dizer a mesma bobagem que fui obrigada a ouvir: “o celular ficou com depressão e decidiu se suicidar.”; coloquei novamente o travesseiro na cara, e berrei até chegar a exaustão e apagando, cheia de questionamentos, porém, com o principal deles: o que deu em mim, porque fiz tudo isso?!
Fale com o autor