Infinita

1 Capítulo único


Notas iniciais
Espero que gostem!

Ano 2098. Eles começaram devagar, tomando nosso dinheiro através de parques e filmes... Mas quando percebemos haviam tomado tudo, inclusive a nossa liberdade. Meu nome é Lúcia. O meu único objetivo, e o qual toma todos os pensamentos do meu dia, é claro: destruir o Império Disney.

Acordo cedo, alguns minutos antes de o despertador tocar. Levanto e desativo o alarme, caminho até o banheiro e olho para mim mesma no espelho: estou horrível. Eu realmente sinto falta de creme para espinhas e maquiagem que disfarce as olheiras. Não temos mais nada disso, porque apenas os mais ricos têm dinheiro para comprar esse tipo de coisa. Os impostos que o Império cobra da camada social mais podre, não coincidentemente a maioria da população, é abusivo e empobrece-os cada vez mais.
Troco minhas roupas, mijo e lavo o rosto. Caminho em direção ao refeitório da Resistência e sigo para a fila do bandejão. Ovos mexidos, suco de laranja, uma banana e um sanduíche. Pode parecer bastante coisa para um café da manhã, mas durante uma situação como essa você precisa comer cada refeição como se fosse a última. (Porque pode ser que ela seja.) Porém, deixando de lado o risco que corremos, me sinto muito grata por termos essa fartura aqui. Grande parte das pessoas trabalha o dia todo pelo pão que come à noite. É estranho pensar que não era assim antes, havia o suficiente para todos. Preciso me lembrar de passar na cozinha e agradecer aos cozinheiros: eles plantam vegetais e frutas, compram o que precisamos no mercado negro, tendo todo o trabalho da logística, e ainda cozinham. É muita coisa, embora nem sempre demos o devido reconhecimento.
Apesar da Resistência ser sido organizada de maneira muito rápida e até um pouco confusa, no final acabou dando tudo certo e conseguimos resgatar e trazer para cá bastante gente. A ideia toda partiu da minha amiga Júlia e tenho muito orgulho dela pela líder incrível que é. Ela atribuiu à organização o símbolo do infinito, porque, segundo ela, apesar da nossa luta contra a Disney parecer infinita e impossível, ela um dia terminaria e nós seríamos o lado vitorioso; seria a nossa vitória que seria infinita, eterna. Pelo menos essa era a nossa esperança.
Perdendo-me em pensamentos, termino o café da manhã e vou para o centro de treinamento após escovar meus dentes. A manhã inteira treino com Eduardo, que acabou tornando-se meu amigo após algumas desavenças iniciais. Lutamos um com o outro utilizando diversas táticas; tento vencê-lo, mas sempre acabo perdendo de uma forma ou de outra.
“Gata... Ainda não aprendeu que eu sou o melhor?”
“Um dia eu vou ser muito melhor que você e vou te destruir. Falo sério” digo enquanto ele me ajuda a levantar.
“Sonha.”
Meio-dia e estou de volta ao refeitório. Almoço rapidamente e vou à biblioteca. Não tive a oportunidade de fazer uma faculdade, esse foi mais um sonho que a Disney me tirou, o que é bem irônico porque o Walt começou tudo isso lá em 1900 e bolinha para que as pessoas pudessem sonhar acordadas. Ou algo assim. Não posso ficar reclamando muito também, afinal ao menos pude estudar, ser alfabetizada. As crianças de agora não estão mais recebendo educação, apenas os filhos de comandantes de alta patente do exército ou de funcionários do alto escalão do Império. Paro de me lamentar pelo que não aconteceu e me concentro em ler. Deuses americanos? Parece bom, penso. Perco-me nos livros e assim ocupo a minha tarde inteira.
Ao sair da biblioteca, confiro a grade de tarefas. Todo início de semana a Júlia posta a divisão das tarefas, ela provavelmente trocou a grade da semana passada pela dessa semana enquanto eu estava lendo; todos alguma hora têm de tirar o lixo, limpar o refeitório, lavar louça, dar um trato nos banheiros, varrer os corredores... Meu nome não está essa semana, sorte.
À noite, apenas tomo banho, janto no refeitório e vou dormir. Dormimos e acordamos cedo, acompanhando a luz do sol para evitar gastos desnecessários de energia.
Essa tem sido a rotina da maioria dos meus dias pelos últimos três anos.

Acordo no dia seguinte com uma mensagem colada na minha porta. “Esteja no QG depois do almoço.” Observando o desleixo do papel amassado e mal colado, bem como a caligrafia horrível, me faz pensar que só existe uma pessoa que poderia ter tido a pachorra de tamanho descaso... Eduardo. Ele nunca se incomoda com esse tipo de coisa.
Por ser tão bom e de confiança, ele é uma dos braços direitos de Júlia. Por ter criado a Resistência, é ela quem comanda tudo por aqui; são cerca de 1500 pessoas para administrar. Eu poderia auxiliar mais nessas questões, mas preferi desde o início me manter de fora. Sou mais de ação. Planejamento não é meu forte mesmo.
Toda manhã eu treino no centro e toda tarde estudo. Muito raramente minha rotina muda. Para não superlotar o centro, algumas pessoas vão de manhã e outras de tarde; é Eduardo quem organiza os turnos. Fora a obrigação dos membros de treinarem, eles podem se dedicar a outras atividades.
Contudo nem todos são combatentes como eu e Eduardo e precisam treinar. Bastante gente investe seu tempo estudando tecnologia e informática, para auxiliar com essas coisas, chamamo-los tecnólogos. Tem os cozinheiros, que são a base da nossa existência. Os médicos e enfermeiros, que geralmente não possuem muito trabalho com pacientes, pois a maioria chega já morto ao complexo da Resistência, mas estão sempre estudando.

Após almoçar, estou no QG. É aqui que Júlia passa a maior parte de seu tempo, dedicando-se a planejar ações contra o Império. Com ela há o Eduardo; em situações normais Antônio e Jéssica também ficam por aqui. Não sei exatamente o que fazem, nunca perguntei.
“Oi, o que foi dessa vez?”
“Boa tarde pra você também, Lúcia” responde Eduardo. Apenas o ignoro.
“Ju?” pergunto numa tentativa de obter uma resposta rápida. Não estou a fim de perder tempo aqui, quero ir ler.
“Bom, Lúcia, estamos planejando algo mais grandioso do que o normal... E queríamos a sua opinião. Você tá sempre na linha de frente, ao contrário de mim e do Eduardo, talvez tenha uma opinião que nos norteie. Queremos saber se o plano é viável ou não.”
“Certo. Mas por que vocês estão sozinhos aqui? Antônio e Jéssica não deveriam estar aqui também?”
“Queríamos conversar com você antes. O plano está em segredo por enquanto” explicou meu amigo.
Isso é muito estranho, nunca havia acontecido até hoje; eles sempre haviam compartilhado e planejado tudo juntos.
Eles, então, me mostram o plano. É loucura.
“Quero executar” digo com firmeza.
“A questão é: tem como ser executado?” Júlia me olha nos olhos, insegura e nervosa. Eu entendo, é algo que jamais havíamos feito e ela nem tem certeza se acontecerá mesmo.
“Se for por mim, tem como.” O sorriso no meu rosto quando falo é presunçoso.
“Estamos falando sério, Lúcia.” Eduardo parece brabo comigo por ter brincando com a situação.
“Eu também.” E é verdade.
Acertamos alguns detalhes do plano e vemos como será meu treinamento. Não vai ser nada fácil. Vou ter de deixar minhas tardes de lazer na biblioteca para estudar o prédio que é o quartel general do Império Disney.
Tenho até sexta-feira para me preparar e hoje é segunda. É pouco tempo, mas o único jeito de executar o que planejamos é fazendo-o no sábado.

“Não foi dessa vez, Lúcia” se vangloria Eduardo, ofegante. Estamos treinando de maneira muito intensa, mais do que o comum, há três dias e ainda não consigo vencê-lo. Ele estende a mão e me levanto com a sua ajuda. O sorriso em seu rosto é zombeteiro e não posso deixar de sentir uma enorme vontade de socar seu rosto. “Na próxima será” respondo sem muita convicção.
Caminhamos até o refeitório mortos de fome, com sorte terá algo na dispensa para comermos. Geralmente não são permitidos lanchinhos na Resistência, para poupar para as refeições principais e haver comida para todos. Porém eu e Eduardo conversamos bastante com a Ju e a convencemos a permitir alguns lanches na semana que antecede a missão faz alguns meses já. Afinal, você pode não conseguir comer durante a missão ou até morrer... Mas ao menos será de estômago cheio. Acabou virando até uma espécie de tradição mesclada com piada. Um lanche/brinde antes da morte.
É engraçado pensar em como nos preocupávamos com o nosso peso, gordurinhas e aparência no geral; principalmente as mulheres. Faz muito tempo que não me olho no espelho em busca desses defeitos porque eles já não possuem mais relevância. E, não, treinamento para luta, para sobreviver, não garante o corpo “perfeito”. Só um treinamento direcionado para isso. Treino todo dia e meus braços ainda têm a gordura do adeus, tenho pneuzinho, gordura nas coxas. Isso não torna meu corpo menos belo ou diminui meu excelente condicionamento físico.
Chegando à dispensa, pegamos algumas frutas e fizemos sanduíches de atum.
Repentinamente Eduardo tem um ataque de risos. Olho para ele esperando que ele me explique o motivo. Será que estou suja ou algo assim? Após um ou dois minutos ele para de rir. Olha para mim limpando as lágrimas que escorrem pelo seu rosto e diz “Eu lembrei do dia que nos conhecemos”, como se isso justificasse as risadas.
“Tá, e daí?”
“É muito engraçado pensando nisso agora. Eu era muito idiota...”
Rio e concordo. Apesar de não ter motivo para ele rir tanto, foi uma situação engraçada. Bom, Eduardo é exagerado por natureza, se for pra chorar, ele deságua, se for pra rir, é até doer a barriga. Ele só funciona no 80, não tem 8 ou meio termo.
No primeiro dia após a Resistência estar oficialmente fundada, nos vimos no centro de treinamento. Eu estava praticando sozinha até ele se intrometer falando que estava fazendo isso e aquilo errado.
“Bom, eu não pedi sua ajuda.”
“Ah, mas eu posso te ajudar mesmo assim, gata” disse com uma piscadinha.
Incrédula, eu apenas saí de perto. Infelizmente ele me seguiu. Babaca.
“Precisa de um parceiro pra lutar?” questionou enquanto caminhávamos, eu na frente, ele a alguns passos atrás de mim.
“Não, não preciso.”
“Acho que precisa sim. Só eu estou disponível agora.” Olhei ao redor do centro de treinamento e constatei que ele estava certo. Todos já tinham parceiros de luta ou estavam recebendo instruções ou treinando sozinhos nos aparelhos. Merda.
“Não vou treinar mano a mano hoje. Só alongar e aquecer.” Continuei caminhando e ele me seguindo.
“Prefere não treinar a ter que treinar comigo? Assim fico ofendido.”
Talvez ele tivesse razão. Parei de caminhar e me virei para ele.
“Escuta, você é bem idiota, mas vou treinar com você mesmo assim só porque não quero perder nenhum dia de treinamento.”
Dirigi-me até um dos tatames. Fiquei em posição de luta e ele fez o mesmo. Pensei que ele fosse ser uma vitória fácil, contudo estava bem enganada. Foi uma derrota e das bem difíceis. Apanhei que nem desgraçada.
“Você é bem melhor do que eu pensava” admiti a ele.
“Obrigado, gata.” Ele estendeu a mão para me ajudar, mas eu apenas ignorei e levantei sozinha.
Quando estava saindo do tatame, ele perguntou meu nome.
“Lúcia.” Olhei bem nos olhos dele e ele pareceu mais presunçoso do que há um segundo atrás. O odeio por isso. Por que tão arrogante?
“O meu é Eduardo.”
“Ok.” Perguntei por acaso? Que cara chato.
“Lúcia, quer sair comigo?”
Eu rio baixo. “Não.”
Eduardo parece... ofendido? Surpreso talvez. “Por que não?”
“Hum, acho que até poderia listar os mil e um motivos. O primeiro é que sou lésbica. E, mesmo que eu curtisse homens, você é mal educado, se acha demais... Não é um cara legal. Nos conhecemos há vinte minutos e já não gosto de você. Aliás, acho bom mudar essa tática de como chegar em alguém. Você é evasivo e isso é uma bosta. Não vai pegar ninguém assim.”
Eduardo me olhava assustado. Talvez ninguém nunca tivesse lhe dito tais coisas.
“Me desculpa.” Ele pareceu muito sincero ao dizer isso. Saiu andando do tatame em seguida.
No dia seguinte, quando cheguei lá, ele estava treinando sozinho. Foi até mim e perguntou educadamente se eu precisava de parceiro para lutar. Disse-lhe que não. Ele me respondeu com um “tudo bem” e se afastou, o que me deixou positivamente surpresa; parecia que minhas palavras tinham o abalado e ele estava disposto a mudar.
E no próximo dia, ao chegar no centro de treinamento, para a surpresa dele e para a minha, fui até ele e pedi para que treinasse comigo. Lutamos bastante e até mesmo rimos. Com o passar dos dias nos tornamos amigos; conversamos inclusive sobre o comportamento dele e ele admitiu ter errado, disse que já tinha sido babaca várias vezes, porém estava mudando e sendo mais gentil. Eu mesma via a mudança nele, não era mais arrogante como antes.
Apesar de tudo, não me arrependia de tê-lo conhecido nem de ter tornado-me sua amiga. Quando o encarei, sabia que ele estava pensando o mesmo.
“Quem diria que o hétero top padrãozinho queria chance comigo, hein?” Ri alto e ele me acompanhou, mas sem ataque de risos dessa vez.
“Não fica se achando muito não, gata.”
“Sabe, você pode até ter mudado, mas ainda é um boçal. Fica aí me chamando de gata.”
Sua resposta foi apenas um revirar de olhos.

A sexta-feira enfim havia chego e meu cansaço era imenso. Ainda assim, sentia muita energia para executar o plano, uma vontade arrebatadora de fazê-lo dar certo.
Decidi treinar apenas metade da manhã e descansar pelo resto do dia; precisava estar preparada para amanhã. Fui ao centro de treinamento e senti uma sensação extremamente desconfortável, como se aquela fosse ser a última vez que eu veria o lugar. Com um calafrio, afastei os pensamentos. Andei até o tatame, e para minha surpresa, Júlia estava lá. Por um instante, pareceu que ela tivera a mesma sensação que eu e me abraçou forte. Retribui o abraço e após alguns segundos nos afastamos.
“Resolveu finalmente sair daquele escritório?”
“Também senti sua falta, Lu.” E falta da vida de antes, seu olhar parecia completar.
O sentimento voltou a me assombrar. E se eu nunca mais visse meus amigos de novo? Não. O plano daria certo. Teria de dar.
Eduardo e eu iniciamos a série de lutas com Júlia de plateia.

Eu não acreditei quando, na nossa última luta, venci Eduardo. Ele ficou tão incrédulo quanto eu, mas percebi pelo seu sorriso que estava muito feliz por poder ter auxiliado na minha evolução como combatente. Seguindo a tradição dos lanchinhos, nós três pegamos algumas frutas e sanduíches na dispensa do refeitório para comer.
“Deus, como sinto falta de chocolate.” Júlia olhava para a maçã em suas mãos provavelmente imaginando algum doce. “Eu adoro a comida daqui, de verdade, mas queria ter besteira pra comer.”
“Idem” concordei.
“É, mas sei lá, tô bem satisfeito com esses sanduíches no momento.”
“Percebemos, Eduardo, já tá no terceiro” brincou Júlia.
Por alguns segundos, me desliguei da conversa e do presente para relembrar de como nossa amizade começou. Eu e Júlia somos amigas desde que nascemos praticamente, éramos vizinhas e crescemos juntas, frequentamos os mesmos colégios e íamos muitas vezes à casa uma da outra. Éramos e ainda somos diferentes em tantos aspectos, contudo isso nunca nos afetou ou mudou nada entre nós. Apesar de sermos “melhores amigas”, digamos assim, nunca vivemos grudadas justamente por esses gostos diferentes. Ela fazia aula de patinação artística, e era muito boa nisso, e ajudava em abrigos, enquanto eu lutava karatê, e não me dedicava muito, e vagabundeava. Eu ficava bastante em casa e ela gostava muito de sair para caminhar, só andar por aí. Às vezes eu a acompanhava nisso de “bater perna”, mas no geral ela ia com outras pessoas ou sozinha, porque eu tinha muita preguiça...
“Lúcia?”
“Ah, desculpa, Eduardo, não tava ouvindo...”
“Você tá nervosa com a missão?” Júlia pareceu preocupada ao indagar.
“Não.” Sim. “Eu apenas me perdi nos pensamentos.” Isso é verdade.

Para a minha alegria, passei o resto do dia inteiro descansando. Ou tentando descansar, pois minha mente não me permitia um segundo de silêncio. Meus pensamentos estava a mil me deixando cada vez mais e mais nervosa. Tentei ler, conversar com meus amigos, até escrever, algo que eu não fazia há algum tempo, porém nada dava certo. Me concentrar era impossível. Desisti de fazer qualquer coisa e, por fim, fui (tentar) dormir mais cedo que o de costume.

O dia D havia chegado.
Eu estava bastante nervosa.
Por que havia aceitado essa missão? Eu fora tão orgulhosa e precipitada...
Será que dá tempo de voltar atrás?
Não. Você vai seguir firme, Lúcia.
É um pouco bizarro, passei a maior parte da semana tranquila, exceto por alguns momentos na sexta, e agora a ficha havia finalmente caído. Eu ia enfrentar a missão mais difícil da minha vida até então. Eu não estava pronta, mas ninguém nunca está.
Eu precisava me acalmar. Tomei um banho e comi o máximo de café da manhã que consegui, apesar de o meu estômago embrulhado protestar bastante. Todos sabiam da missão e alguns, a maioria desconhecidos, vieram até mim para me cumprimentar e desejar sorte durante o café. E a sensação foi de despedida, bastante desagradável, embora a intenção deles fosse boa.
O prédio do Império Disney fica a duas horas do complexo da Resistência. Pode parecer estranho ter um QG no centro de uma cidade, porém, se parar para pensar, faz sentido: para controlar é preciso estar perto dos controlados.
O evento que acontecerá hoje, e que é a base do nosso plano, começará alguns minutos depois que chegarmos. Enquanto me dirijo ao nosso estacionamento, vou retomando o plano em minha mente, repetidas vezes, de forma que torna-se quase um mantra para mim. Entro no carro que nos levará ao prédio e, após um ou dois minutos de ajustes do motorista, ele dispara garagem afora. Esse automóvel é bem antigo, voa a apenas 150 km/h, mas economiza bastante gasolina e não está registrado. Nossos tecnólogos o alteraram para que projetasse ao redor de si mesmo um holograma, dessa forma ninguém vê uma espelunca com Resistentes e sim um carro normal de família; bem, normal na medida do possível.
A viagem até lá é excruciante e sinto muita ânsia. Não sei se é o nervosismo ou um enjoo natural de viagem. Para minha alegria, quando menos espero, enfim começamos a avistar a cidade. Ela é muita bonita, o que esconde muita pobreza e uma ditadura cruel. Mas é claro que quem vê de fora e não sabe do que se trata aquele ninho de cobras nem imagina o que se passa.
Embora tenha vários carros voando no céu quando chegamos na cidade, a maioria da população não tem carros, não depois do Império os ter confiscado; apenas a algumas famílias e pessoas civis foi permitido permanecer com o carro, dependendo de alguns critérios bem específicos, um deles é, obviamente, apoiar o Império Disney de maneira aberta.
Estamos nos aproximando do QG do Império e agora começa a parte mais difícil: infiltrar-se. Descobrimos um ponto cego nas câmeras que cercam o prédio; é ínfimo, mas o suficiente, já que o sistema de segurança é muito difícil de ser burlado. A maioria dos guardas estaria em postos defendendo o Comandante Matheus, o cabeça do Império Disney, durante seu pronunciamento e haveria menos guardas que o normal protegendo a retaguarda do prédio. Confirmamos que não há sensores nas paredes ou qualquer mecanismo parecido nas janelas ou sacadas, o que é claro que é uma grande burrice. Por outro lado, como eles imaginariam que alguém tentaria atacá-los ou infiltrar-se? A verdade é que o Império não sabe da nossa existência como organização, apenas que existem alguns rebeldes por aí, mas nunca imaginariam algo como a Resistência. Será a primeira vez, em três anos, que daremos as caras oficialmente. Não sei de todos os planos de Júlia, contudo fico tranquila. Sei que ela tem um motivo para trazer tudo à tona.
O plano é escalar o prédio até chegar à sacada do andar posterior ao que o Comandante Matheus, sua família e alguns Subcomandantes encontram-se; entrar pela janela e atravessar o andar de maneira sorrateira até a sacada (é desnecessário que todos os andares possuam grandiosas sacadas, mas ajuda muito na execução do plano); supondo que eu consiga chegar até meu destino, irei fazer um pronunciamento oficial sobre a Resistência a partir do microfone instalado em minhas roupas e o qual os tecnólogos conectaram aos aparelhos de som imperiais (esse sistema não é difícil de burlar, aparentemente); jogar uma bomba não muito potente, só o suficiente para matar todos num alcance de um raio de três metros; atravessar até a janela mais próxima da ala esquerda do prédio, o mesmo lado do ponto fraco, e subir no carro; voar pelos outros carros, camuflando-nos; e, por fim, assim que for seguro, voltar ao complexo da Resistência.
Sabemos que matando alguns deles apenas não os destruiremos de fato, entretanto faremos estrago o suficiente para que outros planos possam ser executados.
Estacionamos o carro a uma quadra do prédio. Com as pernas tremendo, saio do veículo; recebo alguns comentários encorajadores por parte do motorista. Nunca soube seu nome. Deveria perguntar? Não é o momento de se preocupar com isso, digo a mim mesma, embora minha consciência pese.
Caminho calmamente até o prédio, agindo como se estivesse interessada no evento que já deve começar. Quando atravesso a rua, o pronunciamento começa.
Eu havia esquecido de como usar roupas civilizadas era desconfortável; essas calças são apertadas e a blusa pinica um pouco, meu uniforme de treinamento é muito mais confortável. Foco, Lúcia.
Aproximo-me de uma parede e discretamente, quando ninguém está olhando, ativo o holograma que se projeta ao meu redor e me camufla com a parede do prédio. É uma questão de minutos até que a rua esvazie de transeuntes. O Império decretou que todos os que estiverem até a duas quadras de distância de um pronunciamento imperial devem comparecer até a frente do prédio para ouvi-lo, em sinal de respeito. Os demais e quem está em carros devem acompanhar pelos autofalantes, permanecendo onde estão ou continuando em sua rota normal.
Espero até ter absoluta certeza de que não há ninguém por perto ou estão muito ocupados para notar-me. Não desativo o holograma, mas ele não é tão eficiente com seres humanos quanto é com carros e falha eventualmente conforme me movimento e preparo para a difícil escalada. Gostaria que o carro pudesse voar até o andar e me deixar no andar certo, porém chamaria uma atenção desnecessária e não requerida. Os sugadores, como os chamamos, fazem uma sucção muito grande contra as mais diferentes superfícies, de modo que a pressão permite que não se caia durante alguma escalada. Usar corda de escalada seria bem útil e mais seguro não fosse o fato de que não haveria como disfarçá-la, ou seja, todos aos arredores veriam um holograma ambulante escalando a corda.
Apesar dos sugares prenderem minhas mãos e pés de um jeito “comprovadamente seguro”, continuo tremendo e fazendo a escalada de modo que acabe o mais rápido possível. Conto os andares: 3, 5, 7, 10, 11, 12... Com um alívio profundo chego ao décimo terceiro andar.
Pelo canto do olho vejo pela janela a meu lado que não há ninguém na sala. Desligo a camuflagem, seria inútil agora, falharia demasiado. Zero o nível de sucção do sugador que está na minha mão esquerda; pego o mini laser que está disfarçado de pingente de colar. Corto o vidro da janela delicadamente de um tamanho que eu consiga passar tranquilamente. Ligo o sugador da mão esquerda a uma potência intermediária e pego o vidro e retiro-o. Com muita calma, apoio o pedaço de janela que cortei no chão de dentro do prédio recostando-o à parede. Quero evitar fazer barulho.
Apoio meu pé esquerdo na patente da janela e posiciono meu corpo para mais perto; escorrego primeiro minha perna janela adentro e depois meu corpo inteiro. Desligo totalmente os sugadores. Estou dentro do prédio.
Olho por um segundo para o vidro recostado, o qual tive muito cuidado para não tocar enquanto entrava pela janela. Resolvo movê-lo para longe dali, pois posso me bater nele ao sair; coloco-o em cima de uma das mesas da sala, que parece uma espécie de escritório.
Vou até a porta e não escuto nenhum som vindo do lado de fora, então abro a porta. Vejo que a sacada está há apenas alguns metros, talvez dez, de ontem estou e todas as portas no caminho estão trancadas. Silenciosamente, mas o mais rápido que consigo, atravesso o corredor até a sacada do décimo terceiro andar.
Eu estava tremendo. Eu ia mesmo fazer isso. O pânico tomou conta de mim por alguns segundos. Entretanto já havia chegado muito longe. Preciso terminar o que comecei.
De dentro da mangas bufante do braço direito da minha blusa, tirei a bomba. Ela era tão pequena e parecia inofensiva.
Minhas mãos agarravam-se à bomba com tanta força que meus dedos estavam brancos.
Em um lapso de consciência, tudo ficou mais claro para mim. Comecei a ver as coisas de um jeito diferente do que estava vendo até o momento e encarei, então, aquela missão de outra maneira.
Percebi que não poderia simplesmente jogar aquela bomba ali, eles dariam um jeito de desarmar ou qualquer coisa assim. Só tinha um meio de fazer isso dar certo. Inspirei fundo, buscando fôlego e coragem para o que faria a seguir.
Da sacada onde estava gritei pelo microfone para que todos pudessem ouvir “EU VOU CAIR, DISNEY, MAS VOCÊ CAIRÁ JUNTO. DIGO EM NOME DE TODA A RESISTÊNCIA: MORTE AO IMPÉRIO.” Pulei da sacada e ativei a bomba.
Lágrimas repentinas escorreram pelos meus olhos, de tristeza e de felicidade. Vi tudo ocorrer lentamente através do choro, o olhar de desespero dos comandantes, das suas esposas, reduzidas a isso nessa sociedade, nos seus filhos... Senti culpa, muita. Muitos inocentes morreriam, mas esse é o preço da liberdade. Estava triste por não poder viver mais, realizar meus sonhos... Porém feliz por ter cumprido o que eu acreditava que era meu objetivo de vida.
Eu estava tão próxima deles, podia ver o desespero do olhar daqueles que eu estava prestes a matar.
Só então entendi o real significado do símbolo infinito da Resistência. A esperança seria, para sempre, a última morrer. Ela seria infinita. Nós não, todos nós morreríamos.
Apesar disso, eu senti: naquele momento eu era tão infinita quanto a esperança e esperava que o sentimento durasse a eternidade.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!